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quarta-feira, 27 de maio de 2026

O Sobrevivente


 Não muito tempo depois dos cinemas terem recebido “A Longa Marcha”, adaptação da primeira obra escrita por Stephen King, as telonas ganharam então este “O Sobrevivente”, também ele adaptado de um livro de King –no qual ele também utilizou o pseudônimo Richard Bachman –contudo, “O Sobrevivente” já havia sido adaptado antes, em 1987, num filme de profusa mescla entre ficção científica e pancadaria estrelado por Arnold Schwarzenegger. Nesta nova versão, ele é substituído por Glenn Powell (mas, Schwarzenegger é lembrado com sua estampa nas notas de dinheiro comercializado naquele futuro distópico!), entretanto, quem de fato dá a tônica para este novo filme é seu diretor Edgar Wright.

Habituado a realizar filmes brilhantes em sucessão um após o outro, Wright é aquele raro tipo de autor que está num patamar elevado aos demais, um esteta capaz de forjar filmes tão comercialmente satisfatórios quanto primorosamente artísticos –essa seleta lista de diretores atualmente inclui, além dele, Denis Villeneuve, Alfonso Cuarón, Paul Thomas Anderson e... bem, já começa a ficar difícil lembrar mais alguém!

Para fugir da mera pecha de filme de ação que veio atrelada à produção de 1987 (ainda que as plateias daqueles tempos não se importassem nem um pouco com isso), Edgar Wright constrói em “O Sobrevivente” –ou “The Running Man” –um futuro assolado por versões turbinadas e anabolizadas de celeumas sociais e existenciais que nos assolam hoje, desenvolvendo dentro desse cenário uma narrativa de perseguição e suspense tão urgente quanto eletrizante.

No papel de Ben Richards, um operário do futuro com problemas até o pescoço, Glenn Powell imprime uma raiva reativa que define muito do personagem (e sedimenta muito do caminho que ele trilhará): Sua filhinha pequena está doente, e sem dinheiro para custear remédios e tratamento, ela pode não passar de alguns dias de vida!

Depois de ter negado seus pedidos para obter emprego –Ben não é bem visto pelos empregadores desde que denunciou a empresa por abuso trabalhista –ele precisa engolir o orgulho e ver a esposa Sheila (Jayme Lawson, de “Pecadores”) trabalhar numa boate/lanchonete para colher gorjetas o suficiente dos clientes pagantes. Indignado e desesperado com a situação, Ben segue para a tentacular emissora Gratui-TV, disposto à participar de alguns dos programas de auditório onde telespectadores participantes embolsam alguma grana. Porém, Ben, graças ao temperamento apropriadamente explosivo que demonstra na ocasião, acaba selecionado logo para o mais letal de todos: O reality show “The Running Man”.

Atingindo picos de audiência, e capaz de proporcionar aos seus concorrentes rios de dinheiro, o “The Running Man” tem como apresentador o afiado personagem de Colman Domingo (ator indicado ao Oscar pelo filme “Rustin”) e consiste de um jogo no qual três voluntários devem tentar fugir pelas ruas da cidade (e do estado, e do país, se for o caso) por um período de trinta dias. Durante esse tempo, eles serão caçados e perseguidos por grupos de elite especializados nessas operações (instruídos a fulmina-los sem dó nem piedade), e acompanhados de drones de câmeras high-tech ao vivo.

A fim de apimentar a circunstância, a rede de TV cria narrativas mentirosas onde os sobreviventes são renegados e inescrupulosos e os caçadores, galantes agentes a serviço da justiça –o que transforma, portanto, cada pessoa da rua que o reconhecer num inimigo em potencial capaz de denunciá-lo.

Quanto mais tempo o participante conseguir ficar vivo (e poucos foram os que conseguiram passar de poucos dias; e nenhum jamais totalizou um mês!), mais dinheiro ele ganha; e quanto mais atenção o participante chama para si e para sua perseguição, maior é a audiência do programa.

Ben Richards inicia assim sua jornada tentando passar despercebido, fugindo para lugares improváveis onde crê que não será encontrado. No entanto, tão logo se torna o único a sobreviver, ele percebe a facilidade com que os caçadores se valem do sistema para rapidamente rastreá-lo –e passa então a contar com algumas poucas alianças para tentar chegar aos almejados 30 dias e, quem sabe, sobreviver e voltar para sua família, entre esses inesperados aliados estão o blogueiro e ativista Bradley Throckmorton (Daniel Ezra); seu pequeno irmão; o pinel e revolucionário Elton Parrakis (Michael Cera); e a jovem Amelia Williams (Emilia Jones, do premiado “CODA-No Ritmo do Coração”), inicialmente tomada como refém por Ben, e em princípio, crédula nas narrativas vilanescas associadas a ele, mas, aos poucos, consciente da manipulação que a Gratui-TV e seu chefão maior, o produtor Dan Killian (Josh Brolin) fazem com o público.

Com um pouco menos de ação e um pouco mais de suspense do que o filme de 1987 (ainda que, quando a ação aparece ela se dá em cenas de uma sinergia assombrosa), “O Sobrevivente” pincela o fascinante, opressor e detalhado mundo em que a trama se passa com elementos poderosos de controle midiático (inclusive com as famosas alterações de filmagens feitas com IA), de desigualdade social em níveis extremos e alarmantes e da opressão exercida pelos poderosos de formas incisivas e ultrajantes –e, apesar de tudo, nem um pouco improváveis de serem perfeitamente reais!

“O Sobrevivente”, com Arnold Schwarzenegger, é hoje um cult-movie, por sua mescla saborosa de adrenalina e futurismo (numa época em que satirizar realitys era um arrojo!), o novo filme tem até potencial para virar cult também (até porque Edgar Wright, em sua resplandecente carreira já concebeu alguns), mas sua ênfase está menos voltada para a ação e a pancadaria, e mais para a pertinente denúncia às corporações e às suas corruptíveis influências no público expectador, presente já na aflitiva obra literária de Stephen King.

quarta-feira, 29 de outubro de 2025

A Longa Marcha - Caminhe Ou Morra


 Stephen King escreveu “A Longa Marcha” ainda na faculdade, durante a segunda metade da década de 1960 –antes da consagração como escritor de livros de terror, o que explica também o gênero distinto do livro, ficção científica distópica –tal especificação de tempo serve para explicar muito bem a alegoria embutida no argumento: Ao moldar uma trama na qual jovens voluntários eram conduzidos à um esforço descomunal que levava a maior parte deles à morte por indiferentes senhores da guerra (militares), King fazia uma clara referência à Guerra do Vietnam que vitimizava incontáveis vidas de jovens norte-americanos num conflito que todos (exceto, os mandatários no poder) enxergavam como algo despropositado, sem sentido. Contudo, se “A Longa Marcha” foi o primeiro livro que King escreveu, ele não foi o primeiro que ele publicou: Somente após o sucesso literário de “Carrie-A Estranha” (logo seguido pela adaptação cinematográfica dirigida por Brian De Palma) que King pôde lançar, em 1979, “A Longa Marcha” –e ainda o fez sob o pseudônimo de Richard Bachman, com o qual lançou diversos outros livros.

