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quinta-feira, 8 de junho de 2023

Wandinha - 1ª Temporada


 Desde os primórdios, a cultura pop sempre teve o hábito de canibalizar a si mesma. Podemos tomar como exemplo esta série de sucesso da Netflix: Os personagens da “Família Addams” foram introduzidos ao mundo pela primeira vez, por seu criador, o cartunista Charles Samuel Addams em 1932 na revista The New Yorker, depois migraram para outras mídias –quadrinhos, animações televisivas, séries live-actions de TV –até chegarem aos cinemas, primeiramente, em um filme de 1977, não muito bem-sucedido, e no longa-metragem de 1991, maravilhosamente bem-realizado pelo diretor Barry Sonnenfeld, tanto que logo ganhou uma continuação em 1993. De lá pra cá, outras versões se seguiram, inclusive uma recente animação, mas é, de longe, com os dois longa-metragens de Barry Sonnenfeld que esta série mais dialoga em termos de estilo e narrativa.

Para a direção (pelo menos, da maior parte de seus oito episódios) foi recrutado o esteta Tim Burton que, convenhamos, sempre foi a pessoa mais adequada para lidar com o material: Sua identidade visual, com pendor apaixonado pelo sombrio e por elementos que remetem ao Halloween, e seu gosto indiscutível por criaturas oriundas do horror fantástico caem como uma luva à proposta da série.

Nos filmes, a garota Wandinha Addams (lá, coadjuvante, aqui, por uma astuciosa manobra a fim de atrair o público adolescente, protagonista) era interpretada, com bastante propriedade por Christina Ricci (dona, aqui, de um papel de considerável destaque), na série concebida pela Netflix, quem assume o papel de Wandinha é a jovem Jenna Ortega, que embora tenha 20 anos vive uma personagem com 16 anos de idade; nos filmes, Christina Ricci viveu Wandinha (ou Wednesday, no original) com 11 anos (em 1991) e 13 (em 1993), todavia, aqui na série, a faixa etária da personagem foi elevada na intenção de tornar propício toda sorte de narrativa jovem a envolver até mesmo flertes românticos e outras peculiaridades –é, afinal, a cultura pop canibalizando a si mesma como comentado acima.

Do alto das celeumas eventuais da adolescência –ainda mais problemáticas devido à sua inclinação radical à morbidez, ao comportamento gótico e sombrio, e à uma atitude incontornavelmente antissocial –Wandinha Addams, filha mais velha do casal Gomez e Mortícia Addams (Luis Gusmán e Catherine Zeta-Jones, ambos pontas luxuosíssimas) é despachada da escola convencional em que estudava –na qual, ao vingar-se de um bullying sofrido pelo irmão, jogou piranhas na piscina dos atletas de natação (!) –para a pouco ortodoxa Nevermore High School, lugar frequentado exclusivamente por indivíduos assim chamados ‘excluídos’ justamente por possuírem, todos, alguma particularidade macabra com um pé no sobrenatural.

Uma vez lá –e absolutamente à contra-gosto –Wandinha ensaia uma tentativa de se adaptar ao lugar; o que inclui sessões de terapia com a psicóloga local Dra. Kinbott (Riki Lindhome, de “A Troca”) e a marcação cerrada da diretora Weems (Gwendoline Christie, de “Jogos Vorazes-A Esperança”). Contudo, a razão pela qual Wandinha termina realmente ficando é o fato de inesperadas mortes começarem a se suceder nas redondezas. Aparentemente há um monstro à solta, e os preconceituosos da região, entre os quais, o próprio xerife local (Jamie McShane, de “Garota Exemplar”), estão ávidos por apontar os dedos na direção dos estudantes de Nevermore. Cabe, portanto, à Wandinha a tarefa de empregar suas habilidades dedutivas e seu raciocínio lógico –únicas características que a fazem demonstrar um mínimo de interesse na interação humana –para desvendar esse mistério e descobrir quem está por trás das ações do monstro e porque.

