segunda-feira, 1 de junho de 2026

Spider-Noir - 1ª Temporada


 Os diretores Phil Lord e Christopher Miller, de “Homem-Aranha No Aranhaverso”, na qualidade de produtores (e, portanto, plenos de controle sobre o material final) escancaram, nesta arrojada série da Amazon Prime e produzida pela Sony Pictures, o seu irreprimível apreço pelo subgênero do film noir.

Concebendo um novo personagem a partir da variante detetivesca e monocromática do Homem-Aranha que havia dado as caras em “Aranhaverso” – e que lá era, inclusive, dublada por Nicolas Cage – Lord e Miller dão origem à um novo personagem; e que difere, por sinal, até mesmo da fonte original dos quadrinhos.

Nesta série, elaborada num vistoso e atmosférico preto & branco – mas, liberada também numa versão em cores – o próprio Nicolas Cage (como não poderia deixar de ser!) comparece em carne e osso para dar vida ao personagem que antes ele dublou, o assim chamado Homem-Aranha Noir.

Cage é Ben Reilly, um detetive particular na Nova York da década de 1930 – com todas as mazelas sociais de gangsterismo, Grande Depressão e Lei Seca que o noir tão bem soube explorar – que, cinco anos antes, havia sido o herói Spider (ele abandonou a vida de vigilante após ter sido incapaz de salvar a mulher que amava). Tendo pendurado as chuteiras, Reilly agora é um detetive desiludido, ocasionalmente alcóolatra e dedicado aos casos extraconjugais de praxe, que mal pagam seu sustento e o salário da secretária Janet (Karen Rodriguez).

Até o dia em que uma série de casos coincidentemente interligados começam a revelar para Reilly uma curiosa conspiração ocorrendo em meio às sombras do submundo nova-iorquino: Um marido pouco confiável pede que Reilly recolha provas do adultério de sua alegada esposa, a cantora Kat Hardy (a sedutora Li Jun Li, de “Pecadores”) cujos encontros fortuitos são com ninguém menos do que o prefeito da cidade; o ex-combatente desaparecido inexplicavelmente adotado de poderes (relacionados ao fogo, no caso) que incendeia a mansão do chefão Cabelo de Prata (Brendan Gleeson); mais tarde, a própria Kat Hardy requisita os serviços de Reilly para encontrar outro desaparecido, seu amante e guarda-costas, Flint Marko (Jack Huston, da refilmagem de “Ben-Hur”) – em comum entre ele e o desaparecido anterior é que não apenas ambos tinham poderes (os de Marko, relacionados à areia, o que o torna uma perfeita versão noir do Homem-Areia dos quadrinhos do Aranha) como também serviram no mesmo batalhão; como se não bastasse, o Cabelo de Prata em pessoa surge querendo contratar Reilly, desta vez, para descobrir qual é a identidade do traidor que está planejando sua morte – de cujo plano, inclusive, faz parte o incêndio em sua mansão.

Seguindo com paixão e afinco cada um dos tópicos do Film Noir episódio após episódio, a série tem o bom senso de permitir que suas escolhas felizes ditem o rumo de sua realização: Nicolas Cage, pra variar, está sensacional na sua mescla empenhada do habitual caos interior com um pastiche cheio de propriedade de Humphrey Bogart (ainda que o caimento do clássico chapéu de detetive, em Cage, esteja a léguas de ficar tão bem como era em Bogart), a produção compreende os predicados do subgênero de manipulam e faz disso um dos achados da narrativa, na ênfase em sua reconstituição de época, e no preciosismo de seus figurinos, e o roteiro organiza e dispõe um novelo de tramas misteriosas, motivações nebulosas, segredos, mentiras e femme fatales, como num bom film noir para conduzir o saboroso suspense de seu  enredo.

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