Era irônico, portanto, que a primeira obra de Stephen King, dentre tantas que ele perpetrou e que despertaram tanto interesse nos estúdios de Hollywood, nunca tenha sido adaptada para cinema antes –até agora, com o lançamento de “A Longa Marcha-Caminhe Ou Morra”.

Dirigido por Francis Lawrence (que assinou todas as excelentes continuações de “Jogos Vorazes”), a trama de “A Longa Marcha” diz respeito a uma caminhada promovida por militares e acompanhada por todo o país. Nesse futuro, os EUA são uma nação colapsada, e a Longa Marcha é uma campanha anual que recruta voluntários para restaurar o ânimo e o orgulho do país. São cem rapazes que haverão de encarar o desafio de caminhar, num determinado ritmo, por uma estrada que atravessa cerca de cinco estados norte-americanos. Ao vitorioso é concedido um desejo (qualquer um!) a ser realizado, além da satisfação de viver bem financiado o resto da vida –uma amostra do quanto a persistência e a obstinação são recompensadas pelo governo.

Entretanto, os noventa e nove participantes restantes são impiedosamente mortos! Explica-se: Não há linha de chegada para a Longa Marcha, ganha aquele que tão somente for o último a restar em pé.

Durante toda a caminhada –que perdura por dias a fio, sem qualquer pausa para descansar, dormir, comer ou fazer necessidades fisiológicas! –os participantes devem manter um ritmo específico, a cada vez que esse ritmo se reduzir ou parar, o participante é advertido, se após três advertências o participante não conseguir retomar a marcha, pela razão que for, ele é fulminado com um tiro na cabeça!

É nessas condições atrozes que o jovem Ray Garrity (Cooper Hoffman, de “Licorice Pizza”) embarca na Longa Marcha com motivos muito pessoais (que, mais tarde, serão elucidados) para vingar-se do grande idealizador dessa disputa, o cruel e megalomaníaco Major (Mark Hammil). Durante, essa exaustiva (em todos os níveis possíveis) provação, Ray sela um pacto de amizade com Peter McVries (o ótimo David Jonsson, de “Alien-Romulus”), um órfão de ideais convictos e positivos. Outros personagens participam da maratona: Pearson (Thamela Mpumlwana) cuja ingenuidade o leva a firmar laços de amizade com todos, Stebbins (Garrett Wareing) munido de impressionante compleição física que esconde um triste e doloroso segredo, Barkovitch (Charlie Plummer, de “Todo O Dinheiro do Mundo”) cuja muralha de sarcasmo para com seus colegas não o impedirá de sucumbir ao desespero e à agonia, Olson (Ben Wang, de “Karatê Kid-Lendas”) que ingressa na disputa crente de que sua dedicação teórica irá lhe garantir a vitória, Curley (Roman Griffin Davis, o garotinho de “Jojo Rabbit”), o mais jovem de todos, que mentiu a idade para participar, e será a primeira vítima desse esquema inclemente, e muitos outros, todos eles fadados e não chegarem vivos até o final –exceto um, e é preciso sofrer até o úlimo instante para saber quem será!

A escolha de Francis Lawrence para a direção é das mais acertadas: Conhecedor do material, por sua bem sucedida passagem na franquia “Jogos Vorazes”, Lawrence sabe enunciar os elementos de reflexão contidos no enredo, compor um registro claro, preciso, meticuloso e sensorial da jornada física assim retratada (com os efeitos físicos do desgaste se abatendo sobre os personagens de forma primorosamente evidente), desenvolver a empatia do público pela premissa e pelos personagens certos (o que ajuda a tornar tudo ainda mais angustiante), e ainda soube transpor habilmente a alegoria do livro original de Stephen King para a atualidade: Com a Guerra do Vietnam não mais em voga, “A Longa Marcha”, agora, parece refletir sobre a polarização política dos EUA, sobre a desumanização tóxica que influencia as gerações mais jovens internet afora, e sobre os famigerados reallity-shows, e a forma como a integridade física dos seres humanos inseridos nesses contextos termina tendo menos importância do que o registro do espetáculo.

domingo, 21 de setembro de 2025

O Iluminado


 Em 1980, quando Stanley Kubrick lançou sua adaptação cinematográfica do best-seller “O Iluminado”, o autor, Stephen King, não ficou nada satisfeito com o resultado –embora tenha sido recebido nos anos e décadas posteriores como um dos maiores filmes de terror psicológico de todos os tempos (isso, posteriormente, porque na época, “O Iluminado” ganhou até mesmo indicações ao Framboesa de Ouro!), King nunca escondeu seu descontentamento com o que Kubrick fez do material. Para King, a rigidez sempre formal de Kubrick extirpou do enredo que ele havia imaginado muito do sentido moral e da mensagem de conflito familiar e redenção que ele embutiu na trama.

Com o passar do tempo e com a consolidação de seu cacife em Hollywood (possível graças a dezenas de adaptações de sucesso de seus livros, produzidos ao longo de muitos anos), Stephen King foi capaz de produzir e roteirizar pessoalmente uma versão de “O Iluminado” que correspondesse exatamente àquilo que ele almejava em uma adaptação audio-visual. “O Iluminado”, de 1997, não é uma obra de cinema, como o impactante trabalho de Kubrick, é na verdade uma minissérie lançada em três episódios pela ABC e, aqui no Brasil, na longínqua época das fitas de VHS, compilados todos em um único longa-metragem de três horas de duração. Era algo até comum à Stephen King esse tipo de procedimento –lançar adaptações suas em versões televisivas mais extensas e simultaneamente mais fiéis ao detalhado material original, vide “It-Uma Obra-Prima do Medo” ou “Os Vampiros de Salem”.

Num primeiro momento, a trama de “O Iluminado” não difere muito daquela mostrada no filme de Kubrick: Tentando encontrar um período de paz para conceber a obra que pode lançá-lo como escritor, o ex-professor e ex-alcoólatra Jack Torrance (Steven Webber) aceita a improvável ocupação de zelador do Hotel Overlook durante a severa estação do inverno. Explica-se: Com as Montanhas Rochosas do Colorado, nas quais o hotel se localiza, abarrotadas de neve por uma estação inteira, o hotel fica completamente isolado do resto do mundo. É impossível chegar nele, tanto quando é impossível, para quem lá está, sair de lá até a primavera. Contudo, Jack Torrance não apenas aceita a incumbência (certo de que o afastamento extremo será favorável na hora de escrever seu livro), como também leva para lá sua esposa Wendy (Rebecca De Mornay) e seu filho Danny (o pequeno Courtland Mead).

Embora haja um esforço de todas as partes para que a família esteja sempre unida e feliz, há um fantasma, por assim dizer, que assombra o casamento de Jack e Wendy: Num rompante, durante uma de suas bebedeiras, Jack agrediu Danny, e agora tenta de tudo para reparar seu erro perante a esposa e o filho.

E aí está um dos grandes diferenciais da obra de King (esta minissérie que, na realidade, é dirigida por Mick Garris) e a obra de Kubrick: Wendy, vivida por Rebecca De Mornay, não apenas bonita e saudável, mas também altiva, firme, determinada e convicta é o oposto quase exato da Wendy fragilizada, assustada, submissa e vulnerável de Shelley Duvall vista no filme –King afirmou categoricamente que jamais teve a intenção de escrever uma personagem desprovida de força como aquela.

