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domingo, 22 de março de 2020

Chernobyl

Magnífica minissérie da HBO que reconstitui o conhecido e terrível episódio real (que há tempos merecia uma boa reconstituição cinematográfica) do vazamento radioativo da Usina Nuclear de Chernobyl, na Ucrânia Soviética.
Dirigida com vigor insuspeito pelo jovem Johan Renck, a minissérie é sucinta e objetiva: Vai direto ao ponto mostrando, já em seus primeiros minutos, o acidente fatídico deflagrado na madrugada de 27 de abril de 1986, quando em meio a um teste de segurança, o reator nuclear apresenta instabilidade alarmante em seus índices de pressão e, ao ser realizado o protocolo de desativação emergencial, explode contra todas probabilidades.
Tão improvável era esse fato que as autoridades maiores presentes na usina na ocasião –imbuídas, além de tudo, da irredutível mentalidade soviética de então –relutam em aceitar a catástrofe como ela é: Chamam os bombeiros para conter o que acreditam ser um mero incêndio, alertam a população de que foi um incidente menor já devidamente controlado, e censuram com veemência ameaçadora aqueles que percebem de imediato o perigo real que se anuncia.
As fatalidades começam a se somar ao longo da noite. Mesmo diante de afirmações de operários –alguns em estado já quase moribundo pela exposição à radiação –os diretores se recusam a crer que o reator tenha explodido.
Quando o presidente Mikhail Gorbachev em pessoa (interpretado por David Dencik) cria um comitê para avaliar, com alguma indiferença, os detalhes do acidente, é o vice-diretor do Instituto Kurchatov, Dr. Valery Legazov (Jared Harris, sensacional), quem alerta para pequenos detalhes do relatório: Como as descrições de pedaços de minérios na cobertura do prédio como sendo destroços de grafite (material que só existia no interior do reator) e as leituras de radiação consideradas baixas simplesmente porque registravam o número máximo marcado nos dosímetros comuns.
Quando Legazov é despachado para Chernobyl ao lado do responsável por controlar a crise Boris Shcherbina (Stellan Skarsgard), a precipitação radioativa já se espalhou até a cidade mais próxima, Pripyat, contaminando toda a população, o solo, os animais, as árvores, as plantas e toda sorte de objetos pelo caminho.
E a grande cratera ainda estava aberta e em chamas, despejando material nocivo na atmosfera a cada hora que se passava.
O trabalho esplêndido do diretor Johan Renck vale-se magistralmente do formato minissérie justamente para abranger todo o escopo detalhado e inacreditável da extensão científica, logística, física e humana do acidente, construindo com esse empenho cenas poderosas que dificilmente abandonarão a memória do expectador.
É um daqueles casos em que a grandiosidade necessária da história justifica seu formato: “Chernobyl” dá corpo assombroso e envolvente aos desdobramentos do acidente trágico, mas eles emolduram um trama na qual seu conteúdo vem repleto de informações pertinentes, como a presença de Ulana Khomyuk (a ótima Emily Watson), física nuclear que se une a Legazov quando um novo problema aparece no horizonte.
Com o incêndio do reator contido à duras penas, o aquecimento fora do comum (acarretado por material radioativo) leva os tanques de água, normalmente instalados em usinas desse porte a um superaquecimento súbito. E o vapor resultante da contenção pode levar a uma explosão tão incomensurável que afetaria outras usinas nucleares levando todo o leste europeu a um inverno radioativo.
Assim, são requisitados voluntários com o objetivo de entrar na área de contaminação mais perigosa da usina já em frangalhos para uma missão suicida onde devem dar a volta nas instalações submersas em água altamente contaminada e abrir as comportas para o corpo de bombeiros –e desnecessário dizer que novamente a produção entrega uma cena tão memorável quanto asfixiante!
A própria Khomyuk é designada, logo depois, para a tarefa de colher depoimentos entre os operadores da sala de comando presentes do momento fatídico –aqueles que ainda tinham condições de falar, pelo menos –para tentar descobrir o que levou à explosão fatal, encontrar e determinar o erro para que ele nunca ocorra novamente.
É isso que leva ao notável episódio final (dentre os cinco que esta minissérie espetacular tem), onde a narrativa ganha ares tensos de um filme de tribunal: Com a maior parte da calamidade contida depois de mais de um ano, Legazov, Shcherbina e Khomyuk participam do julgamento dos responsáveis pela usina presentes naquela noite, o gerente de Chernobyl, Viktor Bryukhanov (Con O’Neill), seu engenheiro-chefe Nikolai Fomin (Adrian Rawlins, de “Harry Potter e O Cálice de Fogo”) e o engenheiro-chefe assistente Anatoly Dyatlov (Paul Ritter, de “A Legião Perdida”), e nesse ensejo, esbarram em uma verdade técnica desconcertante que foi encobrida anos antes pela própria KGB, e que pode ter relação direta com o acidente, e com outros ainda prováveis de acontecer se a prevenção não for executada e se a verdade nua e crua não vier a público.
O trabalho do diretor Renck prima assim pelo manuseio magistral de todas essas facetas, de todos os gêneros que se alternam simultaneamente (do drama íntimo ao filme catástrofe), dos mais variados núcleos dramáticos e dos exigentes aspectos técnicos, conseguindo mesmo assim manter um admirável equilíbrio e coesão que transformam “Chernobyl” num espetáculo informativo, urgente e impactante.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

