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terça-feira, 1 de abril de 2025

Bridget Jones - Louca Pelo Garoto


 E não é que realmente foi feito o quarto filme da franquia “Bridget Jones”? Iniciada em 2001 com o excelente (e ainda o melhor de todos) “O Diário de Bridget Jones”, esta série de filmes, inspirados nos livros de Helen Fielding, teve sucessivamente como segundo exemplar o simpático ainda que irregular “Bridget Jones-No Limite da Razão”, lançado em 2004 e, também ele, adaptado de um livro da autora. Depois, contudo, algo inusitado aconteceu: Helen Fielding lançou o terceiro livro, “Louca Pelo Garoto”, onde confrontava sua heroína, Bridget Jones, com novas situações numa nova fase da vida. O radicalismo do enredo desse terceiro livro despertou a fúria de fãs da série ao redor do mundo todo, que já naqueles tempos, ameaçaram cancelá-lo!

Essa reação foi de tal forma negativa que os planos para o terceiro filme foram improvisados –foi lançado em 2016, “O Bebê de Bridget Jones”, único filme da série feito a partir de um roteiro original (da própria Helen Fielding) e não de uma adaptação dos livros.

O tempo passou, e a relação dos fãs com o livro “Louca Pelo Garoto”, foi mudando. Não mais revoltados com o descarte do amado personagem de Mark Darcy (Colin Firth, sempre ótimo), os fãs passaram a reparar melhor na construção bem feita do enredo, na ideia revigorante de trazer a protagonista vivenciando um recomeço, enfrentando desafios sob a ótica de uma diferente faixa etária (não mais uma jovem mulher solteira) e no fato da trama, em si, não se mostrar tão acomodada quanto a trama do segundo livro (e filme). Com isso, 2004 testemunhou assim o lançamento de “Bridget Jones-Louca Pelo Garoto” –produzido pela própria Helen Fielding e pela estrela Renée Zellweger –que enfim traz para o cinema o terceiro livro da série, tornando-se, portanto, o quarto filme!

A inglesa Bridget Jones é viúva desde que seu marido, Mark Darcy faleceu quatro anos atrás (e essa era a manobra narrativa que tanto despertou a fúria das fãs dos livros), no entanto, passado esse prolongado período de luto, Bridget decide que é hora de retomar à vida que tinha antes. O que significa que, apesar de ter agora dois filhos pra criar –o menino Bill (Casper Knopf) e a menininha Mabel (Mila Jankovic) –ela deve voltar a trabalhar (na mesma emissora de TV do primeiro filme) e tentar, na medida do possível, se mostrar aberta a um novo relacionamento, que parece perfeitamente viável na improvável forma do garotão Roxter McDuff (Leo Woodall), embora os flertes de hoje dia acabem dependendo muito mais de ferramentas digitais que a quarentona Bridget Jones deve se virar para aprender a usar!

Essa é, portanto, a tônica do novo “Bridget Jones”, que funcionou à perfeição na literatura e ocasionalmente, funcionou muito bem no cinema também –em grande parte, graças ao acerto fenomenal da escalação de Renée Zellweger ao papel. O diretor Michael Morris parece tão convicto da eficácia dessa fórmula, testada e comprovada junto ao seu público, que ele relaxa em muitos aspectos na sua tarefa. A narrativa de “Louca Pelo Garoto” –diferente da excelência instintiva e acertada com que era conduzida em “O Diário de Bridget Jones” –nunca consegue surpreender o público, em grande medida, porque ao negligenciar este ou aquele personagem, já podemos até adivinhar, de antemão, os rumos que à eles serão dados na trama. Além disso, escalar o respeitável (e indicado ao Oscar!) Chiwetel Ejiofor para um personagem que, em tese, surge como coadjuvante e aos poucos vai ganhando estatura junto à trama, também não pega ninguém de surpresa. Diferente, por exemplo, do que ocorre no primeiro filme com o próprio Mark Darcy –na época, o excelente Colin Firth não era tão famoso, tendo participado dos consagrados “O Paciente Inglês” e “Shakespeare Apaixonado”, mas em papel de vilão. Logo, sua escalação como Darcy era extremamente inspirada –nos passava a ideia de que ele seria quase alguém vilanesco na trama, quando de repente essas primeiras impressões (nossas e da personagem principal) iam sendo subvertidas.

O livro, “Bridget Jones-Louca Pelo Garoto”, num esperto reaproveitamento da estrutura já clássica do livro original, seguia por tópicos muitos similares aos quais este novo filme não conseguiu se equiparar justamente por causa disso.

Apesar disso, ainda sobram momentos ternos e divertidos (muitos deles por conta da sempre memorável Renée Zellweger, bem ladeada pelo hilário personagem de Hugh Grant), e um agridoce senso de nostalgia deste filme em relação à todos os outros da série.

quarta-feira, 10 de novembro de 2021

O Diário de Bridget Jones


 Embora fosse uma versão nada disfarçada de “Emma”, de Jane Austen, o livro de Helen Fielding tornou-se um espetacular best-seller ao redor do mundo, capturando a atenção do público feminino que encantou-se com a trama divertida e adocicada dos encontros e desencontros amorosos da pra lá de desengonçada Bridget Jones –protagonista esta que, em sua imperfeição declarada e em seus tropeços diversos e constrangedores proporcionava uma poderosa identificação em seu público alvo.

Objeto de enorme atenção por parte de seu fã-clube, a adaptação cinematográfica capitaneada por Sharon Maguire resolveu a difícil tarefa de escalar uma protagonista perfeita com uma opção audaciosa: A texana Renée Zelwegger que, devido ao fato de ser norte-americana e não inglesa como a personagem, suscitou inicialmente protestos das fãs.

Na trama, a inglesa Bridget Jones enfrenta em seu dia-a-dia todos os contratempos típicos de uma mulher moderna: suas brigas com a balança, a competitiva vida profissional, a atrapalhada busca por um amor, ou só alguém para contornar a solidão, as implicâncias da mãe ao ver sua filha solteira aos 30 anos, etc. Bridget registra tudo em seu diário, inclusive seu novo "affair", que vem a ser justamente seu patrão (Hugh Grant, tão engraçado quanto cafajeste), e ainda o aparecimento de um certo, e inconveniente, Sr. Darcy (o ótimo Colin Firth, apenas iniciando sua jornada como astro e intérprete reconhecido).

Ao tentar lidar com os problemas corriqueiros, Bridget deixa-se levar por sua afobação e tira conclusões estapafúrdias que a levam às maiores confusões.

Apesar do reclame das fãs, o filme de Sharon Maguire muito se beneficia da impagável composição de Reneé Zelwegger que cria uma protagonista impecavelmente inglesa (seu sotaque é perfeito) e toda complicada, carregando o filme nas costas sem sentir seu peso –não à toa, ela foi merecidamente indicada ao Oscar 2002 de Melhor Atriz, perdendo a estatueta para Halle Berry.

