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sexta-feira, 27 de janeiro de 2023

Frances


 Há em “Frances”, do diretor Graeme Clifford, uma densidade que o faz incontornavelmente deprimente, contudo, não havia, de fato, como evitar tal sensação diante da trajetória tão singular –e hoje profundamente alarmante e inacreditável –da atriz norte-americana Frances Farmer, cuja inadequação aos padrões de conduta de sua época (meados dos anos 1930 e 40) a levaram a sofrer pressões de tal forma severas que a levaram à loucura.

Mas, vamos por partes. Nascida na cidade de Seattle, ainda no início da década de 1930, Fances Elena Farmer (vivida do início ao fim pelo minimalismo impecável de Jessica Lange), aos 16 anos, choca a sociedade local com uma dissertação na qual ela questiona a existência de Deus. Já ali, Frances exibia as posturas avançadas que viriam, nos anos por vir, a lhe cobrar um alto preço: Questionadora para com a religião cegamente devota –não era necessariamente atéia, mas bastante ferrenha em relação às suas dúvidas cristãs –e inclinada ao comunismo, como fica bem claro com a longeva amizade que nutre, ao longo da vida, com o jornalista de esquerda Harry York (Sam Shepard, casado com Jessica na vida real).

Logo, Seattle se torna pequena demais para Frances que, após revelar-se promissora em peças teatrais locais e atrever-se numa viagem à Rússia, acaba obtendo um contrato de exclusividade com a Paramount Pictures, onde o filme “Meu Filho É Meu Rival” a converte em uma estrela –e, nesse processo, ao casar-se com o também ator Dick Steele (Christopher Pennock), Frances inicia uma sucessão de relacionamentos mal-fadados.

Farta do esquema hollywoodiano de produção –onde as atrizes não tinham qualquer interferência na qualidade do material, servindo de mero adereço às produções –Frances busca desafios profissionais mais estimulantes em Nova York, na Broadway, onde uma peça de cunho profundamente filosófico e artístico lhe desperta as atenções. Ela termina também na cama do autor do script, o dramaturgo Clifford Odets (Jeffrey DeMunn, de “Cidadão X”), só para ser descartada quando os homens não mais precisam dela: Quando a peça atinge inquestionável sucesso de público, em grande parte devido ao seu status de estrela cinematográfica, os produtores a substituem, durante os preparativos para a apresentação em Londres, por outra protagonista, e Clifford a rejeita com um grosseiro bilhete anunciando a chegada de sua esposa.

Relutante, Frances regressa para Hollywood, onde as coisas agora mudaram: Sua predileção pelo teatro, em detrimento às produções de cinema, fizeram desgostoso o todo-poderoso chefe da Paramount Pictures (Allan Rich, de “Quero Dizer Que Te Amo”) que, ao lado da crítica insidiosa Louella Parsons, coloca toda Los Angeles contra Frances. Exaurida pelo ambiente tóxico, Frances –que, até então, começa a demonstrar certo grau de alcoolismo devido à tumultuadas filmagens realizadas à contra-gosto no México –começa a ter seus primeiros surtos de ansiedade, o que a leva a ser internada numa clínica psiquiátrica pela mãe (Kim Stanley, de “Os Eleitos”, também com Shepard no elenco).

Será só o começo de seu pesadelo.

Os médicos se recusam a liberá-la para uma vida normal e saudável –em parte, pela boa repercussão que a presença de uma estrela de cinema internada proporciona à clínica, em parte, pela insistência negativista da mãe –mesmo diante de indícios pertinentes vindos da própria Frances de que ela é mentalmente sã. Quando finalmente sai –não sem antes tentar uma fuga, auxiliada pela única pessoa que continua ao seu lado em todos os percalços, Harry York –ela é deixada aos cuidados da mãe, tendo sua autonomia como adulta legalmente suspensa.

Contudo, a mãe de Frances (no roteiro romantizado escrito por Eric Bergren, Christopher De Vore e Nicholas Kazan, este também roteirista de “O Reverso da Fortuna”) revela-se menos alguém preocupada com o bem-estar da própria filha, e mais um indivíduo disposto a enxergar nela as aspirações que almejou para si: A despeito da vontade cada vez maior de Frances afastar-se por completo do sufocante e pernicioso sistema de Hollywood (mostrado no filme como um universo abusivo e dissimulado), sua mãe lhe dá somente duas alternativas; ou regressa de uma vez por todas à vida de atriz famosa, ou retorna para as clínicas psiquiátricas. A medida que os atritos se sucedem –pois, Frances se recusa veementemente a viver uma vida que não quer para si –as instituições nas quais é enviada por sua mãe, com todos os aparatos legais, vão se tornando cada vez mais precárias e degradantes, em sequências lúgubres e consternadoras que certamente inspiraram Jane Campion em “Um Anjo Em Minha Mesa”. Num dos últimos sanatórios, Frances era estuprada por quem pagasse mais aos enfermeiros pela chance de fazer sexo com uma estrela de cinema (!). Até que, por fim, Frances é submetida a uma lobotomia!