Bettie Page

Há, em princípio, algo de diferenciado entre este filme e os outros trabalhos da diretora Mary Harron (de obras como “Psicopata Americano”): Uma simpatia bastante genuína para com sua personagem principal, embora ainda assim, seu usual tom cáustico se mantenha.
Ao biografar a Rainha das Pin-Us, Harron aproveita para lançar um olhar cheio de ironia crítica sobre as contradições de uma época, e a forma como, no contraste com o presente, essa mesma época se mostra de traços nostálgicos tão curiosos e improváveis.
Interpretada com vigor e certeza por Gretchen Mol (que faz desta a melhor atuação de sua carreira), a protagonista Bettie Page surge já colhida no furacão de interesses ideológicos que polarizaram os EUA dos anos 1950: De um lado, o conservadorismo ferrenho de políticos que instituíram comitês para julgar atividades que eles supunham por contravenções, do outro, a liberdade de expressão (inclusive no que tange ao erotismo) buscada por profissionais e artistas que especularam os mais diversos meios de mídia, em especial, as revistas fotográficas obscuras e clandestinas, produzidas tão somente para atender a demanda de cidadãos comuns com gostos... peculiares.
Há um flashback (como há em muitos filmes com essa natureza biográfica na trama) e regressamos até os anos 1930, quando descobrimos que, desde a infância até o princípio da vida adulta, nos anos 1940, Bettie já experimentava formas diversas de abuso: Primeiro, do próprio pai, depois do marido (ponta do ator Norman Reedus, da série “The Walking Dead”) com quem teve um rápido e malfadado matrimônio, e até mesmo de desconhecidos, numa sequência particularmente desconcertante.
É notável que desde o início, o filme de Harron já deixa evidente em sua sempre inocente protagonista (apesar das várias facetas de sordidez do mundo que a cerca) um fascínio contumaz e fidedigno pelas virtudes da religião –que ela terminou abraçando no final.
Já entramos no início da década de 1950 quando Bettie decide ir morar em Nova York, inicialmente com planos de fazer um curso de interpretação teatral, ministrado pelo personagem do ator Austin Pendleton (de “Um Amor A Cada Esquina” e “Uma Mente Brilhante”).
Com seu desempenho no curso prosperando a passos de tartaruga e os parcos empregos disponíveis apenas de secretária ou garçonete, Bettie procura completar sua renda fazendo ensaios fotográficos, os quais, do início ao fim, ela encara com ingenuidade e sem qualquer malícia. Mas, não a diretora Mary Harron. Ela deixa bem clara a escala gradual que as fotos de Bettie vão galgando em direção à pornografia que a fará notória –do inicial e banal ensaio à beira de uma praia, até os ensaios pagos na agência de revistas gerenciada pelo casal Klaw (Lili Taylor e Chris Bauer) que a fotografam usando roupas de couro e botas de salto alto ao estilo ‘bondage’ até as fotos mais picantes –enfatizando o teor cada vez mais subversivo na trajetória da personagem e, ao mesmo tempo, proporcionando ao público (sobretudo, o masculino) as cenas de nudez total da esplêndida Gretchen Mol que ele tanto quer ver!
O filme –no qual até então predominava uma fotografia em preto & branco –adquire cores quando (a exemplo de “Touro Indomável”, de Martin Scorsese) mostra as cenas filmadas por câmeras Super 8, ou os ensaios fotográficos de Bettie nas revistas.
Também o filme fica colorido toda vez que Bettie viaja para Miami, onde conhece a fotógrafa Bunny Yeager (Sarah Paulson) que com ela faz alguns de seus mais notáveis ensaios, inclusive um para a ainda emergente revista Playboy.
Em algum momento, a fotogenia natural e cintilante de Bettie a faz destacar-se de todas as demais modelos e a torna famosa até para seu próprio prejuízo: Ela é reconhecida nos ensaios e nas audições para teatro, nos restaurantes e nos lugares públicos.
Até que, por fim, é intimada a depor num comitê governamental (interessante que Harron tenha escalado como um dos políticos do comitê, o ator David Strathairn, que estrelou o filme de mesmo tema, “Boa Noite e Boa Sorte”, num papel de posições opostas), onde Bettie sequer tem a chance de dar sua própria versão dos fatos depois de ser deixada em espera por 12 horas (!).
A redenção, para Bettie –o que Mary Harron torna até bastante natural –se encontra na fé.
Produzido pela HBO Films, e criticado por alguns por seu caráter seletivo dos percalços mostrados na trajetória real de Bettie Page, o filme de Mary Harron é irônico por, ao contrário das demais obras independentes que ela realizou, fazer um certo esforço para não se mostrar tão desconfortável ao expectador, função que, a despeito de alguma infidelidade factual, ela cumpre com mérito, sobretudo, graças à bela e carismática presença de Gretchen Mol.

quarta-feira, 6 de junho de 2018

A Saga Resident Evil


Resident Evil-O Hóspede Maldito
Uma das mais controversas adaptações de videogame para cinema (na medida em que possui tantos admiradores quanto detratores), a Saga “Resident Evil”, a despeito de uma discussão perene acerca das reais aplicações de suas qualidades como cinema, permanece um corpo conceitual único pela forma quase independente com que sua mitologia abilolada adquiriu vida própria nas telas, afastando-se completamente da fidelidade aos conceitos do jogo original e singrando por um caminho tão imprevisível quanto improvável.
Ao dar início, num já longínquo 2002, ao enrolado novelo de lã que constitui o enredo da saga como um todo, este primeiro filme de “Resident Evil” se esgueira de uma condição constante nos videogames para assumir sua primeira decisão como narrativa: Ele possui uma protagonista.
Ela é Alice (personagem ausente nos jogos cuja nomenclatura remete ao conto de Lewis Caroll e ao leque variado de hostilidades além da imaginação que vão vir).
Ela acorda providencialmente desmemoriada num lugar que não sabe onde é, por razões que não sabe quais são; os realizadores usam assim do benefício da dúvida para fazer de Alice (interpretada com garra e perplexidade por Milla Jovovich) os olhos da platéia para o mundo mirabolante que eles irão descortinar.
Em comparação com a megalomania de suas continuações, este primeiro filme realizado por Paul W.S. Anderson até que parece contido e sucinto: Ele se esforça em emular certo pesadelo claustrofóbico presente no videogame ao confrontar Alice e os personagens que vão aparecendo com as monstruosidades de praxe que surgem, digitais e ostensivas, a cada virada de corredor.