Essa percepção do público à escolha do elenco –algo que, por vezes, remete a uma característica do cinema inglês –se reflete também no papel de Darcy, no qual  fato de Colin Firth na época ser lembrado tão somente pelo personagem algo vilanesco de “O Paciente Inglês”, leva a plateia a presunções equivocadas sobre ele; algo que, definitivamente corresponde às expectativas almejadas pela produção.

Tão emblemático e estruturalmente certeiro “O Diário de Bridget Jones” é para o gênero da comédia romântica ao qual ele se insere que ele próprio serviu de exemplo a um estudo feito anos depois, onde pesquisadores chegaram à conclusão que o consumo excessivo dessas obras pelo público (certamente, o feminino em especial) era bastante prejudicial aos relacionamentos: A realidade de uma relação à dois, afinal, passa longe do romantismo formulaico e da idealização que define esses trabalhos em geral, e “O Diário de Bridget Jones” em particular.

Todavia, não há como negar a obra imensamente cativante aqui obtida: O sucesso –tanto literário quanto cinematográfico –levou à duas continuações que (ao menos, no cinema) foram “Bridget Jones-No Limite da Razão” e “O Bebê de Bridget Jones”.

segunda-feira, 6 de abril de 2020

Dolittle

Um personagem de uma série de quatorze livros infanto-juvenis escritos por Hugh Lofting muito famoso nos EUA, mas bem pouco conhecido aqui no Brasil foi o escolhido pelo astro Robert Downey Jr. para tentar dar continuidade à sua bem-sucedida carreira depois que ela ressurgiu das cinzas quando ele interpretou Tony Stark em “Homem de Ferro”, no Universo Marvel Cinematográfico, papel do qual ele se ocupou na última década (com poucos e ocasionais projetos distintos como “Sherlock Holmes”, “Trovão Tropical”, “Um Parto de Viagem” e “O Juiz”) e do qual ele se despediu em “Vingadores-Ultimato”.
O mesmo personagem já havia rendido um musical irregular (ainda que indicado ao Oscar!) em 1968, estrelado por Rex Harrison e dirigido por Richard Fleischer, e, em sua encarnação mais famosa, uma comédia de grande sucesso popular com Eddie Murphy.
Esta nova produção, dirigida por Stephen Gaghan (roteirista de “Traffic” e diretor de “Syriana”, uma escolha um tanto estranha para um filme de apelo quase infantil) baseia-se com mais contundência em elementos dos livros (sobretudo, o segundo “The Voyages of Dr. Dolittle”), valendo-se de admiráveis valores de produção para concretizar sequências que passavam longe nos planos da simplicidade singela das adaptações anteriores.
Assim, “Dolittle” começa numa animação estilizada que relata as origens de seu protagonista: Um médico inglês que ao lado de seu grande amor, Lilly (Kasia Smutniak), viajou por todo o mundo aprendendo as línguas de todos os animais, com os quais passou a ser capaz de se comunicar. Como nos é informado, uma tragédia –a morte da amada ocorrida justamente na única viagem na qual não a acompanhou –o torna alguém recluso, muito falado, mas bem pouco visto.
O filme se inicia de fato quando o jovem Tommy Stubbins (o fraquinho Harry Collett) resolve procurá-lo em sua propriedade (na qual somente os animais estão autorizados a adentrar) para que cure um esquilo ferido. Junto com Tommy, aparece também a bela e jovem Lady Rose (a estreante Carmel Laniado) que apesar da pouca idade chega representando a Família Real da Inglaterra: A Rainha Victoria (Jessie Buckley, da série “Chernobyl”) se encontra doente e antes que seu estado a leve para sempre (permitindo que abutres interesseiros como o personagem vivido por Jim Broadbent assumam a coroa), ela deseja recorrer aos inusitados conhecimentos do Dr. Dolittle para tentar curá-la.
Robert Downey Jr. compõe John Dolittle com a propriedade que lhe é característica: Nada nele lembra trejeitos ou cacoetes de Stark ou quaisquer um de seus personagens anteriores. É um trabalho metódico de um ator dedicado e talentoso.
E, munido de efeitos visuais que transformam a fauna inquieta de diversos animais coadjuvantes num show à parte, o flme transforma as cenas iniciais de interação entre Dolittle e os bichos em um deleite –com destaque para a sequência que ele e seus ‘assistentes’ conseguem fazer um diagnóstico da condição da Rainha Victoria.
É quando “Dolittle” começa então a apresentar suas tremendas fraquezas –um tanto quanto cedo demais... –o bom médico chega à conclusão de que a única cura para a Rainha Victoria é a seiva da ‘Árvore do Édem’ –mesma iguaria que sua amada Lilly morreu tentando encontrar!
Assim, acompanhado de Tommy, que agora deseja ser seu aprendiz, o Dr. Dolittle empreende uma claudicante aventura rumo à terras desconhecidas –que passa pelo reino do ex-sogro, um monarca beligerante vivido por Antonio Banderas –seguido de perto pelos emissários dos conspiradores, liderados pelo médico perverso e apalermado interpretado por Michael Sheen (que até lembra do Dick Vigarista!).
Se muitos dos personagens humanos soam absolutamente rasos e a trama tem inúmeras passagens indefinidas, isso se deve em grande parte pela pouca familiaridade do diretor Gaghan com esse tipo de gênero (o que nos faz perguntar o tempo todo porque ele foi escolhido para o projeto!): Essa inadequação foi detectada pelos produtores em algum momento da produção e o diretor Jonathan Liebesman (de “Tartarugas Ninja”) foi chamado para rodar cenas adicionais e dar mais leveza e coesão ao material. O resultado foi uma narração em off da arara dublada por Emma Thompson (!) que preenche muitas lacunas da trama de forma incômoda e ginasiana e uma irregularidade de estilo, ritmo e lógica que sabota sistematicamente todo o filme, culminando no prato principal do mau gosto, seu clímax, onde os realizadores julgaram ser uma boa ideia mostrar uma cena de humor grosseiro (e, no fim, nada engraçado) em torno de um dragão com prisão de ventre (!!).
Da forma como ficou, para cada acerto, “Dolittle” apresenta um lapso: Seu protagonista conta com um astro empenhado e hábil, mas seu co-protagonista (os olhos da plateia, assim sendo), é vivido por um jovem ator mais perdido que cego em tiroteio; seus efeitos visuais criam animais com uma  fascinante fluidez em cena (e que conta com um elenco estelar de vozes, como Tom Holland, Octavia Spencer, Rami Malek, John Cena, Marion Cottilard, Selena Gomez e Ralph Fiennes), mas seu elenco humano coadjuvante, em compensação, está tão lastimável quanto caricato (com a louvável exceção de Antonio Banderas); e, se o filme conta com a beleza visual proporcionada pela fotografia de Guillermo Navarro, todas as cenas com ela concebidas são entremeadas numa narrativa problemática, a qual o expectador acompanha sem maiores envolvimentos.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

