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quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

Verdades Que Matam


 “Verdades Que Matam”, na realidade, foi o título nacional com o qual “Talk Radio” foi lançado em VHS pela VTI Home Video no Brasil, no final da década de 1980, durante a época das videolocadoras de fitas de videocassete. Realizado em 1988, “Talk Radio” foi dirigido e co-escrito por Oliver Stone depois de “Wall Street-Poder e Cobiça” (sua inquisitiva e elegante alfinetada na ausência de escrúpulos dos corretores da bolsa) e antes de “Nascido Em 4 de Julho” (a segunda de suas impactantes reflexões sobre o Vietnam; a primeira foi o premiado “Platoon”), ou seja, Stone, como diretor, há muito já havia definido seu estilo voltado para um sensacionalismo documental. A despeito da descoberta gradual que seu diretor teve de sua própria tendência autoral –descoberta esta certamente mais distinguível nos primeiros títulos de sua filmografia –é curioso notarmos que a personalidade a prevalecer nesta obra seja nem tanto a de Stone, como a de seu protagonista e co-roteirista Eric Bogosian, por sua vez, autor (junto de Ted Savinar) da peça teatral a partir da qual este longa-metragem foi construído, valendo-se também de forte inspiração na trama real de Alan Berg, radialista a frente de um programa de radio especializado em relatos controversos e polêmicos, tema que espelhava seu próprio apresentador.

Stone lutou para ter Bogosian tanto afrente como atrás das câmeras; o estúdio e outros diretores que passaram antes pelo projeto eram todos inclinados à presença de um ator protagonista mais famoso. Como resultado, “Talk Radio” é uma produção de baixo-orçamento, o que só salienta suas características de teatro filmado –é praticamente (salvo uma e outra cena, além de um trecho em flashback) ambientado num único cenário, os estúdios da radio KGBA, onde o programa se sucede. A direção de Oliver Stone, sempre tensa e intensa, se sente absolutamente à vontade com o material febril e envolvente, o que só torna o filme ainda mais notável e impactante. O radialista Barry Champlain (Eric Bogosian, no mal-disfarçado personagem inspirado em Alan Berg) comanda um talk show noturno que alcança altos índices de audiência nas radios de Dallas. Nele, ouvintes desequilibrados (alguns, num nível alarmante) telefonam em busca de conselhos ou de uma oportunidade para conversar sobre os mais diversos assuntos. Entretanto, Champlain é controverso, agressivo e neurótico, e sua interação com seus instáveis interlocutores é quase sempre perigosa, não raro desembocando em ameaças de morte. No entanto, o programa, com seu teor polêmico, faz imenso sucesso e seu produtor, Dan (Alec Baldwin, jovem mas já demonstrando potencial), negociou com investidores a possibilidade de ser lançado em cadeia nacional, o que traz para os estúdios a presença do executivo corporativista Dietz (John Pankow, de “Fome de Viver”), mandado para avaliar o show e dar seu aval a respeito da atração. Isso e mais uma série de problemas pessoais (a relação já turbulenta com a namorada e produtora do programa, vivida por Leslie Hope, da série “24 Horas”, e as idas e vindas nada harmoniosas de sua ligação com a ex-esposa, interpretada por Ellen Greene, de “A Pequena Loja dos Horrores”) interferem diretamente no desempenho de Champlain no programa, amplificando a tensão e transformando seu show numa maratona indigesta de degradação tragicômica.

Não costumam haver amenidades no cinema de Oliver Stone –pelo menos, não no cinema que ele exerceu nos anos 1980 e 90, época de sua fase mais prolífica –e “Talk Radio” é um belo exemplo de sua condução inspirada, da ótica sempre acurada para as celeumas mais torpes do ser humano, e da capacidade para moldar atuações de altíssima voltagem em sintonia com suas inquietações, para muito além de suas obras bem mais conhecidas. Aqui, ele conta com um texto afiado, loquaz e astuto da parte de Bogosian, onde ambos compartilham um desdém resfolegante para com a morbidez e o fascínio quase amoral da sociedade americana por tragédia e violência, e com isso constroem uma crítica incisiva, inteligente e provocante.

segunda-feira, 8 de março de 2021

Nixon


 Como passou a ser sintomático em sua filmografia, Oliver Stone dedica um verdadeiro tour-de-force de três horas de duração para esmiuçar em detalhes até então inéditos mais uma faceta da história norte-americana nos anos 1960 e 70. E ele o faz num filme onde suas ideologias surgem conjugadas com sua poderosa habilidade para costurar impressões de uma realidade factual às conjecturas intrépidas da ficção (ou da mera especulação).

