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terça-feira, 19 de janeiro de 2021

Por Trás Daquele Beijo

 


Devido à sua fama de ‘rainha das comédias românticas’, sobretudo durante a década de 1990, a presença de Meg Ryan em inúmeros projetos ao longo de sua carreira costumava enganar os expectadores, levando-os a crer que a produção na qual ela comparecia se tratava sempre de um filme romântico agridoce com altas doses de humor, sentimentalismo e previsibilidade –e a própria Meg contribuía com isso fazendo filmes e mais filmes sem parar dentro desse sub-gênero.

“Por Trás Daquele Beijo” até guarda elementos que poderiam aproximá-lo de uma comédia romântica, embora já em sua campanha de marketing, lá pelos idos de 1992, tenha ficado claro tratar-se de algo diferenciado, instigante até. Adaptado de uma peça teatral de Craig Lucas, roteirizado por ele próprio (o que garante ao filme similaridades criativas incontestes com sua versão original), o filme dirigido por Norman René (realizador do célebre drama homossexual “Meu Querido Companheiro”, também escrito por Lucas) tem lá sua parcela de sacarose, sobretudo no clima de romance que prevalece no primeiro ato, mas possui propósitos bastante sólidos para as escolhas que toma e, se não chega a ser um grande filme, tem pelo menos o mérito de, ao lado do excelente “Cidade dos Anjos”, ser um título desigual e notável na filmografia de Meg Ryan.

Repetindo o mesmo papel que interpretou (e muito bem) nos palcos, Alec Baldwin vive Peter, jovem editor que, numa noite qualquer, conhece a garçonete Rita, personagem de Meg. Insone, beberrona, algo niilista, mas certamente encantadora, ela se revela fascinante o bastante para que ele a procure nos dias seguintes. Logo, eles engatam um namoro sério. Ele conhece os pais dela (vividos por Ned Beatty e Patty Duke), e marcam casamento.

A despeito desse trecho inicial enfadonho e longo –ainda que preenchido de informações que serão relevantes ao plot mais tarde –é durante o casamento de Peter e Rita que “Por Trás Daquele Beijo” oferece sua grande guinada: Durante a cerimônia, um velho penetra aparece (vivido por Sydney Walker). Ninguém o conhece e, antes de ser expulso da festa, ele pede apenas oportunidade de dar um beijo na noiva.

Eis que ao beijá-la, o velho troca de mente com Rita, que vai parar no corpo do idoso. Agora, a mente do homem velho habita o corpo da garota jovem e recém-casada com lua-de-mel marcada para a Jamaica. Entretanto, ao longo dos dias, Peter vai percebendo que a pessoa que está agora casada com ele, não é a mesma que ele namorou esse tempo todo: Rita não bebe mais, não tem mais problemas para dormir, agora quer ter filhos quando antes não queria, não possui mais as mesmas inclinações socialistas de antes, nem fala e age da forma como fazia (!). Embora o corpo ainda seja o mesmo, é outra pessoa quem agora o habita.

Um elemento curioso do roteiro é justamente não entregar isso de imediato, deixando que o expectador acompanhe a gradual e perplexa constatação do mesmo ponto de vista de Peter –o que desde já torna a minúcia desta resenha um emaranhado de spoilers; ainda que o filme já seja bastante antigo. O roteiro de Craig Lucas, com essa opção, valoriza assim os pequenos detalhes, as peculiaridades dos diálogos e a capacidade de seus intérpretes, como é usual numa peça de teatro.