Harry Potter e As Relíquias da Morte - Parte 2

Havia uma intenção bastante específica quando foi tomada a decisão de dividir o último livro da “Saga Harry Potter” em dois filmes: Traduzir o conteúdo da história, profundamente elucidativa para com todas as pontas soltas deixadas ao longo dos outros seis livros, da forma mais completa possível –essa prática chegou até a influenciar outras sagas adolescentes posteriores oriundas da literatura como “Crepúsculo” e "Jogos Vorazes”, cujo livro final também foi dividido em filmes Parte 1 e Parte 2.
Ironicamente, é nesse aspecto que o último filme dirigido por David Yates deixa a desejar –como veremos mais a frente.
“As Relíquias da Morte-Parte 2” retoma exatamente o ponto em que a “Parte 1” abandonou o público, quando Voldemort enfim pôs as mãos na poderosa ‘varinha das varinhas’ e Harry Potter, ainda perplexo, testemunhou o nobre sacrifício do elfo Dobby.
O filme prossegue daí quando Harry, Hermione e Rony almejam agora encontrar as outras horcruxes –os artefatos de magia negra imbuídos de fragmentos da alma de Voldemort: E só para constar, até este ponto da trama, dentre todas as sete horcruxes já foram mostradas três (o diário de Tom Riddle, destruído em “A Câmara Secreta”; um anel, destruído por Dumblodore à duras penas; e o medalhão do qual Harry e Rony deram cabo no filme anterior).
As quatro que ainda faltam, de certa maneira, determinam a narrativa do filme: A quarta, uma taça enfeitiçada, guardada no Banco Gringotes, regido por desconfiados duendes –e dentro do qual os três jovens vão audaciosamente tentar entrar com o pouco confiável auxílio do duende Grampo (o sensacional Warwick Davis, de “Willow-Na Terra da Magia”). E tome mais uma cena espetacular quando os três fogem do banco sobre as costas de um dragão!
A quinta, um lendário diadema roubado da Casa de Corvinal, obriga Harry e seus amigos a voltarem para Hogwarts, onde Severo Snape prevalece como diretor impondo os desmandos do Lorde das Trevas e submetendo os alunos a um regime ditatorial –é na busca por essa horcrux que Harry se depara com o fantasma de Helena Ravenclaw, vivido por Kelly MacDonald, a estrela de “The Girl In The Café”, também dirigido por Yates.
A sexta horcrux, numa manobra até bem óbvia vem a ser a fiel e mortífera cobra Nagini, sempre próxima de Voldemort, enquanto que a sétima e última, revelada no clímax, vem a ser o próprio Harry Potter (!), que deve ser sacrificado para que o Lorde das Trevas pereça.
Na esteira dessas revelações e acontecimentos –que, por sua proximidade fidedigna ao material literário, agrega um excesso de informações que pode confundir muitos expectadores –o diretor Yates escancara suas predisposições épicas, já perceptíveis na gradual elevação de escopo em seus filmes anteriores (especificamente iniciada em “O Enigma do Príncipe”), mas abraçadas por inteiro aqui na grandiloquente batalha do bem contra o mal que toma Hogwarts como cenário na última hora de filme, quando praticamente todos os personagens (alguns interpretados por atores famosos que surgem como pontas) comparecem deste ou daquele lado.
Não há dúvida de que a possibilidade de abreviar o mínimo possível os acontecimentos do livro beneficiou o filme. Contudo, se a “Parte 1” resulta primordial e empolgante por conta disso, a “Parte 2” sofre pequenas complicações: É maravilhoso poder ver muitos trechos do livro preservados na íntegra (e uma pena constatar que isso infelizmente não ocorre com tanta frequência em adaptações cinematográficas em geral), no entanto, é estranho que justamente a sequência do livro que melhor justifica a divisão em duas partes seja exatamente a que acaba negligenciada pela narrativa –trata-se do momento em que Harry Potter contempla as memórias de Severo Snape (Alan Rickman, certamente o grande ator de toda saga), até então tratado como um dos grandes vilões da história. Por meio desse momento brilhante, Harry (e o público junto com ele) descobre as reais motivações de Snape e o porque dele ser, sem que soubéssemos, um dos grandes heróis da saga!
Um momento revelador, emocional e surpreendente que merecia no filme o mesmo zelo e cuidado demandado no livro; do jeito como ficou –numa montagem de cenas simultâneas, quase a lembrar um videoclipe –pode até suscitar algumas emoções, mas está longe do impacto que poderia ter se ganhasse a mesma atenção de algumas cenas de ação.
Claro que essas são impressões menores: Do jeito como está, “As Relíquias da Morte-Parte 2” se mantêm como um final apoteótico, arrebatador e digno para uma das sagas cinematográficas mais marcantes dos últimos tempos.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

