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quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Não Estou Lá

Consciente da desigual singularidade que seu biografado, o cantor e compositor Bob Dylan, experimenta na cena artística, o diretor Todd Haynes (também ele dono de um desigual pendor artístico) cria uma quase anti-biografia, num estilo solto e atrevido que, em seu inconformismo, sua ousadia e sua originalidade consegue evocar exatamente o espírito de Bob Dylan, e sua capacidade de não se deixar apreender ou rotular; existem pois seis personagens principais diferentes (!), interpretados por seis atores diferentes (um deles, inclusive, é uma mulher!).
E todos de alguma maneira são Bob Dylan.
E nenhum deles realmente é.
Em sua infância, ele é Woody Guthrie, vivido pelo pequeno Marcus Carl Franklin. Woody Guthrie é, na realidade, o nome homônimo também do cantor que Dylan venerava quando muito novo. Numa manobra que torna a confusão de identidades proposta pela narrativa ainda mais contundente, o pequeno Woody vai visitar o Woody Guthrie, verdadeiro e famoso, no hospital.
Um pouco mais velho, Ben Wishaw (o Q de “007 Operação Skyfall”) interpreta Arthur Rimbaud, homônimo, por sua vez, do poeta francês que serviu de fonte constante às citações de Dylan. Suas profecias e frases dissertativas sobre o mundo, a vida e o ser humano pontuam inúmeras passagens protagonizadas pelos outros ‘Dylans’.
Na metade da década de 1960, época da consolidação como astro emergente da música, mais precisamente em 1965, encontramos talvez a melhor dentre todas as personificações: O irrequieto Jude Quinn, vivido com detalhado brilhantismo por Cate Blanchett –que, por esta atuação concorreu ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante em 2008 –e, por incrível que possa parecer, a composição que mais se aproxima do Bob Dylan como ele é mundialmente conhecido: Um astro aclamado por seu dom musical singular, frequentemente inadequado ao próprio sucesso, cujo (mau) comportamento lhe arruma desafetos entre a imprensa e os puristas da música folk (gênero que, em sua genialidade, ele insistia em desconstruir).
Um ano depois, 1966, encontramos outro personagem que talvez seja uma peça nesse quebra-cabeça chamado Bob Dylan: Trata-se de Billy (Richard Gere), um homem absolutamente comum –e plenamente disposto a SER comum –a morar de forma humilde e reclusa em um afastado vilarejo.
Em 1966, Dylan sofreu um acidente de moto após o qual desapareceu durante tempo; Billy é a personificação desse ímpeto de reclusão de Dylan, uma tentativa dos realizadores compreenderem o que ele fez durante aquele tempo e, mais importante, o que se passava então em sua cabeça.
Já nos anos 1970, ele está de volta à música folk, desta vez como Jack Rollins (Christian Bale), um músico de sucesso que não tarda a enxergar, no alcance quase transcendental da música sobre as massas, um poder que chega às raias do religioso –e, disposto a ir até o fim nessa analogia, abraça essa similaridade convertendo-se, ele próprio, num líder religioso; como, aliás do ocorreu com Bob Dylan realmente numa reconhecida fase de sua vida.
Por fim, encontramos o ator Robbie Clark (o saudoso Heath Ledger, num dos últimos projetos antes de seu falecimento) escalado, por sua vez, a interpretar Jack Rollins em um filme. Robbie Clark, a espelhar tormentos do próprio Dylan, é assombrado por esse personagem exuberante, influente e carismático que esperam dele –uma atribulação que o persegue, como a uma maldição, em sua vida pessoal. Há um vislumbre, por sinal, de seu relacionamento com a carinhosa Claire (Charlotte Gainsbourg), mãe de seu filho, inspirada, por sua vez, em Sara Lownds, a primeira esposa de Dylan.
Se não é (e nem deseja ser) uma biografia no sentido convencional do termo, o trabalho de Todd Haynes faz uma investigação íntima cheia de propriedade na forma com que assume a complexidade de seu biografado fragmentando-o em distintas pessoas e personalidades, a explorar assim suas fases contrastantes de vida, as cores radicais que separam o público do privado, e o sentimento de ambiguidade inerente à arte e ao artista.
Um filme difícil certamente, mas tão enigmático quanto sedutor em sua bela originalidade.

