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quarta-feira, 28 de junho de 2023

Transformers - O Último Cavaleiro


 Em seu quinto exemplar, a “Saga Transformers”, pode-se dizer, estava uma bagunça só: Na intenção de criar roteiros que fossem cada vez mais mirabolantes e surpreendentes em relação à sua mitologia, a franquia se contradizia convulsivamente. Se no primeiro filme, fica bastante clara a chegada dos Autobots na Terra como sendo seu primeiro contato com os seres humanos, logo, nos filmes subsequentes, essa ideia foi sendo deixada de lado, através de pequenas pistas que foram crescendo até chegarmos no radicalismo da proposta desta quinta produção: Os Transformers não só vieram para a Terra séculos antes, como participaram ativamente de inúmeros eventos fundamentais na história da Humanidade, e no caso dos Autobots, interagindo e colaborando diretamente com os seres humanos (!).

Se essa ideia –que parece muito agradar ao diretor Michael Bay, visto a forma com que ela veio ganhando força filme a filme –contraria muito do que foi estabelecido no começo, ao menos aqui, ela ganha respaldo total do roteiro.

Numa trama que os roteiristas insistem em tornar intrincada (mas, quando muito, é rasa, abilolada e pretensiosa), um planeta constituído de material cibernético –o assim chamado Unicron, elemento extraído do vibrante longa-metragem de animação “Transformers-O Filme” lançado em 1986 –está em deliberada rota de colisão com a Terra. A fim de impedir a destruição total de nosso planeta, os Autobots precisam da ajuda (por alguma razão que o filme não sabe bem explicar...) do humano Cade Yeager (Mark Wahlberg, regressando do filme anterior). Ao que tudo indica, os Autobots, desde sua imemorial interação com os seres humanos que remonta eras da Antiguidade (!?), sempre contaram com um Cavaleiro, portador de uma espada com poderes oriundos da tecnologia de Cybertron –e nessa salada indigesta de ficção científica descerebrada e mitologia de almanaque, sobram respingos até para a Lenda de Camelot e a espada Excalibur, supostamente entregue ao Rei Arthur por um dos Autobots (!?!) –é, a coisa fica bem esquisita mesmo...

Assim sendo, no percurso cada vez mais insano dessa premissa, os protagonistas –na verdade, o pra lá de perdido Cade Yeager e a historiadora inglesa Vivian Wembley (Laura Haddock, de “Guardiões da Galáxia”), um interesse amoroso dos mais aleatórios e despropositados –encontram o personagem de Sir Edmund Burton (Anthony Hopkins, coitado, manchando sua boa reputação), profundo conhecedor da história secreta dos Transformers e sua relação com a centenária linhagem dos cavaleiros –entre os quais, como nos é revelado em uma cena, Sam Witwick (Shia Labeouf) do filme original, que descobrimos estar morto (!!!) –da qual o último membro vem a ser o próprio Cade. Ou seja, Cade e a Dra. Wembley, em algum momento do turbilhão insano e caótico de tiros e explosões intermitentes que é a narrativa deste filme, devem encontrar as pistas do paradeiro da espada que seria Excalibur, uma vez que ela pode acionar uma ancestral nave alienígena localizada no fundo do Oceano Atlântico capaz de deter o avanço do Unicron.

Essa é a premissa do filme, mas, francamente, pouca história ou desenvolvimento de personagens ou de trama se consegue perceber neste filme barulhento, vertiginoso e ensurdecedor de Michael Bay –aqui, sua predisposição para sequências de ação está ligada no nível máximo e o filme não dá um minuto para o expectador tomar fôlego. Mais que isso: Ele não poupa nem sua própria narrativa; detalhes usuais como a elaborada investigação em busca do misterioso cajado de Merlin, por exemplo –que poderia remeter referências mais identificáveis como “Indiana Jones” ou "Código Da Vinci” –ou a manjada relação amor/implicância do casal central são completamente negligenciados pela direção que trata tudo como uma ferramenta à serviço da ação ininterrupta. Sua obra acaba sendo um atordoante teste de resistência aos expectadores que exigirem um mínimo de coerência em meio à essa sucessão apoteótica de pirotecnia.

A execração unânime da crítica e, principalmente, a indiferença maciça do público nas bilheterias referendaram “O Último Cavaleiro”, tal e qual seu irônico título, como o último capítulo dos filmes dos Transformers dirigidos por Michael Bay –ainda que ele tivesse se mantido por perto como produtor executivo –já no ano seguinte, 2018, uma espécie de reboot foi lançado (“Bumblebee”) visando resgatar um espírito mais contido, semelhante à cultuada série de animação, mas, essa é uma outra história...

quarta-feira, 26 de abril de 2023

Transformers - A Era da Extinção


 Após “O Lado Oculto da Lua” e seus contratempos, um alerta vermelho acendeu nos corredores da Paramount Pictures e nos escritórios de Michael Bay: A franquia “Transformers” pedia por uma espécie de reboot e os realizadores precisavam compreender o momento certo de fazê-lo, se antecipando à reação negativa do público; que seriam bilheterias cada vez menores. Dessa forma, “A Era da Extinção” abriu mão de todo o núcleo de protagonistas humanos dos dois filmes anteriores –que, convenhamos, não serviam para muita coisa nos filmes e tinham ainda menos importância na série de desenhos de onde se inspiravam –focando em novos acréscimos ao elenco. Saia assim o histrionismo de Shia LaBeouf e entrava em seu lugar a seriedade apropriada e confiável de Mark Wahlberg, com quem Michael Bay havia trabalhado anteriormente no ótimo “Sem Dor Sem Ganho”.

É curioso notar como, dessa forma, “A Era da Extinção” apontou involuntariamente para um calcanhar de Aquiles que a franquia possuía desde seu início: A insistência dos roteiristas em privilegiar o ponto de vista dos personagens humanos (ainda que construídos com tanta rasura quanto os personagens não humanos...) e deixar num nada satisfatório segundo plano as verdadeiras estrelas do show, os robôs gigantes, Autobots e Decepticons, que se enfrentam numa guerra interminável.