Harry Potter e O Enigma do Príncipe

O diretor David Yates, tendo estreado em “Harry Potter” no filme anterior, chegou mesmo para agitar as coisas: Os primeiros minutos de “O Enigma do Príncipe” já deixam bem claro que, neste ponto, a saga já não tem qualquer interesse em temas infanto-juvenis –a paleta de cores é séria, monocromática, quase evocando um preto & branco interiorizado em muitos momentos; o clima de tensão é frequente e eficaz, aproximando esta obra, muitas vezes, de um filme de terror, e além de tudo, Yates impõe uma elegância à toda prova que eleva consideravelmente as apostas deste novo filme, onde são esboçados os ganchos narrativos que enfim conduzirão a saga ao seu desfecho.
Numa escala inédita nos filmes de “Harry Potter” até então, começamos o filme testemunhando o que parecem ser ataques terroristas sistemáticos em Londres de natureza mágica. Apesar do alvo ser o Beco Diagonal (visto em “A Pedra Filosofal” e “A Câmara Secreta”), podemos vislumbrar também a destruição da Ponte Millenium, de Londres. Os Comensais da Morte, pavorosos asseclas de Lorde Voldemort, atrevem-se a atacar e dar as caras no mundo normal (o chamado ‘mundo trouxa’).
Harry aparece no momento seguinte, quando o diretor Yates se dá ao luxo de fazer uma auto-referência: Impossível não lembrar de seu elogiado “The Girl in The Cafe”, quando vemos um Harry Potter aturdido com as notícias do jornal, dar um pequeno tempo e flertar com a garota que trabalha na cafeteria.
Logo, porém, a responsabilidade chama: Alvo Dumblodore requisita a companhia de Harry numa visita a um certo Horacio Slughorn (Jim Broadbent), alguém que, por razões muito especiais, o diretor de Hogwarts deseja para ser o novo professor de Poções –o professor anterior dessa matéria, Severo Snape, finalmente conseguiu a cadeira de professor de Defesa Contra A Arte das Trevas (cujas aulas mostradas no livro são omitidas no filme).
Apaixonado pela mitologia que cerca a trama como nenhum diretor antes dele, David Yates avança seu filme saboreando a evolução circunstancial presente em cada pequeno detalhe de sua história: Harry, Rony e Hermione são agora alunos dos últimos anos, o que faz deles veteranos acostumados aos meandros estudantis acrescidos da curiosidade da magia. Já a seis anos em Hogwarts, Harry agora é o capitão do time de quadribol de Grifinória, no qual seu amigo Rony e a irmã dele, Gina (Bonnie Wright), fazem teste para poder participar da equipe. E nas salas de aula, em especial, na matéria ministrada pelo Prof. Slughorn, Harry encontra um livro carcomido cheio de anotações de um certo ‘Príncipe Mestiço’ –o mistério que batiza este capítulo distraindo a atenção dos elementos realmente relevantes –e tais anotações feitas à mão ajudam Harry a tornar-se o melhor aluno da sala (!). Também o aspecto romântico se manifesta aqui com mais intensidade: Harry se descobre cada vez mais apaixonado por Gina, que no momento se envolve casualmente com Dino (Alfie Enoch), enquanto Hermione, em sua lenta e gradual aproximação com Rony tem seus planos interrompidos pela tietagem da deslumbrada Lila Brown (Jessie Cave).
Yates usa essas eventuais intrigas amorosas como pontuais atenuantes para uma trama sombria que ele engendra com zelo e critério ao longo da narrativa, sobretudo, na condução de dois núcleos distintos: Os breves, no entanto, significativos momentos em que flagramos o jovem Draco Malfoy (Tom Felton) e sua ‘missão’ por meio da qual os Comensais da Morte almejam finalmente invadir a tão segura Hogwarts; e, claro, a trajetória de Harry que o leva até o misterioso e escorregadio Horacio Slughorn –ele trás consigo um segredo (que ele recusa-se a compartilhar até mesmo com o próprio Dumblodore) sobre as razões ligadas a magia negra que fazem Voldemort ser imortal; e que, portanto, fornecem a pista para enfim matá-lo.
Como é habitual na construção narrativa de todos os “Harry Potter”, as numerosas pontas soltas a tratar de assuntos que aparentam serem tão diversos quanto dispersos, em dado momento, se unem revelando uma conexão intrínseca que os torna fragmentos complementares de uma mesma e sólida trama bem planejada –entretanto, neste filme até mais do que em “A Ordem da Fênix”, o diretor Yates se permite ir acima e além da fidelidade ao livro (que ele transfigura com convicção impecável) acrescentando impressões aos personagens e às suas motivações que só poderiam ser mesmo capturadas em cinema: É o caso da interpretação brilhantemente moldada do Prof. Slughorn que Jim Broadbent compõe com uma compreensão desigual do fascínio parasitário despertado nele por alunos de potencial fora do comum, primeiro o Tom Riddle ‘pré-Voldemort’ (interpretado em lembranças passadas por Frank Dillane e Hero Fiennes-Tiffin, este último, sobrinho de Ralph Fiennes), e depois o próprio Harry Potter. Os trinta minutos finais também revelam um domínio prodigioso dos elementos fantásticos, aqui empregados rumo a uma atmosfera genuinamente assustadora (palmas para a magnífica cena no lago dentro da caverna!).
Ao abraçar com uma serenidade contagiante um filme com facetas tão distintas (do romance ao terror, do suspense à comédia), o aspecto mais surpreendente do trabalho de David Yates acaba sendo a espantosa harmonia com a qual ele consegue manter tudo num mesmo tom, envolvendo o expectador num ritmo preciso e absorvente até a cena final que, neste filme em particular (talvez o de execução mais desafiadora de toda a saga) não encontra um ponto derradeiro que possa ser considerado um desfecho –e ainda assim, Yates o encerra extasiando o público com o filme espetacular que concebeu.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Circuito Fechado


Mescla de filme de espionagem e filme de tribunal, este ‘Circuito Fechado” é uma produção britânica em toda sua pompa e circunstância; beneficia-se, particularmente, da austeridade a toda prova de um elenco hábil –inclusive, pontuais presenças coadjuvantes –que conferem sólida credibilidade a uma premissa que, se fosse encenada por histriônicos intérpretes norte-americanos, poderia resvalar no mirabolante e no improvável.
Seu protagonista é o advogado Martin Rose, vivido pelo competente australiano Eric Bana.
Rose se vê no centro das atenções ao ser escolhido como advogado num processo judicial que monopoliza a opinião pública: O julgamento de um forte suspeito terrorista, acusado de um atentado –revela brilhante e subjetivamente na cena de abertura –no centro de Londres.
Rose, contudo, não era a primeira opção: O advogado anterior suicidou-se.
Ao longo do processo, no qual assume a defesa do réu, Rose terá de lidar com a tensão mal-resolvida entre ele e Claudia Simmons-Howe (Rebecca Hall, sempre bela e focada), um relacionamento do passado que, por ventura, é também nomeada para a equipe de defesa.
É ao aprofundar-se nos detalhes do processo que o caso revela à Rose e à Claudia seus detalhes mais nebulosos e desconcertantes: A quantidade exacerbada de informação omitida, os protocolos excessivamente rígidos e confidenciais e os indícios cada vez mais alarmantes de que são espionados em todos os passos que dão, leva Rose e Claudia a constatar que existem mais segredos nesse processo do que lhes é permitido descobrir; e foi a proximidade deles que levou o advogado anterior à morte (que, para todos os efeitos, tornou-se suicídio na versão oficial).
Dirigido por John Crowley (de “Brooklyn”) que realiza uma saudável opção pelo clima bem construído em detrimento de ação constante, “Circuito Fechado” é primoroso na criação de uma atmosfera na qual se parece estar sendo vigiado o tempo todo, e onde não se pode confiar em ninguém.
O expediente de um passado amoroso entre Rose e Claudia pode parecer obviedade no início, mas ele se torna o único propósito para que ambos confiem um no outro a partir de um determinado momento da trama.
É esse viés, entretanto, de solitários protagonistas íntegros contra todo um sistema corrupto que enfraquece ligeiramente o filme, sobretudo, quando ele atinge um clímax onde o roteiro entrega um desfecho algo redundante.
Todavia, em sua admirável execução técnica, “Circuito Fechado” ombreia alguns dos grandes trabalhos no gênero thriller de espionagem que busca homenagear –e tendo Julia Stiles no elenco, e a inevitável recordação da magnífica “Trilogia Bourne” que sua presença suscita, esse mérito não é vazio.

sábado, 16 de dezembro de 2017

Os Vencedores do Oscar 2002

A cerimônia de 2002 recebeu uma enxurrada de grandes trabalhos a começar pelo espetacular “O Senhor dos Anéis-A Sociedade doAnel”, ponto de partida da famosa saga que chegou exigindo respeito e reconhecimento. Como é de hábito, a Academia o preteriu em função de um exemplar mais de acordo com seu anacronismo e sua visão tradicional –ainda que “Uma Mente Brilhante” seja, de fato, excelente.
Além deles, houveram os sensacionais “Amnésia”, de Christopher Nolan, “Falcão Negro Em Perigo”, de Ridley Scott, “Cidade dosSonhos”, de David Lynch e até mesmo “A.I. Inteligência Artificial”, de Steven Spielberg.
Entretanto, em meio à primeira premiação da nova categoria de Melhor Longa-Metragem de Animação (que viu “Shrek” tirar o prêmio de “Monstros S.A.”, da Pixar), o grande destaque foi ver dois intérpretes negros, Denzel Washington e Halle Berry, terem seus grandes talentos reconhecidos.

