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terça-feira, 9 de junho de 2020

A Saga Crepúsculo

Crepúsculo
Em algum momento da década 2000 os estúdios promoveram uma corrida para se tentar emplacar uma série nos moldes de “Harry Potter” –da mesma maneira que hoje os estúdios tentam repetir o feito do Universo Marvel Cinematográfico –em parte, consequência do surgimento de inúmeras séries, drasticamente oscilantes em qualidade, vindas da literatura que, capitaneadas pelo bruxinho criado por J.K. Rowling, deram origem à categoria conhecida como “young adults”.
Dentre essas séries logo destacou-se a saga romântica escrita por Stephenie Meyers, “Crepúsculo”, uma das primeiras a tentar seguir os passos de “Harry Potter” no cinema.
Entretanto, se “Harry Potter” fascinava pela qualidade insuspeita de seu texto e, depois, pelos valores legítimos de suas adaptações, “Crepúsculo” se tornou conhecido por razões um tanto... tortas.
Uma mescla peculiar de romance, intriga adolescente e revisão da mitologia dos vampiros, “Crepúsculo”, ainda na literatura já dividia opiniões: Uns identificavam no estilo pouco original de Meyers a inclinação de pretensões mercadológicas de sua escolha, além de uma série de elementos pontuais de gosto muito duvidoso (como veremos mais a frente). Outros, porém (em geral, um fã-clube ferrenho de adoradoras brutais que a série ganhou no mundo todo), só tinham olhos para os personagens protagonistas e sua história de amor deslavada com alto investimento nos aspectos mais rebuscados do romantismo –e esse aspecto também, com o tempo, passou a ser imitado.
Para conduzir a adaptação do primeiro livro, “Crepúsculo”, os executivos da produtora Summit Enterteinment recrutaram Catherine Hardwicke, que havia chamado atenção da crítica e do público dirigindo o drama juvenil “Aos Treze”, após uma carreira como designer de produção de filmes como “Vanilla Sky”.
O raciocínio tinha lá seu sentido: Uma diretora aparentemente capaz, de profundo conhecimento estético e autora de um louvável trabalho ao capturar nuances de uma idade em transformação como a adolescência –um mote poderosamente presente na obra de Meyers.
Contudo, ao assistirmos “Crepúsculo” a impressão que temos é de que a direção de Hardwicke mais plantou os elementos que determinaram a perene controvérsia qualitativa da saga e menos soube inicia-la com a necessária excelência.
Bella é uma garota tímida e deslocada (e é com essas características, empregadas sem restrição, que Kristen Stewart a interpreta). De Phoenix, nos EUA, onde morava com a mãe (Sarah Clarke, da série “24 Horas”), ela muda-se para o Canadá, na nublada e chuvosa Forks onde passa a viver na casa do pai (Billy Burke).
Segue-se o período habitual de adaptação à nova escola, onde Bella identifica os altamente populares Cullen, entre os quais o notoriamente charmoso Edward (Robert Pattinson, vindo diretamente de sua participação em “Harry Potter e O Cálice de Fogo”, no papel que o tornou um astro para o bem e para o mal).
Ela também faz amizade com Jacob (Taylor Lautner), um dos rapazes indígenas moradores da reserva –e que, por conta disso, não pode acompanhar Bella na escola.
Pouco a pouco, Bella vai descobrindo, contudo, que Edward e toda sua família são, na realidade, vampiros (!). Mas, não vampiros como o cinema e a literatura, entre tantos títulos honoráveis, nos levaram a conhecer: Primeiramente, eles não atacam seres humanos, vivendo em vez disso de uma dieta de sangue de animais; algo como um vegano entre os humanos (e talvez isso explique a cara de vento que Edward ostenta todo o tempo, passivo diante de presas que seu instinto selvagem ordena atacar). Eles também não são vampiros que queimam na luz do sol, mas, em vez disso revelam a pele brilhante e cintilante (numa manobra que fez a série virar chacota no mundo todo); daí a escolha deles morarem em Forks onde o sol quase nunca aparece no tempo coberto.
