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sexta-feira, 2 de agosto de 2019

Inimigo do Estado

Thrillers de espionagem são, em geral, uma faca de dois gumes: Exigem, no mínimo, diretores hábeis e experientes capazes de administrar com eficiência os expedientes requeridos pela narrativa. No entanto, com frequência, acabam rendendo produções charmosas e sedutoras que, em sua condução envolvente, costumam ostentar o melhor do gênero suspense.
Falta pouco para “Inimigo do Estado” atingir esse objetivo.
Um diretor com experiência, ele tem. O falecido Tony Scott, afinal, fez de quase tudo: Um dos mais emblemáticos sucessos comerciais dos anos 1980 (“Top Gun”, cujo astro, Tom Cruise, era a escolha inicial para este projeto, terminando substituído por Will Smith); um dos mais formidáveis e originais filmes de vampiros da mesma década (“Fome de Viver”); uma longa parceria com Denzel Washington (“Maré Vermelha”, “Chamas da Vingança” e tantos outros) –mas, nunca escapou de ser lembrado mesmo como o irmão mais novo de Ridley Scott.
Se não chega a ter estatura de obra-prima, “Inimigo do Estado” prova, ao menos, a capacidade de seu diretor para compor um belo e envolvente trabalho.
Tomando por base uma das realizações fundamentais desse sub-gênero –o brilhante “A Conversação”, de Francis Ford Coppola –o filme de Tony Scott faz dignamente o que poderia se esperar dele: Contextualiza o conceito da espionagem para os novos e modernosos tempos, imprime ação vertiginosa em suas cenas e tecnologia de ponta em seu argumento (não deixando de lado um molho sócio-político para valorizá-lo), e ainda se sai com uma vistosa participação especial de Gene Hackman, astro daquele filme.
Numa ponta ilustre que não vai além do prólogo, o grande Jason Robards é um senador prestes a vetar um lei que libera a vigilância eletrônica, postura que o leva a ser assassinado a mando de Reynolds (Jon Voight), um figurão da Agência de Segurança Nacional.
O assassinato ocorre em um parque bucólico, casualmente em frente a uma câmera programada para captar a migração de pássaros. O dono da câmera (Jason Lee, também ele numa breve ponta) não tarda a ser perseguido pelos homens de Reynolds e, antes de sua trágica morte, deixa uma cópia do flagrante em meio aos pertencentes de um conhecido que encontrou por puro acaso, o advogado Robert Clayton Dean (Will Smith, numa presença tão cuidadosamente descuidada na trama quanto costumam ser os protagonistas de ação).
Sem saber o que tem em mãos, Dean tem sua vida virada de pernas para ar pelos recursos tentaculares da Agência: Eles plantam escutas em suas roupas e em toda sua casa; o levam a ser demitido da firma em que trabalha; anulam todos os seus cartões de crédito e fecham o cerco em torno dele. Tudo para fazê-lo recorrer à quem eles imaginam que possa estar por trás disso tudo, o ex-agente Brill (Gene Hackman, sempre ótimo), que cai de para-quedas no meio da trama tanto quanto Dean.
Brill, cujo background lembra, não por acaso, o personagem do mesmo Gene Hackman em “A Conversação”, já trabalhou com a Agência no passado, e por isso, tem pleno conhecimento da extensão de seus recursos –e representa, para Dean, a única alternativa de como transitar por esse novo e traiçoeiro mundo da espionagem, e nele encontrar um meio de revidar.
Nessa trama recheada de reviravoltas até bem pontuadas, o diretor Scott se esbalda nas situações que se constroem às vezes num ritmo mais frenético do que o adequado. Como é comum em suas obras, o caprichado visual publicitário se revela um empecilho para que sua premissa seja por inteiro levada a sério, mas ele tem experiência o suficiente para administrar ação e suspense em quantidades necessárias que o façam envolvente até o apoteótico final: Um tiroteio orquestrado com sinergia, sangue e alta voltagem.

