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sexta-feira, 3 de novembro de 2023

Asteroid City


 As obras de Wes Anderson flertam a todo o instante com o estranhamento. Um filme seu corresponde ao caminhar sobre uma corda bamba; o grande achado em seu cinema é o equilíbrio improvável entre a queda drástica rumo à incompreensão e à esquisitice que sempre o assombram e a continuidade de dinâmicas, premissas e dramas que se preservam interessantes, emocionantes e inteligíveis graças ao seu talento. Entretanto, num ou noutro caso pode haver um escorregão –e o exemplo mais patente disso é, na filmografia de Wes Anderson, “A Vida Marinha de Steve Sizou”. À ele junta-se agora este “Asteroid City”.

Como o fizera em “O Grande Hotel Budapeste”, Anderson começa explorando uma narrativa de metalinguagem na qual o filme a se desenrolar mais afrente é, na realidade, um peça de teatro –filmada em preto & branco, na intenção de diferenciar a encenação da trama principal –cujo autor Conrad Earp (Edward Norton) e todo seu séquito de intérpretes são introduzidos ao público pela narração algo irônica e vintage do ator Bryan Cranston.

Quando a peça se iniciar –e o filme, por conta disso, adquirir cores –irá se iniciar também sua trama principal; que, numa das ironias do projeto, tem muito pouco, ou quase nada, de teatral: Asteroid City é o nome de um lugarejo que mal pode ser definido como cidade; um apanhado de instalações (um hotelzinho; uma oficina; um restaurante; um posto militar e pouco mais que isso) que, em meados da década de 1950, cercam o local onde, anos antes, um asteróide lendário caiu. E sua cratera, com todas as ênfases turísticas, se encontra lá. A câmera de Anderson explora –com sua típica observação fria e simétrica –todo esse ambiente aberto num dos primeiros takes, indicando a propriedade hiperlativa da direção de arte e da direção de fotografia, criando juntas, em conjugação, um cenário a um só tempo irreal, impressionante e paradoxalmente autêntico que se enquadraria bem numa narrativa de Federico Fellini, não fosse a pontual e infalível modernidade de suas inserções digitais.

O elenco reunido em “Asteroid City” é vasto e espetacular, daqueles que pouquíssimos diretores tem gabarito capaz de reunir num único projeto, e eles defendem, todos, personagens capturados em suas excentricidades, perplexos diante de uma tristeza a brotar de lugares inesperados. Há, por exemplo, Augie Steenbeck, vivido por Jason Schartzman, que levou os quatro filhos (um rapazinho e três garotinhas trigêmeas) para Asteroid City a fim de finalmente revelar a eles que sua mãe (vivida por Margot Robbie, numa breve cena como a atriz que a interpretaria) faleceu à três semanas (!?). Com seu carro avariado –devido à uma pane que o incompetente mecânico local (Matt Dillon) é incapaz de consertar –eles resolvem ficar por lá, à espera de seu sogro, Stanley (Tom Hanks) que, a despeito da ligeira indisposição com Augie, segue para lá de carro para resgatá-los. Existem ainda June (Maya Hawke), jovem professora tentando administrar os interesses ocasionais de seus jovens  alunos; Midge Campbell (Scarlett Johansson) dona de casa em crise cuja relação com a filha (Grace Edwards) acentua ainda mais sua predisposição à depressão; J.J. Kellog (Liev Schreiber) um turista eventual, constantemente à beira de um ataque de nervos graças às provocações do próprio filho; além de toda fauna de estudantes, pais, professores e cientistas de uma convenção científica realizada lá (a reunir rostos como Sophia Lillis, Rupert Friend, Tlida Swinton e outros); e os militares basicamente representados pelo oficial displicente e indiferente (Jeffrey Wright) e seu subalterno (Tony Revolori).

