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domingo, 9 de fevereiro de 2025

Pânico 5


 Confesso que cheguei à este filme exclusivamente pelo meu interesse na atriz Mikey Madison, no entanto, ao trabalhar os elementos do sub-gênero slasher que tinham à disposição (do qual o “Pânico” original é o exemplar mais brilhante dentre toda a década de 1990), os diretores Tyler Gillett e Matt Bettinelli-Olpin (da coletânea de terror “V/H/S”) até que souberam manipular com relativa habilidade uma obra que corria o sério risco de ceder à irrelevância, afinal, quatro longa-metragens e um série de TV depois, o que “Pânico” teria a oferecer para toda uma nova geração de expectadores de filmes de terror? Bem, se essa pergunta já havia começado a ser respondida em “Pânico 4” –que data de 2011, flagrando o elenco jovem dos filmes originais já maduro, enquanto os três outros filmes datam, simultaneamente de 1996, 1997 e 2000 –este novo capítulo, lançado em 2022, finalmente consegue reciclar toda aquela fórmula já testada e comprovada agregando a devida homenagem ao slasher, contudo, sem ceder à redundância de seus clichês. Esse jogo de cintura em princípio pode parecer que foi algo fácil de ser feito, mas certamente não foi bem assim.

A começar “Pânico 5” temos uma cena feita à imagem e semelhança da já antológica cena de abertura do “Pânico” original –na qual a personagem de Drew Barrymore se torna a primeira vítima do assassino mascarado após uma brilhante sequência de tensão a partir do diálogo em um telefone. A cena que se desenrola é praticamente a mesma, exceto que –sinal dos tempos –agora é um celular que a personagem em questão, Tara Carpenter (vivida por Jenna Ortega), tem em mãos. Também há um comentário subliminar incontornável sobre a tecnologia (agora, um clique de botão é capaz de trancar todas as portas da casa, embora ainda seja inútil perante a esperteza do assassino e a burrice de suas vítimas) e, certamente, sobre a própria mitologia que toda a série construiu: Ambientado na fictícia cidadezinha de Woodsboro, como todos os demais filmes, este aqui mostra toda uma nova geração de adolescentes fãs de filmes de terror que, desta vez, conhecem de cabo a rabo toda a história sinistra e metalinguística que envolveu os assassinatos transcorridos ao longo dos filmes. Nem por isso, porém, isso faz deles mais preparados para o famoso algoz: Ao aparecer mais uma vez na casa em que Tara está, o assassino Ghostface quase acaba matando-a, contudo, por um fio, ela escapa –mostrado como mais falho e humano do que outros assassinos do slasher (algo que certamente agrega humor à mistura), o Ghostface, ao menos neste prólogo, não consegue concluir sua macabra intenção –o que faz da personagem de Jenna Ortega, essencial para a trama que se segue. Essencial, mas não principal: A protagonista de fato é Sam Carpenter (Melissa Barrera), sua irmã mais velha, afastada de Woodsboro por motivos familiares, que retorna para a cidade junto do namorado Ritchie (Jack Quaid, de “Jogos Vorazes”) após saber do atentado contra a irmã mais nova.

Agora, todas as peças estão, de novo, justapostas no tabuleiro: Um assassino está à solta, fazendo uma espécie de copycat dos assassinatos anteriores, usando a já manjada máscara do Ghostface e, a partir das regras implícitas do gênero disponíveis em todos os filmes (que são referenciados sem parar pelos personagens), todos procuram sobreviver, ao mesmo tempo que todos, até prova em contrário, são suspeitos.

Como toda boa obra profundamente referencial que se preze, “Pânico 5” vale-se das presenças luxuosas do trio protagonista dos três primeiros filmes de Wes Craven –já não tão jovens como naqueles tempos, mas (talvez, até por causa disso!), ainda capazes de carregar, e muito bem, o interesse da narrativa. São eles, o ex-policial Dewey (David Arquette), a repórter ambiciosa, enxerida e romanticamente envolvida com Dewey, Gale Weathers (Courtney Cox, casada com Arquette na vida real), e a protagonista dos quatro filmes anteriores, e único lendário alvo de Ghostface a sobreviver todas as vezes, Sydney Prescott (Neve Campbell).

