segunda-feira, 29 de junho de 2026

As Golpistas


 É provável que a estrela Jennifer Lopez nunca tenha chegado tão perto de concorrer ao Oscar quanto com a personagem que ela desempenha (e magnificamente bem) neste hábil, enérgico, febril e sensual relato de um esquema envolvendo strippers nova-iorquinas e seus incautos clientes da Bolsa de Valores, todo ele inspirado na matéria “The Hustlers At The Scores” publicada em 2015 na New York Magazine e escrita pela jornalista Jessica Pressler, cujo alter-ego aparece no filme interpretada por Julia Stiles.

2007. Destiny (Constance Wu, do sucesso “Podres de Ricos”) é uma dançarina de clubes de strip-tease em Manhattan buscando ganhar a vida e sustentar sua avó (Wai Ching Ho). No Moves Club, em meio aos contratempos de praxe, ela faz amizade com a fulgurante Ramona (Jennifer Lopez, hipnótica), a mais requisitada e bem-sucedida stripper local. Juntas, elas unem-se às demais dançarinas que conseguem manter um estilo de vida razoavelmente rentável e glamouroso, isso pelo menos, até a chegada do catastrófico ano de 2008, época da Crise Financeira da Bolsa de Valores.

Com o forte retrocesso da clientela, Destiny é obrigada a procurar outra ocupação – movida pelo fato de ter tido uma filha, a pequena Lilly – afastando-se desse universo nos próximos três anos seguintes.

Contudo, ao ser deixada pelo pai da criança, e encontrar consideráveis obstáculos para conseguir um trabalho honesto e normal, ela volta uma vez mais ao Moves, só para descobrir que algumas coisas mudaram: Novas garotas, vindas inclusive de outros países, tornam a disputa pelos clientes ainda mais ferrenha, e as circunstâncias por vezes acabavam empurrando as mais desesperadas rumo ao radicalismo da prostituição.

São nessas condições que Destiny e Ramona se reencontram, e é assim que, juntas, resolvem encontrar meios para ganhar todo o dinheiro que julgam merecer – não mais dependendo do clube para arregimentar clientes pagantes, mas indo, elas mesmas, aos bares de Wall Street para fisgar esses mesmos clientes por conta própria. Com o tempo, elas formam um grupo habilidoso e sedutor – além de Ramona e Destiny, contam também com duas amigas, a morena Mercedes (Keke Palmer, de “Não, Não Olhe!”) e a loira Annabelle (Lili Reinhart, da série “Riverdale”).

Contudo, a incerteza e a irregularidade dos clientes as levam a aprimorar suas táticas, valendo-se de um coquetel de drogas que, muito habilmente, elas colocavam no drinque dos infelizes desavisados. Com o indivíduo praticamente dopado, elas o conduziam ao Moves, obtinham acesso ao seu cartão de crédito e gastavam tudo o que queriam, garantindo a gorda comissão que as sustentava. O esquema inicialmente funciona tão bem – e elas experimentam uma elevação tamanha no seu status de vida – que logo elas precisam ‘terceirizar’ o procedimento, trazendo novas strippers para dar continuidade aos estratagemas, o que eventualmente resulta em algumas complicações.

A situação vai galgando práticas criminosas a medida que elas começam a aplicar golpes cada vez mais prejudiciais ao patrimônio de algumas de suas vítimas.

Dirigido com insuspeita competência por Lorene Scafaria (do estranho “Procura-Se Um Amigo Para O Fim do Mundo”), “As Golpistas” – ou “Hustlers”, no original – não escapa de um certo maniqueísmo (as mulheres, ainda que tomem constantemente atitudes ilícitas, são mostradas como uma grande família, dispostas a se ajudar e a sempre se perdoar; já os homens, sem uma única exceção, são retratados sempre como grosseiros, ineptos, intratáveis, misóginos, egoístas e impiedosos), ainda assim, a escrita de Scafaria (ela é também roteirista) nunca é menos que prodigiosa, amparando-se muito no estilo de escrita minimalista, carregado de humor inteligente, aguçado e antenado do roteirista Adam McKay (do já clássico “A Grande Aposta”), produtor do filme que apadrinhou este projeto desde o começo.

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