O vazio existencial estranhamente cômico de cada um desses personagens ganha um novo viés quando Asteroid City é visitada por um alienígena (Jeff Goldblum) –cuja aparição converte brevemente o filme numa animação, outra área de atuação do diretor Wes Anderson, vide o maravilhoso “Ilha dos Cachorros” –e o governo ordena que seja imposta uma quarentena. Confinados naquele espaço, todos os personagens estabelecem uma rotina por meio da qual não apenas convivem uns com os outros, mas também com suas próprias idiossincrasias –material que faz muito o gosto do diretor –sem que aquilo jamais gere, na realidade, um microcosmos: O trabalho de Wes Anderson, bem como sua visão particular de cinema e de mundo, terminam sendo pessoais e peculiares demais para que se possa estabelecer algum tipo de analogia. E quando cai a pergunta “Então sobre o quê exatamente versa o filme?” é quando os problemas de “Asteroid City” começam a se acumular de verdade.

Diferente de outros trabalhos de Wes Anderson nos quais sua sensibilidade conseguiu alcançar o público, emocionando-o ou levando-o a refletir (ou ambos), em “Asteroid City” há um distanciamento resultante, tal é a sensação de alienação que a situação mirabolante e os personagens idiossincráticos, somados, passam ao expectador. “Asteroid City” poderia ser sobre a paranóia atômica de outros tempos, numa curiosa equação com o presente, mas é deveras gaiato e caricatural para isso; poderia ser sobre a pluralidade norte-americana e de como mentalidades e posicionamentos mais nos afastam do que nos aproximam, mas é inacessível em sua insistência no alternativo. Termina sendo um trabalho modorrento e desafiador para os expectadores menos pacientes, capaz de agradar aos fãs incondicionais do diretor, e somente a eles.

segunda-feira, 22 de novembro de 2021

Algumas previsões para o Oscar 2022...

 No dia 8 de fevereiro de 2022 serão anunciados os indicados aos Oscar, e no dia 27 de março, dentre esses indicados, serão anunciados, por fim, os vencedores, as obras nomeadas pela Academia de Artes Cinematográficas como as melhores do ano. Sendo assim, é justo afirmar que, neste presente momento em que você lê estas linhas, a temporada de prêmios já se iniciou. Como na temporada anterior, as circunstâncias da pandemia tornam mais nebulosas as chances de palpites certeiros, com filmes podendo serem adiados e/ou lançados a qualquer momento –inclusive nas plataformas de streaming, de onde obras muito premiadas dos últimos anos andaram saindo. A imprevisibilidade dessas novas condições torna mais desafiador apontar prováveis eleitos e favoritos reais, mas, vamos tentar.


 A Crônica Francesa

Cada nova obra de Wes Anderson é um deleite. Diretor desigual, de um estilo que se aprimora a cada projeto, ele acrescenta, neste “A Crônica Francesa” um tom engajado e reflexivo ao primor narrativo de sempre e à excelência técnica que seus filmes já costumam oferecer. O elenco extenso e estelar é um convite à premiações, e dificilmente a Academia deixará este filme passar despercebido.


 Não Olhe Para Cima

A maior produção da Netflix até então, “Não Olhe Para Cima” é extraordinariamente ambicioso: Além de colocar encabeçando seu fenomenal elenco a dupla Leonardo Dicaprio e Jennifer Lawrence (provavelmente os dois maiores astros da atualidade), o filme tem direção e roteiro do aclamado Adam McKay, autor de dois filmes audazes, perspicazes e inteligentes que causaram rebuliço nos últimos anos, “A Grande Aposta” e “Vice”. Não obstante, as primeira críticas apontam uma obra brilhantemente equilibrada entre a sátira política e a competência cinematográfica, um “Dr. Fantástico” dos novos tempos.


 Amor Sublime Amor

O simples fato de ser um filme de Steven Spielberg já lança imediata luz sobre este projeto, agendado para estrear no fim do ano passado, mas adiado em um ano, assim como tantos outros. No entanto, “Amor, Sublime Amor” é também a audaz refilmagem de um filme, em princípio, impossível de se refilmar: O clássico tido como intocável de 1961, dirigido por Robert Wise e Jerome Robbins, ganhador de nada menos do que 10 prêmios Oscar! Ao mesmo tempo, Spielberg realiza aqui um sonho: O de enfim dirigir um filme musical; desejo que ele só chegou perto de realizar na cena de abertura de “Indiana Jones e O Templo da Perdição”. Não apenas o nome de um dos maiores diretores de cinema da atualidade (senão O maior) destaca este filme, como o fato de que todos os trabalhos de Spielberg recebem grande atenção no Oscar –e, com efeito, são obras excelentes.


