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segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

Ataque dos Cães


 Existe um curioso contraste de expectativas na filmografia de Jane Campion desde sua revelação em “Sweetie” (1989) e “Um Anjo Em Minha Mesa” (1990); presume-se que haverá toda uma sensibilidade de natureza feminina em suas realizações e o que encontramos, na maioria das vezes, são retratos áridos e intimistas da aspereza, da agressividade, ainda que a sutileza com que se dá tal execução seja, quase sempre, mérito dela ser mulher.

“Power Of The Dog” –ou “Ataque dos Cães” numa tradução insatisfatória e insuficiente do título original –exemplifica bem essa disfunção: Um faroeste quase contemporâneo (ambientado em 1927) onde não se dispara um único tiro a despeito dos níveis elevados de tensão que ele consegue atingir. Sua atenção está em facetas inerentes aos seus personagens e como tais aspectos são determinantes para seus desfechos. Com efeito, as frases que encerram e que terminam o filme (a primeira, mencionada por um dos personagens; a segunda um versículo bíblico que, inclusive, esclarece seu título) são fundamentais para a compreensão de seu propósito.

Os dois irmãos Burbank tocam seu rancho e sua criação de gado. São eles o irascível e insensível Phil (Benedict Cumberbatch, brilhante) e o comedido George (Jesse Plemons, de “Jungle Cruise”, numa atuação cheia de dignidade). Os irmãos têm personalidades tão opostas quanto complementares, e somente assim, a dinâmica entre eles parece funcionar: George tenta ignorar as truculências de Phil, enquanto Phil faz, na medida do possível, vista-grossa ao fato do irmão agir e ser diferente em tudo e por tudo dele. Caso de uma parada ocasional de sua comitiva numa humilde estalagem onde fazem a refeição –estabelecimento tocado pela viúva Rose (Kirsten Dunst, num corajoso registro dos efeitos da idade e da desilusão sobre sua outrora beleza) com a ajuda do solícito filho Peter (Kodi Smith-McPhee), um garoto retraído de hábitos peculiares. Lá, Phil de pronto implica com Peter, autor das flores de papel que decoram as mesas. A situação exaspera os ânimos da entristecida Rose e, numa tentativa de confortá-la, George se enamora dela.

Quando os dois decidem se casar, automaticamente transferem essa circunstância para o rancho da família: Uma vez lá, Rose –que padece de potenciais problemas de alcoolismo –encontra dificuldade em lidar com a ameaça que o ambiente excessivamente rigoso e masculino exerce sobre as fragilidades de seu filho, e, sobretudo, com a presença nada amistosa, cheia de rancor e crueldade de Phil.

Ele, contudo, esconde celeumas insondáveis: Fala o tempo todo de seu falecido mentor, um certo Bronco Henry –personagem que nunca aparece, mas é essencial à narrativa –e, embora recrimine Peter o tempo todo devido ao seu suposto comportamento afeminado, aos poucos, é o próprio Phil quem dá indícios de suas tendências homossexuais surgidas ainda jovem em sua relação com Bronco Henry. O foco deste trabalho de Jane Campion, diretora hábil na ênfase das arestas inóspitas do amor, é, portanto, a masculinidade tóxica, tornada ainda mas desprezível quando vem adornada pelos elementos da hipocrisia: O protagonista, tão acusatório, persecutório e supostamente másculo de Benedict Cumberbatch ofende, recrimina e agride as pessoas por aparentarem ser aquilo que, no fundo, ele é.

Tal condição, segundo rege a implacável cartilha dramática construída por Campion aqui, o torna alguém perigoso, um cão raivoso: É questão de tempo, percebe Peter, que Phil encontre pretextos para fazer mal à instável Rose, e quando acontecer, talvez seja tarde demais para o sensato George tomar alguma providência. Sendo assim, sem que sequer o expectador se dê conta, engrenagens se movimentam, ao longo da narrativa pausada, episódica e atenta aos mínimos pormenores, para consolidar um plano em movimento do qual só no momento certo (leia-se, nos quinze minutos finais!) teremos a devida consciência.

