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quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

Desejo e Perigo

Um ano de depois da consagração e da repercussão de “O Segredo de Brokeback Mountain”, Ang Lee fez duas escolhas determinantes para seu projeto seguinte: A primeira, regressar à China, e a segunda, realizar, desta vez, um suspense de espionagem pontuado de cenas heterossexuais de sexo –de fato, embora pouco lembradas, as cenas envolvendo o grande ator Tony Leung (de “Amor À Flor da Pele”) e a bela jovem Tang Wei (de “Hacker”) são de uma ousadia, um requinte e uma contundência raros do cinema.
Por isso mesmo hoje, esta obra de Ang Lee pode ser enxergada como um precursor chinês de “Operação Red Sparrow”, com Jennifer Lawrence, ainda que eu admita ser imprudente comparar aquela produção comercial com a profundidade e a densidade que Ang Lee consegue imprimir aqui.
É, pois, a diferença que um grande diretor faz.
A China ocupada dos anos 1940 é vista pelos olhos inicialmente ingênuos da jovem Wang Chia Chi (Tang Wei) cuja formação quase camponesa dá a ela uma aura de inocência inabalável.
Quando muda-se para a cidade de Shangai, já sob atribulados transtornos políticos, essa inocência servirá como trunfo a ela que será escolhida quando seu grupo de amigos, membros de uma companhia teatral, for recrutado para esforços de guerra mais intensos e engajados.
Wang representará a única oportunidade real dos opositores chineses de se aproximar de um diplomata intocável (vivido pelo sempre impecável Tony Leung) –e conseqüentemente arquitetar um atentado contra sua vida.
Ao mesmo tempo que identifica, imersa em aflição, os torpes desvios sexuais do diplomata de quem se torna amante, Wang também reconhece nele um bem-querer genuíno que, em sua inocência, ela pensou que encontraria no rapaz que inicialmente a arrastou para aquele mundo de contra-inteligência e meias-verdades.
Deveras, tudo em “Desejo e Perigo” obedece a uma natureza de contradição: A dualidade do rapaz que a queria, mas a coagiu ao papel de amante de outrem, e a ambiguidade da própria Wang, capaz de vislumbrar em meio à dor e ao abuso um sentimento de amor.
Essa contradição se reflete nas impressões intensificadas na meia hora final, quando o atentado pelo qual Wang reuniu as devidas informações para que acontecesse começa a se aproximar –e a jovem experimenta angústia real pelo fato desse desenlace estabelecer quem ela é (ou quem ela não é) nesse nebuloso panorama.
Pena que, tão ávido foi o esforço de Ang Lee em expressar essas imprecisões, que algo de inconstante contaminou as motivações de seus personagens –mesmo que interpretados, em geral, com o cuidado dedicado de alguém que sabe, os protagonistas vivenciam um romance que não encontra suporte, um suspense que não representa necessariamente uma surpresa, e uma convicção que não se descobre ressoluta.
Embora dirigido com a perfeição de sempre por Lee –e tal empenho lhe rendeu a segunda premiação consecutiva com o Leão de Ouro no Festival de Veneza –há uma indefinição categórica em “Desejo e Perigo” que compromete um pouco de seu envolvimento com o público.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Aconteceu Em Woodstock