MELHOR FILME
"Uma Mente Brilhante"

MELHOR DIREÇÃO
"Uma Mente Brilhante", Ron Howard

MELHOR ATRIZ
Halle Berry, "A Última Ceia"

MELHOR ATOR
Denzel Washington, "Dia de Treinamento"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Jennifer Connelly, "Uma Mente Brilhante"

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Jim Broadbent, "Iris"

MELHOR FOTOGRAFIA
"O Senhor dos Anéis-A Sociedade do Anel"

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM LONGA-METRAGEM
"Murder On A Sunday Morning"

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM CURTA-METRAGEM
"Thoth"

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
"Terra de Ninguém" (Bósnia)

MELHOR SOM
"Falcão Negro Em Perigo"

MELHORES EFEITOS VISUAIS
"O Senhor dos Anéis-A Sociedade do Anel"

MELHOR MAQUIAGEM
"O Senhor dos Anéis-A Sociedade do Anel"

MELHOR FIGURINO
"Moulin Rouge"

MELHOR EDIÇÃO DE SOM
"Pearl Harbor"

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE
"Moulin Rouge"

MELHOR TRILHA SONORA
“O Senhor dos Anéis-A Sociedade do Anel"

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"If Didn’t Have You", de "Monstros S.A."

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
"Assassinato Em Gosford Park"

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
"Uma Mente Brilhante"

MELHOR LONGA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO
"Shrek"

MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO
"For The Birds"

MELHOR MONTAGEM
"Falcão Negro Em Perigo"

MELHOR CURTA-METRAGEM
"The Accountant”

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Moulin Rouge - Amor Em Vermelho

É necessário ir com um pé atrás em relação ao cinema discorrido pelo australiano Baz Luhrmann. Se por um lado, ele ostenta qualidade técnica e predisposição vulcânica para valorizar sua narrativa –às vezes, de todas as maneiras possíveis –por outro, ele é excessivo, exagerado em algumas escolhas, deliberadamente brega e berrante.
Não à toa, devido a essa verve passional é o amor e as ramificações de seus extremos, o grande tema de sua filmografia –como atestam os estilosos “O Amor Está No Ar” e “Romeu + Julietta” –e isso não poderia ser diferente naquele que é tido como seu maior trabalho, a tentativa contundente e caleidoscópica de modernizar o gênero musical chamada “Moulin Rouge”.
Antes de mais nada uma história de amor, “Moulin Rouge” é reverência de Baz Luhrmann à uma gênero –o musical –que sempre interferiu profundamente nas inclinações artísticas de todas as suas obras, mais ou menos como é o faroeste “Django Livre” para os títulos anteriores de Quentin Tarantino: O reconhecimento inevitável à uma influência evidente.
E a música, da forma como ele foi concebido, define “Moulin Rouge”.
A história que ele conta –se é que os detalhes mais específicos importam, mesmo àqueles que amam o filme –envolve o amor do pobre escritor Christian (Ewan McGregor, provando-se hábil e versátil) pela linda cortesã Satine (Nicole Kidman, um furacão em cena).
Como manda o figurino de tragédias românticas (às quais a trama busca irmanar-se), as circunstâncias depõem a favor do tormento do casal (e a química entre McGregor e Nicole funciona, realmente, às mil maravilhas): Eles são impedidos de seu amor já que Satine é o objeto de desejo do Duque de Monroth (Richard Roxburgh), o grande financiador de todo o clube parisiense onde ela é a estrela –e onde Christian ganha seu suado sustento escrevendo as peças que serão encenadas.
Para ficar próximo de Satine, Christian escreve a peça “Espetacular, Espetacular” que será encenada por toda a trupe de coadjuvantes solícitos que cercam os protagonistas, e que, não raro, se convertem em cupidos imperfeitos de seu amor, como o anão histriônico (e esta é uma palavra que se aplica em muitos casos do elenco) e fanfarrão vivido por John Leguizano, ou o mestre de cerimônias explosivo e selvagem interpretado por Jim Broadbent.
Para fazer toda essa premissa funcionar e avançar: Música.
Uma sacada inusitada à época, contudo, foi que Baz Luhrmann não recorreu à canções compostas especialmente para o filme, como aconteceria em qualquer outro caso.
“Moulin Rouge”, ao invés disso, pega o expectador de surpresa inserindo em encenações detalhadamente vitorianas, arranjos de músicas muito pertencentes ao século XX, como “Diamonds Dog”, “Like A Virgin”, “Nature Boy”, “Come What May”, “Lady Marmalade” e outras.
Se para muitos, esse recurso, empregado com o excesso de pompa e circunstância típico de Luhrmann, molda uma obra das mais arrebatadoras e emocionantes, para outros, o trabalho de Luhrmann passa da medida em diversos momentos, soando quase insuportável. É uma característica do diretor desde que ele começou a compor sua filmografia, e que ele aprimorou em termos técnicos e aprofundou em termos estéticos, dramaticamente, contudo, essa veia romântica algo histérica encontra resistência de boa parte da platéia.

