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sábado, 29 de agosto de 2026

Stanley Kubrick - Imagens de Uma Vida


 A partir de depoimentos colhidos por Jan Harlan (cunhado de Stanley Kubrick e produtor da maioria de seus filmes), este documentário narrado por Tom Cruise (que se tornou amigo pessoal do diretor após trabalhar com ele em “De Olhos Bem Fechados”) e lançado apropriadamente no ano 2001 busca lançar luz sobre sua carreira, pontuada de absolutas obras-primas cinematográficas, sobre o curioso e excêntrico processo de criação que ele adotava e –talvez, sua intenção mais difícil e inédita –esclarecer quem era, afinal, o ser humano Stanley Kubrick, por trás de um repertório famoso de manias e de inúmeras lendas que davam conta de alguém perfeccionista, complicado e de um comportamento frequentemente desigual.

A irmã de Jan Harlan, Catherine foi atriz no filme “Glória Feita de Sangue” – ela é a mocinha que canta na emblemática e marcante sequência final – foi quando conheceu Kubrick, diretor daquele projeto, e com ele casou-se logo depois.

Stanley Kubrick realizou treze longa-metragens para o cinema, pelo menos sete deles (ou até mais!) podem ser colocados, por muitos especialistas, entre alguns dos maiores trabalhos do cinema. “Imagens de Uma Vida” lança um olhar sobre cada um deles valendo-se de um rico arquivo de imagens e filmagens, além de depoimentos, curiosidades técnicas, críticas da época dos lançamentos – o que nos permite entender, inclusive, a repercussão que as obras, e o próprio nome Stanley Kubrick, causaram entre público e crítica.

Nascido em Nova York, no Brooklyn, no ano de 1928, Kubrick foi um aluno indisposto com o sistema educacional – não gostava de frequentar a escola. Seu hobby favorito era estudar fotografia, uma paixão herdada do pai, Jacob Leonard. Como fotógrafo, ele trabalhou para a revista “Look”, até que, no final da década de 1940, passou a produzir curta-metragens.

Seu primeiro longa-metragem foi o drama de guerra “Fear and Desire”, logo sucedido por “A Morte Passou Por Perto” e “O Grande Golpe”, realizações que já revelavam um autor rigoroso, inovador e extremamente metódico.

Em 1959, Kubrick foi convidado pelo astro e produtor Kirk Douglas (com quem Kubrick havia trabalhado em “Glória Feita de Sangue”) para substituir o então diretor do épico em produção “Spartacus”, com quem Douglas estava descontente – não é nunca mencionado, mas o diretor que Kubrick substituiu foi o renomado Anthony Mann, realizador de “O Homem do Oeste”.

Foi a partir das experiências em “Spartacus” que Kubrick decidiu jamais atuar como diretor contratado novamente, preservando sempre sua liberdade criativa e o controle total sobre seus projetos.

Nessa esteira vieram obras como “Lolita”, “Dr. Fantástico” e os seminais “2001-Uma Odisséia No Espaço” e “Laranja Mecânica”, entre outros – com o intervalo de tempo entre seus projetos aumentando cada vez mais, e os rumores sobre suas excentricidades e seu notório perfeccionismo crescendo exponencialmente!

O documentário conta com depoimentos de figuras fundamentais ao cinema como Steven Spielberg (amigo pessoal de Kubrick que dirigiu em tom de homenagem seu projeto não-finalizado “A.I. Inteligência Artificial”), Martin Scorsese, Woody Allen, Nicole Kidman, Sidney Pollack (os dois últimos tendo trabalhado com Kubrick em “De Olhos Bem Fechados”), Shelley Duvall (que passou poucas e boas nas mãos de Kubrick durante as filmagens de “O Iluminado”) e o  próprio Tom Cruise, além de outros profissionais, familiares e amigos. Todos buscam criar um perfil desse realizador icônico, recluso, indomável, controverso e, ainda assim, autor de algumas das maiores obras-primas cinematográficas.

Stanley Kubrick faleceu aos 70 anos, em 1999, após terminar o primeiro corte da edição de “De Olhos Bem Fechados”, seu último trabalho – este documentário, obrigatório para estudiosos de cinema, é um tributo ao seu gênio inquieto, à sua personalidade intransigente e incomum que moldou algumas das mais inesquecíveis imagens já concebidas para a Sétima Arte.

sábado, 21 de junho de 2025

Missão Impossível - Acerto Final


 Este oitavo longa-metragem da franquia cinematográfica estrelada e produzida por Tom Cruise foi alardeado como o último da série e, de fato, um elemento que se sobressai constantemente na narrativa é o senso de urgência e de encerramento que o diretor Christopher McQuarrie habilmente imprime, a todo o momento –ele faz questão de lembrar ao público que as aventuras de Ethan Hunt (o protagonista vivido por Cruise à cerca de três décadas) estão chegando ao seu fim. Com efeito, “Acerto Final” é também uma recapitulação e uma reafirmação de todo o legado deixado por essa série. Na trama sempre intrincada, concebida aqui pelo diretor McQuarrie em parceria com Erik Jendresen, encontramos referências à praticamente todos os filmes anteriores: O hoje clássico “Missão Impossível” original é lembrado na constante menção à memorável cena em que Ethan Hunt invade um escritório ultra-confidencial da CIA pendurado em cabos (inclusive, um personagem importante dessa sequência é recuperado aqui), e até mesmo no reaproveitamento de Jim Phelps (vivido por Jon Voight) relembrado por meio de uma profunda ligação com outro personagem. O misterioso elemento Pé-de-Coelho, jamais devidamente explicado em “Missão Impossível 3” ganha finalmente uma razão de ser. Tudo isso e mais diversas citações, alusões e recordações de personagens mais ou menos importantes que participaram de todos os filmes.

“Acerto Final” começa, como se esperava, pegando o gancho do filme anterior, “Acerto de Contas”, no qual Ethan Hunt e sua equipe precisavam encontrar uma Chave parte de um aparato que pode neutralizar o perigo representado por uma poderosa inteligência artificial, A Entidade. Agora, a situação se acirrou ainda mais: Valendo-se de um controle tentacular e insidioso a nível mundial, a Entidade criou conflitos ao redor de todo o mundo, mergulhando a civilização em caos. Para piorar, seu sistema começou um processo gradual onde está assumindo o controle de todo o armamento nuclear das potências militares espalhadas pelo mundo. A previsão é que a Entidade consiga acessar todas as ogivas atômicas em quatro dias –e quando o fizer, ela fará com que os países ataquem uns aos outros, provocando consequentemente a extinção da raça humana.

Enquanto esse impasse só se agrava, Ethan Hunt se encontra foragido: Tendo obtido a Chave à duras penas no filme anterior, Ethan precisou sacrificar colegas (como Ilsa, vivida por Rebecca Fergunson) e se voltar contra seus superiores da Impossible Mission Force (personafinicados no personagem de Henry Czerny, também ele oriundo do primeiro “Missão Impossível”). E agora recebe um pedido diretamente da presidente dos EUA, Erika Sloane (Angela Basset, sempre magnânima), outrora a diretora da CIA em “Efeito Fallout

A missão de Ethan, como sempre, acaba sendo espinhosa: Ele tem o prazo desses quatro dias para convencer oficiais da marinha americana à levá-lo até os recôncavos mais longínquos da calota polar no Ártico, onde um submarino americano encalhou anos atrás (isso foi visto no prólogo de “Acerto de Contas”), lá a Entidade tratou de selar um dispositivo capaz de eliminá-la. Sem garantia nenhuma de que tal empreitada lhe oferece a chance de voltar com vida (e o roteiro astuto de McQuarrie não se cansa também de plantar sucessivos empecilhos para seu sucesso), Ethan ainda precisará rastrear seu nêmesis pessoal, Gabriel (Esai Morales) de posse de outro dispositivo que, combinado com o McGuffin obtido no submarino naufragado será capaz de pôr fim ao perigo da Entidade –no entanto, Gabriel deseja tirar de Ethan esse dispositivo a fim tentar, em vão, controlar a própria Entidade.