Superior ao exemplar anterior, “Pânico 5” demonstra um esforço um bocado salutar da parte dos realizadores para fazer com que os novos rostos do elenco, em contrapartida, consigam soar tão interessantes quando as caras já conhecidas –e graças ao talento natural dos envolvidos, ao roteiro com atenção bastante engenhosa nos diálogos, e sobretudo, ao empenhado elenco jovem, isso muitas vezes acontece. Jenna Ortega, por exemplo, antecipa a consagração que experimentou com “Wandinha” compondo uma personagem aflita e perplexa que ganha rapidamente a empatia do público, ela é um bom contraponto à morosidade um pouco problemática da protagonista Sam, mais apática e clichê. Mas e quanto à Mikey Madison? Vinda de uma breve participação em “Era Uma Vez em Hollywood” onde, com pouco tempo de tela, ainda assim explodiu em cena, Mikey Madison aqui dá conta de uma personagem coadjuvante que intriga o expectador toda a vez que aparece, chamando a atenção com uma presença, um carisma e um talento completamente desiguais –era questão de tempo mesmo até que um papel como “Anora” caísse em colo e fizesse dela uma das grandes atrizes do momento.

sábado, 21 de setembro de 2024

Os Fantasmas Ainda Se Divertem


 Existem complicações inerentes ao fato de se tentar realizar uma continuação de um cult-movie: Primeiro, porque muito provavelmente, as razões que o tornaram cult vão além da mera competência técnica e artística, sendo mais uma conjunção de fatores favoráveis e incomuns; segundo, porque muitas vezes, tal produção pertence à um tempo (anos 1980, no caso) e à um contexto que não se pode reproduzir espontaneamente; e terceiro, porque cult-movies costumam ser encontrados por seu público de uma forma que dificilmente acaba se repetindo.

Embora pertinentes, essas questões se tornam menores diante deste brilhante “Os Fantasmas Ainda Se Divertem”, e tudo isso graças ao nome de Tim Burton atrás das câmeras –ele, que jamais abriu mão de seu estilo ao longo de quase quarenta anos de carreira, entendeu que somente preservando os mesmos elementos que em 1988 fizeram a originalidade palpitante do divertidíssimo “Os Fantasmas Se Divertem” seria possível conceber uma continuação digna e sólida.

E –vejam só! –ele de fato conseguiu: O novo “Beetlejuice” começa mostrando a rotina da personagem de Winona Ryder, Lydia Deetz, que no filme original era uma adolescente: Agora, atriz e personagem estão na idade madura, Lydia possui um programa de TV que, de maneira sensacionalista, explora as capacidades sensitivas que ele descobriu no primeiro filme. Sua filha, Astrid (Jenna Ortega) tem a mesma idade que Lydia tinha na época do filme anterior, no entanto, diferente da mãe, ela faz lá seus esforços para se adaptar –o que leva mãe e filha a terem seus eventuais conflitos, principalmente, porque Astrid não acredita nos dons sobrenaturais da mãe (se ela pode comunicar-se com os mortos, conclui a jovem, então por que nunca conseguiu estabelecer contato com o falecido pai de Astrid?) e disso se ressente. Um acontecimento inesperado acaba por reunir as três gerações de mulheres da Família Deetz –Astrid, a filha, Lydia, a mãe, e Delia (Catherine O’Hara) a madrasta de Lydia –na mesma casa do filme original: Charles, pai de Lydia e marido de Delia, morreu de forma um tanto caricata num acidente de avião (mostrado em animação stop-motion) e seu funeral se sucede na mesma casa, na cidadezinha de Winter River, em que os eventos anteriores ocorreram. O roteiro até que engenhoso de Miles Millar e Alfred Gough consegue assim justificar uma espécie de ausência do personagem outrora vivido por Jeffrey Jones (de “Curtindo A Vida Adoidado”) sem precisar descartá-lo pela força das circunstâncias (em 2002, ele foi judicialmente incriminado de pornografia infantil).