Assim, entra em cena, Cade Yeager (Mark Wahlberg, recém-saído de uma indicação ao Oscar por “Os Infiltrados”), fazendeiro norte-americano com todas as características de herói involuntário de ação: É pai de uma jovem ávida por procurar encrenca (Nicola Peltz, de “Tempo”, uma candidata genérica à ‘nova Megan Fox’), é viúvo e solitário (gancho para o interesse amoroso, que veio no filme seguinte) e muito hábil em mecânica –conhecimento que vem a calhar quando acaba caindo em suas mãos a carcaça de um caminhão antigo pedindo para ser restaurado. Quando acontece de encaixar e ajustar as peças certas, Cade não apenas conserta o caminhão, mas restaura suas diretrizes, descobrindo assim que ele é Optimus Prime (!), o poderoso líder dos Autobots.

Como é perfeitamente previsível, isso arremessa Cade diretamente no centro da guerra entre as duas facções de robôs, sobretudo, depois que sua filha acaba indo parar numa nave pertencente aos alienígenas (!), o que leva Cade a ter de aturar o namoradinho metido à besta dela (Jack Reynor, de “Midsommar-O Mal Não Espera A Noite”) para poder salvá-la, indo parar do outro lado do mundo, na China (uma nada aleatória escolha de ambientação, visto a China abrigar um dos mais numerosos públicos do planeta), onde as batalhas demolidoras e barulhentas de praxe se seguem.

Mais do que a satisfação do público (ainda que, no geral, a cotação deste quarto longa-metragem tenha sido melhor que as dos dois últimos), e mais do que a aprovação da crítica (esta cada vez mais injuriada com os vícios de linguagem e as redundâncias da narrativa de Michael Bay), “A Era da Extinção” é considerado um exemplar bem-sucedido dentro da saga por ser um orçamento consideravelmente menor que os filmes anteriores (algo que Bay havia prometido já durante a pré-produção) e, mesmo assim, manter o bom desempenho nas bilheterias, o que proporcionou à “Franquia Transformers” uma sobrevida.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2023

Conflitos Internos / Os Infiltrados


 Conflitos Internos

Extremamente prestigiado em Hong Kong, o diretor Andrew Lau é um hábil manejador de tramas prolixas, capaz de ressaltar suas arestas de originalidade em meio à gêneros e conceitos dos quais público e crítica tendem a subestimar.

Uma de suas obras mais aclamadas –pelo menos, no Oriente, onde obteve largo sucesso –“Conflitos Internos”, o qual ele co-dirigiu em colaboração com Alan Mak no ano de 2002, não somente é um brilhante thriller policial e, a sua maneira, uma evocação apaixonada dos meandros complexos e fascinantes com os quais Francis Ford Copolla forjou a mitologia de seu “O Poderoso Chefão” como também é o imprevisto estopim (até para seus realizadores!) de uma bem-sucedida trilogia.

Neste primeiro filme, testemunhamos, em meio ao submundo criminal de Hong Kong, as trajetórias de um criminoso e de um policial, interpretados por Andy Lau (não confundir com o diretor de quem ele é quase homônimo!) e Tony Leung, respectivamente, que em paralelo se infiltram entre seus próprios inimigos. Ambos acabam ganhando a confiança nas suas áreas. Ironicamente, o policial disfarçado de bandido torna-se um dos homens de confiança do chefe da quadrilha quando surge a suspeita de que há um espião entre eles. Ao mesmo tempo, o gangster infiltrado na polícia integra uma equipe justamente para descobrir quem está entregando informações aos bandidos. Pouco a pouco, os dois estão prestes a desmascarar um ao outro.

Andrew Lau e Alan Mak trabalham maravilhosamente bem a circunstância de suspense do filme, cuja impecável atmosfera nos faz desconfiar de cada movimento, de cada olhar mal-disfarçado; é um mundo de suspeitas onde ninguém pode confiar em ninguém, e cada ato parece supervisionado por inimigos ávidos por ter alguém a quem desmascarar.

Como em toda trama de intriga, Lau e Mak justapõem os antagonistas deixando bem clara a forma preocupante com que estão inseridos entre as fileiras inimigas –mas, somente isso fica cristalino; tudo o mais (alianças, motivações, lealdades) é deixado brilhantemente ambíguo, de forma a potencializar sua tensão, que acaba coroada com um final impiedoso do qual o viés shakesperiano embutido em sua premissa converge a um eco ensurdecedor.

O segundo filme da trilogia (realizado em decorrência de seu inesperado sucesso de público, visto que esta é, evidentemente, uma história planejada com começo, meio e fim) trata-se de uma espécie de prequel que esmiuça com mais detalhes o passado dos dois personagens principais, enquanto que o terceiro termina sendo, de fato, a continuação, mostrando os desdobramentos e consequências do desfecho do primeiro filme.


Os Infiltrados

Como costuma ocorrer a um filme estrangeiro de insuspeita qualidade a destacar-se entre as milhares de obras produzidas pelo mundo ano a ano, “Conflitos Internos” –ao menos, a primeira e, de certa forma, a segunda parte –acabou sendo refilmado em 2006. E não uma refilmagem qualquer: “Os Infiltrados” ganhou direção de ninguém menos que Martin Scorsese (recém-saído de seu suntuoso épico “O Aviador”) e foi estrelado por Leonardo Dicaprio ao lado de Matt Damon, o elenco conta ainda com Jack Nicholson numa de suas últimas participações num longa-metragem antes da aposentadoria.

A trama, ainda que roteirizada pelo conceituado William Monahan (de “Cruzada”), replica a de “Conflitos Internos” com constrangedora proximidade: Um policial (Dicaprio) infiltra-se na máfia de Massachussets, em Boston, enquanto paralelamente, um espião da máfia (Damon) é plantado na força policial. Os anos se passam e cada um dos respectivos infiltrados adquire confiança em sua corporação até a descoberta de que ambas as partes possuem um espião. A trama acompanha então a nervosa investigação (e consequente duelo) para que um consiga desmascarar o outro.