Para tentar concluir esse objetivo, Ethan conta com um grupo forjado meio ao acaso que inclui seu amigo Benji (Simon Pegg), a assassina francesa Paris (Pom Klementieff, de “Guardiões da Galáxia Vol. 3”), o agente Degas (Greg Tarzan Davis), e a habilidosa prestidigitadora Grace (Hayley Atwell, de “Capitão América-O Primeiro Vingador”).

Em sua quarta direção dentro da série “Missão Impossível” –que a partir de “Nação Secreta” ele praticamente ajudou a consolidar como a brilhante cinessérie que é –Christopher McQuarrie realiza um trabalho formidável dentro de um contexto que, à essas alturas, ele conhece como a palma da mão: Essa compreensão instintiva da narrativa, dos meandros da trama e dos maneirismos dos personagens resulta numa obra grandiosa, bem acabada, feita com profissionalismo e, vez ou outra, capaz até de emocionar.

segunda-feira, 19 de agosto de 2024

Negócio Arriscado


 Antes de “Top Gun”, antes de “A Lenda”, a chance mais expressiva de Tom Cruise no cinema foi provavelmente a comédia “Negócio Arriscado” que deu a ele, em 1983, uma merecida indicação ao Globo de Ouro de Melhor Ator em Comédia ou Musical (ele perdeu para Michael Caine em “O Despertar de Rita”, um filme mais dramático do que cômico).

Escrito e dirigido por Paul Brickman –com a forte contribuição de Jon Avnet e Steve Tisch na produção, realizadores que sempre apreciaram o minimalismo da negociação em seus projetos –“Negócio Arriscado”, ou “Risky Business”, conta a história do protagonista Joel Goodsen (Cruise) aparentando inicialmente ser essa a história de lubricidade e encrencas de qualquer adolescente com hormônios à flor da pele dos anos 1980; às voltas com sexo e confusões. Entretanto, pouco a pouco, a obra vai impondo certos valores e decisões incomuns, tornando-se muito, muito acima da média.

Filho de pais de classe alta –e, logo, experimentando certa pressão pela graduação com boas notas do alto de seus dezessete anos –Joel acaba ficando com a casa todinha para si quando seus pais resolvem fazer uma viagem de alguns dias. Como era de se esperar –inclusive por seu grupo efusivo de amigos –ele aproveita a chance: Na primeira noite comemora fazendo uma despachada dancinha na sala ao som de “Old Time Rock and Roll” (uma ótima cena que, durante muito tempo, esteve atrelada à Tom Cruise). Na segunda, ele aproveita para rodar pela cidade com o carro de seu pai, um porsch dos mais ostensivos! No entanto, é na terceira noite que os estratagemas realmente audaciosos começam a acontecer: O presunçoso amigo Miles (Curtis Armstrong, de “A Vingança dos Nerds”) telefona para uma garota de programa, para que ela compareça à casa de Joel.

Ato falho: O telefonema, proposital ou não, foi para um travesti (!?), contudo, esse incidente dá à Joel coragem para, na quarta noite, ligar para uma garota de programa de fato. E aí quem dá as caras na sua casa vem a ser a  vibrante e deliciosa Lana (personagem que fez da atriz Rebecca De Mornay, o sonho de consumo de muitos adolescentes por aqueles anos). Mesmo nesse ponto, em que a trama flerta com o clichê sexual de um sem-fim de filmes adolescentes ao estilo “O Último Americano Virgem”, o filme de Brickman não cede ao convencionalismo: Até existe uma breve cena de sexo e de nudez de De Mornay (cortada na maioria das exibições televisivas deste filme, mas mantida –veja só! –nos seus comerciais!), mas logo o filme parte para a continuidade de sua trama. Uma vez experimentada a noitada, Joel tem de pagar Lana na manhã seguinte, contudo, sem dinheiro, ela acaba surrupiando, na surdina, o precioso ovo de vidro que a mãe de Joel guardava, orgulhosa, na sala de estar. Obrigando Joel, assim, a sair à procura da garota de programa na noite seguinte. Ao encontrá-la, porém, Joel acaba salvando-a de entrar em maus lençóis por conta de um desentendimento com seu desprezível cafetão Guido (Joe Pantoliano, de “Os Goonies”, “Matrix” e “Demolidor-O Homem Sem Medo”).

Agora, Joel e Lana têm uma espécie de combinação: Enquanto não tem outro lugar para executar suas ‘atividades’ –suas e de suas amigas, diga-se –Lana usará a casa de Joel para isso, aproveitando o tempo para ser sua “namorada provisória” em todos os sentidos mais favoráveis do termo (!), enquanto se vale do lugar para receber os clientes pagantes de suas colegas; muitos desses clientes, os amigos de escola de Joel, jovens com certo acesso ao dinheiro dos pais (!). O negócio é, deveras, arriscado, mas também lucrativo: Enquanto seus pais não retornam para casa, Joel usa dos conhecimentos teóricos em administração, postos à prova quando muito em testes escolares, para gerenciar as atividades das garotas de programa que Lana colocou debaixo de seu teto, culminando numa festa de arromba agendada para a véspera da chegada de seus pais (!).

Com notável parcimônia, de confusão em confusão, de galhofa em galhofa, o filme vai construindo uma premissa curiosa sobre um empreendedorismo torto, mostrando que, se na superfície, “Risky Business” pode parecer mais um besteirol adolescente daqueles tempos, na sua profundidade, ele não é: Joel, personagem de Cruise, embora tenha lá as atitudes e reações razoáveis de um jovem às voltas com o sexo oposto, está longe de ser um protagonista bobalhão como tantos que povoaram esse gênero (mérito certamente da atuação inteligente, destemida e aguçada de Tom Cruise) e se o roteiro até cisca nos elementos tão comuns à essas comédias (como a prostituição, a nudez e o sexo), ele também deixa com eficiência esses mesmos reflexos condicionados para trás ao compor uma divertida e irônica trama sobre desdobramentos nada ortodoxos para o sonho americano.