 Duna-Primeira Parte

O clássico literário “Duna”, de Frank Herbert, transcorreu um longo e tortuoso caminho até ganhar uma adaptação digna e satisfatória para cinema. “Duna”, de Denis Vileneuve –que se incumbe de transpor a primeira parte do livro para as telas –segue percalços muito semelhantes à “O Senhor dos Anéis-A Sociedade do Anel”, de Peter Jackson, passando inclusive pelo belo desempenho de bilheteria e pela aclamação praticamente unânime da crítica. Além disso, a Academia adora quando Vileneuve se aventura com êxito no terreno da ficção científica, vide o reconhecimento caloroso dado à seus projetos anteriores, “A Chegada” e “Blade Runner 2019”.


 Spencer

O diretor chileno, Pablo Larraín, parece ter se especializado em grandes biografias de figuras fundamentais do Século XX. Ele já havia colecionado elogios tremendos por seu excelente “Jackie”, e tudo indica que repetirá a dose com “Spencer” –e, de quebra, ainda pode obter a primeira indicação ao Oscar de Melhor Atriz para Kristen Stewart –que desvenda a intimidade da icônica Princesa Diana.


 Casa
Gucci

Outro diretor cujos trabalhos, adentrem o gênero que adentrarem, frequentemente monopolizam as atenções da Academia é Ridley Scott. Aqui, ele abandona os épicos de praxe para focar numa trama que remonta a história real do assassinato de um herdeiro da grife Gucci por sua ex-esposa, Patrizia Reggiani. Como a maioria dos filmes com fortes predisposições para competir ao Oscar, este tem um elenco estelar escolhido à dedo: Lady Gaga (uma atriz consumada após o sucesso de “Nasce Uma Estrela”), Adam Driver, Jared Leto, Al Pacino, Jeremy irons e Salma Hayek.


 The Tragedy Of
Macbeth

Vinte e um anos depois dos Irmãos Coen terem realizado “E Aí, Meu Irmão, Cadê Você?”, adaptando a obra de James Joyce, “Ulisses” para uma pitoresca ambientação norte-americana, eles, de certa forma, tentam algo parecido com “The Tragedy Of Macbeth”, dando sua visão ímpar, incomum e certamente magistral para a conhecida tragédia criada por William Shakespeare, contando com o magnífico par central interpretado por Denzel Washington e Frances McDormand –ela, esposa de Joel Coen, um dos diretores, e vencedora do Oscar de Melhor Atriz por “Nomadland” na última premiação.


 Cry
Macho

Já de avançada idade, cada novo filme dirigido e estrelado por Clint Eastwood parece soar como sua despedida, seu testamento. Assim pareceu ser o elogiado “A Mula”, e assim parece “Cry Macho” que, sob muitos aspectos lança uma circunspecta luz analítica sobre as facetas humanas da persona à qual o próprio Clint Eastwood foi muito relacionado em toda sua carreira. Não deixa de ser uma proposta que remete ao elogiado “Os Imperdoáveis” que deu a ele o Oscar 1992 de Melhor Filme.


 Noite Passada Em Soho

O diretor Edgar Wright é um dos mais originais e brilhantes estetas a surgir no cinema nos últimos anos. Trabalhos como “Todo Mundo Quase Morto”, “Scott Pilgrim Contra O Mundo” ou “Em Ritmo de Fuga” proporcionam experiências cinematográficas plenas e inquestionáveis  e uma sintonia fora do comum com o que há de mais arrojado na cultura pop. Há tempos pedindo por um reconhecimento, Wright entrega agora uma obra vibrante, desafiadora  e surpreendente ao acessar ecos subconscientes do elogiado cinema da década de 1970 –como o ‘giallo’ e o Novo Cinema Britânico –e ainda traz duas protagonistas maravilhosas: Thomasin McKensie (de “Jojo Rabbit”) e Anya Taylor-Joy (de “O Gambito da Rainha”).

sexta-feira, 5 de março de 2021

Viagem A Darjeeling


 Uma vez mais voltando um olhar carinhoso ao exótico, o diretor e roteirista Wes Anderson emoldura este tragicômico drama familiar com as cores berrantes da cultura indiana onde ele ambientou sua trama numa manobra que em princípio parece aleatória.

