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sábado, 9 de fevereiro de 2019

Os Vencedores do Oscar 1945

Neste ano o Oscar completaria tão somente dezessete anos de existência e algumas regras ainda se encontravam meio nebulosas; prova disso é a curiosa indicação dupla de Barry Fitzgerald por “O Bom Pastor”, que concorria tanto na categoria principal quanto na de coadjuvante (!). Como Melhor Ator ele perdeu para o próprio companheiro de elenco, Bing Crosby, mas saiu vitorioso como Melhor Coadjuvante –e claro que, a partir daí a Academia estipulou regras para que um mesmo intérprete não disputasse categorias diferentes pelo mesmo filme, deixando oportunidades justas para todos.
Além de “O Bom Pastor” –grande vencedor da noite –houveram prêmios como o de Melhor Atriz concedido à Ingrid Bergman por seu trabalho na segunda versão de “À Meia Luz” (até naquele tempo já haviam refilmagens!), um ano depois de seu estrondoso sucesso com “Casablanca” –falarei disso na semana que vem –e o de Melhor Fotografia em Preto & Branco para o clássico noir “Laura”, de Otto Preminger, um dos melhores filmes na competição e que infelizmente não concorria ao prêmio principal (até naquele tempo já haviam também injustiças...).

MELHOR FILME
"O Bom Pastor"

MELHOR DIREÇÃO
"O Bom Pastor", Leo McCarey

MELHOR ATRIZ
Ingrid Bergman, "À Meia Luz"

MELHOR ATOR
Bing Crosby, "O Bom Pastor"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Ethel Barrymore, "Apenas Um Coração Solitário"

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Barry Fitzgerald, "O Bom Pastor"

MELHOR ROTEIRO
"O Bom Pastor"

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
"Wilson"

MELHOR HISTÓRIA ORIGINAL
"O Bom Pastor"

MELHOR FOTOGRAFIA P&B
"Laura"

MELHOR FOTOGRAFIA CORES
"Wilson"

MELHOR DECORAÇÃO DE INTERIORES P&B
"À Meia Luz"

MELHOR DECORAÇÃO DE INTERIORES CORES
“Wilson"

MELHOR TRILHA SONORA MUSICAL
"Modelos"

MELHOR TRILHA SONORA DRAMA
"Desde Que Partiste"

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"Swinging On A Star", de "O Bom Pastor"

MELHOR SOM
"Wilson"

MELHORES EFEITOS ESPECIAIS
"Trinta Segundos Sobre Tóquio"

MELHOR MONTAGEM
"Wilson"