Centralizado na arrojada caracterização de Anthony Hopkins, o diretor Stone conta à sua maneira a história de Richard Nixon, adotando o que teria sido seu ponto de vista ao longo de muitos acontecimentos retumbantes da política americana na segunda metade do Século XX.

Como toca a um diretor audaz, Stone intercala sequências oriundas de diferentes trechos cronológicos –começa nos 18 meses pós-escândalo de Watergate, regressa à infância de Nixon nos anos 1920, e depois salta para a primeira eleição disputada em 1960 –e alterna, com seu conhecido repertório de experimentos visuais –filme colorido, preto & branco, e simulações de arquivos –um filme que se pretende instigante o tempo todo.

Com essa sua exuberância técnica, Stone parece tentar entender e vislumbrar o lado humano de Nixon, o mais controverso dos presidentes recentes dos EUA (ou aquele que teve a infelicidade de governar durante o período mais controverso de sua história), mas na verdade o que ele quer é tecer uma elaborada teia de intrincadas teorias conspiratórias, tão mirabolantes e carregadas de sordidez ficcional que se convertem num afresco cinematográfico sobre decadência e traições de um ponto em diante.

Filho do meio de uma família pobre do meio-oeste norte-americano, Richard Nixon cresceu influenciado pela tenacidade severa do pai e pelo tratamento humanamente suscetível da mãe (Mary Steenburgen); as mortes do irmão mais novo e do mais velho (de tuberculose) também tiveram poderoso efeito sobre seu caráter, transformando Nixon num homem disposto a encontrar todos os meios possíveis para sobrepujar suas desvantagens existenciais –que no caso dele, já durante a competitiva vida adulta em meio à política, se manifestaram como a alardeada falta de carisma, de afabilidade e beleza física, em comparação com seu contumaz adversário, John Kennedy.

A derrota para ele, nas eleições de 1960, é um golpe que chega a afetar a harmonia de seu casamento (com Pat, vivida por Joan Allen). Entretanto, o próprio Nixon ganha chances improváveis de governar os EUA –o que de fato acontece –depois que John Kennedy é assassinato em Dallas, e seu irmão, Bobby (adversário de Nixon nas eleições subsequentes), é também ele alvejado e morto no Hotel Ambassador, tempos depois –na narrativa de descarado teor alarmista de Oliver Stone, essas escandalosas teorias ganham ares de verdade documental quando é sugerido o envolvimento de Nixon em cada um desses atentados.

Durante a gestão de Nixon, Stone relata os percalços tumultuados de seu governo com ênfase nos trágicos desdobramentos da Guerra do Vietnam (um tema caro ao cinema do diretor), nas atitudes egocêntricas e contraditórias de seu protagonista (cuja paranóia o leva a duvidar de aliados genuínos como o Secretário de Estado Heny Kissinger, vivido por Paul Sorvino), e nos lances ambíguos que convertem o próprio Nixon naquilo que, em tese, ele desejava enfrentar: Um líder relapso, errático, incapaz de se opor à inevitabilidade atroz do sistema, e disposto a lançar mão de recursos cada vez mais escusos sob pretextos vazios –na verdade, essa premissa, a do personagem principal cuja pureza da ideologia se vê contaminada pela sordidez inapelável do mundo é, também, um tema muito caro ao cinema de Oliver Stone.

Do alto de sua nada modesta duração, “Nixon” é pois um épico de difícil assimilação, dedicado aos meandros mais mesquinhos e insidiosos a que pode se submeter o caráter humano, e imerso na caracterização mais vil dos bastidores (ainda que certamente ficcionais) da política norte-americana dos anos 1960 e 70.