Resident Evil 2-Apocalipse
No segundo filme –agora dirigido por um tal Alexander Witt –a protagonista Alice descobre que toda a ação transcorrida no subsolo do original na realidade acontecia embaixo de uma cidade normal, subsidiária de um grande complexo das indústrias Umbrella, empresa criadora do vírus que possibilitou a praga e (por razões nunca de fato plausíveis) criadora da própria Alice, também; um clone dotado de tamanha força e rapidez que faz ela parecer a Mulher-Maravilha (!).
Agora, os zumbis e toda a ameaça biológica concebida pela Umbrella poderão ganhar o mundo e Alice, ao lado da policial Jill Valentine (a bonita e inexpressiva Sienna Guillory, uma personagem oriunda do game) devem lutar para ao menos salvar a população.
Esta primeira continuação da aguardada adaptação para cinema do cultuado videogame estabelece de forma meio cambaleante o que seria, daqui para frente, a série cinematográfica "Resident Evil": Absurdos monumentais de roteiro, referências ocasionais às tramas do game (e não uma literal adaptação) e um clima predominante de filme B, tudo emoldurando a atuação overpower de Milla Jovovich.
Se os outros capítulos encontraram –sobretudo, num trabalho de direção consciente de sua cinematografia –meios de ir além da pirotecnia desvairada, este segundo filme se revela o mais fraco ao dispor de pouca habilidade na manipulação de seus elementos.

Resident Evil 3-A Extinção
Com a chegada do terceiro filme, a saga já sofreu uma das suas primeiras e mais evidentes reformulações (entre muitas que em maior e menor grau seriam aplicadas na trama): Já se vão alguns anos desde que os acontecimentos dos dois primeiros longa-metragens mudaram a paisagem do mundo.
Agora, a saga "Resident Evil" ambienta-se num cenário pós-apocalíptico muito parecido com "Mad Max", e toda a sorte de filmes sobre esse tema e com essas características que a produção pode citar.
Há inclusive aí uma cena onde o diretor Russel Mulcahy (de “Highlander-O Guerreiro Imortal”) –substituindo Paul WS Anderson que dirigiu o primeiro filme, produziu o segundo (dirigido por Alexander Witt) e voltaria a dirigir os próximos –tenta homenagear "Os Pássaros" de Hitchcook.
Não há dúvida que o diretor Mulcahy traz uma nova visão vigorosa à série, mostrando que seu material sobrevive a uma tentativa de reinvenção e, mais ainda, ganha com isso em sabor e melodia –há todo um novo contexto que revitaliza as peripécias de Alice (personagem que a essa altura, Milla Jovovich já tornou sua) e dá novo empuxo às seqüências de confronto, ação e perseguição que se seguem.
Na trama, Alice, enquanto singra os deserto desse novo mundo constituído de pó, ruína e desolação, acha-se com uma caravana de sobreviventes, incluindo aí alguns personagens referenciais do videogame como Claire Redfield (Ali Larter, da série “Heroes”). Entre tiroteios, lutas e perseguições concebidas com todo o apuro que o cinema de ação é capaz de moldar, Alice dá continuidade à sua constante fuga de seus criadores, os inescrupulosos cientistas das Indústrias Umbrella.

Resident Evil 4-Recomeço
Vingança. É o combustível que impulsiona a protagonista neste quarto exemplar da série de cinema que, de forma completamente à margem da trama desenvolvida no videogame, segue parecendo uma sucessão de filmes onde o exagero da forma, o barulho inaudível das seqüências de explosão, o excesso de frenesi nas cenas de ação, se sobrepõem a qualquer ênfase que por ventura a história pudesse ter.
Contudo, esses elementos são manipulados com uma consciência desigual e uma reflexão em torno do quê, de fato, é “Resident Evil” –certamente, aqueles que esperaram por uma versão fiel e direta do que se joga no videogame ficaram bastante perplexos.
Sua premissa, por sinal, é manancial abundante de tudo que mais mirabolante a cultura pop andou criando nos últimos tempos, envolvendo clones, mutação, zumbis, superpoderes, monstros mutantes, experiências, tecnologia, tudo embalado em meio a efeitos 3D alucinados que certamente seduzem ao desesperado paladar adolescente.
Foi a partir daqui que o diretor Paul W.S. Anderson (marido da estrela Milla Jovovich, à propósito) assumiu em definitivo a direção da série –que já reunia indisfarçavelmente todas as suas características como realizador –e fez dela uma obra sua.
O sub-título, “Recomeço” é plenamente significativo: A trama leva Alice por novos rumos que definiram inclusive os filmes vindouros, o quê envolve a perda de seus poderes (até então ela era quase uma espécie de Mulher Maravilha!), o refúgio –junto de inúmeros outros sobreviventes –dentro de uma prisão abandonada, e o início da concepção de um grande vilão; e, por conseguinte, um propósito à heroína.

Resident Evil 5-Retribuição
Uma observação a respeito da saga “Resident Evil” é o leque de opções variados que a natureza non-sense de sua realização permite: Conforme os filmes avançam, os roteiristas se sentem à vontade para pegar um ou outro gancho narrativo que resta construindo a partir dele um ponto de partida sobre algo que anteriormente poderia ser uma observação passageira de um dos filmes anteriores.
Trocando em miúdos: Fingir que se está trilhando um caminho todo elaborado e pré-definido quando na verdade se está tateando novas histórias (e a maneira de continuá-las) às cegas.
Essa é uma característica cada dia mais comum no universo das franquias cinematográficas (vide a franquia “Velozes e Furiosos”): Trata-se de uma dissolução deliberada que vai de encontro a um certo público para o qual quanto mais genérico parece, mais interessante, afinal, fica –um nicho de expectadores para quem a novidade pode desagradar justamente por seu elemento de inetidismo: O mais do mesmo lhe é confortável e agradável.
Para tanto, esta trama abusa das variações possíveis da clonagem nas dinâmicas entre personagens já conhecidos: Jill Valentine reaparece aqui (na verdade, um clone) como uma notável antagonista, assim como Rain Ocampo (Michelle Rodriguez, do próprio “Velozes e Furiosos”, por sinal), morta no primeiro filme.
Alice deve escapar de uma instalação de segurança máxima mantida pela Umbrella após descobrir que uma infinidade de clones (alguns dela mesma) estão sendo empregados num plano sinistro.
É neste 5º filme da saga que Paul W.S. Anderson aprimora o rumo esboçado já na primeira produção: Se o anterior “Recomeço” já era uma ponderação da relação “Resident Evil” filme e videogame, “Retribuição” é então a criação de um jogo próprio.
Ele aceita finalmente o parque de diversões descerebrado de incrementos high-tech que é. Na verdade, Anderson ostenta uma vulgaridade pop de que ele (e quem assiste) acredita no imenso poder sensorial das imagens.