Ao mesmo tempo, o Jack Torrance de Steven Webber –sem que se façam comparações descabidas entre as estaturas distintas dos atores que interpretam o personagem –não chega a ser um antagonista com os minutos contados para surtar como o Jack Torrance (espetacular) de Jack Nicholson; ele é mais um indivíduo cheio de imperfeições, falho, que se equilibra o tempo todo entre ceder às suas próprias fraquezas e vícios ou manter-se íntegro por sua família. O Hotel Overlook –como, aliás, tem muito a ver com o estilo difundido de Stephen King –termina sendo um local abarrotado por assombrações que, à sua maneira, tentarão se valer das piores facetas de Jack para controlá-lo.

“O Iluminado” de 1997 era, portanto, uma história de fantasmas onde o medo primordial representava a corrupção da família a partir de seu membro mais corruptível; já, “O Iluminado” de 1980 era uma alegoria cinematográfica concebida por Stanley Kubrick na qual os fantasmas a assombrar os corredores refletiam ecos subconscientes da História Norte-Americana e de mais um sem-fim de reinterpretações em potencial, ao gosto dos cinéfilos que viessem a assistí-lo.

quinta-feira, 14 de abril de 2022

A Hora da Zona Morta


 Interessante como a obra literária de Stephen King gera material que consegue se adequar às mais diferentes personalidades dos realizadores que se encarregam dela: Brian De Palma (“Carrie-A Estranha”), Stanley Kubrick (“O Iluminado”), Rob Reiner (“Conta Comigo” e “Louca Obsessão”). A lista é longa.

A esses nomes junta-se David Cronenberg com este notável “A Hora da Zona Morta”.

Como um tigre enjaulado, à toda hora o estlio de Cronenberg ruge, inquieto com as grades da trama comercial de suspense/terror a aprisionar sua indomada criatividade.

Sente-se isso em cena: A narrativa acompanha as nuances da trama sem jamais evitar a sensação desdenhosa de análise antropológica que seu diretor lhe impõe, vislumbrando a maldade humana –um tópico sempre ressaltado no trabalho de Stephen King –como mais uma deformidade, como tantas que ocupam o centro das reflexões de Cronenberg.

Após um acidente, o protagonista Johnny Smith (Christopher Walken), desperta de um período de anos de coma para o mundo real trazendo consigo um dom inesperado: Com um simples toque, ele é capaz de vislumbrar o futuro da pessoa. Como é inerente às suas premissas, não tarda a Stephen King transformar a dádiva em uma maldição: Johnny é confrontado com um dilema atroz ao tocar a mão de um candidato à congressista norte-americano (Martin Sheen); na sua palpável premonição, o candidato se torna presidente dos EUA e, com a autoridade de tal posto, acaba deflagrando a Terceira Guerra Mundial.

Se para King essa dúvida, brotada das vastas alternativas do fantástico, já é o cerne de todo o enredo, Cronenberg lhe atribui algo mais –o questionamento, muito humano e aterrador, ao redor da validade de tal profecia. Johnny é, afinal, um vidente, ou uma aberração, como tantas, é bom lembrar, que povoam a filmografia de Cronenberg desde que ele aventurou-se pelo cinema?

Como todo bom autor mais interessado na provocação do que na mera ação, Cronenberg reluta a fornecer tal resposta –na realidade, ele não a entrega de fato. Há, na convenção de um desfecho ameno e fiel ao livro, um elemento que reconforta plateias mais comerciais com o indício de uma resolução apetecível, mas Cronenberg, atrevido que só ele, nunca deixa que seja mais que isso mesmo, um indício.

Na certeza perene de sua visão amarga e transfiguradora das pulsões humanas, o diretor não dá a esta desigual transposição de Stephen King um viés que a reduza em uma trama de simplismos factuais e sobrenaturais. Em seu conceito pleno de camadas e complexidade, Cronenberg oferece uma reflexão bem mais ampla e profunda que envolve pontos de vista, psicopatia, tragédias injustificáveis e dúvidas insolúveis.

Nos anos 1980, distraídos com sua inércia inocente, os expectadores elegeram “A Hora da Zona Morta” como uma ótima adaptação de King e só, sem atentar para as nuances pertinentes que seu diretor muito sutilmente lhe soube incutir. Resta, portanto, aos expectadores da atualidade, a chance preciosa de rever esta obra e dela extrair os significados que antes possam ter escapado.

Eles permanecem todos lá –como em quase todas as obras de Cronenberg –a transtornar os mais atentos com uma visão fatalista, algo desesperançada, da condição humana e sua mal-disfarçada incapacidade para discernir (ou mesmo determinar o que é) o bem e o mal.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Doutor Sono

Dentre as inúmeras adaptações cinematográficas de Stephen King, “O Iluminado”, de Stanley Kubrick, exerce um papel curioso: É abertamente repudiado por seu autor devido às liberdades drásticas tomadas por Kubrick em relação à obra original, ao mesmo tempo que é cultuado por cinéfilos do mundo todo como um dos grandes filmes de terror de todos os tempos.
Daí, portanto, a dificuldade na abordagem do diretor Mike Flanagan ao adaptar para cinema a sua continuação, “Doutor Sono” –continuação esta que, até há bem pouco tempo, pouca gente sabia que existia: Ser fiel ao trabalho de Stephen King, dando continuidade ao ‘seu’ “Iluminado” –cujo desfecho é completamente distinto do filme –ou manter-se próximo da obra de Kubrick?
Talvez por sua própria influência afetiva (não há dúvidas de que, por sua orientação no terror, Flanagan cresceu inspirado pelo filme), talvez pela lógica comercial (certamente, a grande maioria do público tem mais familiaridade com a história contada no filme que na do livro), Flanagan optou por fazer um filme que remete, em inúmeros sentidos ao trabalho primordial de Kubrick.
É, assim, com todo o sabor de continuação do filme de Stanley Kubrick (inclusive, com direito à referências explícitas, rimas visuais diretas, aproveitamento da trilha sonora e até de enquadramentos de câmera imediatamente relacionáveis), que o trabalho de Flanagan começa: Após os trágicos eventos no Hotel Overlook, o pequeno ‘iluminado’ Danny Torrance e sua mãe passam a morar na Flórida. Nos anos que se seguem, ele aprende a lidar com seu dom –que lhe permite ver seguidamente os fantasmas que o assombravam –o que não o impede de crescer transtornado. Com trinta e poucos anos, e já interpretado por Ewan McGregor que faz um excelente trabalho, Dan Torrance chega à cidadezinha de Frasier onde aparentemente encontra alguma paz em serviços comunitários e reuniões de abstêmicos.
Todavia, numa cadência pausada, paciente e minimalista que espelha a narrativa ampla e detalhada do livro de King, o filme (que, não à toa, atinge suas três horas de duração), desde seu início, acompanha outros personagens também: O grupo obscuro denominado o ‘Nó’; seres sobrenaturais e virtualmente imortais, cujos poderes e vida eterna são garantidos graças ao consumo constante do vapor que emana dos ‘iluminados’ quando morrem.
São como vampiros moldados dentro dessa mitologia concebida por Stephen King.
A líder deles, a mais poderosa e onisciente, é Rose (a sensacional Rebecca Ferguson, numa personagem cujo visual remete à falecida cantora do grupo “4 Non Blondes”, dos anos 1990) tão sedutora quando amedrontadora.
Sem pressa e sem intenção de evitar os inúmeros detalhes que povoam a premissa, o diretor Flanagan acompanha o protagonista e seus antagonistas por anos, numa introdução que se estende muito mais do que estamos habituados em cinema, quando então, é apresentada a personagem que fornece o gatilho real para a trama. A jovem Abra (Kyliegh Curran), uma das poucas ‘iluminadas’ –já que, por alguma razão, eles estão escasseando no mundo –detentora de um poder fenomenal; o que significa vapor mais que suficiente para saciar a fome que começa a levar os indivíduos do ‘Nó’.
Enquanto Rose tenta descobrir o encalço de Abra, ela estabelece um vínculo com Dan que achava ter deixado para trás os problemas acarretados por sua ‘iluminação’.
Contudo, Rose e o ‘Nó’ representam um perigo do qual ele terá de salvar Abra –e para confrontar Rose, ele precisa revisitar forças sobrenaturais que podem significar um perigo para ela também. Ou seja: Regressar até o Hotel Overlook, e submeter-se às mesmas assombrações (e memórias) de antes.
Nesse trecho final –quando nos transporta de volta à ambientação do filme original –o diretor Flanagan dá completa e absoluta vazão à sua admiração por Stanley Kubrick, emulando diversas sequências memoráveis de “O Iluminado”, com direito à recriação de algumas cenas –de forma até mais minimalista do que o próprio Steven Spielberg (amigo pessoal de Kubrick) já havia feito numa sequência de “Jogador Nº 1” –além da reescalação de novos atores para interpretar o também ‘iluminado’ Dick Hallorann (Carl Lumbly substituindo Scatman Crothers), a mãe Wendy Torrance (Alexandra Essoe substituindo Shelley Duvall) e até mesmo o pai Jack Torrance (Henry Thomas substituindo o insubstituível Jack Nicholson).
Uma carta de amor implícita à obra extraordinária de Stanley Kubrick, “Doutor Sono” usa de seus desdobramentos para, ao final, honrar seu autor, Stephen King, e manejar os elementos de forma à chegar até o desfecho que ele tinha, de fato, planejado para sua criação.
No final, o talento, o bom senso, e o profundo entendimento do gênero do diretor Mike Flanagan conseguiu respeitar e homenagear os dois gênios criativos por trás de “O Iluminado” –por mais que, durante um longo tempo, suas visões tivessem se mantido incompatíveis.

