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quinta-feira, 25 de junho de 2026

Memory


 Nesta sua primeira colaboração com a estrela Jessica Chastain, o diretor mexicano Michel Franco conta, à sua maneira, uma história de amor, contudo, nem um pouco adornada do romantismo com o qual estamos acostumados –Franco conta a história de seus personagens atento às arestas de crítica social, às nuances de uma dramaturgia corrosiva e à uma narrativa que privilegia o senso naturalista ante qualquer idealização cinematográfica, e na grande maioria dos projetos que encabeçou, Jessica Chastain, de fato, sempre buscou mais expressões autorais, e menos comerciais, em suas empreitadas interpretativas.

Aqui, ela vive Sylvia, uma mulher suburbana, encarregada de um subemprego numa casa de cuidados especiais. Ela luta para criar a filha, Ana (Brooke Timber, do seriado “Boneca Russa”) e manter-se firme nas reuniões do A.A. (em meio a uma das quais o filme começa) para afastar-se do alcoolismo que quase a consumiu na juventude.

Sem quase nenhum traquejo social (cujas razões compreenderemos aos poucos), Sylvia é chamada pela irmã mais nova, Olivia (Merritt Wever, de “A História de Um Casamento”) para uma festa de reunião dos ex-estudantes da escola Woodbury, onde ambas estudaram, no entanto, Sylvia não poderia se sentir mais deslocada: Ela não é capaz de partilhar dos momentos festivos, sempre a envolver bebidas alcóolicas, e os poucos que a conhecem se constrangem com sua presença. Ao sair de lá, Sylvia é seguida por alguém que inicialmente não sabemos de quem se trata: Um estranho que a acompanha de longe até a porta de sua casa.

No outro dia, o estranho ainda está lá (?), e ela acaba chamando alguém para vir buscá-lo.

Pouco a pouco, vamos descobrindo de quem se trata: Ele se chama Saul Shapiro (Peter Sarsgaard, em inspirada atuação) e é portador de demência leve. Ele tem memórias nítidas de sua vida passada, de quando era casado, até então enviuvar, mas sua mente não conserva com perfeição memórias novas, perdendo-se com muita facilidade.

Inicialmente, Sylvia recusa a proposta do irmão dele, Isaac (Josh Charles, de “Sociedade dos Poetas Mortos”) para ser cuidadora de Saul, acreditando que, quando jovens, ele foi um dos tantos que se aproveitou do alcoolismo dela para abusá-la. No entanto, quando descobre que Saul é inocente, Sylvia volta atrás, e passa a tomar conta dele todos os dias.

A medida que o tempo vai passando, Sylvia e Saul conseguem impactar na vida um do outro e um vínculo mais forte e improvável começa a se formar.

É curiosa a forma com que o estilo do diretor Franco muda radicalmente as impressões do filme; tivesse algum outro diretor, este “Memory” seria uma obra agridoce, melodramática e muito provavelmente romântica: Sob a batuta de Michel Franco, contudo, “Memory” é uma obra enxuta, sucinta e sólida na qual os meandros de uma relação a dois vão surgindo em minimalismos cotidianos, sem qualquer enfeite ou ênfase. Se isso por um lado remove completamente o filme do gênero romance ao qual poderia pertencer, por outro, ele confere uma cadência realista aos acontecimentos a ponto de não oferecer ao expectador muitas certezas acerca do rumo que o enredo haverá de tomar.

Nesta realização um bocado modesta e válida, as únicas impressões estranhas ficam por conta da própria Jessica Chastain: Ela está maravilhosa como sempre, não me entendam mal (e foi ela mesma quem recomendou ao diretor Franco a excelente escolha de Peter Sarsgaard para o papel), contudo, tão magnética, atrativa e bela que é, ela não convence como uma mãe solteira moradora do subúrbio sem muitas opções na vida a não ser envolver-se com um homem de meia-idade portador de demência.

quarta-feira, 2 de março de 2022

The Batman


 O milagre operado pelo diretor Matt Reeves neste novo e empolgante filme estrelado pelo Cavaleiro das Trevas tem uma explicação bastante simples: Diretor sensato e competente, Reeves pegou todas as predisposições cinematográficas que deram certo nas obras anteriores com o Batman –a ambientação singular e sedutora de Tim Burton; o viés brutal e realista de Christopher Nolan; a percepção de quadrinhos adultos evocada por Zack Snyder –e delas extraiu uma mescla tão aprimorada, tão sagaz em sua realização que, embora seja esta a décima produção a contar com o personagem no cinema (outras ainda estão a sair com outros atores interpretando-o), o trabalho do diretor consegue fazê-lo parecer algo absolutamente novo.

