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quarta-feira, 3 de março de 2021

Obrigado Por Fumar


 Filme que revelou o diretor Jason Reitman, de “Juno” e “Amor Sem Escalas”, e filho do também diretor Ivan Reitman, “Obrigado Por Fumar” deixa em bastante evidência o talento de seu jovem realizador e sua predisposição em trilhar caminhos nada usuais da narrativa, optando por exemplo, pela improvável escolha da loquacidade em detrimento da ação física, algo que, pelo bons resultados obtidos, já faz dele um cineasta mais talentoso que o pai.

O audaz roteiro de “Obrigado Por Fumar” contrapõe a habilidade verbal de seu protagonista a situações inicialmente ingratas e incontornáveis.

Prova disso é já sua cena inicial: Nick Naylor (o ótimo Aaron Eckhart no papel que habilitou-o para interpretar o Duas-Caras em “Batman-Cavaleiro das Trevas”) é um lobista. Sua função é tornar comercialmente viável um produto controverso, no caso, o cigarro, alvo de constantes campanhas contra o câncer de pulmão e outros males. Quando o filme começa, o vemos numa programa de auditório, confrontado por membros de organizações contrárias ao tabagismo e –pasmem! –junto de um garoto com câncer no pulmão (!).

Contra as probabilidades mais pessimistas, Naylor escapa dessa e de outras arapucas mais; sua lábia é, portanto, o fator que o torna inestimável em seu ofício, mesmo em face de um chefe invejoso e recalcado (J.K. Simmons), e de um senador (William H. Macy) dedicado a sabotar a indústria de tabaco norte-americana condenando seus malefícios em cadeia nacional.

Como rege aos conceitos de um arco narrativo que se preze existe, na trajetória de Naylor, elementos que desfraldarão seu lado humano –sobretudo, a relação com o filho (Cameron Bright, de “Reencarnação”), único indivíduo que alcança seu afeto; e o flerte esperançoso e tórrido com uma jovem e bela repórter (Katie Holmes, de "Batman Begins") –e, por meio deles, o diretor Reitman vislumbra também a derrocada de todas as suas certezas e convicções: O súbito esvaziar dos argumentos quando ele é colocado numa situação delicada, o que acarreta o desaparecimento dos cínicos que lhe davam tapinhas nas costas fingindo amizade.

Diante de sua queda, resta a Naylor somente os amigos verdadeiros e os laços genuínos que construiu, entre os quais, os amigos de mesa de bar –cujas cenas surgem quase como interseções na narrativa –interpretados por Maria Belo, de “Marcas da Violência” (ela uma lobista da indústria de bebidas alcoólicas), e por David Koechner, de “O Âncora-A Lenda de Ron Burgundy” (ele, lobista da indústria de armas de fogo).

Não há, no entanto, nesse arco assim esboçado, apesar das aparências, a intenção de se converter esses percalços em drama: Reitman é hábil no manuseio dos expedientes de comédia e ressalta, ao longo dessa espécie de via-crusis, o raciocínio ferino e rápido de seu protagonista, refletindo na narrativa sua propensão em enxergar pelo prisma da ironia e não da comiseração os revezes que sobre ele se abatem.

A construção plena de brilhantismo de “Obrigado Por Fumar” termina por sublinhar o auspicioso talento de todos os envolvidos, neste filme um tanto surpreendente.