terça-feira, 12 de novembro de 2019

Doutor Sono

Crítica do amigo Fabricio Gurski
Quando falamos dos melhores filmes de terror já feitos, sou capaz de apostar minha alma por um bom uísque, que de cada dez, oito irão mencionar “O Iluminado”, de Stanley Kubrick, pois, se trata de uma das maiores obras da história do cinema, mesmo por muito anos gerando controvérsia (devido à alardeada insatisfação do autor Stephen King com o resultado final).
Além de chamar a atenção pela direção e pelo roteiro primoroso do ícone do cinema Stanley Kubrick e contar com o astro Jack Nicholson, se trata de uma história baseado em um livro de Stephen King (mestre do horror na literatura), então quando se pretende adaptar para cinema a continuação literária desse que é um dos filmes mais emblemáticos da história, o que fazer com a ansiedade?
Controlar e esperar.
Foi anunciado o diretor Mike Flanagan para continuação (criador cuidadoso da excelente série “A Maldição da Residência Hill” e diretor de “O Sono da Morte”) e as expectativas foram só aumentando até chegar o último fim de semana, quando fui  ao cinema conferir o exemplar; e lhe digo meus amigos: Sensacional! O cuidado de Flanagan se repete cena a cena, assim como em seus trabalhos anteriores, criando uma atmosfera fantasmagórica, misteriosa e assustadora, muito desse clima impresso pela edição minuciosa com inspiração na obra de Kubrick.
O elenco todo muito afinado, assim como já esperado pelo quilate dos selecionados –Ewan McGregor; Rebeca Ferguson; Kyliegh Curran; Carl Lumbly; Zahn McClarnon; Bruce Greenwood.
Cenas marcantes, lindas, pesadas e emocionantes numa coleção de homenagens e criatividade, que fazem uma continuação belíssima da obra prima “O Iluminado”.
Aposto com vocês que, assim como antecessor, vai criar muita controvérsia, mas acima de tudo, será um filme lembrado por muito tempo. Não é uma mera coincidência, sim Flanagan se dedicou a fazer um filme de terror digno da obra de King e Kubrick, e me emocionou!
Então aposto um bom uísque, que temos mais um grande filme adaptado da obra de Stephen King.

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

It - A Coisa Parte 2

Dono da honraria de maior bilheteria para um filme de terror de toda a história do cinema, o “It-A Coisa Parte 1” deixou uma expectativa considerável a ser superada pela parte 2 –e já se presumia uma certa infelicidade da parte do projeto uma vez que sabíamos que o elenco infantil (responsável por grande parte do apelo irresistível daquele filme) não retornaria sendo que os personagens seriam mostrados em idade adulta, exatos vinte e sete anos depois dos acontecimentos anteriores.
A saída do diretor Andy Muschetti foi criar um pretexto para que as crianças voltassem; na forma de sucessivos flashbacks que não só acometem com frequência à narrativa principal como também recebem uma justificativa bastante poderosa dentro de sua premissa, o que termina por modificar algumas considerações da trama e a afasta bastante do que se passa no livro original de Stephen King –do qual o “Parte1” era tão magnificamente fiel.
Algumas coisas são até deduzíveis: Sabemos que Pennywise, a entidade maligna que assume na maior parte das vezes e das cenas a forma de um tenebroso palhaço assassino (interpretado com notável caracterização por Bill Skarsgaard) não morreu de fato no final do filme anterior; e também sabemos, por informações pregressas, que ele desperta a cada vinte e sete anos com sede de sangue, passando a assombrar novamente a desolada cidadezinha de Derry.
Dentre os sete jovens amigos que integravam o Clube dos Perdedores –os responsáveis pela derrota de Pennywise –somente Mike (Isaiah Mustafa) ficou na cidade; e por razões que descobriremos mais tarde somente ele reteve memórias mais nítidas do ocorrido e da promessa que, na emocionante cena final, todos eles fizeram.
Quando os indícios do retorno da criatura ficam claros –inclusive com uma cena perturbadora de morte mostrada já no início, um bocado indicativa da disposição do diretor Muschetti em preservar em seu filme a ênfase num pavor muito mundano e contundente apontada por Stephen King em toda sua obra –Mike decide contactar um a um seus antigos amigos, que deixaram Derry para seguir suas vidas.
É assim que, numa sequência formidável, somos apresentados aos personagens em sua nova versão (e aos atores que os interpretam, todos escolhidos com zelo de tal maneira absoluto que eles realmente parecem os intérpretes infantis envelhecidos, detalhe aproveitado em diversas cenas que intercalam o passado e o presente): Bill, agora vivido por James MacAvoy, tornou-se autor e roteirista de cinema; o hipocondríaco Eddie (James Ransone) tornou-se analista, e casou-se com uma esposa implicante e repressora a espelhar de tal maneira sua mãe que termina interpretada pela mesma atriz (!); a única garota do grupo, Beverly (agora vivida pela absurdamente maravilhosa Jessica Chastain), casou-se –com um marido violento que é descartado logo em sua primeira cena; enquanto que o gordinho Ben, apaixonado por ela desde a infância, tornou-se arquiteto e deixou de ser gordinho ganhando a fisionomia malhada do ator Jay Ryan; o divertido Ritchie, uma das melhores presenças do primeiro filme, ganhou uma nova versão à altura, com o ótimo Bill Hader; e Stan (Andy Bean), por sua vez (por razões que convêm não dizer), tem aqui sua participação bastante reduzida.