O apelo do filme –e de toda a saga –vem a ser o fato de Edward apaixonar-se por Bella: Mais do que um vampiro apaixonar-se por uma mortal, a fantasia romântica que capturou a imaginação de plateias femininas do mundo todo, mostra uma variação de príncipe encantado, dotado de poderes (Edward é comparado com super-heróis por Bella em dado momento), de popularidade e de evidente sex-appeal, um ser lendário, caindo de amores por uma jovem absolutamente comum e que, justamente por sua insistente normalidade ganha plena identificação do público.
Lua Nova
Na aguardada sequência, agora dirigida por Chris Weitz (de “Um Grande Garoto” e “A Bússola de Ouro”) os rumos dramáticos levam a um inesperado rompimento de Bella e Edward –ele chega à conclusão de que sua proximidade pode fazer mal a ela, algo que Edward não consegue tolerar.
Longe de seu amado, e desesperada por conta disso –faceta da personagem que irritou muitos detratores na época pela forma com que foi mostrada –Bella se arrisca em várias situações perigosas ao perceber que, nesses momentos, uma espécie de imagem fantasmagórica de Edward surge para adverti-la.
No entanto, o solícito amigo Jacob aparece para confortá-la, e eis que ele tem também seus segredos: Jacob é um lobisomem, ou um transmorfo que assume a forma de um lobo gigantesco, tal e qual todo o restante de sua tribo a partir de determinada idade.
Aqui se constrói então o triângulo amoroso que definirá muito da saga até seu quase final –Bella (na qual muitos não enxergam tanto atrativo assim) dividida entre duas criaturas emblemáticas do gênero horror por ela apaixonadas; Edward, o vampiro, e Jacob, o lobisomem. Na realidade, triângulo amoroso é um termo talvez até desonesto para se referir à circunstância morna da trama. Nunca existem dúvidas de que, por livre iniciativa da protagonista, ela deixaria de escolher Edward, o que relega Jacob a um injusto posto de coadjuvante fadado à derrota –não fossem alguns momentos verdadeiramente inspirados em que seu intérprete, Taylor Lautner, consegue sobrepujar em cena o insosso Robert Pattinson.
Apesar dos pesares, “Lua Nova”, no frigir dos ovos, é provavelmente o mais bem dirigido dentre os capítulos da “Saga Crepúsculo”: É nele que está alguns dos momentos considerados os mais pertinentes de toda a saga, ou nele estão sugeridos com mais propriedade os tópicos que iráo norteá-la até o final.
E tem o mérito de possuir ao menos uma cena bastante bem feita e memorável: Bella, em sua desolação, está em seu quarto de coração partido vendo o tempo passar, e sem tirá-la de foco, a câmera executa várias vezes um movimento em 360° ao seu redor enquanto a paisagem de fora de suas janelas vai mostrando a gradativa passagem dos meses e das estações climáticas.
Eclipse
Para dirigir a terceira parte da saga, então já polarizada entre seus fãs (ou seria melhor dizer, SUAS fãs) que enalteciam a série e idolatravam seus intérpretes e todo o resto do mundo que simplesmente não tinha paciência para o resultado afetado, medíocre e esquisito que era obtido filme a filme, foi incumbido o diretor David Slade que em “30 Dias de Noite” havia feito um brilhante trabalho ao lidar com essa outra mitologia de vampiros –e, por conta disso, imaginava-se a possibilidade de “Eclipse” trazer uma reviravolta qualitativa à série, elevando-a num nível maior e melhor de cinematografia, talvez refletindo o que Alfonso Cuarón havia feito em “Harry Potter e O Prisioneiro de Azkaban”, também a terceira parte daquela saga.
A grande surpresa foi que não.
O material simplesmente não saiu do lugar em termos de validez cinematográfica.
Jurada de morte, Bella agora precisa ser protegida pelos membros da Família Cullen, pelos lobisomens liderados por Jacob e por outros vampiros que marcarão presença.
