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sábado, 17 de novembro de 2018

Os Vencedores do Oscar 1957


Embora estivessem na competição obras como “Os Dez Mandamentos”, “Assim Caminha A Humanidade” (o líder em indicações, com 10) ou “Sublime Tentação”, o prêmio reconheceu a influência e o empenho do produtor Michael Todd conferindo o Oscar de Melhor Filme à “A Volta Ao Mundo Em 80Dias”.
“Assim Caminha A Humanidade” acabou com um único prêmio, o de Melhor Diretor para George Stevens.
Concorrendo com a comoção da inédita indicação póstuma de James Dean, por “Assim Caminha...”, o grande astro Yul Brinner teve enfim sua consagração e reconhecimento com o prêmio de Melhor Ator por “O Rei & Eu” –no mesmo ano em que, é bom lembrar, ele foi Ramsés, em “Os Dez Mandamentos” –assim como Anthony Quinn, premiado como Melhor Coadjuvante.
Entre premiações como a da grande Ingrid Bergman como Melhor Atriz e de Federico Fellini na categoria de Filme Estrangeiro (que ele venceria em outras três ocasiões), um dos aspectos mais lembrados do Oscar 1957 foi a vitória na categoria de História Original para Dalton Trumbo por “Arenas Sangrentas”; na época, ainda vigorava a Caça Às Bruxas em Hollywood, perseguindo ideologicamente os artistas envolvidos com o comunismo, e o roteirista Dalton Trumbo era um deles. Hoje, é plenamente reconhecida sua autoria do roteiro de “Arenas Sangrentas”, mas, na época ele teve de usar um pseudônimo –pseudônimo este que foi anunciado na noite da premiação.
O rumor de que era ele o autor desse premiado roteiro foi uma lenda que correu por Hollywood até ser confirmada, décadas depois.

MELHOR FILME
"A Volta Ao Mundo Em 80 Dias"

MELHOR DIREÇÃO
"Assim Caminha A Humanidade", George Stevens

MELHOR ATRIZ
Ingrid Bergman, "Anastácia-A Princesa Esquecida"

MELHOR ATOR
Yul Brinner, "O Rei & Eu"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Dorothy Malone, "Palavras Ao Vento"

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Anthony Quinn, "Sede de Viver"

MELHOR FOTOGRAFIA P&B
"Marcado Pela Sarjeta"

MELHOR FOTOGRAFIA CORES
"A Volta Ao Mundo Em 80 Dias"

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
"Na Estrada da Vida" (Itália)

MELHORES EFEITOS ESPECIAIS
"Os Dez Mandamentos"

MELHOR FIGURINO P&B
"O Cadillac de Ouro"

MELHOR FIGURINO CORES
"O Rei & Eu"

MELHOR SOM
"O Rei & Eu"

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE P&B
"Marcado Pela Sarjeta"

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE CORES
"O Rei & Eu"

MELHOR TRILHA SONORA MUSICAL
“O Rei & Eu"

MELHOR TRILHA SONORA COMÉDIA
"A Volta Ao Mundo Em 80 Dias"

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"Que Será, Será", de "O Homem Que Sabia Demais"

MELHOR HISTÓRIA ORIGINAL
"Arenas Sangrentas"

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
"O Balão Vermelho"

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
"A Volta Ao Mundo Em 80 Dias"

MELHOR MONTAGEM
"A Volta Ao Mundo Em 80 Dias"

