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domingo, 22 de março de 2020

Chernobyl

Magnífica minissérie da HBO que reconstitui o conhecido e terrível episódio real (que há tempos merecia uma boa reconstituição cinematográfica) do vazamento radioativo da Usina Nuclear de Chernobyl, na Ucrânia Soviética.
Dirigida com vigor insuspeito pelo jovem Johan Renck, a minissérie é sucinta e objetiva: Vai direto ao ponto mostrando, já em seus primeiros minutos, o acidente fatídico deflagrado na madrugada de 27 de abril de 1986, quando em meio a um teste de segurança, o reator nuclear apresenta instabilidade alarmante em seus índices de pressão e, ao ser realizado o protocolo de desativação emergencial, explode contra todas probabilidades.
Tão improvável era esse fato que as autoridades maiores presentes na usina na ocasião –imbuídas, além de tudo, da irredutível mentalidade soviética de então –relutam em aceitar a catástrofe como ela é: Chamam os bombeiros para conter o que acreditam ser um mero incêndio, alertam a população de que foi um incidente menor já devidamente controlado, e censuram com veemência ameaçadora aqueles que percebem de imediato o perigo real que se anuncia.
As fatalidades começam a se somar ao longo da noite. Mesmo diante de afirmações de operários –alguns em estado já quase moribundo pela exposição à radiação –os diretores se recusam a crer que o reator tenha explodido.
Quando o presidente Mikhail Gorbachev em pessoa (interpretado por David Dencik) cria um comitê para avaliar, com alguma indiferença, os detalhes do acidente, é o vice-diretor do Instituto Kurchatov, Dr. Valery Legazov (Jared Harris, sensacional), quem alerta para pequenos detalhes do relatório: Como as descrições de pedaços de minérios na cobertura do prédio como sendo destroços de grafite (material que só existia no interior do reator) e as leituras de radiação consideradas baixas simplesmente porque registravam o número máximo marcado nos dosímetros comuns.
Quando Legazov é despachado para Chernobyl ao lado do responsável por controlar a crise Boris Shcherbina (Stellan Skarsgard), a precipitação radioativa já se espalhou até a cidade mais próxima, Pripyat, contaminando toda a população, o solo, os animais, as árvores, as plantas e toda sorte de objetos pelo caminho.
E a grande cratera ainda estava aberta e em chamas, despejando material nocivo na atmosfera a cada hora que se passava.
O trabalho esplêndido do diretor Johan Renck vale-se magistralmente do formato minissérie justamente para abranger todo o escopo detalhado e inacreditável da extensão científica, logística, física e humana do acidente, construindo com esse empenho cenas poderosas que dificilmente abandonarão a memória do expectador.
É um daqueles casos em que a grandiosidade necessária da história justifica seu formato: “Chernobyl” dá corpo assombroso e envolvente aos desdobramentos do acidente trágico, mas eles emolduram um trama na qual seu conteúdo vem repleto de informações pertinentes, como a presença de Ulana Khomyuk (a ótima Emily Watson), física nuclear que se une a Legazov quando um novo problema aparece no horizonte.
Com o incêndio do reator contido à duras penas, o aquecimento fora do comum (acarretado por material radioativo) leva os tanques de água, normalmente instalados em usinas desse porte a um superaquecimento súbito. E o vapor resultante da contenção pode levar a uma explosão tão incomensurável que afetaria outras usinas nucleares levando todo o leste europeu a um inverno radioativo.
Assim, são requisitados voluntários com o objetivo de entrar na área de contaminação mais perigosa da usina já em frangalhos para uma missão suicida onde devem dar a volta nas instalações submersas em água altamente contaminada e abrir as comportas para o corpo de bombeiros –e desnecessário dizer que novamente a produção entrega uma cena tão memorável quanto asfixiante!
A própria Khomyuk é designada, logo depois, para a tarefa de colher depoimentos entre os operadores da sala de comando presentes do momento fatídico –aqueles que ainda tinham condições de falar, pelo menos –para tentar descobrir o que levou à explosão fatal, encontrar e determinar o erro para que ele nunca ocorra novamente.
É isso que leva ao notável episódio final (dentre os cinco que esta minissérie espetacular tem), onde a narrativa ganha ares tensos de um filme de tribunal: Com a maior parte da calamidade contida depois de mais de um ano, Legazov, Shcherbina e Khomyuk participam do julgamento dos responsáveis pela usina presentes naquela noite, o gerente de Chernobyl, Viktor Bryukhanov (Con O’Neill), seu engenheiro-chefe Nikolai Fomin (Adrian Rawlins, de “Harry Potter e O Cálice de Fogo”) e o engenheiro-chefe assistente Anatoly Dyatlov (Paul Ritter, de “A Legião Perdida”), e nesse ensejo, esbarram em uma verdade técnica desconcertante que foi encobrida anos antes pela própria KGB, e que pode ter relação direta com o acidente, e com outros ainda prováveis de acontecer se a prevenção não for executada e se a verdade nua e crua não vier a público.
O trabalho do diretor Renck prima assim pelo manuseio magistral de todas essas facetas, de todos os gêneros que se alternam simultaneamente (do drama íntimo ao filme catástrofe), dos mais variados núcleos dramáticos e dos exigentes aspectos técnicos, conseguindo mesmo assim manter um admirável equilíbrio e coesão que transformam “Chernobyl” num espetáculo informativo, urgente e impactante.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