No entanto, no aprofundamento dos conceitos de renascimento pessoal encontrados em sua premissa e na ideia universal de trajetórias individuais escritas pelas divindades a conectar os seres humanos podemos compreender então o quão deliberada é a relação que o diretor estabelece entre sua obra e a cultura que retrata.

Não que seu filme supere a barreira do elitismo que as vezes assola o cinema alternativo: Manhoso em suas expressões dramáticas e narrativas, “Viagem A Darjeeling” resulta numa das obras menos acessíveis de um diretor com grande pendor artístico, é verdade, mas cujos maiores méritos costumam ser a forma com que suas incursões no estranho e no absurdo cativam de imediato o expectador.

Não aqui: Separados por uma variedade de incompatibilidades pessoais, emocionais e triviais, três irmãos, Peter, Francis e Jack (Adrien Brody, Owen Wilson e Jason Schwartzman, respectivamente) se veem, por uma série de casualidades, lado a lado numa viagem empreendida através da Índia, num trem, logo após deixarem uma cerimônia de casamento –prólogo revelado durante um flashback.

Cada um se vê martirizado por um fator diferente: Peter chafurda na futilidade em que se refugiou a fim de proteger-se da influência dos familiares; Francis reflete os transtornos de sua alma nos ferimentos físicos muitos reais que carrega (e que o levam a ostentar bandagens no cabeça durante todo o filme); e Jack não é capaz de sentir-se vivo se não houver, em seus discursos lamuriosos, uma mulher pela qual choramingar.

Nesse trajetória geográfica –e, portanto, física –esses três irmãos, três almas torturadas pelas próprias escolhas, irão perpetrar uma busca espiritual –e, portanto, metafísica –atrás da expiação de suas neuroses, o que os leva assim, ao reencontro carregado de expectativa e preenchimento, com a mãe, vivida por Anjelica Huston, em tese, a gênese indireta de todas as neuroses que exibem na vida adulta.

Diretor e roteirista, Wes Anderson vislumbra as fissuras emocionais de uma família disfuncional através de um filme deliberadamente desigual, onde as cenas obedecem bem menos à orientação de um melodrama convencional, e muito mais ao absurdo alegórico de um cinema alternativo feito de sarcasmo e linguagem avidamente simbólica.

Diferente de outros projetos seus, não foi desta vez que o talento de Anderson foi capaz de tornar adorável e envolvente uma mistura tão esquisita e improvável.

terça-feira, 12 de janeiro de 2021

Ilha dos Cachorros


 Wes Anderson tem uma forma toda especial de mostrar-se a um só tempo contundente, tocante, desconcertante e lúdico em suas narrativas. Essas características normalmente se ressaltam quando ele trabalha com animações. “Ilha dos Cachorros” é seu segundo trabalho dentro desse território, antecedido unicamente por “O Fantástico Senhor Raposo”.

Nele –num reflexo bastante crítico da concepção de Anderson ao olhar a sociedade moderna –os humanos são menos compreensíveis que os animais; isso porque os cães não só narram a trama e participam dela ativamente na maior parte do tempo (com diálogos existencialistas e tudo o mais), mas também porque tudo se ambienta no Japão, e os personagens humanos falam somente o idioma de lá, sendo que o filme propositadamente omite as legendas das passagens em japonês –com exceção, de trechos traduzidos por intérpretes, legendas pontuais (e raras), e uma única personagem (uma aluna de intercâmbio) que fala a língua ocidental.

E é curioso notar assim o fascínio  e a intransponibilidade comunicativa que o Japão exerce tanto em Wes Anderson, como em Sofia Coppola (e seu “Encontros e Desencontros”), eles que têm em seu cinema muitas coisas em comum; muito mais do que apenas a presença de Bill Murray em suas obras –que aliás, aqui aparece dublando o personagem Boss!