Um retrato impiedoso das circunstâncias arcaicas de tempos mais remotos –sejam os tratamentos psiquiátricos atrozes e os especialistas da área desprovidos de qualquer tato para com os pacientes; sejam os meandros corrosivos e absolutamente tendenciosos da impressa e dos bastidores da fama –“Frances”, mesmo que pesado e amargo, ainda é mais ameno que a triste história real na qual se inspira. Mesmo assim, o filme não seria nem metade do que é não fosse a presença primorosa de Jessica Lange no papel principal: Ela foi indicada ao Oscar 1983 de Melhor Atriz onde concorreu com Julie Andrews (“Victor Ou Victória”), Debra Winger (“A Força do Destino”) e Sissi Spacek (“Missing-O Desaparecido”), e perdeu para Meryl Streep por “A Escolha de Sofia”. Prova de que, não fosse aquele trabalho descomunal de Meryl, ela teria ganhado em qualquer outra edição, é que, no mesmo ano, Jessica foi premiada com o Oscar de Melhor Coadjuvante por “Tootsie”, provavelmente uma compensação por parte da Academia.

segunda-feira, 15 de agosto de 2022

O Destino Bate À Sua Porta


 Uma cria da Nova Hollywood, o diretor Bob Rafelson, a exemplo dos Irmãos Coen com “Gosto de Sangue”, do mesmo período, almejou transpor uma narrativa de filme noir transfigurada para as ousadias mais possíveis e amplas de suas possibilidades sexuais e visuais para o cinema dos anos 1980, ao realizar este “O Destino Bate À Sua Porta”. Diferente dos Coen, entretanto, Rafelson refilmava o que havia sido um filme noir de fato –uma produção de 1946 dirigida por Tay Garnett –uma trama sobre adultério e homicídio premeditado.

O andarilho Frank (Jack Nicholson em sua quarta colaboração com o diretor depois de co-roteirizar “Os Monkees Estão À Solta” e estrelar “Cada Um Vive Como Quer” e “O Rei da Ilusão”) chega ao restaurante de beira de estrada conduzido pelo grego Nick Papadakis (John Colicos, de “A Troca”) e por sua sensual esposa Cora (a linda Jessica Lange). Nos códigos impregnados de propósito de sua narrativa liberadamente sensual, Rafelson expõe, nessa primeira parte, a disparidade entre o casal Nick e Cora: Ela, desejável e bela; ele, desmazelado e repulsivo.

Embora não seja nenhum vilão –retratado com a ambiguidade de uma vítima em potencial como toca ao bom cinema dramatúrgico –não demora o filme despertar o questionamento do expectador acerca da viabilidade desse matrimônio; e com isso fazendo o público cúmplice das obviedades que estão por vir: Frank, disponível, afoito e interessado, irá converter-se, sim, em amante de Cora –numa cena salpicada de audácia, onde fazem sexo sobre a mesa da cozinha!

Na esteira disso, a conclusão obscura e bastante inerente aos filmes noir: O crime (ou melhor, o assassinato) é o atalho mais curto para esposa e amante se livrarem do empecilho que representa ser o marido.

Embora se atenha com certa reverência à trama vinda do filme antigo, o trabalho de Rafelson na condução dessa narrativa nunca deixa de almejar a desmistificação: O próprio ato do homicídio em si, é despido das pulsões abruptas e de certa forma eloquentes do gênero. A morte surge num viés hediondo e fisiológico que a faz terrível e desagradável em qualquer ângulo. É notável também o modo como Rafelson sublinha o papel da mulher nessa execução em detrimento de um parceiro masculino inesperadamente falho e relutante.

