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terça-feira, 4 de abril de 2023

Os Fabelmans


 Steven Spielberg cresceu em uma família amorosa ainda que disfuncional e cheia de seus próprios contratempos. Filmes como “Louca Escapada” ou “E.T. O Extraterrestre” evidenciam, em pequenos detalhes aqui e ali, as inquietações de nível pessoal que sempre o perseguiram –o distanciamento paterno; a opressão acarretada pela realidade adulta; a fuga sempre imaginativa para um refúgio de fantasia; a visão aventuresca com a qual usava o cinema para romantizar a vida. A gênese de cada uma dessas facetas pode ser contemplada e apreciada agora que Steven Spielberg pôde realizar seu filme mais pessoal, “Os Fabelmans”, no qual ele compartilha com o público um pouco de sua própria história.

Conhecemos assim o personagem que representa o próprio Spielberg, Sammy Fabelman, aos sete anos de idade, prestes a entrar num cinema pela primeira vez, junto de seus pais, Burt (Paul Dano) e Mitzi (Michelle Williams), para assistir a “O Maior Espetáculo da Terra”. Metódico, Burt explica ao pequeno Sammy toda a mecânica que envolve o cinematógrafo, enquanto que Mitzi, de uma irreprimível veia artística, enxerga ali a materialização dos sonhos; o protagonista mal sabe, mas sua índole será definida pelo ajuste emocional dessas duas influências aparentemente tão distintas.

Imediatamente capturado pela sequência onde uma colisão de trem leva vários vagões a descarrilar dos trilhos, o pequeno Fabelman pede de presente, fascinado, um trem de brinquedo, para poder reencenar várias e várias vezes aquele momento de colisão. Contudo, Burt não deseja ver o filho destruir um brinquedo que ele poupou para comprar. A saída, bolada por Mitzi, é filmar o descarrilamento de brinquedo, e tê-lo gravado em película para vê-lo e revê-lo sem parar. E é nesse detalhe, a repetição de uma memória feliz reproduzida em cores vivas e num processo tecnológico palpável, que se encontra o cerne da grande paixão do pequeno Fabelman.

Incapaz de olhar o mundo a não ser pela lente de uma câmera, Sammy (então interpretado por Gabriel LaBelle) passa o restante de sua juventude fazendo filmes caseiros, inicialmente tendo suas irmãs como protagonistas de suas produções –que variam de comédias sobre dentistas até filmes de horror com múmias feitas a partir do papel higiênico de casa (!) –e mais tarde, arregimentando até mesmo os colegas de classe e seus amigos do grupo de escoteiros.

É através do cinema que Sammy descobre uma identidade que o define, mas é também através dele que os primeiros rancores com a vida adulta são revelados: Num filme gravado aleatoriamente, Sammy flagra, sem querer, Mitzi junto de Bennie (Seth Rogen), um grande amigo de seu pai. A descoberta do adultério da mãe é um choque tamanho para Sammy que, quando a família se muda do Arizona para a Califórnia, ele decide abandonar em definitivo o hábito de filmar.

Ainda assim, o cinema persiste no caminho do jovem Fabelman: Ele tem a oportunidade de realizar um filme tradicional para o evento anual da formatura, no qual deposita toda sua habilidade e talento, mesmo que com os aspectos pessoais da vida entrando numa espécie de colapso: Mitzi, à essa altura, já não suporta mais o afastamento de Bennie e pede o divórcio à Burt, enquanto que os valentões da escola, sabendo das origens judaicas de Sammy, o acuam de todas as formas.

Se percebemos, nessa terna e delicada trajetória familiar, que o pendor artístico e o fascínio pelo processo criativo, Sammy puxou de Mitzi, notamos também que o minimalismo técnico e a obsessão profissional, ele puxou de Burt, não apenas isso, é o caminho de altos e baixos vivenciados por seu amor (pois, apesar de tudo, do início ao fim, eles nunca deixam de se amar) que define a visão pueril, ligeiramente sombria para com as harmonias familiares, que irá determinar o cineasta que ele virá a ser.