A habilidade inconteste de Oliver Stone está aqui, como em outras obras corrosivas que realizou, a favor de uma narrativa que tão somente conscientiza o expectador de uma implacável inclinação para a maldade no ser humano; e essa sensação amarga não é amenizada nem mesmo pelo primor presente do início ao fim na atuação de Anthony Hopkins.

terça-feira, 16 de abril de 2019

Entre O Céu e A Terra

A “Trilogia do Vietnam”, do diretor Oliver Stone –da qual fazem parte os contundentes e premiados “Platoon” e “Nascido Em 4 de Julho” –foi encerrada com este “Entre O Céu e A Terra”, lançado em 1993, onde Stone, aparentando uma falsa imparcialidade atribuiu neste filme o ponto de vista vietnamita.
Ledo engano: Ao contrário do que fez Clint Eastwood, muitos anos depois, concebendo dois filmes de guerra (“A Conquista da Honra” e “Cartas de Iwo Jima”) que realmente se alternam em lados, impressões e sensibilidades, Stone pratica mais uma vez seu poderoso exercício de demagogia, onde impõe, com o peso esmagador de sua narrativa, o seu ponto de vista e a sua opinião ao expectador.
Jovem moradora de uma aldeia na Vietnam, Le Ly (a bastante dedicada novata Hiep Thi Le) tem seus duríssimos percalços de vida registrados desde cedo (quando é tirada, ainda adolescente, de seu vilarejo) e intensificados quando se deflagra a guerra –ela experimenta o abuso dos dois lados do conflito (tanto vietnamita, quando americano), flerta com a prostituição, se torna mãe solteira e envolve-se com um soldado norte-americano, Butler (Tommy Lee Jones) que, depois da guerra, a torna sua esposa levando-a para morar nos EUA.
O choque de sua chegada num país ocidental e capitalista (provavelmente o mais emblemático do que é o Ocidente e do que é o Capitalismo) é capturado com ênfase e um certo exagero pelas lentes cheias de maneirismos de Stone. Mas, o diretor não se interessa por deslumbre: Como um repórter sensacionalista, Stone tem sua atenção voltada ao trágico, e são as sequências dessa orientação que definem seu filme: Atormentado pelos traumas de guerra, Butler é incapaz de conviver com Le Ly ou com qualquer um.
Mesmo que incorpore inúmeras filosofias zen inerentes à autobiografia de Le Ly Hayslip, o filme acentua mesmo a obsessão pelos lapsos políticos dos anos 1960, a acidez e o rancor para as inevitabilidades da realidade, e os temas que regem toda a obra do diretor.
Grande artesão que é, Stone não se contenta com o primor no retrato massacrante que obtém; ele também reveste sua obra de um viés documental forçando sua ótica como uma verdade absoluta ao expectador.
Ao lado da competência superlativa, eis outra faceta característica à Oliver Stone: A de evidenciar e exceder para muito além do tolerável a sua própria posição.

sexta-feira, 25 de maio de 2018

O Expresso da Meia-Noite


Embora seja Alan Parker o diretor do filme –e ele cumpre essa função com o brilhantismo que se espera dele –nota-se hoje que “O Expresso da Meia-Noite” já vinha envolto em estilo e temática que se aproximavam muito mais de seu roteirista, o sempre inquieto e incontornavelmente polêmico Oliver Stone (que conquistou o Oscar de Melhor Roteiro por este trabalho).
Stone constrói a estrutura do filme com a denúncia corrosiva, a consciência ultrajante das mazelas morais e a opção documental de expor a sordidez ao público que definiu sua carreira quando ele resolveu, a partir da década de 1980, assumir a função de diretor.
No filme, o tal ‘expresso da meia-noite’ é um termo coloquial, quase uma gíria empregada pelos detentos quase indigentes da inclemente prisão turca onde o jovem protagonista vai parar; ‘expresso da meia-noite’ significa a fuga, a (tentativa de) escapatória do lugar, algo tão improvável quanto o apelido que recebe.
Flagrado com uma quantia de haxixe, em Amsterdã, no aeroporto de Stambul quando tentava embarcar de volta para os EUA, Billy Hayes (Brad Davis, no papel mais marcante de sua carreira), de um simples turista norte-americano se torna, com a acusação inafiançável, um prisioneiro condenado a viver o intolerável inferno que é o sistema penitenciário turco de então.
Lá, as torturas atrozes e o tratamento sub-humano desafiam a sanidade de seus encarcerados.
Os quatro anos de cativeiro experimentados por Billy (bem como a degradação física e psicológica que tais revezes lhe impuseram) são relatados com realismo e crueldade pela direção de Parker e pelo roteiro de Stone com inquestionável vigor neste filme que marcou época por sua crueza.