Se há algo de sublime no fato do diretor René optar por uma narrativa menos cômica e mais dramática, por outro lado, o filme padece de uma preocupante lentidão, acarretada devido à expansão da trama em cenas que se alternam em diferentes ambientes a fim de agregar uma mobilidade cinematográfica à narrativa e não engessar a história nas restrições inerentes ao formato teatral.

segunda-feira, 3 de agosto de 2020

Viagem Insólita

Se “Gremlins”, de 1984, foi uma bela entrada do diretor Joe Dante no mundo do cinema hollywoodiano comercial, apadrinhado por Steven Spielberg, então “Viagem Insólita”, seu projeto seguinte, rumava em direção à ambições técnicas muitos maiores (ainda que ironicamente seu tema fosse a redução de tamanho a níveis microscópicos): Desta vez, Dante quis dar sua própria e alucinada visão do clássico “Viagem Fantástica”, de 1966, do qual empresta praticamente todo o conceito –lá, como aqui, há uma experiência de miniaturização que leva uma pequena nave tripulada para dentro do corpo humano. Contudo, se “Viagem Fantástica” almejava seriedade, “Viagem Insólita” se posiciona como entretenimento, a despeito do arrojo mesmerizante (e, portanto, espantosamente realista) dos efeitos visuais utilizados.
A grande diferença entre essas duas obras é, na verdade, o contexto: Toda a comédia e pantomina que definem o cinema brincalhão e ácido de Joe Dante comparecem aqui, orientando sua trama em uma direção que, em determinado ponto, o afasta por completo das comparações com seu classico inspirador.
O sempre excelente (e até hoje ainda sub-aproveitado) Dennis Quaid interpreta Tuck Pendleton, impetuoso tenente da força-aérea escolhido para um projeto muito incomum: Ser miniaturizado à proporções microscópicas e, dentro de uma nave submergível de alta tecnologia, ser injetado no organismo de um coelho.
Entretanto –e aí começam as grandes contribuições de Joe Dante para diferenciar seu filme –durante a experiência, terroristas dispostos a roubar essa nova tecnologia invadem o laboratório, fazendo com que um dos cientistas tente heroicamente fugir com a seringa portando o já miniaturizado Pendleton.
Antes de ser morto, ele acaba injetando Pendleton e a nave no corpo de um indivíduo aleatório, que vem a ser o hipocondríaco Jack (Martin Short), de início, desesperado com os sintomas que a presença de Pendleton em seu corpo vai provocando.
A parafernália técnica de efeitos práticos e efeitos especiais empregados em “Viagem Insólita” para concretizar o interior agigantado do corpo humano é até hoje fascinante: Não à toa “Viagem Insólita” levou o Oscar de Melhores Efeitos Especiais em 1988.
Não obstante esse vultuoso aparato técnico proporcionado pelo produtor Spielberg, é no tratamento cinematográfico que “Viagem Insólita” realmente chama a atenção.
De ritmo frenético e inquieto –o que, em parte, espelha as aptidões cômicas de Martin Short, uma espécie de protagonista velado do filme –o trabalho de Joe Dante vai da comédia (os transtornos trazidos por Pendleton à vida do perplexo Jack) à aventura (logo, a trama se torna uma corrida contra o tempo para Pendleton voltar ao tamanho normal antes que o estoque de ar dentro da nave acabe, asfixiando-o), do romance (Lydia, vivida por Meg Ryan, ex-namorada de Pendleton, termina compondo com ele e Jack uma espécie de triângulo amoroso) à uma trama mirabolante de espionagem (os vilões interessados em obter a tecnologia de miniaturização, interpretados por Kevin McCarthy e Fiona Lewis, não dão sossego aos protagonistas), por meio de um roteiro que nunca se acomoda. Por isso mesmo, “Viagem Insólita” pode exacerbar a paciência de alguns expectadores mais adultos que pode identificar o grande apreço pelo non-sense que Joe Dante ostenta aqui; e que pode ter respondido pelo retorno insatisfatório que ele teve, à época, nas bilheterias. Não importa. Não é à esses expectadores sisudos que Dante dirige seu filme; é à parcela da plateia ávida por diversão e correria, cujo mote de ficção científica está menos a serviço de alguma reflexão profunda e mais no auxílio de uma produção pipoca e escapista nos moldes daquelas em que Spielberg e seus discípulos se especializaram nos anos 1980.