Para aqueles pouco inteirados da trajetória de Spielberg como diretor de cinema, “Os Fabelmans” significará bem pouco, e fará sentido menos ainda; esta é uma obra muito pessoal, feita para materializar uma história sobre pessoas imperfeitas que se dispuseram a construir uma família presumidamente perfeita, e no processo, moldaram um dos maiores gênios do cinema de todos os tempos.

Spielberg dirige o filme com bom humor, despido de amargura –até mesmo o personagem de Seth Rogen ganha um retrato carinhoso –e plenamente disposto a exorcizar quaisquer fantasmas de seu passado e de sua vida em família. Consegue realizar uma obra delicada e sincera sobre o poder transformador do cinema que, apropriadamente, se encerra no encontro mítico dele (Spielberg) com um dos maiores diretores norte-americanos de todos os tempos –John Ford, cujo “Depois do Vendaval” Spielberg tão bem homenageou numa cena de “E.T.” –a quem o diretor Spielberg coloca em cena interpretado por um dos grande diretores vivos da atualidade (senão o maior), o incomparável David Lynch.

quarta-feira, 2 de março de 2022

The Batman


 O milagre operado pelo diretor Matt Reeves neste novo e empolgante filme estrelado pelo Cavaleiro das Trevas tem uma explicação bastante simples: Diretor sensato e competente, Reeves pegou todas as predisposições cinematográficas que deram certo nas obras anteriores com o Batman –a ambientação singular e sedutora de Tim Burton; o viés brutal e realista de Christopher Nolan; a percepção de quadrinhos adultos evocada por Zack Snyder –e delas extraiu uma mescla tão aprimorada, tão sagaz em sua realização que, embora seja esta a décima produção a contar com o personagem no cinema (outras ainda estão a sair com outros atores interpretando-o), o trabalho do diretor consegue fazê-lo parecer algo absolutamente novo.

Muitos são os filmes que orientam “The Batman”, sejam eles na construção de seus personagens (algo que ele faz com brilho singular), sejam na concepção e condução da própria história –que aqui, diferente das realizações anteriores prima menos pela ação (embora ela exista em profusão inteligente e bem calibrada) e mais por nuances de ordem investigativa. Com efeito, Reeves vai de encontro a anseios que somente fãs aficcionados do herói dos quadrinhos almejavam do personagem, o seu lado detetive.

“The Batman” deixa de lado toda e qualquer necessidade de refazer a origem do protagonista (relatada pelo menos umas três vezes, nos filmes anteriores) para encontrá-lo exatamente no ponto em que contam já dois anos de sua intensa atividade como vigilante noturno nas noites violentas de Gothan City. Nesse papel, Robert Pattinson entrega um Batman imponente, elegante e dotado de inesperada empatia, unindo o senso interpretativo de Michael Keaton, o fulgor sombrio de Christian Bale e a ferocidade senciente de Ben Affleck. Batman ainda é uma figura estranha e recente nas ruas apinhadas de criminalidade de Gothan, entretanto, já conquistou ao menos um bom aliado nas trincheiras da guerra contra o crime, o Capitão James Gordon (Jeffrey Wright). Ao ser chamado por ele para a avaliação de uma cena de crime –o assassinato audacioso e chocante do próprio prefeito de Gothan em pessoa –Batman se defronta com pistas que o levam a um inimigo meticuloso, perigoso e astuto, o Charada (cuja grande interpretação de Paul Dano mescla elementos do assassino real do “Zodíaco” à características do psicopata de “Seven-Os Sete Crimes Capitais”).

Na tentativa de decifrar o emaranhado de pistas deixadas pelo Charada –cuja elucidação, essencial à espinha dorsal da narrativa, adorna o filme com uma atmosfera de filme noir do início ao fim –Batman vai encontrando outros notáveis personagens de sua galeria dos quadrinhos, que acrescentam novas camadas à trama e contribuem com magníficas transposições para cinema, como Selina Kyle, a Mulher Gato (vivida pela bela Zoe Kravitz, numa química espetacular com Pattinson), o mafioso Pinguim (Colin Farrell, tornado irreconhecível pela maquiagem que evoca, em sua persona, o Al Capone de Robert De Niro em “Os Intocáveis”) e Carmine Falcone (John Turturro, se divertindo a valer).