sexta-feira, 2 de março de 2018

Nascido Em 4 de Julho

Certamente foi um largo passo em direção ao respeito como intérprete que Tom Cruise deu, no fim dos anos 1980, ao estrelar este contundente trabalho do diretor Oliver Stone.
Se antes ele era visto, sobretudo, como o astro juvenil de sucessos como “Top Gun” –apesar de já ter trabalho com Scorsese em “A Cor do Dinheiro” e de marcar presença no filme que havia conquistado o Oscar no ano anterior, 1988, “Rain Man” –havia ainda certa resistência ao reconhecimento do talento de Cruise, o quê se sabe, com o tempo se traduz em uma gradativa redução das oportunidades. A chance para dar um novo e significativo passo em sua carreira, portanto, surgiu aqui e ele a agarrou com unhas e dentes: No papel de Ron Kovic, jovem estudante norte-americano, movido por inflamados ideais políticos que descobrirá, na tragédia incontornável da guerra do Vietnam, uma trajetória dolorosa e poderosa, radicalmente diferente daquela que ele imaginou para si, Cruise está, de fato, extraordinário.
Durante os anos 1960, ainda um rapaz, Ron Kovic alista-se para lutar na guerra do Vietnam. Durante o período em que passa no conflito ele é baleado, e o tiro (que lhe rompe a coluna) o deixa paralítico. Após uma traumática recuperação num hospital militar ele retorna para os EUA e para o convívio com a família, totalmente devastado pelos horrores da guerra. Com o passar dos anos ele muda sua mentalidade política passando a aceitar um pensamento liberal enquanto tem graves atritos familiares.
Visto de maneira redundante como mais uma tentativa do diretor Oliver Stone de exorcizar a guerra do Vietnam, e por isso, uma espécie de ‘continuação espiritual’ de “Platoon” (nesse sentido, esses dois filmes compõem, junto com “Entre O Céu e A Terra”, de 1994, uma Trilogia de Oliver Stone sobre o Vietnam), “Nascido Em 4 de Julho” é sim um avanço ainda mais contundente nas noções de dramaturgia do diretor –que já se revelava afiado na junção de um tom documental e uma concepção dramática em suas obras anteriores –contando a dramática trajetória real do ex-combatente Ron Kovic, munido de imprescindível vigor; contundência pela qual ele foi premiado, em 1989, com o Oscar de Melhor Diretor (“Nascido...” levou também o prêmio de Melhor Montagem).
Talvez por compreender esse diálogo temático dentro de sua própria filmografia, Stone conta, neste filme, com participações tanto de Willem Dafoe, quanto de Tom Berenger (os personagens que polarizavam “Platoon”) em presenças de efeito muito similar.
Mas, é o desempenho visceral de Tom Cruise, em especial, nas cenas em que seu personagem aos poucos constata sua paralisia definitiva, que faz deste drama incômodo e angustiante uma experiência poderosa.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