No decurso dessa investigação a la Scooby-Doo, Wandinha acaba também esbarrando em inevitáveis dilemas de natureza adolescente como as idas e vindas na sua amizade com a colega de quarto Enid (Emma Myers), a interação, ora cheia de camaradagem, ora carregada de antagonismo, com os demais ‘excluídos’; e o inusitado triângulo amoroso entre ela, o hesitante Xavier (Percy Hynes White) e o filho do xerife, Tyler (Hunter Doohan). Outros personagens, diretamente relacionados às criações de Charles Samuel Addams que também marcam presença são Mãozinha (um prodígio dos efeitos visuais da série) e o Tio Chico (Fred Armisen, de “Os Delírios de Consumo de Becky Bloom”), fazendo participação especial em um dos episódios.

Unindo habilmente o teor macabro com o humor negro –mescla tão habitual e orgânica na obra de Burton –a série não esconde o direcionamento convicto às platéias mais jovens, às quais certamente não incomodarão as pouco apropriadas inserções de romance juvenil e drama adolescente na narrativa. Se na maior parte do tempo tudo em “Wandinha” flui com desenvoltura e relativa graça, isso se dá, em grande medida, ao ótimo trabalho do elenco em geral e de Jenna Ortega em particular, tirando de letra uma atuação à qual, por muito tempo esteve associada a própria Christina Ricci como uma intérprete perfeita: A Wandinha de Jenna Ortega entrega o mesmo desdém soturno pelas balbuciantes nuances da interação humana, aparentando uma flagrante inexpressividade, mas, abrilhantada por uma atuação que não deixa de evidenciar ao expectador as sutis mudanças internas de humor da personagem e, no que pode ser visto quase como um milagre, mesmo diante de uma perene apatia, conquistar o público com um insuspeito carisma.

quinta-feira, 16 de junho de 2022

O Fantasma


 A única adaptação até hoje do personagem clássico de quadrinhos concebido por Lee Faulk é um filme morno, mediano e esquecível, contudo, não obstante essas características, ele passou à crônica cinematográfica, com o passar do tempo, como um passatempo razoável e capaz de preservar uma certa eficácia àqueles expectadores que focassem nos elementos certos.

Dirigido por Simon Wincer –diretor de “Tomb Raider”, “Con Air-A Rota da Fuga” e “Os Mercenários 2” –“O Fantasma” abraça com vigor e convicção uma aura de cinema-matinê ao contar a história um tanto exótica e povoada de elementos ecléticos de seu herói, uma figura algo folclórica na nação africana de Bangala: O Fantasma, um herói uniformizado que atua em plena selva, é tido como uma entidade sobrenatural que surge para que se cumpra a justiça. Na realidade, entretanto, trata-se da tradição secreta da Família Walker: Todos os membros homens dessa família assumem essa identidade, tão logo o Fantasma anterior morre, preservando a ideia de que ele seja imortal.

Em meados da década de 1930, o Fantasma é incorporado por Kit Walker (Billy Zane, de “Jogo Pela Sobrevivência” e “Orlando-AMulher Imortal”) e, no decorrer de suas aventuras –que, como não poderia deixar de ser, decalcam muitos de seus elementos das aventuras de Indiana Jones –se enamora da obstinada e curiosa pesquisadora Diana Palmer (Kristy Swanson) que, como toda mocinha envolvida numa aventura de matinê, se descobre no olho de um furacão: Vilões malvados (liderados pelo exacerbado Treat Williams, de “Era UmaVez Na América” e pelo disperso James Remar, de “Cotton Club”) compartilham com ela –ou melhor, disputam com ela! –o objetivo de encontrar as Caveiras de Touganda, preciosidades dotadas de estranhos poderes guardadas pelos Piratas Sengh e localizadas numa ilha misteriosa.

