terça-feira, 30 de junho de 2026

Os Vourdalak


 O contexto não favorece este estranho filme de Adrien Beau: Baseado num conto gótico de Aleksey Konstantinovich Tolstoy (primo de Leon Tolstoy), publicado em 1839 (anterior, portanto, ao próprio livro “Drácula”, de Bram Stoker) e já adaptado, entre outras produções mais ou menos fiéis, em “A Noite dos Demônios”, de Giorgio Ferroni, este “Os Vourdalak” carrega o estranhamento de uma determinada vertente do cinema francês que o faz pouco palatável (e esse efeito parece ser constantemente proposital) – e olha que nem estamos falando do Cinema Francês de Terror dos anos 2000, que rendeu obras transgressivas e poderosas como os primeiros trabalhos assinados por Alexandre Aja – como se não bastasse, “Os Vourdalak” surge num período em que aflora no circuito comercial uma nova onda formidável de grandes trabalhos no cinema de terror norte-americano, onde novos diretores empreendem uma visão autoral, refinada e surpreendente do gênero por meio de obras a um só tempo artisticamente relevantes e comercialmente bem-sucedidas como “Pecadores”, “AHora do Mal”, “Entrevista Com O Demônio”, “A Substância” e outros.

Dessa maneira, “Os Vourdalak’ padece terrivelmente na comparação com esses grandes filmes e ainda tem os cacoetes mais questionáveis do cinema autoral francês (além do orçamento nitidamente baixo) a lhe prejudicar.

No Século 18, nobre emplumado da Corte Francesa (e passível de todas as frescuras de seu meio), o cavalheiro Marquês Jacques Antoine d’Urfé (Kacey Mottet Klein) se vê em meio à uma inóspita floresta em plena Europa Oriental, numa viagem em regresso à França. O mapa indica que ele se encontra em algum ponto próximo das fronteiras com a Turquia e as poucas instruções que ele tem indicam que refúgio ele só encontrará mesmo na casa de Gorcha, um dos poucos moradores da redondeza.

Lá, Jacques Antoine requisita abrigo e o recebe embora os moradores, da família de Gorcha, sejam inexpressivos e inacessíveis. São eles, o taciturno e jovem Piotr (Vassili Schneider), a bela e arredia Sdenka (Ariane Labed), e a mãe deles Anja (Claire Duburcq, de “1917”), além do caçula, o pequeno Vlad (Gabriel Pavie). Logo, chega o pai deles, Jegor (Grégoire Colin, de “Antes da Chuva”), o filho mais velho de Gorcha, e com sua chegada, os parentes fazem uma revelação: Que Gorcha partiu seis dias atrás disposto a integrar as fileiras do conflito contra os turcos que se desenrola na região. Ele advertiu os demais: Se ele não regressasse em menos de uma semana, isso significava que jamais voltaria, e que se chegasse a voltar, não seria ele, mas sim algo sinistro assumindo sua identidade.

Eventualmente, Gorcha acaba retornando e, diante do alívio em rever novamente o pai, Jegor ignora as instruções e o acolhe, entretanto, a medida que retoma o convívio com os familiares, vai ficando bem claro que Gorcha não é mais o homem que era antes.

Ele foi convertido em um Vourdalak – o equivalente a um vampiro no folclore eslavo e balcânico – e, nas noites que se seguem, dará cabo de um a um, os membros de sua família, tendo o perplexo Jacques Antoine como testemunha dessa maldição.

Há personalidade de sobra para transformar esta obra numa experiência das mais desiguais: Filmado em 16 mm, com ritmo lento e, de certa forma, provocativo, nem um pouco inclinado a corresponder a qualquer expectativa do público e pontuado de uma trilha sonora (a cargo de Maia Xifaras e Martin Le Nouvel) com forte inspiração nos acordes renascentistas de Nino Rota para “Casanova”, de Fellini – o que lhe atribui uma poderosa e ao mesmo tempo incômoda atmosfera de estranheza – o filme tem, como sua escolha estética mais ousada, o fato do principal antagonista, Gorcha, ser ‘interpretado’ por um marionete em tamanho real, manipulado pelo próprio diretor Adrien Beau.

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