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Gangues de Nova York

A primeira colaboração entre Leonardo Dicaprio e Martin Scorsese marcou um período em que o astro começava enfim a deixar a sombra do sucesso esmagador de “Titanic” para trás e construía uma bela carreira –no mesmo ano, ele lançou o excelente “Prenda-Me Se For Capaz”, de Steven Spielberg.
Na filmografia de Scorsese, por sua vez, “Gangues de Nova York” dialoga com “A Época da Inocência”, por se ambientarem na mesma metrópole e no mesmo período de tempo (o Século 19), embora pareçam tratar de assuntos e temas de radical diferenciação –e a presença de Daniel Day-Lewis no elenco de ambas as produções não deve, por isso mesmo, ser tratada como coincidência.
Este foi um projeto longamente acalentado por Scorsese –as primeiras tentativas de viabilizá-lo datam do fim da década de 1970! –talvez, por refletir com pertinência os seus interesses como contador de histórias.
Como é inerente ao seu vigor, Scorsese observa o submundo corrupto da cidade de Nova York, ainda em estado transitório do quê viria a ser –uma cidade entrecortada pelos fortes contrastes culturais trazidos por imigrantes das mais diversas partes do mundo. É para lá que vai o jovem Amsterdam Vallom (Dicaprio, cada vez mais evoluído como ator), com a obscura intenção de vingar a morte de seu pai pelas mãos de Bill The Butcher, o atual líder da estrutura de poder vigente.
E a cena de batalha que responde como prólogo do filme, quando Bill mata o pai de Vallom (vivido por Liam Neeson) é, já ela, de um registro arrepiante e sem concessões da brutalidade como só um mestre é capaz de fazê-lo.
Bill (interpretado com preciosismo invulgar por Day-Lewis) é um personagem intrigante: É a essência do mal, e nada em seu comportamento psicótico esconde isso, mas nutre um senso de honra –assim como um afeto aos que lhe são próximos e confiáveis –que lhe confere inesperada humanidade: Ele realiza, por exemplo, uma cerimônia anual, em homenagem ao seu inimigo assassinado, o pai de Amsterdam Vallom. O próprio Vallom, por sua vez, durante algum tempo, cai em suas graças, virando seu braço-direito.
Bill ganha também, de Scorsese e do ator que o interpreta, uma caracterização algo destoante, um aspecto que o torna sempre uma figura intrusiva em cada uma das imagens em que aparece: Essa sensação é passada nos detalhes meticulosamente escolhidos em seu figurino (as opções de cores evidenciam tanto a falta de conhecimento do personagem em como se vestir adequadamente, como sua não declarada intenção de pertencer à uma classe mais alta que não é a sua), no movimento brilhantemente estudado de Day-Lewis (que para variar emprega uma técnica bem equilibrada e apropriadamente espalhafatosa em sua atuação), e até em detalhes que poderiam soar cartunescos numa outra composição (como a íris artificial num dos olhos de Bill).
São todos esforços conscientes e inteligentes que só fazem bem à história: Por conta deles, em nenhum momento essa humanização de Bill tira o foco (e a expectativa, ou até torcida) do expectador para o cerne da narrativa: A vingança de Amsterdam Vallom.
Para levar a cabo essa vingança, entretanto, Vallom compreende que terá de envolver-se com os mecanismos políticos e sociais dessa cidade ebuliente que cresce a partir dos imigrantes que recebe em quantidade maciça nos seus portos.
É assim que, na medida em que conta a história do embate brutal entre dois homens em níveis que vão se estreitando do cordial e político até o físico e nada civilizado, Scorsese reflete sobre a mentalidade intrinsecamente animalesca daqueles audazes pioneiros que moldaram a América, sobretudo, uma de suas mais emblemáticas cidades, Nova York. Na abordagem grandiosa que seu épico vigoroso busca fazer, e na complexidade loquaz e ramificada do trecho histórico que relata, o diretor acaba inferindo por momentos que oscilam em impressão na condução de seu trabalho, ora confuso, ora eletrizante, mas ele jamais deixa que se perca uma apurada visão artística sobre todas as facetas que se dispõe a observar e, mais do que isso, jamais perde o foco da analogia essencial que, no fim das contas, seu filme procura estabelecer, como bem mostra a cena final onde o diretor avança no tempo para evidenciar as torres gêmeas do World Trade Center em seu enquadramento: Era então o ano de 2002, e o 11 de Setembro ainda era uma ferida aberta pedindo por tratamento (ainda que ele fosse existencial).

A Jovem Rainha Vitória

O diretor Jean Marc-Valée sempre demonstrou na elevada qualidade de seus trabalhos, uma capacidade inata de ressaltar o imenso potencial de entendimento entre seus ótimos intérpretes e os personagens de suas tramas. Em “A Jovem Rainha Vitória”, essa regra se cumpre com gosto: No papel de Vitória, Emily Blunt flutua com carisma, desenvoltura e força pelos ambientes empostados deste filme de época. Com ela, cada reunião de cúpula, cada obrigação aristocrática parece uma aventura. Foi realmente uma injustiça não tê-la indicado ao Oscar (prêmio que o filme terminou conquistando só no departamento de Melhor Figurino).
Única herdeira ao trono inglês, Alexandrina Vitória Regina sofre, desde muito cedo (ainda menina), as tentativas de influência daqueles que a cercam, que vão desde sua mãe (Miranda Richardson) e seu manipulador conselheiro Conroy (Mark Strong), até o tentacular Lord Melbourne (Paul Betany, o Visão de “Vingadores-A Era de Ultron” e “Capitão América-GuerraCivil”).
Logo, Vitória encontrará na amizade com o Príncipe Albert (o ótimo Rupert Friend, obtendo com Emily uma química fenomenal), da Alemanha, um alento para tantas intrigas. Assim, a personalidade destemida e intrépida de Vitória descobrirá, ao longo dos anos e das situações, os caminhos tortuosos da monarquia, adquirindo a confiança com a qual ela dará seus primeiros passos como rainha.
Despido do peso habitual que acompanha os densos filmes de época que têm por hábito se debruçar sobre históricas intrigas palacianas, este roteiro notável de Julian Fellowes (roteirista de “Assassinato Em Gosford Park” e criador da série “Downton Abbey”) tem a salutar qualidade de propor um convite ao expectador: Conhecer ali, naquelas ardorosas atribulações pontuadas pelo crescimento de sua protagonista, (seja esse crescimento físico, seja ele existencial, graças à plenitude sutil na atuação de Emily Blunt), a obstinação de uma jovem perante responsabilidades que se mostraram, desde sempre, imensuráveis; vislumbrar a dinâmica escorregadia, traiçoeira e perigosa que costuma se estabelecer entre o jogo do poder, a vaidade da fama, a ambigüidade da política e o orgulho da realeza; e testemunhar, encantado, o amor entre Vitória e Albert encontrar passagens em cada uma dessas brechas noscivas, para então definir a força de todo um reinado.