sábado, 29 de fevereiro de 2020

Midway - Batalha Em Alto-Mar

As intenções na realização de “Midway” almejadas pelo diretor Roland Emmerich (de “Independence Day”) são tão ambiciosas, amplas e megalomaníacas que todo seu escopo se acomodaria facilmente numa minissérie.
Entretanto, ao optar pelo formato cinematográfico de longa-metragem, ele arriscou-se a encapsular uma narrativa povoada de personagens e de acontecimentos históricos de natureza mais didática que o normal num roteiro hollywoodiano na improvável duração de duas horas e dezoito minutos.
Emmerich, porém, o faz atento às referências pertinentes para a categoria de cinema que adentra: Seu vasto e diversificado elenco traz rostos que parecem escolhidos a partir do mesmo critério usado por Christopher Nolan em “Dunkirk” –atores e atrizes de fisionomia clássica, aparentando realmente indivíduos que viveram na década de 1940. Já, o seu prólogo lembra, não à toa, o início de “Cartas Para Iwo Jima”, de Clint Eastwood, informando-nos que um dos protagonistas, o Oficial de Inteligência Edwin Layton (Patrick Wilson) viveu um período no Japão dos anos 1930; o profundo conhecimento da cultura japonesa e de sua mentalidade estrategista será importante à Layton na década seguinte, quando o Japão já estiver aliado aos nazistas na Segunda Guerra Mundial e, por meio do inesperado ataque à Base Aérea de Pearl Harbor (recriado com grandes semelhanças ao trabalho de Michael Bay no filme “Pearl Harbor”) fazer com que os EUA, até então auto-declarados neutros, ingressem no conflito.
Já fica claro aí, portanto, que em suas pretensões artísticas, “Midway” deseja ser mais abrangente, em termos históricos, do que qualquer superprodução que veio antes dele.
Após o ataque de Pearl Harbor –que ocupa um tempo considerável do primeiro terço se pensarmos que este não é o tema central –o filme trata de, numa sucessão de ganchos histórico-narrativos, introduzir uma série quase interminável de seus demais protagonistas: O piloto audacioso e indisciplinado Dick Best (Ed Skrein, de “Deadpool”) e seu oficial, o tenente Wade McClusky (Luke Evans, de “A Garota No Trem” e “A Bela e A Fera”), ambos servindo a bordo do destróier USS Yorktown comandado primeiro pelo Almirante William Halsey (Dennis Quaid), depois pelo Almirante Raymond Spruance (Jake Weber, de “Madrugada dos Mortos”); e o coronel Chester Nimitz (Woody Harrelson) que ao lado de Layton e de um time de oficias de contra-inteligência tentarão prever a próxima manobra dos inimigos –que, eles têm quase certeza, será uma ofensiva no Mar de Coral e no Atol de Midway a fim de avançar com a frota marítima pelo Oceano Pacífico pegando de assalto o oeste dos EUA.
Aqui e ali, o filme também captura impressões de outros personagens coadjuvantes como a aflição da esposa do piloto Best, Anne (a belíssima Mandy Moore), ou os percalços do humilde auxiliar de mecânico de um dos porta-aviões, Bruno (o cantor Nick Jonas).
Além desses núcleos –que em si já se revelam numerosos e certamente um pesadelo para a montagem (a cargo de Adam Wolfe) –o filme também vai de encontro ao politicamente correto, não obstante seu incontido patriotismo, ao dar expressão e tempo de cena aos oponentes japoneses (um elenco que inclui Tadanobu Asano, de “Tabu”,Etsushi Toyokawa, de “A Espada do Desespero”, e Jun Kunimura, de “Audition” e “Kill Bill”), mostrados com humanidade, indecisão e temor diante da morte tanto quanto seus adversários norte-americanos.
Um filme, como se pode notar, de intenções bastante ambiciosas quanto ao alcance de sua narrativa.
Esse objetivo em parte perde-se devido ao perfil do diretor: Se Roland Emmerich, por um lado, tem plena confiança da abordagem técnica e reconstituição realista que seus departamentos de execução e desenvolvimento fazem das batalhas aéreas e em alto-mar (e, de fato, isso responde pelo apelo maior do filme), por outro, a amplitude de seus interesses esbarra no seu desleixo notório em dirigir adequadamente o grande elenco, na organização nem sempre harmoniosa e perfeita das diversas unidades narrativas e na pouca importância que ele deliberadamente dispõe ao drama humano tornando-o repetitivo, monocromático e redundante.
O gênero do cinema bélico possui um nicho de público que de fato procura estes exemplares mais interessado na pirotecnia do que no bom acabamento dramático, contudo, também existem nele títulos de primeira grandeza cinematográfica como “A Um Passo da Eternidade” e “Tora! Tora! Tora!”, visivelmente as grandes influências para este projeto, que consegue unir a urgência do conflito à ênfase maior no fator humano.
Algo que, aqui, não foi alcançado.