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Quando Fala O Coração


A experiência de filmar –pela primeira vez nos EUA –sob a atenção severa e abrangente do produtor David O. Zelsnick (em “Rebecca-A Mulher Inesquecível”) não foi, para o diretor Alfred Hitchcock, tão ingrata quanto se poderia imaginar: Tendo realizado o enxuto, eficiente e singelo “À Sombra de Uma Dúvida”, com baixo orçamento e sem intervenções de estúdio ou produtores, e um projeto que fugia de suas experiências habituais, “Um Barco e Nove Destinos”, o mestre do suspense sentiu-se confortável para novamente comandar uma produção maior, com demandas (e ambições) mais exigentes –e, inclusive, mais uma vez sob a produção de O. Zelsnick.
“Quando Fala O Coração” inicia-se na clínica psiquiátrica Green Mannors, onde trabalha a Dra. Constance Petersen (Ingrid Bergman). O local recebe seu novo diretor, o Dr. Edwards (Gregory Peck) que revela-se muito mais jovem do que sua fama dava a entender.
Com o tempo, o Dr. Edwards busca se aclimatar ao local ao passo que consegue despertar o interesse afetivo da Dra. Petersen –e a tradução visual de Hitchcock para a ocupação dele, num lugar especial da afeição da doutora é, em si, notável e criativa: Um corredor onde sucessivas portas vão se abrindo.
Aos poucos, porém, a Dra. Petersen assim como os outros médicos do lugar vão percebendo indícios de que o Dr. Edwards esconde algo; suas flagrantes inaptidões em questões nas quais teoricamente deveria ser especialista, suas justificativas pouco convincentes e as reações perturbadas a objetos brancos não tardam a mostrar que ele, na verdade, sofre de amnésia –e, sequer é o Dr. Edwards que na realidade morreu!
Entretanto, se ele não é Edwards, quem ele é? Teria ele próprio matado Edwards?
Já tomada pela paixão (‘ouvindo o coração’ como incita o título nacional), a Dra. Petersen recusa-se a crer na possibilidade mais óbvia –de que o personagem de Gregory Peck seja, afinal, o assassino –e o acompanha numa fuga desesperada. Primeiro, para o Edifício Empire State, em Nova York; e depois, para a cidade de Rochester onde se refugiam na casa do Dr. Brulov (o carismático Michael Chekhov), antigo mentor dela, que numa intensa seção de psicanálise capta os relatos do sonho que o rapaz teve –cujos indícios subconscientes podem elucidar (e, de fato, elucidam) o que realmente ocorreu.
Nesse trecho, as sequências brilhantemente oníricas que se seguem (e que continuam impressionantes mesmo nos dias de hoje) são cortesia da criação artística de Salvador Dali, que dirigiu pessoalmente as cenas sob instrução de Hitchcock.
No fascínio que demonstra por essas suas primeiras incursões, temática e visualmente no campo da psicanálise –um tema que capturou o interesse de Hitchcock cada vez mais –o mestre do suspense acaba ligeiramente negligenciando certas facetas de sua realização, como o roteiro, a condução de algumas cenas e certas motivações em determinados personagens. Há, entretanto, aspectos que se mantêm magistrais: A cenografia, a trilha sonora (vencedora do Oscar), a fotografia e a atuação do elenco, sobretudo, o casal protagonista.
Sem falar que há ainda mais um detalhe brilhante em “Quando Fala O Coração”: Para quem acha que cenas em preto & branco com intervenção de cores no cinema são novidades trazidas por “A Lista de Schindler” ou “Sin City-A Cidade do Pecado”, a sequência-clímax, onde a câmera registra um disparo de arma em primeira pessoa, é um take extremamente breve (porém, perceptível) filmado em cores.

sábado, 17 de novembro de 2018

Os Vencedores do Oscar 1957


Embora estivessem na competição obras como “Os Dez Mandamentos”, “Assim Caminha A Humanidade” (o líder em indicações, com 10) ou “Sublime Tentação”, o prêmio reconheceu a influência e o empenho do produtor Michael Todd conferindo o Oscar de Melhor Filme à “A Volta Ao Mundo Em 80Dias”.
“Assim Caminha A Humanidade” acabou com um único prêmio, o de Melhor Diretor para George Stevens.
Concorrendo com a comoção da inédita indicação póstuma de James Dean, por “Assim Caminha...”, o grande astro Yul Brinner teve enfim sua consagração e reconhecimento com o prêmio de Melhor Ator por “O Rei & Eu” –no mesmo ano em que, é bom lembrar, ele foi Ramsés, em “Os Dez Mandamentos” –assim como Anthony Quinn, premiado como Melhor Coadjuvante.
Entre premiações como a da grande Ingrid Bergman como Melhor Atriz e de Federico Fellini na categoria de Filme Estrangeiro (que ele venceria em outras três ocasiões), um dos aspectos mais lembrados do Oscar 1957 foi a vitória na categoria de História Original para Dalton Trumbo por “Arenas Sangrentas”; na época, ainda vigorava a Caça Às Bruxas em Hollywood, perseguindo ideologicamente os artistas envolvidos com o comunismo, e o roteirista Dalton Trumbo era um deles. Hoje, é plenamente reconhecida sua autoria do roteiro de “Arenas Sangrentas”, mas, na época ele teve de usar um pseudônimo –pseudônimo este que foi anunciado na noite da premiação.
O rumor de que era ele o autor desse premiado roteiro foi uma lenda que correu por Hollywood até ser confirmada, décadas depois.