terça-feira, 13 de novembro de 2018

Os Dez Mandamentos


Tendo já realizado em 1923 uma versão muda e em preto & branco de “Os Dez Mandamentos”, Cecil B. DeMille enveredou, em 1956, por uma nova versão diametralmente radical em termos de estilo: Sai a austeridade do preto & branco, entram as composições espalhafatosas do Technicolor; sai a compenetração do cinema mudo, entram todos os predicados exorbitantes acarretados pelo som (trilha sonora épica e ribombante, trabalho de som ensurdecedor e grandiloquente, diálogos folhetinescos contando o que antes era mostrado através das cenas, e uma narração –a cargo do próprio DeMille –algo solene e edificante extraída seletivamente de passagens bíblicas).
Preenchendo com tom dramático uma série de lacunas em relação a trajetória de seu protagonista (que Charlton Heston interpreta com fulgor mítico) discriminada na Bíblia, o filme começa com o assassinato de várias crianças hebreias na tentativa do faraó em matar o assim anunciado libertador daquele povo escravo, predestinado a nascer entre eles. Uma dessas crianças é enviada para longe dos assassinos num cesto pelo rio e, numa ironia suprema, encontrado e adotado pela esposa do faraó, que lhe dá o nome de Moisés.
Os anos se passam com Moisés já adulto tecem uma série de pequenas rivalidades e disputas com seu irmão Ramsés (Yul Brinner).
Na Hollywood dos anos 1950, predominava um sentimento de antagonismo em relação à Guerra-Fria o quê impregnou o filme de DeMille de um viés ideológico –se em outras versões (até mesmo na de 1923), a oposição de Moisés e Ramsés é mostrada como uma crescente batalha entre dois irmãos que apesar de se amarem se viram tornados inimigos pelo destino, no famoso clássico de 1956, qualquer sutileza ou ambiguidade é deixada de lado em prol de uma clareza que opõe o representante de Deus –Moisés –e o representante do autoritarismo –Ramsés; é óbvio, portanto, que a verdadeira origem de Moisés aparecerá para chama-lo ao seu propósito; inclusive com as oposições divinas e assombrosas típicas do Deus do Velho Testamento.
Isso levará Moisés a unir-se ao seu povo hebreu e, já abraçando sua condição de mensageiro de Deus, exigirá sua libertação –deflagrando as Sete Pragas do Egito, em cenas bastante notáveis –para então guia-los na famosa Travessia do Mar Vermelho –uma das cenas mais icônicas do cinema graças ao emprego brilhante dos efeitos visuais –e, por fim, ao Monte Sinai, onde Moisés recebe os Dez Mandamentos da Lei de Deus.
Ao longo dessa epopeia desmesurada de quase quatro horas de duração, tão vulgar quanto esplêndida, o diretor Cecil B. DeMille não economiza em espalhafato e extravagância para arrebatar o expectador.

terça-feira, 6 de novembro de 2018

Westworld - Onde Ninguém Tem Alma


Embora hoje a série da HBO seja bem mais conhecida (e mais bem sucedida), o conceito que a norteia se originou mesmo neste obscuro suspense de ficção científica realizado nos anos 1970, que imaginava –com um anacronismo característico das produções do período –um local onde a alta tecnologia proporcionava uma imersão radical num ambiente específico.
Num prólogo desnecessariamente longo e talvez deliberadamente artificial, assistimos à uma propaganda de Delos, um resort que promete uma aventura sem precedentes: Nele, os visitantes podem escolher por três mundos distintos, o Mundo Medieval, o Mundo Romano e o Westworld (que simula o Velho Oeste). Lá, vigiados por um sistema da mais alta tecnologia, os visitantes podem experimentar a sensação real de se viver por alguns dias a experiência de se estar naquele período histórico, cercados por robôs avançados que fazem as vezes de moradores originais daquele mundo –e que replicam com perfeição as características humanas.
Os amigos John (James Brolin, pai de Josh Brolin e um dos maridos de Barbra Streisand) e Peter (Richard Benjamin) são dois desses visitantes. O primeiro é um frequentador assíduo do Westworld, o segundo, em vias de se divorciar, deseja se divertir junto do amigo.
Pela atuação dos dois atores, pelo carisma de ambos e até pelos aspectos de seus personagens, somos levados a crer que o protagonista seja John, no entanto, não é isso que acontece: Quando as máquinas, sem motivos mais aparentes, começam a dar defeitos e a se voltar contra os poucos humanos presentes no local (algo que nem é tão aproveitado assim, talvez, em função do orçamento reduzido), eles começam a ser perseguidos por um pistoleiro valentão –um androide programado para ser um antagonista constantemente chato durante a estadia –(interpretado, por sua vez, pelo astro Yul Brinner, antecipando o quê Arnold Schwarzenegger faria anos depois em “Exterminador do Futuro”), e é John quem não tarda a ser morto e sair de cena, colocando o errático e hesitante Peter como personagem principal –uma das muitas escolhas equivocadas de um filme que poderia ter rendido muito mais.
Embora tenha uma premissa promissora e curiosa, o filme não consegue corresponder à própria expectativa, e esse lapso possivelmente diz respeito ao fato de Michael Crichton (autor de “Jurassic Park”) ter insistido em acumular as funções de roteirista e diretor.
No que diz respeito à trama, ele simplifica demais os elementos que a cercam e a definem –nunca dá uma explicação satisfatória ao pane que leva às máquinas à rebelião, por exemplo –e termina se satisfazendo, ao final, com uma perseguição pouco empolgante por corredores vazios e escuros.
No que diz respeito à condução, ele comete inúmeros erros de um diretor visivelmente sem experiência, por meio dos quais deixa seu elenco abandonado sem uma liderança que traga convicção às atuações (isso se reflete até mesmo no experiente Yul Brinner), desperdiça fatores funcionais de suspense (o duelo final chega com protagonista e antagonista destituídos de armas, e portanto, de alguma ameaça um para o outro) e demonstra uma grande preguiça em oferecer ao expectador maiores informações sobre o enredo.
De um modo geral, “Westworld” representa mais uma promessa do que a concretização de um bom filme de fato, embora a fama de Yul Brinner tenha conseguido resgatar esta obra da obscuridade ao longo das décadas de 1980 e 90, durante as transposições dos filmes antigos para outras mídias como o VHS e o DVD.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Os Sete Samurais / Sete Homens e Um Destino

