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sexta-feira, 1 de setembro de 2023

Invasão Secreta


 Há uma quebra de paradigma promovida pela Marvel Studios na minissérie “Invasão Secreta” –uma pena que essa quebra não tivesse se refletido em aumento de qualidade para o material: Adaptado de um aclamado arco em forma de saga nos quadrinhos, “Invasão Secreta” prometia emoções impactantes aos fãs. Como nas HQs, a Terra seria palco de uma silenciosa infiltração dos alienígenas transmorfos skrulls cujo plano seria o de usarem de suas habilidades para assumir, sem que os personagens principais (e o próprio público) soubessem, o lugar de algumas figuras conhecidas da Marvel, alguns deles, ocupando importante papel de influência junto ao governo norte-americano, promovendo assim uma série de mau-entendidos diplomáticos e conflitos governamentais que levariam à guerra e à extinção da Humanidade. Também, finalmente veríamos o magnífico Samuel L. Jackson e seu personagem, o agente Nick Fury, assumindo um papel protagonista que ele andava merecendo desde, pelo menos, sua aparição em “Vingadores”.

Ao menos, uma dessas promessas se cumpriu: De fato, é Nick Fury o grande personagem principal aqui, infelizmente, ele surge combalido, desanimado, desmotivado e, durante muito tempo, incapaz de se equiparar ao grande espião que havia sido antes, fruto das desilusões experimentadas pelos revezes das últimas décadas, incluindo o ‘Blip’ promovido por Thanos em “Vingadores-Guerra Infinita” –os realizadores, devem ter julgado que seria um diferencial interessante explorar uma faceta mais decadente de um personagem conhecido por sua astúcia, entretanto, do modo como é mostrado insistentemente na série, esse aspecto do personagem nunca soa válido dentro da narrativa servindo mais para engessá-la do que para torná-la melhor. Nesse sentido, é infinitamente mais vibrante prestar atenção na personagem de Olivia Colman, Sonya Falsworth, que surpreende o expectador e alguns dos personagens ao seu redor sempre que aparece, ao mostrar-se um passo afrente de todos os demais –uma característica que outrora pertenceu à Nick Fury.

“Invasão Secreta” tem início quando alguns agentes aleatórios da CIA conseguem identificar um skrull infiltrado entre agentes de campo que deveriam ser supostamente bem informados: Morto por Maria Hill (Colbie Smulders) e pelo skrull aliado Talos (Ben Mendhelson), o skrull espião havia assumido a identidade do Ag. Everett Ross (Martin Freeman) –a última vez em que vimos o que seria o verdadeiro Ross, ele estava, na verdade, refugiado em Wakanda, após os eventos de “Pantera Negra-Wakanda Para Sempre”. Isso traz Nick Fury de volta à Terra, interrompendo um auto-exílio que, sabemos, já ocorreu há anos –pois, pelo menos, o Nick Fury de “Homem-Aranha Longe de Casa” sabemos ter sido ‘personificado’ por Talos. Esses agentes identificaram um problema preocupante: Os skrulls, agora não mais liderados por Talos, mas por um jovem líder extremista chamado Gravik (Kingsley Ben-Adir, de “Barbie”) desejam usar de operativos disfarçados em cargos fundamentais nos governos dos EUA e do Reino Unido para fomentar uma série de ataques que levarão os Estados Unidos e a Rússia à Terceira Guerra Mundial, aniquilando a Humanidade e deixando o planeta livre para a ocupação skrull. Não somente isso, mas, como logo fica evidente em episódios posteriores, Gravik também quer garantir-se quanto à eventual interferência dos grandes super-heróis do panteão da Marvel –embora estranhamente nenhum deles jamais dê as caras nesta minissérie... –adquirindo vestígios genéticos de alguns vingadores e levando seus soldados à ganhar seus poderes, convertendo-os em superskrulls!

Dirigida por Ali Selim com uma deliberada (e equivocada) predisposição para a lentidão em detrimento da ação (normalmente uma especialidade da Marvel) e em prol de um suposto suspense (uma promessa de tensão que jamais se concretiza de fato), “Invasão Secreta” avança ao longo de seus seis episódios numa atmosfera e num ritmo que, estranhamente, sugerem, o tempo todo, a chegada iminente de um clímax que justifique todo o investimento do público em sua premissa titubeante, em seus personagens pouco envolventes e em suas soluções de roteiro nada originais –não lembra nem um pouco o sopro renovado de entusiasmo narrativo presente nas obras dos dez primeiros anos da Marvel Studios –mas, termina realmente se revelando burocrático, genérico, redundante e trivial. É de se lamentar quando uma minissérie –especialmente uma cercada de tantas possibilidades promissoras como esta –tem, como elemento que mais despertou interesse de discussão nos expectadores, a sua aflitiva abertura feita por Inteligência Artificial.