Quase atingindo nada modestas três horas de duração, “The Batman”, de Matt Reeves, passa muito longe de qualquer reflexo da infantilidade proposta pelo “Batman”, de Tim Burton, num longínquo 1991, ao invés disso, o personagem dos quadrinhos surge aqui numa obra cheia de orientações muito adultas –não são raros os momentos em que compreendemos que, fosse o protagonista um detetive particular e não um herói encapuzado, esta seria uma autêntica produção nos moldes de “Fuga do Passado” ou “A Morte Num Beijo” –onde, inclusive, a construção dos personagens, seus momentos intimistas e as intrigas que avançam a história ganham muito mais prioridade do que qualquer cena de ação (ainda que elas também estejam lá, fotogênicas e impactantes).

Ao entregar um filme de realismo invejável enraizado na mitologia do herói assim reapresentado e rejuvenescido –este novo Batman, à princípio, todo independente do Universo Compartilhado da DC Comics onde é vivido por outros intérpretes, traz Robert Pattison, numa das mais sensacionais personificações de Batman/Bruce Wayne já concebidas –Matt Reeves criou, com propriedades fascinantes e rigor técnico arrebatador, uma das melhores adaptações de histórias em quadrinhos do cinema.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

Ataque dos Cães


 Existe um curioso contraste de expectativas na filmografia de Jane Campion desde sua revelação em “Sweetie” (1989) e “Um Anjo Em Minha Mesa” (1990); presume-se que haverá toda uma sensibilidade de natureza feminina em suas realizações e o que encontramos, na maioria das vezes, são retratos áridos e intimistas da aspereza, da agressividade, ainda que a sutileza com que se dá tal execução seja, quase sempre, mérito dela ser mulher.

“Power Of The Dog” –ou “Ataque dos Cães” numa tradução insatisfatória e insuficiente do título original –exemplifica bem essa disfunção: Um faroeste quase contemporâneo (ambientado em 1927) onde não se dispara um único tiro a despeito dos níveis elevados de tensão que ele consegue atingir. Sua atenção está em facetas inerentes aos seus personagens e como tais aspectos são determinantes para seus desfechos. Com efeito, as frases que encerram e que terminam o filme (a primeira, mencionada por um dos personagens; a segunda um versículo bíblico que, inclusive, esclarece seu título) são fundamentais para a compreensão de seu propósito.

Os dois irmãos Burbank tocam seu rancho e sua criação de gado. São eles o irascível e insensível Phil (Benedict Cumberbatch, brilhante) e o comedido George (Jesse Plemons, de “Jungle Cruise”, numa atuação cheia de dignidade). Os irmãos têm personalidades tão opostas quanto complementares, e somente assim, a dinâmica entre eles parece funcionar: George tenta ignorar as truculências de Phil, enquanto Phil faz, na medida do possível, vista-grossa ao fato do irmão agir e ser diferente em tudo e por tudo dele. Caso de uma parada ocasional de sua comitiva numa humilde estalagem onde fazem a refeição –estabelecimento tocado pela viúva Rose (Kirsten Dunst, num corajoso registro dos efeitos da idade e da desilusão sobre sua outrora beleza) com a ajuda do solícito filho Peter (Kodi Smith-McPhee), um garoto retraído de hábitos peculiares. Lá, Phil de pronto implica com Peter, autor das flores de papel que decoram as mesas. A situação exaspera os ânimos da entristecida Rose e, numa tentativa de confortá-la, George se enamora dela.

Quando os dois decidem se casar, automaticamente transferem essa circunstância para o rancho da família: Uma vez lá, Rose –que padece de potenciais problemas de alcoolismo –encontra dificuldade em lidar com a ameaça que o ambiente excessivamente rigoso e masculino exerce sobre as fragilidades de seu filho, e, sobretudo, com a presença nada amistosa, cheia de rancor e crueldade de Phil.

Ele, contudo, esconde celeumas insondáveis: Fala o tempo todo de seu falecido mentor, um certo Bronco Henry –personagem que nunca aparece, mas é essencial à narrativa –e, embora recrimine Peter o tempo todo devido ao seu suposto comportamento afeminado, aos poucos, é o próprio Phil quem dá indícios de suas tendências homossexuais surgidas ainda jovem em sua relação com Bronco Henry. O foco deste trabalho de Jane Campion, diretora hábil na ênfase das arestas inóspitas do amor, é, portanto, a masculinidade tóxica, tornada ainda mas desprezível quando vem adornada pelos elementos da hipocrisia: O protagonista, tão acusatório, persecutório e supostamente másculo de Benedict Cumberbatch ofende, recrimina e agride as pessoas por aparentarem ser aquilo que, no fundo, ele é.