O abalo sísmico provocado por “O Segredo de Brokeback Mountain” na crítica e no público foi tamanho que, alguns anos e alguns projetos depois, o diretor Ang Lee ainda produzia sob a sombra dessa repercussão –uma espécie de necessidade de se provar e se manter naquele mesmo nível de relevância cinematográfica.
Certamente há algo disso a orientar “Aconteceu Em Woodstock”, uma realização exemplar e brilhante, mas destituída daquilo que mais supostamente teria: Espontaneidade.
Ang Lee inicia seu filme imerso num silêncio muito condizente com a cidadezinha de White Lake, no estado de Nova York, onde se ambienta a trama. Lá, todas as características típicas da pequena e deliberadamente medíocre comunidade interiorana norte-americana convergem. Até a trilha sonora que toca, portanto, soa abafada e retraída.
Sabemos, entretanto, que muito barulho virá: Elliot Tiber (Demetri Martin) é um jovem morador com tímidas pretensões artísticas. Todos os seus esforços, no entanto, são dirigidos para harmonizar a situação dos pais, Sonia (Imelda Stanton) e Jake (Henry Goodman) –imigrantes russos, proprietários de um pequeno hotel caindo aos pedaços, eles não se acertam com ninguém, exceto com o parcimonioso Elliot, que para tanto, deixou sua morada em Greenwich Village para ficar com os velhos.
Em meio ao tédio local, o máximo que Elliot se permite é organizar um pequeno festival de música todo o ano –que atrai, quando muito, uma meia dúzia de moradores...
Contudo, eis que a cidade vizinha, Wallkills, estava prestes a sediar um festival de música hippie –com atrações muito famosas daqueles idos de 1969 –e os organizadores foram, da noite para o dia, desamparados pelos proprietários locais.
Disposto a usar a oportunidade para agitar a freguesia claudicante de seu hotel, Elliot não perde tempo e liga para os organizadores com uma ideia inusitada e prática: O alvará para seu insosso e medíocre festival de música foi tirado sem problemas pelas autoridades, sendo assim ele pode usá-lo, ainda que num festival de proporções –imagina ele –um pouco maiores!
Elliot mal pode imaginar que está acendendo o estopim para uma experiência sem precedentes que marcará, de forma inapelável, toda a cultura norte-americana.
Austero como sempre em sua observação das incongruências humanas (e revelando um olhar extraordinariamente afiado sobre meandros comportamentais americanos para um cineasta taiwanês), Ang Lee tem a sensatez de desviar sua narrativa de participações famosas (como Janis Joplin ou Jimmie Hendrix) ou mesmo de facetas mais grandiosas do Woodstock em si para priorizar as pessoas comuns, Elliot e seus pais (que, de normais, não têm absolutamente nada), os moradores perplexos de White Lake (o proprietário das terras usadas para o evento, vivido por Eugene Levy, o ator-assinatura da série “American Pie”; o rabugento cidadão vivido por Jeffrey Dean Morgan e seu irmão, alucinado e veterano do Vietnam, interpretado por Emily Hirsch) e toda sorte de indivíduos inacreditáveis que o festival atrai: O travesti (!) e ex-veterano da guerra da Coréia, Vilma, personificado com brilho insólito por Liev Schreiber; o hippie Michael (Jonathan Groff), um dos responsáveis pelo festival cuja atitude sempre lisérgica parece algo fora da realidade; o doidão em LSD (Paul Dano, ótimo), e sua namorada (Kelli Garner, inebriante) que surgem no momento mais psicodélico do filme; e tantos outros.
“Aconteceu Em Woodstock” marca também a segunda incursão como roteirista de James Schamus, produtor de todos os filmes de Ang Lee, a primeira foi “Hulk” –é curioso notar que, embora de origens, procedimentos e naturezas absolutamente distintas, há alguma afinidade entre esses dois projetos, em especial, a forma com que a narrativa se vale de múltiplos quadros para dividir as cenas enfatizando, aqui, o caos gradativo presente nos preparativos e, mais tarde, a fascinante pluralidade que contaminou esse festival lendário.