sábado, 16 de junho de 2018

Os Vencedores do Oscar 1977


Para melhor compreendermos as escolhas feitas pela Academia na cerimônia de 1977, é necessário analisarmos os próprios Estados Unidos de então: A sociedade americana vinha de baques profundos em seu subconsciente político, como a recém-terminada Guerra do Vietnam e o escândalo de Watergate.
Daí a razão tão pertinente para se premiar e reconhecer um filme até pequeno, singelo, mas eficaz em restabelecer o espírito de superação naqueles tempos: A sincera e modesta mensagem redentora de “Rocky-Um Lutador” que, por ser o filme certo na hora certa levou três estatuetas, incluindo de Melhor Filme e Melhor Diretor (até Stallone foi indicado ao Oscar de Melhor Ator!).
E por falar em Watergate, um dos grandes destaques da noite foi justamente a reconstituição das investigações jornalísticas que levaram à renúncia de Richard Nixon, o politizado “Todos Os Homens do Presidente” –que levou quatro prêmios, incluindo Melhor Ator Coadjuvante (Jason Robards) e Melhor Roteiro Adaptado.
Os prêmios de Melhor Ator, Melhor Atriz e Melhor Atriz Coadjuvante (além de Melhor Roteiro Original) foram todos conquistados pelo notável “Rede de Intrigas”, dando pela primeira vez um prêmio póstumo à um intérprete –o ator Peter Finch, já havia falecido na época da premiação –feito similar só tornou a ocorrer em 2009, quando o saudoso Heath Ledger ganhou por “Batman-O Cavaleiro das Trevas”.

MELHOR FILME
"Rocky-Um Lutador"

MELHOR DIREÇÃO
"Rocky-Um Lutador", John G. Avildsen

MELHOR ATRIZ
Faye Dunaway, "Rede de Intrigas"

MELHOR ATOR
Peter Finch, "Rede de Intrigas"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Beatrice Straight, "Rede de Intrigas"

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Jason Robards, "Todos Os Homens do Presidente"

MELHOR FOTOGRAFIA
"Esta Terra É Minha Terra"

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
"Preto e Branco em Cores" (Costa do Marfim)

MELHORES EFEITOS ESPECIAIS

MELHOR FIGURINO
"Casanova de Fellini"

MELHOR SOM
"Todos Os Homens do Presidente"

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE
"Todos Os Homens do Presidente"

MELHOR TRILHA SONORA ORIGINAL
“A Profecia"

MELHOR TRILHA SONORA ADAPTADA
“Esta Terra É Minha Terra"

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"Evergreen", de "Nasce Uma Estrela"

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
"Rede de Intrigas"

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
"Todos Os Homens do Presidente"

MELHOR MONTAGEM
"Rocky-Um Lutador"

sábado, 9 de junho de 2018

Os Vencedores do Oscar 1978


O ano em que a Academia rendeu-se à “Febre StarWars” que dominava o mundo –e que pode ser conferida na predominância das categorias técnicas (foram seis, mais um prêmio especial!) que só não se multiplicaram em outras mais porque havia também “Contatos Imediatos deTerceiro Grau”, de Spielberg na disputa por alguns.
Isso ofuscou um pouco a vitória da obra de Woody Allen nas principais categorias (inclusive Melhor Atriz para sua então namorada, Diane Keaton), embora esse fato seja fundamental para os rumos que a carreira dele tomou a partir daqui.
O Melhor Ator foi um ainda jovem Richard Dreyfuss, por um filme simpático o qual, de fato, ele carrega nas costas (e vale muito lembrar que, tanto por este “A Garota do Adeus” como por “Momento de Decisão”, o diretor Herbert Ross assinava dois filmes concorrentes à estatueta principal!), enquanto que os coadjuvantes, os respeitáveis Jason Robards e Vanessa Redgrave acabaram levando dois dos únicos três prêmios concedidos à “Júlia” então uma das produções mais cotadas da noite.