Curioso em sua realização (sobretudo, pelo modo com que ressalta seu imprevisto erotismo), lento em sua narrativa (uma característica que Rafelson já demonstrara em outros trabalhos) e indefinido enquanto gênero (oscila entre um suspense de ares fatalista, um drama de obscuras predisposições criminais e, veja só, uma história de amor) “O Destino Bate À Sua Porta” parece deliberadamente ser um corpo estranho no formato e na estrutura  em que se concretiza, sensação potencializada pelo final um tanto arbitrário como forma de ratificar uma moral onipresente sobre o destino torpe de seus personagens.

quarta-feira, 9 de junho de 2021

Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas


 O que é a memória? Certamente, no âmbito do cinema, essa pergunta encontra as mais ambíguas respostas. Para Federico Fellini, em seu antológico “Amarcord”, a memória é um filtro através do qual a nostalgia e o romantismo modificam o passado. Já, para Tim Burton, ou mais especificamente para seu protagonista em “Peixe Grande”, a memória é uma via de mão dupla por onde transcorrem verdades e mentiras a confundir até mesmo as convicções do próprio narrador. Com efeito, é em tais memórias –ou nas histórias contadas na qualidade de memórias –que “Peixe Grande” se transfigura, em termos reconhecidamente visuais, num filme de Tim Burton de fato; no mais, a narrativa discreta e austera emula, antes disso, um filme mais convencional e pé no chão, distinguindo estilisticamente o que é conto do que é fato.

Essa tentativa de separar o joio do trigo começa com o já idoso Edward Bloom (o sensacional Albert Finney), um contador de histórias nato –são notórias as narrações de suas aventuras malucas, entre as quais, aquela na qual pescou um peixe de tamanho descomunal.

Seu ouvinte mais desconfiado é e sempre foi seu filho William (Billy Crudup). Com idade adulta, William dá um basta nas historietas do pai –e na pressuposição de que, sendo elas mentiras, então ele nunca o conheceu de fato –e sai de casa.

Eles se reencontram anos depois, quando Edward fica doente, levando o filho a voltar ao convívio com o pai. Contudo, agora William quer descobrir a verdade por trás de todas aquelas histórias fantásticas. E é aí –no regresso ao passado idealizado –que “Peixe Grande” dá asas aos delírios de seu diretor.

No passado, acompanhamos Edward (vivido na aventureira juventude por Ewan McGregor) em suas peripécias pelos EUA, quando era vendedor itinerante, ofício que permitiu-o viajar e descobrir preciosidades como uma cidade escondida dentro de um pântano; um circo administrado por um lobisomen (Danny De Vitto); e o amor de sua vida (vivido por Allison Lohman, quando moça, e pela bela Jessica Lange, na idade avançada).

É nessa dicotomia visual entre a história que aconteceu e a história como ela foi contada que residem não só os grandes méritos artísticos e estéticos do filme de Burton, como também suas mais profundas reflexões: O passado, transmutado por uma vasta imaginação, se torna assim um sonho; e não é o sonho, afinal, bem mais agradável que a árdua e decepcionante vida real?

É essa a pergunta que, em dado ponto, o filme de Burton parece fazer ao público: Há algum mal em temperar os acontecimentos medíocres de outrora com uma melodia e uma poesia que os converte em pura fascinação? Que crime há nisso?

A narrativa de Tim Burton desvencilha-se habilmente do fato de que enaltece o ato da mentira com um filme visualmente sedutor, e uma trama sobre o resgate da relação pai e filho cujas propriedades tem o genuíno poder de encantar o expectador.

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

Crimes do Coração


 Baseada na peça teatral “Crimes Of The Heart”, da dramaturga Beth Henley, a trama que conduz o filme realizado pelo australiano Bruce Beresford tem como elemento particular as idiossincrasias flagradas em seus personagens por meio do texto cheio de peculiaridade e estranheza.

Esse retrato rico em excentricidade de uma família do Sul dos EUA se incumbe basicamente de girar em torno das três irmãs Magrath, reunidas debaixo do mesmo teto após algum tempo separadas –tempo este que só ressaltou suas insondáveis diferenças: Lenny (Diane Keaton), a mais velha e mais acomodada se ressente pelo excesso de responsabilidade para com seu avô doente (Hurd Hatfield, de “Profissão: Ladrão”), o que a manteve presa e estagnada numa cidadezinha que não lhe reservava nem marido, nem futuro e nem felicidade; Babe (Sissy Spacek), a mais jovem, vive equilibrando-se na própria instabilidade o que a leva a contratempos calorosos como a tentativa de assassinato do próprio marido (pelo qual ela se vê na iminência de um lamentável julgamento) e um caso de adultério com um rapaz negro (e sendo ali o segregado sul dos EUA, a repercussão de tal caso resvala em perigo real); por fim, Meggy (Jessica Lange), a irmã do meio, a tempos ausente de casa na busca ainda infrutífera de seu sonho em virar estrela –fracasso este que não a impede de distribuir histórias inventadas por toda a vizinhança, inclusive para o apaixonado Doc (Sam Sheppard, marido de Jessica na vida real), também ele um homem casado.

