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domingo, 31 de dezembro de 2023

Tempo de Matar


 Em meados de 1996, o diretor Joel Schumacher, por incrível que possa parecer, se encontrava em destaque em Hollywood. Responsável por isso foi a dobradinha de filmes que ele lançou no período, sendo um deles a sua primeira incursão no universo do Homem-Morcego a substituir Tim Burton, “Batman Eternamente” (que embora tenha conquistado o descontentamento da crítica teve boa bilheteria, fracasso foi, de fato, o filme seguinte, “Batman & Robin”), e o outro, este mezzo suspense, mezzo filme de tribunal, “Tempo de Matar”, adaptado da obra de John Grisham (autor que estava em alta naqueles tempos tendo diversas produções adaptadas de seus livros).

É possível notar, através desse exemplo, que o fracasso, às vezes, ensina muito mais que o sucesso: Embora nunca tenha sido um grande diretor, foi depois desta produção relativamente aclamada que Schumacher perpetrou sua mais infame bizarrice cinematográfica, entretanto, foi logo depois do vexame incalculável de “Batman & Robin” que ele teve o bom senso de conduzir a carreira por meio de realizações menores, nas quais o controle do diretor era mais garantido, e o resultado qualitativo, mais certo de ser obtido. Mas, “Tempo de Matar” vale assim esse alarde que, à época, suscitou? Nem tanto.

No sempre segregado e sempre em polvorosa, Mississipi, no sul dos EUA, uma garotinha da comunidade negra é agredida e estuprada por dois rapazes brancos racistas que vão imediatamente à julgamento, sob a quase certeza de absolvição diante das impunes legislações sulistas. No entanto, o indignado pai da criança, Carl Lee Hailey (Samuel L. Jackson), se antecipa à qualquer sentença e metralha os dois criminosos dentro do tribunal, fazendo justiça com as próprias mãos.

É Carl Lee quem agora está no banco dos réus, prestes a ser condenado por homicídio. Sua defesa é assumida pelo jovem e idealista advogado Jake Brigance (Matthew McConaughey, no papel que o revelou à Hollywood após várias participações menores em produções pequenas) que não faz ideia –mas, fará! –de todas as imbricações e desdobramentos que acarretará sua decisão de defender um acusado negro numa comunidade como a do Condado de Canton.

Com a cidade em iminência de virar um barril de pólvora –de um lado os manifestantes negros exigindo veementemente absolvição, de outro, os asseclas da Ku Klux Klan, restaurada no lugar pelos esforços do vingativo irmão de um dos assassinados, vivido por Khiefer Sutherland –Brigance deve enfrentar, nos tribunais, a voracidade inescrupulosa do procurador Rufus Buckley (Kevin Spacey), a desvantajosa antipatia do Juiz Omar Noose (Patrick McGoohan, de “Coração Valente”) e a real ameaça que toda essa circunstância representa a ele e à sua família. Para auxiliá-lo, Brigance conta com o apoio do mentor Lucien Wilbanks (Donald Sutherland), do amigo e parceiro em advocacia Harry Rex Vonner (o histriônico Oliver Platt) e com a inteligência aguçada da jovem estudante Ellen Roark (Sandra Bullock, mais coadjuvante do que protagonista, embora tenha o nome em primeiro nos créditos).

É certamente uma trama urgida com a eficiência e a competência de quem compreendia esse gênero como ninguém –e provavelmente, ela deve funcionar melhor no livro original –ainda assim, apesar de seus bons momentos, o filme é pedante, dirigido com pieguice. Ficam patentes o descontrole de Schumacher para com emoções que deveriam ser mais contidas e a incapacidade dele em extrair atuações bem calibradas de seu elenco vasto e estelar: Em geral, bons atores, Sandra Bullock e Matthew McConaughey se contentam em ter suas belezas evidenciadas e seus egos massageados; quem salva a pátria, no fim das contas, é o sempre ótimo Samuel L. Jackson –grande ator, sua carreira merecia muito mais do que a única indicação ao Oscar (Melhor Coadjuvante por “Pulp Fiction”) que até hoje ele recebeu.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

Linha Mortal


 Lançado bem no início da década de 1990, quando o diretor Joel Schumacher ainda se achava hábil o bastante para acrescentar elementos supostamente experimentais numa obra comercial –como luzes difusas, ângulos de câmera diferenciados e modismos do período que nada mais eram do que isso, modismos –este “Linha Mortal” trazia o requinte de ser produzido por Michael Douglas que, antes de alcançar o estrelato como ator, chegou a conquistar o Oscar de Melhor Filme como produtor em “Um Estranho No Ninho”. Isso jogava expectativas elevadas num filme que nunca chegava a ser uma obra-prima, mas conseguia sempre manter-se interessante.