Mas, é claro que, uma vez que toda essa trupe reaparece em Winter River, a estrela principal haveria de dar as caras também: Beetlejuice, a assombração de aluguel, vivido de maneira impagável por Michael Keaton, volta mais uma vez para tumultuar a rotina dos Deetz. Ou não... quando Astrid se mete numa encrenca de proporções literalmente sobrenaturais, Lydia não tem outra escolha senão chamar aquele que ela tentava evitar à todo o custo desde que chegaram –ela pede ajuda ao próprio Beetlejuice que, obviamente, tem lá o seu preço a cobrar: Com uma ex-esposa maligna e sugadora de almas à solta, Delores (interpretada pela italiana Monica Bellucci, atual namorada de Burton) responsável inclusive pela morte de Beetlejuice uns seiscentos anos atrás (!), ele precisa forjar com Lydia o mesmo pacto do primeiro filme, no qual, ao casar-se com ela, ele poderia voltar ao mundo dos vivos. No encalço de Beetlejuice, de Delores e de todo esse pessoal, está ainda Wolf Jackson (Willem Dafoe, hilário) um ator morto, tão convicto do personagem que morreu interpretando que, mesmo no além, ainda age como um detetive –e é obedecido por subalternos como se fosse um!

Tim Burton está, portanto, afiadíssimo em “Os Fantasmas Ainda Se Divertem”, levando todos esses personagens, e muitos outros mais à interagir incessantemente numa trama de idas e vindas vertiginosas, possivelmente, a melhor mescla de comédia pastelão e homenagem macabra ao terror que Burton conseguiu urgir nas últimas décadas.

quinta-feira, 8 de junho de 2023

Wandinha - 1ª Temporada


 Desde os primórdios, a cultura pop sempre teve o hábito de canibalizar a si mesma. Podemos tomar como exemplo esta série de sucesso da Netflix: Os personagens da “Família Addams” foram introduzidos ao mundo pela primeira vez, por seu criador, o cartunista Charles Samuel Addams em 1932 na revista The New Yorker, depois migraram para outras mídias –quadrinhos, animações televisivas, séries live-actions de TV –até chegarem aos cinemas, primeiramente, em um filme de 1977, não muito bem-sucedido, e no longa-metragem de 1991, maravilhosamente bem-realizado pelo diretor Barry Sonnenfeld, tanto que logo ganhou uma continuação em 1993. De lá pra cá, outras versões se seguiram, inclusive uma recente animação, mas é, de longe, com os dois longa-metragens de Barry Sonnenfeld que esta série mais dialoga em termos de estilo e narrativa.

Para a direção (pelo menos, da maior parte de seus oito episódios) foi recrutado o esteta Tim Burton que, convenhamos, sempre foi a pessoa mais adequada para lidar com o material: Sua identidade visual, com pendor apaixonado pelo sombrio e por elementos que remetem ao Halloween, e seu gosto indiscutível por criaturas oriundas do horror fantástico caem como uma luva à proposta da série.

Nos filmes, a garota Wandinha Addams (lá, coadjuvante, aqui, por uma astuciosa manobra a fim de atrair o público adolescente, protagonista) era interpretada, com bastante propriedade por Christina Ricci (dona, aqui, de um papel de considerável destaque), na série concebida pela Netflix, quem assume o papel de Wandinha é a jovem Jenna Ortega, que embora tenha 20 anos vive uma personagem com 16 anos de idade; nos filmes, Christina Ricci viveu Wandinha (ou Wednesday, no original) com 11 anos (em 1991) e 13 (em 1993), todavia, aqui na série, a faixa etária da personagem foi elevada na intenção de tornar propício toda sorte de narrativa jovem a envolver até mesmo flertes românticos e outras peculiaridades –é, afinal, a cultura pop canibalizando a si mesma como comentado acima.