Tal condição, segundo rege a implacável cartilha dramática construída por Campion aqui, o torna alguém perigoso, um cão raivoso: É questão de tempo, percebe Peter, que Phil encontre pretextos para fazer mal à instável Rose, e quando acontecer, talvez seja tarde demais para o sensato George tomar alguma providência. Sendo assim, sem que sequer o expectador se dê conta, engrenagens se movimentam, ao longo da narrativa pausada, episódica e atenta aos mínimos pormenores, para consolidar um plano em movimento do qual só no momento certo (leia-se, nos quinze minutos finais!) teremos a devida consciência.

Intimista ao extremo, na contramão do cinema convencional e cada vez mais barulhento de hoje, “Ataque dos Cães” é uma obra de rara contenção na qual tem-se a impressão que muito pouca coisa, ou quase nenhuma, acontece durante sua nada modesta duração. Ledo engano: Se o registro, em princípio, parece ser o de uma rotina campestre pontuada por tensões humanas e subliminares, em suas profundezas, muitas motivações, informações e reflexões estão em trânsito a fim de construir um premissa carregada de um incomum e inestimável significado.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Aconteceu Em Woodstock


O abalo sísmico provocado por “O Segredo de Brokeback Mountain” na crítica e no público foi tamanho que, alguns anos e alguns projetos depois, o diretor Ang Lee ainda produzia sob a sombra dessa repercussão –uma espécie de necessidade de se provar e se manter naquele mesmo nível de relevância cinematográfica.
Certamente há algo disso a orientar “Aconteceu Em Woodstock”, uma realização exemplar e brilhante, mas destituída daquilo que mais supostamente teria: Espontaneidade.
Ang Lee inicia seu filme imerso num silêncio muito condizente com a cidadezinha de White Lake, no estado de Nova York, onde se ambienta a trama. Lá, todas as características típicas da pequena e deliberadamente medíocre comunidade interiorana norte-americana convergem. Até a trilha sonora que toca, portanto, soa abafada e retraída.
Sabemos, entretanto, que muito barulho virá: Elliot Tiber (Demetri Martin) é um jovem morador com tímidas pretensões artísticas. Todos os seus esforços, no entanto, são dirigidos para harmonizar a situação dos pais, Sonia (Imelda Stanton) e Jake (Henry Goodman) –imigrantes russos, proprietários de um pequeno hotel caindo aos pedaços, eles não se acertam com ninguém, exceto com o parcimonioso Elliot, que para tanto, deixou sua morada em Greenwich Village para ficar com os velhos.
Em meio ao tédio local, o máximo que Elliot se permite é organizar um pequeno festival de música todo o ano –que atrai, quando muito, uma meia dúzia de moradores...
Contudo, eis que a cidade vizinha, Wallkills, estava prestes a sediar um festival de música hippie –com atrações muito famosas daqueles idos de 1969 –e os organizadores foram, da noite para o dia, desamparados pelos proprietários locais.
Disposto a usar a oportunidade para agitar a freguesia claudicante de seu hotel, Elliot não perde tempo e liga para os organizadores com uma ideia inusitada e prática: O alvará para seu insosso e medíocre festival de música foi tirado sem problemas pelas autoridades, sendo assim ele pode usá-lo, ainda que num festival de proporções –imagina ele –um pouco maiores!
Elliot mal pode imaginar que está acendendo o estopim para uma experiência sem precedentes que marcará, de forma inapelável, toda a cultura norte-americana.
Austero como sempre em sua observação das incongruências humanas (e revelando um olhar extraordinariamente afiado sobre meandros comportamentais americanos para um cineasta taiwanês), Ang Lee tem a sensatez de desviar sua narrativa de participações famosas (como Janis Joplin ou Jimmie Hendrix) ou mesmo de facetas mais grandiosas do Woodstock em si para priorizar as pessoas comuns, Elliot e seus pais (que, de normais, não têm absolutamente nada), os moradores perplexos de White Lake (o proprietário das terras usadas para o evento, vivido por Eugene Levy, o ator-assinatura da série “American Pie”; o rabugento cidadão vivido por Jeffrey Dean Morgan e seu irmão, alucinado e veterano do Vietnam, interpretado por Emily Hirsch) e toda sorte de indivíduos inacreditáveis que o festival atrai: O travesti (!) e ex-veterano da guerra da Coréia, Vilma, personificado com brilho insólito por Liev Schreiber; o hippie Michael (Jonathan Groff), um dos responsáveis pelo festival cuja atitude sempre lisérgica parece algo fora da realidade; o doidão em LSD (Paul Dano, ótimo), e sua namorada (Kelli Garner, inebriante) que surgem no momento mais psicodélico do filme; e tantos outros.
“Aconteceu Em Woodstock” marca também a segunda incursão como roteirista de James Schamus, produtor de todos os filmes de Ang Lee, a primeira foi “Hulk” –é curioso notar que, embora de origens, procedimentos e naturezas absolutamente distintas, há alguma afinidade entre esses dois projetos, em especial, a forma com que a narrativa se vale de múltiplos quadros para dividir as cenas enfatizando, aqui, o caos gradativo presente nos preparativos e, mais tarde, a fascinante pluralidade que contaminou esse festival lendário.

