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sexta-feira, 15 de maio de 2020

Thomas Crown - A Arte do Crime

Juntos, o ator Pierce Brosnan e o diretor John McTiernam realizaram o suspense de baixo orçamento “Delírios Mortais”, em 1985. catorze anos depois, em 1999, eles tornaram a se reunir nesta refilmagem de “Crown-O Magnífico”, na qual Brosnan –então já festejado como novo intérprete de “007” –almejava investir em um personagem marcante que o afastasse da esmagadora sombra de James Bond.
Trata-se de um esforço válido e admirável e –o melhor! –que resultou num filme excelente: “Thomas Crown” pega a trama básica do filme original dirigido por Norman Jewinson e a ela acrescenta percepções cínicas e mundanas dos anos 1990 de então –período ao qual sua premissa se encaixa com uma exatidão notável.
O milionário Thomas Crown, vivido com fleuma inabalável por Brosnan, cultiva uma fachada impecável de empresário dedicado, sofisticado, culto e satisfeito.
No roteiro melindroso que tece, o filme de McTiernam coloca seu protagonista como um dissimulador tão extraordinariamente competente que não é permitido nem mesmo ao expectador vislumbrar suas insatisfação –mas, ela está lá.
E é ela que leva Crown a organizar um assalto perfeito à uma galeria de arte.
A execução do assalto, por sinal, é primorosamente bem realizada, à frente e atrás das câmeras –contando ainda com a presença de um Vin Diesel ainda iniciante –embora seus autores sejam descobertos e capturados.
Contudo, o fracassado de tal operação já estava nos planos de Crown: Enquanto os assaltantes contratados por ele se dão mal, distraindo a eficiente estrutura de segurança do museu, Crown rouba pessoalmente uma pintura de Monet, o quadro mais valioso do local, com suas próprias mãos e sai andando pela porta da frente.
Roubo executado, eis que entra em cena aquela que circunstancialmente pode ser considerada a personagem principal de fato –no sentido de que é ela, e não Thomas Crown, os olhos da plateia –a investigadora da companhia de seguros Catherine Banning, vivida por uma belíssima e escultural Rene Russo que, do alto de seus 45 anos de então, demonstra química singular e afiada com Brosnan, aparece nua e dá um banho de sensualidade em muita atriz de vinte anos.
Cahterine sabe que o entediado Crown está envolvido até o pescoço com o ocorrido –prová-lo é, entretanto, o grande desafio dela e de seu parceiro, o investigador bem menos sofisticado interpretado por Denis Leary (de “O Espetacular Homem-Aranha”).
São hilárias as tentativas dele em fazer um cerco ao escorregadio milionário –como quanto tenta invadir a mansão dele com um mandato de busca em mãos, e Crown tem, entre seus amigos pessoais, o próprio advogado (vivido por Ben Gazzara), o que neutraliza qualquer burocracia que poderia beneficiar as ações do investigador.
A tática de Catherine, entretanto, é mais eficaz: Ela enreda (e desafia) Crown num terreno em que ele se julgava predominante, a sedução, ciente também de que não é por qualquer valor financeiro que ele empreendeu sua travessura, mas, para conferir algum desafio à sua vida tão estável. E é, de certa forma, como um desafio que Catherine se apresenta.
Assim, indo na contramão do cinema comercial habitual às plateias –e contrariando até mesmo o que se esperava do diretor John McTiernam, um especialista em ação –“Thomas Crown” revela-se uma obra onde a ação (ainda que ela exista) possue menos peso narrativo do que as guinadas de roteiro e as orientações íntimas dos personagens; ficamos até a última cena em dúvida acerca de qual é o real objetivo de Thomas Crown (e também quais são, de fato, seus sentimentos por Catherine), quando por fim seu plano final é revelado numa sequência brilhantemente dirigida, montada e roteirizada.