MELHOR FILME
"A Volta Ao Mundo Em 80 Dias"

MELHOR DIREÇÃO
"Assim Caminha A Humanidade", George Stevens

MELHOR ATRIZ
Ingrid Bergman, "Anastácia-A Princesa Esquecida"

MELHOR ATOR
Yul Brinner, "O Rei & Eu"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Dorothy Malone, "Palavras Ao Vento"

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Anthony Quinn, "Sede de Viver"

MELHOR FOTOGRAFIA P&B
"Marcado Pela Sarjeta"

MELHOR FOTOGRAFIA CORES
"A Volta Ao Mundo Em 80 Dias"

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
"Na Estrada da Vida" (Itália)

MELHORES EFEITOS ESPECIAIS
"Os Dez Mandamentos"

MELHOR FIGURINO P&B
"O Cadillac de Ouro"

MELHOR FIGURINO CORES
"O Rei & Eu"

MELHOR SOM
"O Rei & Eu"

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE P&B
"Marcado Pela Sarjeta"

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE CORES
"O Rei & Eu"

MELHOR TRILHA SONORA MUSICAL
“O Rei & Eu"

MELHOR TRILHA SONORA COMÉDIA
"A Volta Ao Mundo Em 80 Dias"

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"Que Será, Será", de "O Homem Que Sabia Demais"

MELHOR HISTÓRIA ORIGINAL
"Arenas Sangrentas"

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
"O Balão Vermelho"

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
"A Volta Ao Mundo Em 80 Dias"

MELHOR MONTAGEM
"A Volta Ao Mundo Em 80 Dias"

sábado, 30 de junho de 2018

Os Vencedores do Oscar 1975

A geração de jovens realizadores americanos dos anos 1970 chegava exigindo reconhecimento no Oscar: Faziam apenas dois anos que Francis Ford Coppola havia levado o prêmio pelo primeiro “O Poderoso Chefão”, e lá estava sua segunda parte ganhando novamente (e desta vez, levando seis estatuetas, contra apenas três do filme original!). E olha que Coppola concorria consigo mesmo, sendo que seu brilhante “A Conversação” também estava no páreo.
A grande Ellen Burstyn venceu como Melhor Atriz por um trabalho sublime do também jovem e inovador Martin Scorsese, sem falar que o ator-assinatura dele, Robert De Niro, arrebatou o prêmio de Coadjuvante, vivendo o jovem Don Vito Corleone em “Chefão 2” –mesmo personagem pelo qual Marlon Brando conquistou o Oscar de Melhor Ator dois anos antes!
A musa Ingrid Bergman (de “Casablanca”) já numa fase mais crepuscular da carreira foi agraciada com o prêmio de Atriz Coadjuvante por “Assassinato No Expresso Oriente” embora muitos (inclusive a própria Ingrid!) manifestassem a opinião de que o prêmio podia ter ido para Valentina Cortese, por sua graciosa participação em “A Noite Americana”.
Agora: Quem é afinal Art Carney? Que ganhou o Oscar de Melhor Ator no lugar de Al Pacino (por “Chefão 2”) ou mesmo de Jack Nicholson (por “Chinatown”)?!
Art Carney foi um comediante norte-americano falecido em 2003, famoso pela série “The Honeymooners”, exibida nos anos 1950, o Oscar de Melhor Ator veio por seu papel na comédia dramática “Harry & Tonto”, hoje completamente desconhecida do grande público, assim como seu ator principal.

MELHOR FILME
"O Poderoso Chefão-Parte II"

MELHOR DIREÇÃO
"O Poderoso Chefão-Parte II", Francis Ford Coppola

MELHOR ATRIZ
Ellen Burstyn, "Alice Não Mora Mais Aqui"

MELHOR ATOR
Art Carney, "Harry & Tonto"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Ingrid Bergman, "Assassinato No Expresso Oriente"

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Robert De Niro, "O Poderoso Chefão-Parte II"

MELHOR FOTOGRAFIA
"Inferno Na Torre"

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
"Amarcord" (Itália)

MELHORES EFEITOS ESPECIAIS
"Terremoto"

MELHOR FIGURINO
"O Grande Gatsby"

MELHOR SOM
"Terremoto"

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE
"O Poderoso Chefão-Parte II"

MELHOR TRILHA SONORA ORIGINAL
"O Poderoso Chefão-Parte II"

