Mostrando postagens com marcador Mike Flanagan. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Mike Flanagan. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Doutor Sono

Dentre as inúmeras adaptações cinematográficas de Stephen King, “O Iluminado”, de Stanley Kubrick, exerce um papel curioso: É abertamente repudiado por seu autor devido às liberdades drásticas tomadas por Kubrick em relação à obra original, ao mesmo tempo que é cultuado por cinéfilos do mundo todo como um dos grandes filmes de terror de todos os tempos.
Daí, portanto, a dificuldade na abordagem do diretor Mike Flanagan ao adaptar para cinema a sua continuação, “Doutor Sono” –continuação esta que, até há bem pouco tempo, pouca gente sabia que existia: Ser fiel ao trabalho de Stephen King, dando continuidade ao ‘seu’ “Iluminado” –cujo desfecho é completamente distinto do filme –ou manter-se próximo da obra de Kubrick?
Talvez por sua própria influência afetiva (não há dúvidas de que, por sua orientação no terror, Flanagan cresceu inspirado pelo filme), talvez pela lógica comercial (certamente, a grande maioria do público tem mais familiaridade com a história contada no filme que na do livro), Flanagan optou por fazer um filme que remete, em inúmeros sentidos ao trabalho primordial de Kubrick.
É, assim, com todo o sabor de continuação do filme de Stanley Kubrick (inclusive, com direito à referências explícitas, rimas visuais diretas, aproveitamento da trilha sonora e até de enquadramentos de câmera imediatamente relacionáveis), que o trabalho de Flanagan começa: Após os trágicos eventos no Hotel Overlook, o pequeno ‘iluminado’ Danny Torrance e sua mãe passam a morar na Flórida. Nos anos que se seguem, ele aprende a lidar com seu dom –que lhe permite ver seguidamente os fantasmas que o assombravam –o que não o impede de crescer transtornado. Com trinta e poucos anos, e já interpretado por Ewan McGregor que faz um excelente trabalho, Dan Torrance chega à cidadezinha de Frasier onde aparentemente encontra alguma paz em serviços comunitários e reuniões de abstêmicos.
Todavia, numa cadência pausada, paciente e minimalista que espelha a narrativa ampla e detalhada do livro de King, o filme (que, não à toa, atinge suas três horas de duração), desde seu início, acompanha outros personagens também: O grupo obscuro denominado o ‘Nó’; seres sobrenaturais e virtualmente imortais, cujos poderes e vida eterna são garantidos graças ao consumo constante do vapor que emana dos ‘iluminados’ quando morrem.
São como vampiros moldados dentro dessa mitologia concebida por Stephen King.
A líder deles, a mais poderosa e onisciente, é Rose (a sensacional Rebecca Ferguson, numa personagem cujo visual remete à falecida cantora do grupo “4 Non Blondes”, dos anos 1990) tão sedutora quando amedrontadora.
Sem pressa e sem intenção de evitar os inúmeros detalhes que povoam a premissa, o diretor Flanagan acompanha o protagonista e seus antagonistas por anos, numa introdução que se estende muito mais do que estamos habituados em cinema, quando então, é apresentada a personagem que fornece o gatilho real para a trama. A jovem Abra (Kyliegh Curran), uma das poucas ‘iluminadas’ –já que, por alguma razão, eles estão escasseando no mundo –detentora de um poder fenomenal; o que significa vapor mais que suficiente para saciar a fome que começa a levar os indivíduos do ‘Nó’.
Enquanto Rose tenta descobrir o encalço de Abra, ela estabelece um vínculo com Dan que achava ter deixado para trás os problemas acarretados por sua ‘iluminação’.
Contudo, Rose e o ‘Nó’ representam um perigo do qual ele terá de salvar Abra –e para confrontar Rose, ele precisa revisitar forças sobrenaturais que podem significar um perigo para ela também. Ou seja: Regressar até o Hotel Overlook, e submeter-se às mesmas assombrações (e memórias) de antes.
Nesse trecho final –quando nos transporta de volta à ambientação do filme original –o diretor Flanagan dá completa e absoluta vazão à sua admiração por Stanley Kubrick, emulando diversas sequências memoráveis de “O Iluminado”, com direito à recriação de algumas cenas –de forma até mais minimalista do que o próprio Steven Spielberg (amigo pessoal de Kubrick) já havia feito numa sequência de “Jogador Nº 1” –além da reescalação de novos atores para interpretar o também ‘iluminado’ Dick Hallorann (Carl Lumbly substituindo Scatman Crothers), a mãe Wendy Torrance (Alexandra Essoe substituindo Shelley Duvall) e até mesmo o pai Jack Torrance (Henry Thomas substituindo o insubstituível Jack Nicholson).
Uma carta de amor implícita à obra extraordinária de Stanley Kubrick, “Doutor Sono” usa de seus desdobramentos para, ao final, honrar seu autor, Stephen King, e manejar os elementos de forma à chegar até o desfecho que ele tinha, de fato, planejado para sua criação.
No final, o talento, o bom senso, e o profundo entendimento do gênero do diretor Mike Flanagan conseguiu respeitar e homenagear os dois gênios criativos por trás de “O Iluminado” –por mais que, durante um longo tempo, suas visões tivessem se mantido incompatíveis.