Intimista ao extremo, na contramão do cinema convencional e cada vez mais barulhento de hoje, “Ataque dos Cães” é uma obra de rara contenção na qual tem-se a impressão que muito pouca coisa, ou quase nenhuma, acontece durante sua nada modesta duração. Ledo engano: Se o registro, em princípio, parece ser o de uma rotina campestre pontuada por tensões humanas e subliminares, em suas profundezas, muitas motivações, informações e reflexões estão em trânsito a fim de construir um premissa carregada de um incomum e inestimável significado.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

Os Indicados Ao Oscar 2022


 E temos então os indicados de 2022 ao grande prêmio do cinema. Segue a lista completa:

FILME

Belfast (Focus)

No Ritmo do Coração (Apple)

Não Olhe para Cima (Netflix)

Drive My Car (Janus/Sideshow)

Duna (Warner)

King Richard (Warner)

Licorice Pizza (MGM/United Artists)

O Beco do Pesadelo (Searchlight)

Ataque dos Cães (Netflix)

Amor, Sublime Amor (20th Century)

DIREÇÃO

Kenneth Branagh, Belfast

Ryûsuke Hamaguchi, Drive My Car

Paul Thomas Anderson, Licorice Pizza

Jane Campion, Ataque dos Cães

Steven Spielberg, Amor, Sublime Amor

A Academia de Artes Cinematográficas repete algumas manobras políticas já empregadas no passado, como a adição-surpresa entre os Melhores Filmes de um candidato estrangeiro –embora o japonês “Drive My Car” dificilmente iguale o prestígio do sul-coreano “Parasita” em 2020 –e a incursão de um filme dirigido por uma mulher: E olha que “Ataque dos Cães”, de Jane Campion, um lançamento da Netflix, ainda chega como grande favorito, tornando possível que este seja o primeiro ano na história do Oscar em que duas mulheres (lembra-se de Chloe Zhao, ano passado?) ganham o maior prêmio simultaneamente.

Surpreendem as presenças dos não tão cotados “King Richard” e “O Beco dos Pesadelos” e as ausências dos imensamente cotados “Apresentando Os Ricardos” e “A Crônica Francesa”.

ATOR

Javier Bardem, Apresentando os Ricardos

Benedict Cumberbatch, Ataque dos Cães

Andrew Garfield, tick, tick…Boom!

Will Smith, King Richard

Denzel Washington, A Tragédia de Macbeth

ATRIZ

Jessica Chastain, Os Olhos de Tammy Faye

Olivia Colman, A Filha Perdida

Penélope Cruz, Madres Paralelas

Nicole Kidman, Apresentando os Ricardos

Kristen Stewart, Spencer

Um incógnita considerável entre as atrizes visto que uma das favoritas –Lady Gaga por “Casa Gucci” –ficou de fora (na verdade, o Oscar foi o ÚNICO prêmio no qual ela não ganhou indicação!) e sua maior concorrente, Kristen Stewart, por “Spencer”, não parece, no momento, gozar de muito prestígio junto aos membros; o que deixa caminho livre para as campanhas de Jessica Chastain, Olivia Colman, Penélope Cruz e Nicole Kidman gerarem frutos.

Entre os atores, há um ranço crescente em relação ao improvável favoritismo Will Smith –eu pessoalmente não gostaria que ele ganhasse por este filme. Quem ganharia então? Possivelmente Benedict Cumberbtch ou Andrew Garfield, não obstante a atuação estupenda de Denzel Washington (na 10ª indicação de sua carreira).

ATOR COADJUVANTE

Ciarán Hinds, Belfast

Troy Kotsur, No Ritmo do Coração

Jesse Plemons, Ataque dos Cães

J.K. Simmons, Apresentando os Ricardos

Kodi Smit-McPhee, Ataque dos Cães

As maiores apostas nesta categoria são aparentemente Jesse Plemons e o veterano Ciarán Hinds, contudo, são vantagens tão tênues que podem perfeitamente cederem a uma vitória-surpresa de Kodi Smith-McPhee.