sexta-feira, 17 de maio de 2019

Dália Negra

Prova de que James Ellroy não é um autor fácil de ser transposto para os meandros narrativos do cinema é o brilhante “Los Angeles-Cidade Proibida”, do diretor Curtis Hanson: Tão mais brilhante ele é pela maneira com que encontra, numa estrutura cinematográfica, para agregar as muitas ponderações que convergem na trama policial lá concretizada.
Nesta nova adaptação de um romance de James Ellroy se podia pressentir o conceito bastante promissor ao unir um escritor de hábeis narrativas criminais e um diretor especializado em obras tensas e violentas, capazes de tirar o fôlego da plateia e que, não obstante os anos de experiência acalentados, conseguiu se manter relativamente autoral. E, de fato, fiel à pecha de brilhante artesão que sempre o acompanhou, o diretor De Palma reforça elementos, neste film noir contemporâneo, que fazem e fizeram dele um dos grandes estetas do suspense.
Dois policiais (Josh Hartnett e Aaron Eckhart), antigos adversários de pugilismo (apropriadamente apelidados então de ‘Mr. Ice’ e ‘Mr. Fire’) e agora parceiros, são incumbidos de um caso que chocou a Los Angeles dos anos 1920 (e que é inteiramente inspirado num caso real que abalou a crônica policial daquela época): O macabro e brutal assassinato da jovem aspirante a atriz Elizabeth Short (mostrada somente num filme dentro do filme, e vivida pela atriz Mia Kirshner).
Um deles torna-se obcecado em resolver o crime, enquanto o outro pouco a pouco busca conforto nos braços da esposa do parceiro (a belíssima Scarlett Johansonn). Há outras figuras enigmáticas que vão surgindo, todas ligadas a uma complexa teia de relacionamentos e mentiras que levam a elucidação do crime.
Há um esforço, louvável da parte de De Palma, em capturar a verve abrangente do universo noir que James Ellroy conseguia discorrer em seus textos, essa preocupação com suas múltiplas camadas de narrativas e pontos de vista, e o olhar sobre o comportamento humano ante a decadência moral, inerente à De Palma, fazem toda a diferença em seu filme: O tornam desigual, para não dizer até singular.
Contudo, De Palma tropeça nos mesmos elementos que já se presume que irão comprometê-lo: Na pretensão de abarcar o monumento de informações que constituía o livro, “Dália Negra”, o filme, transforma sua trama principal –ou aquela que isso supostamente deveria ser –numa vertente entre tantas outras que compõe o turbilhão que se vê aqui. A busca pelo assassino, e a investigação subsequente (bem como a obsessão errônea de um dos detetives acerca dela) transcorre ao lado do caso extraconjugal envolvendo a personagem de Scarlett, da relação ambígua dos investigadores aliados, ironicamente rivais na ocupação anterior; do quebra-cabeça envolvendo a sórdida trajetória de Elizabeth Short; e de tantas outras sub-tramas que se somam, numa pluralidade que termina gritando mais alto que a trama principal.
Ao fim, quando pontas soltas dispersas no roteiro são habilmente interligadas num belo trabalho de elucidação, sobram muito poucos expectadores capazes de rememorar com precisão os indícios deixados pouco antes, para que se possa considerar o trabalho de De Palma no mesmo nível de outros que ele foi capaz de engendrar.
Como todo bom De Palma, este é envolvente, sensual e estiloso, porém, a personalidade excessivamente loquaz de seu autor James Ellroy o torna também disperso em sua vasta gama de informações.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Sully - O Herói do Rio Hudson