MELHOR FILME

MELHOR DIREÇÃO
"Noivo Neurótico, Noiva Nervosa", Woody Allen

MELHOR ATRIZ
Diane Keaton, "Noivo Neurótico, Noiva Nervosa"

MELHOR ATOR
Richard Dreyfuss, "A Garota do Adeus"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Vanessa Redgrave, "Júlia"

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Jason Robards, "Júlia"

MELHOR FOTOGRAFIA
"Contatos Imediatos do Terceiro Grau"

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
"Madame Rosa-A Vida À Sua Frente" (França)

MELHORES EFEITOS SONOROS
"Contatos Imediatos do Terceiro Grau"

MELHORES EFEITOS ESPECIAIS
"Star Wars-Episódio 4-Uma Nova Esperança"

MELHOR FIGURINO
"Star Wars-Episódio 4-Uma Nova Esperança"

MELHOR SOM
"Star Wars-Episódio 4-Uma Nova Esperança"

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE
"Star Wars-Episódio 4-Uma Nova Esperança"

MELHOR TRILHA SONORA ORIGINAL
"Star Wars-Episódio 4-Uma Nova Esperança"

MELHOR TRILHA SONORA ADAPTADA
"A Little Night Music"

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"You Light Up My Life", de "Luz da Minha Vida"

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
"Noivo Neurótico, Noiva Nervosa"

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
"Júlia"

MELHOR MONTAGEM
"Star Wars-Episódio 4-Uma Nova Esperança"

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

A Morte Não Manda Recado

Imprensado entre duas obras poderosas, violentas e arrebatadoras de Sam Peckinpah (logo depois de “Meu Ódio Será Sua Herança” e logo antes de “Sob O Domínio do Medo”), este pequeno e singelo “A Morte Não Manda Recado” é quase desprezado pelos fãs ardorosos do estilo transgressivo e revisionista com o qual Peckinpah abordava o faroeste, mas estranhamente era tido como um dos trabalhos prediletos pelo próprio Peckinpah.
O grande Jason Robards (recém-saído de “Era Uma Vez No Oeste” onde viveu um personagem relativamente similar) é Cable Hogue, um viajante no Oeste que tem o infortúnio de ser assaltado nos primeiros minutos de filme.
Tal infortúnio, como veremos mais a frente, é transformado por Peckinpah no ponto de partida de sua ascensão como cidadão respeitável e homem de negócios –o quê até então ele não era –porém, a lembrança de tal acontecimento (durante o qual os bandidos o humilharam e chamaram de covarde) nunca deixa de perturbá-lo, definindo suas escolhas, e moldando-o como ser humano.
Pode-se perceber algo de alegórico nessa premissa: Hogue vaga sedento sem cavalo, sem arma e sem água pelo deserto, praguejando para Deus de forma curiosa, até achar uma fonte de água. Ele fica por lá, fazendo daquela terra a sua, e valendo-se da fonte de água encontrada –uma riqueza sem igual nos confins escaldantes do deserto americano –para prosperar em um posto que passa a chamar de ‘Cable Springs’.
A ele junta-se logo depois um jovem reverendo (David Warner) um bocado inclinado a ceder aos pecados da carne, e uma prostituta, Hildy (a bela Stella Stevens) que chega a abandonar o ofício durante algum tempo em nome do relacionamento tumultuado, mas profundamente afetuoso que constrói com Cable.
Ele, contudo, não se esquece de Bowen e Taggart, os dois bandidos que o roubaram e o afrontaram no deserto, mesmo diante da própria prosperidade, mesmo quando os anos se passam, e a própria Hildy, ao partir, o chama para ir com ele.
É a vingança, na concepção de Peckinpah, nublando a razão do homem comum que se brutaliza de bom grado para aguardar sua oportunidade de revanche. Curioso mesmo é Peckinpah entregar uma obra com os contornos que esta tem (os de um conto intimista com lampejos de comédia, o quê se torna mais propício ainda com um ator de brilhante versatilidade como Jason Robards), sendo que um ano antes ele havia surpreendido o mundo e o cinema com um trabalho niilista, crepuscular e forte sobre a violência do Velho Oeste.
E a reflexão de Peciknpah vai ainda mais além: Após quase duas horas de uma trama singela, empática e agridoce envolvendo seu protagonista e seus entes queridos, na qual a economia de tiros desferidos fazia com que cada bala contasse, Peckinpah trás de volta, na meia hora final, os antagonistas Bowen e Taggart só para subverter as expectativas do público –não há um duelo intenso e sangrento como muitos poderiam esperar de Peckinpah e, salvo a morte de Taggart, ele até converte Bowen com rapidez num personagem prostrado, inofensivo e até simpático.
Peckinpah dá um desfecho curioso à esta pequena odisséia de um homem comum que ilustra com simplicidade o empreendedorismo e o sonho americano encenando a morte de Cable Hogue de uma maneira inesperada e descontraída –nem o elenco parece levar tal cena à sério.