ATRIZ COADJUVANTE

Jessie Buckley, A Filha Perdida

Ariana DeBose, Amor, Sublime Amor

Judi Dench, Belfast

Kirsten Dunst, Ataque dos Cães

Aunjanue Ellis, King Richard

Supostamente a favorita, Ariana DeBose, se ganhar, entrará para a seleta lista de atores/atrizes que ganharam um Oscar interpretando o mesmo personagem –ao lado dos honoráveis Marlon Brando e Robert De Niro (ambos tendo vivido Vito Corleone em “O Poderoso Chefão” e “O PoderosoChefão-Parte II”) e de Heath Ledger e Joaquin Phoenix (os dois premiados por “Batman-OCavaleiro das Trevas” e por "Coringa”) –já que Rita Moreno levou a estatueta de Melhor Atriz Coadjuvante pelo filme de 1961, entretanto, a supremacia de Ariana aparece inesperadamente ameaçada pelo surgimento da veterana Judi Dench entre as indicadas (ela que sagra-se, assim, como a intérprete de mais idade a constar nessa categoria), embora muitos críticos apontassem que, do elenco de “Belfast”, era Caitriona Balte (de “Ford Vs Ferrari”) quem mais merecesse essa indicação; está parecendo que a Academia entregará o Oscar à Judi Dench pelo conjunto da obra...

ROTEIRO ORIGINAL

Belfast, Kenneth Branagh

Não Olhe para Cima, Adam McKay, David Sirota

King Richard, Zach Baylin

Licorice Pizza, Paul Thomas Anderson

A Pior Pessoa do Mundo, Joachim Trier e Eskil Vogt

ROTEIRO ADAPTADO

No Ritmo do Coração, Siân Heder

Drive My Car, Ryusuke Hamaguchi, Takamasa Oe

Duna, Jon Spaihts, Denis Villeneuve, Eric Roth

A Filha Perdida, Maggie Gyllenhaal

Ataque dos Cães, Jane Campion

Era visto que Adam McKay estaria nesta categoria com seu “Não Olhe Para Cima” –e a pouca cotação de sua obra na categoria principal pode se refletir numa chance real de ter seu roteiro original premiado –ainda que o grande favorito aqui, por razões muito parecidas, seja o elogiado e emocionante “Belfast”. Jane Campion já tem um Oscar de Melhor Roteiro (por “O Piano”) debaixo do braço, apenas o inusitado “Drive My Car” e o surpreendente “A Filha Perdida” a impedem de levar para casa uma segunda estatueta.

FOTOGRAFIA

Duna, Greig Fraser

O Beco do Pesadelo, Dan Laustsen

Ataque dos Cães, Ari Wegner

A Tragédia de Macbeth, Bruno Delbonnel

Amor, Sublime Amor, Janusz Kaminski

MONTAGEM

Não Olhe pra Cima, Hank Corwin

Duna, Joe Walker

King Richard, Pamela Martin

Ataque dos Cães, Peter Sciberras

tick, tick... Boom!, Myron Kerstein, Andrew Weisblum

DIREÇÃO DE ARTE

Duna, Patrice Vermotte, Richard Roberts, Zsuzsanna Sipos

O Beco do Pesadelo, Tamara Deverell, Shane Vieau

Ataque dos Cães, Grant Major, Amber Richards

A Tragédia de Macbeth, Stefan Dechant, Nancy Haigh

Amor, Sublime Amor, Adam Stockhausen, Rena DeAngelo

FIGURINOS

Cruella, Jenny Beavan

Cyrano, Massimo Cantini

Duna, Jacqueline West

O Beco do Pesadelo, Luis Siqueira

Amor, Sublime Amor, Paul Tazewell

MAQUIAGEM

Um Príncipe em Nova York 2

Cruella

Duna

Os Olhos de Tammy Faye

Casa Gucci

TRILHA SONORA

Não Olhe pra Cima, Nicholas Britell

Duna, Hans Zimmer

Encanto, Germaine Franco

Madres Paralelas, Alberto Iglesias

Ataque dos Cães, Jonny Greenwood

Nas categorias técnicas é visível a predominância de “Duna”, 10 indicações –e torço para que ele faça mesmo uma bela campanha, até para compensar a ausência de Denis Villeneuve na categoria de Melhor Direção –ainda que a honraria de filme com maior número de indicações pertença à “Ataque dos Cães”, com 12, “Amor Sublime Amor”, de Steven Spielberg, vem bem atrás com 7.