sexta-feira, 24 de abril de 2020

Arizona Dream - Um Sonho Americano

Estréia do diretor sérvio Emir Kusturica no cinema norte-americano, “Arizona Dream” não perde nem um pouco da melodia onírica, do tom imaginário que já inebriavam seus aclamados trabalhos realizados na Europa –isso se deve pelo fato da equipe técnica  ser majoritariamente composta pelos mesmos artesãos que o acompanharam nos delírios de “Vida Cigana” ou “Quando Papai Saiu Em Viagem de Negócios”.
A espelhar o cinema lúdico e desconcertante de Fellini, o cinema de Kusturica (e este seu primeiro filme em língua inglesa, portanto) evoca uma atmosfera imediata de fábula: Uma família de esquimós aparece nas cenas iniciais. O pai quase morre no gelo, mas acaba salvo por seus fiéis cães. Do peixe que ele consegue trazer para casa, ele retira o estômago e com ele faz um balão inflável (!) para que seu filho possa brincar. O balão voa e acaba indo parar em Nova York onde encontramos o protagonista do filme, Axel (Johnny Depp), um jovem desajustado e solitário; a sequência com os esquimós será uma espécie de sonho que o perseguirá por todo o restante do filme..
Axel é visitado por seu primo, Paul (Vincent Gallo, de “Os Chefões”) que deve levá-lo para o casamento de seu tio, embora Axel relute, preferindo ficar ali.
Paul o embebeda e, quando Axel dá por si, está no Arizona (!).
Seu tio, Leo (um já envelhecido Jerry Lewis) irá casar-se com uma moça muito mais jovem, Millie (a bela Paulina Porizkova, de “Anna” e “Adorável Sedutora”) e deseja Axel perto dele, não apenas pela ocasião de seu casamento –isso, na verdade, era um mero pretexto –mas, trabalhando em sua loja onde passou a vida vendendo cadillacs, crente de que poderia empilhar carros o suficiente para chegar até a lua!
Sem saber muito o rumo a tomar com sua vida. Axel conhece uma dupla desvairada de mãe e filha –ou seria melhor dizer, madrasta e enteada –Elaine (Faye Duanaway) e Grace (Lili Taylor, de “O Vício”); a primeira é obcecada por voar, e passa o filme a tentar alcançar esse objetivo através das mais diversas máquinas voadoras; a segunda, toca acordeão para espairecer as maluquices da outra, enquanto se mostra fascinada por tartarugas.
Personagens plenos de delírio por si só que encontram na encenação orgânica e desvairada de Kusturica um combustível ainda mais inflamável para sua loucura: No primeiro jantar na casa de Elaine, ela e Grace iniciam uma discussão diante dos convidados, Axel e Paul.
Grace tenta se suicidar com um meia-calça amarrada no teto, mas, só consegue ficar indo e vindo pendurada pelo pescoço como um io-iô (!), enquanto Paul –que, como todo o resto, tem uns parafusos a menos –começa a alucinar recitando frases de “Touro Indomável”.
Axel e Elaine, por sua vez, se tornam um casal e, no transcorrer dos dias, o rapaz passa a morar com ela e a enteada, conforme cada personagem nutre o próprio sonho da forma como pode: Elaine tenta voar; Grace faz planos (concretizados no desfecho ligeiramente amargo) para reencarnar como tartaruga; Paul almeja fugir da mediocridade virando ator (hilária a cena em que ele tenta imitar a icônica perseguição de Cary Grant por um avião em “Intriga Internacional”); e Tio Lee busca pela juventude perdida, menos casando com Millie (que tem idade para ser sua filha) e mais garantindo a presença de Axel por perto.
Colhido nesse turbilhão de anseios e carências, Axel parece deixar seus próprios sonhos em suspense: Obcecado por peixes, como fica claro em sua narração em off, e nas histórias que conta e reconta, Axel tem pesadelos com um peixe que representa uma espécie de mau agouro ao longo do filme, e passa quase toda a trama a flutuar por sobre os dramas de outrem.
Diretor de percepções extremamente incomuns, Emir Kusturica não engessa seu filme em construções dramáticas previsíveis, nem estabelece qualquer arco narrativo que o expectador consiga acompanhar com tranquilidade ou segurança do que pode ou não acontecer na cena seguinte; sua obra é uma surreal sucessão de acontecimentos inesperados cujos desenlaces são impossíveis de serem previstos justamente por sua natureza singular e insólita.