O motivo: Um grupo de vampiros, capitaneados por Victoria (vivida por Rachelle Lefevre anteriormente, aqui substituída por Bryce Dallas Howard), desejosa de vingança desde que o romance entre Bella e Edward acarretou a morte de seu amado James (Cam Gigandet, de “Quebrando Regras”) lá atrás no finalzinho de “Crepúsculo”, está seguindo na direção de Forks para promover um massacre.
Amanhecer-Parte Um
Quando “Amanhecer”, o último livro, foi escrito, a autora Stephenie Meyers já convivia com o curioso fenômeno que veio a se tornar a saga em sua versão cinematográfica. É interessante notar como os excessos e esquisitices decorridos na adaptação para cinema terminaram influenciando elementos no capítulo final que, para variar, seguiu os passos de “Harry Potter e As Relíquias da Morte” e também dividiu o último livro em dois filmes, atitude também tomada pelo posterior, e mais acertado, “Jogos Vorazes”.
Na hora de escolher o novo e derradeiro diretor para os dois capítulos finais, os produtores ainda tentando rechaçar os detratores que jamais deram desconto para a saga optaram pelo conceituado Bill Condon, que dirigiu-se os elogiados “Deuses e Monstros”, “Kinsey-Vamos Falar de Sexo” e “Dreamgirls-Em Busca de Um Sonho”.
Como seus antecessores, Bill Condon faz o que pode para emprestar alguma dignidade ao material, mas sua tarefa é dura: Na trama que se ocupa da primeira metade do último livro, Bella e Edward se casam e vão passar sua lua-de-mel em Paraty, no Brasil –isso mesmo, não bastasse a propaganda onipresente em todas as cópias do DVD lançado por sua distribuidora em terras nacionais, a Paris Filmes, a tal pousada de Paraty conseguiu aparecer no próprio filme!
É ali que, na tentativa louvável de tentar conferir alguma relevância visual numa das sacadas mais bizarras e radicais do livro, Bella engravida de Edward (!), e o embrião, um misto de humano e vampiro, a está consumindo por dentro (!!), o que exige que Edward transforme Bella numa vampira de uma vez por todas, antes que morra –coisa que ela pede praticamente desde o primeiro filme!
Amanhecer-Parte Dois
Durante o final todo floreado –mas, certamente previsível –da “Parte 1”, Bella se transformou em vampira, se descobrindo toda poderosa nessa nova condição; o que, inclusive, rende uma cena bastante calhorda da parte da personagem em relação à Jacob ainda no começo...
Ela e Edward tiveram uma filha, Renesmee, que cresce rapidamente (em poucos meses, é quase uma pré-adolescente), e é interpretada, na breve fase bebê por uma versão digital que forneceu ainda mais munição aos críticos detratores da saga, e na fase um pouco maior por Mackenzie Foy (de “Interestelar”). O problema é que Renesmee é considerada um ser anti-natural, nem humano, nem vampiro, que aos olhos do poderoso Clã Volturi –a casta dominante de vampiros que apareceu em “Lua Nova”, liderados por Aro (Michael Sheen) –não deveria existir. E por isso, eles conduzem um verdadeiro exército de vampiros que atacará Forks a fim de capturar Renesmee.
Essa alardeada batalha final reúne os vampiros do lado de Bella e Edward e os lobisomens do lado de Jacob –e praticamente, todos os personagens da saga –numa sequência-clímax que, sob justificativas de se fazer surpreendente, sofre uma terrível negligência da parte de seus realizadores ao ser banalizada por uma estranha reviravolta.
A “Saga Crepúsculo” assim se encerra tão polêmica quanto começou, incapaz de ostentar qualidades que harmonizem as opiniões daqueles que a odeiam de forma intolerante e aqueles que a adoram de maneira embriagada –curioso é notar que, na predileção por romances de natureza ligeiramente distorcida que revelou do público, “Crepúsculo” tenha antecedido, seja na literatura, seja no cinema, o fênomeno erótico “Cinquenta Tons de Cinza” –cujos protagonistas foram, declaradamente inspirados em Bella e Edward –afinal de contas, as adolescentes que foram obcecadas pela saga de Stephenie Meyers, passados uns anos, já tinham idade para assistir histórias de amor bem mais picantes.