quarta-feira, 27 de junho de 2018

O Mundo de Jack & Rose


Só mesmo o fato de ser casado com a diretora Rebecca Miller para justificar a presença de um ator como Daniel Day-Lewis num projeto equivocado e redundante como este.
Rebecca, que também é filha do dramaturgo Arthur Miller, também dirigiu a igualmente insossa comédia romântica “O Plano de Maggie”, de 2016. Comparando os dois trabalhos –de natureza e pretensões bem diferentes –pode-se perceber que ela tem certo interesse em relacionamentos que as circunstâncias tornam pouco usuais.
É sobre isso, essencialmente que trata este filme aqui (e se era a intenção falar de alguma outra coisa, isso se perdeu na realização).
Jack (Daniel Day-Lewis) mora com a filha Rose (Camilla Belle) numa ilha em algum ponto da Costa Oeste dos EUA. O ano é 1986, e logo notamos que Jack é o que restou de uma comunidade alternativa surgida a partir dos preceitos da contracultura dos anos 1960.
Eles vivem isolados, exceto com ocasionais intervenções de um empreendedor que constrói um conjunto de casas pré-fabricadas no limite de sua propriedade –e que Jack trata de enxotar com tiros de espingarda!
A filha Rose não tem qualquer conexão com o mundo, mas Jack sabe que, com a chegada de sua adolescência, ela precisa ter contato com outras pessoas, sobretudo, depois que a saúde de Jack começa a deteriorar em vista de seu estado físico –Jack não tem mais muito tempo.
Com isso em mente, ele convida Kathleen (Catherine Keener), sua namorada, para morar com eles. Ela leva a tiracolo os filhos, o sensível e hesitante Rodney (Ryan McDonald) e o desleixado Thaddius (Paul Dano, que fez “Sangue Negro” com Day-Lewis).
A reação de Rose à presença súbita desses estranhos em sua casa é tudo menos harmoniosa.
Ao tentar falar sobre inúmeras facetas do comportamento humano –e ostentar sensibilidade em cada uma delas –o filme de Rebecca se perde na incapacidade de ilustrar ao expectador qual é seu cerne de fato.
Não chega a ser surpresa que a sua sustentação para os lapsos que assola o filme seja a formidável presença de Day-Lewis (bem ladeado por Camilla Belle e por Catherine Keener), um grande ator que, como aqui, ocasionalmente acontece de dedicar mais empenho e afinco do que o filme merece.

