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sábado, 27 de janeiro de 2024

Saltburn


 Vaza maldade pelos poros neste novo trabalho da diretora e roteirista Emerald Fennell (do brilhante e cáustico “Bela Vingança”); maldade que os personagens de modo geral ostentam sem discriminação, às vezes, até inconscientes do quão estão sendo maus, e esse é um dos tantos elementos que o torna alarmante.

“Saltburn” começa num turbilhão de cenas (que me remeteram o prólogo de “Persona”, de Bergman, provavelmente não mais que uma impressão...) que, logo notamos, são espécies de flashbacks indicativos de instantes que dentro em breve virão. A trama se normaliza até compreendermos que tudo é uma lembrança de seu protagonista, Oliver Quick, vivido com empenho singular pelo excelente Barry Keoghan (de “Os Banshees de Inisherin” e “Eternos”). Oliver é, em princípio, um verdadeiro peixe-fora-d’água: Um bolsista estudando na prestigiada Universidade de Oxford. Excluído da maioria pela evidência de sua classe social inferior, Oliver primeiro alimenta certo interesse pelo abastado Felix Catton (Jacob Elordi, da série “Euphoria”) e depois se torna seu amigo inseparável. A ponto de Felix, durante as férias de verão, convidar Oliver para a suntuosa propriedade particular de sua família, Saltburn, onde passarão alguns meses.

Lá, Oliver terá contato com a estranha e perniciosa família de Felix: Ricos, mimados, hedonistas e inconsequentes, todos se revelam parasitas da comiseração alheia; Elspeth (Rosamund Pike), a mãe, é uma matriarca minimalista, fútil e obcecada por detalhes; Sir James (o veterano Richard E. Grant, de “Star Wars-A Ascensão Skywalker”), o pai, é um homem completamente crédulo de que o dinheiro compra (e, ocasionalmente, repele) tudo o que ele quiser; Venetia (Alison Oliver), a irmã, é uma mulher auto-destrutiva fascinada na própria capacidade para sabotar as pessoas ao seu redor; Farleigh (Archie Madekwe, de “Midsommar” e “Viajantes-Instinto e Desejo”), o primo, é um sangue-suga oportunista tendo prontamente identificado um outro sangue-suga oportunista (o próprio Oliver) e disposto a tudo para hostilizá-lo; e Pamela (Carey Mulligan) é a amiga trágica, desorientada e non-sense que, até um certo ponto, abastece a sanha por degradação humana de toda essa gente.

Nas mãos deles, curiosamente, Oliver não se torna uma vítima indefesa: Ele identifica os gatilhos viciosos de cada um –não sem deixar de ceder, vez ou outra, ao crescente desejo homossexual por Felix, ou cair nas mesquinhas armadilhas morais engendradas pelo imaturo e inseguro Farleigh –e, aos poucos, passa a manipular a todos, conduzindo a um desfecho inesperado.

Em suma, não resta um único ser humano que não seja torpe nesta amoral e escatológica ciranda de intrigas pós-modernas elaborada por Emerald Fennell. Poderia ser uma obra desagradável, uma exposição nauseante da sordidez humana em seu estado mais puro e impune, não fosse a habilidade brilhante de sua realizadora em conferir ao filme uma condução envolvente e fluida, e o talento do elenco ao compor personagens sem qualquer concepção de escrúpulo aos quais se é possível acompanhar devido ao humor bem administrado e à fascinante humanidade ocasionalmente evidenciada.

A partir de determinado ponto de sua narrativa, “Saltburn” lança mão de reviravoltas tão abusrdistas quanto radicais em sua natureza insólita, das quais quanto menos se souber, mais saboroso será ao expectador descobri-las –e também isso é um indicativo notável da capacidade de Emerald Fennell, como diretora e como escritora, para vislumbrar o mal sem jamais se infectar com ele.

Como um microcosmos alegórico sobre as pulsões muito reais à contaminar a psiquê humana, “Saltburn” é uma obra que exala um divertimento ácido, atrevido e desafiador.

terça-feira, 13 de outubro de 2020

A Minha Versão do Amor

 


A vida a partir da perspectiva de sua finitude já era o prisma pelo qual se descortinava o belo best-seller de Mordecai Richler, e essas impressões são preservadas aqui, na medida do possível, pela narrativa atenta, dedicada e minimalista do diretor Richard J. Lewis.

Por meio dela, acompanhamos Barney Panofsky, protagonista que tem diferentes fases da sua vida investigadas –e em todas elas sua verve politicamente incorreta ganha a excelência de Paul Giamatti.

Do alto de sua velhice, ainda a frente de uma certa Tottaly Unnecessary Productions (!), ele é abordado por um policial frustrado e amargurado (Mark Addy, de “Ou Tudo Ou Nada”), escritor de um livro obscuro e fracassado sobre uma implicante teoria que colocaria Barney como principal culpado da morte de seu melhor amigo, Boogie (Scott Speedman, de “Anjos da Noite”). Essa é a senha para o filme retroceder cerca de quarenta anos no tempo, até 1972, na Itália quando, na companhia do próprio Boogie e dos outros amigos, Cedric (Clé Bennett) e Leo (Thomas Trabacchi), Barney encontra sua primeira esposa, a instável Clara Chambers (Rachelle Lefevre, de “Crepúsculo”), com quem acaba se casando devido à súbita gravidez dela. A criança infelizmente nasce morta e Barney descobre na mesma ocasião que não era o pai –e o abandono ressentido dele leva Clara ao suicídio.