Os temperamentos bastante distintos das três irmãs –e, não rato, conflituosos uns com os outros –encontram quase um único ponto da equilíbrio: O pesar impronunciável que o suicídio da mãe provocou em cada uma delas.

Ambientado quase todo no cenário do belo casarão da família delas –embora o filme escape, para efeitos de transposição cinematográfica, para um ou outro ambiente diferente em algumas cenas adaptadas –o trabalho de Beresford, como praticamente todos os filmes entregues por ele, segue seu estilo austero, privilegiando a beleza poética de pequenos detalhes banais do dia-a-dia (o assoprar de velas de um bolo de ainversário; a colheita de algumas frutas maduras; a contemplação do entardecer), o que provoca uma curiosa contração no humor peculiar e no excentrismo comportamental do texto original, fazendo tais características diluírem até quase desaparecerem.

Se o filme prende o expectador até o fim –tarefa que não é cumprida com toda a unanimidade do público –é pelo empenho e pela capacidade esplêndida do trio sensacional de atrizes reunidas: Alternando humores, richas, nervos acirrados, alegrias e tristezas, Keaton, Lange e Spacek estão formidáveis cada qual em seu papel, valorizando uma obra construída essencialmente para a dinâmica do palco, onde o elenco é, por definição, sua majestade.

sábado, 28 de abril de 2018

Os Vencedores do Oscar 1983

A Academia gosta mesmo de premiar atores que se aventuram atrás das câmeras. Foi assim na cerimônia do Oscar de 1983 onde saiu vitorioso o veterano ator inglês Richard Attenborough por sua empreitada como diretor no épico pacifista “Gandhi” –só isso para justificar mesmo sua vitória sobre diretores renomados e em trabalhos fabulosos que concorriam ao mesmo prêmio como Sidney Pollack, por “Tootsie” (que, pelo menos, levou a estatueta de Atriz Coadjuvante para a belíssima Jessica Lange) e Steven Spielberg, por “E.T. O Extraterrestre” (que ficou com quatro prêmios técnicos), ou o alemão Wolfgang Petersen em “O Barco-Inferno No Mar” que entregava um trabalho notável e sufocante.
“Gandhi” também deu o Oscar de Melhor Ator ao grande Ben Kingsley –o curioso é que Kingsley só passou a ter uma carreira regular em bons projetos quase uma década depois de sua premiação.
A cerimônia de 83 também marcou a vitória inquestionável e inevitável da extraordinária Meryl Streep por aquele que talvez seja o grande trabalho de toda sua carreira, o poderoso e doloroso “AEscolha de Sofia”.

MELHOR FILME
"Gandhi"

MELHOR DIREÇÃO
"Gandhi", Richard Attenborough

MELHOR ATRIZ
Meryl Streep, "A Escolha de Sofia"

MELHOR ATOR
Ben Kingsley, "Gandhi"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Jessica Lange, "Tootsie"

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Louis Gosset Jr., "A Força do Destino"

MELHOR FOTOGRAFIA
"Gandhi"

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
"Começar de Novo" (Espanha)

MELHORES EFEITOS SONOROS
"E.T. O Extraterrestre"

MELHORES EFEITOS ESPECIAIS
"E.T. O Extraterrestre"

MELHOR MAQUIAGEM

MELHOR FIGURINO
"Gandhi"

MELHOR SOM
"E.T. O Extraterrestre"

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE
"Gandhi"

MELHOR TRILHA SONORA ORIGINAL
“E.T. O Extraterrestre"

MELHOR TRILHA SONORA ADAPTADA

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"Up Where We Belong", de "A Força do Destino"

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
"Gandhi"

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
"Desaparecido"