JFK - A Pergunta Que Não Quer Calar

A década de 1960 não foi somente um período marcante de mudanças e transformações para os EUA e o mundo; foi também uma época a qual aparentemente, o diretor Oliver Stone custou a conseguir deixar de lado. A maior parte dos grandes títulos de sua filmografia, ao menos durante as suas duas primeiras décadas de atividade como cineasta, se dedicam a falar sobre episódios essenciais desse trecho da história americana.
Se a Guerra do Vietnam é uma parte indissociável do contexto de “Platoon” e “Nascido em 4 de Julho”, em “JFK”, ele lança seu olhar parcial, paranóico e imbuído de uma tendenciosa maestria cinematográfica sobre os percalços e conseqüências do assassinato do então presidente americano John F. Kennedy, cometido –acredita-se –pelo atirador Lee Oswald (aqui interpretado com peculiaridade por Gary Oldman). A base para esse olhar, Stone encontra na teoria controversa do promotor Jim Garrison –personificado com segundas intenções da parte de seu diretor pelo astro Kevin Costner: Na época, devido à sua participação no aclamado épico “Dança Com Lobos” e em outros sucessos de bilheteria como “Robin Hood-O Príncipe dos Ladrões”, Costner era enxergado como uma espécie de herói americano, o tipo de intérprete escolhido a dedo para se colocar num personagem do qual o diretor não deseja que a platéia duvide.
Desde a utilização brilhante do famoso e vídeo amador de Zapruder –uma prática habitual no cinema de Oliver Stone –ao emprego de uma riqueza documental e informativa incomum para qualquer superprodução (por tais valores, “JFK” levou os Oscars de Melhor Fotografia e Montagem) e o uso pontual de participações notáveis de um elenco diverso e estelar, todas as exuberantes facetas deste filme são administradas por seu diretor na imposição demagógica de sua própria ideologia e ponto de vista –provavelmente a grande ressalva em toda a filmografia fascinante de Stone.
Garrison acreditava numa possibilidade bem diferente daquela ventilada pela imprensa. Para ele, Oswald era um mero bode expiatório para toda uma conspiração que envolvia inúmeros interessados em dar cabo de Kennedy –e para tanto, um de seus argumentos é de que a sucessão de tiros obtida unicamente por Oswald naquele atentado seria humanamente impossível para um atirador sozinho executar.
A partir daí, subjetivada nas investigações de Garrison, a narrativa de Stone desfralda uma conspiração que ganha ares assombrosos e aterradores ao longo das três horas de duração do filme.
E Stone o faz com uma mescla assombrosa de tensão e intensidade, deixando entrever, apenas em alguns rápidos momentos de seu último terço a pecaminosa tendência do diretor em alterar obviedades históricas apenas para salientar seu próprio ponto de vista.
Um grande filme de um diretor tendencioso que soube empregar como poucos as ferramentas do cinema com perversa astúcia.

quinta-feira, 29 de junho de 2017

Selvagens

Entre seus trabalhos voltados para uma abordagem algo pessoal de fatos históricos (que, conforme ele envelhece, foram adquirindo cada vez mais intervalos de tempo entre si), o diretor Oliver Stone costuma encaixar um ou outro filme menor, mais despretensioso, no qual ele se encarrega somente de testar sua desenvoltura para relatos ficcionais –sem nunca esquecer sua asséptica tendência para o sensacionalismo.
Grandes amigos, Ben (Aaron Taylor-Johnson) e Chon (Taylor Kistch) não só dividem a mesma mulher, a esfuziante O (Blake Lively, num papel que quase foi de Jennifer Lawrence), como também o mesmo negócio como pequenos traficantes de drogas na Costa Oeste dos EUA. Mas sua prosperidade, bem como a qualidade de seu produto, chama a atenção do Cartel de Baja, cujos bandidões (retratados, sobretudo, na figura curiosa, paradoxalmente ameaçadora e doméstica da personagem de Salma Hayek) sequestram O para coagir os dois a tornarem-se seus empregados.
Eles elaboram um plano explosivo para reavê-la, que envolve o corrupto agente do FBI vivido por John Travolta e o pernicioso capanga interpretado por Benicio Del Toro.
Despido de suas ideologias políticas discursivas, mas não de seu estilo áspero e ácido para contar uma trama de crime e ação repleta de excessos, Stone arquiteta este relato quase banal –ainda que não destituído de seu costumeiro impacto e choque –onde, como sempre, ele se esbalda na exposição contínua da imoralidade de seus personagens.
Tão mais pecaminosos eles são (e nesse sentido, os personagens de Travolta e Hayek são exemplares), mais paradoxalmente indulgente e sádico é o castigo que Stone para eles elabora.
Pode divertir o espectador que não se incomodar com esses exageros.

