sexta-feira, 29 de maio de 2026

Devoradores de Estrelas


 Baseado num livro de Andy Weir (o mesmo autor do livro que deu origem à “Perdido Em Marte”), Devoradores de Estrelar” – ou “Project Hail Mary” – traz o mesmo fascínio pela astronomia e pelas mais mirabolantes possibilidades científicas daquele trabalho. A diferença é que aqui o autor elevou a aposta e a ambição.

O herói de “Project Hail Mary” é Ryland Grace (Ryan Gosling, sempre sensacional), biólogo, professor primário e solitário compulsivo que, um belo dia, acorda sem memórias dentro de uma nave espacial (!). Seus companheiros de tripulação – duas pessoas, de países distintos – estão mortos (!!), só ele sobreviveu. Ele não se lembra do porque está ali, a milhares de anos-luz longe da Terra, mas os indícios indicam que é para salvar a Humanidade (!!!). Gradualmente, enquanto sua memória retrocede vamos descobrindo junto com ele os percalços que o levaram àquela aflitiva situação.

Na Terra, Ryland acabou cooptado pela especialista Eva Stratt (Sandra Huller, de “Zona de Interesse”) que não tardou a notar que ele se encaixava à perfeição para uma das especialidades de sua operação – micróbios desconhecidos da raça humana, logo intitulados ‘Astrofágicos’ estavam se “alimentando” do Sol; todos os sistemas solares por onde passaram simplesmente definharam e morreram. E algo parecido estava destinado a acontecer ao nosso Sistema Solar. Entra então a audaz operação encabeçada pela Dra. Stratt e formada por diversos especialistas nas mais vastas áreas do mundo todo, incluindo Ryland.

Em algum lugar longínquo do sistema estelar Tau Ceti, houve uma estrela cujo núcleo se manteve imune aos ‘Astrofágicos’ – a missão de uma tripulação de astronautas previamente treinados é, portanto, ir até lá (levando o tempo que levar) e encontrar o que está protegendo aquele sistema dos ‘Astrofágicos’ e enviar sondas para a Terra coma resposta, salvando assim a Humanidade.

Detalhe: A possibilidade de regresso, dadas as circunstâncias, é nula. O que faz dessa uma missão suicida.

Assim, “Devoradores de Estrelas” vai, aos poucos, esmiuçando os detalhes um tanto irônicos que fizeram Ryland ir parar naquela nave, ao passo que nos permite também acompanhar a situação atual dele: Num primeiro momento, perdido dentro de uma nave que nem tem certeza se sabe pilotar, Ryland entra em contato com uma forma de vida alienígena (!).

Um ser aparentemente feito de pedras a quem ele dá o nome de Rocky (!) (dublado e manuseado qual uma marionete por James Ortoz) e que revela ser um astronauta, vindo de seu planeta-natal com o mesmo propósito, achar um meio de salvar seu mundo dos ‘Astrofágicos’.

Empregando um linguajar técnico difícil e cheio de termos inacessíveis – mas, ainda assim, vital para os desdobramentos da trama – o filme ainda ostenta uma duração desafiadoramente longa que dividiu a opinião e a disposição de alguns expectadores. No entanto, não apenas o ator Ryan Gosling dá conta maravilhosamente bem do recado (provando a cada filme que tira de letra qualquer gênero que lhe incumbem, seja drama, comédia ou ação) como também os diretores Phil Lord e Christopher Miller (ambos da animação “Homem-Aranha No Aranhaverso”) executam um belíssimo trabalho, registrando o espaço sideral em tonalidades contrastantes de cores, numa das mais belas paletas visuais empregadas na ficção científica (a fotografia é de Greig Fraser, de “Duna – Parte 2”), e conferindo, de um ponto em diante do filme, uma inesperada importância emocional ao personagem Rocky, cuja concepção acaba atendendo diversos expedientes anteriormente engatilhados.

O resultado é uma obra que exibe o mesmo desembaraço com a ciência de “Perdido Em Parte” – também pudera, é o mesmo autor! – um repertório técnico que almeja a exuberância de “Gravidade”, uma dinâmica que constantemente faz referência a “Contatos Imediatos do Terceiro Grau” – inclusive aproveitando a icônica trilha sonora – e uma jornada épica de viés sentimental que muito remete à “Interestelar”.

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