Anos depois, já trabalhando em Nova York, Barney conhece sua segunda esposa, vivida por Minnie Driver (de “Gênio Indomável”), uma moça da família rica –cujo comportamento do pai e da mãe gera imediato contraste com o jeitão despreocupado e desmazelado do pai dele (Dustin Hoffman).

É durante sua cerimônia de casamento que Barney conhece aquela que ele se convence ser a mulher sua vida (!), a austera, sublime e encantadora Miriam (Rosamund Pike). Entretanto, Barney é casado e, embora lhe mande flores toda a semana, Miriam se recusa a ceder aos seus avanços.

Curiosamente, é o próprio Boogie quem lhe dá a deixa para se divorciar: Transando com sua esposa na casa de campo (!). Apesar de não sentir-se exatamente revoltado com ele, Barney encena, no calor da hora, algumas recriminações triviais de velhos amigos, quando, num incidente cercado de incertezas, Boogia cai no lago e nunca mais é visto (Ele teria se afogado ao se jogar? Teria sido atingido pela bala da arma de Barney que disparou sem querer? Teria, afinal, morrido mesmo? Já que o corpo nunca foi mais achado?).

Após essa estranha circunstância, Barney vai atrás de Miriam com quem, após alguma insistência, consegue enfim se casar e ter dois filhos ao longo de alguns bons anos de um casamento feliz.

No entanto, no livro de Richler e no filme de Lewis, o final não corresponde necessariamente ao momento em que o protagonista alcança o ápice de sua felicidade –como o seria em tantas outras histórias de formato convencional –e com isso, a trama avança até a meia-idade, quando a insegurança e os anseios egoístas de Barney o levam a perder a mulher que ama.

Acompanhamos também sua velhice –ou seja, uma fase até além daquela em que presenciamos o filme começar –e testemunhamos a angustiante constatação de Barney diante da própria senilidade e, portanto, do fim da vida.

Os minutos finais do personagem, já quase privado de si mesmo, e na companhia dos filhos adultos, o levam ao alívio de descobrir, enfim, toda a improvável verdade sobre o desaparecimento de Boogie –um elemento inusitado da narrativa que a engrandece com sua brilhante e curiosa atenção aos detalhes mais inesperados.

segunda-feira, 25 de junho de 2018

Revolução Em Dagenham


Lançado em 2010, este filme pode ser visto como uma contra-parte inglesa de “Histórias Cruzadas”, lançado em 2012. Em comum, ambos têm protagonistas femininas tão maravilhosas quanto cativantes, centrais em um trama que, embora tratada com leveza e emoção, trata de desafios muito reais contra injustiças tremendamente revoltantes.
De sua parte, “Revolução Em Dagenham” até vem brindado com a excelência habitual do impecável elenco inglês –onde, vez ou outra, identificamos um figurante da Saga “Harry Potter” –embora, “Histórias Cruzadas” tivesse reunido um elenco feminino estelar e talentoso que pouquíssimas produções em todo o cinema tiveram sorte em fazê-lo. Também o diretor de “Histórias Cruzadas”, Tate Taylor, demonstra habilidade e empolgação com o material que dirige em níveis raros à obras comerciais, aqui, o diretor Nigel Cole (de “Garotas do Calendário”) tem empenho evidente embora seja evidente também ocasionais escorregadelas de ritmo e tom, bastante comuns em produções de escopo um pouco mais amplo.
A intenção inicial parecia ser conceber uma narrativa que girasse em torno de três distintas protagonistas. São elas: Rita (Sally Hawkis), que aos poucos assume a iniciativa de um protesto sem precedentes, onde ela e suas colegas realizam uma greve de funcionárias em plena década de 1960, pelo direito de ganharem salários iguais aos homens.
Lisa (Rosamund Pike), a ex-universitária inteligente, linda, porém frustrada, casada com um dos executivos ingleses da subsidiária da Ford –a empresa da qual as grevistas exigem seus direitos –na Inglaterra.
E Barbara Castle (Miranda Richardson), a Ministra do Emprego no Parlamento Inglês e membro do Partido Trabalhista, dividida entre a lealdade real e válida às proletariadas e as pressões, abastecidas de politicagem e interesses econômicos, de seus superiores.
Entretanto, não demora nada para que a narrativa vá relegando Lisa e Barbara à presenças coadjuvantes na trama e acabe centralizando Rita; em parte, porque Sally Hawkins é genial, em parte, porque é impossível, ao roteiro e à direção, negar a importância e a atenção que as personagens das costureiras grevistas merecem.
E esse zelo é o grande mérito desta realização: A forma profundamente respeitosa, rica em meandros humanos que unem um sutil humor a um bem administrado drama (algo no qual os ingleses são hábeis) com a qual eles relatam o envolvimento de Rita na questão; primeiro, ela participa de uma reunião até corriqueira, ao lado do amigável sindicalista Albert (a quem o grande Bob Hoskin empresta toda sua autoridade e simpatia), onde estavam em discussão a qualificação das funcionárias (o quê elas tinham) e a postura da empresa diante disso (qual que queriam ignorar), durante essa reuniaão, contudo, Rita sai decidida por uma paralisação de 24 horas, que depois, diante do descaso de seus empregadores se converte numa greve de duração indefinida que, dia após dia, vai paralisando também os demais setores da produção de carros: A mulheres costuravam os estofados nos bancos, sem bancos nos estoques os carros não ficavam prontos e assim, sistematicamente, todos os setores da fabricação eram obrigados a interromper as atividades.
“Revolução Em Dagenham” é um bom filme. Agradável, flúido, bem interpretado e curiosamente esforçado em não ser contundente demais na direção errada –uma espécie de ‘entretenimento família’; embora pareça ser essa concessão que impede este relato de uma imprescindível e relevante história real de ser memorável de fato.