Resident Evil 6-Capítulo Final
É nessas condições que todas as escolhas, excessos e premissas conduzem ao assim alardeado “Capítulo Final”, cuja história chega com a intenção de ser um arremate para todos os subtextos, todas as adaptações tentadas e não completamente consideradas das tramas nos games, as referências que em algum momento constituíram rumos tomados pelo roteiro, e os personagens que foram e voltaram como num palco ao sabor de improvisos ferozes.
É certo que a maior parte de seu público sequer considerou os dilemas artísticos e narrativos que pairavam sobre a série –e em alguns momentos, próprio o diretor Anderson parece se mostrar pouco afetado pela drasticidade das alterações –mas, é curioso notar que há, de fato, um enfoque novo que a informação acerca deste ser o capítulo final, dá a esta tentativa de expiação, de almejar um cinema maior, ainda que reafirmando orgulhosamente suas próprias imperfeições.
Aqui, o apocalypse zumbi já mostrou todos os perigos que poderia oferecer. Alice é uma sobrevivente. Nessa condição, ao lado de outros personagens, ela chega a Racoon City, reduto da Umbrella onde todos os seus recursos serão reunidos para um último ataque contra aqueles que restaram da humanidade.
Reza a lenda que o verdadeiro cinema é a ação em suas mais incontidas e exacerbadas transfigurações: Que a sempre vital dramaturgia, a essencial necessidade da atuação, o valor intrínseco do roteiro, e outras preciosidades apontadas em uma cinematografia dizem respeito às outras artes, o teatro, a literatura, a música. Dizem que o que resta ao cinema, e que lhe confere singularidade sobre todas as outras formas de arte, é a sua possibilidade de arrebatar o público com som e fúria.
Se for verdade, então, a “Saga Resident Evil” é cinema em toda sua plenitude, mesmo com suas incoerências, seus excessos e suas maluquices.

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

A Dama Na Água

Mais cedo ou mais tarde, uma carreira construída em torno de alguma espécie de fórmula passa por uma necessidade de reinvenção.
E o diretor M. Night Shyamalan (que havia conquistado grande aceitação de público e crítica com seus filmes que nada mais eram que ótimas e espertas variações cinematográficas e de pretensões artísticas para contos fantásticos, ora mirabolantes, ora aterrorizantes) certamente percebeu isso, dando início a um projeto de natureza mais insólita, ligeiramente afastado das suas obras anteriores.
Diferente de “O Sexto Sentido”, “Sinais” e “A Vila”, “A Dama Na Água” não era pautado pelos sustos, e ao contrário de “Corpo Fechado” não caminhava com sua premissa fantástica em direção ao realismo –ele seguia em caminho oposto.
“A Dama Na Água” era, de uma maneira um pouco torta, um conto de fadas.
Shymalan preservou seu estilo de roteirizar e dirigir –que, neste filme, começava a deixar transparecer uma presunção e uma soberba que prejudicaram o resultado –no entanto, mudou radicalmente o conceito com o qual trabalhava.
A história de Cleveland Heep (Paul Giamatti), um desiludido e solitário zelador de condomínio, e dos personagens que o cercam, carrega em tintas de estranheza que na maioria esmagadora de sua duração soam inapropriadas.
Cleveland encontra, em certa noite, uma jovem despida e assustada (Bryce Dallas Howard, de “A Vila”) que parece ter saído da própria piscina do local (!). A jovem é arredia, inicialmente não parece conseguir se comunicar e nem sequer pertencer ao mundo normal. Ele descobre aos poucos que ela é uma "ninph", um ser mitológico que inspira as pessoas (saído inteiramente da imaginação de Shyamalan), e está ali se escondendo de seu predador natural, uma espécie de lobo monstruoso.
Segundo a própria lenda que a cerca, há pessoas específicas, com habilidades específicas que serão de fundamental importância no ritual para levá-la para casa.
Tentando assim juntar forças para sair da depressão na qual seu passado trágico o colocou, Cleveland toma para si a missão de encontrar tais pessoas.
Para grande parte do público, o maior problema de “A Dama Na Água” era que ele não trazia os sustos freqüentes e os sobressaltos ocasionais e bem elaborados com os quais Shyamalan havia acostumado a platéia em seus últimos filmes. Embora até tivesse alguma tensão, “A Dama Na Água” trabalhava tais elementos, no máximo, com uma displicência quase existencial: Exemplo disso é a cena em que o monstro encurrala num beco escuro um crítico de cinema (um dos vários personagens apáticos do filme) e ele começa a discorrer sobre os elementos genéricos de uma seqüência assim, numa brincadeira pretensiosa e anti-climática de metalinguagem.

Mas, é provável que o maior problema deste filme de Shyamalan realmente tenha sido o fato dele criar uma mitologia própria para esse conto de fadas –o de uma “ninph”, algo como uma sereia bípede (!), que precisa atrair uma águia gigante que a levará para o mar (!) a salvo de um lobo composto por grama (!!) –carregando a premissa de elementos contraditórios (como se pode notar...) que, no fim das contas, não compunham uma trama que instigasse ou fascinasse o público: As criaturas inventadas por ele (desde a protagonista aos seres que surgem com expectativa zero no suposto clímax) não despertam qualquer interesse ou empatia no expectador, e os detalhes que as cercam oscilam entre o banal e o tedioso.