Cada vez mais distante de sua persona como ator, e mais próximo de sua persona como diretor, Clint Eastwood aproveita, a cada novo projeto, para refinar sua verve cinematográfica.
“Sully-O Herói do Rio Hudson” é uma prova vital do quanto Eastwood se assumiu como diretor de cinema se pararmos para pensar que o filme é, antes de tudo, uma grande decupagem.
É também uma história real que não havia menor dúvida, mais cedo ou mais tarde, encontraria um diretor que trataria que contá-la no cinema –o fato desse diretor ser Eastwood evidencia o golpe de sorte dos envolvidos.
Numa estrutura narrativa um pouco diferente de “O Vôo”, de Robert Zemeckis (filme cujo roteiro fictício foi diretamente inspirado no episódio de Sully Sullenberger), vemos não o acidente convertido em salvamento (que, aliás, foi amplamente escrutinado pela mídia), mais sim os seus desdobramentos: Vivido por um compenetrado Tom Hanks, o comandante Chesley ‘Sully’ Sullenberger já surge em cena atormentado por pesadelos e preocupações das mais diversas ordens.
É difícil para ele esquecer os eventos de 15 de janeiro de 2009, quando uma pane nas duas turbinas de seu avião o obrigou a aterrissar nas águas do Rio Hudson, levando-o, contra todas as previsões, a salvar a vida de todos os seus passageiros.
Seus pesadelos a respeito desse fato são constantes –e neles, ao contrário do que houve, Sully testemunha, horrorizado, a queda trágica e de seu avião.
A vida desperta também não parece arrefecer as coisas: A NTSB, órgão responsável pelo esclarecimento de incidentes aéreos nos EUA iniciou suas investigações e, no caráter impessoal que adotaram, está a possibilidade de Sully ter sido negligente, o que pode custar sua carreira e sua reputação.
O acidente em si, não é esquecido: A medida que as investigações avançam, exigindo inesperadamente nervos de aço da parte de Sully e de seu co-piloto, Jeff Skiles (Aaron Eckhart), somos apresentados aos flashbacks que irão ilustrar em minúcia a incrível aterrissagem no Rio Hudson (construída com a austeridade técnica que em Eastwood sempre foi exemplar), e também aos detalhes mais íntimos na vida do protagonista, resumidos basicamente nos diálogos telefônicos com a esposa (Laura Linney) e nas breves lembranças da juventude –todos são esforços da narrativa em contextualizar e aprofundar a sequência da qual se fala todo o filme (a do avião); e se Eastwood começa aparentando ao expectador uma tentativa de evitá-la, logo ela irá mostrar que é bem o oposto: Como um diretor de cinema fascinado com o poder de seu filme, ele revê aquela cena em ângulos e circunstâncias que só fazem enfatizar o mérito heroico de seu protagonista, e reiteram o grau de tudo de inacreditável e miraculoso que se passou naqueles momentos.

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

A Enfermeira Betty


Indissociavelmente relacionado às suas obras agressivas sobre a oposição dos sexos –e, não raro, acusado de misoginia –o diretor Neil LaButte, ao adentrar os anos 2000 buscou livrar-se desse rótulo em algumas obras de apelo e temática inesperada, esforçando-se, contudo, em manter um discurso que soasse relevante.
“A Enfermeira Betty” padece dessa incongruência na qual um diretor de perspicácia cultural, intelectual e artística parece usar de uma premissa algo absurda para jogar conversa fora.
Empregando alguns maneirismos que, mais tarde, ela adotaria para compor Bridget Jones, a ótima Renee Zellwegger une graciosidade e um contundente senso de imersão para viver a sonhadora Betty, uma jovem garçonete casada com o rude, infiel e detestável Del (Aaron Eckhart, ator-fetiche de LaButte). Betty é fã incondicional de uma novela chamada “Razões Para Amar” –que ela assiste para alimentar sua obsessão pelo protagonista Dr. David Ravell (Gregg Kinnear).
A guinada na vida de Betty ocorre quando seu marido realiza transações ilegais envolvendo drogas e acaba sendo visitado por dois assassinos de aluguel, vividos de forma nada convencional por Morgan Freeman e Chris Rock.
Sem que eles percebam, Betty testemunha o assassinato do próprio marido, mas não é pânico a sua reação: Numa explicação não muito convincente, Betty ‘apaga’ o ocorrido de sua mente e passa a viver dentro da realidade da novela que assistia –e isso a leva a pegar a estrada em direção à Los Angeles, onde planeja encontrar-se com o próprio Dr. Ravell; que ela agora acredita ser não somente um personagem real, como também seu ex-noivo (!).
Em seu encalço, estão os dois assassinos contratados, já que a droga que justificou toda a confusão está dentro do carro de Betty –contudo, ao longo dessa perseguição, o assassino de aluguel mais velho, Charlie (personagem de Morgan Freeman) passa a alimentar certo fascínio por ela.
Frouxo no gênero ao qual prentende pertencer (ostenta seriedade demais para uma comédia; cinismo demais para um romance; galhofa demais para um drama) e algo suficiente nos expedientes psicológico que se mete a adotar. “A Enfermeira Betty” se faz memorável única e exclusivamente graças à magnífica presença de Renée Zellwegger: Antes de ganhar este inesperado papel protagonista onde encara grandes atores como Morgan Freeman e Gregg Kinnear, ela só havia aparecido como mais uma mocinha romântica em “Jerry Maguire-A Grande Virada”.
Aqui sua atuação é um achado do início ao film, equilibrando nuances delicadas de uma personagem difícil, nada inteligível e ainda assim desafiadora, a qual ela consegue tirar de letra e ainda trazer para si a simpatia do expectador.
Pena o filme a que ela pertence não estar à altura de sua atriz principal.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Na Companhia de Homens