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

The Handmaid's Tale - A Decadência de Uma Espécie


Assim como ocorreu com “Westworld”, o livro de Margaretg Atwood também havia ganhado uma muito pouco conhecida versão cinematográfica antes de ser adaptado na aclamada série para a televisão.
Datado do início da década de 1990, este “The Handmaid’s Tale” tem a elitista direção do alemão Volker Schlöndorff, do consagrado “O Tambor” (que dividiu a Palma de Ouro em Cannes com “Apocalypse Now”) que se vale da premissa –herdeira espiritual das reflexões de George Orwell –para criar uma impressionante distopia.
No futuro, um país denominado Gilead vive tempos difíceis, entre guerras nas quais são empregadas armas químicas irresponsavelmente e revoltas de ordem política constantes, uma das consequências foi a perda da fertilidade de sua população. Uma porcentagem baixíssima das mulheres permaneceu capaz de engravidar.
Kate (Natasha Richardson, filha da grande dama do cinema Vanessa Richardson), ao tentar fugir de Gilead atravessando a fronteira ao lado do marido (que é alvejado e morto) descobre assim o destino das poucas mulheres, como ela, ainda férteis: Elas são conduzidas a uma espécie de centro de habilitação onde sofrem algo quase similar a uma lavagem cerebral.
A benção de serem capazes de dar a vida é, para elas, convertida em sua maldição: Delas é tirada a liberdade (são aprisionadas e tornadas ‘handmaids’, que usam somente vermelho), a individualidade (dormem todas juntas num dormitório improvisado em um ginásio de esportes, e recebem outros nomes que lhe podam a identidade) e até mesmo o livre-arbítrio (serão escolhidas para fornecer filhos aos milionários e aos cidadãos de alto escalão cujas esposas são estéreis).
Esse é o destino de Kate –chamada Offred (traduzido ‘De Fred’, ou seja, propriedade de seu patrão), ela agora terá de submeter-se à terríveis cerimônias de violação, nas quais é evocada a passagem de Gênesis, Capítulo 50: O marido (Robert Duvall) deve, portanto, penetrá-la da forma mais impessoal possível para que ela proporcione um filho a ele e à esposa (Faye Dunaway).
Ao longo das angustiantes tentativas, Kate não deixa de notar os avanços insidiosos do marido (que a quer quase como uma amante), o rancor mal disfarçado da esposa e a atração genuína que passa a sentir por Nick (Aidan Quinn), o motorista da mansão.
Entretanto, ela não deixa de correr perigo: As duas ‘handmaids’ anteriores foram descartadas (no caso, enforcadas!) por não conseguirem engravidar; as evidências apontam que o marido deve ser também estéril, porém, isso está fora de cogitação para a sociedade vigente –se ela não engravidar a culpa será dela, e será ela quem sofrerá assim as consequências.
Impondo uma esmagadora impessoalidade na narrativa –sufocando o expectador com a opressão que suas escolhas suscitam –o filme de Schölondorff usa e abusa das cenas monocromáticas a definir uma espécie de futurismo que, ao mesmo tempo, parece brotar de um pesadelo.
Embora hajam lá suas sequências impactantes, a grande força deste seu trabalho provem do poder desalentador de uma premissa fantasiosa, mas cujos horrores são ingredientes extraídos de aspectos do mundo bem real a lembrar o mais recente “Filhos da Esperança”, de Alfonso Cuarón.

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Bonnie & Clyde - Uma Rajada de Balas


Prova evidente da importância que este clássico de Arthur Penn conquistou para o cinema é a atitude dos membros da Academia de Artes Cinematográficas (assim como os organizadores da cerimônia do Oscar) da época em que foi lançado (1968), onde saiu somente com os prêmios de Melhor Fotografia e Atriz Coadjuvante e os do ano de 2017, quando reconheceram seu significado singular chamando seu casal protagonistas, Warren Beatty e Faye Dunaway, para apresentar o prêmio principal –e eles acabaram envolvidos indiretamente naquele vexame de envelopes trocados o quê levou o Oscar a chamá-los para apresentar o mesmo prêmio no ano seguinte, mas, enfim, essa é outra história...
Clássico como poucos filmes conseguirem a proeza de se tornar –a ponto de ter atrelado ao seu nome um arquétipo usado até por quem nem viu e nem conhece o filme –“Bonnie & Clyde” é tão sensacional, divertido e comercialmente eufórico que essas qualidades populares automaticamente fizeram alguns críticos duvidar de sua perenidade artística.
O filme de Penn acompanha com um interesse desigual a vida algo bucólica de Bonnie Parker (a quem a belíssima Faye Dunaway empresta uma caracterização irrepreensível), garota americana na década de 1930 tentando equilibrar-se entre a pobreza, a monotonia social e as limitações típicas de ser uma mulher no período.
Ela flerta com o inicialmente estranho Clyde Barrow (Warren Beatty, fantástico) e, embora no princípio ele não lhe passe a segurança de um relacionamento duradouro, logo essas impressões são deixadas para trás das maneiras mais inesperadas possíveis: Clyde é um foragido assaltante de bancos (o simbolismo fálico de sua arma na primeira vez que mostra à ela tem tudo a ver com isso). Ele vive de cidade em cidade, sempre arriscadamente e sse sabor de aventura prometido por Clyde fascina Bonnie e ela junta-se a ele.
A medida que o casal vai desbravando os EUA, os outros personagens somam-se a eles: O jovem arredio e empolgado C. W. Moss (Michael J. Pollard), o próprio irmão de Clyde, Buck (Gene Hackman) e sua esposa Blanche (Estelle Parsons, a ganhadora do Oscar de Coadjuvante).
Eles ganham um antagonista na pele do xerife Hammer (Denver Pyle), o quê porá um ponto final em sua vida de assaltos.
Mais do que fazer um tratado moral sobre a criminalidade, Arthur Penn cria ao redor de seus protagonistas uma sedutora névoa ambígua de liberdade e rebeldia. É impossível não se deixar de cativar por esse casal protagonista que o diretor registra como párias fora do sistema em busca de uma felicidade desigual cercados por um mundo de cidadezinhas medíocres e estradas com campos verdejantes, ou até mesmo por amor tão puro e fulminante –ainda que a narrativa ocasionalmente ironize uma certa insatisfação sexual.
Ao refletir certas facetas de contestação de uma contracultura que então nascia, o diretor Arthur Penn moldou um das primeiras obras do cinema onde a ação adquiria importância narrativa e não como sequências à parte do contexto.