 Nos extras do DVD de “O Poderoso Chefão”, Francis Ford Coppola afirma, em um dado momento, que Akira Kurosawa é o “pai da violência no cinema moderno”. 
Há que se admirar alguém que tem fãs como ele. Inúmeros de seus trabalhos são provas fervilhantes e monumentais de que Coppola está certo. Cada filme que Kurosawa concebeu é um tratado cinematográfico em si, onde a postura da narrativa reitera aquilo que o cinema era, é e ainda pode vir a ser. 
Falemos de “Os Sete Samurais” e, por conseguinte, da sua refilmagem norte-americana, “Sete Homens e Um Destino”. 
Um assolado Japão feudal é palco do suplício de uma aldeia de humildes agricultores que, colheita após colheita, não têm outra opção senão resignar seus ganhos a inescrupulosos bandidos que aparecem todo ano. Desta vez, contudo, será diferente: Alguns deles viajam até as cidades maiores a fim de recrutar um número satisfatório de samurais que se oponham aos samurais e protejam a aldeia. 
O grupo reunido, aos trancos e barrancos, aqui e ali, é uma seleção desigual de sete renegados samurais que se prestam a ajudá-los. 
O filme é de um primor que somente um mestre como Akira Kurosawa é capaz de materializar na tela: A batalha final, debaixo de uma chuva torrencial, é uma aula sobre o uso de elementos dramáticos no cinema. E o seu material é tão genuíno e rico que se prestou a uma das mais dignas refilmagens já feitas até hoje.
Em “Sete Homens e Um Destino”, a mesma premissa é transposta para o Velho Oeste, e termina a ele encaixando-se como uma luva: Camponeses indefesos, cansados de serem explorados pela mesma quadrilha de bandoleiros, ano após ano, saem à procura de pistoleiros de aluguel para que aplaquem, de uma vez por todas, os seus algozes. 
Ao compará-los, é inevitável que a obra japonesa acabe prevalecendo, mas o filme norte-americano tem qualidades inquestionáveis: Seu elenco, recheado de grandes astros, é um espetáculo (Yul Brinner, Steve McQueen, Charles Bronson, Eli Wallach, James Coburn, Robert Vaughn), a direção de John Sturgees se inspira na objetividade de Kurosawa, e entrega um trabalho fluido e envolvente, e a trilha sonora de Elmer Bernstein é, sem sombra de dúvidas, um clássico do cinema. 
Por sinal, o faoreste vai ganhar uma refilmagem (ironia das ironias!) em 2016, dirigido por Antoine Fuqua. Kurosawa, na realidade, foi perspicaz ao perceber essa dicotomia entre os gêneros de samurai e faroeste. Não à toa, muitos de seus trabalhos tinham influência do diretor John Ford. Por essa razão, o faroeste (mas não somente ele) acomodava muito bem a dramaturgia de seus filmes: Além de “Os Sete Samurais” foram também refilmados em versão faroeste, “Rashomon” (em “Quatro Confissões” de Martin Ritt) e “Yojimbo-O Guarda Costas” (em “Por Um Punhado de Dólares” de Sergio Leone). Sem falar de “A Fortaleza Escondida” que serviu da base para George Lucas conceber um certo “Star Wars”. 
Vale lembrar que o inverso também já aconteceu, a trama do clássico de Clint Eastwood, “Os Imperdoáveis”, foi adaptada para o Japão feudal no filme de samurais “Yurusarezaru Mono”, infelizmente inédito no Brasil.