quinta-feira, 14 de junho de 2018

O Banquete de Casamento


Mesmo ao realizar uma comédia, a percepção do drama relativa a Ang Lee se manifesta em sua obra dando novas direções ao que se iniciou com leveza e descontração.
Nem todos os cineastas são bem sucedidos nesse procedimento –o de moldar um filme ao sabor das intuitivas inclinações de sua história e de seus personagens –mas, Ang Lee, ao longo de diversos trabalhos em sua carreira mostrou-se um mestre em trabalhar essa maleabilidade.
Morador de Nova York vindo de Taiwan, Wai Tung (Winston Chao) teme revelar que é homossexual para sua mãe e, sobretudo, para seu pai (Sihung Lung, de “Comer Beber Viver”), ex-militar debilitado por um derrame cujo sonho é ver o filholhe dando um neto.
Ao lado do namorado norte-americano Simon (Mitchell Lichtenstein), Wai Tung elabora um plano para iludir seus pais que chegam à Manhattan para uma visita de duas semanas: Eles se valem da presença da artista Wei Wei (a linda May Chin) em seu apartamento para fazê-la se passar por noiva e iminente esposa de Wai Tung.
Com o casamento, Wei Wei conseguirá o visto de permanência nos EUA que tanto quer, e Wai Tung ostentará para os pais a esposa que ficavam cobrando.
Contudo, todos os planejamentos sofrem mudanças imprevisíveis: Se antes hospedariam-se por uma quinzena, a saúde frágil do pai de Wai Tung estende ainda mais a estadia; se a idéia era encenar um casamento sem importância, a aparição inesperada de um solícito amigo da família (e dono de um restaurante chinês, ainda por cima!) converte a festividade em um banquete com direito a todos os rituais e costumes.
Logo, o peso do embuste começa a ferir os relacionamentos reais que Wei Wei, Wai Tung e Simon escondem por detrás dele.
E o diretor Ang Lee não teme, no terço final, em contaminar seu tom bem-humorado com uma angustiante constatação de que nada será como antes –uma sombra de tristeza que vai pairando sobre o enredo sem que ele nunca deixe de ser envolvente e agradável.
Ainda orientado por uma espécie muito característica de drama urbano e familiar no qual se especializou no início de sua carreira –seus filmes só se tornaram mais diversificados em termos de temática e gênero após “Razão e Sensibilidade” –Ang Lee molda aqui uma obra que se inicia quase como comédia romântica (a referência à “Green Card-PassaportePara O Amor” não parece acidental), evolui para um drama hábil de costumes e culmina numa austera e sensata ode à unidade familiar.

quarta-feira, 25 de abril de 2018

Comer Beber Viver

É normal que o público reconheça com mais facilidade as obras mais recentes e aclamadas do diretor Ang Lee, como “O Tigre e O Dragão”, “O Segredo de Brookeback Moutain” e “As Aventuras de Pi” –uma pena que isso relegue a uma certa obscuridade os ótimos trabalhos que ele realizou em início de carreira, na primeira metade do anos 1990, em Taiwan.
Um dos mais brilhantes títulos dessa fase, “Comer Beber Viver” ilustra perfeitamente as virtudes dele como contador de histórias que ele não perdeu ao passear pelos mais diferenciados gêneros e culturas.
Chu (o magnífico Sihung Lung) é um renomado chefe de cozinha tentando se aposentar –embora o restaurante no qual fez sua fama seja incapaz de deixá-lo de lado, sempre requisitando-o para ocasionais ‘emergências’. Chu é também pai de três filhas que ele busca cuidar desde a morte prematura da mulher.
A mais velha, Jia-Jen (Yang Kuei-mei) é uma professora assombrada pela solteirice, cuja convivênia com um novo professor de educação física e com súbitas cartas de amor endereçadas a ela transformam seu comportamento antes passivo.
Já, Jia-Chen (a bela Chien-lien Wu) ostenta ares independentes com os quais consegue esconder certo ressentimento pelo fato do pai não ter deixado que ela seguisse seus passos como cozinheira; em vez disso, ela é uma executiva bem-sucedida às voltas com um inesperado dilema: Aceitar uma promoção de vice-presidente em ir morar em Amsterdã, ou ficar para cuidar do pai num momento da vida de todos em que tudo parece se complicar.
Por fim, a caçula, Jia-Ning (Wang Yu-wen) resolve seus problemas de solidão com uma considerável falta de escrúpulos; faz com que sua melhor amiga se separe do namorado para então conquistá-lo para si.
A marcação emocional, sensorial e factual desses eventos é realizada através do ato de comer: São almoços, jantares e refeições –bem como sua preparação –registrados em minúcias visuais.
Como é de hábito em seu cinema, Ang Lee constrói uma narrativa por meio da qual os percalços desses personagens, sejam eles dramáticos ou bem-humorados, se tornam imensamente prazerosos de serem acompanhados, e nos quais eles adquirem uma textura tão humana que não há como não apegar-se a eles, mesmo diante de uma ou outra atitude reprovável.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