terça-feira, 12 de novembro de 2019

Doutor Sono

Crítica do amigo Fabricio Gurski
Quando falamos dos melhores filmes de terror já feitos, sou capaz de apostar minha alma por um bom uísque, que de cada dez, oito irão mencionar “O Iluminado”, de Stanley Kubrick, pois, se trata de uma das maiores obras da história do cinema, mesmo por muito anos gerando controvérsia (devido à alardeada insatisfação do autor Stephen King com o resultado final).
Além de chamar a atenção pela direção e pelo roteiro primoroso do ícone do cinema Stanley Kubrick e contar com o astro Jack Nicholson, se trata de uma história baseado em um livro de Stephen King (mestre do horror na literatura), então quando se pretende adaptar para cinema a continuação literária desse que é um dos filmes mais emblemáticos da história, o que fazer com a ansiedade?
Controlar e esperar.
Foi anunciado o diretor Mike Flanagan para continuação (criador cuidadoso da excelente série “A Maldição da Residência Hill” e diretor de “O Sono da Morte”) e as expectativas foram só aumentando até chegar o último fim de semana, quando fui  ao cinema conferir o exemplar; e lhe digo meus amigos: Sensacional! O cuidado de Flanagan se repete cena a cena, assim como em seus trabalhos anteriores, criando uma atmosfera fantasmagórica, misteriosa e assustadora, muito desse clima impresso pela edição minuciosa com inspiração na obra de Kubrick.
O elenco todo muito afinado, assim como já esperado pelo quilate dos selecionados –Ewan McGregor; Rebeca Ferguson; Kyliegh Curran; Carl Lumbly; Zahn McClarnon; Bruce Greenwood.
Cenas marcantes, lindas, pesadas e emocionantes numa coleção de homenagens e criatividade, que fazem uma continuação belíssima da obra prima “O Iluminado”.
Aposto com vocês que, assim como antecessor, vai criar muita controvérsia, mas acima de tudo, será um filme lembrado por muito tempo. Não é uma mera coincidência, sim Flanagan se dedicou a fazer um filme de terror digno da obra de King e Kubrick, e me emocionou!
Então aposto um bom uísque, que temos mais um grande filme adaptado da obra de Stephen King.

sábado, 26 de novembro de 2016

O Sono da Morte

É muito legal ver o garotinho Jacob Tremblay novamente depois do show que ele deu em “O Quarto de Jack”. Desta vez, ele é Cody, um pequeno órfão que, por razões misteriosas (já que ele é dócil e cativante) foi devolvido diversas vezes ao lar de adoção.
Quem se prontifica a ficar com ele é o casal Mark (Thomas Jane, de “O Nevoeiro”) e Jessie Hobson (Kate Bosworth, a Lois Lane de “Superman-O Retorno”, de Bryan Singer) que o adotam a fim de amenizar a dor pela perda trágica do filho biológico.
Mas, Cody possui um segredo: Ele toma estimulantes e bebe cafeína o tempo todo a fim de evitar o máximo possível que adormeça, pois ele sabe (e os adultos não acreditam nele) que algo terrível se manifesta a partir do momento em que ele dorme.
E esse horror foi responsável pelo fim de seus pais adotivos anteriores.
O jovem diretor Mike Flanagan vem se destacando em meio à nova safra de cineastas com grande potencial no gênero do terror –capitaneados por James Wan e seus “Invocação do Mal 1 e 2”.
Uma das características marcantes de Flanagan é sua habilidade bastante contundente de unir elementos dramáticos aos paradigmas do terror, enfatizando os pormenores da trama e criando proximidade dos personagens com o público; enfim, o diretor que tem o bom-senso de priorizar a dramaturgia em detrimento da pirotecnia (fazer o oposto é o erro crasso da maioria dos jovens diretores).
Está longe de ser o melhor trabalho dele (que para muitos é consenso ser o arrepiante “O Espelho”), embora seja bastante eficaz na atmosfera que se revela palpitante e intensa na maioria das cenas, apesar de um ou outro momento sem muito encaixe narrativo, e dos últimos quinze revelarem uma inclinação inapropriada à fantasia que não combina muito com o clima suscitado.
De qualquer modo, é bem conduzido pela eficiente presença de Kate Bosworth, à vontade no papel de mãe sofrida, ainda que sua parceria com o ótimo Jacob Tremblay não chegue nem perto da química espetacular que ele demonstrou com Brie Larson em “O Quarto de Jack”.