Todos vão assim parar em Derry, onde a ameaça de Pennywise os aguarda, bem como lembranças das quais eles se desprenderam –em grande parte, explicado pelo fato do poder do próprio Pennywise exercer esse esquecimento sobre quem de lá se afasta. Daí Mike (que foi o único a permanecer em Derry) ser o único a lembrar de tudo.
Num recurso meio oportunista, o roteiro sugere que as próprias memórias que o expectador compartilha com os personagens (correspondentes aos eventos do primeiro filme) não representam sua totalidade: Daí o reaproveitamento dos protagonistas juvenis do outro filme em novas cenas feitas especialmente para esta produção. Muitas delas dão uma forte impressão de encheção de lingüiça (apenas para preservar na continuação a maioria dos elementos do sucesso anterior), entretanto, veem também abrilhantadas por um agridoce sabor de nostalgia e uma técnica primorosa da parte do diretor Muschetti.
O Clube dos Perdedores tem, pois, que reunir alguns artefatos especiais (todos inerentes ao apreço pessoal de cada um) para a execução de um ritual onde será revelada a verdadeira forma da Coisa (na verdade, um alienígena milenar de poderes metafísicos) por meio do qual ele por fim pode ser morto.
Dentro dessa estrutura –a árdua preparação para o ritual, a procura individual por cada um dos artefatos, as consequentes aparições fantasmagóricas de Pennywise ao longo disso, as informações acerca de sua origem e o emprego de alguns outros elementos (inclusive ideias novas que afastam este filme do livro) –a realização de Andy Muschetti não faz a menor questão de esconder as imodestas proporções que fazem dele uma espécie de “Senhor dos Anéis” do gênero terror: Em escala e em extensão (sua duração atinge quase as três horas!), “It-A Coisa Parte 2” apresenta uma abrangência e uma amplitude que poucos, quiçá filme nenhum de terror chegou a ostentar antes.
É por isso que, embora traga um trabalho visivelmente contagiante e apaixonado pelo material que manipula, a direção de Muschetti encontra justamente o problema de um excesso de fascínio por seu próprio conteúdo que compromete a solidez da narrativa em seu terço final –o conflito contra Pennywise se estica demais porque Muschetti toma muito tempo se enamorando dos personagens para deixa-los com tanta facilidade. Ele se apega demais a detalhes não tão necessários assim, e com isso perde o foco.
Nada que desvaneça o fato de ser esta uma obra belíssima e perfeitamente capaz de agradar por completo seu público –ela simplesmente não consegue igualar o sensacional filme ao qual busca dar continuidade.

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Olhos de Gato

Já em seus primeiros minutos de duração fica óbvia, em “Olhos de Gato”, a procedência de Stephen King em sua autoria: Não apenas porque o seu nome aparece logo após o do produtor Dino De Laurentis, mas porque o gato –o animal que unirá as três histórias que serão contadas –cruza-se de imediato com o psicótico cão da raça São Bernardo de “Cujo” e com o carro assombrado de “Christine” –duas adaptações de King bastante populares naquela época, 1985.
Não só o gato, mas a então pequena atriz Drew Barrymore também tem presença (ou seria melhor dizer, onipresença!), ao longo do filme: Ela surge como uma espécie de aparição que orienta o felino em sua trajetória, como a filha do personagem James Woods no primeiro conto e como a jovem protagonista do terceiro e último.
Roteirizado com palpitante humor negro pelo próprio Stephen King (que agrega outras auto-referências como um exemplar de “Cemitério Maldito” sendo lido por uma personagem em dado momento e o cúmulo de batizar a escola que aparece em uma cena como “ Saint Stephen’s School”!), o filme começa com a sarcástica e macabra história na qual Dick (o talentoso James Woods) tenta deixar ser um fumante inveterado. Para tanto, entra num programa radical onde homens treinados com o sangue frio de agente do FBI o seguirão (e o intimidarão) dia e noite. Ao primeiro sinal de recaída tabagista as conseqüências serão, portanto, muito mais terríveis do que ele imagina.
Após esse segmento transcorrido em Nova York, a narrativa algo burocrática do diretor Lewis Teague acompanha o gato indo para Atlantic City. Lá, ele é pego por Cressner (Kenneth McMillan), um dos apostadores compulsivos da cidade. Tudo para Cressner é motivo para aposta –e tão mais excitante lhe parece se flerta com o perigo ou com o crime.
É esse o caso quando seus capangas capturam Norris (Robert Hays, de “Apertem Os Cintos, O Piloto Sumiu!”), um tenista amante de sua mulher e que ainda por cima planeja fugir com uma certa grana. Esse dinheiro estará à sua disposição, sugere Cressner, se Norris topar um desafio: Percorrer o parapeito exterior da cobertura do prédio onde Cressner mora, de um lado a outro, sem deixar-se desequilibrar (e, no caso, morrer). Feito isso, Norris estará livre, mas a tarefa é executada com toda riqueza de detalhes sádicos e dolorosos que é comum a Stephen King.

Ao fim dessa trama, o gato vai parar, mais uma vez, em outra cidade, desta vez, Wilmington, onde sua participação na história ganhará um protagonismo muito maior do que tivera nas outras: Ele será o único que pode ajudar uma garotinha (Drew Barrymore, novamente) a proteger-se das aparições sinistras de um duende maligno que lhe mata o passarinho de estimação e deseja tirar-lhe o fôlego, sufocando-a –a despeito do fato de os pais se mostrarem displicentes e de que a culpa por essas peraltices acaba caindo nas costas do próprio gato! O técnico de efeitos especiais responsável pelo interessantíssimo resultado envolvendo o duende nessa última trama (certamente a melhor delas) é o festejado Carlo Rambaldi que concebeu a criatura de “E.T. O Extraterrestre” –veja só, com a própria Drew! –e o monstro do perturbador e espetacular “Possessão”.