Como costuma acometer nas refilmagens promovidas pelos norte-americanos, a despeito da qualidade um tanto desafiadora do material que tentam refilmar, os realizadores se esforçam bastante para incrementar os elementos já presentes no filme original; e aqui, o roteiro de William Monahan é desonestamente astuto ao aproveitar muito da trama, não apenas do primeiro, como também do segundo filme: Ao valer-se do original e de sua prequel, os realizadores de “Infiltrados” têm a chance de moldar uma obra mais robusta, com mais elementos dramáticos a oferecer diante do enxuto “Conflitos Internos” –além da presença inédita do personagem de Mark Whalberg, inexistente no original, que acrescenta um elemento mais contundente ao desfecho, ainda que algo questionável –e, embora este seja de fato um filme menor dentro de sua formidável filmografia, um filme dirigido por Martin Scorsese ainda É dirigido por Martin Scorsese: A mitologia de toda a criminalidade de Boston concebida para o filme é rica e notável em seu detalhamento, e o diretor não somente equilibra atuações de forma a todos soarem impecáveis (Jack Nicholson, nitidamente substituindo uma presença que seria regularmente de Robert De Niro, não acaba roubando a cena de ninguém como inicialmente poderíamos presumir) como também evoca um sem-fim de referências cinematográficas vastas –que vão de cortes abruptos e imprevisíveis decalcados de Glauber Rocha à sutis manobras narrativas extraídas de antigos filmes noir –regendo o que pode ser chamada de uma sinfonia de violência e psicologia.

Ainda que tímido diante de tantas obras maiúsculas que Scorsese entregou antes e depois (e certamente inferior, mesmo que com todos os seus esforços, à produção original na qual foi inspirado) coube a este pequeno épico policial a honra de ser a produção pela qual Martin Scorsese finalmente recebeu seu Oscar de Melhor Diretor. Ele traz a fúria narrativa e a costumeira maestria que um mestre como Scorsese consegue criar, mas, não tenha dúvidas, é bastante simplório na comparação com muitos de seus trabalhos.

Em tempo, no ano de 2009, houve mais uma refilmagem de “Confiltos Internos”, desta vez, realizada na Coréia do Sul (uma indústria cinematográfica a qual nunca se deve subestimar), com o título inglês de “City of Dammation”, dirigida por Dong Won Kim e concebida numa variação –pasmém –de comédia!

segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

Todo O Dinheiro do Mundo


 Sempre houve uma espécie de ênfase no materialismo presente no cinema de Ridley Scott; vindo da área da publicidade –onde a estética predominante sempre teve mesmo essa orientação –Scott vislumbrou, em filmes como “Alien”, “Blade Runner” ou “Gladiador”, os adereços visuais do mundo que cerca seus protagonistas, e que em grande medida os define. Claro que ele vislumbrava outras coisas também e, para aliviar sua barra, desde “Thelma & Louise”, Scott soube cada vez mais salientar as particularidades de uma bela história.

Em “Todo O Dinheiro do Mundo”, Ridley Scott, como quase todo bom autor de cinema, parece esforçar-se para fazer as pazes com mais essa inquietação, um exorcismo de seus demônios pessoais, e para efetuar tal gesto, Scott escolhe uma história real: A desastrosa e trágica trajetória da Família Getty. Girando em torno de seu patriarca, Jean Paul Getty (Christopher Plummer, soberbo), o filme coloca em foco a ambição e o conflito moral, ocasionado de raras e improváveis circunstâncias, entre o empuxo pessoal e ególatra que leva os homens à ascender e o discernimento ético do juízo de valor.

Se o livro original de John Pearson dedica um tempo desmedido para relatar a história de vida (e de riqueza) de Jean Paul Getty, sedimentando assim sua personalidade talhada em meio à rudeza das negociações bilionárias (algo como um William Randolph Hearst, de “Cidadão Kane”, filme que exerce tremenda influência espiritual neste daqui), o roteiro de David Scarpa é sucinto, indo com muito mais objetividade ao evento central da trama: O sequestro, em 1973 na itália, de Paolo Getty (Charlie Plummer, que NÃO tem nenhum parentesco real com Christopher!), o neto de J. Paul Getty, filho de Gail Harris (Michelle Williams, sempre maravilhosa) e de J.P. Getty Jr. (Andrew Buchan), filho de Getty.

Os sequestradores, um grupo comunista com desespero estampado no rosto, pedem 17 milhões de dólares como resgate à mãe de Paolo. Apesar da fama da família, Gail era uma mera dona de casa de classe média –o verdadeiro bilionário era seu sogro que relutava em dividir sua fortuna com qualquer um. Mesmo o próprio filho, J.P. Getty Jr., acabou trabalhando com o pai depois de adulto, após anos de indiferença, somente para viciar-se em drogas e virar uma marionete nas mãos do pai, servindo aos seus propósitos para tirar os netos da guarda de Gail.

Getty rechaça publicamente o pedido de resgate afirmando que não irá pagar valor algum no sequestro, entretanto, por baixo dos panos, chama um de seus mais hábeis negociadores, o ex-agente secreto e especialista em segurança Fletcher Chase (Mark Wahlberg), para tentar resolver o mais rápido (e barato!) possível a situação na Itália, na qual a polícia local, a cannabieri, apenas exerce sua incompetência.

Inicialmente, as investigações de Chase esbarram na possibilidade de que o sequestro possa ter sido cogitado pelo próprio Paolo –e nessa esteira, as assombrosas richas e mesquinharias envolvidas nas relações de J. Paul Getty com seus familiares vão se descortinando –contudo, a medida que a situação vai se tornando mais alarmante –Paolo, refém real num caso de sequestro real, acaba vendido para um mafioso italiano (Marco Leonardi) quando os comunistas se fartam da situação de impasse, escapa num terminado momento, mas é devolvido aos seus algozes por policiais corruptos, até que tem sua orelha direita amputada –Chase vai se dando conta da posição aflitiva e desamparada de Gail e do inacreditável descaso do Velho Getty.

Um dado curioso a respeito do filme, realizado durante a celeuma de denúncias de abuso sexual que dominou Hollywood em meados de 2017, é que “Todo O Dinheiro do Mundo” tinha, em princípio, o ator Kevin Spacey escalado como J. Paul Getty. Acusado de assédio e com a carreira, até então, seriamente comprometida, Spacey foi afastado da produção, e substituído por Christopher Plummer que, como é de hábito, entregou um trabalho sublime –seja pela excelência de sua performance, seja para apoiar o gesto de cancelamento de um abusador em potencial, no qual foi necessário refazer grande parte do filme devido à troca de intérpretes, a Academia de Artes Cinematográficas indicou Plummer ao Oscar 2018 de Melhor Ator Coadjuvante. Plummer compõe um homem incapaz de confiar nos seres humanos à sua solta, paranóico, demasiadamente ciente do interesse geral em sua vasta fortuna, e seu excesso de preocupação o leva a atitudes tão excêntricas quanto amorais –e nesse sentido, Ridley Scott não se furta de emoldurá-lo, como o protagonista do já citado “Cidadão Kane”, num casulo de riqueza: Getty é sempre mostrado em sua mansão com paredes abarrotadas de obras de arte, vestindo ternos finos, e sempre exibindo, ostentando ou exprimindo um luxo abundante, em contrapartida ao fato existencial onde se revela incapaz de abrir mão de uma fração desse luxo, ou em última instância, de abrir mão de qualquer coisa.