As Aventuras de Pi

As produções que Ang Lee assume parecem ser desafios pessoais tamanha é a guinada narrativa, técnica e visual que normalmente representam quando comparados uns aos outros.
Se em sua primeira fase, em Taiwan, ele conquistou prestígio conduzindo ótimos dramas neo-realistas muito homogêneos entre si, depois que passou a trabalhar no Ocidente –com sua estréia sendo “Razão e Sensibilidade” –ele visitou as mais inesperadas e audaciosas propostas; incluindo aí também o seu magnífico épico de artes marciais falado em mandarim, “O Tigre e O Dragão”.
Nesse panorama –e certamente em meio à tão exuberante filmografia –o projeto de “As Aventuras de Pi” não chega a ser tão surpreendente, embora tenha cativado a crítica a ponto de Lee ganhar seu segundo Oscar de Melhor Diretor (o primeiro foi por “O Segredo de Brokeback Mountain”), embora ironicamente nenhum de seus trabalhos tenha levado o Oscar de Melhor Filme.
Aos seus quarenta e tantos anos, o indiano Piscine Molitor Patel (um inspiradíssimo Irrfan Khan) relata a um jovem escritor (Rafe Spall) uma história inacreditável ocorrida com ele aos seus quinze anos (então vivido pelo estreante Suraj Sharma): Quando sua família deixou a Índia rumo ao Canadá levando consigo os animais do zoológico que mantinham, o navio em que estavam afundou deixando o jovem Pi como único sobrevivente ao lado de Richard Parker, um ameaçador tigre de bengala (os companheiros iniciais dessa jornada, uma zebra, um rato, um orangotango e uma hiena logo sucumbem) à bordo da limitada embarcação de um bote salva-vidas.
Se Richard Parker acaba sendo para Pi uma preocupação a mais, ele também representa um incentivo poderoso para que ele queira sobreviver.
Durante essa tortuosa jornada em alto-mar, o garoto e o tigre experimentam inesperadas situações, narradas com distinção e exotismo pelo diretor Lee, a medida que constroem uma espécie de vínculo existencial.
A grande propriedade do trabalho de Ang Lee é o modo com que administra, para efeitos dramáticos, os muitos recursos de que dispõe para a construção desta sua aventura filosófica e alegórica: Realmente saltam aos olhos o refinamento dos efeitos visuais (vencedores do Oscar) e o emprego lúcido e inventivo dos efeitos 3D, ainda que o cinema americano tenha tantos grandes exemplares neste quesito que “Pi” corre o risco de logo ficar datado.
No que diz respeito à trama, uma sacada bastante interessante (mas, pouco aproveitada pelo roteiro) é a natureza dúbia dos relatos de Pi: No trecho final é levantada a possibilidade de outra história, mais trágica e verossímil, ter transcorrido e todo o enredo que envolve o tigre Richard Parker ser uma fuga criada por ele da triste realidade.
Mas, a narrativa de Lee não se permite essa divagação por muito tempo e torna a reiterar a trama que contou, valorizando os efeitos visuais, os atores indianos maravilhosos que conseguiu e a beleza etérea da jornada que narrou.
Faltou pouco para ser tão genial quanto outros de seus trabalhos.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Tempestade de Gelo

Após brilhantes trabalhos em Taiwan ("Banquete de Casamento" e "Comer, Beber, Viver") e ainda mais brilhantes e celebrados trabalhos já nos EUA (o ótimo "Razão e Sensibilidade") o chinês Ang Lee, imediatamente antes da consagração com o assombroso épico "O Tigre e O Dragão", realizou aqui um perspicaz, competente e fluido estudo do comportamento sexual de uma época que, estranha e injustamente, não é muito lembrado em meio à suas tantas e excelentes obras.
Como em alguns de seus primeiros e elogiados trabalhos em Taiwan, a família é o inusitado foco da discussão quase impiedosa que ele levanta e, embora o sexo esteja presente e onipresente, a direção de Lee nunca se permite explícita ou deselegante preferindo o caminho da sugestão e do subtexto dramático.
É o ano de 1973. Num subúrbio de New Canaan, em Connecticut, EUA, as câmeras de Lee acompanham a história de várias famílias que vivenciarão diversas experiências diferentes movidas em grande parte pela ideologia vigente do período, que começava a transformar os comportamentos e atitudes, promovendo mudanças na sociedade. Ben (Kevin Kline) é casado com Elena (Joan Allen, ótima), mas tem como amante Janey (Sigourney Weaver).
Já, Elena se vê perplexa com os novos hábitos –que pendem espantosamente para a promiscuidade –de seu grupo de amizade, que culminam numa festa com conseqüências desastrosas.
Eles têm um casal de filhos, cada qual com seus próprios conflitos de ordem sexual e psicológica (ainda que insistam em esconder essas pulsões na forma de eventuais inconformismos políticos): Paul (Tobey Maguire) nutre uma atração por uma garota da universidade (Katie Holmes), mas tem de cuidar-se com um colega traiçoeiro que adora dormir com todas as garotas pelas quais ele se apaixona; Wendy (Cristina Ricci) adere cada vez mais à cleptomania enquanto realiza jogos de sedução com os dois filhos do vizinho, o introspectivo Sandy (Adam Hann-Byrd) e o questionador Mikey (Elijah Wood).
É curiosamente a analogia com uma família de super-heróis (o Quarteto Fantástico, na revista em quadrinhos que o personagem de Maguire lê na cena inicial) que dá o estopim para que uma série de flashbacks visitem um e outro personagem, tecendo uma objetiva, delicada e brilhante teia que registra tais comportamentos, e se propõe, despida de preconceitos e soluções fáceis, à avaliá-los e, quem sabe, extrair deles algum ensinamento: Troca de casais, perda de controle dos filhos, bebida. São os temas que entram em pauta de maneira sublime na sempre competente narrativa de Ang Lee.

