domingo, 31 de maio de 2026

Meninas Malvadas


 Alguns cinéfilos com um pouco mais de idade certamente testemunharam o fenômeno por meio do qual filmes contemporâneos acabam se tornando clássicos; filmes lançados sem muita certeza de seu desempenho comercial ou crítico terminam virando, com o passar do tempo, referências dentro de seu gênero. Lançado em 2004 (época da qual me recordo perfeitamente), “Meninas Malvadas” –ou “Mean Girls” –dirigido por Mark Waters, é um desses casos, e a comprovação disso vem do fato de que, em 2019, ele ganhou  um remake musical na Broadway (assim como, por exemplo, “O Fantasma da Ópera”) e, vinte anos depois, em 2024, foi lançado em cinema, desta vez dirigido por Samantha Jayne e Arturo Perez Jr.

Assim, a narrativa (concebida pela roteirista Tina Fey a partir do livro de estudo comportamental “Queen Bees and Wannabes”, de Rosalind Wiseman) traz a mesma história pontuada por números musicais que tecem um comentário estilizado dos acontecimentos –agora devidamente adaptada aos novos tempos, com temas atuais como sororidade, o cancelamento social, o bullying (seja o digital ou social), o vício em mídias digitais, a diversidade, a inclusão e a independência feminina. Desnecessário dizer que muitos dos atores já presentes na versão dos palcos repetem seus personagens aqui neste filme.

É o caso de Reneé Rapp que vive a antagonista Regina George –vivida, no filme de 2004 pela sensacional Rachel McAdams. Entretanto, tudo começa mesmo com Cady Heron (Angourice Rice, de “Dois Caras Legais”, num registro bem distinto de Lindsay Lohan). Moradora do Quênia junto de sua família, Cady –que foi educada em casa –precisa se mudar para a cidade de Illinois com seus pais e, pela primeira vez, frequentar um colégio público.

Entretanto, se as matérias escolares não oferecem qualquer empecilho (Cady é uma jovem inteligente), a questão da interação social é: Inicialmente, Cady demora a conseguir fazer amigos. Aos poucos, porém, ela faz amizade com os ligeiramente desajustados Janis (Auli’i Cravalho, que dublou a protagonista da animação “Moana”) e Damian (Jaquel Spivey), e descobre, por meio deles, que há uma espécie de hierarquia muito delicada e complicada estabelecida no lugar pelas próprias garotas.

E quem ocupa o topo dessa cadeia social como a realeza do lugar são as plastic girls, o grupo das patricinhas da escola composto pela poderosa, popular (e perigosa...) Regina George, e suas, digamos, asseclas, Karen (Avantika Vandanapu, no papel que antes foi de Amanda Seyfried) e Gretchen (Bebe Wood, personagem outrora vivida por Lacey Chabert). Em meio à isso, Cady se apaixona por Aaron (Christopher Briney), um estudante de sua classe de matemática, e que vem a ser ex-namorado da própria Regina George, contudo, é a própria Cady quem acaba fazendo amizade com as plastic girls, integrando o grupo e, pouco a pouco, se tornando uma delas.

Uma obra simpática, agradável e com um elenco bem acertado (salvo Ashley Park e Jon Hamm, ligeiramente deslocados do tom), e uma ponta muito especial de Lindsay Lohan –é claro que na comparação, este “Mean Girls”, de 2024, não se equipara, na comédia demolidora e na crítica ferina, ao ótimo filme de 2004, justamente pela questão do politicamente correto que não engessava as obras de humor de antigamente como faz com as atuais (isso aquelas que ainda chegam a ser realizadas!). No mais, acredito que para todos os públicos em geral, é impossível que essa mistura de drama juvenil e comédia, conflitos adolescentes femininos e intrigas estudantis, ainda mais adornadas com descontraídos números musicais, não faça lembrar a conhecidíssima série “Glee” composta de praticamente esses mesmos expedientes e essa mesma ambientação.

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