Muitos são os filmes que orientam “The Batman”, sejam eles na construção de seus personagens (algo que ele faz com brilho singular), sejam na concepção e condução da própria história –que aqui, diferente das realizações anteriores prima menos pela ação (embora ela exista em profusão inteligente e bem calibrada) e mais por nuances de ordem investigativa. Com efeito, Reeves vai de encontro a anseios que somente fãs aficcionados do herói dos quadrinhos almejavam do personagem, o seu lado detetive.

“The Batman” deixa de lado toda e qualquer necessidade de refazer a origem do protagonista (relatada pelo menos umas três vezes, nos filmes anteriores) para encontrá-lo exatamente no ponto em que contam já dois anos de sua intensa atividade como vigilante noturno nas noites violentas de Gothan City. Nesse papel, Robert Pattinson entrega um Batman imponente, elegante e dotado de inesperada empatia, unindo o senso interpretativo de Michael Keaton, o fulgor sombrio de Christian Bale e a ferocidade senciente de Ben Affleck. Batman ainda é uma figura estranha e recente nas ruas apinhadas de criminalidade de Gothan, entretanto, já conquistou ao menos um bom aliado nas trincheiras da guerra contra o crime, o Capitão James Gordon (Jeffrey Wright). Ao ser chamado por ele para a avaliação de uma cena de crime –o assassinato audacioso e chocante do próprio prefeito de Gothan em pessoa –Batman se defronta com pistas que o levam a um inimigo meticuloso, perigoso e astuto, o Charada (cuja grande interpretação de Paul Dano mescla elementos do assassino real do “Zodíaco” à características do psicopata de “Seven-Os Sete Crimes Capitais”).

Na tentativa de decifrar o emaranhado de pistas deixadas pelo Charada –cuja elucidação, essencial à espinha dorsal da narrativa, adorna o filme com uma atmosfera de filme noir do início ao fim –Batman vai encontrando outros notáveis personagens de sua galeria dos quadrinhos, que acrescentam novas camadas à trama e contribuem com magníficas transposições para cinema, como Selina Kyle, a Mulher Gato (vivida pela bela Zoe Kravitz, numa química espetacular com Pattinson), o mafioso Pinguim (Colin Farrell, tornado irreconhecível pela maquiagem que evoca, em sua persona, o Al Capone de Robert De Niro em “Os Intocáveis”) e Carmine Falcone (John Turturro, se divertindo a valer).

Quase atingindo nada modestas três horas de duração, “The Batman”, de Matt Reeves, passa muito longe de qualquer reflexo da infantilidade proposta pelo “Batman”, de Tim Burton, num longínquo 1991, ao invés disso, o personagem dos quadrinhos surge aqui numa obra cheia de orientações muito adultas –não são raros os momentos em que compreendemos que, fosse o protagonista um detetive particular e não um herói encapuzado, esta seria uma autêntica produção nos moldes de “Fuga do Passado” ou “A Morte Num Beijo” –onde, inclusive, a construção dos personagens, seus momentos intimistas e as intrigas que avançam a história ganham muito mais prioridade do que qualquer cena de ação (ainda que elas também estejam lá, fotogênicas e impactantes).

Ao entregar um filme de realismo invejável enraizado na mitologia do herói assim reapresentado e rejuvenescido –este novo Batman, à princípio, todo independente do Universo Compartilhado da DC Comics onde é vivido por outros intérpretes, traz Robert Pattison, numa das mais sensacionais personificações de Batman/Bruce Wayne já concebidas –Matt Reeves criou, com propriedades fascinantes e rigor técnico arrebatador, uma das melhores adaptações de histórias em quadrinhos do cinema.

sexta-feira, 24 de setembro de 2021

Jackie


 Sempre interessado em personalidades reais capturadas em determinado ponto de uma trajetória singular, o diretor chileno Pablo Larraín (do fantástico “No”) debruçou-se, em sua estréia hollywoodiana, a desvendar as circunstâncias humanas, dramáticas e filosóficas que rondaram Jaqueline Kennedy durante os quatro dias após presenciar o marido –o presidente John F. Kennedy –ser assassinado no fatídico atentado de 22 de novembro de 1963 até o momento de seu funeral e enterro encenado, sob orientação da própria Jackie (como era chamada), de forma a tornar aquele um instante antológico na memória do povo norte-americano.