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Philadelphia

De grande relevância em meados da década de 1990, o bem calibrado filme de tribunal do diretor Jonathan Demme, sua aguardada produção que sucedeu seu premiadíssimo “O Silêncio dos Inocentes”, teve a honra de ser recebido como a primeira grande produção de Hollywood à falar sobre a AIDS e a trazer um protagonista homossexual vítima de tal doença –papel que Tom Hanks encara com um fôlego dramático então inédito em sua carreira definida mais por comédias leves.
Um sinal de avanço da parte da indústria em relação às questões prioritárias da sociedade, sem dúvida, mas que também refletia uma lentidão da parte dessa mesma indústria: Entre a descoberta da doença e, por fim, seu registro (e, portanto, reconhecimento) por parte de Hollywood, se passou uma década –antes dele, outros filmes (estes, porém, independentes) que ousaram abordar a situação da AIDS foram o canadense “O Declínio do Império Americano”, de Denis Arckand (cuja trama não abordava a doença diretamente, mas trazia entre seus personagens um homossexual aidético), e o norte-americano “Meu Querido Companheiro”, de Norman René.
Hanks interpreta Andrew Beckett, jovem advogado gay de uma prestigiada firma da Philadelphia que descobre, no auge de sua carreira profissional, ser portador do vírus da AIDS. Logo, suas tentativas em ocultar esse detalhe de seus superiores (eles não sabem que é homossexual e nem que é soro positivo) se tornam inviáveis e ele é demitido.
Agora, Andrew deseja mover um processo contra os homens para quem trabalhou, e o único advogado a assumir sua causa é o relutante Joe Miller (Denzel Washington, sempre magistral), que durante o processo precisa rever também seus próprios preconceitos.
Como o julgamento se estende ao longo de anos, o filme acompanha também a gradativa deterioração física de Andrew acometida pela doença.
Sem qualquer intuito de mascarar o melodrama, o filme carrega todas as fraquezas que se espera de uma produção de estúdio ao abordar um tema difícil e complexo; é demagógico em seu registro da homossexualidade; gratuito em sua intenção velada de chocar; e unilateral na sua construção de personagens.
A despeito dessa relativa falta de vigor dramático, a condução minuciosa e tecnicamente exemplar do diretor Demme é hábil em desviar a atenção do expectador de seus lapsos, minimizando-os e enaltecendo tudo o que faz o filme realmente funcionar: A capacidade asséptica e real do diretor em construir cenas que emocionam, e o esforço brilhante de um elenco cem por cento eficaz, onde se destacam as atuações de Denzel Washington e Tom Hanks (que ganhou, por este filme, o primeiro dos dois Oscars consecutivos de Melhor Ator que recebeu).