A Hora Mais Escura

“Kill Bin Laden” era um projeto iniciado pela diretora Kathryn Bigelow quando o famigerado terrorista ainda era um alvo escorregadio para o FBI. Recém-saída da consagração de “Guerra Ao Terror”, ela retomava a parceria com o premiado roteirista Mark Boal para lançar um olhar algo irônico sobre uma missão fracassada que visava a morte do procurado terrorista.
O elenco contava com Joel Edgerton e Chris Pratt –uns anos antes de virar astro com “Guardiões da Galáxia” e “Jurassic World” –e deveria ter uma pegada muito parecida com “Guerra Ao Terror” onde as relações entre os soldados eram esmiuçadas em meio à cenas de ação e de tensão.
Em algum momento durante a gestação do projeto porém, um lance inesperado do destino interveio: A Casa Branca anunciou a morte de Osama Bin Laden pelas mãos do Team 6 numa bem-sucedida incursão em uma residência do Paquistão.
De uma hora para outra, o filme de Bigelow se tornava inesperadamente datado. A saída: Valer-se do orçamento, das cenas já filmadas, do trabalho de pré-produção em andamento e criar um filme praticamente novo, desta vez, bem mais ambicioso (como toca a uma diretora ganhadora do Oscar), que envolvia a caçada à Bin Laden e culminava em sua morte ocorrida em maio de 2011.
Dessa forma, “Zero Dark Thirty” –o novo título da produção –deixa de lado os soldados liderados por Edgerton e Pratt (eles agora interpretam o Team 6 e aparecem apenas na explosiva meia hora final do filme) e se concentra numa das analistas recrutadas pela CIA, a jovem agente Maya –vivida com espetacular vigor por Jessica Chastain –que, após os estarrecedores atentados de 11 de setembro de 2001, e o início da árdua operação de rastrear e eliminar o autor dos ataques, o líder terrorista Osama Bin Laden, toma para si a missão de encontrá-lo custe o que custar.
Ao longo de uma década, a obstinação dela, somado aos esforços de outros personagens que vão e vêm com o passar dos anos (e que expõe o sensacional elenco que Bigelow conseguiu atrair para sua produção, como Jason Clarke, Mark Strong, Jennifer Ehle, Edgar Ramirez, Kyle Chandler, Frank Grillo e James Gandolfini), vão levar as tensas investigações à uma casa no centro de Abbottabad, no Paquistão onde o terrorista finalmente é morto.
O roteiro de Boal surpreende por manter a excelência mesmo em face da alteração de sua proposta e, mais ainda, pela magnífica maneira com que parece abordar de forma precisa e minuciosa os fatos supostamente reais –que, mesmo correspondentes à realidade jamais poderiam ser comprovados pelo governo –onde executa uma reconstituição primorosa e vigorosa da extensiva caçada a Bin Laden, pontuada por riquíssimos detalhes logísticos, técnicos, circunstanciais e humanos.
Apagando quaisquer dúvidas acerca de seu talento, a diretora Kathryn Bigelow sobe um degrau além de seu "Guerra Ao Terror" entregando um trabalho ainda mais adulto e austero, orquestrado com perícia e precisão insuspeitas.
E abrilhantado, ainda por cima, por uma forte e convicta atuação de Jessica Chastain: Só Deus sabe o que levou-a a perder o Oscar de Melhor Atriz para Jennifer Lawrence em seu “O Lado Bom da Vida”!