terça-feira, 16 de maio de 2017

Assassinos Por Natureza

Os filmes de Oliver Stone são normalmente compostos por uma alta voltagem de euforia narrativa que não raro se expressa na forma de indignação, seja pelas circunstâncias perniciosamente políticas que deseja denunciar, seja pelo ultraje absurdo de um momento histórico que reconstitui (e a veracidade com que se dá essa reconstituição é, em geral, uma pauta sempre levantada em seus trabalhos).
O próprio Oliver Stone certamente tem consciência da imensa habilidade com que consegue empregar sua técnica na construção do ritmo e atmosfera de seus trabalhos que muitos preferem taxar de sensacionalistas ao invés de realistas.
Talvez, seja um exemplo disso, esta obra  ácida e palpitante feita nos anos 1990 que investiga a psicopatia das maneiras mais escandalosas possíveis: A partir de um roteiro inicialmente esboçado por Quentin Tarantino (que, como Stone, nunca foi um autor que primou pela sutileza), este filme acompanha os passos de um casal de serial killers nos moldes de Bonnie e Clyde, e de Kit Carruthers e Holly Sargis (casal protagonista do filme “Terra de Ninguém”, de Terrence Malick).
Mickey (Woody Harrelson) e Mallory Knox (Juliette Lewis, quase sempre surtada) são dois jovens apaixonados que, em seu furor homicida, deixam um rastro de cadáveres por onde passam no meio-oeste americano. Não apenas a atenção da polícia (cujo detetive personificado por Tom Sizemore lhes persegue), suas ações ganham também o interesse crescente da mídia e do público (materializados na figura do repórter sensacionalista interpretado por Robert Downey Jr.), fascinados por sua rebeldia e pela maneira inconseqüente com que deflagram as maiores atrocidades.
E Stone aponta a preocupante escalada dessa fascinação na sinergia corrupta que surge entre o personagem de Downey Jr. e o diretor do manicômio vivido por Tommy Lee Jones.
O registro executado por Stone (num de seus trabalhos mais esquizofrênicos) parece impor uma reflexão do próprio olhar: Não apenas o casal de assassinos tem a filosofia de preservar viva uma testemunha ocular de cada ato, como também são eles, os protagonistas algo conscientes de uma orgia visual na qual a realidade se transfigurou, e o diretor Stone ratifica isso proporcionando ao seu filme uma série diversificada de estilos de filmagem que nunca se conforma com um registro ameno e parcimonioso –“Assassinos Por Natureza” vai do preto & branco à sépia, da filmagem digital ao 35 mm, passando pelo 16 mm e a super-8, vai de um sem fim de formas de capturar a imagem à outras linguagens narrativas (há um momento, em que o filme ganha até aspectos de uma sitcom, onde são introduzidos sons de risada nos instantes mais sádicos), num turbilhão que soa quase enlouquecido; daí, talvez, a sanha psicopata que contamina a maioria dos personagens em seu escatológico terço final.