terça-feira, 15 de agosto de 2017

O Tiro Que Não Saiu Pela Culatra

Assim como “O Casal Osterman”, de Sam Peckinpah, e “A Tocha de Zen”, de King Hu, este "Parenthood" é um daqueles casos de títulos nacionais equivocados que não dão a menor idéia do que será de fato a produção em si. Pior: Seu título sugere uma comédia rasgada e pastelão –impressão potencializada pela presença de Steve Martin –que o filme, no fim das contas, não é. O quê deve ter frustrado muitos expectadores mal informados que lhe foram conferir.
O trabalho do diretor Ron Howard (ainda nos anos 1980, antes da consagração com “Apollo 13” e “Uma Mente Brilhante”), contudo, é cheio de sutileza e inteligência, daquelas raras comédias agridoces que apelam à maturidade do público.
A começar pela estrutura do roteiro que compartilha a trama entre diversos personagens, todos membros de uma mesma família, os Buckman.
O protagonista, Gil (Steve Martin, admiravelmente contido), guarda um leve ressentimento da educação algo rude recebida de seu pai (o sensacional Jason Robards), e almeja uma proximidade de seus três filhos pequenos muito maior do que a que ele teve. Tudo, entretanto, atrapalha. Sejam as exigências profissionais, sejam as próprias crianças e seus eventuais problemas escolares e de adequação, o que leva Gil e sua esposa Karen (a cativante Mary Steenburgen) a questionar seus desempenhos como pais.
Do lado da irmã de Gil, Helen (Dianne Wiest, ótima) as coisas não estão muito mais simples: Divorciada, ela se vê perplexa –e, na maioria das vezes, sem saber o quê fazer –com o comportamento do filho pré-adolescente Garry (Joaquim Phoenix, ainda bem jovem, aqui assinando ainda como Leaf Phoenix) e as atitudes rebeldes da filha Julie (Martha Plimpton) que cismou de se envolver com um rapaz desajustado, Tod (Keanu Reeves, na fase “Bill & Ted”).
Já a irmã mais jovem, Susan (a bela Harley Kozak) tem um casamento cada vez mais asséptico com o metódico Nathan (Rick Moranis, apático), uma vez que ele se dedica menos ao relacionamento com a esposa e mais à educação pouco usual da filha pequena dos dois.
O próprio patriarca interpretado por Jason Robards tem lá seus problemas: O caçula Larry (Tom Hulce, de “Amadeus”) retornou para o seio da família e trouxe a tira-colo um filho pequeno que todos desconheciam –e que logo sobra para os avôs cuidarem –assim como diversas dívidas irresponsáveis obtidas em jogatina.
É um panorama feito com carinho das famílias norte-americanas, sempre às voltas com circunstâncias que caminham em direção à disfunção, nesse sentido, ele lembra uma pouco a obra-prima chinesa “As Coisas Simples da Vida”, de Edward Yang.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Melvin e Howard