CANÇÃO

“Down to Joy”, Belfast

“Dos Oruguitas”, Encanto

“Somehow You Do”, Four Good Days

“Be Alive”, King Richard

“No Time to Die”, 007 Sem Tempo para Morrer

SOM

Belfast

Duna

007 - Sem Tempo para Morrer

Ataque dos Cães

Amor, Sublime Amor

EFEITOS VISUAIS

Duna

Free Guy

007 - Sem Tempo para Morrer

Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis

Homem-Aranha: Sem Volta para Casa

ANIMAÇÃO

Encanto (Disney)

Fuga (NEON)

Luca (Disney/Pixar)

A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas (Netflix)

Raya e o Último Dragão (Disney)

Críticos mais rabugentos espernearam com a indicação à Efeitos Visuais de “Homem-Aranha Sem Volta Para Casa” –filme cujas cópias de cinema sofreram até reajustes digitais em algumas cenas –todavia é visto, sobretudo, nesta categoria, que a Academia deseja capitalizar com o sucesso de público. Entre as animações a Disney surge soberana com nada menos do que TRÊS fortes favoritos ao prêmio –os outros dois está ali mais para constar mesmo...

Enquanto que, na categoria de Melhor Canção, “007-Sem Tempo Para Morrer”, com a canção-título de Billie Eilish, surge como favorito, tendo os dois últimos filmes do Bond Daniel Craig (“007-Operação Skyfall” e “007 Contra Spectre”, no caso) levado os prêmios de Melhor Canção Original em seus anos, a despeito das ilustres presenças de Van Morrison, pela canção de “Belfast”, e de Diane Warren (em sua 13ª indicação sem jamais ter ganhado!), pela canção de “Four Good Days”.

DOCUMENTÁRIO

Ascension (MTV)

Attica (Showtime)

Fuga (NEON)

Summer of Soul (Searchlight)

Writing With Fire (Music Box)

FILME INTERNACIONAL

A Felicidade das Pequenas Coisas (Butão)

Fuga (Dinamarca)

A Mão de Deus (Itália)

Drive My Car (Japão)

A Pior Pessoa do Mundo (Noruega)

CURTA-METRAGEM LIVE-ACTION

Take and Run

The Dress

Long Goodbye

On My Mind

Please Hold

CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO

Affairs

Bestia

Box Ballet

Robin Robin

Windshield

DOCUMENTÁRIO CURTA-METRAGEM

Audible

Lead Me Home

The Queen of Basketball

Three Songs

When We Were Bullies

Os vencedores serão anunciados na cerimônia a ser realizada no domingo, dia 27 de março.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2022

Vencedores do Globo de Ouro 2022


 A cultura do cancelamento chegou às premiações do cinema. Desde que indícios de um desempenho reprovável foram surgindo –suspeitas de assédio por parte de membros da Imprensa Estrangeira; uma insistência em não agregar representatividade, ignorando grandes obras realizadas por integrantes da comunidade negra, aliás, a descoberta de que a própria Imprensa Estrangeira não traz nenhum negro entre seus membros; e até mesmo relatos de suborno para privilegiar esta ou aquela produção –muitos foram os integrantes de Hollywood que declararam abertamente seu descontentamento com o Globo de Ouro. Tamanha foi essa celeuma que a cerimônia deste ano não teve qualquer transmissão pela TV (os canais se recusaram a veiculá-la) e aparentemente não contou com a presença dos astros cinematográficos e televisivos de praxe.

O que muda? Provavelmente a percepção de que os vencedores nas categorias de cinema sinalizam qualquer predileção no restante da temporada. Os efeitos desse puxão de orelha devem ser assimilados neste ano por vir e, com as devidas precauções tomadas, o Globo de Ouro e a Imprensa Estrangeira devem voltar aos trilhos da normalidade, restaurando algo de sua relevância e as transmissões via TV.

Melhor Filme Dramático

“Ataque dos Cães”

Melhor Filme Cômico ou Musical

“Amor Sublime Amor”

 Melhor Ator – Drama

Will Smith por “King Richard”

 Melhor Atriz – Drama

Nicole Kidman por “Being The Ricardos”

 Houve quem torceu o nariz para a vitória de Will Smith como melhor ator dramático; o consolo para esses descontentes é que muito provavelmente esse seja um dos favoritismos que não se cumprirá. O mesmo parece ser o caso de Nicole Kidman, que ganhou como melhor atriz dramática por um filme que tende a se dispersar na lembrança dos críticos em premiações futuras, sobretudo, porque é o que costuma acontecer com filmes assinados por Aaaron Sorkin. A dúvida é se “Ataque dos Cães” tem, de fato, a força que demonstrou ou isso foi apenas ocasional. Da mesma forma, Jane Campion conquistou o troféu de direção (fazendo com que, pela primeira vez na história, duas mulheres vencessem o prêmio consecutivamente!) deixando para trás o trabalho tão enaltecido de Steven Spielberg. “Amor Sublime Amor”, contudo, conquistou o Globo de Ouro de Filme Cômico ou Musical, na mais disputada das categorias –todas essas obras terminam praticamente garantindo suas vagas no Oscar.