É um pouco unilateral a afirmação de que este primeiro trabalho do diretor Neil Labutte é misógino. Claro que o discurso de repúdio às mulheres está lá, elaborado com alarmante convicção e contundência. Porém, se considerarmos que Labutte dá espaço à narrativa para uma personagem feminina expor (ainda que brevemente) seu sofrimento de modo que consiga compadecer o expectador, então podemos dizer que “Na Companhia dos Homens”, da forma como é, acaba sendo mais um registro profundo e incômodo das facetas socialmente impunes do mau-caratismo, traduzidas com eficiência no vistoso personagem de Aaron Eckhart.
O filme de Labutte consiste de uma estrutura árida e desafiadora: Um conjunto cirúrgico e econômico de diálogos muito bem dirigidos que compõem seis semanas; vindo a ilustrar, por sinal, os capítulos do filme.
Chad (Eckhart) e Howard (Matt Malloy) são executivos médios de uma empresa gerenciadora de produtos. Howard foi abandonado pela namorada e se lamenta com Chad que lhe diz ter passado pela mesma situação. Trocando figurinhas em sua recém-concluída aversão ao sexo oposto, os dois são enviados para uma negociação provisória de seis semanas em outra cidade, com Howard ocupando um cargo ligeiramente superior ao de Chad. Este tem então uma idéia: Valer-se desse período para encontrar uma mulher vulnerável que ambos possam cortejar e, ao fim do tempo estipulado, dar a ela um fora fenomenal.
Uma espécie de vingança simbólica pelo que as ex-namoradas os fizeram passar.
A escolhida em questão não tarda a aparecer: Trata-se de Christine (Stacy Edwards), a secretária surda-muda da divisão em que Chad está trabalhando.
As semanas se transcorrem com os dois dando continuidade ao plano, mas algo inesperado começa a acontecer: Por um lado, o carente e ingênuo Howard começa a se apaixonar de fato por Christine; por outro, ele e Chad, justamente por conta de seu sentimento genuíno, iniciam pouco a pouco um embate psicológico velado que se estende desde os diálogos que travam nos horários recreativos (quando esmiúçam um para o outro, ora com desdém, ora com paternalismo, os detalhes íntimos de seus encontros com Christine) até as reuniões de natureza profissional e circunstâncias trabalhistas. E em todos os casos, seja pelo charme natural do ator Aaron Eckhart, seja pela predisposição carismática e incontornável do próprio personagem, é Chad quem irá prevalecer: Aos poucos, Howard decai na hierarquia empresarial, enquanto Chad (a despeito de sua falta de escrúpulos revelada em inúmeros momentos, ou talvez, por causa dela) escala consideravelmente. Apesar da sinceridade de Howard –que em determinado ponto se torna irreprimível –é por Chad que Christine se diz, perto do fim, apaixonada; e ambos, ela e Howard, sofrerão terrivelmente por isso.
O que torna “Na Companhia de Homens” realmente perturbador não é somente a maneira notável que Labutte encontra para evidenciar a maldade e a perversidade num âmbito e num contexto em que ela pode ser exercida sem amarras e sem conseqüências (por mais terrível que seja, nada do que Chad faz pode ser qualificado como crime digno de punição), mas também ao ilustrar o fato de que, mesmo havendo indícios predatórios antes e depois de toda a sordidez ser enfim mostrada, ainda assim –como na vida real –continua e continuará sendo nas aparências que o raso ser humano buscará uma bússola para seu julgamento moral.
Nesse sentido –e até por ser, no filme, o personagem que melhor entende essa torpeza das relações humanas –o desapego de Chad faz dele um dos mais terríveis psicopatas do cinema.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Erin Brockovich - Uma Mulher de Talento