Eis um filme sensacional! Tão sensacional que é possível perceber, muito antes de sua consagração com “O Silêncio dos Inocentes”, que o diretor Jonathan Demme já era excelente (por sinal, “O Silêncio dos Inocentes” é tão antológico que não notamos o quanto trata-se de um corpo estranho na filmografia de Demme marcada muito mais por comédias pouco usuais como esta daqui).
Partindo de uma inusitada e nebulosa história real, o filme fala sobre o possível encontro entre o pobretão Melvin Dummar (James Le Mat) e o recluso e excêntrico milionário Howard Hugues (Jason Robards que, por uma brevíssima aparição já foi capaz de concorrer ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante), numa curiosa e pouco convencional estrutura de roteiro –em um filme comum, a trama giraria em torno das improváveis e potencialmente cômicas distinções entre personagens opostos, antagônicos até, mas no filme que Jonathan Demme se propôs a dirigir, o foco é, acima de tudo, a realidade: o personagem Howard Hugues, ainda que essencial e ressonante à premissa tem, quando muito, uns dez minutos de cena. Todo o resto da narrativa é dedicada à Melvin, o homem comum que se cruzou sem saber com uma das mais enigmáticas figuras do Século XX e, nesse breve instante, conseguiu gerar nele uma impressão tão marcante e genuína que foi lembrado por Hugues em seu testamento (!).
Até isso acontecer –surpreendentemente perto do fim, quando Demme já subverteu as expectativas de quem foi ver seu filme com base em alguma sinopse enganadora –toda a trama conduzida pelo roteirista Bo Goldman (merecido ganhador do Oscar) irá se concentrar nas condições sempre periclitantes da vida de Melvin, na árdua tentativa de equilibrar a crença inocente no sonho americano com a realidade frustrante que insiste em se expressar por todos os lados, na divertida relação com sua esposa Lynda (a maravilhosa Mary Steenburgeen fazendo valer plenamente seu Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante) que, apesar do amor e da cumplicidade, cede às desilusões da vida e à inconseqüência do próprio Melvin.
Chega a ser uma surpresa ao expectador descobrir que a trama abrange vários anos, envelhecendo os personagens, confrontando-os com aspectos irreversíveis da vida e mostrando que, acima de tudo, apesar do humor afiado extraído, sobretudo, de um elenco hábil, e da graça e galhofa que o diretor Demme consegue extrair, esta é uma história supostamente baseada em fatos reais –o testamento, supostamente escrito a mão por Hugues deixando sua fortuna à Dummar foi aceito por alguns tribunais americanos, porém, rejeitado por tantos outros, levando o caso à uma conclusão indefinida.
Demme, portanto, permite que a realidade acabe interferindo em sua obra, dando a ela textura, razão de ser e ramificações de inúmeras interpretações sociológicas mesmo que isso jamais de sobreponha à diversão: Esta bela e imperfeita trajetória de indivíduos pertencentes à classe média baixa americana (e cuja amarga conclusão é que para sempre à ela irão pertencer) é, sim, uma reafirmação do compromisso de seu diretor com a autenticidade da vida real, mas é também uma comédia brilhante.

quarta-feira, 1 de março de 2017

O Dia Seguinte

A passagem do tempo pode dar um aspecto redundante a muitas causas relevantes do passado, especialmente aos olhos de uma geração mais nova, que nasceu e cresceu sem ter experimentado a atmosfera e até mesmo as conseqüências prováveis de um determinado momento histórico.
É o caso da campanha de desarmamento nuclear que motivou amplas mobilizações ao redor do mundo durante a década de 1980, quando a população já se encontrava farta da tensão entre EUA e URSS ocasionada pela Guerra Fria.
Peça fundamental para essa campanha de desarmamento foi o telefilme “O Dia Seguinte”, realizado por Nicholas Meyer (diretor conhecido somente pelos episódios cinematográficos 2 [“A Ira de Khan”] e 6 [“A Terra Desconhecida”] de “Jornada Nas Estrelas”, e pela ficção científica “Um Século Em 43 Minutos”) e exibido para um público recorde na época. Um trabalho que não deve nada –em execução, em importância histórica ou em valor artístico –a qualquer obra feita para o cinema.
Em princípio, a narrativa propositadamente bucólica parece contentar-se em simplesmente pairar sobre uma série de personagens, todos moradores da cidade rural de Lawrence, no Kansas, onde por acaso, estão também posicionados os mísseis atômicos do governo, sempre em prontidão caso um ataque seja deflagrado.
Em sua rotina, eles ignoram anúncios que surgem na forma de ocasionais notícias alarmantes na TV, ou comentários de rádio acerca da situação política cada vez mais perigosa.
O filme faz questão de dar atenção à personagens comuns, cidadãos, pessoas normais: O médico em vias de se aposentar vivido por Jason Robards; o mochileiro boa-praça interpretado por Steve Guttenberg (um ator relativamente famoso nos anos 1980, tendo participado de sucessos irregulares como “Loucademia de Polícia”, “Cocoon” e “Três Solteirões e Um Bebê”); o fazendeiro interpretado por John Cullum e toda sua família, entretidos com a festa de casamento da filha mais velha, além de muitos outros.
É um elenco bastante numeroso, empático e diversificado, na medida do possível, e todos os personagens aos quais eles dão vida será arremessados numa outra (e quase inacreditável) realidade quando ocorrer a eclosão da Terceira Guerra Mundial, levando ao conseqüente ataque dos mísseis nucleares.
Após o caos espantoso que se segue à cena aterradora da explosão das bombas nucleares –ilustrado com competência pelos efeitos visuais envelhecidos, é bem verdade, mas ainda bastante eficientes –o filme concentra-se em seu cerne objetivo nos detalhes minuciosos, dramáticos e assustadores da morte lenta e horripilante dos moradores sobreviventes que experimentam uma agonia por meio da deterioração física provocada pela radiação, algo que os fará invejar os mortos.
O mais assombroso de tudo o quê é mostrado, é que o filme faz questão de ratificar, contínua e paulatinamente, que os eventos mostrados condizem com a realidade do que ocorreria se fosse desencadeada de fato uma guerra nuclear –em alguns casos, o registro do filme pode até ser considerado brando e ameno!
Filme lendário em seus propósitos pacifistas e na contundente e precisa mensagem que passa ao expectador, “O Dia Seguinte” é um espetáculo cru e inclemente para com o público, no seu desfilar brutal de dramas humanos que pouco a pouco se revelam irreversíveis.
Em sua decisão de descartar um irreal final feliz, o diretor Nicholas Meyer criou um dos mais poderosos e áridos manifestos antibélicos, merecedor de ser assistido por todos.