segunda-feira, 8 de julho de 2019

Joe Contra O Vulcão

Para a maior parte do grande público a primeira reunião dos atores Tom Hanks e Meg Ryan foi o sucesso dos anos 1990, “Sintonia de Amor”, mas na verdade eles já tinham feito par romântico quase uma década antes com este “Joe Contra O Vulcão”.
O roteirista John Patrick Shanley (agraciado com o Oscar de Melhor Roteiro Original em 1988, por “Feitiço da Lua”) une humor e seriedade de uma maneira estranha, e ao dirigir o próprio script (perante produção de Steven Spielberg), ele potencializa essa característica.
A vida de Joe Banks (Tom Hanks) parece um pesadelo materializado. Seu emprego como arquivista numa fábrica sinistra é deprimente. E para piorar, seus anseios hipocondríacos logo lhe sinalizam com uma doença terminal de fato –que, segundo o médico consultado, irá mata-lo dentro de seis meses!
Logo na sequência de sua catártica demissão, ele recebe a estranha visita do milionário Graynamore (Loyd Bridges, em aparição relâmpago) com uma proposta mirabolante: Já que Joe vai morrer, que o seja como herói –coisa que outrora ele foi, quando antes era bombeiro!
De olho no suprimento raro de minério em uma ilha do Pacífico (ilha esta ameaçada pela erupção de um vulcão), ele vê em Joe uma solução para vários aborrecimentos simultâneos: Para os nativos (que creem que um sacrifício humano pode apaziguar a fúria do vulcão); para Graynamore (que ao solucionar tal problema ganha um salvo-conduto para explorar as riquezas da ilha); e para Joe (que vai morrer, sim, ao jogar-se no vulcão, mas ele morreria de qualquer jeito e, demonstrando esse heroísmo, digamos conveniente, ele iria usufruir de magníficos e hedonistas últimos meses de vida, bancados pelo Sr. Graynamore com tudo do bom e do melhor).
Uma fantasia ambígua em suas intrigantes tentativas de reflexão, “Joe Contra O Vulcão” agrega elementos alegóricos que nunca dizem com clareza a que vieram: Na opção em colocar Meg Ryan para interpretar TODAS as personagens femininas da história (o que, talvez, transforme a jornada de Joe em uma espécie de odisseia romântica e filosófica), ou na escolha pontual e simbolista do trovão com ares expressionistas que surge em diversas ocasiões do filme (na pista tortuosa que conduz à fábrica; no logotipo da mesma fábrica; no raio que fulmina um barco em alto-mar; e na estrada que leva ao próprio vulcão), o trabalho de Shanley corre em diversos momentos o risco de esquecer que deve entreter antes de divagar.