segunda-feira, 6 de abril de 2020

Dolittle

Um personagem de uma série de quatorze livros infanto-juvenis escritos por Hugh Lofting muito famoso nos EUA, mas bem pouco conhecido aqui no Brasil foi o escolhido pelo astro Robert Downey Jr. para tentar dar continuidade à sua bem-sucedida carreira depois que ela ressurgiu das cinzas quando ele interpretou Tony Stark em “Homem de Ferro”, no Universo Marvel Cinematográfico, papel do qual ele se ocupou na última década (com poucos e ocasionais projetos distintos como “Sherlock Holmes”, “Trovão Tropical”, “Um Parto de Viagem” e “O Juiz”) e do qual ele se despediu em “Vingadores-Ultimato”.
O mesmo personagem já havia rendido um musical irregular (ainda que indicado ao Oscar!) em 1968, estrelado por Rex Harrison e dirigido por Richard Fleischer, e, em sua encarnação mais famosa, uma comédia de grande sucesso popular com Eddie Murphy.
Esta nova produção, dirigida por Stephen Gaghan (roteirista de “Traffic” e diretor de “Syriana”, uma escolha um tanto estranha para um filme de apelo quase infantil) baseia-se com mais contundência em elementos dos livros (sobretudo, o segundo “The Voyages of Dr. Dolittle”), valendo-se de admiráveis valores de produção para concretizar sequências que passavam longe nos planos da simplicidade singela das adaptações anteriores.
Assim, “Dolittle” começa numa animação estilizada que relata as origens de seu protagonista: Um médico inglês que ao lado de seu grande amor, Lilly (Kasia Smutniak), viajou por todo o mundo aprendendo as línguas de todos os animais, com os quais passou a ser capaz de se comunicar. Como nos é informado, uma tragédia –a morte da amada ocorrida justamente na única viagem na qual não a acompanhou –o torna alguém recluso, muito falado, mas bem pouco visto.
O filme se inicia de fato quando o jovem Tommy Stubbins (o fraquinho Harry Collett) resolve procurá-lo em sua propriedade (na qual somente os animais estão autorizados a adentrar) para que cure um esquilo ferido. Junto com Tommy, aparece também a bela e jovem Lady Rose (a estreante Carmel Laniado) que apesar da pouca idade chega representando a Família Real da Inglaterra: A Rainha Victoria (Jessie Buckley, da série “Chernobyl”) se encontra doente e antes que seu estado a leve para sempre (permitindo que abutres interesseiros como o personagem vivido por Jim Broadbent assumam a coroa), ela deseja recorrer aos inusitados conhecimentos do Dr. Dolittle para tentar curá-la.
Robert Downey Jr. compõe John Dolittle com a propriedade que lhe é característica: Nada nele lembra trejeitos ou cacoetes de Stark ou quaisquer um de seus personagens anteriores. É um trabalho metódico de um ator dedicado e talentoso.
E, munido de efeitos visuais que transformam a fauna inquieta de diversos animais coadjuvantes num show à parte, o flme transforma as cenas iniciais de interação entre Dolittle e os bichos em um deleite –com destaque para a sequência que ele e seus ‘assistentes’ conseguem fazer um diagnóstico da condição da Rainha Victoria.
É quando “Dolittle” começa então a apresentar suas tremendas fraquezas –um tanto quanto cedo demais... –o bom médico chega à conclusão de que a única cura para a Rainha Victoria é a seiva da ‘Árvore do Édem’ –mesma iguaria que sua amada Lilly morreu tentando encontrar!
Assim, acompanhado de Tommy, que agora deseja ser seu aprendiz, o Dr. Dolittle empreende uma claudicante aventura rumo à terras desconhecidas –que passa pelo reino do ex-sogro, um monarca beligerante vivido por Antonio Banderas –seguido de perto pelos emissários dos conspiradores, liderados pelo médico perverso e apalermado interpretado por Michael Sheen (que até lembra do Dick Vigarista!).
Se muitos dos personagens humanos soam absolutamente rasos e a trama tem inúmeras passagens indefinidas, isso se deve em grande parte pela pouca familiaridade do diretor Gaghan com esse tipo de gênero (o que nos faz perguntar o tempo todo porque ele foi escolhido para o projeto!): Essa inadequação foi detectada pelos produtores em algum momento da produção e o diretor Jonathan Liebesman (de “Tartarugas Ninja”) foi chamado para rodar cenas adicionais e dar mais leveza e coesão ao material. O resultado foi uma narração em off da arara dublada por Emma Thompson (!) que preenche muitas lacunas da trama de forma incômoda e ginasiana e uma irregularidade de estilo, ritmo e lógica que sabota sistematicamente todo o filme, culminando no prato principal do mau gosto, seu clímax, onde os realizadores julgaram ser uma boa ideia mostrar uma cena de humor grosseiro (e, no fim, nada engraçado) em torno de um dragão com prisão de ventre (!!).
Da forma como ficou, para cada acerto, “Dolittle” apresenta um lapso: Seu protagonista conta com um astro empenhado e hábil, mas seu co-protagonista (os olhos da plateia, assim sendo), é vivido por um jovem ator mais perdido que cego em tiroteio; seus efeitos visuais criam animais com uma  fascinante fluidez em cena (e que conta com um elenco estelar de vozes, como Tom Holland, Octavia Spencer, Rami Malek, John Cena, Marion Cottilard, Selena Gomez e Ralph Fiennes), mas seu elenco humano coadjuvante, em compensação, está tão lastimável quanto caricato (com a louvável exceção de Antonio Banderas); e, se o filme conta com a beleza visual proporcionada pela fotografia de Guillermo Navarro, todas as cenas com ela concebidas são entremeadas numa narrativa problemática, a qual o expectador acompanha sem maiores envolvimentos.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