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Aliados

O diretor Robert Zemeckis parece se esbaldar com a possibilidade de emular uma narrativa à moda antiga, a homenagear neste trabalho o profundamente merecedor de homenagem, “Casablanca”. Uma vibração clássica, de um fascínio pelo charme emanado dos filmes de antigamente (a despeito do apreço que ele sempre demonstrou por tecnologia de ponta), se percebe em muitas das suas obras, mas somente aqui ele pode recriar uma produção realmente naqueles moldes.
“Aliados” expressa um carinho imenso, além de uma forte vontade de irmanar-se aos filmes de espionagem dos anos 1940 e 50, onde a Segunda Guerra Mundial proporcionava uma narrativa despida de ambigüidades, justapondo mocinhos e vilões de forma genuína, embalada na envolvente roupagem de romantismo e espionagem aventuresca –é todo um cinema assim que Zemeckis resgata com a história dos espiões Max e Marianne.
Ele (Brad Pitt, em adequada composição de época, fazendo lembrar alguns astros do passado), um oficial canadense à serviço da contra-inteligência britânica. Ela (Marion Cottilard, com sua beleza acachapante e seu talento afiado), uma espiã francesa cuja competência e eficiência em missões de campo já lhe renderam relativa fama.
Os dois se conhecem durante uma arriscada missão para eliminar um membro da alta cúpula nazista, quando se disfarçam como um casal apaixonado. Contra todos os indicativos e recomendações –e num desenlace tão inevitável quanto incontornável, tendo em cena os atrativos hiperlativos de Brad Pitt e Marion Cottilard –eles se apaixonam e, após terminada a missão, quando cada um deveria seguir um caminho e nunca mais ouvir falar um do outro, eles resolvem se casar.
A felicidade dura um ano –tempo de sobra para o nascimento de uma filha e o estabelecimento de uma agradável vida doméstica –até que os superiores de Max identificam indícios que apontam Marianne como uma possível espiã trabalhando para os alemães.
É a dúvida em torno da possível culpa de Marianne (sustentada por uma atuação preciosa e minimalista de Marion) que irá alimentar grande parte da narrativa de suspense que Zemeckis conduzirá daí até o final.
Nem parece o mesmo Robert Zemeckis que, em meados da década passada, recebeu críticas por seu cinema deixar de lado o elemento humano para se concentrar em avanços digitais (devido à irregularidade de obras como “O Expresso Polar”, “A Lenda de Beowulf” e “Os Fantasmas de Scrooge”): É no carisma de Brad Pitt e na competência de Marion Cotillard que todo o filme, apesar do ocasional virtuosismo do diretor em uma ou outra cena, se ampara, construindo sua atmosfera de suspense (que em muito também deve aos trabalhos de Hitchcock) em torno da prorrogação contínua da aflição sem resposta dele (seria a esposa uma espiã?) e da presença charmosa e intoxicante dela (estaria a personagem de Marion, em sua beleza desestabilizadora e sua promessa de amor genuíno, ocultando uma femme fatale?).
Como num bom thriller de espionagem de antigamente, o diretor Zemeckis compreende quais são as molas que fornecem o empuxo para as ações e motivações de seus personagens e manipula esses elementos com grande serenidade e perspicácia.
Seu trabalho acaba sendo quase reverencial tamanho é o apreço pelo tipo de cinema que emula, mas se não é sua técnica capaz de tornar o filme memorável, ele tem ao menos um casal central que cataliza as atenções do público.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Sherlock Holmes, por Robert Downey Jr.

Sherlock Holmes
Muitas foram as personificações do detetive criado por Sir Arthur Conan Doyle no cinema –atualmente, uma das minhas prediletas não vem nem da tela grande, mas da TV, na arrojada série “Sherlock”, estrelada por Benedict Cumberbath e Martin Freeman.
Pouco antes dela, logo após o enorme sucesso de “Homem de Ferro”, o então ator problemático Robert Downey Jr. dava passos largos para tirar de seus ombros a má reputação que lhe perseguia a mais de duas décadas para se tornar um dos grandes astros de Hollywood –e certamente os responsáveis por isso foram não somente os filmes de Tony Stark como também esta nova versão de Sherlock Holmes.
Pegando carona numa proposta de reinvenção um pouco parecida com a do clássico oitentista “O Enigma da Pirâmide” –que hoje, infelizmente, pouca gente lembra –o filme mostra o famoso detetive particular na Inglaterra do final do Século 19, morando no conhecido apartamento em Baker Street. Sherlock Holmes auxiliado por seu fiel (ainda que relutante) amigo James Watson (Jude Law, uma boa presença) investiga uma série de crimes que culminaram numa inexplicável ressurreição de um condenado à morte, Blackwood (Mark Strong, um vilão competente embora genérico). Seguindo uma trilha de pistas num estilo totalmente peculiar e ortodoxo, como lhe é de praxe, o excêntrico Holmes aproxima-se de descortinar um plano que visa ameaçar a própria ordem política vigente em Londres. No percurso dessa tumultuada investigação –que encontra indícios que flertam com invocações sobrenaturais –Holmes e Watson (que, coitado, está de casamento marcado) recebem a ambígua ajuda (ou seria intromissão?) da bela Irene Adler (a ótima Rachel McAdams), com quem Holmes tem um relacionamento, diga-mos... complicado!
Assumindo as rédeas deste projeto –e, assim como Downey Jr., necessitando de um sucesso para se provar perante a indústria –o diretor Guy Ritchie troca assim os habituais gângsteres urbanos e contemporâneos (que ele soube retratar com graça, som e fúria em “Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes” e “Snatch-Porcos e Diamantes”) pelo submundo da Inglaterra vitoriana nesta reformulação do famoso personagem extraída por sua vez não dos livros de Arthur Conan Doyle, mas de uma série de história em quadrinhos neles baseada.
Essa roupagem pós-moderna garantida pela direção inquieta e em muitos momentos francamente vertiginosa de Ritchie acaba dando ao personagem fôlego novo justamente por preservar elementos de ação que estavam nos livros e fugir consideravelmente de estereótipos que engessavam o personagem em suas outras encarnações.
E verdade seja dita: Muito ajuda para isso a eufórica interpretação de Robert Downey Jr.