quarta-feira, 1 de maio de 2019

A Força de Um Passado

Diretor de “Suzie e Os Baker Boys”, o também roteirista Steve Kloves não obteve aqui o mesmo equilíbrio de sua realização anterior, deixado transparecer uma indecisão de ritmo e de gênero a contaminar os elementos que poderiam fazer deste um bom trabalho.
Ele reúne os atores Dennis Quaid e Meg Ryan –então, casados na vida real –após ambos terem participado, anos antes, de “Viagem Insólita”, de joe Dante, e “Morto Ao Chegar”, de Rocky Morton e Annabel Jankel. Eles interpretam (sobretudo, Quaid) personagens intimistas que fazem a alegria de atores em geral, mas que encontram certa dificuldade em estabelecer empatia com o expectador –e é aí que começam os problemas de “A Força de Um Passado”.
No prólogo tenso e relativamente lento, vemos uma família abrigar, na calada da noite, um menino perdido. As intenções do garoto, no entanto, se revelam quando ele destranca a porta para o próprio pai, um bandido, poder roubar a casa.
Porém, uma tragédia acontece e o homem termina matando toda a família: O pai, a mãe e um menino, deixando vivo apenas o bebê.
Para uma cena que determinará os rumos dramático tomados pela trama e por seus personagens –o que, de fato, vem a acontecer –tal prólogo carece de impacto, revelando-se enfadonho.
Eventualmente, num salto no tempo reencontramos aquele garoto, Arliss (agora vivido por Dennis Quaid), vivendo como fornecedor de utensílios para máquinas de bar ao longo das pradarias do desolado centro-oeste norte-americano. E o diretor Kloves não encontra muito o que fazer senão transformar este em um road-movie.
E numa espécie de romance também: Arliss encontra-se com Kay (Meg Ryan, ainda ostentando uma seriedade que sua carreira perdeu quando virou ‘rainha das comédias românticas’), uma moça envolvida em alguns apuros: Teve seu dinheiro roubado, obrigando-se a fazer, bêbada, um show de strip-tease (!).
Com a ajuda relutante de Arliss, Kay consegue voltar para sua cidade apenas para terminar de uma vez o casamento catastrófico com o marido inconveniente e trapaceiro.
E, à medida que o relacionamento entre os dois se intensifica –sem que o filme deixe exatamente claro se é disso que ele quer falar –ficamos nos perguntando quando, afinal, a cena trágica do início, irá começar a interferir nos rumos da história.
Dá até para começar a pensar que a bebezinha sobrevivente pudesse ser a jovem Ginnie (Gwyneth Paltrow, num de seus primeiros papéis de cinema), com quem Arliss se cruza algumas vezes, e que vem a ser quem rouba o dinheiro de Kay.
Todavia, as pontas soltas começam a se juntar quando o pai de Arliss (o grande James Caan) reaparece, atrás da ajuda do filho. Ele e Ginnie formam agora uma dupla, diante da insistência do filho em seguir uma vida honesta depois de adulto.
E assim, o passado vem cobrar suas dívidas: Aos poucos, pai e filho descobrem que Kay, a mulher agora envolvida com Arliss, é na verdade aquele bebê que escapou com vida naquela noite. O que fez Arliss um dos cúmplices do assassinato de sua família e, certamente, um dos responsáveis pela guinada que sua vida deu –culpa que os discursos imorais de seu pai só vêm a potencializar ainda mais.
Embora pretensamente dramático, “A Força de Um Passado” não aprofunda completamente a circunstância de seus personagens justamente por preferir, em vez disso, esconder muitas das informações até a último instante acerca dos reais eventos a enlaça-los; e ainda que Quaid e Ryan sejam protagonistas carismáticos, eles depõem contra a própria simpatia que conseguem conquistar interpretando personagens fechados, taciturnos e circunspectos em suas dores internas.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Anastasia