sábado, 19 de novembro de 2016

Era Uma Vez No Oeste

É, por vezes, complicado apontar o melhor filme de um determinado gênero. Por exemplo: Qual seria o melhor filme já feito de ficção científica? Para uns, certamente “2001-Uma Odisséia No Espaço”, outros diriam “Blade Runner-O Caçador de Andróides”, ou até “Metrópolis”, de Fritz Lang. Há até aqueles que poderiam insistir em “Matrix” ou “Avatar”.
Com relação aos filmes de drama é ainda mais complicado; são tantos sub-gêneros que fica difícil escolher um só entre obras que vão desde “Casablanca” e “E O Vento Levou”, até trabalhos como “Cidadão Kane”, “O Sétimo Selo” ou “Os Incompreendidos”.
Mas, no que diz respeito ao faroeste essa é uma pergunta bem mais fácil de ser respondida: É provavelmente “Era Uma Vez No Oeste”, de Sergio Leone, a grande obra-prima do gênero.
Toda e qualquer afirmação radical encontra uma voz discordante, mas a verdade é que este grande filme de Leone, além de sua excelência inquestionável, reune elementos que convergem de todas as facetas que o gênero já teve: Trás uma série empolgante de grandes referências aos faroestes da Antiga Hollywood –sendo as mais explícitas, as imagens do Monument Valley, tantas vezes usado por John Ford, e a presença poderosa de um grande ator daquele período, o grande Henry Fonda, no único (e espetacular) papel de vilão em toda a sua carreira –além de apreender, em sua complexa trama, todo o significado implícito do gênero, e trazer a herança dos faroestes spaghetti; o italiano Leone, afinal, veio desse sub-gênero, no qual criou a famosa “Trilogia dos Dólares”.
Acompanhamos o desenrolar de sua trama quando um homem misterioso (Charles Bronson, no papel que é sua grande contribuição ao faroeste) surge numa estação de trem no meio do nada. Pistoleiro hábil, ele elimina de pronto os carrancudos homens deixados ali para cuidar dele. Seu objetivo parece ser matar o fora da lei Frank (Henry Fonda), notório mau-caráter que assassinou uma família inteira –numa cena tão brilhante quanto estarrecedora –com o objetivo de se apossar do terreno.
Frank não contava contudo com o aparecimento da jovem viúva (uma assombrosamente linda Claudia Cardinale), esposa do proprietário, e herdeira de tudo o que ele possui, incluindo o terreno cobiçado por Frank e por seu sócio o quase inválido, mas poderoso homem de negócios, Morton (Gabriele Ferzetti).
Frank e o pistoleiro misterioso serão uma espécie de ponto de desequilíbrio na história.
Logo, esses dois homens tão opostos e tão equivalentes se darão conta que são uma raça em extinção, e que o Velho Oeste já não mais existe e em seu lugar começa a surgir uma América industrializada, política e organizada que lhes é inóspita.
Esse é o legado do Velho Oeste que Leone soube tão bem colocar aqui: A de um tempo de transição, rumo à uma América que todos nós, expectadores, conhecemos tão bem. Um tempo que moldou homens sobre os quais contam histórias de bravura, até crueldade, não raro, imbuídas de romantismo, mas sempre impregnadas pelo cheiro forte da pólvora e da morte.
E os duelos, meu Deus! Alguém um dia conseguiu filmar duelos melhor do que Sergio Leone?
Do início ao fim, todos eles são cenas arrepiantes e perfeitas que se sucedem, de maneira espantosa. O destaque, sem dúvidas, fica com o duelo final, quando o personagem de Bronson enfim fica frente a frente com o personagem de Fonda, e descobriremos qual é o grande segredo do primeiro, e que vem a selar então o destino do segundo, num dos grandes momentos da história do cinema.
Leone está para os faroestes como Akira Kurosawa está para os filmes de samurais: Um mestre a ser reverenciado, e nada mais.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Magnólia