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Hulk

Após o pra lá de merecido Oscar de Melhor Filme Estrangeiro conquistado por “O Tigre e O Dragão”, o cineasta chinês, Ang Lee, viu abertas para si as portas de Hollywood (que, verdade seja dita, já o cortejava desde os premiados “Razão e Sensibilidade” e “Tempestade de Gelo”).
Foi uma mudança de tom tão ou mais brutal do que um diretor sério e respeitado migrar para os épicos de artes marciais quando foi anunciado que seu próximo projeto seria a adaptação de um dos mais famosos (e complexos) personagens da editora Marvel: O Incrível Hulk.
Paradoxalmente, era um personagem que agregava características intrínsecas ao interesse de Ang Lee, como contador de histórias, mas ele não fez por menos: Reinventou-se como cineasta para compreender a complexidade orgânica que a interação inédita de um protagonista digital como o Hulk como o restante do elenco e com o cenário à sua volta exigia; concebeu uma montagem desigual, inventiva e desafiadora de cenas quadrinizadas a fim de reproduzir a linguagem de uma história em quadrinho; e abraçou a estranheza confiante do roteiro de James Schammus, que redefiniu a origem do personagem, afastando-se das explicações dos quadrinhos, e buscando uma série de influências psico-dramáticas que remetem até mesmo à Ingmar Bergman (!),tratando o material com uma insuspeita originalidade, ainda que na opinião de muitos, isso tenha eliminado boa parte do potencial comercial do filme.
O cientista Bruce Banner (o eficiente Eric Bana) sofre um acidente de laboratório que, somado à mutação de seu DNA provocada por seu pai, David (Nick Nolte), o transforma em um monstro verde de pura fúria, reflexo de traumas e stress em seu subconsciente. A criatura é caçada pelo exército, na figura do General Ross (Sam Elliot, ótimo), pai de sua ex-namorada Betty (Jennifer Connelly, abrilhantando o filme com sua beleza e seu talento), e vira alvo da obsessão de David Banner, que continua a realizar experiências ilegais. Pai e filho, transformados em monstros pelo abuso da ciência, acabam se enfrentando.
Embora repleto de ação e efeitos especiais, “Hulk” é dramático e simbólico na abordagem do personagem, revelando assim muito da natureza de Lee como realizador.

Vale lembrar que, cinco anos depois, a Marvel, já consolidada como estúdio realizou uma nova versão do Hulk, estrelada por Edward Norton, mas essa, como se diz, é realmente uma outra história...