Logo de início um dos aspectos mais surpreendentes na animação do especialista Don Bluth (de “Fievel-Um Conto Americano” e “em Busca do Vale Encantado”) –é o fato de que ela NÃO vem dos Estúdios Disney.
Isso porque “Anastasia” obedece a todos os paradigmas tornados clássicos pela fórmula Disney de se construir uma animação; sejam aquelas que ao longo dos anos se mostraram infalíveis, ou até mesmo as que foram apontadas como suas fraquezas.
Com efeito, “Anastasia” trata de uma princesa (com o inusitado pedigree de ser extraída de um acontecimento real!), tem romantismo e animais fofinhos, sequências animadas com ostensiva excelência técnica, e números musicais que se revelam obrigatórias a cada quinze minutos –e não raro testam a paciência do expectador.
A trama gira em torno da lendária princesa, filha do Czar Russo dada como desaparecida numa noite de dezembro de 1917, quando revoltosos invadiram o palácio real.
Durante essa noite trágica, a imperatriz escapa para a França, não sem antes perder sua neta mais jovem, a princesa Anastasia Romanov cuja desaparecimento, passados dez anos, ainda se encontra envolto em mistério. Teria a princesa russa morrido? Ou ela ainda estava viva em algum lugar?
Como a imperatriz havia prometido uma recompensa a quem lhe trouxesse sua neta desaparecida, muitos foram os aproveitadores que apareceram com sósias de Anastasia dispostos a faturar a gorda fortuna.
Não deixa de ser um desses aproveitadores o jovem Dimitri –que, por sinal, foi quem ajudou a verdadeira Anastasia e sua avó a escapar do palácio naquela noite –ele, ao lado de seu Tio Vlad almejam treinar uma sósia de Anastasia de modo tão impecável que ela convenceria até mesmo a já saturada imperatriz.
Entretanto, o roteiro não deixa quaisquer dúvidas de que a moça que a eles se apresenta, a órfã Ania, é a própria Anastasia; tanto que seu encontro com Dimitri e Vlad traz de volta das profundezas o demoníaco monge Rasputin –também ele um personagem que existiu de fato convertido aqui num vilão sobrenatural com trejeitos ora amedrontadores, ora histriônicos.
Roteirizado de forma pedante e acometido por toda sorte de clichês que definem as obra do sub-gênero ‘filme de princesas’, “Anastasia” supera todas as suas limitações graças ao talento de Don Bluth: Um animador ‘das antigas’, ele intercala experimentalismos em computação gráfica, bastante eficientes e interessantes nos detalhes, com o processo hoje datado da rotoscopia formulada, onde a autenticidade e a fluidez dos movimentos na animação são obtidos desenhando sobre uma filmagem feita previamente com atores reais –técnica esta que a própria Disney havia superado uma década antes.
Financiado pelos estúdios da Fox, “Anastasia” foi uma válida tentativa, nos anos 1990, em peitar a soberania longeva e inquestionável da Disney nesse terreno. Não foi de todo mal-sucedido (“Anastasia”, afinal, é uma louvável realização), mas também não se pode dizer que atingiu algum êxito: Poucos anos depois, a Disney tratou de estabelecer sua primazia técnica e artística em animação de forma indiscutível ao lançar a obra-prima “Tarzan”.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

O Outro Lado da Nobreza

Um dos filmes pouco usuais e hoje bastante desconhecidos protagonizados por Robert Downey Jr. muito antes dele ter se consagrado como “Homem de Ferro”, este “Restoration” é, como quase todos os filmes dos quais ele participava, um exemplo do quão grande era o talento que ele desperdiçava antes de recuperar-se de seus vícios em drogas e bebidas.
Downey Jr. contribui com uma excelência pontual e notável no papel de Merivel, um aprendiz de medicina em meados de 1860. Em contraponto ao talento prodigioso e natural para exercer a função de médico, Merivel tem uma predisposição compulsiva à farra a à libertinagem, e daí para a auto-destruição –características que certamente personagem e intérprete compartilhavam...
Tanto ele procura que acha: Embriagado pela beleza da nobre Celia (a bela Polly Walker, de “Jogos Patrióticos”), a cortesã preferida do rei Charles II (Sam Neil) por quem foi contratado tão somente para ser o marido de fachada de sua amante, Merivel cai em desgraça devido as suas ofensivas tentativas de flerte, e acaba exilado em uma ilha.
Lá, Merivel não encontra outra alternativa senão dar continuidade ao ofício médico que a futilidade o tinha levado a deixar de lado: Passa a dedicar-se aos enfermos ao lado do amigo Pearce (David Thewlis, ótimo), e de certa forma envolve-se com uma transtornada jovem do lugar, Katharine (Meg Ryan, tentando convencer num papel distinto das mocinhas românticas).
Com ela, Merivel tem uma filha –porém, Katharine morre no parto –e a busca por uma vida melhor o leva a regressar à Inglaterra, onde suas habilidades médicas não só serão necessárias com a proliferação da peste negra como também proporcionarão a Merivel uma redenção, em face de um caráter renovado e melhor que ele então adotou.
Como seu protagonista durante a primeira parte de seu filme, o diretor Michael Hoffman (que depois faria “Um Dia Especial”, com George Clooney e Michelle Pfeiffer) padece de uma brutal incongruência entre seu grande defeito e sua maior qualidade: Por um lado, sua condução da narrativa não consegue enunciar as características necessárias à percepção adequada da trama por parte do expectador –a despeito do carisma do protagonista –que torce por personagens errados, nos momentos errados e da forma errada (fruto de uma escalação sem critério de bons atores que fornecem a impressão equivocada dos personagens, tal qual Polly Walker, Sam Neil e Meg Ryan); por outro lado, Hytner soube enfatizar a incontornável elegância estética de seu filme e enaltecer seus realmente extraordinários valores de produção que puseram em funcionamento uma recriação de época de encher os olhos que, em diversos momentos, acaba eclipsando a importância enquanto narrativa de algumas cenas; a conseqüência disso é que “O Outro Lado da Nobreza” apesar de suas deficiências arrebatou os Oscars de Melhor Figurino e Melhor Direção de Arte em 1996.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Harry & Sally - Feitos Um Para O Outro