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Ruby Sparks - A Namorada Perfeita

Outrora um escritor prodígio, Calvin (o competente Paul Dano) conheceu o sucesso. Entretanto, há tempos ele não consegue repetir o mesmo feito: Tudo que lhe resta é a auto-comiseração na conclusão de que está sofrendo de um agudo bloqueio criativo.
O fato de ser carente e anti-social não ajuda muito.
Mas, eis que Calvin tem então uma epifânia: Usar as páginas em branco na máquina de escrever para relatar em minúcias a namorada perfeita.
Inesperadamente, ela, que se denomina Ruby Sparks (e vem a ser interpretada pela própria roteirista do filme, Zoe Kazan) materializa-se de imediato em sua casa, crente de que é real e que por ele é apaixonada.
Durante o período em que usufrui desse relacionamento, Calvin vive um sonho; chega até mesmo a apresentá-la –com resultados até satisfatórios! –para seus pais, vividos por Annete Bening e Antonio Banderas.
Mas, o amor que Ruby sente por ele muda conforme a menina se adapta à realidade –ela passa a trabalhar, a estudar e a conhecer novas pessoas, e com isso adquire certa independência emocional dele, do qual ele acaba se ressentindo.
Para não perdê-la Calvi então apela para a magia da máquina de escrever e tira dela sua independência; Ruby se torna alguém inconveniente, uma espécie de parasita existencial.
Tentando contornar o problema, ele tira sua felicidade; ela se torna assim uma pessoa depressiva e deprimente.
Por fim, ele retira a sua tristeza, fazendo dela um ser vazio; e só então percebe que, em seus anseios egoístas e egocêntricos ele próprio tirou tudo o que fazia ela ser perfeita.
É extremamente válida (e ainda um tanto quanto rara ao gênero) a reflexão que esta agridoce fantasia romântica faz ao tentar entender e retratar a dinâmica de uma relação à dois pelo viés surreal da idealização.

Os diretores Jonathan Dayton e Valerie Faris (realizadores também do fabuloso "Pequena Miss Sunshine") são casados na vida real bem como os protagonistas Paul Dano e Zoe Kazan o que talvez explique a compreensão incisiva e a sinceridade pulsante que emana de todo o filme.

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Os Suspeitos

“Prisoners” é um filme que levanta diversas questões: É justo que se estabeleça um limite ético para um pai que deseja salvar seus filhos? Até que ponto a lei pode ser torcida para salvar uma vida? Existe realmente culpa quando ela vem impelida por certa insanidade?
“Prisoners” é também mais um dos grandes trabalhos de Denis Villeneuve. Aqui, ele adota um tom inquietante, um ritmo parcimoniosamente lento (tão mais lento nos momentos em que não gostaríamos que fossem) e muitas das características que já o definem como cineasta para colocar isso tudo a serviço de uma obra de suspense.
Cidade de Boston. Duas meninas por volta dos sete anos de idade desaparecem para aflição de suas famílias. O detetive designado para o caso (Jake Gyllenhaal, excelente) logo prende o principal suspeito (Paul Dano), um rapaz esquisito com mentalidade debilitada. Em seu trailer não há indício algum do seqüestro o que obriga a polícia a libertá-lo, para desespero do pai de uma delas (Hugh Jackman, tão magistral quanto Gyllenhaal).
Villeneuve permite que a circunstância atroz em torno da qual a narrativa respira (as crianças foram raptadas? Continuam vivas?) tangencie o próprio tempo para perplexidade do expectador: Sente-se cada segundo de agonia que passa enquanto ele insiste em não revelar o paradeiro das meninas.
Este é, portanto, um filme que não poupa o público. Nem seu protagonista: Inconformado, o personagem de Hugh Jackman aprisiona o rapaz mentalmente incapaz (ainda que altamente suspeito) a fim de torturá-lo até confessar o paradeiro das crianças.
Mas, o angustiante silêncio dele torna os dias que se passam um suplício para todos os envolvidos.
O diretor encontra assim uma oportunidade impactante e poderosa para esmiuçar as engrenagens que conduzem à justiça com as próprias mãos em contraponto à lentidão alarmante das investigações, todavia, seu registro não privilegia posturas dando largo espaço para refletir à esse respeito numa obra carregada de pontas soltas que se amarram com primor nos trinta minutos finais.
O desfecho do filme oferece igualmente pouca margem para aspectos comemorativos –o quê indica a procedência nada americana do diretor (ele é canadense): O interesse de Villeneuve está nos extremos da dramaturgia, nos caminhos inéditos por onde pode levar seu elenco e na construção exemplar de uma narrativa vigorosa que mescla autenticidade e força emocional.