Kill The Messenger

Um grande filme investigativo agraciado com uma belíssima interpretação de Jeremy Renner, este “Kill The Messenger” –genericamente traduzido como “O Mensageiro” em português –une as orientações cinematográficas que definem grandes obras do sub-gênero como o clássico “Todos Os Homens do Presidente” e o premiado “Spotlight-Segredos Revelados” a um senso de denúncia que por vezes acaba rondando circunstâncias bem reais, mas que por seu teor mirabolante e absurdo soam inacreditáveis. Nesse sentido, o trabalho do diretor Michael Cuesta se aproxima da comédia de aventura “Feito Na América”, com Tom Cruise, todavia, se aquele era um trabalho que descontraía o expectador fazendo-o divertir-se com as guinadas tortuosas de sua premissa, também baseada num fato real, aqui, a condução metódica e austera de Cuesta impõe uma densa e adulta seriedade.
Está em pauta a lógica jornalística que foi torcida diante das circunstâncias.
Jeremy Renner vive Gary Webb, repórter do jornal regional San Jose Mercury News. Na busca por uma história bombástica e na proximidade intuitiva com alguns traficantes, ele acaba conhecendo Coral Baca (a absolutamente deliciosa Paz Vega), esposa de um traficante condenado disposta a entregar a Webb um documento que veio parar por acidente em suas mãos: Um protocolo rasurado e confidencial sobre Danilo Blandon (Yul Vazquez), um agente da CIA –talvez, um informante, talvez, um infiltrado –que tinha conexões com traficantes em todo solo americano.
Até aí nada demais. Contudo, ao aprofundar suas investigações, Webb descobre que Danilo Blandon, na qualidade de agente duplo a serviço da CIA, era mais que um mero espião entre os traficantes: Ele era um dos maiores e mais expressivos fornecedores de drogas dos EUA!
Tudo leva à constatação, mais tarde corroborada por outras fontes de Webb, de que o governo dos EUA contribuiu para a circulação de drogas ilegais em certos guetos americanos desde que o dinheiro ilicitamente obtido por esse tráfico financiasse uma guerrilha destinada a provocar uma revolução na Nicarágua, ditando os rumos políticos daquele país.
Sem intimidar-se com as advertências que as fontes encontradas lhe dão (ao mesmo tempo que confirmam, extraoficialmente toda essa verdade), Webb segue em frente e escreve uma matéria que coloca o pequeno San Jose Mercury News no radar de gigantes da mídia jornalística como o Washington Post e outros.
Contudo, os grandes jornais –e, portanto, os jornalistas profissionais neles inseridos –têm ligações com a CIA e, por conta delas, sua postura é defensiva para com os orgãos do governo: Na sequência às revelações, eles procuram invalidar a descoberta de Webb e, aos poucos, em função das próprias convicções, passam a atacá-lo e desacreditá-lo.
A pressão é tamanha que se estende até os profissionais que trabalhavam com Webb, sua editora Anna Simmons (Mary Elizabeth Winstead) e o dono do jornal Jerry Ceppos (Oliver Platt); ambos intimidados e pressionados pela postura antagônica dos veículos de mídia maiores acabam por negligenciar o empenho de Webb em perseguir a verdade, afastando-o da execução do jornalismo.
Esta é, pois, uma trama sobre um “Davi contra Golias” onde os desdobramentos não obedecem sobremaneira as expectativas do público, tão acostumado a ver a verdade prevalecer, sobretudo, em âmbitos americanos nos quais essa máxima é tão defendida.
Mais do que expor uma verdade desconcertante acerca de atividades obscuras e duvidosas do governo americano, o filme coloca o íntegro e transparente Gary Webb na angustiante posição de um mártir terminando por apontar os lapsos morais quando outros profissionais da área do jornalismo priorizam fatores secundários (e de interesse pessoal) em detrimento da verdade.

sexta-feira, 22 de junho de 2018

Cruzada


Embora seja encarado, na opulenta filmografia do diretor Ridley Scott, como uma obra menor, o épico “Cruzada” é um belo exemplo das amplas capacidades dele como realizador; é, também, um exemplo de como se construir um épico de maneira satisfatória: Sua narrativa é tensa, intensa, romântica, grandiosa, lírica e violenta. E razoavelmente pontuada por referências históricas pertinentes.
Seguindo o mesmo procedimento criativo adotado por ele e por seus roteiristas ao criar “Gladiador”, Scott se detêm sobre um momento notável da História Antiga –neste caso, a transição entre a segunda e a terceira Cruzada de Jerusalém –criando um roteiro hábil em pairar sobre os eventos fundamentais daquele momento, centralizando tudo isso em torno de um protagonista fictício –talvez, o único personagem que não é real na trama.
Esse personagem vem a ser Ballian de Ibelin (papel que Orlando Bloom agarra com unhas e dentes a fim de se livrar da imagem de Legolas em “O Senhor dos Anéis”), viúvo e renegado ferreiro francês na aldeia em que vive devido ao suicídio da esposa.
Ballian junta-se ao grupo de cavaleiros templários de seu recém-conhecido pai (Liam Neeson) que o conduz até Jerusalém, então um pólo de interesses religiosos e intrigas palacianas por conta da tomada dos árabes, o que pode ser breve, pois Saladino (o ótimo Ghassan Massoud), o líder militar dos muçulmanos espia a frágil trégua mantida a duras penas pelo leproso rei de Israel (Edward Norton, irreconhecível atrás de bandagens e maquiagem).
O possível sucessor do rei, Guy de Lousigniam (Marton Csokas), é um homem selvagem e hostil que anseia por uma guerra contra os muçulmanos. É essa oportunidade que Saladino espera para arremessar suas tropas sobre a cidade e retomar Jerusalém. Nessa cruzada, o papel de Ballian poderá ser fundamental.
Ainda que ocupe um ingrato lugar intermediário e transitório na filmografia de Ridley Scott (não atinge o auge qualitativo e artístico que ele demonstrou, em mais que uma vez, que é plenamente capaz de alcançar; mas, está longe de ser uma de suas obras inferiores), “Cruzada” é um épico belíssimo com magníficas e bem realizadas cenas de batalha, além de um notável e variado elenco; acima de tudo, uma demonstração da técnica sólida e admirável de um especialista no gênero.