Na trama, um grupo de alunos, residentes de medicina –entre os quais, os ainda jovens Kevin Bacon, Julia Roberts (antes do sucesso de “Um Linda Mulher”), Oliver Platt e William Baldwin –embarcam no arriscado plano de um colega vivido por Kiefer Sutherland: Instalados de madrugada, num porão das dependências do campus, eles irão parar o coração de um deles com um desfibrilador (o primeiro voluntário, é óbvio, será o personagem de Sutherland), e após um curto intervalo, ressuscitá-lo valendo-se dos recursos médicos.

O que eles testemunham nesse intervalo pós-morte é registrado através de depoimentos. A cada tentativa, o período com o coração parado –mostrado no monitor cardíaco com uma linha reta ininterrupta, o chamado “Flatlinners” do título original –é maior e cada vez mais perigosamente próximo dos cinco minutos (quando a morte pode se tornar cerebral), e por conta disso, cada vez mais difícil de trazer a ‘cobaia’ de volta à vida.

Contudo, eles não voltam sozinhos: Passada a empolgação dos primeiros testes relativamente bem sucedidos –afinal, trouxeram todos de volta sem maiores contratempos ou efeitos colaterais –eles passam a serem procurados pelo que parecem ser fantasmas, aparições que muito se parecem com lembranças que eles guardam da infância. São, na verdade, os pecados em vida que eles expiarão após a morte, mas que, pela circunstância da experiência, os estão castigando ainda vivos.

Percebe-se aqui e, sobretudo, em projetos que ele entregou nas décadas seguintes, que Joel Schumacher é bom em perfumaria: Seus filmes têm ritmo, visual relativamente elaborado e, não raro, são cercados de uma premissa sempre instigante e promissora, entretanto, Shcumacher não sabe enfatizar os predicados sublimes dessa premissa se eles já não vierem completamente organizados no roteiro. Sua direção é empenhada no aspecto técnico e rudimentar no aspecto instintivo e artístico –os atores particularmente se incumbe de tipos caracterizados mais do que de personagens necessariamente humanos; temos o protagonista ambíguo de Kiefer Sutherland, a mocinha padronizada de Julia Roberts, o personagem íntegro, estóico e sólido (e, como tal, enamorado da mocinha) vivido por Kevin Bacon, o conquistador barato (e bota barato nisso!) de William Baldwin, além do coadjuvante para fazer volume de Oliver Platt –um papel que, na verdade, ele interpretou em quase toda sua carreira.

Diante dessas simplificações conceituais, que reduzem a curiosa e reflexiva observação do roteiro dos percalços possíveis do pós-morte a um conto de terror cada vez mais convencional e previsível, o filme de Schumacher deixa de ser aquilo que poderia –e que é sugerido em sua envolvente e promissora hora inicial –para tornar-se, ao fim, um passatempo característico.

A comprovação de uma certa qualidade lhe surgiu com tempo: Em 2017, ele recebeu uma refilmagem, intitulada aqui no Brasil de “Além da Morte”, onde as ideias presentes em sua trama eram ainda mais pasteurizadas e banalizadas.