Harry Burns e Sally Albright se conheceram ainda jovens, na pouco frutífera interação de uma longa carona –Harry era o namorado de uma grande amiga para quem Sally prestou um favor levando-o até Nova York.
Os anos se passaram com eles reencontrando-se em outra situação: Um vôo interurbano no qual a interação foi ainda menos satisfatória. Pois um punhado de anos precisou se passar –e com eles uma série de relacionamentos frustrados de ambas as partes –para que os dois ao menos concordassem em manter uma amizade.
Sem no entanto perceber que se amam.
Em princípio, portanto, o filme do diretor Rob Reiner (do maravilhoso “Conta Comigo” e “A Princesa Prometida”) parece falar sobre a tese chauvinista de que não existe amizade real entre homens e mulheres. Só, em princípio: Seu objetivo, bem mais descontraído e espirituoso, é avaliar as minúcias contraditórias e, não raro, engraçadas, dos relacionamentos (atestado nas cenas que intercalam as passagens de tempo, e que mostram o depoimento de vários casais), especialmente nos momentos em que tais facetas se mostram nítidas. Quando a atração e o interesse se expressa à revelia da consciência ou mesmo do querer dos interessados.
Á frente do elenco (que inclui ainda, Carrie Fisher, a princesa Léia de “Star Wars”), Billy Cristal e Meg Ryan exalam química e simpatia –ele, preciso em seu timing cômico, o quê compensa o pouco interesse que desperta no público feminino; ela, ótima no retrato tão cativante quanto neurótico que pinta da mulher moderna nova-iorquina.
Uma seqüência em especial (famosíssima) ilustra muito bem o humor ferino, equilibrado e pulsante que o filme irradia: Quando Sally, diante das negativas Harry, prova para ele, no meio de uma lanchonete lotada, que uma mulher pode, sim, fingir um orgasmo totalmente convincente.
Filmado pelo diretor Rob Reiner como numa reprodução em todos os pormenores charmosos do estilo de Woody Allen –intenção à qual o roteiro cheio de diálogos afiados de Nora Ephron dá pleno respaldo –“Harry & Sally” é visto como a pedra fundamental do sub-gênero comédia romântica por ter revelado ao mundo a forma com que a atriz Meg Ryan se mostrava perfeita à categoria (ela construiu sua carreira durante a década de 1990 com filmes exclusivamente desse gênero), e por ser também um exemplo perfeito de como essa fórmula simples (e recriada à exaustão por filmes que vieram depois) pode funcionar plenamente quando executada com talento.