É notável a compreensão de Larraín, enquanto cineasta estrangeiro, para elementos que presumimos tão próprios dos EUA, como sua História pregressa (os pormenores íntimos que a câmera captura são de um brilho ímpar), seus detalhes mais ínfimos e suas impressões.

Munido de todas as artimanhas que o grande cinema é capaz de proporcionar, o filme de Larraín acompanha sua protagonista (vivida com maturidade e astúcia por Natalie Portman, num desempenho, ouso dizer, talvez até melhor que seu oscarizado trabalho em “Cisne Negro”) em diferentes ocasiões ao longo daquelas horas: São flagradas as discussões com assessores e outras figuras (entre elas o irmão, Bobby Kennedy, vivido por Peter Sarsgaard), muitos ainda incapazes de entender o efeito contundente daquele momento na História; os diálogos entre Jackie e um sacerdote (o saudoso John Hurt), carregados de esforço em busca de um significado diante da ensurdecedora tragédia, bem como flashs de lembranças Jackie em sua árdua adaptação à rotina na Casabranca, aos olhares atentos de todo povo americano (que logo adquiriu uma certa obsessão por ela), e na manutenção de sua relação com John Kennedy e com o peso de ser Primeira-Dama.

O trecho final acrescenta à esse repertório de instantâneos pessoais as sequências francamente memoráveis do enterro de Kennedy, no qual Jackie foi obstinada em recriar as características do enterro do próprio Abraham Lincoln, também ele, um presidente americano vítima de assassinato.

Ao contemplar tal história, tal protagonista, nessa situação específica, Larraín não quer lançar-se numa audaciosa tentativa de emular o subconsciente norte-americano sob o prisma de uma tragédia mundialmente conhecida, ele quer, sim, derrubar fronteiras, vislumbrando Jackie Kennedy e todos os perplexos coadjuvantes que a orbitaram como seres humanos colhidos num momento aterrador e arrebatador do Século XX.

Nessa meticulosa observação, é a própria Jackie quem facilmente salta à frente de todos os outros: Na atuação hipnótica, estudada e respeitosa de Natalie Portman, no contexto assim esboçado, na conjunção reflexiva das informações de ordem intimista dispostas no roteiro, “Jackie” fala sobre a tenacidade sobre-humana de uma grande mulher, a primeira a compreender o significado daquele trágico momento histórico em que estava inserida, quando todos os outros se achavam anestesiados pelo luto, prestando atenção somente no grande homem que havia partido.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

Lanterna Verde


 O cinema comercial é um mar melindroso de se navegar, mais ainda se o seu objetivo vai além do sucesso propriamente dito de um único filme, mas almeja plantar uma semente que leve a toda uma franquia. O público em geral tem um paladar que pede por fórmulas confortáveis, mas que não se prendam à repetição mecânica, sendo temperadas com alguma ousadia e contravenção para se fazer minimamente surpreendente em algum momento.

A Marvel Studios fez escola, e sucesso estrondoso, sabendo administrar esse cardápio.

Muitos foram os que tentaram e não conseguiram. Nesse sentido, uma das primeiras tentativas da DC Comics –que, pelo seu catálogo vasto de conhecidos super-heróis, era a aposta mais óbvia à seguir os passos da Marvel –foi esta produção de 2011 que, pelo perfil dos envolvidos (era dirigida por Martin Campbell, que quatro anos antes entregou o fenomenal “Cassino Royale”; e estrelada por Ryan Reynolds, então um astro em potencial), pelo apelo de seu personagem (uma criação uma bocado original que, nos quadrinhos, ombreia em relevância tanto com Superman quanto com Batman), e pelos indícios inicialmente demonstrados pelo próprio filme (cujas primeiras imagens e trailers apontavam para uma realização visualmente caprichada, com ação e personalidade), prometia acender o estopim que poderia colocar os heróis da DC no cinema.