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Êxodo - Deuses e Reis

Apesar da lembrança ainda poderosa do épico clássico de Cecil B. De Mille, o diretor Ridley Scott arriscou em 2014, uma nova versão de “Os Dez Mandamentos”.
Vindo de uma tentativa controversa de retomar a série “Alien” (“Prometheus”), Scott moldou um projeto com deliberada aparência de Oscar: História mítica e grandiosa; diretor e equipe técnica renomados; elenco de astros talentosos; até mesmo a data de lançamento nos cinemas era estrategicamente propícia –meados de dezembro, fácil, portanto, de ser lembrado pelos votantes da Academia.
Deveras, Scott também tinha um objetivo bem claro em relação a essa nova repaginação: Abordar a jornada de Moisés (Christian Bale), o filho adotivo do Faraó que descobre ser o prometido libertador do povo hebreu, com um realismo táctil e desmistificador que ia de encontro aos tratamentos anteriores dados à história.
É razoável então que o retrato de Moisés, aqui, seja tão distinto da famosa personificação messiânica de Charlton Heston –Moisés quase ganha um viés de líder terrorista, enfatizado nas manifestações alucinatórias que ele alegadamente tem de Deus (que, na narrativa de Scott, adquirem a possibilidade de ser um mero surto).
E, dessa forma, são também abordados os outros momentos vultuosos da trama: As sete pragas do Egito (cujo respaldo científico de cada uma delas fornecido pelo roteiro faz lembrar o terror “A Colheita do Mal”, lançado pouco antes); a travessia do Mar Vermelho (da qual é removido o teor milagroso de que o mar se abriu, substituído por uma alternação ocasionada por maré alta e maré baixa); a concepção dos 10 mandamentos (mostrados como tendo sido esculpidos pelo próprio Moisés).
No raciocínio dos realizadores, essa é uma ideia que agrega audácia e originalidade à produção (e ainda uma chance de dar à história de Moisés toda uma reflexão ambígua), mas, no final das contas, isso resulta, em grande parte, frustrante.
Há, por exemplo, um premeditado clima de preparação quando o filme adentra seu último terço, no qual se cria expectativa para uma inédita batalha entre os oprimidos hebreus e os opressores egípcios.
Nada, porém, acontece: Scottt, apesar dos lampejos pouco contundentes de subverter a história conhecida, termina por segui-la com proximidade.
“Êxodo” é assim uma superprodução indefinida entre a intenção reverente de manter-se algo fiel ao filme clássico (almejando com alguma pretensão o reconhecimento que ele desfruta) e o ímpeto transgressivo (mais na teoria que na prática...) de oferecer um viés inesperado do famoso episódio bíblico.