Se jamais chega a ser espetacular, “Linha Mortal”, de Joel Schumacher, ao menos, tem do início ao fim, uma aura de curiosidade e originalidade que lhe dá certa dignidade (além de argumentos fortes e convincentes para hoje ser considerado um cult-movie), mesmo diante do lamentável fato de que nunca cumpre suas promessas.

segunda-feira, 8 de julho de 2019

Twelve - Vidas Sem Rumo

O diretor Joel Schumacher parece adorar a voz do ator Kiefer Sutherland. Ele primeiro o dirigiu nos anos 1990 dando-lhe um personagem loquaz e eloquente no suspense “Linha Mortal”. Em seguida, ele o escalou para um papel quase desprovido de presença cênica, mas cuja voz era fundamental: O do franco-atirador anônimo e onipresente em “Por Um Fio”.
Em “Twelve-Vidas Sem Rumo”, Kiefer Sutherland surge como o narrador da trama inspirada no livro de Nick McDonell, cuja narração se faz necessária para o ritmo, para o entendimento, e até para certa melodia do filme.
Buscando ser uma daquelas obras independentes que denunciam a falta de perspectiva dos jovens privilegiados (os adultos, quando aparecem, se mostram instáveis e negligentes), o filme circula a vida de alguns personagens aleatórios capturados numa festa que inicia a trama –e deixados numa outra festa que a encerra.
O protagonista White Mike (Chace Crawford) é fornecedor de drogas para a maioria desses jovens. Ele mente compulsivamente para a angelical Molly (Emma Roberts) enquanto chafurda deliberadamente na lama do submundo dos traficantes.
Morador da mansão onde a festa se sucede, o jovem Chris (Rory Colkin) se vê às voltas com a agressividade do irmão mais velho, Claude (Billy Magnussen), recém-saído da reabilitação, e com a envolvente (e existencialmente promíscua) sedução da patricinha Sara (Esti Ginzburg) que manipula todos a sua volta –ela obtém status com o namorado Tobias (Nico Tortorella); adoração e drogas com o jovem Andrew (Maxx Brawer); e, de Chris, o consentimento para celebrar seu aniversário na casa dele.
É numa dessas festas que sua amiga, Jessica (Emily Meade) acaba sem querer se viciando no alucinógeno ‘Twelve’, tão forte que White Mike se recusa a vender –quem o vende é o perigoso traficante Lionel (Curtis Jackson) a um preço tão proibitivo que logo Jessica terá de se prostituir para manter o vício.
O próprio Lionel e White Mike, até então colaboradores leais, podem estar em rota de colisão: Lionel matou Charlie (Jeremy Allen White), amigo de infância de White Mike, cuja culpa, segundo a polícia, pode vir a incriminar o instável Hunter (Philip Ettinger), primo de Mike.
O diretor conduz essa ciranda numa narrativa refinada em empenho visual, acrescida de ritmo e de todas as alternativas cosméticas e transfiguradoras do cinema. E, nesse empenho (no de conceber um filme agradável a qualquer custo), ele abdica por completo da retidão moral: Schumacher não escapa do fato de que passa a mão na cabeça de personagens frequentemente amorais, ainda que ele o faça num filme fluido e sedutor.

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Twin Peaks - Os Últimos Dias de Laura Palmer