P/S: Não confundir este com o celebrado filme “Os Suspeitos”, de Brian Singer, dos anos 1990.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Show de Vizinha

Na cena que abre o filme, a música “Under Pressure”, do Queen, irrompe em cena, ilustrando as lembranças, já em tom de precoce nostalgia, de uma série de formandos com diferentes impressões de seus anos de escola, até então chegar ao protagonista Matthew Kidman (o ótimo Emily Hirsch, de “Na Natureza Selvagem”); é um momento inebriante que já indica a capacidade desigual deste filme do diretor Luke Greenfield para cativar –sua edição dinâmica, divertida e emotiva já oferece um diferencial no gênero de comédias à beira da vulgaridade a que pertence.
Prestes a se formar no colegial, Matthew, como todo adolescente de hormônios à flor da pele, assombra-se com a beleza de sua nova vizinha, a loira, sexy e espetacular Danielle (Elisha Cuthbert, da série “24 Horas”, deliciosa como nunca).
Para sua surpresa, e de seus amigos de escola, ela parece disposta a se envolver com ele. Mas, sua alegria dura só até um de seus amigos descobrir que ela é, na verdade, uma atriz pornô.
Não é tão original quanto pode parecer a postura que o diretor Greenfield adota aqui: Muito de seu filme inspira-se na comédia oitentista “Negócio Arriscado”, que lançou Tom Cruise (que, no ano seguinte faria “Top Gun”) e até chegou a concorrer a algumas categorias do Globo de Ouro.
Como naquele divertido e bem calculado trabalho (hoje, infelizmente, bastante esquecido pelo público), este é uma comédia ligeira amparada, é verdade, em boa parte no apelo da belíssima atriz Elisha Cuthbert junto ao público adolescente, no entanto, possui uma série de méritos próprios (certamente, a seleção de músicas pop da trilha sonora é um deles) que resultam num entretenimento simpático e divertido, repleto dos impropérios e sacanagens típicos das comédias adolescentes.

P/S: Repare como, num dos pôsteres de divulgação do filme na foto acima, a arte se assemelha, e muito com o pôster oficial do espanhol “De Salto Alto”, de Pedro Almodóvar!

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Pequena Miss Sunshine

Não há como negar que existe uma fórmula para se fazer certos filmes dentro do cinema independente norte-americano, por meio da qual alguns realizadores visam um apelo específico junto ao público, uma atenção da crítica obtida em geral pelo caminho mais fácil, e normalmente uma identificação com obras já consagradas que preservem inadvertido carinho junto à seus cultuadores.
O exemplo máximo dessa fórmula costuma sempre ser o saboroso “Pequena Miss Sunshine”.
Misto de roteiro espirituoso, acertos inquestionáveis de elenco e fôlego narrativo, ele se assume como aquele misto de comédia e drama, centrado numa família disfuncional e que, para todos os efeitos, é um retrato simpático dos fracassados da América, os desiludidos sonhadores da classe média baixa que se escondem à sombra do “american way of life”.
A tal família em questão (e que reúne diversos personagens carregados idiossincrasias e peculiaridades) embarca numa kombi para, todos juntos, fazer uma verdadeira migração até outra cidade onde será realizado o concurso de beleza mirim "pequena miss sunshine",do qual a caçula da família, a pequena Olívia (Abigail Breslin, uma graça), deseja ardentemente participar. A família de Olivia é, como não podia deixar de ser, uma coleção de figuras desajustadas: seu pai (Gregg Kinnear), um homem assombrado pela ideia do fracasso e viciado no programa de auto-ajuda que ele mesmo criou; seu avô (o oscarizado Alan Arkin), homem rabugento e lascivo, ainda que cativante; seu tio (Steve Carell), um homossexual depressivo e suicida; seu irmão (Paul Dano), um jovem esquisito que fez voto de silêncio para ingressar na academia militar; e sua mãe (Toni Collette) que se ilude ao tentar assumir o papel de ponto de equilíbrio de todos eles. A precária viagem que farão servirá para todos entenderem melhor a si mesmos.
É uma espécie de tendência surgida no cinema independente (e como toda tendência tem uma conseqüência nociva) surgida justamente a partir da consagração deste filme, ganhador dos Oscar (merecidos) de Melhor Ator Coadjuvante e Melhor Roteiro Original.
De fato, o equilíbrio de gêneros e humores atende a quase todas as fatias de público, e sua postura algo alternativa garante interesse dos mais intelectuais: É, por assim sim, uma receita de como fazer um filme que todo mundo irá gostar.
O único problema é quando isso afeta uma das mais prolíficas vertentes do cinema norte-americano, já bastante judiado pelas imposições dos blockbusters de estúdios.