quinta-feira, 7 de março de 2019

Capitã Marvel

A homenagem à Stan Lee (1922-2018) que antecede o filme é linda e, partida da própria Marvel Studios cujos personagens ele concebeu, tinha de ser muito especial mesmo.
É a primeira das várias emoções que “Capitã Marvel” leva o expectador a experimentar.
Aguardada obra da Marvel por trazer pela primeira vez uma protagonista feminina, o filme faz jus a todo seu significado implícito entregando uma deliciosa trama sobre descobertas, perseverança e heroísmo –como o são alguns de seus melhores exemplares.
A protagonista em questão (interpretada com minimalismos sensacionais por Brie Larson) começa o filme chamada pelo nome de Vers, e seu passado é envolto em mistério –tudo que ela tem são lembranças inconclusas e fragmentadas, aos quais, pouco a pouco, a narrativa trará de dar pleno significado.
Vers é membro de um grupo denominado Star Force, liderado pelo guerreiro alienígena Kree, Yon-Rogg (Jude Law, autoritário e ameaçador) e, no espaço sideral, sua missão é perseguir e exterminar os alienígenas contra quem os Kree travam uma guerra ininterrupta, os transmorfos conhecidos como Skrulls –cuja fidelíssima e espetacular personificação realizada neste filme vai fazer os ávidos fãs de quadrinhos espumarem de satisfação!
Numa manobra típica de embates conspiratórios, Vers acaba prisioneira dos Skrulls e descobre o interesse deles pela Terra, planeta onde ela acaba vindo parar –e assim, descobrimos que o filme se passa nos anos 1990 (e, por consequência, é como uma pulsante aventura dos anos 1990 que ele vem a se parecer) e que Vers –na verdade, Carol Danvers, já viveu aqui, sendo ela muito mais humana do que pode imaginar.
O roteiro de “Capitã Marvel” –assinado pelos diretores Anna Boden e Ryan Fleck, e por Nicole Perlman (co-roteirista de “Guardiões da Galáxia”) –é uma sucessão de achados: Faz da Guerra Kree-Skrull uma justaposição alegórica da guerra entre palestinos e israelenses; usa do fio narrativo subjetivo da personagem principal para moldar uma incomum trama de origem; vale-se de expedientes inesperados para introduzir detalhes riquíssimos (o que ajuda, inclusive, o ótimo elenco a brilhar); e ainda conduz a história com uma junção de aventura, ficção científica, escapismo e empatia tão afiada e fluida que se torna delicioso assisti-lo –poderia ter três horas de duração que passariam numa brisa.
A produção adquire uma miríade de referências que os fãs tanto adoram quando, na Terra, Carol Danvers conhece o agente Nick Fury (Samuel L Jackson, magnífico numa versão digitalmente rejuvenescida do personagem) e descobre que os Skrulls estão infiltrados na poderosa S.H.I.E.L.D., no entanto, a definição do que são inimigos de fato será colocada em xeque quando Carol descobrir melhor as motivações de Talos (Ben Mendelsohn, ótimo), até então o grande vilão do filme.
Ainda assim, apesar dessas qualidades intrínsecas (boa parte delas, inerentes aos trabalhos da Marvel), o grande valor de “Capitã Marvel” está na inspiração, não só aquela que ele emprega (e que vem muito da força de Brie Larson), mas também aquela que ele exala: Nenhum filme do cinema moderno –nem mesmo o formidável “Mulher Maravilha” ou o já icônico “Jogos Vorazes” –faz tanto pelo movimento do empoderamento feminino quanto a história de Carol Danvers. Por meio dela, a Marvel Studios constrói o filme que a DC deveria ter feito para o Superman, mas não soube como fazer.
A partir de agora, é seguro dizer, toda uma geração de meninas e mulheres crescerá tendo o exemplo salutar de bravura e tenacidade de Carol Danvers para se inspirar.