MELHOR TRILHA SONORA ADAPTADA
"O Grande Gatsby"

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"We May Never Love Like This Again", de "Inferno Na Torre"

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
"Chinatown"

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
"O Poderoso Chefão-Parte II"

MELHOR MONTAGEM
"Inferno Na Torre"

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Assassinato No Expresso Oriente

A escritora Agatha Christie viveu para conferir a primeira adaptação de um de seus mais famosos livros, lançada em 1974. Sua primeira observação acerca do material? O bigode de Albert Finney, no papel do famoso detetive Hercule Poirot, que não correspondia à peculiar descrição do livro.
Além desse detalhe, nada determinante para o resultado final enquanto filme, a atuação calculada e minimalista de Albert Finney, bastante atenta a um excesso de trejeitos e inflexões vocais, parece ser, em princípio, mais a de um coadjuvante bem elaborado que de um protagonista proeminente –problema que poderia se tornar nítido num elenco que conta com participações cheias de magnetismo e autoridade como Sean Connery e Michael York (de “Cabaret”) –contudo, o personagem de Poirot, como um bom vinho, é servido ao expectador em pequenas doses: No início, ele passa exatamente essa impressão, a de ser mais um espécime naquela fauna distinta, meticulosa e melindrosa elabora pela escritora. Aos poucos, porém, a astuta composição de Finney começa a se destacar em meio a tantos notáveis coadjuvantes –e os monólogos que o ator tira de letra são sensacionais contribuições para isso –impondo-se como uma das grandes atuações do filme (e ele tem várias).
O elenco, por sinal, reunido pelo diretor Sidney Lumet é um dos atrativos do filme –e no modo como a trama se construía, cheia de pormenores coletivos, essa era também uma oportunidade que um diretor com perspicácia dificilmente deixaria passar: No início da década de 1930, em Istambul, um grupo eclético e diverso de passageiros toma o trem do chamado Expresso Oriente com destino à Europa, inclusive o renomado inspetor belga Hercule Poirot, em regresso de um serviço prestado às autoridades policiais daquele país, e que, na qualidade de amigo pessoal o chefe da linha ferroviária (Martin Balsam), consegue um ingresso ao expresso, que se encontra lotado.
Lá há de tudo um pouco: O casal formado pelo garboso e arrogante cavalheiro inglês (Connery) e a charmosa e formidável aristocrata britânica (Vanesse Redgrave); a autoritária e petulante senhora da alta sociedade (Lauren Bacall) a sempre lembrar para todos os dois ex-maridos que tivera; a errádica e suspeita missionária, passageira de classe média (Ingrid Bergman, já passada do auge, porém, vencedora do Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante); a dama inglesa de sangue azul e nobreza a toda prova (Wendy Hiller); sua empregada pessoal severa a impassível (Rachel Roberts); o casal atraente, evasivo e pouco interativo composto por nobres europeus (York e a belíssima Jacqueline Bisset); o homem de negócios cercado de temores acarretados por sua própria fortuna (Richard Widmark); seu hesitante e sôfrego empregado (Anthony Perkins, de “Psicose”); o mordomo de instruções particulares (John Gielgud), além do empregado a serviço no próprio expresso (Jean Pierre Cassel, um bocado mais jovem do que pedia o personagem), e de um chofer italiano aparentemente alheio a tudo (George Coulouris).
A história vislumbrada por Agatha Christie se inicia de fato quando o tal homem de negócios, Sr. Ratchett, surge morto em seu vagão.
Com o trem praticamente isolado em uma região tomada por neve –e que ainda por cima atrasa o avanço na direção de seu destino –não existem chances do culpado ser outro senão uma das pessoas a bordo. Isso logo aciona os instintos detetivescos de Poirot. Há, afinal, um prazo para se descobrir o assassino: Quando o Expresso Oriente chegar à sua estação, os passageiros seguirão cada um para seu próprio canto, incluindo aí o culpado se ele não for descoberto antes. Ao longo dessa investigação, entretanto, Poirot descobre que o caminho até a elucidação da identidade do assassino não será nada simples: Todos ali têm um segredo a esconder, até mesmo o morto, diretamente envolvido no famoso seqüestro e assassinato do bebê dos Lindbergh, ocorrido a cinco anos atrás –e cujo registro em tom jornalístico abre o filme.
Munido de produção refinada, o diretor Lumet não consegue escapar de algumas expressões teatrais que acometem o filme –inerentes à sua formação e até à proposta da história –mas, obtém um resultado envolvente e interessante, onde explora de modo competente a claustrofobia sugerida pela premissa e enfatizada nos detalhes cenográficos (taças, copos, candelabros e toda sorte de ornamentos cercam os personagens dando a entender que um simples gesto brusco pode derrubar tudo ao chão).