terça-feira, 9 de agosto de 2016

O Segredo de Brokeback Mountain

Um dos grandes trabalhos da carreira de Ang Lee, pelo qual ele conquistou seu primeiro Oscar de Melhor Diretor (o segundo viria por “As Aventuras de Pi”), este filme vinha, como era de se imaginar, embalado num tema controverso: O romance proibido entre dois homens.
O curioso é que o tratamento dado pelo diretor Lee conduzia a história como qualquer romance, ignorando o gênero dos protagonistas envolvidos: Uma forma austera e admirável de se abordar uma trama que poderia involuntariamente resvalar em várias posturas sócio-políticas.
O filme em si agradou público e crítica e a maior polêmica que o cercou envolvia mais os veículos de mídia que não lhe davam o devido enaltecimento, e os prêmios que lhe eram negados por um suposto preconceito (um deles, o Oscar de Melhor Filme).
A narrativa de Lee, que se estenderá pelo filme ao longo de décadas, começa nos anos 1960, ao apresentar, com minúcia exclusiva e detalhamento cuidadoso os dois cowboys que serão protagonistas do filme, Ennis Del Mar e Jack Twist (Heath Ledger e Jake Gyllenhaal, ambos de um brilhantismo interpretativo à toda prova).
E aí já tem-se a primeira manobra notável de sua premissa: Os personagens principais deste romance homossexual são também figuras emblemáticas de um gênero cuja postura e atitude é sempre relacionada à uma arraigada masculinidade tradicional: O western.
Ennis e Jack empregam-se para trabalhar como pastores de ovelhas durante uma temporada na montanha de Brokeback, para juntar dinheiro cada um movido por suas próprias razões.
Durante o longo período em que têm tão somente a companhia um do outro, os dois homens acostumados e criados num ambiente de rústica masculinidade apaixonam-se, contra tudo aquilo que lhes foi ensinado. E o tempo que Ang Lee dispõe para relatar o nascimento dessa ligação afetiva é uma das muitas escolhas brilhantes que passam despercebidas do expectador: Tão certeira, centrada e incisiva é sua direção e o tratamento com o qual aborda o roteiro que corremos o risco de achar que este grande trabalho foi feito com facilidade.
Ao voltarem da montanha, e de volta cada um para suas próprias vidas (Jack é peão de rodeio; Ennis, um pobre criador de gado) eles casam-se e têm filhos, sem jamais se esquecerem. Durante as décadas que virão, os dois buscarão momentos fugazes juntos na montanha Brokeback, único lugar onde podem expressar seu amor.
Tudo neste filme tematicamente ousado evita a panfletagem, ou o escândalo. Sereno, Ang Lee reveste o filme com uma percepção apurada de que todos os seres têm uma equivalente necessidade em querer ser feliz, e sobre inúmeros aspectos, esse é o norte para o qual apontam as motivações de seus personagens e de sua própria história. O preconceito, quando existe, é registrado como algo irrisório que pouco, no final das contas, importará.

Como em todos os seus magistrais trabalhos, Ang Lee, aqui, também volta seu olhar para aqueles que mais lhe interessam: Os personagens cuja inadequação para com as normas vigentes serve de empecilho para que se tornem aquilo que desejam ser, e em sua grandeza, por vezes, se resignam à miserável condição do drama humano.

terça-feira, 28 de junho de 2016

O Tigre e O Dragão

O wuxia é um sub-gênero de filmes chineses que envolvem artes marciais muitas vezes ambientados num período histórico ancestral, neles os atores realizam cenas de lutas coreografadas que desafiam a lei da gravidade.
Ang Lee sempre foi um diretor de filmes dramáticos, de orientação quase neo-realista, voltados para a importância de uma boa interpretação.
Parecia improvável a união de um diretor tão austero e voltado para os meandros íntimos dos personagens e de suas histórias como Ang Lee, com um gênero tão popularesco quanto o wuxia.
Essa improbabilidade respondeu como uma das maiores e mais saborosas surpresas no ano 2000, quando foi lançado “O Tigre e O Dragão”. Esse projeto deu a Ang Lee a oportunidade de voltar à infância e realizar um wuxia, o tipo de filme que adorava quando moleque.
O resultado desse reencontro com o próprio passado cinéfilo é um épico apaixonado, onde cada cena é tratada como uma pintura, um cuidado todo especial, onde é mais possível e perceptível ver o quanto o cinema é algo mágico.
É por meio dessa magia que Lee nos transporta para a China Antiga, onde o nobre e habilidoso guerreiro Li Mu Bai (o magnífico Chow Yun Fat) deseja repousar após uma exaustiva vida de lutas.
Para tanto, ele confia à sua companheira Shu Lin (Michelle Yeoh), por quem secretamente é apaixonado, sua lendária espada Destino Verde, capaz de tornar imbatível qualquer guerreiro que a empunhar, para que seja entregue a um velho amigo.
E por aí se vê, então, que “O Tigre e O Dragão” já não está tão longe da filmografia de Ang Lee como incialmente se imaginava: Lá estão os personagens, plenos da necessidade de viver, tolhidos pelas circunstâncias geradas pelo tempo e local ao qual pertencem.
Lá está também o gatilho emocional que dá margem para a quebra dessa tradição e para a chance de realizar seus sonhos, ao mesmo tempo em que entrelaça todos numa única e dinâmica narrativa, como veremos mais à frente, já que, um pouco mais tarde, a espada Destino Verde é roubada pela jovem Jen Long (a linda e expressiva Zhag ZiYi, uma das melhores coisas do filme), bela e contestadora princesa, cuja má influência de Raposa Verde (velha inimiga de Li Mu Bai) a transforma numa espécie de pária.
Dessa forma, temos assim uma transfiguração dos filmes de artes marciais (ou do conceito que tínhamos do que seriam filmes de artes marciais) onde os personagens fortes e interessantes (a despeito das verdadeiramente sensacionais cenas de ação, materializadas por meio da vasta experiência do coreógrafo Yuen Wo Ping) são o que de fato impulsiona a narrativa deste filmaço, onde Ang Lee leva glamour e profundidade dramática nunca antes vistas no gênero.