domingo, 13 de maio de 2018

O Destino de Uma Nação



Prova do talento cada vez mais evidente do diretor Joe Wright (que realizou o não muito reconhecido, porém, maravilhoso “Orgulho e Preconceito”) é a maneira brilhante e cheia de estilo que ele encontra para desvencilhar este notável recorte dos primeiros percalços de Winston Churchill como Primeiro-Ministro da Inglaterra na Segunda Guerra Mundial de suas contrapartes cinematográficas, sejam as mais redundantes (o vencedor do Oscar de Melhor Filme –ainda que longe de ser merecedor –“O Discurso do Rei”), sejam as mais primordiais (o grande trabalho de Spielberg em “Lincoln”).
Sem medo de mergulhar nos meandros políticos de seu roteiro –aos quais o filme se dedica integralmente –mas, mantendo uma narrativa sempre dinâmica e envolvente, mergulhamos no caos político do Parlamento Inglês às vésperas da invasão da França pelas tropas alemãs.
Uma guerra sem precedentes ameaça a Europa e o então Primeiro-Ministro Chamberlain, afirmam seus opositores, não tem o perfil adequado para liderar o país em tempos de guerra. O partido assim se vê obrigado a indicar um novo nome para o cargo; e o único que parece ser politicamente viável é aquele eles menos querem: O explosivo e intransigente Winston Churchill (Gary Oldman) lembrado pelo lamentável episódio envolvendo o exército britânico em Galipoli.
Churchill aceita o cargo oferecido pelo rei George VI (Ben Mendelsohn, vivendo o mesmo personagem retratado em “O Discurso do Rei”) já com todas as armadilhas políticas de seus adversários prontas para tirá-lo de cena: Seus correligionários querem se isentar da guerra fazendo um acordo de paz com a Alemanha e a Itália.
Suas justificativas são as derrocadas quase consolidadas da Bélgica, da França e da Holanda, bem como a periclitante situação do contingente britânico na cidade francesa de Dunkirk (o quê estabelece entre a premissa deste filme e a de “Dunkirk”, de Christopher Nolan, um diálogo rico em informação histórica), na qual foi encurralada praticamente toda a infantaria do Reino Unido.
Sob pretextos pacifistas, os partidários desejam, portanto, uma rendição.
Mas, Churchill é um osso duro de roer e, em sua beligerância, não deseja render-se tão fácil; e, em função disso, a caracterização de Gary Oldman encontra uma precisão singular –o Oscar de Melhor Ator que ele finalmente recebeu veio assim a coroar o trabalho mais formidável numa carreira cheia de trabalhos formidáveis.
Com efeito, a narrativa do diretor Wright, parece acompanhar outros personagens no conseqüente reflexo em espantar-se com tal presença –o principal deles sendo a secretária Miss Layton, vivida pela bela Lilly James (de “Em Ritmo de Fuga”).
O quê conduz à seqüência em que Churchill, ao seguir um conselho dado pelo rei (“Ouça o povo!”) resolve andar de metrô pela primeira vez na vida (!) e, no processo, descobre a opinião dos cidadãos ingleses acerca de Hitler e da guerra; o filme de Joe Wright caminha assim na direção de sua maior e mais emocionante cena (ciente de que tem um enorme trunfo na fenomenal atuação de Oldman) quando Churchill faz seu famoso discurso diante do Parlamento e reitera, de uma vez por todas, a sua posição (e a da Inglaterra) diante do conflito injetando, num país abalado pela baixa moral, fôlego e ânimo suficientes para que o Reino Unido se mantivesse firme contra os nazistas por mais uns bons anos até que o ataque à Pearl Harbor levasse os EUA enfim a ingressar na Segunda Guerra Mundial.