Ainda mais notável do que um diretor emplacar um filme na cerimônia do Oscar, é esse mesmo diretor emplacar dois filmes numa só cerimônia. Assim como Francis Ford Coppola em 1975 e Herbert Ross em 1978, o diretor Steve Sodenbergh competiu, no ano 2000, com dois trabalhos ao Oscar de Melhor Filme: “Traffic” –que lhe deu o prêmio de Melhor Diretor –e este “Erin Brockovich-Uma Mulher de Talento”.
Na categoria de Melhor Diretor, aliás, esse feito foi ainda mais raro: Antes dele, apenas Michael Curtiz havia tido dupla indicação, em 1939, por “Anjos de Cara Suja” e “Quatro Filhas”!
Contudo, “Erin Brockovich” é mais lembrado mesmo como o filme que enfim deu o Oscar de Melhor Atriz a Julia Roberts, após ela reinar, na primeira parte da década de 1990 em Hollywood como a namoradinha da América, graças ao seu marcante papel em “Uma Linda Mulher”, passar por um período meio irregular na carreira –por escolhas um pouco equivocadas como “O Segredo de Mary Reilly” –e reconquistar público e critica já no fim da década com o mesmo gênero que a consagração, a comédia romântica, nos bem-sucedidos “O Casamento do Meu Melhor Amigo”, lançado em 1998, e “Um Lugar Chamado Noting Hill”, em 1999. O passo mais natural para consolidar essa consagração seria a conquista de um Oscar e, nesse intento, ela não se fez de rogada ao encarar o papel protagonista deste filme inspirado em fatos reais, mais necessariamente na luta de Erin Brockovich, divorciada e desempregada com quatro filhos que consegue emprego em um escritório de advocacia e dedica-se com afinco e obstinação num caso onde os moradores de uma cidadezinha tentam processar uma grande empresa por danos à saúde e ao meio ambiente infligidos por uma fábrica poluente.

A despeito de ser uma pessoa real (ela é produtora executiva do filme), Erin Brockovich é uma personagem recorrente no cinema: Os anos 1980 tiveram diversos exemplares onde atrizes como Jessica Lange ou Suzan Sarandon desempenharam mulheres do povo, que não fugiam de uma briga e nem levavam desaforo para casa. Uma personagem feita sob medida para uma atriz brilhar –desbocada, presenteado com sucessivos monólogos explosivos, sensual ao seu modo brejeiro e contando com toda a veracidade de sua história como respaldo –não havia muito como tirar o Oscar de Julia Roberts, por mais que o filme e o próprio trabalho da atriz não fossem, a rigor, algo tão memorável assim, e mesmo que, dentre suas concorrentes, a superioridade artística e qualitativa de Ellen Bustyn, por “Réquiem Para Um Sonho”, fosse um detalhe constrangedor de tão evidente.

domingo, 26 de março de 2017

Suspeito Zero

O diretor de “Suspeito Zero”, E. Elias Merhige, realizou dois filmes que chegaram, em épocas e de maneiras distintas, a chamar a atenção: O perturbador e desconcertante “Begotten”, em 1991, e o metalingüístico e interessante “A Sombra do Vampiro”, em 2000.
Ambos são bastante diferentes deste suspense policial, o quê torna difícil encontrar um padrão, um tema ou um estilo no trabalho de Merhige, ainda mais quando percebemos que neste filme (tal e qual como em “A Sombra do Vampiro”) a premissa e o argumento não pertencem a ele, mas, neste caso, aos roteiristas Zak Penn (atualmente responsável pelos roteiros da série “X-Men”) e Billy Ray (roteirista de “Jogos Vorazes” e “Capitão Phillips”).
“Suspeito Zero” começa com uma situação padrão dos filmes americanos sobre psicopata: Um assassino promove uma série de crimes e logo tem em seu encalço uma dupla de agentes do FBI, neste caso em questão, os agentes MacKelway (Aaron Eckhart) e Fulok (Carrie Anne Moss, de “Matrix”), que já foram casados.
Há uma ligeira quebra de convenções –e que desperta algum interesse –quando vemos que eles não fazem questão alguma de esconder a identidade do assassino: Ele é Benjamin O’ Ryan, interpretado com bastante presença pelo ótimo Ben Kingsley.
A medida que o filme avança e novas informações vão sendo agregadas à narrativa (como o histórico conturbado do próprio agente; as reais motivações do assassino, e o mistério envolvendo sua nebulosa relação com o FBI) fica cada vez mais difícil ignorar o imenso apreço que o roteiro e a produção parecem fazer da obra-prima “Seven-Os Sete Crimes Capitais”, de David Fincher –eles emulam seu estilo, sua iluminação, seu clima de sugestão macabra, a estética detalhada e monocromática das cenas e diversos outros elementos, até mesmo Ben Kingsley, careca e de olhar penetrante faz lembrar o personagem de Kevin Spacey naquele filme.
O que redime, em parte, “Suspeito Zero” é a condução esmerada de Merhige, que impõe, sobretudo na primeira metade, enquadramentos incomuns, movimentos de câmera insólitos, takes inesperados, cortes inventivos e uma postura distinta, compondo uma narrativa cheia de particularidades, que intriga o expectador.
Não escapou, contudo, de ser o mais fraco de seus trabalhos até aqui.