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Louca Obsessão

A atriz Kathy Bates alterna momentos de insuspeita amabilidade com rompantes inesperados de fúria num interessante trabalho que em 1990 lhe rendeu o Oscar de Melhor Atriz.
A vilania inesperada de sua personagem é um dos trunfos desta interessantíssima adaptação de um conto de Stephen King, concebida pelo mesmo Rob Reiner que dirigiu o tão cultuado “Conta Comigo” –também de King.
A história é um pesadelo improvável, porém, não implausível como muitos que saem da mente de seu autor e que exploram muitos de seus temores íntimos. Só assim para explicar o imenso número de protagonistas que são, eles próprios, escritores, como o deste filme, Paul Sheldon (James Caan).
Ele tem o infortúnio de capotar seu carro quando voltava das montanhas com o manuscrito pronto de seu mais novo romance, e o infortúnio ainda maior de ser salvo por Annie (Kathy) uma ex-enfermeira moradora da região. De início, claro, isso não fica evidente, visto que Annie se declara sua fã número 1 –ela, inclusive, ama “Misery” exatamente a mesma saga literária cujo capítulo final ele acabou por escrever! –por isso que, debilitado pelo acidente e preso à cama da casa dela Paul, agradecido, permite que Annie leia seu novo livro. Contudo, a mulher transforma-se numa maluca psicótica ao perceber que ele matou justamente a protagonista Misery. Imobilizado numa cama e com as duas pernas quebradas, ele agora é alvo das torturas físicas e psicológicas que ela, cada vez mais insana, lhe inflige.
Antes que a escala de loucura e psicopatia dela se torne realmente prejudicial para sua vida, ele precisa planejar um meio de fugir.
Quem conhece o trabalho do diretor Reiner exclusivamente baseado em “Conta Comigo” ou na famosa comédia romântica “Harry & Sally-Feitos Um Para O Outro” pode até subestimar o filme que ele entrega aqui, porém, isso só dura até que a atmosfera de tensão realmente se inicie: Valendo-se de um minucioso e cuidadoso trabalho de câmera (o diretor de fotografia é Barry Sonnenfeld que depois se tornaria o bem-sucedido diretor de “A Família Adams” e “Homens de Preto”), o filme simula, por meio de cortes objetivos e econômicos e enquadramentos específicos, a condição restrita e imobilizada do vulnerável protagonista, cujos limitados recursos de que dispõe o tornam um verdadeiro prisioneiro da imprevisível ex-enfermeira.
Ajuda muito, o fato de Kathy Bates moldar uma das mais sensacionais vilãs de sua carreira e de James Caan, seu parceiro em cena, também estar muito bem nesta obra tensa, aflitiva e, por que não, divertida.

terça-feira, 31 de outubro de 2017

À Espera de Um Milagre

O fato de ter entregado, já em seu primeiro filme, uma das grandes obras do cinema com “Um Sonho de Liberdade” foi, de certa maneira, um fantasma que assombrou a carreira do diretor Frank Darabont: Isso estabeleceu para todos os seus trabalhos posteriores um patamar altíssimo e injusto com o qual serem comparados.
E Darabont certamente sentiu essa pressão, prova disso é que seu filme imediatamente seguinte partilhava de várias características em comum com aquela que é (e que sempre vai ser) sua obra-prima: “À Espera de Um Milagre” era, também ele, adaptado de uma obra de Stephen King –que, ao contrário de “Um Sonho de Liberdade” flerta mais abertamente com seus artifícios sobrenaturais –e também tinha como ambientação as paredes opressoras de uma prisão no Maine, desta vez, o corredor da morte ou, como os próprios presos costumam chamar “a milha verde” –como o título original “The Green Mile”.
Darabont ainda adicionou à mistura a presença protagonista de Tom Hanks, mas (embora o filme seja muito querido por uma boa parcela do público) ele não chega nem perto de se equiparar a altíssima qualidade de “Um Sonho de Liberdade”.
Mas, é um belo filme.
Desta vez, deixando o ponto de vista dos prisioneiros para adotar o dos guardas carcerários (Tom Hanks interpreta o papel de chefe deles, como logo é informado no início, quando um flashback começa a resgatar a história), o filme de Darabont registra a rotina dos guardas que trabalharam no corredor da morte nos anos 1930. Eles vivem a atroz rotina de conviver com os condenados à cadeira elétrica, uns ironicamente dóceis e afáveis, outros, psicóticos e estranhos. O grupo de guardas (que além de Hanks, inclui David Morse, Barry Peper, de “O Resgate do Soldado Ryan”, Jeffrey DeMunn, de “Cidadão X” e Doug Hutchison, ator que teve uma breve e memorável presença na série “Arquivo X”) tem uma série de comportamentos e atitudes específicas por meio das quais conseguem conviver (com os prisioneiros, inclusive) numa certa harmonia diante do peso mórbido e obscuro da natureza daquele trabalho.
Há, portanto, uma novidade desestabilizadora quando eles recebem John Coffey, um gigantesco prisioneiro (Michael Clarke Duncan, um achado) condenado à cadeira elétrica pelo brutal assassinato de duas meninas. O novo detento, entretanto (apesar do tamanho descomunal) em nada parece um criminoso; Coffey tem o comportamento amável, tímido e por vezes diz ter medo do escuro.
No entanto, o quê o chefe da carceragem, um tanto perplexo, logo descobrirá, é que Coffey é um anjo de Deus na Terra, e que tem os dons de curar os males das pessoas, incluindo o câncer que consome a vida da benevolente esposa do diretor da prisão (James Cronwell). Mas, Coffey está condenado à morte.
É então um dilema existencial e tanto que o filme de Darabont propõe ao personagem de Hanks –e, por conseqüência, devido à insuspeita capacidade do ator em obter identificação, ao expectador também: Permitir que um anjo capaz curar muitos males com suas habilidades seja morto pelas leis corruptíveis dos homens ou tentar algo para salvá-lo? Mesmo que ele próprio esteja disposto à encarar o corredor da morte; na interpretação emotiva e emocionada de Clarke Duncan, Coffey é como uma criança ferida em sua inocência, ávida por regressar para o céu onde não precisará testemunhar a crueldade diária dos homens aqui na terra.
Por isso, por sua pouco econômica carga dramática e por sua capacidade invulgar de, por vezes, levar os expectadores às lágrimas, “À Espera de Um Milagre” é, apesar do lugar secundário que ocupa na filmografia de Darabont, um melodrama celebrado.

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

It - A Coisa

Empatia. Esse é o grande acerto por trás de um dos melhores filmes de terror dos últimos tempos –e essa qualidade se refletiu em sucessivas quebras de recordes de bilheteria desde que ele esteve em cartaz.
Poucos são ultimamente os filmes de terror que recorrem à empatia: Os trabalhos atuais espelham a seriedade empostada de seus realizadores (com freqüência, jovens e arrogantes), e as influências que eles costumam buscar (sendo “O Exorcista” uma das mais comuns nos últimos anos) em detrimento à qualquer esforço de originalidade.
“It” vai na contramão disso tudo.
O diretor Andy Muschietti (de “Mama”) pega o calhamaço impressionante que é o imenso tomo escrito por Stephen King (segundo o próprio um de seus livros mais acarinhados) e dele extrai o sumo de sua primeira metade cronológica –a trama se passa em duas fases de tempo e este primeiro filme se ocupa só da fase inicial –e com ele molda um filme inevitavelmente encantador e freqüentemente apavorante, feito de amor incondicional. E de uma técnica cinematográfica substancialmente arrojada; o diretor de fotografia é o sul-coreano Chung Hoon Chung, o mesmo do “Old Boy” original e da obra-prima “A Criada”.
O verão de 1989 chega à cidadezinha norte-americana de Derry com uma nuvem obscura à pairar sobre o jovem Bill (Jaeden Lieberher, de “Guardiões da Galáxia”), de apenas doze anos, e seus inseparáveis amigos do Clube dos Otários: O falastrão e espirituoso Ritchie (Finn Wolfhard, da série “Stranger Things”), o hipocondríaco Eddie (Jack Dylan Grazer), e o austero Stan (Wyatt Oleff). A razão: Um ano antes, Georgie, o irmão menor de Bill desapareceu misteriosamente –e, na cena espetacular que abre o filme, o diretor Muschietti não apenas dá uma amostra da técnica magistral com a qual irá narrar todo o filme, como também deixa bem claro ao expectador que Georgie morreu (potencializando dramaticamente a busca vã de Bill por ele) e ainda já apresenta ao público um dos grandes trunfos do filme; a interpretação rica em técnicas inusitadas e plena de maestria do ator Bill Skarsgaard, como o assustador palhaço fantasmagórico Pennywise.