domingo, 26 de março de 2017

Reviravolta

De vez em quando, o diretor Oliver Stone gosta de dar um tempo nas pretensas especulações políticas e históricas de suas produções e fazer um filme só para se divertir. Em 2012, quando isso lhe ocorreu, o resultado foi o mediano “Selvagens”, anos antes, em 1997, um rompante parecido com esse aconteceu, e ele realizou este um pouco esquecido “Reviravolta”.
Num ímpeto de irmanar-se ao cinema comercial norte-americano a que pertence, Stone criou uma narrativa nos moldes do film noir que sua geração apreciou, mais embutiu nele seu gosto pessoal por texturas despojadas e mundanos, seu senso de urgência e realismo, sua visão particular do próprio cinema –refletidos nas mesmas convulsões de câmera que testemunhamos no esquizofrênico “Assassinos Por Natureza”.
Diretor renomado que é, Stone atraiu um elenco dos mais notáveis para seu projeto: Billy Bob Thornton, Jon Voight, Joaquim Phoenix, Claire Danes, Nick Nolte, Jennifer Lopez, Sean Penn.
É esse último que responde pelo protagonista, um trambiqueiro que transporta uma fortuna por uma estrada poeirenta da fronteira entre os EUA e o México, a mando de algum chefão do crime.
Ele pára numa cidadezinha desolada para consertar o carro e, quando o dinheiro lhe é roubado, seus problemas começam a se acumular um a um, em ritmo e lógica quase desafiadores.
O estilo noir até que cai bem em Oliver Stone nos melhores momentos deste filme –ele se vale de sua irrestrita predileção por motivações ambíguas para narrar viradas pontuais na trama com naturalidade, sem no entanto, privar o expectador do espanto (e isso se percebe, sobretudo, na personagem de Jennifer Lopez, esposa do milionário interpretado por Nolte, que se revela a “femme fatale latina” deste filme, em sua segunda metade) –nos piores momentos, porém, tudo o que faz de Stone um diretor insuportável se faz presente em seu filme: Os atores, ainda que bem dirigidos, reagem com cacoetes desagradáveis e degradantes, característicos da visão excessivamente mundana que ele impõe aos personagens. Sua vontade de chocar o expectador e oferecer um sopro de renovação por meio do mais árido dos registros não raro exagera no teor, resultando questionável.
Tornados amantes pelas circunstâncias, mas impossibilitados de confiar um no outro pelos detalhes, os personagens de Penn e Lopez fogem com o dinheiro no desfecho do filme, mas terminam vítimas da própria tendência em querer estar em vantagem sobre o outro. Stone mescla tragédia e comédia nesse desenlace, assim busca mesclar seu cinema peculiar e ácido com um cinema de orientação mais comercial numa obra onde essas duas metades nem sempre se harmonizam –ainda que a montagem, a fotografia e a trilha sonora (de Ennio Morricone) sejam exemplares.

Como diz o personagem de Jon Voight em um determinado momento:
“Suas mentiras são velhas. Mas, você as conta muito bem.”

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Platoon

Dentre todos os grandes cineastas americanos que se aventuraram a falar sobre o Vietnam, Oliver Stone tinha um diferencial: Ele serviu como soldado nas trincheiras do lugar.
Assim como em “O Pianista”, de Roman Polanski –que extrai muito da autenticidade de sua narrativa do fato de seu diretor ter conhecido a fundo as experiências registradas pela câmera –“Platoon”, de Oliver Stone, é então uma busca paulatina pela verdade, na qual o realismo surge caracterizando sua história, e permitindo, por meio dela, que todo um novo gênero cinematográfico, e toda uma nova forma de abordar um drama de guerra apareça ali.
É verdade que Michael Cimino já havia abordado a questão de forma admirável (e largamente premiada) em seu “O Franco-Atirador”, e nem se fala então de Francis Ford Coppola e seu magistral “Apocalypse Now” –bem mais alegórico e surreal do que a abordagem adotada por Stone (vale lembrar que no ano seguinte, 1987, o mestre Stanley Kubrick daria também sua contribuição com a irônica e fria obra-prima, “Nascido Para Matar”).
Mesclando um estilo algo revolucionário à época, onde o relato fictício ganhava uma poderosa roupagem documental, Oliver Stone acompanha a trajetória de Chris Taylor (um ainda jovem e promissor Charlie Sheen –que, por forças de uma irônica referência cinematográfica, é filho de Martin Sheen, o protagonista de “Apocalypse Now”), ingênuo estudante americano que, insulflado pelo patriotismo, abandona a faculdade e alista-se para a Guerra do Vietnam.
Na fronteira do Camboja, ele descobre que precisa se equilibrar entre dois conflitos simultâneos: o ataque e a defesa do inimigo vietcongue, e as brigas internas dentro do próprio pelotão americano.
Cujos antagonismos ideológicos aparecem representados por dois sargentos de índole quase oposta: O racional e austero Elias (Willem Dafoe, formidável), e o truculento e irascível Barnes (Tom Berenger, perfeito).

Com base nessas poderosas e brutais memórias que o diretor Oliver Stone vivenciou quando combateu no Vietnam (os personagens, ele afirma, são todos inspirados em pessoas que ele conheceu), é um filme até certo ponto anti-militarista, autêntico na crueza com que retrata os horrores da guerra, algo seguido, por diversos filmes depois, em especial ao abordar o conflito do Vietnam.