domingo, 9 de julho de 2023

Missão Impossível - Acerto de Contas Parte 1


 Há quase três décadas atrás (vinte e sete anos, para ser mais exato), o astro Tom Cruise debutou como produtor tentando transpor um conceito de série de TV para o cinema. Hoje, sete longa-metragens depois, podemos dimensionar os frutos rendidos por sua tenacidade. Ainda que hajam exemplares oscilantes em qualidade (tal qual o segundo filme), e que, deveras, os acertos mais expressivos tenham demorado a chegar (sendo “Protocolo Fantasma” o momento em que isso finalmente aconteceu), a franquia entrou nos eixos de fato com a adição do diretor e roteirista Christopher McQuarrie ao projeto (em “Nação Secreta”). Até então um realizador subestimado (a despeito do Oscar de Melhor Roteiro Original por “Os Suspeitos”) e relegado pelos estúdios à ingrata tarefa de polir roteiros produzidos por terceiros, McQuarrie caiu nas graças de Tom Cruise quando se conheceram no set de “Operação Valquíria”, mais tarde trabalhando juntos no ótimo “Jack Reacher-O Último Tiro”. McQuarrie passou a integrar o, digamos, time de confiança de Tom Cruise, e a trabalhar com ele em praticamente todos os seus projetos –é dele, por exemplo, o excelente roteiro para “Top Gun-Maverick” –e tornou-se oficialmente o capitão da franquia “Missão Impossível”. Seu talento e habilidade moldaram em “Nação Secreta” uma obra pulsante sobre as verdades e mentiras do mundo da espionagem e, no longa-metragem seguinte, “Efeito Fallout”, um tratado de cinema tanto dramático quanto cinético sobre as consequências de não se tolerar o sacrifício de um amigo em ação. Hoje, é seguro afirmar, toda uma nova geração de expectadores cresceu testemunhando a exuberância de “Missão Impossível” como uma franquia inquestionavelmente cinematográfica –e certamente, muitos nem sabem que tudo começou com um seriado até bem modesto dos anos 1960.

Agora, contudo, chegou a hora de Tom Cruise e Christopher McQuarrie darem sua cartada final. Prepararem o palco para uma despedida em grande estilo, conscientes talvez de que não é possível contar aventuras de Ethan Hunt (personagem de Cruise) para sempre –o astro, é bom lembrar, já está com 61 anos.

A trama concebida por McQuarrie (sempre um entusiasta apaixonado e hábil de enredos intrincados, perfeitos ao gênero de espionagem) para tal despedida é rocambolesca, povoada de personagens dotados das mais variadas motivações (e algumas ainda mudam ao sabor das circunstâncias!), cheias de surpresas de última hora, guinadas improváveis e/ou inesperadas e um esperto componente de paranóia bastante característica desses novos tempos: Em meio a discussões sobre um advento inesperadamente incontrolado da tecnologia de ponta, o grande vilão de “Acerto de Contas Parte 1” é uma Inteligência Artificial.

Criado inicialmente como um formidável algoritmo para manejo de informações nas redes sociais pelos centros mundiais de inteligência, o programa denominado ‘A Entidade’ se aperfeiçoou de tal forma em meio às vastas possibilidades da internet que acabou criando autonomia própria e tornou-se perigoso demais. Na surdina, as grandes potências mundiais (entre as quais, é claro, os EUA) querem mobilizar agentes para encontrar assim as duas partes do que seria um mecanismo conhecido como ‘A Chave’ capaz de desligar a ‘Entidade’ ou (como eles preferem) controlá-la. O agente de campo mais próximo de concluir tal façanha aparentemente é Ethan Hunt, membro da IMF (Impossible Mission Force), cujo senso moral e considerável independência operativa ordena que a ‘Entidade’ seja destruída imediatamente.

E é nesse ponto –ainda nos primeiros quinze minutos dos sensacionais cento e sessenta e três minutos de filme –que a obra de McQuarrie engata uma nova marcha e complica consideravelmente a vida de nossos heróis: Cegos para o perigo da ‘Entidade’ e unicamente interessados no poder abrangente de controle sem precedentes de dados digitais que ela oferece, o Diretor de Inteligência Americana (Cary Elwes, de “Tempo de Glória”) e o diretor adjunto da própria IMF (Henry Czerny) renegam Hunt e seu grupo –formado pelos agentes de campo Luther (Ving Rhames) e Benji (Simon Pegg), além do constante auxílio da agente britânica Ilsa (a sempre maravilhosa Rebecca Fergunson) –e despacha um novo grupo na sua cola, comandados pelo nada amistoso e muito truculento Jasper (Shea Whigham, de “O Lado Bom da Vida” e “O Abrigo”).

Entretanto, aqueles que de fato dificultam a situação de Hunt são a jovem prestidigitadora Grace (a linda e fulgurante Hayley Atwell) imbuída do talento para deixar o Agente Hunt para trás, à serviço da tentacular e manipuladora Allana Mitsopolis (a fantástica Vanessa Kirby), e o misterioso e perigoso Gabriel (Esai Morales, de “Rapa Nui-Uma Aventura No Paraíso”), agente sombrio e assassino, grande responsável pela tragédia que empurrou em definitivo Ethan Hunt na vida de agente secreto.

Tantos personagens a ir e vir, e a enganar uns aos outros (muitas vezes numa profusão vertiginosa que deliberadamente engana o próprio público) poderia representar uma verdadeira armadilha para um realizador mais despreparado, mas, McQuarrie usa a abusa do talento mais que comprovado que ele ostentou nos dois últimos longas da franquia e transforma “Acerto de Contas Parte 1” numa obra-prima do entretenimento hollywoodiano. Seu filme tem relevância, autenticidade, competência técnica e arrojo artístico em níveis que muitos críticos duvidavam ser capazes de serem atingidos por uma superprodução atual. Os quarenta minutos finais trazem uma sucessão de cenas de ação e suspense que farão qualquer expectador grudar na poltrona, e ainda compõem uma espirituosa referência ao clímax à bordo de um trem do primeiro “Missão Impossível” –é, no entanto, preciso alertar os mais ansiosos: Como já é sugerido em seu título, “Acerto de Contas Parte 1” deixa margem para a vindoura “Parte 2”, terminando com um instigante sabor de ‘quero mais’, tal e qual “Duna-Primeira Parte” e “Homem-Aranha Através do Aranhaverso”, só para citar os exemplos mais recentes.

terça-feira, 7 de junho de 2022

Top Gun - Maverick


 A carreira do astro Tom Cruise ascendeu de fato com “Top Gun-Ases Indomáveis” em 1986. De lá para cá, o filme curiosamente resistiu ao teste do tempo de uma forma um tanto quanto estranha: Ele se revela datado no que diz respeito a muitos de seus quesitos técnicos (embora as sequências aéreas sigam empolgando), seu romantismo soa por vezes descabido na justaposição da atitude impávida e atrevida de seu protagonista, e o resultado da soma de suas partes é a um só tempo brega, estiloso, extravagante e arrojado –características que o tornaram um “prazer culposo” na opinião que grande parte de público e crítica. Entretanto, ninguém consegue esquecer “Top Gun”. Nem seu astro Tom Cruise.

Prova de uma qualidade quase indefinível que ele ostentou todo esse tempo é o fato dele ganhar edições especiais em outras mídias, e ser lembrado em várias listas que apontam os filmes mais relevantes e/ou famosos de Tom Cruise. E “Top Gun” não tardou a ser cogitado quando diversos revivals apareceram no cinema hollywoodiano para resgatar narrativas dos anos 1980 com remakes, reboots ou continuações.

Após alguns anos de atraso de seu lançamento original por conta da pandemia, eis que enfim o público teve a chance de descobrir como é a continuação de um filme que, a rigor, não necessitava de continuação alguma –tanto é que o próprio Tom Cruise jamais envolveu-se em qualquer projeto para uma sequência ao longo dos anos, construindo uma sólida carreira com produções novas e inéditas.