Os Piratas Sengh protagonizam, nos quadrinhos, aquela que é considerada a melhor história do Fantasma já concebida e a adaptação cinematográfica, espertamente, aproveitou-se do gancho para usá-los em sua trama. Pena que,  no modo como são empregados, esses personagens surgem mais como um usual apelo de marketing do que como opção narrativa de fato –da trama urgida por Lee Faulk há bem pouco, o que confere ao filme uma insolúvel atmosfera de produção genérica, ainda que preservada em se charme anacrônico.

O resultado final qualitativo de “O Fantasma” traz assim um erro para cada acerto: Se a bela ambientação de época é caprichada e salta aos olhos, a trama que ela emoldura carece de inspiração e originalidade chegando a flertar em alguns momentos (seja de forma involuntária ou não) com o cinema B; se os personagens, vez ou outra, ostentam características inspiradas ou promissoras, seus intérpretes, no mais, entregam atuações básicas, acomodadas e previsíveis (os vilões são inverossivelmente maus; os heróis aborrecidamente bons), fazendo com que a participação que mais acaba se destacando, no fim das contas, seja a de uma ainda desconhecida Catherine Zeta-Jones (antes de “A Máscara do Zorro” e do Oscar por “Chicago”) na única personagem relativamente ambígua de toda a trama.

A despeito de suas falhas, porém, “O Fantasma” é uma aventura que agrada, sobretudo, transcorridos alguns anos de seu lançamento, o que lhe conferiu, ao longo do tempo, uma aura inusitada daquilo que ele sempre almejou ser: Uma matinê despretensiosa.

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

O Terminal

Tão espetaculares foram as colaborações entre o diretor Steven Spielberg e o astro Tom Hanks (“O Resgate do Soldado Ryan”, “Prenda-Me Se For Capaz”, “Ponte de Espiões” e “The Post-A Guerra Secreta”, além da minissérie “Band Of Brothers” que produziram juntos) que, em meio à elas, o descompromissado “O Terminal” parece ter sido realizado por outra pessoa.
Spielberg deixou um pouco de lado o cinema adulto que tem predominado em suas obras nas últimas duas décadas para experimentar um gênero de difícil manejo, cujas complicações de ordem narrativa não costumam ser levadas em conta por público e crítica: A comédia.
A situação que envolve o personagem de Tom Hanks, Viktor Navorski, e que define do início ao fim o filme que ele protagoniza, não deixa de representar uma sutil referência às mazelas geopolíticas ocasionadas no Leste Europeu –mas, sua abordagem não poderia ser mais breve; Spielberg, aqui, quer fazer rir e entreter.
Ao chegar ao Aeroporto Internacional John F. Kennedy, em Nova York, local de trânsito constante e ininterrupto de turistas vindos do mundo todo, Viktor se depara com uma circunstância insólita: Durante seu voo, o país ao qual ele pertence, Krakozhia, sofreu um golpe de estado deixando, portanto, de existir como nação reconhecida aos olhos da ONU.
O que isso significa para Viktor? Que seu passaporte se tornou assim inválido (ele não pode cruzar os portões do aeroporto e pisar oficialmente em solo americano), bem como também se tornou uma espécie de expatriado (sem voos de retorno para Krakozhia, ele também não pode voltar para casa).
Dessa forma, Viktor não tem escolha a não ser viver no ambiente do terminal do aeroporto, o único lugar onde sua incomum situação permite que ele fique.
E o cenário predominante no filme –que quase se torna um dos seus personagens –é uma façanha da parte dos técnicos de direção de arte: O terminal é um local diversificado, preenchido de uma pluralidade demográfica espantosa, de um movimento e uma atmosfera orgânica e viva. É muito fácil ser iludido e presumir que Spielberg capturou aquelas cenas num terminal verdadeiro ao invés de ter recriado tudo em estúdio (que foi o que aconteceu). A magia do cinema só deixa evidente a artificialidade da encenação quando notamos que Spielberg lança mão de movimentos de câmera sofisticados e elaborados demais para uma filmagem feita em locação.
Uma crítica comum a “O Terminal” é que Spielberg já havia chegado num ponto em que era um diretor arrojado demais, cinematográfico demais, para tão modesta premissa –e esse argumento se reflete, sobretudo, no fato de que ele não consegue impedir o filme (bem longo) de extrapolar as duas horas de duração –no entanto, o diretor conduz com autêntica satisfação essa trama cheia de galhofa sobre um homem jogado numa cilada cujos tons absurdistas remetem à algumas obras dos anos 1980, seja em sua ingenuidade, seja em seu non-sense.
Com seu talento sem igual para o humor, Tom Hanks explora magnificamente as possibilidades cômicas que se constroem, numa oportunidade rara para divertir o público, tão constantes foram os projetos dramáticos que ele assumiu nos últimos anos.
E de fato, o protagonista e o ator que o interpreta respondem pelo que de mais genuíno e eficiente o filme tem: Como é inerente à camaradagem com a qual Spielberg enxerga seus personagens, Viktor logo encontra grandes amigos e aliados em meio à fauna de funcionários do terminal, como Enrique (Diego Luna), que lhe fornece comida desde que obtenha algumas informações sobre a bela mocinha do guichê de imigração por quem é enamorado (Zoe Saldana, antes dos sucessos de “Avatar” e “Guardiões da Galáxia”); e o desaforado zelador indiano Gupta (Kumar Pallana); além de alguns inimigos, sobretudo, o chefe de segurança do aeroporto (Stanley Tucci) que o vê como uma pedra no sapato.
Na narrativa que compõe, Spielberg não demora a enxergar o terminal como um microcosmos do mundo e da vida onde tudo nele acontece –não chega a ser surpreendente, assim, que por lá Viktor também encontra o amor nas formas da comissária de bordo vivida por Catherine Zeta-Jones (que demonstra menos química com Tom Hanks do que se poderia esperar).
No cômputo geral, “O Terminal” é um filme agradável e correto, o quê para o que se espera de um filme dirigido por Spielberg e estrelado por Hanks é quase uma frustração.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