segunda-feira, 2 de abril de 2018

Jogador Nº 1

Talvez só fosse possível mesmo que Steven Spielberg dirigisse este filme: Da forma como está, “Jogador Nº 1” é um caldeirão tão amplo e diversificado de referências à cultura pop (a exemplo do livro escrito por Ernest Cline que o inspirou) que somente alguém com a influência de Spielberg conseguiria uma aprovação para todos os personagens, itens e menções que proliferam em cena –este é um daqueles filmes que podemos ver quatro, cinco vezes, e em todas notar um elemento novo, uma outra informação visual.
Com toda sua atenção aos detalhes voltada para a cultura pop do final do século XX e início do século XIX, o “Jogador Nº 1” tem, contudo, sua trama ambientada num denso e detalhado futuro, o ano de 2045, quando a humanidade, cuja desigualdade entre ricos e pobres atingiu um extremo ainda mais superlativo que o dos dias de hoje, escolheu parar de importar-se com seus problemas e emergir coletivamente num mundo virtual chamado “Oásis” –uma espécie de “Matrix” à qual seus usuários se perdem de muito bom grado.
“Oásis”, porém, não é um mundo que replica a realidade do nosso, muito pelo contrário: É um lugar de cenários assombrosos e impossíveis (concebidos com singular noção de espetáculo pela direção de fotografia de Janusz Kaminski) no qual todos podem ser e ter aquilo que quiserem, criando avatares para si mesmos onde são fortes, hábeis e belos na medida proporcional de sua própria vontade, e onde conseguem obter utensílios tão preciosos e inacreditáveis como ter o DeLorean da Trilogia “De Volta Para OFuturo” como carro de corrida, a ‘granada santa’ de “Monty Python Em Busca do Cálice Sagrado”, a arma giratória do filme “Krull”, ou uma carcaça de robô idêntica ao do “Gigante de Ferro” –e estas são só algumas das referências intensas e simultâneas que se atropelam em cena!
Prova de que a caracterização futurista de Ernest Cline, e agora do diretor Spielberg obedece a uma natureza tão nostálgica quanto referencial é que sua trama guarda bem disfarçados elementos de “A Fantástica Fábrica de Chocolates”: Como naquele clássico, o grande e cultuado proprietário criador do “Oásis”, o lendário James Halliday (vivido por aquele que Spielberg elegeu seu mais recente ator-assinatura, Mark Rylance, vencedor do Oscar por “Ponte dos Espiões”) faleceu sem deixar herdeiros que cuidem (e usufruem) daquela que, sem sombras de dúvida, é a maior e mais lucrativa empresa do planeta Terra.
No entanto, Halliday tinha um plano: Antes de morrer, ele deixou um ‘easter egg’ escondido em algum lugar das imensidões incalculáveis do “Oásis”. Aquele que tiver a sorte de achá-lo, após uma enigmática trilha de pistas que se iniciam com uma chave, será dono de tudo. Entretanto, cinco anos depois, absolutamente ninguém chegou sequer perto de encontrar uma pista de onde tal tesouro está.
Isso até o jovem e inteligente Wade Watts (Tye Sheridan, de “X-Men Apocalypse” e “Como Sobreviver A Um Ataque Zumbi”), na forma de seu avatar, Parcival, descobrir um meio de obter a primeira chave (dentre três) graças à improvável dica encontrada por acaso num dos incontáveis vídeos digitais deixados por Halliday –com isso, ele ganha a primeira chave numa corrida que envolve a moto icônica de “Akira”, o veículo de “Christine-O Carro Assassino”, o batmóvel da série do “Batman” dos anos 1960 e tem, em sua perigosa fase final, o gorila gigantesco de “King Kong”.
Se antes Watts era só mais um jovem usuário do “Oásis” em meio à tantos, essa descoberta fez de seu avatar, uma verdadeira celebridade. Ele agora é o ‘Jogador N° 1’ –e tal privilégio agora faz dele inesperado alvo de Ártemis, o avatar de uma garota que há muito Watts queria conhecer (e que é interpretada pela gracinha Olívia Cooke, de “Eu, Você e A Garota Que Vai Morrer”), além de também colocá-lo no radar de Nolan Sorrento (Ben Mendelsohn, de “Rogue One”), atual chefe corporativo da tentacular “Ioi”, uma organização que não vai medir esforços (e nem escrúpulos) para ganhar tal torneio e se tornar proprietário de todo o “Oásis”.
Além de exercer sua técnica brilhante ostentada em praticamente todos os seus grandes filmes e visivelmente aprimorada ao longo de suas décadas de experiência, Spielberg tem a chance, em “Jogador N° 1”, de extravasar toda sua faceta de cinéfilo (normalmente, mais contida que a de Martin Scorsese, por exemplo), e nerd: Saltam na tela detalhes que remetem a jogos de videogames, músicas dos anos 1980, desenhos animados e filmes, muitos filmes: São visíveis, em inúmeros momentos, citações implícitas ou explícitas de “Indiana Jones”, “O Senhor das Feras”, “Alien-O 8º Passageiro”, “Superman-O Filme”, “As Aventuras de Buckaroo Banzai”, “Os Embalos de Sábado À Noite”, o assassino Jason de “Sexta-Feira 13”, o Freddy Krueger de “A Hora do Pesadelo”, o Chucky de “Brinquedo Assassino” e “Godzilla” –ou mais necessariamente o “Mecha-Godzilla”!
Nada, contudo, se compara à homenagem extraordinária que ele presta –em meio à uma seqüência inteira –ao seu grande amigo Stanley Kubrick e à “O Iluminado”, cujas cenas o filme recria com exatidão embasbacante; só faltou mesmo uma participação de Jack Nicholson!
Spielberg, após uma sucessão de trabalhos de orientação mais séria, criou a maior e mais eletrizante sucessão de referências já acumuladas no cinema, e que dificilmente será superada nos próximos anos.