Se tudo parecia no lugar –e, de certa maneira, realmente estava –“Lanterna Verde” tornou-se uma prova de que, se há um elemento que garante a qualidade (ou falta dela) em um projeto desde sua gênese, este é o roteiro: Escrito pelo quinteto Greg Berlanti, Marc Guggenheim, John Broome, Michael Greenberg e Michael Goldenberg, “Lanterna Verde” desperdiça as facetas épicas embutidas na origem do herói (da qual este filme se incumbe sem maiores entusiasmos) para tentar fazer uma comédia inapropriada na maior parte do tempo –e isso acaba contaminando o bom diretor Campbell que, se consegue imprimir sua experiência na execução de cenas flúidas e bem filmadas, equivoca-se ao optar por um estilo diferenciado de edição onde sequências distintas, como lembranças, se sobrepõem à outras cenas sem um propósito narrativo que as entrelaçasse e sem uma emoção que as fizesse válidas.

Em meio à todo esse equívoco, Ryan Reynolds interpreta o piloto Hal Jordan, cujo destino, ele mal sabe, é tornar-se um super-herói: Nos confins da galáxia, a criatura Paralax, um mal constituído de medo (ou, ao menos, essa é a pífia definição que ele recebe...) inicia o seu trajeto para consumir mundos. A Tropa dos Lanternas Verdes, guardiões de vários setores da galáxia, é enviada para detê-lo, mas Abin Sur (Temuera Morrison, de “Aquaman”), o lanterna verde do setor onde está a Terra, é atingido e cai, moribundo, em nosso planeta. Seguindo o protocolo, ele envia seu poderoso anel mágico para procurar uma alma corajosa e benevolente, digna de substituí-lo, e eis que ele escolhe Hal Jordan.

Dotados desses novos poderes –que, como é de se supor, vai gradativamente aprendendo a usar –Jordan entra em contato com os alienígenas da Tropa de Lanternas Verdes –entre os quais Kilowog (voz de Michael Clarke Duncan), Tomar-Re (voz de Geoffrey Rush) e Sinestro (Mark Strong, num personagem que seria o possível vilão da continuação) –passa a treinar para seu iminente confronto com Paralax –no qual, é claro, ele desempenhará papel crucial! –e descobre-se o herói que jamais imaginou ser.

Em algum momento dessa jornada, existem os desnecessários acréscimos de um núcleo humano, a dar conta de uma trama sucedida aqui na Terra, e que mostra o vilanesco Hector Hammond (Peter Sarsgaard) sendo contaminado pela matéria que gerou Paralax e virando, ele próprio, o monstrengo da vez, ameaçando com isso a vida de seu pai, o Senador Hammond (Tim Robbins) e da agente do governo Amanda Waller (Angela Bassett, num papel interpretado depois por Viola Davis em “Esquadrão Suicida”); há também a introdução do inevitável interesse romântico do herói, nas curvas sensacionais de Carol Ferris (a belíssima Blake Lively, que depois casou-se com Reynolds na vida real).

Não faltam boas intenções à “Lanterna Verde”, e nem tampouco possibilidades, sejam elas artísticas ou técnicas, que o tivessem transformado num grande filme, todavia, a ineficiência atroz de seu roteiro e sua sucessão quase inacreditável de lapsos (inclusive, alguns grotescos de inverossimilhança e continuidade) o sabotam de tal maneira que, chegando perto do fim, a sacada derradeira e patética com a qual o bem vence o mal já nem espanta mais o público, insensibilizado por um filme tão erroneamente construído.