O Dobro Ou Nada


O diretor inglês Stephen Frears não resiste à tentação de registrar um microcosmo em suas camadas humanas, morais e éticas, essa é a definição para praticamente todos os trabalhos que ele realizou.
Aqui não é diferente.
Ele lança seu olhar a um só tempo divertido e antropológico aos centros de apostas onde a protagonista cai de paraquedas. Ela é Beth Raymer, que proporciona à esmerada atriz Rebecca Hall (normalmente encarregada de papéis mais sérios) uma caracterização rica em técnicas estudadas –ainda que no fundo transpareça um certo histrionismo.
Da cidade de Tallahassee, onde amargava um degradante trabalho de stripper à domicílio, Beth vai para Las Vegas tentar a sorte e consegue emprego na casa de apostas do bookmaker Dink (Bruce Willis, em sua faceta mais vulnerável). Aos poucos, Beth se adapta aos números e às circunstâncias melindrosas das apostas fazendo o lugar usufruir de lucros.
Nesse trecho, o filme de Frears engata um ritmo de comédia... romântica, inclusive, já que o flerte algo inocente entre Beth e Dink aponta nessa direção.
Porém, o diretor está apenas se valendo de uma ampla experiência com expedientes de gênero para subverter a expectativa do público: O demasiado afeto que envolve a relação de Beth com o patrão Dink incomoda a esposa deste (Catherine Zeta-Jones) levando a moça a ser despedida.
Ao lado do apaixonado Jerry (Joshua Jackson), ela vai então para Nova York, onde se junta ao apostador Rosie (Vince Vaughn, com os mesmos tiques nervosos de sempre). Contudo, como bem lhe adverte Dink –que àquela altura já tornou-se uma espécie de mentor para Beth –as apostas são ilegais no Estado de Nova York, ao contrário do que acontece em Las Vegas, e uma aposta específica, envolvendo a vultuosa quantia de 75 mil dólares, pode colocar o FBI atrás de Beth e de Jerry.
Se “O Dobro Ou Nada” não chega aos níveis de excelência que Frears obteve em outros projetos, isso provavelmente se deve pelo fato do material tê-lo encontrado num período menos inspirado: Há algo de indiferente em sua narrativa que parece negligenciar o humor para fazer dele uma comédia e a tristeza para fazer dele um drama –ou até mesmo o amor para dele fazer um romance.
O filme termina sem um gênero definido, o que também o torna assim enfadonho na indecisão por um propósito –uma pena, o trabalho bastante radiante e notável de Rebecca Hall merecia o protagonismo de um filme mais eficaz.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Traffic