“Todo O Dinheiro do Mundo” reúne então diversas facetas a serem contempladas: É um filme cujos bastidores refletiram, à sua maneira, as mudanças imprevistas desses novos tempos, e, do ponto de vista de seu realizador, oferece um oportunidade para resgatar suas inspiração, sua temática incomum e as referências de seu estilo. Apesar disso tudo, a conclusão pesarosa das inacreditáveis falhas morais que a ganância pode exercer no caráter humano (um mote que o relaciona, também, ao clássico “O Tesouro de Sierra Madre”) leva a uma obra que deixa uma impressão amarga no expectador.

sexta-feira, 12 de novembro de 2021

Planeta dos Macacos


 Em algum momento, no largo espaço de tempo entre os filmes iniciados pelo clássico “Planeta dos Macacos”, de 1968 (cujo último exemplar, “A Batalha do Planeta dos Macacos”, foi lançado em 1973) e a nova e aclamada trilogia ‘estrelada’ por Andy Serkis como um símio digital –cujo capítulo final foi o excelente “O Planeta dos Macacos-A Guerra” –os estúdios da Fox tentaram realizar uma refilmagem do filme que iniciou toda essa mitologia.

A verdade é que durante muito tempo a Fox acarinhou um novo projeto –datam ao longo de toda a década de 1990 relatos de um contrato envolvendo o astro Arnold Shcwarzenegger no papel que antes havia sido de Charlton Heston. Como costuma ocorrer com produções endinheiradas demais e que envolvem agendas de astros requisitados, o novo “Planeta dos Macacos” não somente sofreu inúmeros atrasos como transformou-se radicalmente a medida que se revezavam diretores e atores principais em seu comando.

O filme que por fim chegou às telas de cinema naquele já longínquo ano 2000 aparentava ser quase uma repaginação do original com Charlton Heston –onde ele vive um astronauta que cai num planeta Terra povoado por macacos evoluídos –entretanto, mudanças que dizem respeito às mentes criativas por trás do projeto, converteram a aventura espacial em outra coisa; algo que, visto hoje e desprovido de qualquer continuidade que lhe amarrasse as pontas soltas, soa ainda mais incoerente do que em sua época.

Na direção –que, por muito tempo, cogitou-se James Cameron e Oliver Stone em suas especulações –quem disse sim ao estúdio acabou sendo o esteta Tim Burton que, num lance até surpreendente, construiu um filme de aventura, convencional e genérico em suas características autorais. Este “Planeta dos Macacos” é um dos trabalhos em que menos se percebe a assinatura visual de Burton, inconfundível em projetos como “A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça”.

No papel protagonista do astronauta Leo Davidson, entra Mark Whalberg, uma escolha que parece absolutamente aleatória. Seguindo os passos do filme original, Davidson vive numa estação espacial em órbita de um vortex. Um dos macacos adestrados do lugar, chamado Pericles, é despachado numa nave e acidentalmente acaba sugado pelo vortex, levando Davidson à segui-lo a fim de resgatar o pobre animal, contudo, por uma série de tortuosas viagens no tempo (mais ainda tortuosas pela trama pouco convincente que originam), ele cai num planeta onde o macaco Pericles em questão caiu séculos antes dele (!), e a partir desse macaco, o patriarca, digamos assim, toda uma sociedade de macacos aflorou e se desenvolveu convertendo os humanos em seus escravos.

Uma trama muito semelhante à do primeiro filme que, no entanto, troca sua objetiva ficção científica por uma embromação pretensamente intrincada.

Ainda assim, é no planeta dos macacos, propriamente dito, que o filme de Burton revela suas duas maiores forças: A primeira –se é que depois de tanto tempo isso vem a importar –é a prodigiosa maquiagem, como tinha que ser, onde a parcela do elenco encarregada de personificar os símios tem seus rostos transformados pela autenticidade animal. Se a maquiagem já era um fator de assombro no clássico de 1968, aqui, neste filme de 2001, à cargo do mago das próteses Rick Baker (de “Um Lobisomem Americano em Londres”). ela é espantosa, convertendo rostos famosos, como Helena Bonhan Carter, Michael Clarke Duncan, Paul Giamatti, Kris Kristofferson, Cary Hiroyuki-Tagawa e até mesmo o próprio Charlton Heston (numa ponta referencial e especial) em perfeitos símios; e ainda assim, tal arrojo já soava anacrônico naquela época –naquele ano, ele perdeu o Oscar de Melhor Maquiagem (ao qual nem foi indicado!) para “O Senhor dos Anéis-A Sociedade do Anel” –justificando a mudança de ênfase, da maquiagem para os efeitos realísticos da captura de performance na tentativa seguinte, e mais bem-sucedida, de retomar a franquia.

O segundo grande trunfo do filme de Burton, termina sendo seu formidável vilão, o General Thade interpretado por Tim Roth, compreensivelmente irreconhecível debaixo de tanta maquiagem, mas cujo talento ainda foi capaz de moldar um antagonista complexo, raivoso, ameaçador e plenamente convincente na pele de um macaco autoritário, agressivo e déspota. O tirano, enfim, que captura Davidson junto dos outros humanos, sem dar-se conta de que será ele e seus conhecimentos extraordinários de humano evoluído, que iniciará uma insurreição onde os humanos tentarão escapar do jugo dos macacos.