“Maverick”  reflete as circunstâncias que definem seu protagonista dentro e, sobretudo, fora das telas: Em 1986, Tom Cruise era um jovem astro emergente, e “Top Gun” foi a prova cabal que ele deu a Hollywood de sua capacidade para hipnotizar o público e carregar um filme inteiro nas costas. Agora, em 2022, ele é um dos maiores, senão o maior astro hollywoodiano, e conduz uma carreira de produtor desde 1996, com “Missão Impossível” –ele assina “Maverick” também como produtor e a ficha técnica do filme é um reflexo claro de escolhas feitas por ele próprio. No lugar do diretor original, Tony Scott, falecido em 2012, entra Joseph Kosinski que dirigiu Cruise em “Oblivion”, e demonstrou plena capacidade de potencializar e atualizar narrativas dos anos 1980 com “Tron-O Legado”. Entre os roteiristas, salta aos olhos o nome de Christopher McQuarie, diretor dos quatro últimos filmes da franquia “Missão Impossível”, e escritor especializado em melhorar e valorizar a qualidade do material que tem em mãos. Todas essas decisões levam ao belíssimo filme que chegou ao cinema, trazendo um alívio bem-vindo ao público, já desiludido com um baixo nível de qualidade nesta temporada.

Quando reencontramos o personagem icônico de Tom Cruise, o piloto de caça Pete “Maverick” Mitchell, já se passaram trinta e seis anos desde a última vez que o vimos. Contudo, ele permanece sendo o mesmo piloto intrépido e indomável de antes, o que justifica o porque de, apesar de colecionar feitos louváveis em combate, ele se mantém no posto de capitão –no início do filme, ele desafia a autoridade de um almirante da Força-Aérea (ponta de Ed Harris) para provar que pilotos humanos ainda são relevantes numa época em que os drones com inteligência artificial começam a substituir o instinto humano.

Dessa enrascada, ele é resgatado por ninguém mais, ninguém menos do que o Almirante “Iceman” Kazansky –o retorno de Val Kilmer para esse personagem é, inclusive, um dos momentos mais comentados pelo público, pelo bonito gesto de Tom Cruise em lutar para ter Val Kilmer (acometido de um câncer na garganta que, em 2020, o levou a uma traqueostomia) e proporcionar a ele uma chance de brilhar, mesmo que inserindo sua voz na pós-produção com recursos digitais. Além disso tudo –e do bom ator que ele sempre foi –o personagem de Kilmer, ainda que breve, tem uma importância vital: É com a autoridade de almirante que Iceman leva Maverick a ser escolhido como instrutor para os novos cadetes do curso conhecido como ‘ases indomáveis’, o mesmo que ambos disputaram no passado.

A tarefa de Maverick é espinhosa e complicada: Seu trabalho é treinar para uma missão tão complexa quanto suicida (o bombardeio sincronizado a uma fábrica subterrânea com poucas chances de retorno seguro) um grupo de jovens pilotos de caça competitivos, rebeldes e narcisistas. E não deixa de ser curioso o fato de que esta produção, deliberadamente ou não, acabe fazendo alusão, em sua premissa, à um elemento que existia na trama de “Águia de Aço” –o desafio dos caças-aéreos seguir por um cânion apertadíssimo em com sérios riscos de colisão –justamente um dos filmes B imitando “Top Gun” que afloraram nos anos 1980; tanto que seu apelido pejorativo era “Top Gun dos pobres” (!) Para dificultar a situação de Maverick, há um detalhe pessoal envolvido; um dos competidores é “Rooster” Bradshaw (Miles Teller), filho do melhor amigo de Maverick, Gooze, morto em uma das missões do filme anterior.

Diferente, portanto, do filme original, “Maverick” alcança seu protagonista num outro ponto de sua vida. Agora um veterano, Maverick tenta equilibrar sua ousadia com a necessidade de ser mentor de toda uma nova geração de pilotos, enquanto tenta estabelecer um vínculo afetuoso com seu passado. Nessa jornada de auto-descoberta, o fator romântico acaba ainda mais negligenciado que antes –a linda e oscarizada Jennifer Connelly, substituindo adequadamente Kelly McGillis, tem uma personagem de pouca ou quase nenhuma influência dentro da trama. No entanto, a direção de Kosinski transforma “Top Gun-Maverick” num espetáculo visual e cinético crucial para ser visto em cinema: A mescla dos efeitos práticos, tomadas digitais, sequências aéreas reais e a tenacidade notória do astro Tom Cruise transformaram as cenas de combate no ar em passagens prodigiosamente impactantes que, diferente dos trechos no filme original, dificilmente serão sobrepujadas pelo tempo.

Contrariando a máxima de que continuações nunca repetem o fascínio do primeiro filme –ainda mais sendo esse primeiro filme um cult de características peculiares e valor singular intrínseco na cultura pop –“Maverick” se mostra um primor de acabamento técnico (as referências ao marcante estilo visual e musical do primeiro filme são um show à parte), um roteiro ponderado e sensato (se não é genial em sua construção, ele corresponde perfeitamente ao que se espera de sua premissa) e um resgate digno e empolgante, mesmo para os saudosistas, de uma das mais envolventes narrativas comerciais da década de 1980.

sexta-feira, 5 de novembro de 2021

Colateral


 Max Durocher (Jamie Foxx, entregando um grande trabalho no mesmo ano em que arrebatou o Oscar de Melhor Ator por “Ray”) é um motorista de táxi de Los Angeles, assalariado em um trabalho que não lhe satisfaz, que vive planejando abandonar, embora no fundo, esteja apenas se enganado; a ocupação ‘temporária’ de taxista já tomou uma década inteira de sua vida! Numa noite desafortunada, ele é coagido por Vincent (Tom Cruise, num compenetrado e eficiente papel de antagonista), um assassino de aluguel, para quem dá carona em seu veículo, a acompanhá-lo e guiá-lo durante toda a noite aos locais da cidade em que deve fazer cada um de seus cinco "serviços".

O pobre motorista está convicto de que seu perigoso passageiro não o deixará terminar a noite vivo, e por isso planeja fazer algo para impedi-lo, e parar com os assassinatos.

Paralelamente, a circunstância em que se torna choffer do assassino leva Max e Vincent a estabelecer uma curiosa relação entre suas próprias perspectivas.

O excelente roteiro de Stuart Beattie chegou a parar nas mãos do brasileiro Fernando Meirelles (de “Cidade de Deus”), que enxergou na premissa um filme de comédia, até ser realizado e conduzido com brilhantismo pelo sempre competente diretor Michael Mann, que dele extraiu um conto espetacular sobre desilusão e urgência.

Para tanto, sua técnica assimilou maneirismos orgânicos das filmagens digitais –que ele empregou também em seu épico de gangsteres “Inimigos Públicos” –criando um expectro de luz e sombra para as filmagens que conferia ao registro da ação uma aura e uma impressão equilibradas entre o documental e o ligeiramente onírico; características que determinam com primor a natureza de sua trama.

Há um esforço tão nítido quanto admirável de Tom Cruise em conceder textura e profundidade reais ao seu primeiro papel de vilão, o que se sobressai, porém, é a magnífica composição de Jamie Foxx que, aliás, concorreu ao Oscar de Coadjuvante.