MELHOR MONTAGEM
"Gandhi"

sábado, 3 de fevereiro de 2018

Os Vencedores do Oscar 1995

Se na cerimônia do ano anterior (a ser publicada semana que vem) o grande vencedor havia sido Steven Spielberg, em 1995, foi a vez de um de seus apadrinhados, o realizador Robert Zemeckis, de “De Volta Para O Futuro” –que recebeu seu Oscar pelas mãos do próprio Spielberg e viu seu “Forrest Gump-O Contador de Histórias” consagrar-se com 6 estatuetas.
A lamentar o reconhecimento tão tímido prestado à “Pulp Fiction-Tempo de Violência”, de Quentin Tarantino (somente Melhor Roteiro Original), e a completa ausência de prêmios a um dos melhores filmes da noite –senão O melhor –o primoroso “Um Sonho de Liberdade”.
Tom Hanks fez história ao receber seu segundo Oscar consecutivo de Melhor Ator (falaremos sobre o primeiro também na semana que vem) e ficou um gosto um pouco amargo na boca pela vitória de Jessica Lange por um filme realizado em 1991, no entanto, lançado só em 1994 –significa que, se fosse lançado em seu ano de produção, Jessica competiria com Jodie Foster, por “O Silêncio dos Inocentes” e com Suzan Sarandon e Geena Davis por “Thelma &Louise” (ou seja, não teria a menor chance!).
Agora, barbada foram os coadjuvantes: Não havia como negar o prêmio ao estupendo Martin Landau por “Ed Wood” e nem à maravilhosa Dianne Wiest por “Tiros Na Broadway”.

MELHOR FILME
"Forrest Gump-O Contador de Histórias"

MELHOR DIREÇÃO
"Forrest Gump-O Contador de Histórias", Robert Zemeckis

MELHOR ATRIZ
Jessica Lange, "Céu Azul"

MELHOR ATOR
Tom Hanks, "Forrest Gump-O Contador de Histórias"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Dianne Wiest, "Tiros Na Broadway"

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Martin Landau, "Ed Wood"

MELHOR FOTOGRAFIA

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM LONGA-METRAGEM
"A Great Day In Harlem"

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM CURTA-METRAGEM
"A Time For Justice"

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
"O Sol Enganador" (Rússia)

MELHORES EFEITOS SONOROS

MELHORES EFEITOS ESPECIAIS
"Forrest Gump-O Contador de Histórias"

MELHOR MAQUIAGEM
"Ed Wood"

MELHOR FIGURINO
"Priscilla-A Rainha do Deserto"

MELHOR SOM
"Velocidade Máxima"

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE
"As Loucuras do Rei George"

MELHOR TRILHA SONORA

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"Can You Feel The Love Tonight", de "O Rei Leão"

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
"Pulp Fiction-Tempo de Violência"

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
"Forrest Gump-O Contador de Histórias"

MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO
"Bob’s Birthday"

MELHOR MONTAGEM
"Forrest Gump-O Contador de Histórias"

MELHOR CURTA-METRAGEM
"Kafka’s It’s A Wonderful Life” e "Trevor”

terça-feira, 2 de maio de 2017

All That Jazz - O Show Deve Continuar

Os projetos do diretor Bob Fosse sempre caminharam, cada vez mais, na direção de uma auto-referência: Dono de um estilo forte e singular na maneira com que assimilava o realismo cinematográfico e o contrapunha à estrutura do gênero musical –do qual urgiu obras-primas como “Cabaret” –Fosse inspirava-se, para tanto, em modelos criativos vindos da Europa, indo de encontro à pecha de elitista: Federico Fellini e Ingmar Bergman eram, por vezes, influentes em suas obras.
É sobretudo, inspirado pelo primeiro e seu arrojado “8 e ½” que Fosse moldou também ele uma obra de metalinguagem de fortes tintas autobiográficas que –ao contrário do bloqueio criativo do filme de Fellini –focava a aflição de seu protagonista numa quase indefinível e até perigosa sensação de viver com tal intensidade que a pessoa ameaça se esvair.
Seu filme se debruça então na insistência de um diretor e coreógrafo (Roy Scheider, no papel do alter-ego de Fosse) em viver e amar, a despeito das advertências de seus médicos que afirmam que no ritmo em que vive pode sofrer um ataque cardíaco a qualquer momento.
Por essa razão, não raro ele enxerga o Anjo da Morte, na forma de uma bela e convidativa mulher (uma presença silenciosa e lúdica de Jessica Lange), a observá-lo seguir por um caminho inevitável.
Essa via-crusis adquire constantes características dos próprios musicais que ele elabora, dando às percepções metafísicas do cotidiano –ainda mais intensificadas em sua indulgência e seu questionamento pela proximidade da morte –uma névoa intrigante de sombria celebração. Talvez, a obra de Bob Fosse que resume com maior sinceridade a sua própria vida, assimilando por isso mesmo muitas das suas influências cinematográficas e teatrais, e fazendo referência à projetos que ele tocou na vida real como a biografia "Lenny" (o filme sobre um cômico cheio de histrionismo mostrado apenas nos bastidores lembra muito o filme com Dustin Hofman) e a frustrada tentativa de adaptar "Chicago" (cuja linguagem Fosse buscou adaptar até a morte, sendo materializado em filme somente em 2002, por Rob Marshall) –o título deste filme, a propósito, é extraído de uma música da peça “Chicago”!
Apesar de todos esses detalhes que ajudam a tornar mais intrigante e rica sua experiência, “All That Jazz” não escapa ao fato de que sua dramaticidade algo anacrônica e o excesso de egocentrismo da parte de seu realizador o fazem um musical bastante datado e enfadonho para os dias de hoje.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Tootsie