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Rogue One - Uma História Star Wars

Quase a completar um ano desde a última vez, me sinto novamente na obrigação de agradecer à Disney. Agradecer por terem conseguido comprar os direitos da Lucasfilm do criador em pessoa, George Lucas, e a partir daí reiniciar a saga “Star Wars” com o ímpeto que os fãs sempre sonharam.
E uma lucidez cinematográfica que se esvaiu quase que por completo da consciência de Lucas como realizador nas últimas décadas (como atesta a pecaminosa "Trilogia Prólogo").
Os novos proprietários da saga almejam lucro nas bilheterias, claro, não sejamos ingênuos de pensar o contrário, mas nesse intento, a visão corporativista da Disney não deixa de lado aquilo que unicamente importa ao expectador que paga seu ingresso no cinema: O filme.
Tal e qual é feito com a Marvel Studios, a saga “Star Wars” está agora nas mãos de pessoas antenadas com os anseios dos fãs, e atentas aos valores cinematográficos empregados em suas produções.
O que faz de “Rogue One”, o mais refinado produto concebido dessa junção até aqui.
Ele tem início alguns anos antes da entrada definitiva de Luke Skywalker no conflito, e alguns bons anos depois dos trágicos acontecimentos relatados no “Episódio III-A Vingança dos Sinth”, e lança de imediato seu olhar sobre uma jovem chamada Jyn Erso, antes mesmo que os créditos iniciais –ligeiramente diferenciados dos filmes principais da saga –apareçam.
Jyn (a linda e maravilhosa Felicity Jones) perdeu o pai e a mãe para o Império Galáctico. A mãe, porque esta foi morta pelo venal Almirante Krennic (Ben Mendelsohn), e o pai, porque este foi cooptado, logo em seguida, para usar seu talento como projetista tecnológico para o Império. Quem criou Jyn, nesse ínterim, foi o contundente e radical Saw Gerrera (Forest Whitaker, extraordinário participação como um personagem essencial ao cânone da saga, e que reflete, de uma certa maneira, em sua imponência ameaçadora, nos detalhes truculentos de sua armadura, e até na respiração artificial ressonante, o próprio Darth Vader).
Apesar disso tudo, Jyn quer distância da guerra entre Império e Aliança Rebelde que sacode a galáxia. Ainda assim, não é o quê vai acontecer e sua trajetória irá se cruzar com outros personagens, como o capitão Cassian Andor (Diego Luna), o dróide K-2SO, o monge crédulo da Força Chimrut Imwe (Donnie Yen), o ex-soldado Maze Malbus (Wen Jiang), o desertor Bodhi Rook (Riz Ahmed), todos destinados a protagonizar este que é uma espécie de “elo perdido” da saga “Star Wars”: Ele estabelece uma ligação informativa, dramática, factual e emocional entre os episódios III e IV, e entre a trilogia clássica (aquela que realmente vale para os fãs!) e as séries animadas “Clone Wars” (por meio do personagem de Saw Gerrera que aparece como um jovem) e “Rebels” (de onde é oriundo o vilão Orson Krennic).
Falando em vilões, eles respondem por alguns dos momentos de maior empolgação de “Rogue One”, não apenas pela devidamente espetacular aparição de Darth Vader (com toda a pompa e circunstância que merece e tratado como uma divindade pela narrativa), mas também pelo inteligente uso do oficial Moff Tarkin.
Explica-se: Tarkin (interpretado no filme de 1977 por Peter Cushing, falecido em 1994) era um oficial superior do Império de suma importância na hierarquia –chegava a dar ordens em Darth Vader! –e que morre no final daquele filme durante a destruição da Estrela da Morte –em torno da qual, todo o planeta deve saber, a trama de “Rogue One” gira. Pois, Tarkin reaparece aqui, fundamental à narrativa, como tinha que ser, e ainda interpretado por Peter Cushing no que é um dos trabalhos de concepção digital mais espetaculares do ano –as ferramentas cinematográficas finalmente rompem algumas barreiras antes tidas como intransponíveis.
“Rogue One” é, no fim das contas, por meio disso tudo, da primorosa direção de Gareth Edwards, do requinte comovente de seu roteiro, do empenho apaixonado de seu elenco, e da textura real e vívida de seu acabamento visual, uma imersão em um outro mundo, através das mais vastas experiências sensoriais. Algo que sempre foi (ou deveria ser) o objetivo de “Star Wars”.