É o General Thade, inclusive, o responsável pelo desfecho desconcertante, enigmático e francamente incompreensível do longa, elaborado claramente para competir em choque e surpresa com a revelação clássica na qual o planeta dos macacos é o Planeta Terra ao mostrar a cena desoladora da Estátua da Liberdade destroçada: Ao fim, Davidson usa de sua nave para partir desse novo planeta dos macacos (que NÃO era a Terra!) e volta ao nosso planeta, incerto quanto aos rumos que suas estripulias temporais efetuaram no futuro. Ao aterrissar, ele se depara com um mundo moderno (cai, por exemplo, em plena Washington dos dias atuais), entretanto, não são os humanos quem habitam esse mundo; são os macacos! Na última cena, pouco antes do filme de Burton nos abandonar sem quaisquer explicações plausíveis para o que aconteceu (sem nenhuma mesmo, visto que qualquer continuação que, por ventura, viesse a fornecer tal explicação jamais foi realizada), vemos a estátua de Abraham Lincoln no Lincoln Memorial, numa versão símia, e ali, quem está nela é o próprio General Thade.

Hoje, há quem aprecie o “Planeta dos Macacos” de Tim Burton –como há quem aprecie toda e qualquer obra que adquire algumas décadas de existência a medida que os expectadores aprendem, com o tempo, a focar nos seus pontos positivos que, neste caso, são as cenas de ação (elemento curioso para se destacar num filme de Burton), seu senso de aventura, suas características técnicas bem empregadas e a formidável tensão proporcionada por seu antagonista. Ainda que as analogias fornecidas pelo trabalho de Burton –e que sempre foram os objetivos subliminares desse brilhante conceito –tenham aqui soado mais caricatas do que alegóricas.

sábado, 27 de julho de 2019

Contrabando

Embora deixe claro em seus créditos iniciais que se trata de uma refilmagem, “Contrabando” é uma incontornável referência ao cinema de Michael Mann.
O personagem de Mark Wahlberg, Chris Faraday, é aquela espécie de ‘criminoso limpo’, relativamente comum na obra de Mann: É honrado, nobre e dedicado à família e aos amigos. Honesto, até, não fosse o fato de ser um às estratégico em termos de contrabando nos EUA.
No entanto, Chris sossegou, motivado pelo casamento com Kate (Kate Beckinsale), os dois filhos que tiveram e a prisão do próprio pai pelo mesmo crime.
É claro que, para efeitos que consequência, o talento posto de lado de Faraday será necessário uma última vez: Seu cunhado, o descuidado Andy (Caleb Landry Jones) contrai uma dívida com um perigoso traficante de drogas (Giovanni Ribisi), e tal dívida, segundo o código pernicioso da criminalidade, se não for saldada por ela, é herdada pela família –Chris e Kate, portanto.
Para juntar todo o dinheiro, Chris deve contrabandear um carregamento de dinheiro da América Latina para o solo americano por meio de um navio, comandado pelo Capitão Camp (J.K. Simmons), conhecedor da fama de Faraday, e por isso mesmo, ávido em pegá-lo com a boca na butija.
No início, parece simples a tarefa do protagonista em resolver as confusões do cunhado, entretanto, o diretor disfarça muito bem as complicações palpitantes que virão: Ele planta personagens específicos que, em seu devido momento, fornecem guinadas pontuais à trama acrescentando a ela uma urgência e um suspense inesperados.
“Contrabando” continua aquém das grandes obras assinadas por Michael Mann, mas o resultado final de seus bem conduzidos desdobramentos criminais prima por oferecer ao expectador um entretenimento de primeira.

terça-feira, 23 de julho de 2019

O Dia do Atentado

Percebe-se um padrão nos três filmes realizados pelo diretor Peter Berg em colaboração com o astro Mark Wahlberg, o drama de guerra “O Grande Herói”, o filme-catástrofe “Horizonte Profundo-Desastre No Golfo”, e este “O Dia do Atentado: Todos eles reconstituem episódios reais centralizando os esforços extraordinários de homens ordinários.
Aqui, Berg volta a atenção de suas lentes para os acontecimentos deflagrados em abril de 2013, durante a Maratona de Boston, no estado de Massachussets.
Ele lança de mão de diversas linhas narrativas, mostrando os numerosos personagens do filme –o policial Sgt. Tommy Saunders (Mark Wahlberg) incumbido da segurança da maratona; o comissário Ed Davis (John Goodman); o chefe de polícia de Watertown, o município vizinho, Jeffrey Puglieses (J.K. Simmons); o estudante chinês de intercâmbio Dun Meng (Jimmy O. Yang); o jovem casal Patrick Downes e Jessica Kensky (Christopher O. Shea e Rachel Brosnahan); o jovem policial, oficial Sean Collier (Jake Picking); e os terroristas interpretados com deliberado desleixo por Themo Melikidze e Alex Wolf (de “Hereditário”) –todos são apresentados por Berg ao seu estilo de baixa voltagem nesse primeiro terço, para então, na cena do atentado, terem unidas as pontas soltas de suas narrativas, revelando que todos eles ocupam, de uma forma ou de outra, um papel nesse trágico acontecimento, elevando assim consideravelmente o nível de tensão e ansiedade no expectador.
É quase um filme de ação transfigurado numa fórmula narrativa diferenciada (ao invés de rompantes ocasionais, tudo vai num aumento gradual), mas que ao longo desses projetos citados, Peter Berg aprimorou a ponto de domina-la com maestria.
O atentado propriamente dito ocorre quase com meia hora de filme, abrilhantado por uma recriação visual que não deixa margens para dúvidas acerca da habilidade do diretor.
É chocante, angustiante e visceral, no entanto, sua qualidade mais flagrante, passada a intensa reação que provoca, é o controle absurdo de ritmo que Peter Berg impõe: Ele nunca se apressa nem se atrasa em relação a sua intenção de expor os fatos para então partir para os finalmentes –ele toma tempo com as devidas informações pertinentes a respeito dos eventos, enquanto sem o expectador notar eleva o nível de urgência e a sensação de ameaça da narrativa.
Quando as bombas explodem, uma perplexidade palpitante contamina muitos dos personagens. O primeiro a retomar o controle é Saunders que imediatamente orienta a chegada das ambulâncias e socorristas. Patrick e Jessica estão entre as vítimas –se encontravam praticamente ao lado de uma das bombas! Ao comissário Davis, no comando das investigações, logo de junta o agente do FBI DesLauriers (Kevin Bacon). Os terroristas, erráticos, acompanham os noticiários de seu sujo apartamento exibindo assustadora falta de empatia.
A medida que os dias vão passando, e a investigação vai se revelando frutífera –graças ao aparato tecnológico fenomenal do FBI na captura das imagens das telas de segurança –os terroristas se veem compelidos a prosseguir com seu plano, desta vez, roubando uma arma e um carro para irem à Nova York.
A arma, eles tiram do policial Collier, que matam; o carro, eles obtêm sequestrando o jovem Dun Meng.
É ele quem consegue escapar e alertar a polícia sobre os terroristas, a tempo para que sejam interceptados numa vizinhança suburbana de Watertown; onde um tiroteio espetacular coloca o policial Pugliese na história –e nesse detalhe, no de ter conferido um background prévio a cada personagem que contribui à narrativa, o filme de Berg se mostra astuto, bem lapidado e de um zelo pontual para com os personagens e os eventos que retrata.
Se há nele um porém é no excesso de enaltecimento aos valores norte-americanos –comum nos filmes de Peter Berg –que, a partir de algum momento, começa a soar xenófobo em algumas cenas, piegas em outras.
Nada que desfaça a constatação do grande filme que foi realizado.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Uma Noite Fora de Série