Para falarmos desse filme é necessário recapitular a série “Twin Peaks” que, exibida no início da década de 1990, foi uma verdadeira revolução na TV ao levar um conteúdo altamente enigmático e bizarro –cortesia da mente insanamente genial de David Lynch –à uma programação que só conhecia o convencionalismo e a normalidade. A série começava com o brutal assassinato da colegial Laura Palmer e, amparada no mistério em torno da identidade de seu assassino, descortinava uma coleção de personagens misteriosos e situações sinistras em meio às investigações do agente Dale Cooper (Kyle MacLachlan).
A pergunta “Quem matou Laura Palmer?” popularizou-se na época.
Em 1992, o criador David Lynch decidiu então dirigir uma extensão de sua criatura para o cinema, com este prequel, “Os Últimos Dias de Laura Palmer”, que a julgar pelo título, se dispunha a preencher lacunas da série de TV. Entretanto, quem conhece David Lynch sabe que preencher lacunas não é prioridade alguma em seu processo criativo, e este filme se revelou tão desafiador quanto os demais que ele fez ao longo dos anos (ainda mais, talvez, para aqueles que nem sequer acompanharam a miasma de detalhes que apinhavam a série).
A primeira cena, após os créditos iniciais, é de um machado destruindo um aparelho de TV: O rompimento de Lynch com a mídia original de “Twin Peaks”, talvez.
Contrariando previsões, a história começa com o assassinato de uma tal Teresa Banks, para o qual são designados dois agentes, o vistoso e tarimbado Chet Desmond (Chris Isaak) e o iniciante Sam Stanley (Kiefer Sutherland).
Logo ali, Lynch –que participa do elenco como Gordon, um oficial surdo do FBI –introduz seu hábito de personificar mensagens subliminares em um personagem palpável e interativo: Neste caso, a bizarra mulher de vermelho.
A investigação de Desmond e Stanley esbarra no desleixo e na displicência das autoridades locais, assim como nos meandros insólitos do caso, e graças a estes, o agente Desmond termina misteriosamente desaparecido.
Há uma breve e enigmática cena com o agente Dale Cooper –o protagonista da série, mas que aqui é somente uma participação muito especial –onde também vemos o agente Phillip Jeffries, vivido por David Bowie; um agente do FBI desaparecido que, em algum momento, teve um encontro com os seres mais enigmáticos e amedrontadores da série.
Só então, quando o filme de Lynch já tem lá seus trinta minutos de duração, um corte indica a passagem de tempo de um ano, e finalmente a narrativa vai para a cidadezinha de Twin Peaks, onde acompanhamos a adolescente Laura Palmer (a ótima Sheryl Lee, bem aproveitada como nunca o foi na série), dias antes dos acontecimentos que dão início à trama da série.
Na aparência, uma jovem bela e normal da cidade, Laura é atormentada por eventos que é incapaz de verbalizar aos outros à sua volta. Uma entidade maligna chamada Bob parece persegui-la, e essa angústia crescente leva Laura a se envolver com drogas e a desenvolver um comportamento promiscuo para aflição de sua melhor amiga Donna (Moira Kelly substituindo a atriz original Lara Flynn Boyle, o quê só amplia a atmosfera estranha deste filme).
Vários personagens fundamentais à série reaparecem, alguns apenas em pontas que, aos desavisados, nada irão significar –é o caso, por exemplo, da bela Mädchen Amick, ou da sinistra Grace Zabriskie (presença habitual nos trabalhos de Lynch) como mãe de Laura Palmer.
O filme de fato se concentra em Laura Palmer, num protagonismo que ela nunca teve a chance de exercer na série, o que torna este um desolador drama de conotações sobrenaturais e metafísicas a respeito de um desamparo abissal –e nesse aspecto, Lynch se vale amplamente do fato desta ser uma obra para cinema e não para a TV, dispondo assim de liberdade criativa e alta censura para conceber cenas ousadas que a série jamais pode materializar, especialmente duas belas seqüências de nudez envolvendo Sheryl Lee.
“Os Últimos Dias de Laura Palmer” toca também no tema delicadíssimo do abuso, explorado de forma contida, porém aprofundada na série, mas definitivamente bem ilustrado aqui na relação perturbadora e terrível em que testemunhamos Laura Palmer com seu pai (Ray Wise), aparentemente tomado pela entidade Bob, com quem ele muitas vezes se confunde.
Apesar de uma tênue sensação de que pontas soltas estão se juntando (inclusive no que consta à conexão entre o crime misterioso mostrado na primeira meio hora, o assassinato de Teresa Banks, e toda a complexa trama que envolve Laura e culmina em sua morte), o filme de Lynch prima mesmo pela sensação nebulosa de mistério insolúvel do que pelo esclarecimento de perguntas levantadas, e conhecendo Lynch é exatamente isso que se deve esperar dele.
Um rico material para se cultuar e se rever ao longo dos anos em meio aos quais ele consegue manter um mesmo e indissolúvel fascínio.