Após uma década inteira na qual explorou uma infinidade de gêneros e estilos, sempre evitando o cinema mainstream e conformista com projetos diferenciados como “O Inventor de Ilusões” ou “Schizopolis”, o diretor Steve Sodenbergh chegou num ponto da carreira em que tinha plena autonomia criativa e respaldo profissional para encarar uma obra com as exigências de “Traffic” que adaptava, num roteiro sucinto e pontual de Stephen Gagham, uma elogiada minissérie inglesa para o cinema.
É o épico de Sodenbergh sobre a guerra contra as drogas, mas, como é inerente ao seu cinema, nele as cenas de embate entre policiais e criminosos perdem toda a importância –são as imbricações pessoais de personagens direta ou indiretamente envolvidos na questão aquilo que de fato desperta a atenção do diretor.
Tratam-se de três tramas paralelas que expõem as complexas mazelas dessa guerra na fronteira entre o México e os EUA. Na primeira, um policial mexicano (Benicio Del Toro, no papel que lhe deu um merecido Oscar de Melhor Ator Coadjuvante; embora muitos afirmem, com certa razão, que ele é o ator principal do filme) busca manter seus princípios enquanto trabalha na fronteira, onde o tráfico e os cartéis –que lutam uns contra os outros –compram o auxílio da própria polícia.
Na segunda, um juiz da suprema corte (Michael Douglas) é nomeado o "novo czar das drogas", com a intenção de sanar o problema enfrentado nos EUA, mas não percebe que a própria filha (Erika Christensen) é viciada.
Na terceira, uma jovem grávida (Catherine Zeta-Jones) descobre que o marido é um barão das drogas no mesmo dia em que ele é preso e se vê obrigada a assumir os negócios da família.
Para distinguir cada uma dessas tramas –magnificamente encilhadas umas às outras pela primorosa montagem premiada com o Oscar –o diretor usa de um filtro que enfatiza três cores específicas para cada núcleo: A aridez do amarelo na primeira história, o azul formal dos escritórios em Washington, da segunda, e a normalidade cromática das ruas na terceira.

sábado, 9 de dezembro de 2017

Os Vencedores do Oscar 2003

Em meio à vitória de “Chicago” e a tentativa da Academia em resgatar o brilho do gênero musical, a grande surpresa foi o enorme reconhecimento à Roman Polanski e seu “O Pianista”, agraciado com três dos mais importantes prêmios da noite (Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Ator para Adrien Brody e Melhor Diretor –que tão cedo, Polanski não irá buscar...).
Houve certa surpresa na vitória de Catherine Zeta-Jones como Melhor Atriz Coadjuvante, assim como o espanhol “Fale Com Ela”, conquistando o prêmio de Melhor Roteiro Original.
Eu particularmente adorei ver Hayao Myiazaki levar o Oscar de Melhor Longa de Animação por seu maravilhoso “A Viagem deChihiro”.