terça-feira, 2 de abril de 2019

Lovelace

Costuma-se dizer que a história por trás de alguns filmes é tão turbulenta e interessante quanto o próprio filme em questão.
É essa máxima que vem nortear esta produção que coloca a jovem, bela e talentosa Amanda Seyfried como a garota que, nos anos 1970, protagonizou para o bem e para o mal o filme pornográfico que rompeu pela primeira vez a restrição do circuito específico para essas obras, virando um verdadeiro sucesso, “Garganta Profunda”.
É com ironia que descobrimos a quão pudica é Linda Boreman (Amanda), sobretudo, em comparação com sua melhor atrevida e ousada amiga Patsy (Juno Temple).
Crescida numa família rigorosa e áspera (seus pais são vividos por Sharon Stone e Robert Patrick), Linda ainda teve o infortúnio de engravidar com vinte anos –a criança foi entregue à adoção. O quê levou seus pais a educarem-na com rédea curta.
Tão curta que ela se sentia sufocada.
Quando o galante Chuck Traynor (Peter Sarsgaard) surge em sua vida, portanto, ele não deixa de aparentar ser o príncipe encantado que a salvará daquela prisão. No entanto, Chuck tem lá seus demônios. Enquanto estão juntos, ele deixa Linda (agora, Linda Traynor) compreender sua opinião algo maleável sobre a prostituição –para ele, não há problemas em suas funcionárias fazerem programas com seus clientes –além de outros assuntos mais escusos.
Com a corda no pescoço de tantas dívidas, ele gradativamente convence Linda –que tinha lá seus sonhos para com a vida artística –a fazer um filme. Logo fica claro, porém, que esse filme não é convencional; trata-se de um pornô.
Do modo como a narrativa se apresenta, nem é tanto Linda quem se assombra com os indícios do que terá de fazer, é o próprio expectador: Para a biografia que se assume, ele é um pouco nebuloso na questão do quanto Linda sabia sobre a natureza do projeto de “Garganta Profunda” –e o roteiro ainda usa um artifício para, mais tarde, regressar algumas cenas, e mostrar que Chuck prostituía Linda, aliciando-a com violência e imposições brutais.
Com o sucesso de “Garganta Profunda” –a famosa obra pornô sobre uma garota que tem o clitóris localizado na garganta (!), pretexto que enfileira assim uma sucessão de cenas de sexo oral a cargo de Linda (então, batizada com o sobrenome Lovelace, o mesmo da personagem) –ela se torna assim uma espécie de ícone, um símbolo sexual a representar a ponte entre a então obscura indústria pornográfica e a produção hollywoodiana; significativa, nesse sentido, é a participação de James Franco vivendo ninguém menos que Hugh Hefner, o dono da Playboy.
Mas, a fachada de glamour e êxito esconde um matrimônio de abuso: Disposto a transformar a própria esposa numa espécie de marca que pode explorar até o último centavo, Chuck submete Linda à todo tipo de submissão, desde o uso indevido de sua imagem para produtos de sex-shop à orgias programas com dezenas de clientes.
Ela custa a livrar-se dessa influência perniciosa de Chuck e abandonar esse meio para então reinventar-se, desta vez casada e com o sobrenome Marchiano, como escritora de um livro onde expõe todas as circunstâncias que a levaram a estrelar “Garganta Profunda”, bem como o casamento tóxico que viveu com Chuck –livro este que serve de inspiração ao filme dirigido por Rob Epstein e Jeffrey Friedman com uma indecisão quase bipolar: Seu trabalho flutua entre a intenção de expor despojadamente os elementos do universo pornô (como Milos Forman o fez em “O Povo Contra Larry Flint”) e o zelo ocasional e condescendente para com sua protagonista retratada.
Com isso perde muito da ousadia que se poderia esperar de um projeto assim.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