domingo, 18 de outubro de 2015

Orgulho e Preconceito

No século XIX, as moças da Família Bennet, como toda moça da sociedade inglesa, estão a procura de um bom casamento, e ninguém está mais dedicado a isso que sua mãe, a Sra. Bennet. Entretanto, mais velha delas, Elizabeth (Keira Knightley, adorável), está consciente de que seu temperamento e sua personalidade dificilmente permitirão que se case.
Por isso talvez, Elizabeth é a única que não se empolga com a chegada de um ricaço, e de seu igualmente rico amigo Sr. Darcy (Matthew MacFadyen, de uma excelência à toda prova). 
Inicialmente agressivo, o relacionamento entre os dois se define por uma irreprimível vontade de implicar com o outro, mas aos poucos novos e reais sentimentos vão se revelando. 
Charmosa e graciosa adaptação de Jane Austen, ótimo trabalho do diretor Joe Wright que, com inventividade e descontração, fala muito bem às plateias de hoje, qualidades refletidas na boa atuação da bela Keira Knightley.

domingo, 9 de agosto de 2015

Garota Exemplar

É quase impossível ser cinéfilo e não idolatrar David Fincher.
Dono de uma das filmografias mais impressionantes do cinema recente, esse é o cara que nos deu Seven - Os Sete Crimes Capitais, O Clube da Luta, O Curioso Caso de Benjamin Button e A Rede Social, entre outros. Mesmo seus trabalhos mais fracos são considerados acima da média, como o suspense O Quarto do Pânico.
Em meio a tantos filmes magistrais, muitos são os que acham Garota Exemplar, sua melhor obra.
Não é nada difícil perceber o porquê.
Do início ao fim, transparece a imensa segurança com a qual a direção de Fincher conduz o filme. Essa segurança, por vezes, parece contagiar seus colaboradores, caso de Ben Affleck, normalmente um ator subestimado, mas que está ótimo aqui.
Rosamund Pike merece um parágrafo à parte. Sua atuação é primorosa, composta por pequenas percepções do papel que confundem o instinto detalhista da atuação com o acaso feliz de uma atriz extremamente adequada ao personagem. Não à toa, a atriz conseguiu a única (infelizmente e injustamente) indicação ao Oscar para o filme.E é claro que isso se deve, também, ao bom senso do diretor, que soube escolher com precisão cirúrgica a atriz ideal.
E olha que chances de errar não faltaram: Apaixonada pela trama, a atriz Reese Whinterspoon já havia até adquirido os direitos do livro, com planos de uma adaptação cinematográfica, reservando para si o interessante papel principal. Entretanto, em questão de meses, David Fincher convenceu ela de que não era a atriz adequada para o papel. O resultado?
Creditada como produtora, Reese deixou que o diretor escolhesse a atriz ideal, conseguindo tempo assim para, ela própria protagonizar um outro filme, esse sim, perfeito para o seu talento: o sensacional Livre, que deve merecer, dentro em breve, uma resenha aqui.
Mas, voltemos à Garota Exemplar. No dia do aniversário de cinco anos de casamento, um marido já com sinais de conjugue relapso, presta queixa do desaparecimento da esposa.
Com as pistas desfavoráveis a ele acumulando-se cada vez mais, indo em direção a um homicídido, paralelamente acompanhamos, sob a narrativa de um diário que a desaparecida mantinha, o início de seu relacionamento até seu consequente desgaste.
O avanço da trama reserva surpresas que só ressaltam o talento de todos os envolvidos.
Feito de fascinantes ramificações, este é um dos raros casos de obra cinematográfica que consegue abranger o tema da vingança de forma muito mais profunda do que se pode imaginar (lado a lado, talvez, do sul-coreano Old Boy, aliás de toda a magnífica Trilogia da Vingança -e, olha só, essa também merece uma futura resenha!).