Melhor Diretor

Jane Campion por “Ataque dos Cães”

Melhor Roteiro 

Kenneth Brannagh por “Belfast”
Melhor Atriz – Musical ou Comédia

Rachel Zegler por “Amor Sublime Amor”

Melhor Ator – Musical ou Comédia

Andrew Garfield por “Tick, Tick... Boom!”

Melhor Ator Coadjuvante 

Kodi Smit-McPhee por “Ataque dos Cães”

Melhor Atriz Coadjuvante

Ariana DeBose por “Amor Sublime Amor”

Apesar do prestígio com que adentrou a temporada, “Belfast” teve de contentar-se com o prêmio de melhor roteiro –o que não deixa de ser um reconhecimento mesmo assim; suas chances no Oscar permanecem, visto o apreço que a Academia nutre por obras auto-biográficas. Na categoria de melhor atriz de comédia ou musical, Rachel Zegler trouxe mais um troféu para “Amor Sublime Amor” fazendo dobradinha com sua coadjuvante, Ariana DeBose; dentre as duas, a segunda é a que goza de um maior embasamento da crítica. Por fim, Andrew Garfield teve seu belo trabalho reconhecido num ano em que também marcou presença no grande blockbuster da temporada, “Homem-Aranha Sem Volta Para Casa”.

Melhor Animação

“Encanto”

Melhor Filme em Língua Estrangeira

“Drive My Car” (Japão)
A categoria de Melhor Filme Estrangeiro reconheceu um dos filmes mais elogiados dos últimos meses, embora essa postura também não represente uma continuidade nos demais prêmios, o mesmo não pode ser dito sobre a Melhor Animação, na qual entre favoritos confirmados e esnobados, os Estúdios Disney tornaram a prevalecer.

Melhor Canção Original

No Time To Die, de “007-Sem Tempo Para Morrer”

 Melhor Trilha Sonora Original

Hans Zimmer por “Duna”

O único prêmio conferido à “Duna” terminou sendo o de Melhor Trilha Sonora –algo emblemático, visto que o compositor Hans Zimmer é um fã declarado do livro e afirmou ter feito dessa partitura a mais pessoal de sua carreira –entretanto, já é dito e antecipado que suas chances no Oscar (e talvez até em outras premiações) haverão de ser maiores. A melhor canção acabou com o último filme “007”, interpretada por Billie Eilish, no que parece ter se tornado uma tradição nas obras de james Bond estreladas por Daniel Craig, ganhar os prêmios de melhor músicas; algo que, diga-se, até então, nenhum filme de James Bond havia feito!

As próximas semanas trarão o Bafta, os Prêmios dos Sindicatos e, por fim, o Oscar –esses, prêmios que usufruem de mais prestígio (por enquanto...) do que o Globo de Ouro, e então teremos um desenho mais nítido das tendências e dos favoritismos da temporada de prêmios. Vamos aguardar.

sexta-feira, 6 de julho de 2018

Brilho de Uma Paixão


Ecos de "Razão e Sensibilidade" reverberam neste trabalho austero, ainda demasiado denso da diretora de “Um Anjo Em Minha Mesa” (cuja protagonista, Kerry Fox, aparece aqui como a mãe da personagem principal) e "O Piano", expondo aqui, como em todos os seus filmes, a condição árdua da mulher numa sociedade que lhe é rude.
1808. Na Inglaterra, a jovem diletante e estilista Funy Prawne (a versátil Abbie Cornish, de “Sucker Punch”) é apresentada ao poeta e escritor norte-americano John Keats (Ben Wishaw, do ‘Q’ de “007-Operação Skyfall”).
Ele, pobre e vivendo quase que de favor com outro escritor não tão talentoso, mas muito admirador de seu estilo. Ela, como toda moça de família da época, sujeita a um casamento de conveniência com o primeiro rapaz de dote que aparecer.
Contra todas as formalidades do período, os dois se apaixonam, e sua relação, ainda que fugaz leva a uma das fases mais produtivas de Keats.
Menos uma obra biográfica (Keats tem peso menor na narrativa do que Funy) e mais um conto sobre o tormento amoroso num ambiente opressor, o filme se apropria da verve poética de Keats para dar corpo ao seu romance e contundência aos conceitos feministas que a diretora Jane Campion aponta em sua obra.