O Centro do Mundo

Ainda que seu trabalho mais conhecido (e provavelmente melhor) continue sendo o ótimo “O Clube da Felicidade e daSorte”, dos anos 1990, o diretor Wayne Wang nunca deixou de ser um realizador de sensível personalidade.
Como em “Sem Fôlego” –uma continuação do drama “Cortina de Fumaça” que é quase uma colagem de improvisos cênicos –ele exerce algum experimentalismo ao mesmo tempo que, ao empregar um conhecimento aprofundado do processo de filmagem, ostenta certa serenidade neste “O Centro do Mundo”.
Wang contrapõe uma encenação despojada (tateando breve e atrevidamente momentos de erotismo e até pornografia) com uma linguagem orgânica e solta possível graças ao registro em câmera digital.
Richard (Peter Sarsgaard) e Florence (Molly Parker) são, em princípio, dois estranhos, mas estão dividindo o mesmo quarto em Las Vegas. Não são namorados. Nem amigos; mal sabem um do outro. Eventuais flashbacks tratam de revelar o que fazem lá: Ele é um programador de computadores milionário (embora não pareça). Ela, uma stripper (embora –conforme o próprio Richard em certo momento afirma –também não pareça).
Eles se conhecem e, a despeito da ligeira inconveniência do contato, passam a se encontrar com alguma freqüência. Ela não sabe definir se ele é, para ela, uma espécie de cliente ou um amigo real. Ele parece gostar dessa indefinição e a convida para passar um fim de semana naquele quarto de hotel em Las Vegas, onde grande parte do filme se dará.
Florence estipula algumas regras a serem seguidas, pois afinal, embora ele a esteja reembolsando por esses dias de trabalho perdido, ela não é –como costuma afirmar –uma prostituta. Contudo, essas regras (não beijar na boca; sem penetração; disponibilidade plena somente das 10:00 da noite até às 2:00 da madrugada) estão sujeitas à torção dos acontecimentos.
Ao longo dos dias estranhos que se seguem, suas personalidades parecem melhor se esboçarem, a despeito de uma das regras de Florence, de não discutir sentimentos. Richard expõe aspectos de seu histórico familiar e afetivo, o quê passa a explicar um pouco de sua carência, de sua inadequação, e até de seu isolamento. Para ele, estar diante de uma tela de computador –o que ele faz sempre –não é estar sozinho, mas sim conectado com todos. Para ele, ali é o centro do mundo.
Florence, por outro lado, tem consciência do quão diferente é o mundo em que ela vive. Apesar do que diz, não são raros os momentos em que ela deixa a dissimulação se descortinar para revelar alguns elementos sinceros de si mesma: Numa conversa casual e completamente encenada com um sócio aleatório de Richard (o jovem Balthazar Getty, de “A EstradaPerdida”) que encontram num restaurante, ela afirma que a arte precisa e deve enaltecer o corpo, a nudez e o sexo, sobretudo, o feminino. Pois, todas as pessoas nasceram de um ato sexual, e todas vieram de dentro de uma vagina. Para ela, a vagina é, portanto, o centro do mundo.
Da simplicidade quase espartana com que molda seu filme –confinados no quarto de hotel por pelo menos setenta por cento de toda a duração, e capturados pelas imagens algo intrusivas da câmera digital portátil (que reforça a sensação de intimidade exposta) –e do talento bastante eficiente de Sarsgaard e da bela Molly Parker, Wayne Wang extrai uma obra característica, onde duas personalidades, de preferência, um homem e uma mulher, compartilham revelações e imbricam na intimidade relutante um do outro (premissa essencial em obras tão distintas quanto “Um Homem, Uma Mulher”, “OÚltimo Tango Em Paris” ou o nacional “Entre Lençóis”).
Suas concessões aos paradigmas viciosos de um cinema alternativo americano só se sobrepõem ao bom senso de sua narrativa quando o filme já atinge seus dez minutos finais, onde Wang parece se resignar na amargura e desilusão de um drama independente e na indefinição de um desfecho inconcluso.

terça-feira, 21 de março de 2017

Educação

O começo de “Educação” é magnificamente promissor: Os créditos iniciais se apresentam expressivos e dinâmicos, sugerindo ritmo e inventividade à narrativa, os primeiros takes até ensaiam uma premissa em torno do universo estudantil (o quê, mais tarde, não se confirma...) e a música sensacional de Paul Englishby estabelece de pronto um espírito de descontração e alegria que não se vê com freqüência no cinema independente norte-americano.
Tão logo sua trama se inicia, contudo, muito dessa impressão se dissolve, ainda que o filme da diretora Lone Scherfig (de “Italiano Para Principiantes”) preserve o tempo todo um interesse satisfatório em acompanhá-lo.
Se há algo que corresponde à expectativa do início, é o trabalho extraordinário da atriz Carey Mulligan. Ela interpreta uma garota adolescente moradora do subúrbio de Londres nos anos 1960, prestes a se formar e a prestar exames na concorrida universidade de Oxford.
Quando ela conhece um playboy com o dobro da sua idade (Peter Sarsgaard, muito bem), aos poucos iniciando com ele um relacionamento, a jovem é introduzida num mundo fascinante de festas, cultura e arte que parece ser, para ela, uma alternativa de bem-estar e diversão ao trabalhoso e enfadonho caminho universitário que lhe foi traçado.
Escrito pelo romancista (e expert em cultura pop) Nick Hornby, este notável drama inglês vem carregado de alto-astral, em grande parte graças à atuação sensível, profunda e descontraída de sua atriz principal, o quê contribui para sua salutar capacidade de alcance ao gosto do expectador.
Aos poucos o filme ensaia uma curiosa análise da complexa condição da mulher moderna nos anos 1960 de então.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Sete Homens e Um Destino