quinta-feira, 4 de maio de 2017

O Lugar Onde Tudo Termina

Um personagem. Um motociclista. De índole tão inconseqüente e auto-destrutiva que, de início, sabemos que ganha a vida arriscando-se em apresentações num globo da morte. Esse é o estopim narrativo que principia este trabalho do diretor Derek Cianfrance, mais ambicioso do que o elogiado “Namorados Para Sempre” –ou “Blue Valentine” –tornando aqui a trabalhar com o ator Ryan Gosling, intérprete justamente desse personagem, Handsome Luke, e dele arrancando uma notável atuação.
Na interpretação de Gosling, Luke desafia o público: Dentre os vários personagens é, de longe, aquele que mais monopoliza o expectador, apesar de tudo que ainda virá, ele obtém facilmente sua afeição, embora cometa o tempo todo atos que não o fazem merecedor.
Que o diga Romina (interpretada por Eva Mendes) uma antiga aventura que Luke descobriu carregar um filho seu.
Disposto a arcar com a paternidade, Luke entra em atrito com o então marido de Romina, Kofi (Mahershala Ali, de “Moonlight-Sob A Luz do Luar”), e termina associando-se ao escuso Robin (Ben Mendelsohn, de "Rogue One”) com quem envereda para o crime, assaltando bancos.
Por sua personalidade e por sua necessidade, esses serão atos que ele não será capaz de interromper.
Em algum momento, portanto, o caminho de Luke cruza-se com o do policial Avery Cross (Bradley Cooper, ótimo) e então o filme o abandona, por assim dizer.
Num recurso bastante inesperado, é Avery quem assume o centro da trama quando o filme já abandona seu primeiro ato e, embora os elementos do plot anterior jamais sejam esquecidos, a obra de Cianfrance, em alguns momentos, parece ter se metamorfoseado num outro filme, desta vez acerca das aflições de um jovem policial ambicioso cercado de corrupção por todos os lados.
Mais a frente, com habilidade inata, também essa premissa irá se modificar, restabelecendo o caráter humano de sua história.
Dito isso, é realmente notável como a narrativa transfere com surpreendente naturalidade o protagonismo de um personagem para o outro (primeiro, Ryan Gosling, uma lembrança que persiste por todo o filme; depois, Bradley Cooper; e, por fim, o jovem Dane Deehan) numa trama sobre culpa, destinos que se entrecruzam e conseqüências do passado, que se estende por décadas.
Neste filme, assim como no anterior “Blue Valentine” e no posterior “A Luz Entre Os Oceanos”, o diretor Derek Cianfrance demonstra grande interesse por laços familiares que se formam por caminhos tortos, bem como o sinuoso e corrosivo efeito que eles desenvolvem nas vidas dos envolvidos ao longo dos anos.
A maneira hábil com que ele consegue compreender tais desdobramentos dramáticos e a forma certeira e talentosa como os expressa em cena é o grande brilho deste filme.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Rogue One - Uma História Star Wars