MELHOR FILME
"Chicago"

MELHOR DIREÇÃO
"O Pianista", Roman Polanski

MELHOR ATRIZ
Nicole Kidman, "As Horas"

MELHOR ATOR
Adrien Brody, "O Pianista"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Catherine Zeta-Jones, "Chicago"

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Chris Cooper, "Adaptação"

MELHOR FOTOGRAFIA
"Estrada Para A Perdição"

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM LONGA-METRAGEM
"Tiros Em Columbine"

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM CURTA-METRAGEM
"Twin Towers"

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
"Lugar Nenhum Na África" (Alemanha)

MELHOR SOM
"Chicago"

MELHORES EFEITOS VISUAIS

MELHOR MAQUIAGEM
"Frida"

MELHOR FIGURINO
"Chicago"

MELHOR EDIÇÃO DE SOM
"O Senhor dos Anéis-As Duas Torres"

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE
"Chicago"

MELHOR TRILHA SONORA
“Frida"

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"Lose Yourself", de "8 Mile-Rua das Ilusões"

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
"Fale Com Ela"

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
"O Pianista"

MELHOR LONGA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO
"A Viagem de Chihiro"

MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO
"The Chubbchubbs!"

MELHOR MONTAGEM
"Chicago"

MELHOR CURTA-METRAGEM
"Der er em Yndig Mand”

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Chicago

A adaptação da célebre peça musical “Chicago” para o cinema foi um projeto acalentado por muito tempo pelo diretor Bob Fosse (e por conta de seu longo envolvimento guarda dele inúmeras similaridades estilísticas), entretanto, após sua morte, ela acabou transposta pelo jovem diretor –e coreógrafo assim como Fosse –Rob Marshall com descontração e talento para a tela grande.
“Chicago” representava, entre outras coisas, uma tentativa convulsiva do cinema hollywoodiano em resgatar a exuberância dos grandes musicais de antigamente: Um ano antes, esse reforço tinha se materializado no efervescente “Moulin Rouge”, com Nicole Kidman. Na comparação com a história de amor incontornavelmente kistch do diretor Baz Luhrmann, “Chicago” carrega bem menos em suas tintas cerimoniosas, preferindo conquistar a platéia com o charme natural do jazz e com uma série de escolhas sensatas em relação ao próprio gênero que abraça –e levando em consideração a pouca acessibilidade desse gênero para com o público atual: As cenas musicais que definem “Chicago” desde sua gênese, no filme, são traduzidas em devaneios inerentes à personagem principal.
Para todos os efeitos, portanto, “Chicago” aborda o expectador como um filme ‘normal’ sem exigir dele qualquer capacidade prévia de degustar um gênero que só era hábito para as antigas gerações.
Não obstante esse detalhe eficiente para com a narrativa e ao mesmo tempo negligente para com o gênero a que pertence, o filme é tão bem realizado (contornando com brilhantismo as restrições orçamentárias) e executado com tanta garra e vontade por seu elenco, que o prazer emanado de suas cenas fez com que público e crítica deixassem passar despercebido, à época, o cinismo contundente e corrosivo na visão do mundo, da sociedade e do sistema legislativo com a qual o filme é feito.
Como o título deixa bem claro, estamos na cidade de Chicago, nos anos 1920. Em busca de seu lugar no céu da fama, a loira Roxie Hart (Renee Zelwegger, cheia de energia) mata seu amante à sangue frio quando descobre suas promessas vazias –e, se a própria protagonista começa a trama cometendo um assassinato (e sua índole não dá o menor indício de melhorar ao longo do filme), pode ter certeza que estamos diante de uma obra que encara a maldade e a vilania, no mínimo, com indiferença.
Roxie vai para a prisão onde disputará os holofotes com Velma Kelly (Catherine Zeta-Jones, ganhadora do Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante), uma criminosa famosa, grande exemplo do fascínio que as fora-da-lei exerciam sobre a mídia (e nisso, o filme de Marshall parece lançar debochada analogia às questionáveis predileções culturais do nosso próprio tempo). Auxiliada por um advogado espertalhão (Richard Gere, surpreendente em sua interpretação de envolvente mau-caráter e absolutamente sensacional em todos os seus números musicais), e bancada pela displicência de um marido pra lá de passivo (John C. Reilly, hilário, e emocionante na performance da música “Mr. Cellophane”), Roxie busca fazer de sua permanência na cadeia a chance de se consagrar como uma grande estrela, enquanto tenta se livrar da condenação por homicídio que pode levá-la à forca.
Todas as variações, observações e monólogos contidos em cada etapa nessa trajetória de Roxie Hart são assim ilustrados por música, e “Chicago” diz a quê veio quando explode em cenas prodigiosamente bem executadas como “And All That Jazz”, “Cell Block Tango”, “When You’re Good To Mama” “Razzle Dazzle”, “I Move On” (esta, composta especialmente para o filme), “Class” e “Hot Money Rag”.