sábado, 16 de junho de 2018

Os Vencedores do Oscar 1977


Para melhor compreendermos as escolhas feitas pela Academia na cerimônia de 1977, é necessário analisarmos os próprios Estados Unidos de então: A sociedade americana vinha de baques profundos em seu subconsciente político, como a recém-terminada Guerra do Vietnam e o escândalo de Watergate.
Daí a razão tão pertinente para se premiar e reconhecer um filme até pequeno, singelo, mas eficaz em restabelecer o espírito de superação naqueles tempos: A sincera e modesta mensagem redentora de “Rocky-Um Lutador” que, por ser o filme certo na hora certa levou três estatuetas, incluindo de Melhor Filme e Melhor Diretor (até Stallone foi indicado ao Oscar de Melhor Ator!).
E por falar em Watergate, um dos grandes destaques da noite foi justamente a reconstituição das investigações jornalísticas que levaram à renúncia de Richard Nixon, o politizado “Todos Os Homens do Presidente” –que levou quatro prêmios, incluindo Melhor Ator Coadjuvante (Jason Robards) e Melhor Roteiro Adaptado.
Os prêmios de Melhor Ator, Melhor Atriz e Melhor Atriz Coadjuvante (além de Melhor Roteiro Original) foram todos conquistados pelo notável “Rede de Intrigas”, dando pela primeira vez um prêmio póstumo à um intérprete –o ator Peter Finch, já havia falecido na época da premiação –feito similar só tornou a ocorrer em 2009, quando o saudoso Heath Ledger ganhou por “Batman-O Cavaleiro das Trevas”.

MELHOR FILME
"Rocky-Um Lutador"

MELHOR DIREÇÃO
"Rocky-Um Lutador", John G. Avildsen

MELHOR ATRIZ
Faye Dunaway, "Rede de Intrigas"

MELHOR ATOR
Peter Finch, "Rede de Intrigas"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Beatrice Straight, "Rede de Intrigas"

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Jason Robards, "Todos Os Homens do Presidente"

MELHOR FOTOGRAFIA
"Esta Terra É Minha Terra"

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
"Preto e Branco em Cores" (Costa do Marfim)

MELHORES EFEITOS ESPECIAIS

MELHOR FIGURINO
"Casanova de Fellini"

MELHOR SOM
"Todos Os Homens do Presidente"

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE
"Todos Os Homens do Presidente"

MELHOR TRILHA SONORA ORIGINAL
“A Profecia"

MELHOR TRILHA SONORA ADAPTADA
“Esta Terra É Minha Terra"

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"Evergreen", de "Nasce Uma Estrela"

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
"Rede de Intrigas"

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
"Todos Os Homens do Presidente"

MELHOR MONTAGEM
"Rocky-Um Lutador"