A dinâmica entre Max e Vincent, nas mãos desses dois grandes atores, no prisma formidável do inspirado roteiro e na condução peculiar e inteligente da direção, acaba sendo muito mais do que um duelo de egos antagônicos que culmina no incontornável embate físico: É também uma observação audaz sobre os vícios da vida moderna, sobre a corrupção que nos rodeia e sobre os empuxos drásticos e inesperados do destino.

Nesse exercício de gêneros sempre impecável que Michael Mann parece realizar a cada filme –mesclando concepções distintas de ação, mas sempre voltando à mesma categoria pela qual é apaixonado, o filme policial –ele vislumbra o cinema, tal como os grandes autores, como um laboratório onde se está em análise e experimentação a própria existência, o fluxo interminável de todas as coisas, transformando com isso uma premissa ameaçada de resultar banal numa obra tão inquisitiva, profunda, crua e reflexiva quanto “Clube da Luta”, de David Fincher.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

Dias de Trovão


 Top Gun sobre rodas” foi e continua sendo a mais perfeita definição para esta aventura ambientada nas pistas de corrida de stock-car, não apenas pela reunião do astro (Tom Cruise), do diretor (Tony Scott) e dos produtores (Jerry Bruckheimer e Don Simpson) daquele sucesso, mas também por trazer as mesmas junções de gêneros cuja receita se revelou bem-sucedida: Um retrato estiloso de um ambiente regido pela adrenalina, muita ação com um pouco de romance e drama humano. Desnecessário dizer que, com seu notório arrojo visual, o diretor Scott transforma as corridas de stock-car num espetáculo à parte.

O curioso é que, tendo chamado o gabaritado Robert Towne (de “Chinatown”) para escrever o roteiro, o projeto terminou ganhando novas características e elementos mais particulares. Para começar, quem dá o ponto de partida à trama é, na realidade, o personagem de Robert Duvall, Harry Hogge. Ele é tão protagonista quanto o personagem de Tom Cruise. Harry é um engenheiro de automóveis afastado do ofício devido a um acidente.

Ele é trazido da fazenda onde enfurnou-se para novamente atuar nas pistas como chefe de equipe pelo empresário Tim Daland (Randy Quaid). Entretanto, a estratégia de Daland para se sobressair na temporada e vencer a Copa Winston é financiar duas equipes distintas –o que acirra ainda mais a competitividade entre elas!

De um lado, a equipe chefiada por Harry, na qual o piloto é, afinal, o impulsivo Cole Trickle vivido por Tom Cruise; de outro, a equipe do habilidoso piloto Rowdy Burns (Michael Rooker).

Se quiserem conquistar a vitória, Harry e Cole precisam, portanto, superar animosidades dentro e fora das pistas, e Cole, principalmente, vencer seus demônios internos, o que inclui um repentino temor pela própria vida após sobreviver a um terrível acidente.

Menos lembrado pelo sucesso razoável que obteve no início da década de 1990, e mais por reunir em cena, pela primeira vez, o casal Tom Cruise e Nicole Kidman (eles passaram a namorar quando se conheceram no set de filmagem), “Dias de Trovão” ainda guarda eficiência e alta voltagem para empolgar expectadores mesmo nos dias de hoje, incluindo suas inesperadas qualidades enquanto cinema –o que o coloca até mesmo acima de “Top Gun”, seu mais incontornável objeto de comparação –como o roteiro de Towne que surpreende pela atenção criteriosa aos detalhes narrativos mais pertinentes, como a constante manutenção da relevância do personagem de Duvall, o complexo laço de amizade que se constrói a partir da rivalidade entre os personagens de Cruise e Rooker, o romance entre Cole e a Dra. Lewicki, personagem de Nicole –encaixado à trama com eficiência o bastante para disfarçar sua aleatoriedade –e a maneira com que todos esses elementos vão convergindo o filme para o seu clímax apoteótico na aguardada pista de Daytona.

Se “Dias de Trovão” não conquistou a mesma importância junto à cultura pop, nem o apreço junto a um tipo de público que passou a cultuá-lo da mesma forma que “Top Gun” ao longo dos anos, isso se deve menos aos seus predicados técnicos e artísticos e mais a uma série de fatores culturais referentes, inclusive, à época em que foram feitos: Os anos 1990, mais cínicos, já não tinham aquela mesma ingenuidade conceitual que tornou tão fascinantes algumas das obras dos anos 1980.

segunda-feira, 31 de agosto de 2020

10 Livros que poderiam render grandes filmes

Anos atrás elaborei uma lista de “10 Histórias em Quadrinhos que poderiam render grandes filmes”, agora, inspirado por aquela ocasião e pela constante fonte de material que a literatura fornece ao cinema, cito uma dezena de obras literárias que, francamente, não sei como um produtor ainda não se deu conta dos filmes sensacionais que poderiam se tornar.

Série Buchanan, de Julie Garwood –Famosa entre os escritores best-sellers dos EUA, Julie Garwood especializou-se em romances de época, no entanto, a ‘Serie Buchanan’ como é chamada representou uma de suas bem-sucedidas incursões em tramas contemporâneas.
São doze livros que acompanham os diferentes membros da família Buchanan, além de outros formidáveis personagens, em tramas que mesclam aventura policial, mistério e romance; e todas tão incrivelmente extasiantes e envolventes que chega a ser um absurdo até hoje uma adaptação cinematográfica não ter ganhado a luz do dia.
Houveram rumores, anos atrás, de que seria adaptado o primeiro livro da série, “Heartbreaker” (“A Confissão”, aqui no Brasil, onde foi publicado pela extinta editora Landscape), mas não surgiram quaisquer notícias desde então.

Nas Montanhas da Loucura, de H.P. Lovecraft –uma das melhores obras de um dos melhores escritores de literatura fantástica (a favorito de inúmeros diretores), que chegou até a inspirar indiretamente diversos outros filmes, até hoje não ganhou uma versão cinematográfica.
Um dos últimos esforços nesse sentido, partiu do diretor Guilhermo Del Toro, aliado ao astro Tom Cruise, que desejavam ver o filme feito, entretanto, as filmagens do longa “Prometheus”, de Ridley Scott, comprometeram a viabilização do projeto, já que o roteiro daquela produção foi abertamente baseado em elementos de “Nas Montanhas da Loucura”.

Vivian Contra O Apocalipse/Vivian Contra A América, de Katie Coyle –quando as adaptações de séries literárias ao estilo ‘young adult’ tornaram-se febre entre os estúdios hollywoodianos, com trabalhos como “Jogos Vorazes” e “Crepúsculo” ganhando as telas, esta curiosa, eletrizante e pertinente duologia escrita por Katie Coyle, cheia de ação e personagens sensacionais, estranhamente foi deixada de lado, embora ostentasse qualidade o bastante para render dois excelentes filmes.
O motivo? Provavelmente seu teor controverso, polêmico e delicado ao falar abertamente sobre a manipulação das massas pela religião, um assunto quase sempre explosivo que os puritanos estúdios norte-americanos morrem de medo da abordar.

Ruínas do Tempo, de Jess Walter –uma trama maravilhosa, que vai e volta no tempo, com personagens envolventes, uma mescla apetecível de romance, drama e comédia, além de graciosas e pontuais referências ao cinema americano em geral (e ao ator Richard Burton em particular!), poderia ser um daqueles filmes de cabeceira dos adeptos de um bom romance.
Mas o belamente construído texto do escritor Jess walter não chegou a virar um projeto de cinema, muito por conta da forma primorosa com que funde ficção com realidade –as celebridades reais envolvidas no âmago da história fictícia (como Burton e Elizabeth Taylor) poderiam confundir o público e fazê-lo crer que a deliciosa trama engenhada aqui fosse real; algo que poderia render um incômodo processo da parte dos familiares.