segunda-feira, 4 de março de 2019

Longe do Paraíso

“Logo além do pecado, se encontra um mundo encantado”
Era inevitável a constatação de que o cinema de Todd Haynes, atento ao contraponto entre a normalidade das superfícies e o caos das profundezas, se ombreasse de alguma forma, à obra de Douglas Sirk, o diretor norte-americano que dedicou seu olhar à expor com forte melodrama as condenações implícitas da sociedade nos anos 1950.
Ao emular Sirk em “Longe do Paraíso”, Todd Haynes leva sobre ele a vantagem de pertencer ao presente, e com isso ter liberdade autoral para tratar abertamente de temas que na filmografia exigidamente discreta dele seriam completamente velados e absolutamente sugeridos, tais como o homossexualismo.
A vida de Cathy Whitaker (Julianne Moore, tão maravilhosa quanto na primeira colaboração com Haynes, “À Salvo”) aparenta ser imaculada –e tal perfeccionismo a leva a ilustrar capas de notícias enaltecendo sua vizinhança.
Entretanto, o filme de Haynes não tarda a revelar fissuras em meio à suposta perfeição. O marido de Cathy, Frank (Dennis Quaid, excelente) é ausente, cria justificativas tolas para não voltar para casa e, em instantes tratados com elegante elipse, Haynes vai deixando claro que algo está errado na harmonia do lar.
Num flagra tão doloroso quanto desconcertante, Cathy descobre o porquê: Frank é homossexual e muitas vezes não consegue conter seu ímpeto para buscar outros parceiros noite afora.
Ainda assim, ele tem consciência de que muita coisa depende da fachada de perfeição erguida em seu lar: Sua família (composta também por um casal de filhos pequenos e carentes de atenção paterna); seu emprego e, por consequência, seu futuro.
Frank se dispõe a submeter-se a todos os procedimentos médicos e psiquiátricos que supostamente poderiam tratar esse comportamento, como bem sinalizava a ciência dos anos 1950 de então, por meio do prisma preconceituoso da época.
No entanto, embora seja Frank e seu tormento o gatilho narrativo para as mudanças da premissa, é em Cathy que o eixo dramático de fato se concentra, pois, embora não seja ela o pivô de todo o drama, é ela quem sofre as mais injustas e indiretas consequências –e Haynes demonstra sua compaixão pela protagonista evidenciando a intensa e crescente tristeza nas circunstância que ela experimenta: Deixada de lado pelo marido, esmagada pelas obrigações e afazeres domésticos e sufocada pela necessidade de aparentar felicidade (quando, na verdade, por dentro desatina), ela encontra um consolo inesperado na amizade com Raymond (Dennis Haysbert), seu jardineiro negro.
A relação, definida por carência da parte dela e fascínio evidente da parte dele, progride inevitavelmente para um interesse romântico que as imposições não permitem que deixe de ser platônico –o que não impede que as fofocas resultantes dos menores gestos e dos mais inocentes indícios coloquem Cathy em maus lençóis junto da desumana concepção de sua comunidade.
Ao fim, Haynes ratifica mais do que apenas o drama: Ele mostra que, mesmo tendo sido Frank o transgressor por natureza, por assim dizer, foi Cathy quem teve de sofrer todos os revezes.
Mais do que um louvável retrato do homossexualismo em meio à um âmbito de considerações totalitárias (algo que Todd Haynes concretizou com “Carol”), “Longe do Paraíso” é um comentário sutil e inteligente sobre o papel sempre desfavorável da mulher nas injustas crises sociais.

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

A Salvo/Mal do Século


Lançado nos anos 1990, com sua trama ambientada nos anos 1980, este filme de Todd Haynes pode ser considerado o primeiro a tratar a década de 1980 como um período cuja atmosfera e percepção cultural (e não somente a reconstituição visual) são resgatadas.
Tal situação é necessária para que a premissa singular que ele possui faça sentido.
Julianne Moore (sempre de uma magnitude habitual) é Claire White, esposa de um executivo de classe média-alta (Xander Berkeley) e, como tal, tem uma bela casa para suprir do bom e do melhor.
Algo, entretanto, está errado com Claire: Ela tem crises inexplicáveis; sofre uma ansiedade repentina; falta-lhe ar subitamente (e de maneira atroz); seu corpo reage de maneira muitas vezes dramática e contundente.
Os médicos não conseguem achar nada de errado com ela. Não têm um diagnóstico para o quê a aflige. E, paralelamente, Claire só vê essa aflição piorar.
É um mero folheto de academia que parece sinalizar a ela com uma resposta: Em uma palestra, ela descobre um grupo de pessoas que adoece sem que a medicina de então tenha uma explicação para seus males. São pessoas cuja sistema imunológico foi comprometido pelo uso indevido de substâncias químicas corriqueiras no mundo moderno.
Em geral, essas substâncias não representam perigo para a maioria, mas uma pequena porcentagem (entre as quais, Claire está inclusa) é severamente afetada por elas.
Numa radical mudança de ambientação, o filme acompanha Claire, em seu terço final, a uma colônia onde tais pessoas se uniram e se refugiaram de tudo o que lhes transtornava.
Um local que exala estranheza à qual Claire se esforça para se adaptar. Mais do que uma bizarrice latente que a caracterização conduzida por Haynes faz questão de indicar, o quê perturba de fato o expectador nesse trecho é a sensação –reforçada por uma ausência de maiores informações –de que esse afastamento de Claire da família, da vida que tinha antes, de tudo é uma condição que ela terá de aceitar como irreversível.
Moldando um drama de características incomuns mas nem por isso menos contundentes, Todd Haynes entrega uma obra profética em relação à comportamentos que surgiriam de fato a medida que a humanidade caminhou para a virada do milênio.
Embora desconhecido do grande público, este é um dos grandes filmes (senão o único) a abordar com coragem e firmeza tais elementos.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Carol