Sendo assim, de modo geral, a trama de teor político que se descortina ao público é, em grande medida, expressada pelo ponto de vista dos cachorros: Após uma breve introdução de uma lenda segunda a qual o Japão –ou mais precisamente a cidade de Megasaki –viu-se polarizado entre apreciadores de cães e adoradores de gatos, acompanhamos, no futuro, os cães se tornarem alvo de uma manobra política do prefeito Kobayashi para serem dizimados, ao levarem a culpa pela disseminação de um vírus.

Os cães são assim exilados numa ilha –a Ilha do Lixo –e por lá abandonados. Anos depois, um grupo de cães (entre os quais está o narrador da história) testemunha a chegada de uma aeronave à ilha. Ela trás o jovem Atari Kobayashi, sobrinho do prefeito, indo atrás do seu cão guarda-costas, Spots (voz de Liev Schreiber), o primeiro animal para lá enviado.

Todavia, o paradeiro de Spots não é fácil de ser encontrado: Tudo indica que (se sobreviveu...) ele foi parar em algum lugar do extremo oposto da ilha, dominado por um grupo de cães selvagens de hábitos canibais!

Enquanto Atari tenta chegar lá, auxiliado meio a contra gosto pelo desiludido vira-lata Chief (voz de Bryan Cranston), as autoridades de Megasaki preparam uma medida para exterminar de uma vez a mal-fadada ilha dos cachorros: A fim de abafar a descoberta de que o vírus é perfeitamente curável (o que torna assim o retorno dos cães para o continente possível), o prefeito Kobayashi, ignorante da presença do sobrinho por lá, quer aprovar uma erradicação total à ilha, onde cães-robôs disseminarão um composto venenoso a partir de wasabi (!) que matará todos os seres vivos que estiverem lá.

Datado de 2018, é incrivelmente curioso, como um elemento essencial da narrativa de “Ilha dos Cachorros” remete ao cenário de 2020: O do vírus usado para manipular os anseios da população com fins políticos e certamente unilaterais.

Para além desse viés visionário, o diretor Wes Anderson ainda criou uma animação emocionante e pertinente, sobre a intolerância, sobre a intoxicante incapacidade de comunicação, e sobre a necessidade fundamental da preservação animal e ambiental.

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

O Fantástico Senhor Raposo


Diretor de filmes live-action com frequência divididos entre a seriedade do drama e o surrealismo da comédia, Wes Anderson se valeu, aqui, do expediente da animação com a qual pode expressar seu estilo em condições que a encenação humana não permitia: Usando de personagens personificados por animais (dublados por um time espetacular de estrelas), de um domínio visual e cênico ainda maior do que aquele que exercia antes e despindo-se de certa dualidade inerente aos filmes encenados por atores, onde a atuação mascara a idealização, Anderson narrou um gracioso conto sobre as pulsões primitivas que nos norteiam.
Ainda que imensamente divertido, engana-se, contudo, quem supõe que esta é uma obra para crianças: “O Fantástico Sr. Raposo” é suficientemente adorável e leve para agradar aos pequenos, mas certamente é aos adultos que a narrativa parcimoniosa, um pouco cínica e cheia de subtexto quer falar.
O Sr. Raposo é... bem, uma raposa. Ele e sua esposa vivem a rotina normalmente arriscada de animais selvagens que vivem de roubar galinheiros. Raposo até sugere opções para sua esposa –qual caminho seguirem para voltar à toca, por exemplo –para deixá-la com uma agradável impressão de consideração; entretanto, ela nunca toma as decisões de fato: Raposo sempre a instiga pela escolha que ele deseja.
Com efeito, quando ela anuncia que espera um filhote –o quê exige que Raposo aposente-se da vida arriscada de ladrão de galinhas e arrume um trabalho mais tranquilo –o marido até consente. Mas, também isso se torna uma promessa vazia: Alguns anos depois de sossegar em sua toca, Raposo muda-se com a família para uma árvore cuja vizinhança inclui três fazendas cheias de iguarias tentadoras –e, logo, seu instinto não tarda a levá-lo a arquitetar estratagemas para roubar as galinhas de uma, as carnes defumadas de outra, e as preciosas garrafas de cidra de mais outra.
É nessa última que Raposo descobre um proprietário capaz de dispor de seus recursos para caçá-lo (e à todos os seus) custe o que custar.
Inspirado num livro do mesmo Roald Dahl que concebeu a premissa de “A Fantástica Fábrica de Chocolates”, o filme de Anderson emprega a subterfúgio óbvio de usar protagonistas animais numa animação para uma reflexão não tão óbvia: Até que ponto o instinto primário se sobrepõe às nossas escolhas.
Junto dessa questão, a condução descontraída de Anderson leva à outras mais: Quão erradas são tais escolhas mesmo que deixemos nosso instinto falar mais alto? Não estamos sendo, afinal, condizentes com nós mesmos?