Piquenique Na Estrada, de Arkádi e Boris Strugátski –embora este livro já tenha sido, por assim dizer, adaptado no grandioso “Stalker”, de Andrei Tarkovski, o cineasta polonês lhe aproveita apenas o seu conceito básico e inicial (no qual uma ‘Zona’ onde alienígenas descarregaram material desconhecido, é sistematicamente invadida por humanos almejando lucro); todos os desenlaces, sub-tramas e personagens principais do livro não chegam a serem usados no filme, o que é uma pena diante do quão interessantes eles são.
Uma nova adaptação, bem mais fiel ao conteúdo do livro de fato, renderia não apenas um ótimo filme, como também um resultado bastante diferente do obtido na obra-prima de Tarkovski.

Carte Blanche, de Jeffery Deaver –a série “007” sempre foi de vento em popa nas telas de cinema, contudo, a partir de algum ponto entre os filmes de Roger Moore e de Timothy Dalton os livros de Ian Fleming (e de outros autores) deixaram de ser aproveitados em prol de roteiros originais, cada vez mais mirabolantes e menos densos.
As coisas só mudaram brevemente quando “Cassino Royale” foi adaptado na explosiva estréia de Daniel Craig no papel.
Se os produtores Barbara Broccoli e Michael G. Wilson quisessem uma nova e vigorosa aventura de Bond –propícia de repente para introduzir outro intérprete diante da inevitável aposentadoria de Craig –o livro escrito por Jeffery Deaver, “Carte Blancche” (dentre os dois que escreveu com o personagem), seria perfeito: Uma aventura de James Bond com todas as letras, com personagens enigmáticos, trama de ação e espionagem, um vilão memorável e megalomaníaco, e belíssimas mulheres, todos elementos orbitando seu fenomenal protagonista.

O Apanhador No Campo de Centeio, de J.D. Salinger –um dos livros mais célebres da literatura norte-americana (leitura obrigatória nas suas escolas) é também o título mais notório a engrossar a lista das obras inexplicavelmente sem uma versão cinematográfica digna.
Na segunda metade da década de 2000, surgiram rumores de que o recluso e autoral diretor Terence Malick (dono de características que refletiam adjetivos do próprio escritor da obra, J.D. Salinger) faria uma tão aguardada adaptação. Então, veio o premiado “A Árvore da Vida” e nada mais foi falado.

O Clube do Filme, de David Gilmour –a divertida e comovente história real de um pai que tenta se reconectar com o filho adolescente à beira da rebeldia e da delinquência através do cinema é um ‘few good movie’ pedindo para ser feito.
Um dos possíveis impedimentos para um projeto cinematográficos ganhar vida seriam as inúmeras menções, referências e citações aos diversos filmes que eles assistem (fundamentais à história) cujos direitos autorais, talvez, fossem complicados de serem obtidos.

Porque Ela Pode, de Bridie Clark –imagine “O Diabo Veste Prada” ambientado no universo editorial. Pois é exatamente essa a proposta deste livro divertidíssimo que poderia tranquilamente render uma produção mais modesta, mais viável e mais despojada da famosa comédia estrelada por Meryl Streep.
Para o papel da diabólica patroa que inferniza sua editora-assistente com mandos e desmandos abusivos e inacreditáveis é difícil não pensar em Isabella Rossellini.

Na Minha Pele, de Kate Holden –Que “Cinquenta Tons de Cinza”, que nada! Se há uma obra que reúne com excelência o sexo, o drama humano e uma autêntica relevância é esta daqui.
Trabalho autobiográfico da escritora australiana Kate Holden, “Na Minha Pele” relata sua via crusis de usuária de drogas à prostituta nas ruas de Melbourne narrada com contundência e raro lirismo.
Tão cativante é seu resultado que ele já rendeu uma continuação literária, “Noites Italianas”, que sinaliza desembocar numa trilogia com um terceiro capítulo ainda vindouro.
Quem sabe um produtor não se interessa?