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Joana D' Arc

Para além da forma indissociável que esta personagem histórica imbricou na cultura pop como uma espécie de representante do protagonismo feminino (cujas referências se encontram em trabalhos como “Jogos Vorazes”), esta estilizada versão é transparente, sobretudo, no modo como reflete as aspirações de seu realizador, o francês Luc Besson.
Terceiro projeto de Besson após sua mudança para os EUA na década de 1990 –os anteriores foram o notável “O Profissional” e o mirabolante “O Quinto Elemento”, no qual conheceu a atriz Milla Jovovich que aqui nomeou protagonista –a produção parece reunir um conceito bastante norte-americano e corporativo: É, deveras, de uma conveniência muito mercadológica à Hollywood juntar em um único projeto de ares grandiloquentes um realizador francês notório por seus filmes de ação e uma personalidade histórica da França num épico (repleto de cenas de ação, veja só!) com o aval do cinemão norte-americano.
Os executivos, talvez, só não pararam para enxergar o quanto este projeto poderia destoar da própria postura de Besson como autor –e, de repente, nem ele próprio!
De fato, a direção de Besson soa ligeiramente oprimida aqui, embora ele ainda consiga fazer o que é inerente em todos os seus filmes: Levar um senso de observação íntima que dialoga espirituosamente com sua afinada percepção de espetáculo.
Difícil dizer, na conclusão final a que leva o filme, se essa observação pertence mais à Besson ou ao estúdio que o financiou.
Comprovando toda a desenvoltura para cenas de ação que ela já havia demonstrado em “O Quinto Elemento” (e que levou-a a estrelar a infame franquia “Resident Evil”), Milla Jovovich surge, num registro bastante desigual, como Joana, uma inocente garota camponesa dos interiores da França que testemunha a barbárie dos invasores perpetrada contra sua aldeia e sua família.
Anos mais tarde, já adolescente, e com a França ainda em convulsão devida à sua instabilidade política e religiosa, Joana torna-se uma guerreira afirmando que seus passos são na verdade dados a partir de desígnios fornecidos por entidades celestiais que se comunicam com ela.
No terço final, ela é feita prisioneira pelos ingleses e submetida a um julgamento cujo teor inquisitivo e meticuloso visa sabotar sua fé; entretanto, a própria Joana será, ela mesma, confrontada com os questionamentos de seus fantasmas.
No esforço de tentar ser mais do que um outro filme a tentar levar novo enfoque á célebre história de Joana D'Arc (fato que o torna passível de comparação com uma infinidade de obras que vão desde o clássico mudo “A Paixão de Joana D’ Arc”, de Carl Theodor Dreyer, até o filme homônimo de Victor Fleming, estrelado por Ingrid Bergman, só para citar os mais ilustres), este trabalho converge seus detalhes no fato de que, desta vez, a história é contada por um esteta cultuado e munida de todos os recursos tecnológicos à disposição de uma produção hollywoodiana. Não obstante o fato de, por isso mesmo, Besson revelar-se aqui mais convencional que de costume, a maior diferenciação deste projeto é a abordagem curiosa que o filme parece fazer das motivações de sua personagem principal: Na atuação definida pelo olhar maníaco de Milla Jovovich e, em especial, na condução questionadora de ordem fantasiosa que ele dá à meio hora final (onde a alardeada participação do grande Dustin Hoffman se concretiza), o filme de Besson parece fazer algo que os que vieram antes dele não se atreveram (ou não tiveram o mau gosto de tentar...), ele confronta Joana D’ Arc com a possibilidade de sua própria loucura.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Chinatown