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Os Excêntricos Tenenbaums

Mais uma ode à estranheza, aos marginalizados, aos tipos bizarros que Wes Anderson tanto aprecia enaltecer. Entretanto, há sempre uma particularidade nas singulares criaturas que o diretor gosta de transformar em centros de suas narrativas: Deles parte um ímpeto irreprimível para criar.
Assim é Max Fischer, o aluno fracassado, porém, entusiasta e incansável de “Rushmore”; ou o pesquisador de moral duvidosa, mas de inabalável gosto pelo desconhecido em “A Vida Marinha de Steve Sizou”.
Todos –e outros mais –buscam no intelecto uma fuga para as limitações da vida.
Assim, como os Tenenbauns.
Realizado logo após “Rushmore” ter surpreendido o mundo, “Os Excêntricos Tenenbauns” fala sobre uma família de crianças superdotadas e de como essa condição se transfigurou, na idade adulta, mais como uma sina do que como um dom. A figura paterna –aqui representada pelo espetacular personagem de Royal Tenenbaun, majestosamente vivido por Gene Hackman –surge como o catalisador principal das mazelas, mas a exemplo dos outros protagonistas de Anderson, ele é também um amálgama carinhoso, carismático e encantador de inúmeras falhas e defeitos humanos.
Longe da família por motivos que não tardam a ficar evidentes –como suas recorrentes falhas de caráter –Royal descobriu que tem câncer, ele deseja então reunir-se com sua ex-esposa (Angélica Hunston), agora de casamento marcado com o novo namorado (Danny Glover, hilário), e com seus filhos, o metódico Chas (Ben Stiller) cuja obsessão minimalista por segurança contamina seus filhos pequenos; a escritora prodígio Margot (Gwyneth Paltron), mesmerizada num casamento completamente apático com seu ex-professor (Bill Murray); e Richie (Luke Wilson) que exilou-se numa longa viagem de cargueiro pelo mar devido à atração incestuosa que nutre desde sempre por Margot (!).
Além deles, há também a ocasional presença de Eli Cash (Owen Wilson), amigo inseparável dos Tenenbauns desde a infância.
A reunião de familiares tão idiossincráticos rende um filme em si incomum, como é do agrado de seu realizador, um perspicaz observador das peculiaridades insignificantes que o olhar ordinário deixa passar.
Ao justapor duas facetas completamente diferentes da família –uma usina de neuroses e, ao mesmo tempo, um refúgio de empatia e amor –e vislumbrar por meio disso uma obra cinematográfica de notável ressonância emocional, o diretor Wes Anderson corrobora também com uma premissa que pareceu não conseguir deixar de lado: A família, e os esforços de seus membros em continuar encontrando um laço e uma unidade. Afinal de contas, vem a ser este enredo mais uma vez o foco de Wes Anderson no irregular e perdido “Viagem À Darjeling”, também ele com Angélica Huston.