terça-feira, 7 de julho de 2020

De Olhos Bem Fechados

Tendo o diretor Stanley Kubrick falecido cerca de cinco dias após completar a montagem da primeira versão deste filme, uma dúvida paira no ar: Quão mais Kubrick teria protelado a pós-produção se ainda tivesse mais tempo de vida para fazê-lo, e quão diferente “De Olhos Bem Fechados” seria daquilo que ele é, se isso tivesse acontecido?
Segunda colaboração do então casal Tom Cruise e Nicole Kidman –as anteriores foram “Dias de Trovão” e “Um Sonho Distante” –o último filme de Kubrick, o primeiro dele em doze anos, após “Nascido Para Matar”, é uma obra destoante daquele final da década de 1990 em que foi lançado; como invariavelmente seria destoante um trabalho partido da percepção cinematográfico única de Kubrick, em qualquer hora e lugar.
Numa revisão –e passados vinte anos, ele já recebeu inúmeras –“De Olhos Bem Fechados” deixa para trás a pecha de ‘pior filme de Kubrick’ que ele recebeu de muitos apressados na época e se constitui como uma obra notável, carregada de simbolismos tão vastos que tornam até essencial reassisti-la de tempos em tempos.
Sobre o que ele fala? Diante de muitas possibilidades, pode se dizer que ele fala sobre sociedades secretas e teorias conspiratórias, sobre armadilhas da mente e desenganos da realidade, sobre ciúme e paranóia. Tudo tem início quando o casal Bill e Alice Harford (Tom e Nicole) vão à uma festa da mansão do amigo Victor Ziegler (Sydney Pollack) –aliás, tudo tem início mesmo na cena que escancara a nudez estupenda de Nicole Kidman ao público!
Na festa, os dois flertam com desconhecidos (ele com duas modelos; ela com um aristocrata húngaro) exercitando uma certa provocação (e paradoxalmente um incentivo) à circunstância do próprio casamento.
Neste e em todos os seus outros trabalhos, Kubrick se mostra, afinal, de um apurado teor antropológico na maneira com que enxerga o comportamento social do ser humano, definido por contradição e dissimulação –e isso prossegue no retrato do dia-a-dia de Bill como médico (o flagrante da nudez de suas pacientes) em contraponto ao dia-a-dia doméstico de Alice (o flagrante, por sua vez, da nudez de Nicole Kidman novamente).
Ainda na festa, Bill salva uma prostituta de morrer de overdose no banheiro do próprio Ziegler e reencontra um amigo, Nick Nightingale (Todd Field, diretor de “Pecados Íntimos”), que tornou-se pianista. Dias depois, ele e Alice fumam maconha numa noite e, quando o assunto dos flertes durante a festa veem à baila, ela termina confessando as tentações de adultérios que experimentou (e às quais quase cedeu) sem que ele percebesse.
A crise matrimonial –encenada de maneira um tanto artificial por Kubrick –não tem tempo de se concluir; o telefone toca, e Bill é chamado para outro lugar. Um apartamento onde um importante conhecido acabou de falecer. Este trecho (e muito do que se segue depois) é um dos que mais alimenta a teoria de que tudo o que se passa ocorre na cabeça do protagonista: Lá, ele encontra uma mulher que rejeita o próprio noivo, professor de matemática, e até ignora o luto pela morte do pai para querer declarar seu amor a ele –a antítese, talvez, de sua desprendida e cruelmente pragmática esposa.
Uma fantasia gerada pelo orgulho masculino ferido? Talvez, e sobre esse prisma, tudo o que ocorre a seguir é uma escalada do protagonismo de Bill Harford na ânsia de não sentir-se medíocre nem inferior: A garota de programa (Vinessa Shaw, de “Amantes”) para quem ele é quase um príncipe encantado; o encontro de ares noir com Nightingale que o leva a cogitar uma travessura numa festa reclusa e privativa; e a visita de madrugada a uma loja para comprar uma fantasia, na qual testemunha a ninfeta de Leelee Sobieski satisfazendo a depravação de dois homens debaixo do nariz do próprio pai (!).
A sequência da festa de máscaras, logo convertida em uma orgia, é um pouco mais difícil de explicar; em parte, porque Kubrick era de uma procedência criativa e intelectual bastante enigmática. Entre códigos de mais fácil apreensão (um mascarado em forma de corvo sugerindo o mau agouro) e detalhes mínimos e diversos ali plantados, este é o ponto do filme a partir do qual sua maior ressalva ganha força: A de que o suspense levantado em torno de alguma ameaça existencial jamais se justifica, e termina realmente não levando a lugar nenhum.
Tendo sua travessura como penetra sido descoberta –e passado uma vergonha, além de um apuro tremendo –Bill passa a perseguir indícios de que isso possa representar algum perigo à sua vida. Na esteira dessa suspeita, as fantasias subsequentes encontram, todas, um choque de realidade: A garota de programa –que não mais aparece –tem, na verdade, AIDS; o dono da loja de fantasias (vivido por Rade Sherbedgia) foi convencido pelo ganho financeiro a deixar de lado sua indignação de pai para assumir de bom grado o papel de cafetão da própria filha.
E atenuando ainda mais essa narrativa algo contra-producente para com a própria tensão ressurge, já na parte final, o personagem de Sydney Pollack, a colocar panos quentes (e de efeito redundante) em muitos dos pontos de partida da premissa.
Da forma como ficou e como se pode interpretar, “De Olhos Bem Fechados” preserva uma instigante e velada tentativa de Kubrick em vislumbrar o âmago e o mecanismo das sociedades secretas; muito se especula que todo o mundo moderno que conhecemos é regido perante o que talvez seja um grupo de poderosos que manipulam nossa civilização –e o próprio Stanley Kubrick pode ter tido um vislumbre disso em vários episódios nebulosos e lendários que o cercam, como a teoria de que teria filmado, sob encomenda do governo dos EUA, o pouso dos americanos na Lua.
Entretanto, no caráter alegórico que possui, “De Olhos Bem Fechados” também pode ser de uma conclusão diametralmente oposta: A de que todas as teorias da conspiração que cercaram Kubrick e seus filmes –a exemplo da investigação atrapalhada do próprio Bill Harford (durante muito tempo, Kubrick cogitou, inclusive, fazer deste filme uma comédia) –não eram absolutamente nada senão invencionices da imaginação.
A dica é dada no final, pela personagem de Nicole Kidman: “Acho que devemos ser gratos por termos sobrevivido às nossas próprias aventuras... às reais e às irreais.”

quarta-feira, 11 de março de 2020

Toque de Recolher

Hoje em dia seria inconcebível ver atores consagrados e reconhecidos como Tom Cruise e Sean Penn serem coadjuvantes do pouco lembrado Timothy Hutton (ganhador do Oscar por “Gente Como A Gente”), porém, em projetos de início de carreira, tais curiosidades se sucedem, e “Toque de Recolher”, a exemplo de diversos filmes daquele período com elencos numerosos de novos talentos emergentes reunia um time de jovens atores que incluía também Giancarlo Esposito (de “Maze Runner”) e Evan Handler (da série “Californication”).
Na Escola Militar Bunker Hill, onde são formados cadetes ingressos na carreira militar desde muito cedo –alguns com pouco mais de 12 anos de idade –o jovem Brian Moreland (Timothy Hutton) é nomeado com honras cadete major, faltando um ano para formar-se e prestar testes para a tão sonhada West Point. Motivo de orgulho para seu mentor, o General Harlan Bache (George C. Scott) e de admiração para seus colegas, entre eles seu melhor amigo, o cadete capitão Alex Dwyer (Sean Penn).
Contudo, rumos dramáticos e inesperados mudam as coisas.
A Academia é vendida pelo governo e seu iminente fechamento anunciado para dali um ano –quando seu terreno cercado de longa tradição servirá para as dependências de um condomínio –termina por deixar seus estudantes perplexos.
Cuidadosamente, o filme dirigido por Harold Becker (de “Vítimas de Uma Paixão”) manipula os elementos com calma acirrando lentamente suas circunstâncias: Além da situação a um só tempo injusta e improvável, os jovens (sobretudo, Moreland) têm de lidar com a perda abrupta de sua figura principal de autoridade; o General Bache acaba acusado de atirar num civil durante um incidente ocorrido entre os cadetes e um grupos de jovens provocadores. Ele é levado sob custódia e, pouco depois, internado com problemas cardíacos.
Sem adultos para lhes instruir com algum bom senso prático, os jovens precisam tomar suas próprias decisões e, diante da arrogância de burocratas dispostos a acelerar ainda mais o processo já acelerado de fechamento da escola, o cadete major Moreland toma uma decisão radical; ele confisca os armamentos e coloca os rapazes de prontidão.
A escola está, portanto, de portas fechadas para todo o mundo lá fora.
Suas exigências: Rever todo o procedimento legal que levará ao fechamento da escola.
Entretanto, esses apelos sequer são ouvidos pelas autoridades externas –tudo o que eles enxergam é um grupo de jovens rebelados usando de seu treinamento militar para viabilizar uma atitude que enxergam como terrorista.
Curiosamente, o próprio filme que protagonizam não se furta de enfatizar uma certa reprimenda: O perfil dos realizadores hollywoodianos de hoje e de sempre, como se sabe, é majoritariamente anti-militarista, e é assim que se posiciona o filme de Becker. Embora o diretor ostente aquela paciência para construir a premissa e as motivações de seus personagens que diretores atuais não têm, ele vai aos poucos revelando sua inclinação, na forma de personagens de discursos ora inquisitivos (o personagem de Sean Penn vai adquirindo uma conduta e uma verve cada vez mais democrata), ora paternalistas (o personagem de Ronny Cox, de “Amargo Pesadelo”, presunçosamente sereno), terminando por não esconder uma faceta bastante tendenciosa: A circunstância tão bem construída ao longo do filme –e que gera momentos de notável suspense –só se perde na conclusão quase redundante na qual aqueles que não cedem em suas convicções surgem como truculentos e obcecados; e nesse sentido, o personagem de Tom Cruise chama mais a atenção que os demais por um trabalho bastante competente do ator.
Adaptado do livro “Father Sky”, de Devery Freeman, o bom filme de Harold Becker se sobressai por um clima fascinante de tensão que consegue manter e aprimorar do início ao fim, mas se prejudica por uma postura de negligência aos próprios valores com uma conclusão que banaliza a iniciativa de seus protagonistas.