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Brooklyn

É lindo ver o crescimento de Saoirse Ronan, seja como pessoa, seja como atriz: Desde sua revelação em “Desejo e Reparação”, aos 13 anos, passando por papéis como a protagonista letal de “Hanna”, e a jovem vítima em “Um Olhar do Paraíso”, culminando com sua presença como bela mulher e atriz de rara sensibilidade neste belíssimo “Brooklyn”.
Dificilmente o filme de John Crowley funcionaria sem ela, e sem a inquestionável identificação que se percebe entre a intérprete e a personagem (Saoirse, como a protagonista que interpreta, é descendente direta de irlandeses), o esmero com que ela registra, portanto, essa jovem às voltas com a dura sensação de não pertencer a lugar nenhum –e que se reflete não somente em maneirismos impecavelmente estudados, mas, num olhar que transmite vastas e infindáveis emoções –vem a ser o eixo de todo o filme.
Essa jovem em questão chama-se Eilis, e sua casa é numa pequenina aldeia na Irlanda da década de 1930, cuja condição de vida é inescapavelmente árdua: São deprimentes os mandos e desmandos que ela sofre de sua patroa numa das poucas ocupações à disposição no lugar, a de atendente numa mercearia local. São deprimentes as escassas opções que uma jovem de vinte anos como ela tem para se divertir –no caso, os modorrentos bailes no único salão, onde as garotas devem se submeter à arrogância dos rapazes. E certamente, são deprimentes os dias rotineiros que passa a cuidar da mãe (Jane Brennan), sempre adoecida e angustiada, ao lado da carinhosa irmã mais velha (Fiona Glascott).
É essa irmã quem vislumbra para ela um futuro melhor, e negocia com um padre irlandês (Jim Broadbent), morador em Nova York de longa data, a sua ida para lá. Eilis encara a longa e penosa viagem de navio –com direito à uma ingrata disputa pelo banheiro com as vizinhas de quarto e toda a sorte de enjôo e mau estar! –a preocupante tentativa em parecer despreocupada no momento em que passar pela vistoria de imigração e, após sua chegada, a dilacerante e imprevista saudade da terra-natal.
No Brooklyn, ela se hospeda na pensão de uma senhora falante e espirituosa (uma notável participação de Julie Walters), onde convive com outras moças vindas da Irlanda, e passa a trabalhar em uma loja refinada do bairro. Aos poucos, Eilis se adapta a essa nova vida: Adquire a sofisticação dos moradores típicos de uma metrópole, começa a namorar um italiano (Emory Cohen, empenhado e simpático), a fazer um curso de escriturária e assim, a sentir-se mais confortável nesse novo lugar, capaz de oferecer os recursos diversos para uma vida melhor que ela antes não tinha.
Há uma sutil reviravolta no roteiro quando ocorre uma tragédia pessoal que obriga Eilis à um breve retorno para a Irlanda. Quando chega lá é que percebemos a maravilha da sutileza com que a atriz trabalhou a metamorfose da personagem: Eilis, ao longo do filme, tornou-se uma mulher radiante que, na segunda parte da trama, contrasta radicalmente com a cidadezinha cinzenta, desanimada e lúgubre que ela deixou no início.
À princípio, certa de que sua permanência seria rápida, Eilis vê as circunstâncias conspirarem contra o seu retorno para Nova York: Agora, não só a mãe expressa a necessidade de sua presença (coisa que antes não demonstrava), mas, aparece também um tal de Jim (Doomhall Gleeson, de “Questão de Tempo”), um bom partido, interessado, cavalheiro e cativante, que trata de providenciar para Eilis uma ocupação nos escritórios da família que satisfaça as aptidões que ela conseguiu em seu curso.
É um dilema que se desenha, então: Se antes Nova York era a terra dos sonhos onde, inclusive, Eilis encontrou o amor, agora, a própria Irlanda onde morou, antes tão inóspita e opressiva, revela condições de sobra onde ela poderia ser feliz.
Jamais pender com excesso para um lado ou para outro é um dos grandes achados do filme cuja sutileza com a qual é conduzido encontra rival apenas em seu admirável equilíbrio e objetividade –tal e qual nos grandes e irretocáveis filmes, todas as peças da narrativa de John Crowley estão lá para prestar uma contribuição inestimável ao produto final; não existe uma cena, um personagem ou uma fala de roteiro que não tenha uma importância vital no desenrolar do enredo, como descobriremos no desfecho, inevitável e, talvez, até previsível, mas não menos vibrante e encantador.
Sem sombra de dúvidas, características que levaram “Brooklyn” a concorrer, merecidamente, ao Oscar de Melhor Filme em 2016, perdendo para “Spotlight-Segredos Revelados”, num ano que contava com obras do porte de “Mad Max-Estrada da Fúria” e “O Regresso” (este também com Doomhall Gleeson no elenco). A bela Saoirse Ronan também concorreu ao Oscar de Melhor Atriz (perdendo para Brie Larson por “O Quarto de Jack”) no que deve ter sido o reconhecimento para o seu maior mérito: Uma atriz linda, expressiva e emotiva que consegue com seu talento elevar todo um filme a um nível maior.

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Indiana Jones e O Reino da Caveira de Cristal

O tempo passou, Harrison Ford envelheceu, o próprio Spielberg envelheceu (e nesse hiato sagrou-se como cineasta sério com os Oscars vencidos por “A Lista de Schindler”, em 1993, e por “O Resgate do Soldado Ryan”, em 1999), George Lucas continuou sendo George Lucas (incluindo suas presepadas tentando resgatar “Star Wars” com a mal-fadada “Trilogia Prólogo"), e também o mundo mudou e junto com ele a audiência dos cinemas –na verdade, o próprio cinema mudou!
Mas, uma coisa parecia não ter mudado, de modo geral: O público continuava ávido por uma nova aventura de Indiana Jones.
Eis que em 2008 –dezenove anos depois do lançamento de “A Última Cruzada” –Spielberg, Lucas e Ford reuniram-se novamente para mais uma aventura do mais famoso arqueólogo do cinema.
Escrita por Jeff Nathanson (que obteve resultados esplêndidos trabalhando para Spielberg no roteiro de “Prenda-Me Se For Capaz”), a trama apresentava, aos 65 anos, o Dr. Henry Jones (Harrison Ford, tirando de letra o pique atlético exigido pelo personagem) ainda mantendo suas atividades de explorador e aventureiro ao redor do mundo.
Nos anos 1950, ele agora testemunhava a Guerra Fria e a vilanesca competição dos agentes russos por relíquias antigas representados pela fria Comandante Spalko (Cate Blanchett, uma vilã impecável).
É quando surge Mutt Williams (Shia LaBeouf, espécie de apadrinhado de Spielberg na época), um rapaz trajado com os mesmos figurinos de Marlon Brando em “O Selvagem” –uma habitual piscadela cinéfila de Spielberg –que pede ajuda a Jones para encontrar sua mãe Marion Ravenwood (Karen Allen, de "Caçadores da Arca Perdida", regressando à série), assim como o estudioso –e pinel –Prof. Harold Oxley (John Hurt, encarando um personagem criado para substituir a participação não concretizada de Sean Connery) que se perderam nas selvas da América do Sul à procura da lendária Cidade dos Deuses Maias. Tal localização pode, ou não, ser revelada por outra relíquia sagrada: a Caveira de Cristal de Akator, que Jones e seu novo parceiro de aventuras tentam encontrar em algum ponto do México.
Embora Spielberg tenha recheado este filme com elementos caros ao seu cinema –o mais notável deles, certamente, a introdução de alienígenas na mitologia “Indiana Jones” –e de honrar cada uma das características que fazem a série ser fenomenal, nada disso, impediu “O Reino da Caveira de Cristal” de ser o pior de todos os filmes de Indiana Jones até então. Motivos para isso não faltam: O personagem de Shia LaBeouf (assim como o próprio ator), além de sofrível, é apático e sem carisma; a própria participação de Karen Allen (celebrada pelos fãs antes da estréia do filme) resulta frustrante, inclusive pela falta de timing da atriz que trabalhou muito pouco depois da década de 1980; mas, o pior de tudo é quando os personagens acabam vindo para terras brasileiras –a sucessão de incoerências, não apenas em relação à confusão geográfica do roteiro (começa no território amazonense, após uma breve descida de barco, chegam às cataratas de Foz do Iguaçu e, mais a frente, termina num templo maia!), mas também as inverossimilhanças que se sucedem a medida que o filme caminha para seu clímax, são bastante prejudiciais.
Haviam coisas boas também, claro: Spielberg continuava um diretor de mão cheia e uma das principais preocupações do público (a idade de Harrison Ford) revelou-se infundada –Ford, seu invejável preparo físico e sua identificação certeira com o personagem são, com freqüência, a melhor coisa do filme.
Razões de sobra que mantiveram acesa a chama para a esperança de que um sexto filme ainda seja produzido. Estamos aguardando.