terça-feira, 10 de abril de 2018

Um Anjo Em Minha Mesa

Se o público, e especialmente, a crítica começaram a prestar atenção em Jane Campion pelo gracioso “Sweetie”, tendo sua consagração vindo através de “O Piano”, pode-se dizer que o ponto de equilíbrio de sua carreira foi “Um Anjo Em Minha Mesa”, que se coloca exatamente entre esses dois significativos momentos.
Ela narra –em tintas carregadas de dramaticidade em estado bruto que passaram a ser habituais nas narrativas de Campion –a vida de Janet Frame, em três fases distintas e específicas: A infância, a adolescência e o princípio da maturidade.
Em todas elas, Campion alterna atrizes incrivelmente semelhantes entre si, num esforço coletivo e interpretativo notável na construção de uma personalidade difícil, assustada, frágil, mas no fim, fértil em sensibilidade e inteligência.
Não tarda a notarmos, de fato, a natureza singular, até mesmo espantosa e alarmante, da trajetória de Janet quando descobrimos, já na primeira parte do filme que ela passou boa parte da infância e da vida adolescente internada em um manicômio –sua excessiva timidez foi erroneamente diagnosticada como esquizofrenia –escapando por muito pouco de uma lobomotia: Estava prestes a sofrer este procedimento quando chegou a notícia do inesperado sucesso editorial de seu primeiro livro de poesias (!).
Em contraponto, a essa primeira e segunda parte claustrofóbica, angustiante, desesperada e triste, Campion conduz a platéia e sua protagonista (então interpretada pela ótima Kerry Fox) a uma terceira e última parte luminosa, livre e otimista quando Janet inicia, já como escritora consagrada, suas relutantes viagens pelo mundo a conhecer outros escritores e também a se descobrir como mulher.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

O Piano

Consagração da diretora neo-zelandesa Jane Campion no Festival de Cannes –cuja Palma de Ouro ela dividiu com o chinês “Adeus, Minha Concubina” –este drama árido, áspero e contundente proporcionou o Oscar de Melhor Atriz para Holly Hunter que emprega maestria no papel da muda Ada, e Melhor Atriz Coadjuvante para a surpreendente (e ainda bem novinha) Anna Paquim.
“O Piano” não é um filme feito para agradar o expectador. Não busca entretê-lo com romances idealizados, nem tampouco se revela previsível ou mesmo confortável.
A persistente sensação de ar rarefeito que contamina toda a narrativa do início ao fim remete às impressões da própria protagonista quando ela chega àquela longínqua, chuvosa e inóspita ilha da Austrália, onde conhecerá, ao lado da filha pequena (Paquim) o seu marido num casamento já arranjado. Não há nada de convidativo no lugar. E a perspectiva de vida que ela observa ali não parece reservar espaço para a felicidade ou a satisfação. Tudo o que Ada trouxe foi seu piano que ela tinha o hábito de tocar. E mesmo isso ela será obrigada a deixar para trás: Existem complicações demais para levar, a ela e à filha, da praia onde aportaram até a aldeia onde vão viver através das selvas ermas, frias e úmidas para transportar um trambolho como aquele.
O marido de Ada, Alisdair (Sam Neil), embora faça o possível para mostrar-se afável não atende seu pedido. É George (Harvey Keitel), um dos trabalhadores do local quem irá trazer o piano para a aldeia, após comprá-lo de Alisdair.
Entretanto, para ter um piano é necessário tocá-lo, ou no mínimo, ter alguém por perto que o faça. Eis então, a justificativa perfeita para ter a arredia Ada próxima dele.
Entre aulas de piano cada vez mais abusivas da parte dele e angustiantes da parte dela –que tenta negociar o direito de usar o piano com a permissão forçada de deixá-lo extrapolar seus limites –a diretora Campion ousa vislumbrar uma história de amor: Tão paradoxal quanto a protagonista que não faz um único ruído, mas que é fascinada pelo piano que emite música, acaba sendo também o ato libidinoso que detona uma paixão improvável. Fruto certamente da excitação em ser proibido, o rubor dos encontros de Ada e George culmina num adultério. E Jane Campion emprega uma sensibilidade feminina para especular sobre os sentimentos de repúdio e asco pelo abusador que o ambiente rude, distanciado e deprimente permite que se transformem em ardente atração.
Dona de perfeita noção de tragédia, Campion orquestra os detalhes por meio dos quais Alisdair irá se dar conta da traição da mesma forma que manipulou os elementos que fizeram Ada e George consumar sua atração. E a união de todas essas pontas soltas conduz à intensidade dramática que impera na meia hora final.
Jane Campion é fascinada, obcecada até, pela pureza que brota da adversidade –esse é, à rigor, o mote de cada um de seus trabalhos –aqui, a descoberta dessa pureza se dá pelo curioso uso simbólico do piano, objeto que surge como pivô das duas grandes mudanças na história de Ada: Na primeira, como o pretexto plausível para seus encontros com George, e na segunda, como simbolismo para a mudança que a própria Ada abraça em sua vida quando ao fim ela o deixa submergir nas águas no instante em que parte embora da aldeia. Sem muita sutileza, Campion deixa bem claro que uma parte de Ada morreu ali.
Um sacrifício da protagonista na busca por seu próprio final feliz.