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Cidade das Sombras

É curioso comparar o trailer deste filme de ficção científica de Alex Proyas lançado nos anos 1990 e o trailer de “Matrix”, lançado poucos anos depois: As cenas que se sucedem são idênticas!
Isso e mais o fato de que muitos nomes da equipe técnica vieram a se repetir nos dois filmes são indicativos do quanto o cultuado trabalho dos Irmãos Wachowsky (hoje, irmãs...) bebeu da fonte deste filme obscuro, atualmente bastante desconhecido, mas com freqüência, dono de uma inesperada genialidade.
O diretor Alex Proyas ainda estava na ressaca da agridoce repercussão de “O Corvo” –que, embora tenha se tornado um cult nos anos 1990, gerou uma curiosidade mórbida em torno da trágica morte do astro Brandon Lee durante as filmagens –quando abraçou este projeto desigual, com muitos elementos temáticos em comum com as obra dos Wachowsky (ambientação sombria, manipulação da realidade, alienação humana, superpoderes), porém um tanto menos comercial, com um roteiro algo desafiador.
O estilo evidente e inconfundível do diretor Proyas (no qual os Wachowsky muito se basearam) se percebe logo nas primeiras cenas que apresentam um travelling noturno de câmera exatamente igual ao que ocorria em “O Corvo”.
Desta vez, ao invés do apartamento onde vive o personagem de Brandon Lee, as câmeras de Proyas nos levam para dentro de um quarto de hotel carregado de elementos retro que remetem a época dos film noir. Lá dentro, numa banheira, está John Murdoch (Rufus Sewell, cuja falta de carisma é um dos poucos equívocos do filme). Ele desperta aflito e perplexo sem conseguir lembrar de nada. Pior: Há pessoas muito estranhas em seu encalço (seres albinos que vestem uniformes negros e ostentam uma natureza fantasmagórica!).
Procurado por esses estranhos e pela polícia (sobretudo, um detetive interpretado por William Hurt) em razão de uma série de crimes atribuídos a ele (e que ele crê piamente que não cometeu), John precisa decifrar uma série de inusitados mistérios (Por que ninguém lembra de ter visto o nascer do sol? De onde vêem a misteriosa capacidade que ele desenvolve de mover objetos com a mente? E por que ocorrem determinados momentos em que todos naquela metrópole desconhecida desmaiam, exceto John?), e no processo salvar a vida daquela que acredita ser a sua esposa, Emma (Jennifer Connelly, como sempre absurdamente linda!).
As respostas podem estar com um médico cheio de intrigantes cacoetes vivido com bastante minúcia por Kiefer Sutherland, que parece trabalhar a serviço dos homens misteriosos.
O desenlace desse novelo aparentemente indecifrável (mas, no fim até que plausível) é bastante surpreendente e, embora flerte abertamente com o absurdo, o roteiro calibrado com equilíbrio por David S. Goyer (um especialista em plots rocambolescos e mirabolantes) e a direção convicta de Alex Proyas não deixam que a mistura desande, por mais exótica que pareça sua receita: A paixão do diretor pelos elementos visuais de “Metrópolis” (já evidente em “O Corvo”) se mescla aqui com um futurismo retro com nítida influência de histórias em quadrinhos alternativas.
Mais cul-movie que isso, impossível!

terça-feira, 16 de maio de 2017

O Silêncio do Lago

Oriundo de um movimento muito específico ocorrido na Holanda em meados da década de 1980, onde um estilo muito específico algo alegórico de suspense foi concebido por uma nova geração de realizadores (entre eles, Paul Verhoeven, com seu “O Quarto Homem”), este “O Silêncio do Lago” –o filme original –agregava valores que muito diziam acerca daquela cultura e daquela mentalidade européia.
Entrava em questão, com freqüência, a dinâmica do relacionamento a dois, fazendo com que os plots girassem em torno das aflições que os envolvimentos acarretam: Sejam essas aflições o abandono da independência, o fardo de um compromisso ou a própria mudança de perspectiva que a presença de uma mulher opera na vida de um homem.
A partir desse princípio, o diretor George Sluizer criou um filme francamente brilhante em inúmeros aspectos –e bastante pioneiro na abordagem humana das propensões psicóticas, como veríamos no cinema hollywoodiano somente décadas depois, em “O Silêncio dos Inocentes”, “Henry-Retrato de Um Assassino” ou “Seven-Os Sete Crimes Capitais”, e anteriormente só foi concebido por gênios como Hitchcock (“Psicose”) e Michael Powell (“A Tortura do Medo”) –fazendo com que seja particularmente frustrante o fato de que o mesmo Sluizer encarregou-se da refilmagem americana, e dela fez uma obra tão redundante.
Na trama concisa e objetiva do filme original, acompanhamos um casal de namorados em viagem pelas estradas enevoadas e úmidas da Europa –um clima que já determina o mistério da atmosfera –como todo casal apaixonado Rex (Gene Bervoets) e Saskia (a radiante Johanna Ter Steege) brigam por eventualidades. Num desses episódios, eles param num posto de gasolina aonde ela vai para faze algumas compras.
E nunca mais volta.