O humor excessivamente norte-americano dos comediantes Steve Carell e Tina Fey é baseado na circunstância da ‘saia justa’, da vergonha alheia. Quando acertam, eles conseguem extrair pérolas cômicas de algumas situações. Quando não, o constrangimento passa facilmente para quem assiste.
Dirigido por Shawn Levy, um especialista em musicais, comédias e filmes inofensivos, “Uma Noite Fora de Série” oscila entre esses dois extremos qualitativos.
É na totalidade de sua duração um programa familiar, com uma ligeira intervenção de situações um pouco mais escabrosas que deixam a dúvida se os realizadores optaram por esse humor mais pesado momentaneamente ou se foi um lapso.
Tina e Carell são Phil e Claire Foster, um casal suburbano de meia idade enfrentando uma crise de monotonia que acomete várias relações; paira sobre eles, o fantasma da separação de um casal de amigos (vividos por Mark Ruffalo e Kristen Wiig, as primeiras das inúmeras participações estelares que estão por vir) e o medo de que tal desfecho pode ocorrer a eles também.
Dispostos e ter uma noite revigorante de sexta-feira, eles vão a um badalado restaurante e, enfastiados da lista de espera para uma mesa, resolvem se passar por um outro casal que fez reserva perante a recepcionista (Olivia Munn) –e a partir dessa artimanha gaiata, a premissa dá seu ponto de partida.
Como numa caricatura de Hitchcock, eles são confundidos com misterioso casal (que descobrem ser, mais tarde, James Franco e Mila Kunis) cuja identidade travessamente resolveram assumir. Entretanto, como logo descobrirão, esse casal está sendo perseguido por policiais corruptos (Common e Jimmi Simpson) a serviço da máfia (o gangster maioral é ninguém menos que Ray Liotta) por conta de revelações comprometedoras.
Além disso, cruzam-se com a policial honesta vivida por Taraji P. Henson e com o casal interpretado por Mark Wahlberg e uma Gal Gadot “pré-Mulher Maravilha”.
Eu mencionei Alfred Hitchcock, mas na verdade, tão logo as confusões começam a se empilhar uma após a outra levando o desafortunado casal a uma noite infernal, é outra referência que acaba vindo à mente: “Depois de Horas”, de Martin Scorsese.
Como naquele filme, os protagonistas se vêem tão aturdidos quanto o expectador, mergulhados numa trama que nem eles mesmos entendem, impedidos, situação após situação de simplesmente voltar para casa –e ainda por cima, com o ostensivo cenário da noite nova-iorquina como pano de fundo.
Contudo, se o filme de Scorsese tinha na comédia uma salutar reflexão sobre valores e solidão, o filme com Steve Carell e Tina Fey só tem a intenção de extrair algumas risadas do expectador –saldo que, mesmo despretensioso, quase acaba no vermelho.

terça-feira, 6 de março de 2018

Fim dos Tempos

O fundo do poço, para o diretor e roteirista M. Night Shyamalan, após uma tentativa de fugir à sua fórmula com o estranho “A Dama Na Água” representou ser este equivocado “Fim dos Tempos”.
Após as críticas negativas e o desinteresse do público no filme anterior, Shyamalan decidiu recorrer ao mesmo molde pelo qual havia urgido os bem-sucedidos “O Sexto Sentido”, “Corpo Fechado”, “Sinais” e “A Vila”. E ele seguiu a receita à risca: Como nos outros, escalou um ator de filmes de ação (Mark Wahlberg) como forma de surpreender o público num personagem dramático; administrou seu estilo parcimonioso –indiferente às cenas de ação –para se ocupar de uma trama de conotações fantásticas e fantasiosas, mas ainda sim um reflexo de celeumas e inquietações bem reais (uma espécie de episódio da série “Além da Imaginação” estendido para o cinema); e ainda tentou introduzir uma pretensa revelação infantil, nos moldes do que fez com Haley Joel Osment –a péssima e inexpressiva Ashlyn Sanchez.
Embora tenha organizado os ingredientes com rigor até excessivo, a mistura mostrou-se pouco harmoniosa em relação aos seus bons trabalhos.
“Fim dos Tempos” fala sobre uma praga desconhecida que assola a humanidade –o mais próximo, portanto, que Shyamalan e seu peculiar cinema se aproximam de um filme-catástrofe. Na premissa bolada pelo autor, um surto coletivo de suicídios domina os grandes centros urbanos começando pelas cidades da Costa Oeste dos EUA. Na Philadelphia (local que é uma referência constante nos trabalhos de Shyamalan), um professor de matemática (Wahlberg) junto da esposa (Zooey Deschanel, deslocada) e de sua sobrinha (a menina Ashlyn), inicialmente acompanham a onda de pessoas perdidas e assustadas dispostas a fugir desse mal, que a princípio pensam tratar-se de um ato terrorista.
É, na realidade, uma vingança das próprias árvores (!) contra o desmatamento: Na concepção do diretor (que sua impostação e sua pretensão fazem ser tão ridícula quanto parece), as plantas, identificando na humanidade um inimigo que as ameaça há milênios desenvolvem uma enzima que se espalha pelo ar e que interfere no cérebro humano, levando as pessoas ao suicídio.
Mais uma parábola, portanto, muito particular de M. Night Shyamalan sobre a humanidade e o próprio gênero de terror e suspense que adotou, onde ele lança mão de cenas um pouco mais gráficas –no lugar da sugestão que predominou nas obras anteriores –como as intermináveis (e mórbidas) seqüências de suicídio (pessoas se jogando dos prédios, deitando na frente de cortadores de grama e tirando a vida das mais diversas maneiras) ou os momentos de tensão quando os personagens ficam na expectativa da chegada silenciosa do vento (elemento que afinal transporta a enzima suicida!). No entanto, o filme acaba ficando na memória mesmo por suas cenas constrangedoras, como o diálogo do personagem de Mark Wahlberg com uma samambaia –é sério, isso acontece mesmo!
Tudo, porém, piora muito mais quando chegamos aos quarenta minutos finais, e Shyamalan desleixadamente parece deixar de lado o filme irregular que construía até então para colocar os personagens numa situação distinta repleta de acontecimentos sem sentido –uma casa isolada, onde a moradora oferece abrigo para então revelar-se excêntrica e psicótica (vivida por Betty Buckley, que também aparece em “Fragmentado”): Na verdade, esse trecho esquisito, mal amarrado ao restante da premissa e desagradavelmente inesperado é baseado num curta-metragem de Shyamalan, e foi colocado ali para aumentar a duração do filme somente.