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

A Rainha

Há um certo espaçamento temporal através do qual o cinema (ou mais precisamente seus realizadores) adquire autonomia emocional (e, por que não, moral) para lidar com determinados acontecimentos históricos e melhor vislumbrar os desdobramentos que os anteciparam e os sucederam. Aconteceu, por exemplo, com o 11 de Setembro, cujas primeiras obras cinematográficas a abordá-lo surgiram em 2006, com “Vôo United 93”, de Paul Greenglass, e “As Torres Gêmeas”, de Oliver Stone.
No mesmo ano, foi lançado também um filme que fazia uma espécie de expiação da parte do cinema britânico acerca da morte da Princesa Diana, ocorrida num acidente em 1997.
Abstendo-se a abordar os detalhes do acidente em si (isso a mídia fez bastante) ou do período turbulento que a vida de Diana passava na época (isso, por sua vez, quem fez foi a irregular produção “Diana”, de 2014, estrelada por Naomi Watts), o filme dirigido com economia emocional até excessiva por Stephen Frears observa as conseqüências mais íntimas acarretadas pela tragédia no seio da família real, e na maneira curiosa com que a sociedade inglesa reagiu à morte da “princesa do povo” e ao aparente descaso com que tentaram tratar o fato.
O roteiro árido e objetivo de Peter Morgan opta como ponto de partida, a Rainha Elizabeth e o início de sua conflituosa relação com o Primeiro Ministro eleito Tony Blair.
Será o próprio Tony Blair quem precisará, um pouco mais tarde, apelar de certa forma ao bom senso da monarca quando começar a ficar óbvia a indignação popular crescente, em meio à comoção mundial causada pela morte da Princesa Diana num acidente automobilístico, relacionada à tentativa da família real em não expressar qualquer manifestação de pesar. O quê, ele percebe, leva o povo inglês à uma inédita tentativa de questionar a própria monarquia.
O trabalho de Frears, assim, lança um sutil olhar sobre as delicadas questões familiares que pesaram naquele momento, justapostas à uma diferenciada reação coletiva. A monarquia vista de dentro em uma perspectiva familiar de sua obrigação para com os anseios (ainda que existenciais) de seu povo.
Vencedora do Oscar de Melhor Atriz, Helen Mirren, como Elizabeth, paira pelo filme com sua magnífica presença muito bem coadjuvada pelo excelente Michael Sheen (no papel de Tony Blair). O filme só encontra certo problema no estilo excessivamente britânico, comedido e distanciado, com que o diretor Stephen Frears aborda o tema, levando este trabalho no que parece ser uma deliberada isenção de empatia.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Passageiros