Consumido pelo mistério sem solução, Rex passa os três anos seguintes dedicado à procura por Saskia, sem jamais encontrar pistas. Quando ele parece finalmente superar essa perda graças às insistências da nova namorada, uma inesperada abordagem de Lemome (Bernard-Pierre Donnadieu, uma grande presença), um até então pacato professor, jogará um pouco de luz no que de fato ocorreu e confrontará o perplexo Rex com a possibilidade de um fim para seu tormento –ainda que um fim aterrador!
É exatamente a partir daí –quando o filme holandês envereda por um desfecho tão corajoso quanto macabro –que a refilmagem americana apresenta uma de suas grandes fraquezas: A incapacidade, presente em quase todo o cinema norte-americano em geral, de ousar; na refilmagem (que conta com Kiefer Sutherland como o jovem desesperado e Jeff Bridges como o psicopata enrustido), Sluizer teve a astuta idéia de ampliar a personagem da nova namorada (vivida pela bela Nancy Travis) a ponto dela tornar-se quase protagonista do filme (!). É ela quem representa mais do que a redenção, a salvação do protagonista, numa manobra narrativa quase vergonhosa onde a personagem adquire uma percepção quase extra-sensorial a fim de conduzir a obra a um final feliz.
Mas, o elemento que talvez mais destoe nos dois filmes seja a personagem da namorada desaparecida: Se no original holandês ela era personificada com graça e luminosidade por Johanna Ter Steege, na versão americana, ela é vivida por uma quase estreante Sandra Bullock, que até se esforça bastante, mas não consegue reproduzir a mesma presença de cena de Johanna que reverbera emocionalmente no filme original justificando a obsessão do personagem principal em procurá-la por anos a fio.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Melancolia

Os filmes de Lars Von Trier impelem o público à uma indignação. Herdeiro quase direto de Píer Paolo Passolini e seu ‘cinema do choque’, o realizador dinamarquês encontra em “Melancolia” um de seus mais afáveis trabalhos, talvez porque aqui ele se despe de audácias visuais buscando a contundência de sua trama por meio de uma sutileza maior.
Mas, ainda assim, “Melancolia” é, como suas outras obras, uma jornada à qual ele conduz o expectador à uma região de ar rarefeito, onde nos confronta com um espelho que, por vezes, reflete o pior da raça humana.
Dividido em duas partes. Na primeira (Justine) acompanhamos uma catastrófica cerimônia de casamento abalada, sobretudo pela complicada relação entre a noiva (uma convincente Kirsten Dunst), acometida de uma pungente depressão, e seus familiares. Na segunda parte (Claire), a jovem noiva, agora desquitada de seu marido, enfrenta a aterradora notícia de uma catástrofe desta vez literal: até então oculto atrás do sol, o planeta Melancholia se encontra em rota de colisão com a Terra. Nesse entrecho, a sua irmã (Charlotte Gainsburg), metódica e sempre preocupada com tudo, deseja encontrar um meio –por definição, impraticável –de administrar a chegada do fim entre seus entes queridos. As personalidades de ambas as irmãs ganham ramificações e proporções simbólicas neste incomum filme-catástrofe do mesmo diretor impiedoso e contundente que nos entregou a devastadora experiência chamada "Dogville".
Já foi dito que, a medida que vai envelhecendo, as influências de Von Trier vão ficando mais perceptíveis. “Melancolia” é um exemplo bastante claro disso. Qualquer olhar mais superficial pode notar a imensa inspiração que Andrei Tarkovski e seu “O Sacrifício” exercem sobre esta obra: Basicamente, Von Trier –como numa referência que até outro dia era habitual só de Brian De Palma –toma emprestado todo o seu conceito (um grupo de pessoas num cenário isolado às voltas com a descoberta existencial do fim do mundo), que lhe domina o plot em sua segunda parte, e serve para Von Trier –assim como também serviu à Tarkovski –exercitar sua abordagem aguda sempre despida de qualquer traço de piedade, pudor ou indulgência.