Péssimo sinal acerca da pouca criatividade que acomete Hollywood: Agora temos até mesmo a refilmagem da refilmagem!
Ainda que a maioria dos envolvidos, na produção e no marketing, tenham agido como se o “Sete Homens e Um Destino” de 1960 fosse uma obra original e não uma adaptação para o gênero de faroeste da mesma premissa básica do quintessencial “Os Sete Samurais”, de Akira Kurosawa, entretanto, se repararmos, ainda ali, havia uma faísca de inventividade (transpor a mesma trama para outra época, outro lugar e outro contexto permitindo, quem sabe, a alteração de toda sua percepção), todavia, o quê se tem aqui é, à princípio, uma repaginação passo a passo.
Contudo, em cerca de vinte minutos, o novo filme já está a oferecer elementos de sobra para a satisfação do expectador, tão escanteada por produções de péssima qualidade lançadas nesse ano de 2016 (e, talvez, por ser também um remake, quando penso nisso, é o catastrófico “Ben-Hur”, de Timur Bekmanbetov, que me vem a mente).
O gênero do faroeste já oferece um grande repertório de clássicos inestimáveis, conduzidos por verdadeiros mestres. Tais filmes são exemplares o suficiente para que o diretor Antoine Fuqua (aqui em sua terceira colaboração com o astro Denzel Washington) assista e observe como se faz. Ele ainda tem a seu favor um roteiro composto por minúcias astutas escrito por Nic Pizzollato (criador da série “True Detective”) que reinventa situações e constrói sólidos e distintos personagens.
Entre eles, Sam Chisolm (Washington, ótimo, dando continuidade à tradição dos faroestes de Quentin Tarantino, herdada dos exemplares dos anos 1970, com protagonistas negros), um honrado caçador de recompensas que coloca sua pistola a serviço dos apelos de uma viúva (a bela Haley Bennett) cuja aldeia precisa se ver livre da opressão provocada por um hostil comprador de terras (Peter Sarsgaard, esbaldando-se como vilão) que deseja vê-los despossuídos.
E aí, nesse ponto de partida, já se vê a pertinente referência que o roteiro deste filme faz com a atualidade: Não apenas é lembrada a questão da representatividade (não somente com o gesto de nomear o majestoso Denzel Washington como protagonista, mas ao dar grande peso e sentido na trama à uma personagem feminina que Não se torna interesse amoroso de nenhum dos heróis), como também o mote central –que nas versões pregressas resumia-se à tentativa dos oprimidos em livrar-se dos opressores –gira em torno da posse de terras,  e do monopólio do poder refletindo muitos aspectos da crise econômica que tem afligido os EUA e o mundo.
É lógico que, no percurso para cumprir a tarefa que resolve aceitar, Chisolm irá recrutar outros pistoleiros de aluguel como ele: O hábil Josh Faraday (Chris Pratt, de “Guardiões da Galáxia”, uma boa presença); o lendário atirador Goodnight Robicheaux (Ethan Hawke, fantástico nessa reunião com o astro Washington e o diretor Antoine Fuqua, quinze anos depois dos três realizarem “Dia de Treinamento”); assim como seu braço direito, o oriental manuseador de facas Billy Rocks (Lee Byung-Hun); o fora-da-lei mexicano Vasquez (Manuel Garcia-Rulfo); o truculento e implacável eremita Jack Horne (Vincent D’ Onofrio, tão sensacional quanto em sua personificação como Rei do Crime na série do “Demolidor”); e o pele-vermelha honrado e habilidoso no arco e flecha Red Harvest (Martin Sensmeier). Um conjunto de carismáticos personagens (como se pode ver) quase tão cativante quanto os divertidos e impetuosos cowboys do filme de John Sturgess, porém composto por toda a diversidade que os tempos politicamente corretos exigem numa produção deste escopo.
É esse grupo que, conduzido pela boa direção de Fuqua (talvez, seu melhor trabalho até então), ruma de encontro ao apocalíptico confronto final, uma junção hábil de ritmo, atmosfera, efeitos especiais, fotografia, montagem e trilha sonora (com um aproveitamento digno e nada vulgar da trilha clássica de Elmer Bernstein) cuja exuberância o cinemão hollywoodiano adora poder ostentar.