Aos quatro garotos liderados por Bill, logo juntam-se outros, também vítimas do bullying e da cruel perseguição dos outros jovens do lugar: o deslocado tratador de ovelhas Mike (Chosen Jacobs), o gordinho excluído e inteligente –e fã de “New Kids On The Block”! –Ben (Jeremy Ray Taylor), e especialmente, a radiante e destemida Beverly (a apaixonante Sophia Lillis).
Eles não agregam apenas amizade ao grupo, contribuem, também, com informação: Juntas, as crianças descobrem que Derry há anos é assolada por uma incomum taxa de desaparecimento de adultos e crianças, e esses desaparecimentos se intensificam a cada vinte e sete anos. A tragédia envolvendo Georgie pode, inclusive, ter algo a ver com isso tudo, e as crianças suspeitam que tem relação com o pavoroso palhaço Pennywise que lhes têm assombrado individualmente, e cujo reduto parecem ser os labirínticos subsolos de esgotos que se ramificam por baixo de toda a cidade.
Acrescido à essa urgente e palpitante trama de horror, o diretor emoldura os personagens e os acontecimentos com um inebriante clima de nostalgia (e a ambientação nos anos 1980 é usada plena e generosamente em função desse efeito emocional) obtendo um raro envolvimento do expectador com os jovens protagonistas: A empatia de que eu falei.
Talvez por isso mesmo, “It-A Coisa”, em sua narrativa poderosamente sentimental, lembra um bocado o filme “Super 8”, de J.J. Abrahams. Os paralelos são inúmeros e vão dos mais óbvios (os personagens, a disposição de acontecimentos no roteiro, e até o monstro que também usa o subterrâneo para se esconder) aos mais sutis (a personagem Beverly tem o mesmo tratamento da narrativa que a de Alice, vivida por Elle Fanning, naquele filme, incluindo aí uma espécie de triângulo amoroso juvenil, também ele envolvendo a figura de um gordinho mostrado de modo nada estereotipado).
Engana-se, contudo, quem supor que “It-A Coisa” se inspirou (ou mesmo, copiou) a premissa de “Super 8”: É bem provável que tenha sido o próprio “Super 8” que se inspirou –e muito –no livro de Stephen King (que, diga-se de passagem, havia ganhado antes, em 1990, uma versão televisiva em forma de minissérie).
A despeito de sua longa duração –duas horas e catorze minutos –este filme se encerra de forma emocionante deixando um agridoce gosto de quero mais na boca do expectador: Tão cativantes e preciosos são os seus personagens, tão envolvente é a dinâmica que se forma entre eles que o tempo de filme é pouco para podermos usufruir sua companhia (mesmo que ela venha atrelada à sustos eletrizantes).
Não tema, o Capítulo 2, com os personagens agora adultos regressando à Derry, já foi confirmado. O desafio será realizar um filme tão encantador, poderoso, inesquecível e com tanta empatia quanto este daqui.

terça-feira, 18 de julho de 2017

Carrie - A Estranha

As adaptações para cinema de obras de Stephen King ainda não haviam virado moda quando Brian De Palma, nos anos 1970, decidiu transformar o livro “Carrie” em filme.
De Palma enxergou, na trama protagonizada por Carrie White (a magrela Sissy Spacek, vibrante e perfeita no papel), um invólucro perfeito para expressar suas características narrativas –que começavam a se consolidar junto ao público e crítica –num gênero ligeiramente distinto dos filmes de suspense em homenagem à Hitchcock que vinha fazendo: O terror explícito.
De Palma compreendeu que a caracterização da realidade (ou a falta dela, conforme o filme) consistia de um efeito diferente no público conforme o gênero por meio do qual uma determinada trama era abordada. Afoito a caracterizações expressivas e extravagantes, ele sabia que o melhor meio de conceber uma obra assustadora sobre os percalços desestabilizadores da juventude (e capaz de alcançar as impressões exigentes dessa mesma juventude) seria através de uma parábola de terror; e dentre os escritores, King era dos poucos que manipulava com habilidade textos que mesclavam medo sobrenatural e minúcia sentimental.
Não há, portanto (e nem precisa haver) sutileza, na forma como De Palma mostra que a desajeitada e tímida Carrie é perseguida no colégio onde é desprezada por meninos e meninas. Sua primeira cena já é de um exemplo audaz: A câmera passeia de modo quase lírico pelo banheiro feminino (e De Palma não se furta a flagrar algumas adolescentes nuas!) para terminar em Carrie que, durante o banho, tem sua primeira menstruação. Sem qualquer informação a respeito, a reação da jovem ao sangue é de pânico. E a de suas amigas, de crueldade: Elas menosprezam e riem do pavor dela.
São as fases comuns da adolescência, portanto, transfiguradas pelo talento de Brian De Palma e Stephen King, num instante do mais puro medo: Aquilo que de absolutamente pior poderia ocorrer numa situação.
Em sua casa, a rotina de Carrie se releva ainda pior: Sua mãe fanática (Piper Laurie) deixa a menina a beira de um constante ataque de nervos com suas recriminações de cunho excessivamente religioso. Além disso, os colegas de escola de Carrie (entre eles, um John Travolta em início de carreira) planejam novas maldades, entre as quais a mais ambiciosa é uma pegadinha terrível realizada no vindouro baile de formatura.
O quê ninguém sabe é que Carrie, aos poucos, desenvolve poderes paranormais cada vez mais perigosos que, somados à indignação das injustiças que acaba sofrendo, culminam em um verdadeiro banho de sangue justamente na noite de formatura.
Não obstante o sucesso que alcançou, bem como a forma inestimável com que marcou a cultura pop (a ponto de ganhar uma continuação prosaica e falha em 1999, uma infinidade de imitações e até uma ridícula e desnecessária refilmagem em 2013), o trabalho de adaptação de Brian De Palma à época foi tão desigual, estilizado e requintado que os livros de King, ainda assim, levariam quase uma década para serem absorvidos pela máquina hollywoodiana.