segunda-feira, 2 de maio de 2016

Pompeia

Existem certos filmes que não têm a menor salvação. Para piorar, a impressão que nos passam, enquanto projetos, é de que algo muito promissor poderia surgir de sua idéia. Veja, por exemplo, “Pompeia”.
Sua trama ambienta-se às vésperas da lendária erupção do vulcão Vesúvio, quando chega à cidade que dá título ao filme (localizada nas proximidades) um jovem escravo do norte (Kit Harrington, o Jon Snow de “Game Of Thrones”, pagando um mico violento!) vendido aos senhores locais para lutar como gladiador numa arena onde terá como expectadores o vilanesco senador Corvo (Kiefer Sutherland, tão ridículo quanto o nome de seu personagem!), e seu grande amor, a jovem Cassia (Emily Browning), noiva do vilão.
Esta produção até tinha potencial para render algo interessante, com um apelo que unia o verniz épico de “Gladiador” ao elemento de romance-catástrofe de “Titanic” (E hoje em dia, é muito comum os estúdios fazerem esse tipo de associação para venderem seus projetos).

Mas ao invés disso, o diretor Paul W. S. Anderson (do descerebrado “Resident Evil”, também o quê vocês queriam?!) realizou um festival de equívocos, a começar pelo péssimo aproveitamento dos atores; difícil dizer qual está mais canastrão, Kiefer Sutherland (num dos personagens mais patéticos e afetados dos últimos tempos) ou Kit Harrington; além disso, conseguiram 'enfeiar' a normalmente bela Emily Browning (de "Sucker Punch"), passando por um roteiro vergonhoso.
Um verdadeiro fiasco.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Conta Comigo

Mais do que o cinema, a TV foi meu nicho de informação cinéfila. Lá, eu descobri os filmes que definiram meu gosto como expectador, até meu caráter como ser humano.
O cinema, com o tempo, tornou-se mais como um grande privilégio, reservado à momentos muito especiais que foram (graças ao bom Deus) se multiplicando com o passar dos anos.
Mas, é sempre um prazer lembrar daquelas obras que descobri, ainda verde, durante as tardes.
Um dos filmes que levo, daquele período, com maior carinho é "Conta Comigo", por uma série de fatores: Porque o filme em si já vem com toda uma premissa a respeito da própria nostalgia em si; porque é um filme que preserva sua qualidade e sua satisfação em ser assistido em qualquer faixa etária; e, sobretudo, porque dentre tantos que em vi quando criança, ele é dos raros casos em que o tempo não lhe prejudicou (pelo contrário, ele continua e sempre continuará um primor!).
Na trama (oriundo de um conto do mestre do macabro, Stephen King) quatro jovens amigos, pré-adolescentes resolvem encarar a árdua peregrinação por dias ao longo dos trilhos de um trem, para chegar num trecho em que jaz o cadáver de um garotinho morto.
O plano é encontrar o corpo, e ganhar fama de heróis. Mas a jornada irá revelar muito da faceta deles mesmos, em níveis e camadas que eles próprios desconheciam, e que definirá muito da amizade que os une dali para frente.
São muitos os elementos perenes que mantêm o fascínio deste trabalho: Há, por exemplo, um jovem River Phoenix em estado de graça, um ator que em seus catorze anos de idade já conseguia ser magnífico; A cena espantosa e eletrizante da travessia pela ponte, quando o trem chega para complicar a vida dos garotos; o roteiro (indicado ao Oscar) que obtêm um equilíbrio entre a morbidez do mundo real, e a natureza lúdica do mundo e da vida pelos olhos de alguém mais jovem, o que nenhuma outra adaptação de Stephen King jamais conseguiria (tá bem, "Um Sonho de Liberdade" conseguiu isso também!).
No fim das contas, este é um daqueles filmes ímpares que o cinema nos entrega, um obra aparentemente sem pretensão, mas sobre a qual passamos a conversar para sempre, observando sua beleza sentimental, o modo com que opõe as facetas dolorosas do crescimento, e o seu poder de ganhar uma indelével força em nossa memória, envolvido principalmente, pela bela e contagiante música, Stand By Me.