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Boogie Nights - Prazer Sem Limites

Em seus três primeiros filmes, Paul Thomas Anderson criou distorções perturbadoras de um mesmo tema: Um grupo de marginais, ora em atrito, ora em paralelo com o difícil fato de existir no contexto em que estão inseridos.
Se em seu primeiro trabalho, “Hard Eight”, seus personagens eram a fauna de caóticos habitantes de um cassino, e em seu terceiro, “Magnólia”, eles eram seres peculiares arremessados num pesadelo urbano da vida real, em seu segundo trabalho –aquele no qual a indústria e a crítica especializada começou a reparar nele –o exuberante “Boogie Nights-Prazer Sem Limites”, esses personagens eram personificações de bizarros seres humanos que vivem no universo do cinema pornô.
Apesar do grande número de personagens (característica em muitos dos filmes de Anderson), o centro do filme é o jovem aspirante a ator, Eddie Adams que, ao adotar o pseudônimo artístico de Dirk Diggler (Mark Whalberg, numa das primeiras chances em sua carreira de demonstrar talento real) mostra-se inicialmente deslumbrado com o fato de se tornar um astro pornô: Ele é apadrinhado pelo diretor Jack Horner (vivido com euforia renovada e genuína pelo veterano Burt Reynolds) que graças ao seu pênis descomunal (!) o coloca como astros em uma profusão de produções feitas por sua equipe que, ao lado do elenco regular de beldades (que inclui Julianne Moore e Heather Graham) e outras pessoas formavam todos uma espécie de família.
Aos poucos, Diggler se deixa levar pelos excessos daquele período, inclusive pelas drogas, numa clara referência ao ator John Holmes, ícone do gênero falecido na década de 1980, vítima da AIDS.

“Boogie Nights” é então um mosaico colorido e disforme, riquíssimo em dramaturgia e observação, um retrato meio cômico meio dramático da indústria pornô dos anos 1970 (trecho mais radiante e animado do flme) e início dos anos 1980 (sua parte mais sombria) quando a transição para as novas mídias de então (o Betamax e o VHS) trouxe a decadência aos astros daquele gênero.

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

O Vencedor

Um dos mais belos momentos deste “O Vencedor” é quando o personagem de Christian Bale, envergonhado de ser flagrado consumindo drogas por sua mãe, vivida por Melissa Leo, resolve, em sua atávica perplexidade, quebrar o incômodo silêncio que se segue dentro do carro e começa a cantar “I Started A Joke”, dos Bee Gees.
Um momento belo, inesperado e contagiante, e ainda bastante indicativo da inclinação autoral de seu realizador: A grande constante em toda a carreira do diretor e roteirista David O’ Russell foi o seu imenso apreço por seus personagens. Sejam eles saídos da ficção ou da realidade, eles sempre recebiam um cuidado todo especial da parte do realizador, fosse na maneira criteriosa e carinhosa com que eram escritos, ou no zelo singular com que era confiado à um intérprete.
“O Vencedor”, ao mesmo tempo que continua sendo, talvez, o seu melhor trabalho (com a possível rivalidade do ótimo “Trapaça”), é também aquele onde melhor se evidencia essas características.
Saindo de uma seqüência um tanto irregular (contudo, coerente com um certo estilo) de comédias bastante insanas (como “Procurando Encrenca”, “Três Reis” –que não deixa de ser uma comédia ambientada na Guerra do Golfo –e “Huckabess-A Vida É Uma Comédia”), O’ Russell trouxe de volta o ator de seus dois últimos trabalhos, Mark Whalberg, para juntos contarem a história de Micky Ward, lutador dos pesos-médios, em fase indefinida da carreira, que passa por uma tentativa de se reerguer após uma série de constrangedoras derrotas. No entanto, a influência negativa de sua família o atrapalha, sobretudo seu irmão (Christian Bale, em estado de graça), ex-lutador e viciado em crack, que o treina com o desleixo e o descuido típicos dos dependentes químicos, e sua mãe beligerante e sufocante (a ótima Melissa Leo), habituada a colocar interesses mesquinhos à frente dos demais.
Tudo parece dar um sinal de mudança quando ele se apaixona por uma jovem garçonete (Amy Adams, maravilhosa).
Com este notável trabalho, o diretor O' Russell parece menos interessado em fazer um filme sobre o pugilismo e muito mais em mostrar, na trajetória de sua narrativa, como os seus personagens vão muito além dos rótulos que a primeira impressão atribui a eles –o quê era o mínimo que poderia, afinal, se esperar dele como realizador.
Ganham, com isso o público (presenteado com um filme vibrante e saboroso), o próprio O’ Russell (que a partir desta produção iniciou uma aclamada sucessão de grandes trabalhos que o colocaram simultaneamente entre os indicados ao Oscar, ano a ano) e os próprios personagens (desempenhados pelo formidável elenco coadjuvante que inclui a indicada ao Oscar de Coadjuvante, Amy Adams, como também a própria ganhadora do prêmio, Melissa Leo e o responsável pelo grande show de interpretação do filme, o visceral Christian Bale, também ele ganhador do Oscar).