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Top Gun - Ases Indomáveis

No meio cinéfilo existe aquele conhecido termo chamado “prazer culposo” que define um filme que o expectador gosta muito –ou pelo menos, nutre um grande carinho –mas, tem vergonha de admitir para as outras pessoas.
Dentre diversos filmes dessa categoria, talvez, o mais famoso, o que representa o estado de arte mais pura a que o “prazer culposo” pode chegar é provavelmente “Top Gun-Ases Indomáveis”.
Uma aventura a um só tempo arrojada e brega que, nos anos 1980 lançou a carreira de Tom Cruise ao estrelato, “Top Gun” une um clima único de romantismo e cafonice somado à seqüências de batalhas aéreas envolvendo caças que impressionam até hoje.
Mesmo seus deslizes técnicos e artísticos (e eles existem aos borbotões) só servem para ampliar o seu fascínio aos olhos de seus admiradores que se deleitam com o visual impecável (ainda que datado em alguns aspectos), com a trilha sonora melodiosa e com os rompantes escandalosos do herói mimado e seu relacionamento narcisista –travestido de história de amor –com uma mulher que age menos como uma cara metade apaixonada e mais como uma babá tentando administrar os caprichos de uma criança.
Seu protagonista é o impetuoso Maverick (Tom Cruise numa clara evolução de seu papel anterior, o rapaz de “Negócio Arriscado”), jovem piloto da força aérea incluído, ao lado do melhor amigo Goose (Anthony Edwards que mais tarde faria a série “Plantão Médico”), no seletivo curso denominado Ases Indomáveis. O comportamento rebelde e impertinente de Maverick colide com o piloto mais idolatrado do curso, o arrogante Iceman (Val Kilmer, um antagonista por quem o personagem principal parece estranhamente obcecado), e ele ainda se apaixona por uma bela mulher (Kelly McGillis, espetacularmente bem fotografada), pouco antes de descobrir que ela é uma das instrutoras.
Tais conflitos e tensões muitas vezes acabam por serem extravasados nos ares, em meio a espetaculares batalhas de caças aéreos.
Não há muitas dúvidas de que o estrondoso sucesso obtido nos anos 1980 se deve pelo tratamento estilizado, algo publicitário, que o hoje falecido diretor Tony Scott (irmão mais novo de Ridley) deu às cenas de batalha aérea extraordinariamente filmadas (a prodigiosa fotografia é de Jeffrey Kimball), o real mérito da produção, que ainda arrebatou o Oscar de Melhor Canção para "Take My Bread Away", do grupo Berlin, uma das baladas mais populares daquela década.
Em meados dos anos 1990, graças à uma observação de Quentin Tarantino, “Top Gun” passou também a ser muito lembrado e avaliado por suas sucintas referências homossexuais que passaram despercebidas por muitos machões que idolatraram (e ainda idolatram) o filme: Detalhes ocasionais como a inusitada energia erótica que parece convergir das cenas inusitadas em que o diretor Scott registra os cadetes na sauna, com seus corpos suados, em embates verbais (!); elementos quase imperceptíveis como o fato de que a personagem de McGillis só parece ganhar a atenção de fato do protagonista quando se veste com as mesmas roupas dos homens; e também o detalhe (possivelmente um exagero dramático do roteiro que virou pretexto para esses argumentos) de que, na narrativa, as reações genuinamente emocionais do personagem principal só ocorrem quando envolvem seu melhor amigo Gooze.
Características até banais na década de 1980, mas que sob o prisma dos novos tempos transformam-se em uma curiosidade a mais que vem a justificar a inúmeras revisões que este trabalho recebeu do público ao longo dos anos, e que faz dele o supra-sumo absoluto a que os “prazeres culposos” podem chegar.

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Asas do Desejo / Cidade dos Anjos