A carreira de Jennifer Lawrence nesta sua quase primeira década desde que se consolidou como inquestionável estrela de Hollywood esteve sempre em uma zona de conforto.
Explica-se: Desde sua, digamos, revelação quando foi indicada pela primeira vez ao Oscar de Melhor Atriz por “Inverno da Alma” em 2011, ela basicamente oscilava, sempre com sucesso espetacular de público e crítica, entre três diferentes projetos: No primeiro, ela era a heroína Katniss Everden da saga “Jogos Vorazes” –um dos principais responsáveis por seu estrelato –que durou nada menos do que quatro filmes; no segundo, ela era a coadjuvante Mística (mas, ocasionalmente alçada à circunstância de protagonista, como os últimos filmes atestam) da saga “X-Men” desde sua reformulação em “Primeira Classe” –até então eles contam três filmes –já, no terceiro caso, ela intercalou esses dois trabalhos com a frutífera (e premiada) colaboração com o diretor David O’ Russel, de onde saíram, até aqui, as produções “O Lado Bom da Vida” (seu primeiro Oscar), “Trapaça” e “Joy-O Nome do Sucesso” (por ambos ela conquistou indicações).
A carreira de Jennifer, portanto, não era pautada por escolhas sistematicamente bem feitas e surpreendentes, como ocorre, por exemplo, com Jessica Chastain. Agora que “Jogos Vorazes” terminou e seu contrato com “X-Men” não deve ser renovado, restando a ela os filmes com O’ Russel, é que teremos alguma idéia do quão apurado é o faro de Jennifer para escolher projetos e administrar a própria carreira: O único filme que ela fez fora desse sistema, o mediano “Serena”, mostrou-se frustrante.
E agora temos este “Passageiros”.
Uma ficção científica bonita e vistosa, claramente uma produção onde os estúdios da Sony não pouparam despesas (além de Jennifer, chamaram também o promissor Chris Pratt, de “Guardiões da Galáxia” e o diretor indicado ao Oscar por “Jogo da Imitação”, o sueco Morten Tyldun), este é um daqueles blockbusters bastante típicos, onde todas as escolhas visam sucesso de bilheteria, mas voltado para uma platéia menos adolescente e mais seletiva, como se pode notar pela elegante direção de arte e a condução sempre requintada do diretor.
Daí as pertinentes intenções dramáticas que se revelam na história de Jim (Pratt, revelando aqui uma inclinação maior para o drama), um ser humano comum, dentre milhares a hibernar em uma nave espacial cujo destino é uma colônia interestelar na qual chegará em 120 anos. Por um erro técnico e uma casualidade do destino, a cápsula de Jim inicia os procedimentos de despertá-lo com 30 anos após a partida. Ou seja: Ele tem 90 anos para perambular sozinho na gigantesca nave, até envelhecer e morrer antes de chegar ao seu destino.
Durante um ano, ele suporta as variações radicais da solidão –angústia, resignação, euforia, inquietude, desilusão, desespero –até que uma idéia súbita dá lugar a um sentimento novo: Empolgação.
E se ele acordasse outro passageiro?
E a escolha de Jim mostra que ele não é nada bobo –trata-se da linda escritora Aurora (Jennifer, numa personagem que leva, para fins de referência, o mesmo nome da “Bela Adormecida”). Após um breve tempo, no qual ele se martiriza pelo fato de estar colocando outro ser humano na mesma enrascada que ele, Jim a desperta, e aí o filme começa pouco a pouco a mostrar traços do romance espacial que deseja ser.
Há uma série de razões que levam essa primeira metade (que vai do perplexo despertar de Jim, passando pelo despertar de Aurora e culminando na construção da relação entre eles) a ser consideravelmente melhor do que a segunda, quando o roteiro arbitrariamente cria um perigo iminente que sozinho trata de amarrar de maneira pouco verossímil todas as pontas anteriormente soltas: Resolve os conflitos entre o casal protagonista, dá uma explicação relativamente plausível para o que lhes ocorreu, cria uma situação cheia de adrenalina proporcionando o intenso clímax e ainda dá um respiro na presença predominante de Jennifer e Pratt introduzindo por algum tempo um novo personagem na trama (Laurence Fishburne, que merecia papéis muito melhores do que este daqui) –se bem que, há também a participação algo alívio cômico de Michael Sheen como um andróide.
Mas, tudo isso são só considerações, os fãs de Jennifer Lawrence vão ficar satisfeitos com sua interpretação (que é muito boa, sim, e ela arrisca as cenas mais sensuais de sua carreira até então), seu carisma se provando autêntico numa produção refinada e cheia de classe, assim como também é satisfatória a presença de Chris Pratt.
Agora, frustrados de verdade ficarão os fãs do ator Andy Garcia que por ventura forem assistir este filme na intenção de vê-lo –ele aparece por alguns segundos num dos trailers: Sua aparição é tão rápida, instantânea e pífia que é de se perguntar o quê ele faz lá!