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Sangue Negro

Os filmes de Paul Thomas Anderson jamais são fáceis. Corrosivos, densos, pesados até. Sua técnica em muito deve aos trabalhos magistrais de Stanley Kubrick: Lá está aquela sondagem irrestrita da condição humana, emoldurada por cenas de um perfeccionismo técnico que chegam às raias do desconcertante.
"Sangue Negro" é sobre a desumanização cuja ignição é, quase sempre, a cobiça. E se existia algo movimentado pela cobiça eram os primórdios da exploração e extração do petróleo, transcorridos no século XIX, em pleno solo americano.
É lá que um homem rude e determinado inicia sua ardua jornada como perfurador de terras nos Estados Unidos de então.
Anderson começa sua jornada com cerca de vinte minutos de silêncio, onde sequer os personagens expressam grunhidos em resposta ao que lhes acontece, tamanha é a brutalização que, desde já, seu diretor lhes inflige. Inicialmente sozinho na vastidão dos desertos americanos, o personagem de Daniel Day-Lewis (abusando de sua técnica primorosa de atuação) logo prospera e adquire uma equipe de trabalhores, um dos quais inclusive morre em acidente lhe deixando um bebê para cuidar. Os anos vão se passando registrando sua eventual contribuição para o crescimento e formação de toda uma nação enquanto simples homem de negócios, ao mesmo tempo que é mostrada a sua deterioração de caráter, ressaltada no seu relacionamento cada vez pior com o filho adotivo que fica surdo em um acidente,e sobretudo na relação de dependência social e inimizade profunda que nutre com um jovem pastor religioso.
O distanciamento formal que as cenas impõe é de tal forma preciso que nos sentimos esmagados ante a narrativa impiedosa da vida desse personagem, e como ela, ele também se tornará impiedoso, a ponto de praticar atos cada vez mais cruéis.
O plano final de câmera de Anderson (carregado cinismo e de ironia em igual medida) é uma constatação da metamorfose à que o protagonista foi submetido desde o momentos iniciais.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

12 Anos de Escravidão

EUA. Segunda metade do século XIX. Durante o período vigente da escravatura, Solomon Northup, um negro nascido livre, pai de família e músico de profissão, é sequestrado e vendido para um senhor de terras como escravo. Inicia-se aí uma jornada que se estenderá por doze longos anos, onde ele passará por diferentes senhores, viverá e testemunhará toda sorte de abusos vividos pelos escravos por parte dos brancos, até conseguir encontrar um meio de escapar, e finalmente voltar para o convívio com sua família. Vencedor do Oscar 2013 de Melhor Filme é um notável exemplo da insuspeita competência artística do diretor Steve McQueen (realizador dos notáveis “Hunger” e “Shame”), cujos plamos de câmera distinguem de início este de qualquer outro filme já feito sobre este tema até então, além de uma aula de dever cívico no retrato pertinente (e raro no cinema norte-americano) que ele pinça sobre as atrocidades do dia a dia de um escravo. 
Na época de seu lançamento foram muitas as análises que observaram (com bastante propriedade) o quão pouco eram feitos filmes que abordassem o período da escravidão em solo americano, e contrapartida à filmes, por exemplo, sobre os direitos civis, estes muito mais numerosos. 
A qualidade incontornável de “12 Anos de Escravidão”, portanto, era um dado que não permitia que este filme fosse ignorado, levando à questão mais perene que obrigou o público a analisar essa postura de omissão da sociedade americana. 
É o cinema em seu papel imprescindível e fundamental de moldar opiniões saudáveis em prol da igualdade e dignidade. E melhor ainda se ele vem abrilhantado com grandes atuações de Chiwetel Ejiofor e da jovem Lupita Nyong'o.