Sherlock Holmes-O Jogo das Sombras
Tudo deu certo. A nova versão de Sherlock Holmes foi um sucesso, o público abraçou a forma dinâmica com que o diretor Guy Ritchie contou uma trama protagonizada por um personagem tão conhecido –e de características tão difundidas na cultura pop –dando a ele um sabor de algo novo. E Robert Downey Jr., embora o público o visse como intérprete definitivo do Homem de Ferro, conseguiu emplacar uma segunda franquia milionária em sua carreira, provando que os dias de escândalo e de bebedeiras tinha ficado no passado. Seu imenso talento e carisma agora estavam a serviço da arte de interpretar, como tinha que ser.
A continuação, como rege a cartilha do cinema comercial de modo geral, deveria ser mais, maior e melhor que o filme anterior –e tudo isso, posto em prática, resulta ocasionalmente exorbitante.
Se o primeiro “Sherlock Holmes” era uma mescla agitada e livre de amarras de diversos livros, contos e histórias de Sherlock produzidas nas mais diversas mídias –sendo o livro “Um Escândalo Na Boêmia” uma das fontes mais evidentes –desta vez, uma das inspirações certamente haveria de ser “A Queda de Reinchenbach”, devido à introdução daquele tido como o maior antagonista de Holmes, o maquiavélico Professor Moriarty, como bem foi sugerido ao fim do primeiro filme.
Quando esta nova produção começa, Guy Ritchie, à exemplo do ritmo incessante do trabalho anteiror, já arremessa o expectador no centro da ação, levando Holmes e Irene numa tentativa de impedir a detonação de uma bomba: Em pleno Século 19, ao que parece, o terrorismo enfim chegou a Inglaterra.
Ondas de pânico e desordem provocados por misteriosos atentados semelhantes ao da cena inicial intrigam a polícia, mas não o detetive Sherlock Holmes. Para ele, a autoria desses eventos é bem clara: todas as pistas levam ao ardiloso Professor Moriarty (Jared Harris, filho do grande Richard Harris, fabuloso no papel), tão astuto e inteligente quanto o próprio Holmes, mas infinitamente mais maldoso e perigoso.
O propósito pelo qual Moriarty elabora esse seu plano, entretanto ainda é um enigma. Para descobri-lo Holmes conta novamente com a imprescindível ajuda de seu amigo Watson (retirado à contra-gosto das festividades de seu casamento) e, desta vez, com a contribuição da cigana Simza (a sueca Noomi Rapace, exalando charme) e, em alguns momentos, de seu meticuloso irmão, Mycroft (Stephen Fry, em breve, porém, descontraída participação).
Esta continuação do sucesso de 2010 contava mais uma vez com a sensacional presença de Robert Downey Jr. e com o desigual tratamento conferido pelo diretor Guy Ritchie, embora muito disso soasse repetitivo em relação ao filme anterior: Seus grandes diferenciais eram mesmo as novas presenças do elenco; Noomi Rapace e, principalmente Jared Harris, cujo personagem, Prof. Moriarty, vinha atender uma espécie de ressalva feita em relação ao outro filme –a de que ele não teria um vilão à altura; os realizadores entenderam o recado, deixando Downey Jr. desta vez brilhantemente antagonizado por Jared Harris.
O final, diretamente extraído do desfecho antológico de “A Queda de Reinchenbach”, deixava ganchos óbvios para um terceiro filme que até este presente agosto de 2017 não foi sequer anunciado.

terça-feira, 16 de maio de 2017

Assassinos Por Natureza

Os filmes de Oliver Stone são normalmente compostos por uma alta voltagem de euforia narrativa que não raro se expressa na forma de indignação, seja pelas circunstâncias perniciosamente políticas que deseja denunciar, seja pelo ultraje absurdo de um momento histórico que reconstitui (e a veracidade com que se dá essa reconstituição é, em geral, uma pauta sempre levantada em seus trabalhos).
O próprio Oliver Stone certamente tem consciência da imensa habilidade com que consegue empregar sua técnica na construção do ritmo e atmosfera de seus trabalhos que muitos preferem taxar de sensacionalistas ao invés de realistas.
Talvez, seja um exemplo disso, esta obra  ácida e palpitante feita nos anos 1990 que investiga a psicopatia das maneiras mais escandalosas possíveis: A partir de um roteiro inicialmente esboçado por Quentin Tarantino (que, como Stone, nunca foi um autor que primou pela sutileza), este filme acompanha os passos de um casal de serial killers nos moldes de Bonnie e Clyde, e de Kit Carruthers e Holly Sargis (casal protagonista do filme “Terra de Ninguém”, de Terrence Malick).
Mickey (Woody Harrelson) e Mallory Knox (Juliette Lewis, quase sempre surtada) são dois jovens apaixonados que, em seu furor homicida, deixam um rastro de cadáveres por onde passam no meio-oeste americano. Não apenas a atenção da polícia (cujo detetive personificado por Tom Sizemore lhes persegue), suas ações ganham também o interesse crescente da mídia e do público (materializados na figura do repórter sensacionalista interpretado por Robert Downey Jr.), fascinados por sua rebeldia e pela maneira inconseqüente com que deflagram as maiores atrocidades.
E Stone aponta a preocupante escalada dessa fascinação na sinergia corrupta que surge entre o personagem de Downey Jr. e o diretor do manicômio vivido por Tommy Lee Jones.
O registro executado por Stone (num de seus trabalhos mais esquizofrênicos) parece impor uma reflexão do próprio olhar: Não apenas o casal de assassinos tem a filosofia de preservar viva uma testemunha ocular de cada ato, como também são eles, os protagonistas algo conscientes de uma orgia visual na qual a realidade se transfigurou, e o diretor Stone ratifica isso proporcionando ao seu filme uma série diversificada de estilos de filmagem que nunca se conforma com um registro ameno e parcimonioso –“Assassinos Por Natureza” vai do preto & branco à sépia, da filmagem digital ao 35 mm, passando pelo 16 mm e a super-8, vai de um sem fim de formas de capturar a imagem à outras linguagens narrativas (há um momento, em que o filme ganha até aspectos de uma sitcom, onde são introduzidos sons de risada nos instantes mais sádicos), num turbilhão que soa quase enlouquecido; daí, talvez, a sanha psicopata que contamina a maioria dos personagens em seu escatológico terço final.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