Em uma determinada cena deste filme, todos os personagens, nos mais diversos lugares, param o que estão fazendo para (veja só) cantar! Um momento inebriante.
Ponto para o diretor Paul Thomas Anderson que criou um filme repleto de cenas mágicas, inusitadas e inesperadas que, ao longo de suas três horas de duração tem como tema... a rotina.
“Magnólia” é uma ciranda de dramas humanos que se revezam perante o olhar do expectador, com suas qualidades intrigantes muitas vezes ressaltadas pela observação essencialmente cinematográfica de seu diretor. Todas elas transcorrem na cidade de Los Angeles, e todas têm como elemento intrínseco uma espécie de absurdo que parece perseguir os percalços dos personagens, seja em sua comédia ou em sua tragédia.
Como não poderia deixar de ser, seu elenco é espetacular. Há o grande Jason Robards, como um milionário em seus momentos finais –e durante os quais se dá conta das verdadeiras importâncias de sua vida –acompanhado e auxiliado por seu solícito enfermeiro (Phillip Seymour Hoffman). Ele se esforça para tentar realizar um desejo de seu paciente: Reencontrar o filho com quem não mais tem contato (personagem, no caso, de Tom Cruise, que surge aqui com uma interpretação fantástica). Paralelamente, a atual esposa do milionário (Julianne Moore), que devido à diferença de idade fica claro que casou-se por dinheiro, dá-se conta, só então, que ama de fato seu marido.
A medida que “Magnólia” avança outras tramas vão surgindo e se ramificando: John C. Reilly aparece como um policial solitário lidando com sua insegurança; William H. Macy interpreta um homem assolado por uma poderosa crise de identidade; e muitos outros mais.
Anderson usa cada um desses expedientes para a construção de cenas memoráveis, mas, perto do final, ele entrega uma sequência que desperta, até hoje, a dúvida de seus fãs: Afinal, o quê ele quis dizer com aquela surreal chuva de sapos?!
Uma metáfora da ausência de sentido de muitas das trajetórias humanas? Um comentário em tom de sarcasmo da banalidade que nos cerca? Um atrevimento autoral feito com o único propósito de surpreender? Um lampejo de realismo mágico a brotar em um filme pretensamente realista?

O diretor, evasivo, nunca chegou a dar uma resposta e, talvez, a beleza dessa cena (e de todo o filme) esteja em não sabê-lo.