No mundo cínico cheio de crime, abuso, mau-caratismo e personagens completamente inescrupulosos concebido por Rob Marshall a música é, afinal, a única forma de vislumbrar alguma beleza e encanto nisso.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

A Máscara do Zorro

Vez outra surge um filme tão extraordinariamente genuíno, tão confiante e confortável com suas próprias características que arrebata público e crítica a ponto de quase ressuscitar um gênero que antes era dado como morto pelos estúdios.
Pode-se dizer que foi assim com “Gladiador”, em relação aos épicos romanos; com “Piratas do Caribe” em relação aos filmes de piratas (embora nenhum exemplar expressivo tenha surgido depois deles). E foi assim, também, com “A Máscara do Zorro”.
Uma prova inconteste da habilidade que o diretor inglês Martin Campbell possui para remodelar em seus elementos clássicos os heróis do passado (havia sido realizada por ele a bem-sucedida estréia de Pierce Brosnan como James Bond em “007 Contra Goldeneye”, e o início da reformulação do mesmo personagem, com Daniel Craig, uma década depois, em “Cassino Royale”), esta aventura capa-espada beneficiava-se acima de tudo de um trio protagonista prodigioso e suas mais fundamentais e bem aproveitadas qualidades: Anthony Hopkins –surpreendente numa inesperada escalação como o próprio Zorro –, Antonio Banderas –vivendo uma espécie de “segunda geração” do herói, e revelando-se, também ele, uma escolha perfeita –e a galesa Catherine Zeta-Jones, no filme que a revelou para o cinema hollywoodiano.
Dom Diego de La Vega, identidade secreta do herói mascarado Zorro, já em fim de carreira tem o seu segredo descoberto por seu pior inimigo, o opressor Don Rafael Montero, que o prende e lhe toma Helena, sua filhinha recém-nascida.
Os anos se passam na ainda oprimida província da Califórnia do século XVII, quando um já envelhecido Dom Diego (Anthony Hopkins, charmoso e altivo ao personificar duas facetas distintas do mesmo personagem) escapa e passa a treinar como seu sucessor o impetuoso e indisciplinado ladrão Allejandro Murietta (Antonio Banderas, tão interessante em seu papel quanto Hopkins). Seu objetivo é vingar-se de Rafael, agora um nobre fidalgo, e recuperar sua filha Helena, agora uma belíssima mulher que se enamora justamente de seu pupilo (vivida pela linda e fulgurante Catherine Zeta-Jones).
A solução para todos os desenlaces e conflitos, por vezes repousa no retorno mais do que necessário do lendário Zorro.
Das mais saborosas versões do herói já produzidas e repleta de cenas divertidíssimas de ação, esta eufórica e empolgante produção, se desliza em algum quesito certamente é em seus vilões. Seja Rafael (Stuart Wilson), seja o almofadinha detestável, capitão Harrison Love (Matt Letscher), nenhum deles consegue igualar a dupla central em carisma e presença de cena.
Mas, é certamente uma falha menor diante de um filme capaz de proporcionar um prazer tão genuinamente escapista ao expectador.