Do alto das celeumas eventuais da adolescência –ainda mais problemáticas devido à sua inclinação radical à morbidez, ao comportamento gótico e sombrio, e à uma atitude incontornavelmente antissocial –Wandinha Addams, filha mais velha do casal Gomez e Mortícia Addams (Luis Gusmán e Catherine Zeta-Jones, ambos pontas luxuosíssimas) é despachada da escola convencional em que estudava –na qual, ao vingar-se de um bullying sofrido pelo irmão, jogou piranhas na piscina dos atletas de natação (!) –para a pouco ortodoxa Nevermore High School, lugar frequentado exclusivamente por indivíduos assim chamados ‘excluídos’ justamente por possuírem, todos, alguma particularidade macabra com um pé no sobrenatural.

Uma vez lá –e absolutamente à contra-gosto –Wandinha ensaia uma tentativa de se adaptar ao lugar; o que inclui sessões de terapia com a psicóloga local Dra. Kinbott (Riki Lindhome, de “A Troca”) e a marcação cerrada da diretora Weems (Gwendoline Christie, de “Jogos Vorazes-A Esperança”). Contudo, a razão pela qual Wandinha termina realmente ficando é o fato de inesperadas mortes começarem a se suceder nas redondezas. Aparentemente há um monstro à solta, e os preconceituosos da região, entre os quais, o próprio xerife local (Jamie McShane, de “Garota Exemplar”), estão ávidos por apontar os dedos na direção dos estudantes de Nevermore. Cabe, portanto, à Wandinha a tarefa de empregar suas habilidades dedutivas e seu raciocínio lógico –únicas características que a fazem demonstrar um mínimo de interesse na interação humana –para desvendar esse mistério e descobrir quem está por trás das ações do monstro e porque.

No decurso dessa investigação a la Scooby-Doo, Wandinha acaba também esbarrando em inevitáveis dilemas de natureza adolescente como as idas e vindas na sua amizade com a colega de quarto Enid (Emma Myers), a interação, ora cheia de camaradagem, ora carregada de antagonismo, com os demais ‘excluídos’; e o inusitado triângulo amoroso entre ela, o hesitante Xavier (Percy Hynes White) e o filho do xerife, Tyler (Hunter Doohan). Outros personagens, diretamente relacionados às criações de Charles Samuel Addams que também marcam presença são Mãozinha (um prodígio dos efeitos visuais da série) e o Tio Chico (Fred Armisen, de “Os Delírios de Consumo de Becky Bloom”), fazendo participação especial em um dos episódios.

Unindo habilmente o teor macabro com o humor negro –mescla tão habitual e orgânica na obra de Burton –a série não esconde o direcionamento convicto às platéias mais jovens, às quais certamente não incomodarão as pouco apropriadas inserções de romance juvenil e drama adolescente na narrativa. Se na maior parte do tempo tudo em “Wandinha” flui com desenvoltura e relativa graça, isso se dá, em grande medida, ao ótimo trabalho do elenco em geral e de Jenna Ortega em particular, tirando de letra uma atuação à qual, por muito tempo esteve associada a própria Christina Ricci como uma intérprete perfeita: A Wandinha de Jenna Ortega entrega o mesmo desdém soturno pelas balbuciantes nuances da interação humana, aparentando uma flagrante inexpressividade, mas, abrilhantada por uma atuação que não deixa de evidenciar ao expectador as sutis mudanças internas de humor da personagem e, no que pode ser visto quase como um milagre, mesmo diante de uma perene apatia, conquistar o público com um insuspeito carisma.