Quase a completar um ano desde a última vez, me sinto novamente na obrigação de agradecer à Disney. Agradecer por terem conseguido comprar os direitos da Lucasfilm do criador em pessoa, George Lucas, e a partir daí reiniciar a saga “Star Wars” com o ímpeto que os fãs sempre sonharam.
E uma lucidez cinematográfica que se esvaiu quase que por completo da consciência de Lucas como realizador nas últimas décadas (como atesta a pecaminosa "Trilogia Prólogo").
Os novos proprietários da saga almejam lucro nas bilheterias, claro, não sejamos ingênuos de pensar o contrário, mas nesse intento, a visão corporativista da Disney não deixa de lado aquilo que unicamente importa ao expectador que paga seu ingresso no cinema: O filme.
Tal e qual é feito com a Marvel Studios, a saga “Star Wars” está agora nas mãos de pessoas antenadas com os anseios dos fãs, e atentas aos valores cinematográficos empregados em suas produções.
O que faz de “Rogue One”, o mais refinado produto concebido dessa junção até aqui.
Ele tem início alguns anos antes da entrada definitiva de Luke Skywalker no conflito, e alguns bons anos depois dos trágicos acontecimentos relatados no “Episódio III-A Vingança dos Sinth”, e lança de imediato seu olhar sobre uma jovem chamada Jyn Erso, antes mesmo que os créditos iniciais –ligeiramente diferenciados dos filmes principais da saga –apareçam.
Jyn (a linda e maravilhosa Felicity Jones) perdeu o pai e a mãe para o Império Galáctico. A mãe, porque esta foi morta pelo venal Almirante Krennic (Ben Mendelsohn), e o pai, porque este foi cooptado, logo em seguida, para usar seu talento como projetista tecnológico para o Império. Quem criou Jyn, nesse ínterim, foi o contundente e radical Saw Gerrera (Forest Whitaker, extraordinário participação como um personagem essencial ao cânone da saga, e que reflete, de uma certa maneira, em sua imponência ameaçadora, nos detalhes truculentos de sua armadura, e até na respiração artificial ressonante, o próprio Darth Vader).
Apesar disso tudo, Jyn quer distância da guerra entre Império e Aliança Rebelde que sacode a galáxia. Ainda assim, não é o quê vai acontecer e sua trajetória irá se cruzar com outros personagens, como o capitão Cassian Andor (Diego Luna), o dróide K-2SO, o monge crédulo da Força Chimrut Imwe (Donnie Yen), o ex-soldado Maze Malbus (Wen Jiang), o desertor Bodhi Rook (Riz Ahmed), todos destinados a protagonizar este que é uma espécie de “elo perdido” da saga “Star Wars”: Ele estabelece uma ligação informativa, dramática, factual e emocional entre os episódios III e IV, e entre a trilogia clássica (aquela que realmente vale para os fãs!) e as séries animadas “Clone Wars” (por meio do personagem de Saw Gerrera que aparece como um jovem) e “Rebels” (de onde é oriundo o vilão Orson Krennic).
Falando em vilões, eles respondem por alguns dos momentos de maior empolgação de “Rogue One”, não apenas pela devidamente espetacular aparição de Darth Vader (com toda a pompa e circunstância que merece e tratado como uma divindade pela narrativa), mas também pelo inteligente uso do oficial Moff Tarkin.
Explica-se: Tarkin (interpretado no filme de 1977 por Peter Cushing, falecido em 1994) era um oficial superior do Império de suma importância na hierarquia –chegava a dar ordens em Darth Vader! –e que morre no final daquele filme durante a destruição da Estrela da Morte –em torno da qual, todo o planeta deve saber, a trama de “Rogue One” gira. Pois, Tarkin reaparece aqui, fundamental à narrativa, como tinha que ser, e ainda interpretado por Peter Cushing no que é um dos trabalhos de concepção digital mais espetaculares do ano –as ferramentas cinematográficas finalmente rompem algumas barreiras antes tidas como intransponíveis.
“Rogue One” é, no fim das contas, por meio disso tudo, da primorosa direção de Gareth Edwards, do requinte comovente de seu roteiro, do empenho apaixonado de seu elenco, e da textura real e vívida de seu acabamento visual, uma imersão em um outro mundo, através das mais vastas experiências sensoriais. Algo que sempre foi (ou deveria ser) o objetivo de “Star Wars”.

domingo, 17 de abril de 2016

Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge

Christopher Nolan enfrentou dois grandes problemas ao realizar a última parte de sua cultuada trilogia.
O primeiro: como contornar a morte do insubstituível Heath Ledger como Coringa? 
E o segundo: como igualar o nível de qualidade estratosférica de um filme como “O Cavaleiro das Trevas”? 
A dura verdade é que, em ambos os casos, isso era impossível.
Entretanto, Nolan conseguiu um encerramento digno e magistral com este “O Cavaleiro das Trevas Ressurge”. Desta vez, o tema é a dor. A dor de saber que seu corpo não é mais capaz de realizar as proezas do passado. A dor que, em última instância, deve ser superada, para que um objetivo maior seja conquistado. E o vilão Bane (interpretado pelo fantástico Tom Hardy) é a personificação da dor: ele usa, o tempo todo, uma máscara para que um gás o poupe justamente da dor que os ferimentos em seu rosto o fariam passar; e ele promete fazer o herói viver toda uma jornada de dor, ao lesionar sua coluna (na sensacional reprodução de uma das cenas mais marcantes da trajetória do Batman nos quadrinhos), para só então ressurgir, e restabelecer a justiça e a ordem, como ele almejava, desde o primeiro filme.
A ausência de Heth Ledger, e seu fenomenal Coringa, é sentida, inclusive na omissão proposital que a narrativa faz ao personagem. 
Felizmente, para Nolan, o catálogo de coadjuvantes do Batman sempre foi vasto em presenças memoráveis, de forma que aqui, ele pode lançar mão da Mulher-Gato (maravilhosamente personificada por Anne Hathaway) e de Talia Al-Ghul (Marion Cottilard, cuja personagem acaba fazendo uma interessante conexão com o primeiro filme “Batman Begins”).
Este último capítulo honra todos os predicados hiperlativos dos filmes anteriores, encerrando a história de Batman em definitivo de maneira sólida e respeitosa, fortalecendo a trilogia como um todo. Um grande e memorável trabalho de Christopher Nolan.