É sempre bom lembrar do gênio versátil que tinha o falecido diretor Sydney Pollack.
Daquela que é possivelmente uma de suas fases mais produtivas –os anos 1980 –surgiu um de seus trabalhos mais apreciados pelo público: O maravilhoso “Tootsie”.
Nele, somos agraciados com mais uma extraordinária atuação de Dustin Hoffman, mas, todavia, aqui as coisas são diferentes: Dustin interpreta não apenas o ator Michael Dorsey, talentoso, porém desempregado em razão dos constantes embates que seu gênio criativo o leva a travar com os diretores (e que por isso, o restringe às insuficientes aulas de interpretação); Dustin também interpreta Doroty Michaels, a personagem feminina em quem Michael se traveste para enfim conquistar um emprego como parte de um elenco fixo de uma novela, e ter, afinal, dinheiro para pagar as contas.
Aos trancos e barrancos, ele vai mantendo sua farsa a despeito das complicações que aparecem: Uma namorada de quem ele tenta esconder tudo; o sucesso cada vez maior da personagem que está interpretando (na novela!); os avanços assanhados do diretor do programa.
É quanto ele se apaixona por uma colega de trabalho (interpretada por uma belíssima Jéssica Lange, vencedora do Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante) que as coisas ameaçam começar, de fato, a dar errado.

Perspicaz, o diretor Pollack (que aqui dá algumas investidas como ator no papel do agente perplexo de Michael) ampara todo o roteiro, e o humor que dele advém, em seu magistral elenco –onde (não havia como ser diferente) brilha a inacreditável desenvoltura de Dustin Hoffman.

terça-feira, 26 de abril de 2016

King Kong - As três versões

Dentre os poucos casos de refilmagem que levam um sopro de novidade ao material original, um que sempre apreciei muito foi “King Kong”. Está certo que, além do longa seminal de Merian C. Cooper e Ernest B. Schoedsack, lançado em 1933, há também o remake feito em 1976 por John Guilhermin com uma estonteante Jessica Lange e apinhado de duvidosos subterfúgios psicológicos que tinham a intenção de atualizar a obra, e transpor seu contexto para aquele mundo dos anos 1970 de então. Entretanto, até mesmo aquele trabalho (recheado de elementos cinematográficos e sociais daquele período, todos passíveis de um belo estudo) guarda momentos, senão memoráveis, pelos menos francamente interessantes.

Mas, na louvável refilmagem de Peter Jackson, de 2005, não é só isso que acontece. Em tudo e por tudo, Jackson quer compreender o longa de 1933, e preservar-lhe a época e a ambientação, conferindo distinção em seu trabalho: O “King Kong” de Merian Cooper se passava no mesmo ano em que a história transcorria, com suas imagens em preto e branco e seus efeitos especiais pioneiros e jurássicos (mas, à época realmente eficientes e impressionantes).
O “King Kong” de Peter Jackson se passava igualmente em 1933, o que o obriga a assumir-se também como filme de época. E as percepções que o filme de Jackson obtém a partir disso são o grande diferencial da produção.
A trama, contudo, manteve-se intacta: A aspirante a atriz Ann Darrow, um dos membros da expedição do cineasta Carl Denhan à pré-histórica Ilha da Caveira desperta os instintos do mais poderoso ser do lugar, o gorila gigante Kong, que a toma para si. Um grupo de resgate é então montado pelo apaixonado Jack Driscol para salvá-la. No encalço de todos, Kong ataca. Ao ser capturado, ele é levado à Nova York, onde será abatido por aviões no topo do Empire State numa cena que é um dos momentos verdadeiramente emblemáticos do cinema.
PS: Acho particularmente linda a homenagem à "King Kong" feita em uma cena de "Regras da Vida", de Lasse Halstrom.