Reza a lenda que o roteirista Robert Towne tinha imaginado (isso ainda nos anos 1970, quando projetos comerciais desse tipo de envergadura só seriam executados umas duas décadas depois!) uma trilogia sobre Los Angeles, tendo a trama deste filme como estopim, e seu protagonista, o melindroso detetive particular Jake Gittles (Jack Nicholson, gigante) como seu fio condutor. Uma continuação de “Chinatown”, de fato, foi realizada anos depois, intitulada “A Chave do Enigma” e embora não fosse um filme ruim, padecia de problemas que este primeiro filme não tem: Sua direção (a cargo do próprio Nicholson) não igualava o primor de equilíbrio e bom senso que o mestre Roman Polanski apresenta aqui fazendo parecer fácil, e o roteiro de Towne não tem a polidez, nem a dosagem sensata de reviravoltas, pistas dúbias e artifícios rocambolescos que ele soube administrar tão bem aqui.
Em seu favor, pode-se dizer que “A Chave do Enigma” era um filme que já nasceu sob uma expectativa impossível: A de igualar o patamar estratosférico que esta desigual junção de talentos foi capaz de operar neste filme absolutamente brilhante.
Na Los Angeles da década de 1950, o detetive Gittles recebe assim um caso no qual deve seguir os passos de um marido suspeito de infidelidade. Quando esse marido surge morto, Gittles descobre, perplexo, que mesmo a mulher que o contratara (que ele julgava ser a esposa), não era quem estava afirmando ser. Na investigação para descobrir a verdade, ele termina se envolvendo com a esposa verdadeira (interpretada por Faye Dunaway), enquanto descortina uma história de corrupção, incesto e conluios políticos que pode ameaçar sua vida.
Um dos inúmeros trabalhos geniais que o diretor polonês Roman Polanski entregou naquele período, este film noir ligeiramente contemporâneo é, não obstante sua localização de tempo distinta da época em que esses trabalhos afloraram, o exemplar máximo do gênero. Ao valer-se de uma percepção europeizada sobre elementos intrínsecos ao conceito americano, Polanski embala seu filme numa desigual névoa de ambigüidade, não apenas no que tange à cultura da criminalidade (sua visão sobre os diferentes tipos de meliantes que surgem na trama –dos quais, um deles, o que esfaqueia o nariz de Gittles, é interpretado pelo próprio Polanski –é carregada de humor, frivolidade e um viés dúbio), ou a sua postura diante do próprio gênero em si (que aqui ganha um sem fim de premissas de repaginação, conjugadas na forma de inventivas ramificações da trama), mas, sobretudo, ao entregar a elucidação do grande e acachapante mistério (o qual só não despertou mais controvérsia por conta do primor e da excelência irrestrita com que tudo foi executado). O único Oscar que recebeu (de Melhor Roteiro Original) é pouco para premiar a magnitude deste trabalho.

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Regras da Atração

As tentativas de tradução das obras do escritor Brett Easton Ellis para o cinema até por volta de 2003 não foram felizes em capturar aquilo que de fato as fazia singular: A verve e a narrativa audaz, plena de cinismo e conhecimento prático do mundo pernicioso de seus personagens.
Esses filmes (“Abaixo de Zero” e “Psicopata Americano”) contentavam-se em transpor sem maiores arroubos de estilo as tramas que o texto discorria, ignorando o fato de que era a linguagem que fazia o seu diferencial.
Isso mudou com “Regras da Atração”.
Cheio de energia e inconformismo do ponto de vista narrativo, esta obra conta sua história por meio de uma sucessão de cenas magníficas, atrevidas, inusitadas e brilhantes –minha preferida, apesar da excelência de todas as outras, é o momento em que o casal protagonista (talvez no único momento em que se encontram no filme) fica em frente um do outro, com a tela dividida no close de cada um, e então as câmeras fazem um movimento sincronizado e se fundem, num efeito sensacional!
Mas, vamos à trama propriamente dita: Anos 1980. O jovem e niilista Sean Bateman (James Van Der Beek, num papel com ousadia o suficiente para afastá-lo da imagem de ídolo adolescente da série “Dawson’s Creek”) é o fornecedor de drogas do campus. Cético e cínico quanto a tudo, ele deixa-se afetar pelas cartas de amor que recebe de uma admiradora anônima que, ele suspeita, ser a levemente desajustada Lauren (Shannyn Sossamon, luminosa), esta, por sua vez, espera seu suposto namorado Victor (Kip Pardue), voltar da Europa.
Nesse meio tempo sua assanhada colega de quarto (Jessica Biel, absurdamente linda e fútil) pode jogar charme para cima de seu pretendente, bem como o atirado homossexual Paul (Ian Somerhalder, numa interpretação audaciosa).
Subversivo este filme acompanha a vida diária dos "habitantes" de uma universidade norte-americana com sua cronologia embaralhada, dividida entre as festas realizadas ao longo das semanas pelos alunos, que recebem deles os nomes mais estranhos. A cada sequência surge um novo narrador apresentando um novo ponto de vista de desenlaces que vão do cômico ao trágico. O resultado de tal atrevimento narrativo é devastador.
Acumulando com perícia as funções de diretor e roteirista, Roger Avery (que dividiu o Oscar de Melhor Roteiro Original com Quentin Tarantino por “Pulp Fiction”) compôs uma obra de intenções ambíguas, que inclusive permanecem ambíguas na mente do expectador muito tempo depois do desconcertante e imprevisto final –afinal, aquelas tragédias ocorridas com o trio principal, mostradas no início do filme pouco antes do flashback, aconteceram de fato?