domingo, 29 de novembro de 2015

Crimes Ocultos

À exemplo do primoroso “A Troca”, de Clint Eastwood, este filme tenta ser mais de uma coisa ao mesmo tempo, e diante dessa pretensão, nem sempre obtém seu objetivo, ao contrário daquele grande trabalho. Quer ser suspense e quer ser filme histórico também. 
E quer ser contundente em ambas as frentes. Não consegue. 
Ainda que tenha no jovem Daniel Spinoza um diretor bastante capaz, entusiasmado e cheio de energia. Interessante notar no início, a insistência do olhar profundamente crítico desta produção americana sobre o sistema soviético do pós-guerra, o quê não deixa de resvalar num certo maniqueísmo. 
Justamente por isso, e por sua ocasional densidade acarretar certa pressão da qual sofre a narrativa, ele não é de todo bem sucedido. Mas, suas qualidades por vezes suplantam seus defeitos, especialmente quando a trama de suspense sai do segundo plano e mostra-se o cerne da narrativa, focando-se na procura (tornada obsessão) pelo serial-killer que mata meninos na União Soviética de 1953, quando o sistema de então praticamente beneficiava esses atos ao tentar acobertar o fato para não admitir a existência de párias, como psicopatas, em seu governo “perfeito”. 
O filme perde em caráter histórico e social, mas ganha em interesse, e no final, ele sempre se assumiu como entretenimento mesmo. 
Seu elenco, sobretudo, está soberbo. Tom Hardy é extraordinário. Sua atuação foge habilmente da tentação em compor um protagonista heróico, bonzinho e simpático. Leo, seu personagem, tem as características de arrogância e prepotência que o definem como um agente da KGB, mas guarda pequenos lampejos de compaixão e senso de justiça que mais tarde irão aflorar (junto com o verdadeiro objetivo da trama) após sua descida ao inferno. A bela sueca Noomi Rapace, como sua esposa, no início incomoda um pouco: Suas lentes de contato azuis, seus cabelos tingidos, a pesada maquiagem, além do sotaque carregadíssimo soam imediatamente artificiais, mas ela logo impõe-se na personagem. 
Além desse bom par central, o elenco tem boas presenças: Joel Kinnaman, o impecável Fares Fares, Vincent Cassel, Paddy Considine, Jason Clarke e o sempre excelente Gary Oldman. 
Não há como não haver acertos com um elenco assim.