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sexta-feira, 6 de julho de 2018

O Retorno de Sweetback


Em 1971, o diretor, ator, roteirista e compositor de trilha sonora Melvin Van Peebles, realizou o inovador e desafiador “Sweet Sweetback’s Baadasssss Song”, filme cuja postura sociopolítica em colocar um inédito personagem negro pleno de contestação em contraponto a um aproveitamento esperto de diversos códigos de gêneros cinematográficos levou a um sucesso de público tão estrondoso quanto inesperado, originando todo um novo movimento cinematográfico voltado ao público negro, assim representado.
Era, pois o estopim inicial da ‘blaxploitation’, ainda que, na intenção mais artística do que panfletária de Van Peebles, ele quisesse apenas fazer um grande filme.
Os percalços para essa realização audaz foram de altos e baixos tão inacreditáveis que espelhavam as dramaticidades da ficção –e, portanto, não é espanto que eles vieram assim a inspirar também um filme sobre tão lendária produção.
Filho do próprio Melvin, e também ele acumulando –num gesto algo simbólico –as funções de ator, roteirista e diretor, Mario Van Peebles (de filmes como “Highlander III” e “New Jack City”) encarna a figura do próprio pai, um dos primeiros diretores negros a trabalhar em Hollywood, logo após sua bem-sucedida comédia “Watermelon Man”.
A expectativa de todos era de que Melvin escolhesse muito bem o projeto seguinte e fim de manter-se na boa repercussão, mas os planos de Melvin envolviam um filme muito mais marcante: Ele idealizou uma trama sobre um protagonista negro insuflado pela revolta que, ao contrário de outros protagonistas e coadjuvantes negros antes retratados no cinema, não hesitava em retribuir toda sorte de injustiça, violência, descaso e desprezo contra si e contra seu povo com níveis hiperlativos de agressividade e truculência.
O tratamento que ele planejava dar ao filme lhe fazia jus: Sério, marcante, violento quando necessário, absolutamente envolvente e enraizado no cinema de intenções comerciais que se propunha.
Disposto a compor uma equipe representativa de minorias, Melvin contrariou os sindicatos da época e teve de fugir da fiscalização fingindo que estava fazendo um filme-pornô (!), os próprios membros da equipe técnica –entre eles, o diretor de fotografia e um dos produtores –eram, eles próprios, oriundos da indústria da pornografia, desprovida de regulamentações discriminatórias devido à sua natureza obscura.
Com ares de exuberante homenagem, o filme do Van Peebles filho ilustra com fulgor, e admiração irrestritos todos os percalços incríveis vivenciados pelo Van Peebles pai ao moldar o filme de sua vida: Após meses atribulados em que aconteceu de tudo (a falta súbita de financiamento, parte da equipe presa por policiais racistas, filmagens de guerrilha com resultados imprevisíveis), o filme, depois de pronto, com seu conteúdo tido como ‘perigoso’ só foi aceito para exibição em duas únicas salas de cinema nos EUA; a sua estréia testemunhou o quê à época foi considerado a maior bilheteria para um filme independente de todos os tempos, coroando o trabalho corajoso e sem concessões de Van Peebles e originando um novo nicho que a indústria cinematográfica tratou de explorar na década seguinte.
Realizando uma obra declaradamente referencial, Mario Van Peebles criou uma ode à iniciativa de criação dos grandes realizadores e à genuína liberdade criativa do cinema marginal numa vibrante e necessária homenagem ao próprio pai.
Em meio à tantas obras que o cinema nos traz, uma lembrança que não merece ser esquecida.

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Cotton Club

É curioso perceber que, excetuando os excepcionais clássicos pelos quais é lembrado, o diretor Francis Ford Coppola sempre teve uma carreira claudicante, realizando filmes em geral equivocados, como se tentasse perseguir aquele empuxo criativo que ele obteve com a trilogia “O Poderoso Chefão”, “Apocalypse Now”, “A Conversação” e “Drácula de Bram Stoker”. Não são tão poucos títulos assim, é verdade, mas basta lembrar o quando realizaram (e ainda realizam) seus amigos Steven Spielberg, Martin Scorsese e Brian De Palma para notar que Coppola é o mais oscilante deles.
Contudo, não é de se reprovar a atitude do produtor Robert Evans em bancar este que terminou sendo um fracasso comercial: Qual produtor negaria a chance de estar num projeto onde o diretor de “O Poderoso Chefão” revisita, sob um novo viés, o tema máfia?
No final da década de 1920, acompanhamos dois irmãos caucasianos que seguem caminhos diferentes no Harlem, bairro de predominância negra, em Nova York; enquanto um deles, Dixie Dwyer (Richard Gere), trompetista profissional, apaixona-se por Vera Cícero (Diane Lane, jovem e linda), amante do gangster Dutch Schultz (James Remar) –uma figura real que volta e meia desperta interesse no cinema, como em “Billy Bathgate-O Mundo À Seus Pés” onde foi interpretado por Dustin Hoffman; o outro irmão, Vincent Dwyer (Nicolas Cage), ao tornar-se capanga do próprio Schultz passa a trilhar caminhos mais violentos.
Paralelamente, vemos também a trajetória de outros dois irmãos, artistas negros, tentando sobreviver trabalhando na boate, pertencente à Owney Madden, outro gangster, que serve de palco para a maioria desses dramas: O Cotton Club.
Coppola logrou juntar aqui os elementos de dois de seus trabalhos: O colorido e a vibração musical jazzística de “O Fundo do Coração”, com a tensão e a violência impactante de seus dois épicos de “O Poderoso Chefão” (o último filme da trilogia ele só faria alguns anos depois).  Ele é bem sucedido na construção da atmosfera fervilhante e da cacofonia do Cotton Club onde se vê registrado todo o fluxo infinito de entrecruzadas linhas narrativas dos personagens, sejam eles os clientes, ou os artistas seja no palco, seja nos bastidores.
Todavia, a fusão de gêneros à que se presta não se cumpre harmoniosamente e o roteiro (nitidamente escrito e reescrito à exaustão) oferece inúmeras soluções tolas.

O melhor de tudo é a química fantástica (e um pouco mal aproveitada) entre Richard Gere e a bela Diane Lane (que tornariam a se reencontrar, com bons resultados, em “Infidelidade”, de 2002, e em “Noites de Tormenta”, de 2009). Coppola é um hábil diretor e consegue imbuir uma quantia considerável de charme à narrativa, uma pena que a equivocada escolha do apático e nada carismático James Remar para interpretar Schultz ponha tudo a perder...