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

A Lenda de Tarzan

Não deixa de ser admirável o fôlego que demonstra o diretor David Yates ao entregar dois projetos de considerável complexidade logística neste mesmo ano de 2016.
Um, o bem-sucedido derivado da série “Harry Potter” (da qual, aliás, os quatro últimos longa-metragens ele se encarregou), “Animais Fantásticos e Onde Habitam”.
O outro, esta reinvenção da célebre história do homem criado entre os macacos, concebida por Edgar Rice Burroughs, e tema de infindáveis versões cinematográficas e televisivas.
A saída dos roteiristas para supostamente contar algo novo (afinal, a origem do personagem já foi esmiuçada inúmeras vezes) foi inserir Tarzan e Jane –dois personagens fictícios, é sempre bom lembrar –em um contexto histórico real, além de ser uma trama sobre o retorno do personagem à África (embora Yates não se furte de, também ele, contar uma breve origem, surgida em meio à lapsos narrativos que sinceramente, não precisavam estar lá), no qual um Tarzan já estabelecido regressa para o seu meio, e no processo reencontra suas características antológicas: Soa como uma manobra parecida com o quê Bryan Singer fez em “Superman-O Retorno”.
Vamos aos fatos: O ano é 1890, e o Congo, na África, em poder do rei Leopoldo, da Bélgica, é um lugar explorado pela escravidão. Lá, o mercenário estrategista Leon Rom (Christoph Waltz interpretando com certo relaxo o personagem real que teria inspirado Kurtz do livro “The Hearts Of Darkness, de Joseph Conrad) tem por objetivo encontrar diamantes raros, que só ficarão à sua disposição se ele levar Tarzan até o líder vingativo de uma tribo (o intenso Djimon Hounson, em breve participação).
Mas, Tarzan (interpretado por Alexander Skarsgaard, da série “True Blood”, também com um pouco de relaxo) assumiu, nos últimos oito anos, o título de Lorde Greystoke, bem como o nome de John Clayton III, e se encontra em Londres, casado e acomodado com Jane (Margot Robbie, bela ainda que deslocada). Aquele que providencialmente o levará de volta ao lugar onde foi criado será George Washington Williams (Samuel L. Jackson sempre esmerado), figura real, um americano que buscou ir ao Congo em busca de provas da atividade escravagista ilegal lá praticada.
O roteiro assim amarra (de maneira relapsa, é bem verdade) essas situações levando Jane a ser capturada por Rom, que conduz Tarzan selva adentro à procura dela, e no caminho, vai se despindo do homem civilizado que tentou ser, e volta a transformar-se no personagem que todos conhecem.
O grande problema de “A Lenda de Tarzan” foi provavelmente seu diretor ter se incumbido de dois projetos: Ao dedicar-se quase que simultaneamente à “Animais Fantásticos...” (que estreou nos cinemas cerca de três meses depois deste “Tarzan”), Yates negligenciou muito da pós-produção deste filme, e isso é perfeitamente visível na tela –um dos melhores exemplos é o uso demasiado e desleixado da computação gráfica, que materializa inúmeros bichos digitais, mas o faz sem maior propriedade, bem como as cenas que mostram Tarzan se balançando em cipós, tão irreais e forçosamente estilizadas que parecem até mais fantasiosas do que as acrobacias do Homem-Aranha!
Desde as batalhas que se desenvolvem em cena (que passam a incômoda sensação de terem sido feitas às pressas, com detalhes mal planejados) até amarras mais sutis entre as situações do roteiro (muitas delas até soando como certo amadorismo), a produção vai acumulando falhas e erros de condução, muitos deles tão óbvios, que leva pouco tempo para tornar-se uma experiência maçante.
Foi perdida uma bela oportunidade para se fazer uma nova e empolgante versão de um personagem tão fundamental da cultura pop. O melhor ainda é ficar com a maravilhosa versão animada dos estúdios Disney de 1999, ou qualquer um dos sensacionais filmes antigos estrelados por Johnny Weissmuller.

terça-feira, 12 de julho de 2016

A Saga Harry Potter - Terceira Parte


Harry Potter e A Ordem da Fênix
   Uma nova troca de diretores. Desta vez, os produtores tiveram relativa sorte ao encontrar David Yates (até então um diretor televisivo, mas de insuspeita qualidade, com obras como “Intrigas de Estado” e “The Girl In The Café”), que demonstrou não apenas um nível de sensibilidade e qualidade artísticas na mesma proporção dos talentosos realizadores anteriores, mas também se enamorou de tal forma com o material oriundo dos livros de J.K. Rowling que terminou sendo o seu diretor oficial até o fim da série.
   Neste capítulo, descobrimos que, infelizmente, Harry Potter foi a única testemunha do retorno de Voldemort visto no filme anterior. É por isso que ao iniciar seu quinto ano na escola de Hogwarts, Harry é recebido com certa descrença. Pior que isso, agora com as constantes mudanças políticas, quem assume a diretoria da escola é uma mulher repressora, a ardilosa Dolores Umbridge (a sensacional Imelda Stanton), que tira a liberdade dos alunos.
   Para obter a verdade, e poder se preparar contra o mal que se aproxima, o próprio Harry cria um grupo revolucionário chamado Armada de Dumbledore (inspirado pelo gesto de seus pais e Sirius Black que, no passado, compuseram a Ordem da Fênix), e passa a treinar magia escondido com outros alunos, começando o que poderia vir a ser uma revolução.


Harry Potter e O Enigma do Príncipe
   David Yates retoma à direção neste sexto filme, mas ao contrário de Columbus que, lá no início, demonstrou desgaste e cansaço já em sua segunda produção, Yates mostra fôlego redobrado neste extraordinário episódio: Seu refinamento narrativo –já evidente no trabalho anterior, onde ele adotou inesperadas referências, como “V de Vingança”, para uma série do porte de “Harry Potter” –é ainda mais aprimorado aqui, onde ele emprega uma encenação sofisticada, em perfeita sintonia com o trabalho exemplar do diretor de fotografia Bruno Delbonnel.

   No seu sexto ano como aluno na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, Harry Potter testemunha a tensão constante que paira no ar em função do medo despertado pelo onipresente Lord Voldemort e seus Comensais da Morte. Paralelamente, Harry e seus amigos, Ronny e Hermione, vivem as agruras dos primeiros amores da adolescência, principalmente quando Harry começa a perceber que está se enamorando de Gina, a irmã de seu melhor amigo. Entretanto, todos esses acontecimentos podem se interromper se Harry não cumprir uma certa missão da qual foi incumbido por Dumblodore: Obter as memórias do novo professor de Poções (o ótimo Jim Broadbent), memórias estas que estão diretamente relacionadas a Voldemort, e que escondem um horripilante segredo.