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Horizonte Profundo - Desastre No Golfo

Intensidade parece ser a palavra de ordem no cinema do diretor Peter Berg.
Também ele um ator (participou do elogiado “O Poder da Sedução”, de John Dahl, nos anos 1990), Berg chamou a atenção como realizador em “Bem-Vindo À Selva”, com The Rock, depois com o suspense investigativo de ação “O Reino” e com um quase filme de super-herói “Hancock”, estrelado por Will Smith, demonstrando notável controle sobre ritmo e clima e, não raro, valendo-se disso para a concepção de filmes comerciais contundentes, carregados de som e fúria.
Na seqüência vieram a catastrófica ficção “Battleship-A Batalha dos Mares”, e o ótimo filme de guerra “O Grande Herói”, com Mark Wahlberg, com quem voltou a se reunir aqui.
O imenso fiasco nas bilheterias de “Battleship” fez Peter Berg notar o quão escorregadios poderiam ser os projetos amparados em um elemento pop (no caso, adaptado do conceito de um jogo da Hasbro) e ainda escorados num gênero de fantasia.
Com “O Grande Herói” e este “Horizonte Profundo”, ele se manteve fiel aos seus posicionamentos estéticos, sem abrir mão da realidade –mas, certamente, continua interessado em explorar as possibilidades dos efeitos visuais de última geração.
A narrativa, criteriosa, começa acompanhando a rotina doméstica de Mike Willians (Mark Wahlberg) ao lado de sua esposa (Kate Hudson). Tudo parece normal naquele 20 de abril de 2010 quando ele, um operário da empresa Deepwater Horizon, se prepara para mais uma escala de vinte e tantos dias em alto-mar numa plataforma de petróleo no Golfo do México.
Outros personagens são mostrados, o chefe de segurança, Sr. James (Kurt Russell), a jovem funcionária da torre de comando (Gina Rodriguez), o mandatário de escritório, Sr. Vidrine (John Malkovich), alguns outros empregados e pessoas a bordo da plataforma –um total de cento e vinte e seis pessoas embarcadas.
Todos os atores, de um modo geral, correspondem somente com suas impressões básicas (e as impressões que o pública previamente tem sobre eles) para os personagens que interpretam. Leia-se: Kurt Russell faz o veterano mentor, uma versão mais madura do próprio protagonista estóico (papel também comum à Wahlberg), e é claro que, com sua fleuma habitual, Malkovich fará o mais próximo que a trama possui de um antagonista, o responsável pelas atitudes mais negligentes que detonarão a tragédia.
Peter Berg leva o expectador em baixa voltagem durante essa primeira parte, ávido em demonstrar um controle narrativo que ele até certo ponto realmente tem.
Seu estilo de exuberante técnica sobre um raso conteúdo quase lembra o de Michael Bay em “13 Horas-Os Soldados Secretos de Benghazi”, não fosse Berg bem mais feliz ao obter resultados de seu elenco.
É claro que será o acidente espetacular (e espetacularmente filmado) que irá, na progressivamente tensa e aflitiva segunda metade do filme, mostrar à que ele de fato veio.
A equipe de efeitos visuais faz, pelo filme, o que todo o roteiro e o elenco, em geral, mal tiveram a chance de fazer: Entrega o produto pulsante e arrebatador que se esperava.
É válido enquanto denúncia e enquanto entretenimento, mas sua capacidade de ficar na memória deve durar somente até o próximo filme-catástrofe.

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Sem Dor, Sem Ganho

Talvez, esta tenha sido a primeira vez em que vi a direção de Michael Bay trabalhar em função de um propósito narrativo, e não a favor de explosões e tiros no mais alto volume. Seus excessos ainda estão todos lá, é bem verdade, mas aqui parecem apoiar a própria proposta insana deste filme inspirado em fato verídico: A de que a realidade é ainda mais exacerbada e absurda do que a ficção!
Três ratos de academia (Mark Walhberg, Dwuaine ‘The Rock’ Johnson –engraçadíssimo –e Anthonie Mackie) decididos a pegar uma via mais simples para a realização de seu "sonho americano" resolvem sequestrar um dos mais endinheirados clientes da academia onde malham, para assim, através das mais gaiatas torturas, obrigá-lo a passar seus bens para o nome deles. O resulto conduzirá todos numa espiral de crimes que terminará de forma violenta, ainda que hilária!

Baseado no que é considerado o “julgamento mais bizarro da história da Califórnia”, este filme traz um argumento quase absurdo combinando a perfeição com o estilo espalhafatoso, exagerado e acelerado de Michael Bay, dando à trama o enfoque sensacionalista e morbidamente engraçado, sem o qual ela provavelmente não iria funcionar (em um determinado momento, a narrativa se interrompe para praticamente relembrar o expectador que esta ainda é um história real!), além de beneficiar-se de uma escolha muito feliz de elenco: Whalberg, Dwayne Johnson e Mackie estão perfeitos no equilíbrio de humor que seus personagens exigem. Junto deles, um elenco admirável comparece em diversas participações (vamos e venhamos, apesar de tudo, Bay quase sempre reúne atores interessantes em seus projetos...), como Ed Harris, Tony Shaloub e Rebel Wilson. O resultado é uma grata e inusitada surpresa.

domingo, 25 de outubro de 2015

O Grande Herói

Alguns dos grandes filmes de guerra do cinema são baseados em histórias reais que deram terrivelmente errado (como, por exemplo, o espetacular “Falcão Negro Em Perigo”).
É também o caso deste “O Grande Herói”, construído a partir de um incidente sofrido por um grupo de operações espaciais.
Enviados a uma missão cujo alvo era um dos líderes na Al-Qaeda, em meio às montanhas do Afeganistão, quatro mariners norte-americanos (Mark Whalberg, Taylor Kistch, Ben Foster e Emily Hirsch), sendo dois deles irmãos os personagens de Kistch e Hirsch), vêem sua operação ser complicada por incautos pastores de cabras que surgem aleatoriamente, e que terminam denunciando sua presença e posição para os mercenários a serviço do Talibã.
Logo, os quatro têm um exército armado atrás deles. 
O diretor Peter Berg recupera-se de seu fiasco com "Battleship-A Batalha dos Mares" executando com vigor este sólido e poderoso filme de guerra que ocasionalmente peca pela já habitual reverência às tropas norte-americanas. 
Mas compensa isso conduzindo, em ritmo impecável, o expectador a seqüências viscerais de conflito com uma tensão e habilidade notáveis.