O Último Entardecer

As câmeras do diretor Wayne Wang parecem dispostas e justapostas, prontas para tentar registrar o sentimento de urgência que dominava Hong-Kong, em 1996-7, quando se deu a transição de seu então domínio inglês (durante o qual tornou-se um pólo de atividade econômico-capitalista) de volta para suas raízes com a recuperação para a China.
Nessa intenção à uma fusão dos dois estilos quase antagônicos que Wang difundiu em seus mais reconhecidos trabalhos: A improvisação orgânica entre a câmeras e os atores, típica de “Cortina da Fumaça” e particularmente sua continuação, o filme-colagem “Sem Fôlego”; e o tom dramático de vibração clássica, mas de insuspeito charme sedutor, que se percebe em “O Clube da Felicidade e da Sorte”.
Como naquela obra, são as mulheres quem potencializam e catalizam toda atenção e interesse do expectador –e aqui elas são a deslumbrante Gong Li, e uma ainda jovem Maggie Cheung, que quase rouba o filme numa mal aproveitada trama paralela.
Mas, infelizmente, Wang nomeia como protagonista o jornalista inglês interpretado por Jeremy Irons –e começam aí alguns de seus problemas.
Parece ser pouco envolvente a trama que o coloca no centro de todas aquelas mudanças, e a fleuma de enfado britânico com a qual Irons usa na composição de seu personagem –e que ele soube modular com exemplar precisão em outras obras –não ajuda em nada neste caso.
Isso não se intensifica nem quando John, seu personagem, um correspondente inglês cobrindo os acontecimentos em Hong Kong, descobre sofrer de leucemia, o quê lhe tolherá a vida em poucos meses.      
Sua grande frustração é, portanto, não ter mais tempo para resolver seus assuntos pendentes, sobretudo, os afetivos, que dizem respeito diretamente à Vivian (Gong Li e sua beleza incontornável), imigrante chinesa e dona de um bar no centro da cidade, por quem o coração de John já está enredado, mas que o rejeita sistematicamente devido à pouca estabilidade que ele representa; ela, na realidade aguarda, numa vã esperança, o pedido de casamento de Chang (Michael Hui), seu amante e um homem de negócios ascendente em Hong Kong.
Vivian, então, simboliza Hong Kong cujas raízes históricas e culturais –e outras razões que na maioria das vezes, nem ela sabe dizer quais são –a impelem na direção de Chang (a China para a qual Hong Kong está prestes a voltar), e a afastam, traduzidas em forças poderosas do destino, cada vez mais do apaixonado John (a Inglaterra que, com todas as suas boas intenções, levou a própria Hong Kong e seu povo a experimentar os extremos violentos de seu sistema econômico).
Seria uma metáfora cheia de graça e primor não fossem algumas escolhas equivocadas. A pior delas: O absolutamente sem graça, sem sal e sem carisma Michael Hui que, como Chang, prejudica até a bem construída personagem de Gong Li –o expectador passa o filme inteiro a se perguntar o porque daquela bela mulher preferir aquele chinês desinteressante, tacanho e apático no lugar do sempre vistoso e elegante Jeremy Irons –mesmo que ele não esteja em seus melhores dias. Ou talvez, sendo esta uma obra feita para e pelo Ocidente, fosse essa mesma impressão o objetivo almejado.
Antes o objetivo fosse fazer um grande filme.

domingo, 12 de junho de 2016

Lincoln

Daniel Day-Lewis escreveu seu nome na história do cinema como o primeiro intérprete a conquistar três Oscar de Melhor Ator na carreira: Por "Meu Pé Esquerdo", em 1989, por "Sangue Negro", em 2007, e por este "Lincoln" em 2012. O quê acaba sendo um fator que contraria a máxima de que é Robert De Niro o grande ator vivo da atualidade...
Todavia, vamos falar um pouco do filme de Steven Spielberg: Segunda colaboração sua com o roteirista e dramaturgo Tony Kushner (a primeira foi "Munique"), este trabalho ressalta a personalidade poderosa de seu escritor; mais do que Speilberg, é perceptível o olhar agudo, humano e minucioso de Kushner, e seu marcado estilo, na trama que se desenrola em ambos os filmes.
Neste, o ano é 1865. Abraham Lincoln acaba de ser reeleito para seu segundo mandato como presidente dos EUA enquanto a Guerra Civil Norte-Americana vai para seu quarto ano. Mas o presidente reeleito tem específicas ambições para sua nova gestão: não só deseja conseguir a paz de uma guerra da qual todos estão cansados, como planeja obter no Congresso a aprovação da 13ª Emenda, abolindo a escravatura de todos os Estados Unidos, uma manobra complicada, uma vez que a questão do abolicionismo é o cerne da própria guerra. O presidente Lincoln irá valer-se de sua capacidade de dissuasão e engenhosas manobras políticas para obter os votos no congresso, como os quais visa conseguir a paz e a liberdade.
A ironia captura pelo texto de Kushner, e tao bem emoldurada pelo talento superlativo de Spielberg, mostra que o presidente Lincoln, tão puro de intenções e tão imaculado na imagem que é feita dele para o mundo, lançou mão de propinas e corrupção para alcançar seu objetivo: A sequência da histórica votação no congresso da 13ª Emenda é, ela própria, uma aula de cinema em todos os ângulos que possam ser imaginados.
E aí, volta-se sempre à mesma questão, inevitável quando se fala desse filme: Daniel Day-Lewis.
O filme certamente não funcionaria se Spielberg não tivesse achado o ator ideal para o papel, e Day-Lewis faz muito mais que isso: Ele dá uma dimensão preciosa, minimalista e estudada de Lincoln, rica em detalhes e maneirismos que só são notados na segunda ou terceira vez que se assiste ao filme: Com o perdão dos dois ótimos trabalhos anteriores nos quais ele ganhou o Oscar, é este daqui onde Daniel entrega aquela que é sua obra-prima! Fica até sem graça falar do restante do elenco, todos espetaculares, em especial Tommy Lee Jones, mas cujo brilho empalidece diante de seu magnifico protagonista.
 O fato de ser excessivamente político e dialogado não lhe tira brilho algum, por sinal, este primoroso filme de Steven Spielberg, agraciado com a atuação magistral de Daniel Day-Lewis, merece ser descoberto por todo e qualquer expectador avesso à filmes políticos por pensar que são todos "chatos".

segunda-feira, 2 de maio de 2016

Pompeia

Existem certos filmes que não têm a menor salvação. Para piorar, a impressão que nos passam, enquanto projetos, é de que algo muito promissor poderia surgir de sua idéia. Veja, por exemplo, “Pompeia”.
Sua trama ambienta-se às vésperas da lendária erupção do vulcão Vesúvio, quando chega à cidade que dá título ao filme (localizada nas proximidades) um jovem escravo do norte (Kit Harrington, o Jon Snow de “Game Of Thrones”, pagando um mico violento!) vendido aos senhores locais para lutar como gladiador numa arena onde terá como expectadores o vilanesco senador Corvo (Kiefer Sutherland, tão ridículo quanto o nome de seu personagem!), e seu grande amor, a jovem Cassia (Emily Browning), noiva do vilão.
Esta produção até tinha potencial para render algo interessante, com um apelo que unia o verniz épico de “Gladiador” ao elemento de romance-catástrofe de “Titanic” (E hoje em dia, é muito comum os estúdios fazerem esse tipo de associação para venderem seus projetos).