terça-feira, 1 de outubro de 2019

Guerra dos Mundos

Foi com a clássica obra literária de H.G. Wells –já adaptada numa produção antiga de Sci-Fi em 1953, por Byron Haskin, na famosíssima transmissão radiofônica de Orson Welles em 1938 e em outros trabalhos menos expressivos –que o diretor Steven Spielberg finalmente se prestou a realizar uma refilmagem; ainda que seu filme busque se afastar (sobretudo, na predominante opção da modernização) da maior parte das comparações com os filmes já realizados a partir do texto.
Retomando a colaboração com o astro Tom Cruise, que resultou no memorável “Minority Report-A Nova Lei”, e novamente adentrando o terreno da ficção científica, Spielberg constrói uma obra que estranhamente contraria tudo o que, dentro deste tema, ele havia feito antes: Se em “Contatos Imediatos do Terceiro Grau” e em “E.T. O Extraterrestre”, os alienígenas de outro mundo ocupavam uma visível (e frequentemente simbólica) posição de afeto na consideração do diretor, aqui, ele cede ao antagonismo fácil e previsível de obras como “Independence Day” –que se inspirou profundamente na obra de Wells –e, mais especialmente, “Sinais” de M. Night Shyamalan.
E tal qual em “Sinais”, é do ponto de vista de uma família norte-americana comum (e disfuncional) que Spielberg opta por observar uma invasão alienígena ao planeta Terra.
Tom Cruise é Ray Ferrier, o relapso pai de família que deve cuidar de seus filhos durante o fim de semana, o adolescente Robbie (Justin Chatwin que foi o Goku na versão live-action de “Dragon Ball”) e Rachel (a então criança-prodígio de Hollywood, Dakota Fanning).
Quando ocorre a invasão –embevecida do trajeto sem igual de Spielberg ao lidar com espetaculares efeitos visuais –a inaptidão de Ray para cuidar dos próprios filhos é colocada à prova, na faceta em que melhor enxergamos as inquietações temáticas que mais definem Spielberg: O gesto quase involuntário de sempre introduzir em suas premissas um pai ausente dividido entre o amor aos filhos e a incompetência de sua paternidade.
Tudo o mais, estranhamente, vai na contramão do que o realizador habituou seu público a esperar dele: Uma falta de criatividade que assombra diversos momentos-chaves de sua narrativa (sobretudo, no que diz respeito à tentativa de deixar de lado o personagem de Justin Chatwin), o retrato nada lisonjeiro dos invasores alienígenas e a insistente perda da inocência de Rachel diante das atrocidades diretas e indiretas acarretadas pela invasão –e que se torna mais incômoda de ser acompanhada pela interpretação histérica de Dakota Fanning.
Pai e filhos, assim, singram as paisagens transfiguradas dos EUA a fim de encontrar refúgio junto da mãe das crianças (Miranda Otto, de “O Senhor dos Anéis-As Duas Torres”), divorciada de Ray e que se encontra em outra cidade longe do conflito.
A partir da segunda metade, surge no filme o paranóico personagem de Tim Robbins que parece tentar acrescentar mais tensão ao filme e converter sua narrativa em algo mais intimista e claustrofóbico, mas na final das contas, serve apenas para encher lingüiça mesmo, resultando desimportante.
Claro que as cenas de confronto com os alienígenas e os momentos em que vislumbramos o emprego de sua superior tecnologia bélica valem plenamente o espetáculo; Spielberg não poupa esforços para construir sequências memoráveis que parecem unir ao realismo de “O Resgate do Soldado Ryan” a incredulidade assombrosa da ficção científica –no entanto, apesar  dessa esmerada (e no fim das contas, belíssima) pirotecnia, também ali se vê uma falha: Na similaridade que o projeto de Spielberg acaba encontrando com “Sinais” –onde também vemos uma família tentando sobreviver a uma invasão alienígena ao planeta Terra –as suas inúmeras cenas grandiosas, vastas em efeitos computadorizados, perdem de longe para a poderosa e instigante sugestão de ameaças que não podemos ver, mas que se encontram bem próximas, existente na narrativa de Shyamalan.

terça-feira, 7 de maio de 2019

Jerry Maguire - A Grande Virada

Quando entregou o roteiro de “Jerry Maguire”, o diretor e roteirista Cameron Crowe não era tão reconhecido para além de pecha de promissor e ótimo escritor de diálogos –seus filmes até então restringiam-se aos simpáticos “Digam O Que Quiserem” e “Vida de Solteiro” –isso pode explicar porque ele teve lá seus contratempos e aborrecimentos com a realização do longa (reza a lenda que a Columbia Pictures exigiu que ele reescrevesse o roteiro trinta vezes!) e o fato do filme em si divergir um pouco de seu estilo e sua temática habituais na comparação com suas obras que vieram antes e que vieram depois.
“Jerry Maguire” é, em si, uma desconstrução de Cameron Crowe ao seu estilo mais moderno e atrelado ao romantismo dos novos tempos, das comédias de empuxo moral praticadas por Frank Capra.
A começar essa sua desconstrução, o filme de Crowe se permite começar onde quase todos aqueles outros acabavam: No momento em que o anti-herói descobre seu próprio caráter.
A partir daí, Crowe confronta esse personagem (interpretado com excelência por Tom Cruise) com os percalços espinhosos de sua escolha.
Jerry Maguire sempre foi um ótimo agente esportivo (profissão ilustrada com gracejo na cena inicial) e, portanto, dos muitos a explorar como abutres o talento dos atletas. Ao ser confrontado com a inesperada sinceridade infantil do filho de um esportista machucado, Jery tem, um dia, uma epifânia: Decide abandonar os objetivos mesquinhos e propor aos colegas de seu meio, que passem a pensar no melhor para seus atletas, valorizando assim o ser humano, e não o dinheiro que eles podem render.
É óbvio que Jerry acaba despedido, e tem, como única chance de manter-se nos negócios, um jogador encrenqueiro, impulsivo e ultrajante que ninguém quer representar, o incontrolável Rod Tidwell (Cuba Gooding Jr., vencedor do Oscar de Melhor Ator Coadjuvante e, de fato, roubando todas as cenas).
Ao seu lado, Jerry conta com a assistência de uma fiel secretária, encantada com seu súbito idealismo, a igualmente encantadora Dorothy Boyd (Renée Zellweger, revelada então neste filme).
Crowe molda assim uma graciosa comédia bem interpretada pelo trio central e roteirizada com perspicácia, valorizando justamente as circunstâncias e as dinâmicas que surgem eventualmente: O romance algo relutante entre Jerry e Dorothy, que não chega a explodir na tela, mas, se concretiza gradualmente em diálogos cheios de meiguice (“Você me ganhou no Olá!”) e pequenos detalhes; as aflições profissionais e pessoais do ótimo personagem Rod Tidwell às voltas com o racismo do meio e com as consequências de sua própria petulância (tão rica é essa faceta que ele poderia ganhar um filme só seu!); e as seguidas desilusões de Jerry em sua estoica tentativa de contrariar o cinismo e a vilania predominante em seu ímpeto.
“Jerry Maguire” não é o melhor trabalho de Cameron Crowe, e provavelmente não ocupa o topo da lista de nenhum de seus envolvidos, mas é bem construído e bem feito em todos os aspectos a que se propõe.