Até mesmo pela qualidade questionável dos demais títulos que o sucederam (incluindo uma espécie de continuação, “Morte Sobre O Rio Nilo”, com Peter Ustinov mostrando-se inadequado como Poirot), “O Assassinato No Expresso Oriente” é tido como uma das melhores adaptações de Agatha Christie para o cinema; agora resta conferir se a nova versão de Kenneth Brannagh lhe faz jus.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Casablanca

Os grandes filmes são quase sempre os mais difíceis de se comentar. Não há muitas palavras que lhes fazem jus. Menos ainda se é um filme que resiste ao teste do tempo, e do fato de que mesmo diante da pecha de ‘obra-prima imortal’ permanece um trabalho equilibrado e prazeroso de se ver. 
São poucas as obras que reúnem tão efetivamente bem essas características desafiadoras quanto “Casablanca”. 
Em algum ponto do Marrocos, em algum momento da Segunda Guerra Mundial, o enxutíssimo roteiro nos deposita como expectadores da rotina um tanto aventuresca e inusitada (por vezes permitida pela circunstância da guerra) de Rick Blaime em seu bar no centro dessa cidade, que serve também como um providencial refúgio para os dissidentes e fugitivos que desejam escapar do jugo dos nazistas. Incorporado por um icônico Humphrey Bogart, Rick é um anti-herói no sentido mais estrito da palavra. É cínico e calejado pela vida, e de sua boca pouco se ouve sair menções de qualquer pensamento altruísta, mas suas atitudes dizem o oposto: Que Rick se importa, sim, e à sua maneira torpe e corrupta usará os meios que tem para burlar o esquema do mal, instaurado ali, em Casablanca, pelos nazistas. 
Tudo corre relativamente bem até que Laszlo, o líder da resistência tcheca entra em seu bar, ladeado por nada mais nada menos que o grande amor da vida de Rick, a sinuosa e enigmática Ilsa, cuja presença e atuação de Ingrid Bergman fazem jus à todos os predicados da personagem. O passado retorna para assombrar Rick; o passado do amor que viveu ao lado de Ilsa, em Paris, e que viu ela deixando para trás sem maiores esclarecimentos, fazendo ela responsável por grande parte desse cinismo que ele ostenta e que, em grande medida, o define. Ilsa implora à Rick uma chance para que use de seus meios para salvar Laszlo, e tal é seu desespero em relação à isso, que ela oferece para Rick o único pagamento que poderia lhe ser devidamente compensador: Ela própria! 
O dilema de Rick, como protagonista de uma das grandes histórias do cinema é, portanto, decidir entre a sua felicidade –nos braços da mulher que ama –e as vidas inúmeras que o papel fundamental de Laszlo para com a guerra poderão salvar. A tornar esse dilema mais nebuloso, está a memória subjetiva de Rick, rememorando os eventos daquela Paris, ainda potentes e dolorosos em sua lembrança, e que guardam, desafiadores, os traços que fazem de Ilsa uma mulher dúbia e cheia de segundas intenções, ainda que sempre apaixonante na mente de Rick. 
Com esse primor de texto e subtexto, o diretor Michael Curtiz urgiu uma das obras ímpares do cinema, elaborando uma cena magistral em seguida da outra, para culminar na memorável sequência no aeroporto, que você certamente já viu e ouviu falar mesmo sem nunca ter assistido ao filme. E chega a dar pena, muita pena, de quem jamais se prestou a pegar o DVD e assistir a “Casablanca”, este filme envolvente e sensacional, que sem cerimônias, consegue ser um dos grandes esplendores do cinema.