Foi graças à esta inspirada incursão de Ang Lee (um cineasta respeitado e prestigiado) que outros diretores chineses, normalmente adeptos de narrativas mais densas e humanas, aventuraram-se pelas artes marciais produzindo, nas décadas que se seguiriam, obras inesquecíveis como “Herói”, “O Clã das Adagas Voadoras” (ambos de Zhang Ymou), e “O Grande Mestre” (de Won Kar Wai).

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Razão e Sensibilidade

Outro dia, escrevendo sobre “Orgulho e Preconceito”, lembrei-me deste filme de Ang Lee, também ele uma adaptação de um clássico de Jane Austen, que durante muito tempo ficou guardado com carinho em minha lembrança, mas que andava um pouco esquecido. 
Ambas as histórias são muito parecidas. 
Como em “Orgulho...” existem as irmãs (duas no caso deste filme) desprovidas de posses mais substanciais e que, por conta disso, precisam arrumar um bom casamento naquela Inglaterra do Século XVI, tão cheia de código de comportamento e de etiqueta. Durante as trajetórias distintas de cada uma delas em busca da felicidade, vemos uma série de personagens desfilarem, com suas próprias tramas paralelas a norteá-los, o quê acaba revelando a imensa habilidade de Ang Lee, e do roteiro em tecer sua história. 
Na época do lançamento do filme, 1995, ele gerou uma súbita procura por novas adaptações de Jane Austen. Pouco depois foi feito “Emma”, com Gwyneth Paltrow, por exemplo. 
Mas o filme de Ang Lee representava ironicamente uma novidade, em vários aspectos. Era uma produção incomum: Um projeto inglês, tocado por um diretor chinês (naquela época, Lee era mais famosos por trabalhos neo-realistas feitos na China como “Banquete de Casamento” e “Comer Beber Viver”), e que ainda trazia um roteiro escrito por sua atriz principal, Emma Thompson, e no elenco, uma das presenças era uma jovem Kate Winslet, anos antes de “Titanic”, vinda de um filme cult neo-zelandês de Peter Jackson, o fascinante “Almas Gêmeas”. 
Dessa mistura desigual e inusitada emergiu uma obra de grande excelência, que dominou, junto a outras mais, aquela temporada de premiações: Ainda considero um bocado injusto Ang Lee ter perdido o Oscar de Melhor Diretor para Mel Gibson em “Coração Valente” mas... ei, ele não estava nem indicado! Mas, é claro que o filme concorria, e Emma Thompson também garantiu o Oscar de Melhor Roteiro Adaptado. Vendo hoje (e constatando a série de altos e baixos que a prolífica carreira de Ang Lee teve) é fácil entender porque muita gente já não lembra de “Razão e Sensibilidade”: Em uma filmografia que depois teria títulos memoráveis como “O Tigre e O Dragão”, “Tempestade de Gelo”, “O Segredo de Brokeback Mountain”, “Desejo e Perigo” e “As Aventuras de Pi”, é difícil para um filme de época pequenino, genuíno e tocante em sua simplicidade, se destacar. 
Por mais genial que ele seja.