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Três É Demais

Talvez, "Rushmore" ("Três É Demais" no Brasil) continue sendo o melhor filme de Wes Anderson, a despeito da aclamação e genuína excelência de muitos de seus trabalhos que vieram depois.
Não é nem o fato de que seu estilo era, então, algo novo e surpreendente.
Na verdade, "Rushmore" reúne elementos que o tornam um filme sem igual.
O título do filme se refere à prestigiada escola na qual o estudante Max Fischer (Jason Schwartzman) estuda, e que por isso, se sente realizado por completo. Max, entretanto, não é exatamente o exemplo de grande aluno que essa escola tem: Seu ponto forte não é inteligência, nem tampouco força física; Max é entusiasmado e, de um certa maneira torta, empreendedor, participa de todas as atividades extracurriculares que a escola tem à disposição.
Um belo dia, essa condição à qual ele se estabeleceu começa a ser ameaçada quando ele se apaixona por uma das professoras, a viúva Rosemary Cross (Olivia Willians, que no mesmo ano participou de "O Sexto Sentido"). Como se não bastasse, sua amizade com um indiferente filantropo de Rushmore, o milionário Herman Blume (um genial Bill Murray), fica abalada sendo que os dois se enamoram dela.
A narrativa de Wes Anderson espertamente subverte as expectativas do público, levando-o a imaginar, por uma sucessão de sequências hilárias e assimetricamente filmadas que esse é, em tudo e por tudo, um filme gaiato e superficial (ainda que prazerosamente engraçado), mas aos poucos, o avanço conciso e inesperado da história impõe uma maturidade que o tom cartunesco parecia disfarçar, e o filme de Anderson começa a cativar e a surpreender, seus personagens revelam-se cheios de camadas, e o filme em si, mostra-se uma obra completa de cinema. Certamente, uma das mais gratificantes dos anos 1990.

domingo, 29 de novembro de 2015

Moonrise Kingdom

Wes Anderson é um dos muitos autores cinematográficos a dirigir especial afeto e atenção aos marginalizados e excluídos, e a um olhar que lhes atribui camadas de simpatia, compaixão e uma comovente candura. 
Em meio à tantos artistas com essa visão, é notável, portanto, que a sua seja, não raro, de um diferencial sempre flagrante, no qual seu estilo parece combinar em proporções de desigual intensidade, a observação distanciada e formal de um Stanley Kubrick, com um senso estético meio Tim Burton, meio Jean Pierre Jeneut, aliados à uma graça toda própria. 
Após verdadeiras escorregadas como “A Vida Marinha de Steve Sizou” e “Viagem À Darjeeling”, nos quais ficava perceptível um afastamento prejudicial com as convenções da narrativa que costuma acometer alguns dos mais geniais autores, Anderson voltou a falar do que realmente lhe toca o coração: A mola que impulsiona as ações de seus personagens, e as idiossincrasias de cada um, que os impele e os aproxima uns dos outros. 
Na bucólica colônia de Moonrise Kingdom, um jovenzinho escoteiro, completamente desajustado de seu grupo, combina um plano por meio do qual fugirá com a única pessoa com quem de fato se dá bem, uma garota moradora da ilha em que fazem seus acampamentos, também ela com seus problemas de convívio. Juntos, eles empreendem uma fuga que mobiliza quase todos os relapsos adultos da comunidade. 
Carregado de cores pouco usuais, enquadramentos panorâmicos e duros, e um retrato entre o cartunesco e o carinhoso de seus personagens, bem como é inerente ao seu estilo e personalidade, Wes Anderson alia seu talento na direção, o roteiro inspiradíssimo e o elenco brilhante para colocar este ao lado de seus melhores filmes, juntamente com "Rushmore-Três É Demais" e "Os Excêntricos Tennenbauns".

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

O Grande Hotel Budapeste

Mustafa, misterioso senhor e proprietário do nostálgico e decadente Grande Hotel Budapeste relata a um jovem escritor a história de como tornou-se dono do lugar. 
Quem ocupa o centro de sua história é Gustave M, o concierge do local em meados dos anos 20. 
Figura a um só tempo triste e cômica, Gustave tinha olho de gavião para pequenos detalhes e um grande coração, no qual cabiam todas as suas idosas, ricas e carentes hóspedes. 
Tornado herdeiro por uma dessas amantes, Gustave envolve-se em enrascadas que o levam a prisão, e depois a uma fuga surreal e farsesca. 
Fiel a sua sensível, caricata e desigual filmografia (que vai dos brilhantes "Três É Demais" e "Excêntricos Tennebauns", passando pelos irregulares "A Vida Marinha de Steve Sizou" e "Viagem À Darjeeling", até o recente e magistral "Moonrise Kingdom"), o diretor e roteirista Wes Anderson constrói esta narrativa espirituosa e humana a partir dos escritos do autor vienense Stefan Zweig, abrilhantada por uma luminosa interpretação de Ralph Fiennes.