domingo, 4 de dezembro de 2016

Um Sonho de Liberdade

Este, um dos filmes fundamentais dos anos 1990, trata-se de uma das mais primorosas subversões de um filme de gênero já engendradas pelo cinema: A direção de Frank Darabont (no primeiro e melhor trabalho de sua carreira) rompe com as barreiras físicas e existenciais dos muros onde seus personagens estão confinados, e o filme transforma-se numa ode emocionada e emocionante sobre a esperança.
Darabont disse uma vez que, durante as filmagens de “Um Sonho de Liberdade”, ele assistia toda semana ao clássico de Scorsese, “Os Bons Companheiros” –e, portanto, percebe-se em seu trabalho muito da pulsante energia criativa que Scorsese dedica às suas obras.
As cenas de “Um Sonho de Liberdade” se completam, se unem e dialogam entre si com inteligência, com ímpeto emocional e técnico, tecendo um filme de raro primor.
É para os anos 1920 que essa magistral narrativa nos conduz, ao mostrar o infortúnio de Andy Dufresne (um inspiradíssimo Tim Robbins), injustamente condenado pelo assassinato da esposa e do amante. Ele é assim enviado com pena de prisão perpétua à penitenciária de Shawshank, no estado do Maine.
É nesse momento que as decisões de Darabont em torno da condução começam a revelar seu elevado grau de inspiração, e a transformar o filme em algo surpreendente, com cenas memoráveis e notáveis que se seguem simultaneamente: O longo e deslumbrante plano que começa no ônibus e circunda toda a penitenciária (imitado como forma de reverência absoluta em “A Última Fortaleza”) é só o primeiro deles.
Lá, confinado naquele mundo de paredes cinzentas, Andy conhece Red (e as palavras não bastam para elogiar este trabalho ímpar do ator Morgan Freeman), o prisioneiro que proporciona compras do mundo exterior para os detentos. Os dois iniciam uma amizade que irá perdurar pelas décadas seguintes, e sobreviverá à opressão e vilania do diretor do presídio, disposto a lucrar com os conhecimentos de Andy, e a um segredo que o próprio Andy guardará, fundamental para o desfecho.
Alvo de inusitada curiosidade do público, por parte de seu título original intrigante e de difícil pronúncia –“The Shawshank Redemption” –este magnífico trabalho, dentre os melhores dos anos 1990, encontra facilidade em gravar na memória em boa parte por conta de sua plena capacidade de suscitar uma emoção genuína no expectador, e pelo mérito, nunca superestimado, de que é uma das poucas produções que atingiram –em qualquer tempo –um nível de qualidade tão alto em todos os aspectos. 
É necessário, contudo, destacar a magistral atuação de seu formidável elenco masculino: Bob Gutton, e sua excelência pérfida como diretor do presídio; Clancy Brown, uma presença ameaçadora e imponente; o jovem Gill Bellows, saindo-se magnificamente bem num personagem que poderia representar  ponto fraco da narrativa; William Sadler, sensacional nas intervenções cômicas; e o veterano James Whitmore, responsável por um dos momentos mais comoventes.

É, entretanto, o primor inquestionável da dupla central, Robbins e Freeman, que mantêm o efeito afetivo perene e poderoso desta obra, uma das mais belas histórias de amizade do cinema.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Conta Comigo

Mais do que o cinema, a TV foi meu nicho de informação cinéfila. Lá, eu descobri os filmes que definiram meu gosto como expectador, até meu caráter como ser humano.
O cinema, com o tempo, tornou-se mais como um grande privilégio, reservado à momentos muito especiais que foram (graças ao bom Deus) se multiplicando com o passar dos anos.
Mas, é sempre um prazer lembrar daquelas obras que descobri, ainda verde, durante as tardes.
Um dos filmes que levo, daquele período, com maior carinho é "Conta Comigo", por uma série de fatores: Porque o filme em si já vem com toda uma premissa a respeito da própria nostalgia em si; porque é um filme que preserva sua qualidade e sua satisfação em ser assistido em qualquer faixa etária; e, sobretudo, porque dentre tantos que em vi quando criança, ele é dos raros casos em que o tempo não lhe prejudicou (pelo contrário, ele continua e sempre continuará um primor!).
Na trama (oriundo de um conto do mestre do macabro, Stephen King) quatro jovens amigos, pré-adolescentes resolvem encarar a árdua peregrinação por dias ao longo dos trilhos de um trem, para chegar num trecho em que jaz o cadáver de um garotinho morto.
O plano é encontrar o corpo, e ganhar fama de heróis. Mas a jornada irá revelar muito da faceta deles mesmos, em níveis e camadas que eles próprios desconheciam, e que definirá muito da amizade que os une dali para frente.
São muitos os elementos perenes que mantêm o fascínio deste trabalho: Há, por exemplo, um jovem River Phoenix em estado de graça, um ator que em seus catorze anos de idade já conseguia ser magnífico; A cena espantosa e eletrizante da travessia pela ponte, quando o trem chega para complicar a vida dos garotos; o roteiro (indicado ao Oscar) que obtêm um equilíbrio entre a morbidez do mundo real, e a natureza lúdica do mundo e da vida pelos olhos de alguém mais jovem, o que nenhuma outra adaptação de Stephen King jamais conseguiria (tá bem, "Um Sonho de Liberdade" conseguiu isso também!).
No fim das contas, este é um daqueles filmes ímpares que o cinema nos entrega, um obra aparentemente sem pretensão, mas sobre a qual passamos a conversar para sempre, observando sua beleza sentimental, o modo com que opõe as facetas dolorosas do crescimento, e o seu poder de ganhar uma indelével força em nossa memória, envolvido principalmente, pela bela e contagiante música, Stand By Me.

sábado, 10 de outubro de 2015

O Iluminado

Escritor obscuro, buscando tranquilidade para escrever um livro aceita o emprego de zelador de um hotel nas montanhas, que ficará fechado e sem comunicação no inverno.
Isolado lá com sua mulher e o filho pequeno, ele passa a ter alucinações envolvendo antigos funcionários e hóspedes que tiveram destinos trágicos em vários dos quartos. Logo, ele começará a desenvolver instintos homicidas que ameaçarão a segurança de sua família. 
Basta um diretor do porte de Stanley Kubrick para urgir um dos filmes definitivos sobre casas mal-assombradas.
É claro que o crescente desequilíbrio de Jack Nicholson é magistral, mas é a técnica do diretor Kubrick que faz toda a diferença.
Adaptado do best-seller de Stephen King, este grande filme gerou (e de certa forma ainda gera) uma certa polêmica no que diz respeito a forma com que o livro foi adaptado. Uns dizem que Kubrick planta pistas falsas a fim de confundir sem maiores expedientes, outros, que ele fez um filmes disforme em termos narrativos com a intenção de criar mensagens subliminares. A verdade é que King tanto renega esta adaptação que ele mesmo encarregou-se de produzir uma nova versão (em forma de minissérie) nos anos 1990. Muito inferior a este trabalho.
O quê Kubrick faz aqui é uma obra tecnicamente perfeita, como habitualmente eram alías, seus trabalhos. Muitos são os cinéfilos que ousam dizer que "O Iluminado" é, antes de uma adaptação de Stephen King, uma forma de também refilmar "O Ano Passado em Marienbad" de Alan Reisnais.
Embora a princípio pareça uma afirmação esquisita e sem sentido, há elementos que reforçam essa impressão, e que curiosamente aproximam os dois filmes (que numa primeira e superficial análise não parecem ter nada em comum, mas logo podemos notar o contrário): A começar pela estranha similaridade de uma sinopse mais vaga; Um casal, perdido num hotel, enquanto que fantasmas perambulam por seus corredores.
A despeito disso, e do fato de jamais sabermos ao certo quais seriam as intenções de Kubrick para com este e para com qualquer um de seus filmes, tão enigmático era esse autor, "O Iluminado" é uma obra que figura entre os grandes filmes de terror do cinema.