Existem vários gêneros que coabitam esta obra de Todd Haynes. Existe, acima de todos, o melodrama ao estilo de Douglas Sirk, a referência cinematográfica suprema para Haynes, a julgar por seus trabalhos anteriores, desde o ótimo “Longe do Paraíso” até a minissérie “Mildred Pierce” –Sirk está para Haynes como Hitchcook um dia esteve para De Palma, um mestre ao qual lembrar e homenagear, do qual se pode extrair a matéria sempre abundante para as mais diversas sondagens da alma humana. 
Como nos filmes de Sirk, esta história se passa nos anos 1950, e como neles, a sociedade surge como um elemento que engessa a genuína liberdade de ser e de pensar que queima dentro dos personagens, neste caso, Therese (Rooney Mara) e Carol (Cate Blanchett), a primeira, uma jovem funcionária de uma loja de departamentos com um namorado fadado a ser seu futuro marido para a vida inteira; e a segunda, uma dona de casa de classe alta, mãe, esposa num casamento em frangalhos, vivendo exatamente o que Therese vislumbra, com desgosto, para ela mesma. 
Através de uma série de pequenos gestos e simples e corriqueiras ocorrências do dia a dia, as duas se apaixonam uma pela outra, e logo, ambas estão envolvidas numa situação à qual não saberão o que fazer, mas que as coloca contra o mundo todo. 
Os outros gêneros que habitam “Carol” são, certamente, o suspense: E sendo ele adaptado de um livro de Patricia Highsmith, esse é um elemento que flui dele com relativa espontaneidade, porém de forma inusitada –ao contrário de outras histórias da escritora, a atmosfera sufocante de que algo de errado foi cometido não surge a partir de um crime perpetrado (ao menos, não um crime nos moldes conhecidos), mas do comportamento das protagonistas, e da simples atitude em ousar serem felizes em seus próprios termos. 
Há também, é claro, o romance, que chega com uma dicotomia diferenciada, tal qual “O Segredo de Brokeback Mountain” e “Azul É A Cor Mais Quente”, devido ao aspecto homossexual. Mas, o romance, ao mesmo tempo que é o elemento mais interessante, mais intrigante (a mola que impulsiona a própria trama, na verdade) é também o fator que a direção de Todd Haynes mais parece negligenciar. Não são raras as vezes em que, pelo menos durante boa parte dos dois primeiros terços do filmes, ele nos frustra com encontros que se convertem em desencontros, palavras trocadas que nunca dizem o que desejam antes dizer, e silencio, muitos momentos de silêncio, onde podemos perceber que as duas atrizes são prodigiosas no ato de falar com os olhos. Isso nos faz sentir tão sufocados e oprimidos quando as personagens que não podem expor seus interesses, suas intenções e anseios nem mesmo à elas mesmas, e certamente esse é um dos objetivos da direção de Haynes, aqui certeira como poucas vezes se vê nos filmes de hoje. 
Ele emoldura suas duas brilhantes atrizes com detalhes de cena que reafirmam o tempo todo a condição delas naquela sociedade machista, conduzindo-as a uma inevitável catarse que ganha corpo aos poucos durante a travessa tentativa que ambas ensaiam de partir de carro para outro lugar, fugir talvez, dando espaço para outro gênero aparecer: O road movie. 
É nesse ponto que o romance enfim se consuma, numa cena magistral onde podemos conferir o poder imensamente sedutor de uma inesperadamente sexy Cate Blanchett (embora quem de fato fique nua em frente às câmeras seja a jovem e bela Rooney Mara). 
Tudo em “Carol” é, portanto, brilhantemente filmado. Brilhantemente interpretado e executado. Como os grandes filmes devem fazer. 
É nos pequenos detalhes deste grande trabalho, contudo, que Todd Haynes deposita a poderosa carga moral que dá a seu filme a sua força.