Mas ao invés disso, o diretor Paul W. S. Anderson (do descerebrado “Resident Evil”, também o quê vocês queriam?!) realizou um festival de equívocos, a começar pelo péssimo aproveitamento dos atores; difícil dizer qual está mais canastrão, Kiefer Sutherland (num dos personagens mais patéticos e afetados dos últimos tempos) ou Kit Harrington; além disso, conseguiram 'enfeiar' a normalmente bela Emily Browning (de "Sucker Punch"), passando por um roteiro vergonhoso.
Um verdadeiro fiasco.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

O Curioso Caso de Benjamin Button

Existe um grupo seleto, e muito especial, de filmes que conseguem me levar às lágrimas a cada vez que eu os assisto. Entre eles, está “O Curioso Caso de Benjamin Button”. Curiosamente, já vi muita gente torcer o nariz para este filme. A verdade é que o valor afetivo de um filme está no quanto ele significa para a pessoa que ali está assistindo. 
Dito isso, “Benjamin Button” é de uma beleza inebriante que eu reencontro toda a vez que o revejo. Não podia ser diferente nesta obra de David Fincher (desde sempre um de meus diretores prediletos) que assume o compromisso de calibrar à uma narrativa cinematográfica a inusitada sacada de um poema de F. Scott Fitzgerald: A história de um homem que nasce velho, e que ao longo da vida vai rejuvenescendo cada vez mais, seguindo assim o caminho inverso da condição humana. Dessa forma, enquanto as outras pessoas a sua volta ficam cada vez mais velhas, Benjamin fica cada vez mais jovem, e assim ele passa pela Segunda Guerra Mundial, pela chegada do homem a Lua, os anos 1960 e 1970. Sua história é descoberta no leito de um hospital por uma jovem que acompanha a doença da mãe em Nova Orleans, prestes a sofrer os efeitos do furacão Katrina. 
Colaboradores em filmes brilhantes e singulares do cinema (como “Seven-Os Sete Crimes Capitais” e “Clube da Luta”), Fincher e o astro Brad Pitt juntaram-se novamente para fazer um de seus mais desiguais trabalhos. Afinal, pouca coisa em seus primorosos trabalhos anteriores sinaliza uma obra tão emocionante, capaz de entrever as minúcias, os pequenos detalhes da vida, e a partir deles organizar todo um painel poético que deslumbra o expectador por pouco mais do que duas horas, um apanhado de imagens espetaculares feitas para preencher qualquer vazio da alma. 
Se "Seven" e "Clube da Luta" eram observações poderosas sobre as áreas lúgubres do subconsciente humano, “O Curioso Caso de Benjamin Button” é uma celebração ao fato de se estar vivo.

domingo, 20 de dezembro de 2015

O Agente da U.N.C.L.E.

Era improvável que este filme, dirigido pelo sempre desigual Guy Ritchie, resultasse frustrante.
Ao menos, no que diz respeito ao conformismo narrativo, que passa longe dos trabalhos do diretor. Nas bilheterias, pelo que se soube, ele não fez o sucesso esperado, o que é uma pena já que o filme é puro deleite cinematográfico: O resgate que Guy Ritchie promove da premissa da série de TV setentista, agora lançada em cinema, é sensacional, mais instigante e empolgante que seu bom trabalho nos dois "Sherlock Holmes" protagonizados por Robert Downey Jr.
Na década de 1950, o Auge da Guerra Fria, uma inusitada circunstância obriga dois espiões à beira do antagonismo (o americano Napoleon Solo e o russo Ylia Kuryakin) a trabalhar lado a lado, enquanto buscam achar um cientista especializado em energia nuclear a fim de deter uma conspiração que visa a construção de uma bomba atômica. Para ajudá-los, ou não, é requisitada a filha dele, a bela Gaby, diretamente das sombras da cortina de ferro.
Espertamente, Ritchie preserva todas as características que mantinham o charme e a curiosidade embutidos na proposta da série. E a reconstituição de época que a produção proporciona é das mais bem acabadas do ano, além da evidente delícia de uma trilha sonora que aproveita a totalidade da diversificada trilha sonora do período e que é usada com fins narrativos como só mestres como Guy Ritchie o sabem fazer.
Mais do que isso, há toda uma concepção cênica que se mantem coerente em todo o filme. Com eventos transcorrendo em paralelo, e relatados das maneiras mais viscerais e criativas pelo diretor.
Na dupla protagonista, o Napoleon Solo de Henry Cavill ("O Homem de Aço") se revela mais carismático do que o sisudo Ylia Kuryakin de Armie Hammer ("A Rede Social"), mas talvez esse fosse mesmo o objetivo, visto que parece ser a própria natureza dos personagens, mas há que se destacar o quanto é fantástica a presença de Alicia Vikander (do magnífico "Ex-Machina").
Como na maioria dos filmes em que aparece, a jovem atriz dinamarquesa surge em cena já surpreendendo com seu aspecto miúdo, sua voz rouca e sensual. Diminuta perto dos dois grandalhões. Mas, bastam poucas cenas para que ela se imponha no filme e revele a força de sua atuação: Essa menina, acreditem, vai longe!
"O Agente da U.N.C.L.E." é, em todos os seus quesitos, um trabalho de plena satisfação, onde temos a oportunidade de ver um grande e indomado diretor se expressar na suntuosidade do cinema comercial.
Maravilhas como essa são cada vez mais raras.