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Fogo Sagrado

Em “Holly Smoke”, tanto diretora como atriz pareciam trabalhar sob a luz de uma certa necessidade de se provar: Jane Campion havia ganhado, anos antes, a Palma de Ouro em Cannes pelo premiado “O Piano” enquanto Kate Winslet vinha do fenômeno “Titanic”.
Talvez, tenha sido essa pressão que torna meio pedante a narrativa desde promissor trabalho, onde Campion lança um curioso olhar –repleto de exotismo e despojamento feminino –às intrincadas emoções que norteiam a devoção passional, e o quanto o pouco entendimento dos jovens pode se submeter ao cinismo dos mais velhos, ainda que a manipulação seja uma via de dois lados.
O começo –infinitamente mais instigante do que o restante de filme que se segue após ele –acompanha a jovem Ruth Barron (Kate, mostrando-se a atriz perspicaz, linda e atraente que pudemos ver no filme de James Cameron) numa viagem à Índia, onde ela se deixa fascinar pelas doutrinas religiosas e tão distintas das ocidentais que encontra por lá.
Ao voltar para casa, sua família se vê aflita com a ‘lavagem cerebral’ feita nela e, em desespero, contrata os serviços de PJ Waters (Harvey Keitel, repetindo com Campion a parceria de “O Piano”) um homem de meia-idade especializado em "desprogramação religiosa".
PJ isola-se com ela em uma casa de campo. O intuito é o de aproveitar a privacidade e a ausência de interrupções cotidianas proporcionada pela distância para eliminar a influência cega e fanática a qual ela parece ter sido exposta.
Campion lança mão de uma louvável habilidade para construir diálogos de ordem reflexiva a partir desse ponto, fazendo seu filme soar, no entanto, mais como uma vitrine para seu talento do que como uma obra feita com inspiração.
Não ajuda muito a guinada formulaica e maniqueísta que o filme sofre pouco antes da sua metade quando, em função desse isolamento, a fragilidade da jovem vai dando lugar a uma necessidade física carnal e a uma atração pelo "desprogramador" que termina por seduzir o homem mais velho.
Embora Campion entregue cenas um tanto quanto ousadas da parte de sua protagonista (Kate Winslet sempre foi um das poucas atrizes aclamadas que nunca temeu ousar em cenas de nudez) é a partir desse ponto que “Fogo Sagrado” se torna um filme confuso e perdido, adquirindo aspectos cada vez mais equivocados conforme a história se afasta da proposta que aparentava ter no inicio, e ruma em direção a uma oscilante e não muito convincente história de amor.
Nota-se que, nas cenas de sexo bastante despojadas que constrói, Campion mira no escandaloso, numa espécie de transgressão por meio da arte e do questionamento, mas acerta mesmo no constrangedor, no taxativo equívoco em conciliar duas partes que, neste filme, nunca se harmonizam: A discussão sobre o direito alheio de determinar os dogmas religiosos dos mais jovens, e o sexo como moeda de troca pelo exercício existencial de poder.