Concebido por Win Wenders, entre outras coisas, para ser um amálgama sentimental e alegórico dos conceitos metafísicos que fragmentavam a Europa, o filme original alemão (lançado em 1989), "Asas do Desejo" mostra dois anjos testemunhando a diversidade do destino ao contemplarem as inúmeras vidas a se cruzar em uma Berlim em preto e branco.
Para um deles (Bruno Ganz), a humanidade é uma fonte de fascínio menos pelos erros paulatinamente cometidos (e recordados sistematicamente pelo outro anjo) e mais por sua mesmerizante condição (na qual se submetem às emoções bárbaras de existência mundana).
Os anjos vêem o amor como a suprema emoção a definir essa vulnerabilidade humana e logo, o protagonista tem um interesse maior despertado por uma trapezista de circo, passando aos poucos a se perguntar acerca das sensibilidades terrenas –sentir um toque, ou um sabor, um cheiro, ou mesmo ser capaz de enxergar as cores –privilégios estes reservados aos humanos, e que os anjos não têm.
Há um meio de conseguir isso, e tornar-se humano; e como toda escolha de ordem tão radicalmente existencialista, ela vem atrelada a um dilema irreversível: Saborear a humanidade e tudo que com ela pode vir a arcar, seja bom ou mal, requer que ele tenha também que abrir mão de sua imortalidade.
E na narrativa de Wenders, não existe diálogo de natureza erudita (que os anjos trocam uns com os outros o tempo todo) capaz de sobrepujar o arrebatamento instintivo presente numa emoção passível de embriagar qualquer um.
Os tempos e os contratempos do amor são aqui vistos numa ótica distinta daqueles que por ventura estiverem habituados demais ao cinema americano: Não há inconstâncias e imaturidades, nem encontros e desencontros; e Wenders enxerga a relação a dois com o mesmo teor político que enxerga a vivência como um todo.
E essa profundidade acarreta um valor estupendo à "Asas do Desejo": É por amor que o anjo abdica de sua monocromática condição celestial para abraçar a colorida, finita e suja condição humana, mas, Wenders parece nos instigar a perguntar, como essa pode ser uma escolha justa (ou coerente) se este ser, o anjo, não tem ideia da miríade mutável e indefinida do amor?
No desfecho, é com essa questão que o anjo (agora, humano) precisa se defrontar: O amor que o levou à escolha mais irreversível de sua existência muda, não é mais o mesmo amor extasiante e intenso, mas, ele não muda mais...
Eis a verdade que nos fadamos a passar o resto da vida a ruminar...
Já a refilmagem norte-americana oferece uma série de concessões, num esforço para preservar a beleza etérea do filme original num corpo mais comercialmente apetecível.
Nicolas Cage é Seth, um anjo que vaga pela cidade de Los Angeles testemunhando as aflições e felicidades do cotidiano humano. Vez ou outra, seu toque lhes trás conforto enquanto busca entender aqueles seres que experimentam emoções extremas que ele é incapaz de sentir. Nas imediações de um hospital, Seth se apaixona por uma jovem médica cuja perda de um paciente a fez questionar suas escolhas de vida. Pela primeira vez, ele passa a almejar um meio de tornar-se humano e viver esse amor. Mas a vida irá lhe impor escolhas dolorosas. 
Em ambos seus protagonistas são confrontados com as variações inesperadas e idiossincráticas do amor. E é exatamente isso que os filmes são: Histórias de amor, ou de como o amor pode se mostrar impossível. 
No clássico de Win Wenders, talvez o mais amargo dos dois, temos uma visão menos idealizada da percepção do amor (também pudera, o filme não é americano!), e um final em aberto que pode ser, ou não, ainda mais devastador do que o desfecho do outro filme. 
Na refilmagem, há o sério risco de muitos cometerem o engano de tratar-se de uma comédia romântica, devido à presença de Meg Ryan, estrela prolixa desse gênero nos anos 1990.
Não é.
Na realidade, esta produção é espantosamente tão dotada de maestria e sensibilidade quanto o filme original, muito em parte graças às escolhas do diretor Brad Silberling, que dá a sua narrativa um belo tratamento de filme europeu, provavelmente intoxicado pelo inspirado trabalho de Wenders em “Asas do Desejo”, e pela belíssima presença de Nicolas Cage. 
Estes dois filmes são casos raríssimos de original e refilmagem no qual ambas são obras recompensadoras (a exemplo de “Os Sete Samurais” e “Sete Homens e Um Destino”), inclusive evitando a repetição da história: Embora traga suas similaridades, “Cidade dos Anjos” tem uma história diferente, com caminhos diferentes de “Asas do Desejo”. Os dois filmes, inclusive, têm o poder de deixar o expectador só e reflexivo, mas com um sorriso no rosto.