segunda-feira, 2 de maio de 2016

Reencontrando A Felicidade

Sempre um belo trabalho do diretor John Cameron Mitchell, este “Reencontrando A Felicidade” é uma audaciosa incursão no melodrama assumido, coisa que muitos diretores ‘cool’ na indústria cinematográfica de hoje tendem a evitar.
Os dias passam com certo vagar para Becca (Nicole Kidman). Sua casa é linda. Seu marido (Aaron Eckhart), carinhoso e atencioso. Ainda sim, não faltam momentos em que ela contempla o nada, perdida numa dimensão sombria de tristeza. E logo descobrimos o porquê: já contam oito meses que ela e Howie perderam seu filho Danny de quatro anos num acidente. Desde então nada funciona para tirar Becca de sua aflição. Ainda que a vida continue. Talvez, apenas talvez, sua recuperação possa estar relacionada com uma possível aproximação do angustiado adolescente também envolvido no tal acidente (um iniciante Miles Teller).

Nicole Kidman está realmente um primor neste belo e delicado conto sobre a árdua superação do luto, seu melhor trabalho em anos pelo qual ela recebeu uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz em 2010.

domingo, 17 de abril de 2016

Batman - O Cavaleiro das Trevas

Se o primeiro filme falava sobre o medo, o segundo filme falou, sem dúvida, sobre o caos. E que melhor personagem para representar o caos do que o Coringa? Após realizar um filme cuidadoso e primoroso sobre a origem do herói (e deixar, no final, um gancho perfeito para a introdução desse vilão no segundo filme), Christopher Nolan sentiu-se a vontade para fazer o filme do Batman que sempre quis usando influências magníficas de clássicos policiais norte-americanos como "Um Dia de Cão" e "Serpico".
Mas seu golpe de gênio foi conseguir Heath Ledger para compor o Coringa, trazendo para seu filme uma presença arrasadora: É um vilão inesquecível, que levanta profundas reflexões sobre as implicações sociais da psicopatia.

Embora recheado de cenas épicas de ação (o ataque à um prédio na China, a perseguição ao caminhão-forte e a tensa operação final não me deixam mentir), a essência a que este primor de roteiro se propõe está na dinâmica, carregada de significado e intimismo entre Batman/Bruce Wayne (Christian Bale, irrepreensível), o Coringa (Ledger dispensa comentários) e o promotor público Harvey Dent (Aaron Eckhart, fabuloso), cuja jornada íntima e psicológica rumo à insanidade e à identidade do Duas-Caras é um das jogadas de gênio do roteiro.
“Batman-O Cavaleiro das Trevas” pegou muitos de surpresa, pois o que Nolan fez foi não só aprimorar e aperfeiçoar tudo o que já era sensacional no primeiro filme, mas levou essa proposta de escalada num nível inimaginável: O novo filme estava num patamar que até hoje as adaptações de quadrinhos atuais penam para igualar (e aí, incluo o novo filme com Batman, aquele no qual ele luta com Superman...). Christopher Nolan realizou uma obra que a um só tempo é um exemplo da preciosismo referencial de tudo o que funcionou nos filmes policiais dos anos 1970, uma adaptação esplêndida e poderosa das HQs, e um trabalho admirável de cinema.
 Em meio à tudo isso, a única constatação amarga foi o lamento de que o magnífico Heath Ledger tenha nos deixado tão cedo... Dessa forma, um único e magistral filme com o Coringa teve que bastar...