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Animais Noturnos

Elegância é a palavra chave no cinema de Tom Ford. A elegância que já impregnava cada detalhe em cena de sua auspiciosa estréia, “Direito de Amar”, continua a ditar o visual acachapante e lindo deste seu novo e notável trabalho.
Todavia, como atestam as desconcertantes cenas iniciais, existe espaço também, nesse esmero visual, para a feiúra: Em enquadramentos milimetricamente bem escolhidos e bem iluminados, mulheres velhas, gordas e nuas dançam em câmera lenta diante de uma câmera que parece fetichizá-las.
O grotesco, como veremos mais a frente, será um tópico que o filme de Ford perseguirá durante toda sua duração –e seu contraponto com a beleza gráfica, e com o curioso dado de que ela não trás plena felicidade, é um dos estranhos questionamentos que ele levanta.
Amy Adams, em toda sua beleza e excelência, é Suzan, curadora de um museu de arte moderna em Los Angeles. Ela se ressente pelo fato de sua vida e seu casamento de aparências não lhe proporcionarem satisfação: Isso não a deixa dormir.
Ela já havia sido casada antes, com Edward (Jake Gyllenhaal, que interpreta também o protagonista na história dentro da história), um escritor que ela deixou há dezenove anos.
Uma noite, Suzan recebe uma encomenda: Um manuscrito de um livro que Edward escreveu em sua homenagem.
Ela começa a leitura (cada vez mais obsessiva) do tal livro cuja trama guarda, de forma alegórica, uma inesperada ressonância com o matrimônio que tiveram. Não fosse a direção refinada de Ford, essa trama serviria também, à uma típica produção exploitation dos anos 1970: Família composta pelo marido (Gyllenhaal), pela esposa (Isla Fisher) e pela filha adolescente atravessa os desertos do centro-oeste americano à noite.
Tentam ultrapassar um carro ocupado por desordeiros liderados pelo ameaçador Ray (Aaron Taylor-Johnson), mas acabam arrumando encrenca com o grupo. Eles fazem seu carro parar e, após uma discussão extremamente tensa, carregam a mulher e a filha para outro lugar, deixando o marido à pé na estrada.
Com a ajuda de um policial (Michael Shannon) ele as procura dando início a uma escalada de momentos trágicos.
A condução vai assim contrabalançando essa trama árdua, violenta e desesperadora, com o dia a dia de Suzan e suas memórias ocasionais e elípticas da relação que teve com Edward, deixando que quaisquer analogias que sejam estabelecidas entre essas três linhas narrativas fiquem por conta do expectador.
Uma obra que justapõe as percepções da violência reprimida e/ou extravasada, os diferentes âmbitos de mundo em que elas se deflagram, e as conseqüências disso tudo no íntimo dos personagens, narrada com enorme perícia.

sábado, 9 de julho de 2016

Meia Noite Em Paris

Como toca a todo protagonista de um filme de Woody Allen –e que, a rigor, sabemos tratar-se de uma variação do próprio Woody Allen em si –o jovem escritor interpretado por Owen Wilson, é um personagem que surge, desde sua primeira cena, assolado por suas inseguranças de praxe. Nada do que cerca lhe ajuda: Acompanhado da noiva perdulária (Rachel McAdams) que pouco (ou nada) lhe dá de atenção durante a viagem de férias que fazem em para Paris, ele se vê em companhias fúteis e arrogantes que não lhe agradam.
Apesar de passivo na maior parte do tempo, ele se lança numa de suas solitárias andanças noturnas, e acaba sendo conduzido no tempo, até os anos 1920. Lá, ele cruza-se com folclóricas figuras da arte e da literatura daquele período como Gertrude Stein, Ernest Hemingway, Pablo Picasso, Scott e Zelda Fitzgerald, Luis Buñuel, Salvador Dali e outros.
Quem lhe chama a atenção porém é uma linda e desconhecida modelo de Picasso, fascinada pelo passado (no caso a "belle epóque"-meados de 1890) por quem ele se apaixona.
Saudado, com mérito, como um dos melhores filmes de Woody Allen dos últimos tempos, esta descontraída e espirituosa comédia consegue reunir, com habilidade, o melhor da verve de seu autor: Estão ali os gatilhos emocionais para todas as neuroses e inseguranças da vida afetiva, como o rival sedutor e superior, e o desdém indiferente das pessoas mais próximas, tudo potencializado com um bom humor que proporciona uma leveza contagiante; há também o inquestionável conhecimento intelectual de Allen acerca das artes, que aqui ele tem a oportunidade de discorrer de uma forma como a muito tempo uma história sua não abria espaço; a encenação ligeira e sucinta, propícia para atores de tino cômico e muita típica de um autor ainda apaixonado pelo teatro.
Todos esses elementos, que Allen manipulou tão bem ao longo de sua carreira, sem jamais deixar de colocá-los como parte significativa de seu personalidade artística, mas ao mesmo tempo sem nunca soar repetitivo, convergem para elaborar uma agridoce e apaixonada reflexão sobre a eterna insatisfação do presente, abrilhantada por um grande elenco que só um diretor do gabarito de Woody Allen, em geral é capaz de reunir: Lá estão, Adrien Broody, Kathy Bates, Michael Sheen, Tom Hiddleston e Lea Seydoux, além do pouco conhecido Corey Stoll, extraordinário como Hemingway. Apesar de não ser reconhecido como grande intérprete, Owen Wilson está entre os atores que melhor captaram os trejeitos de Allen num alter-ego, contudo, quem realmente se destaca é a inebriante Marion Cotillard.