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sexta-feira, 24 de abril de 2020

Arizona Dream - Um Sonho Americano

Estréia do diretor sérvio Emir Kusturica no cinema norte-americano, “Arizona Dream” não perde nem um pouco da melodia onírica, do tom imaginário que já inebriavam seus aclamados trabalhos realizados na Europa –isso se deve pelo fato da equipe técnica  ser majoritariamente composta pelos mesmos artesãos que o acompanharam nos delírios de “Vida Cigana” ou “Quando Papai Saiu Em Viagem de Negócios”.
A espelhar o cinema lúdico e desconcertante de Fellini, o cinema de Kusturica (e este seu primeiro filme em língua inglesa, portanto) evoca uma atmosfera imediata de fábula: Uma família de esquimós aparece nas cenas iniciais. O pai quase morre no gelo, mas acaba salvo por seus fiéis cães. Do peixe que ele consegue trazer para casa, ele retira o estômago e com ele faz um balão inflável (!) para que seu filho possa brincar. O balão voa e acaba indo parar em Nova York onde encontramos o protagonista do filme, Axel (Johnny Depp), um jovem desajustado e solitário; a sequência com os esquimós será uma espécie de sonho que o perseguirá por todo o restante do filme..
Axel é visitado por seu primo, Paul (Vincent Gallo, de “Os Chefões”) que deve levá-lo para o casamento de seu tio, embora Axel relute, preferindo ficar ali.
Paul o embebeda e, quando Axel dá por si, está no Arizona (!).
Seu tio, Leo (um já envelhecido Jerry Lewis) irá casar-se com uma moça muito mais jovem, Millie (a bela Paulina Porizkova, de “Anna” e “Adorável Sedutora”) e deseja Axel perto dele, não apenas pela ocasião de seu casamento –isso, na verdade, era um mero pretexto –mas, trabalhando em sua loja onde passou a vida vendendo cadillacs, crente de que poderia empilhar carros o suficiente para chegar até a lua!
Sem saber muito o rumo a tomar com sua vida. Axel conhece uma dupla desvairada de mãe e filha –ou seria melhor dizer, madrasta e enteada –Elaine (Faye Duanaway) e Grace (Lili Taylor, de “O Vício”); a primeira é obcecada por voar, e passa o filme a tentar alcançar esse objetivo através das mais diversas máquinas voadoras; a segunda, toca acordeão para espairecer as maluquices da outra, enquanto se mostra fascinada por tartarugas.
Personagens plenos de delírio por si só que encontram na encenação orgânica e desvairada de Kusturica um combustível ainda mais inflamável para sua loucura: No primeiro jantar na casa de Elaine, ela e Grace iniciam uma discussão diante dos convidados, Axel e Paul.
Grace tenta se suicidar com um meia-calça amarrada no teto, mas, só consegue ficar indo e vindo pendurada pelo pescoço como um io-iô (!), enquanto Paul –que, como todo o resto, tem uns parafusos a menos –começa a alucinar recitando frases de “Touro Indomável”.
Axel e Elaine, por sua vez, se tornam um casal e, no transcorrer dos dias, o rapaz passa a morar com ela e a enteada, conforme cada personagem nutre o próprio sonho da forma como pode: Elaine tenta voar; Grace faz planos (concretizados no desfecho ligeiramente amargo) para reencarnar como tartaruga; Paul almeja fugir da mediocridade virando ator (hilária a cena em que ele tenta imitar a icônica perseguição de Cary Grant por um avião em “Intriga Internacional”); e Tio Lee busca pela juventude perdida, menos casando com Millie (que tem idade para ser sua filha) e mais garantindo a presença de Axel por perto.
Colhido nesse turbilhão de anseios e carências, Axel parece deixar seus próprios sonhos em suspense: Obcecado por peixes, como fica claro em sua narração em off, e nas histórias que conta e reconta, Axel tem pesadelos com um peixe que representa uma espécie de mau agouro ao longo do filme, e passa quase toda a trama a flutuar por sobre os dramas de outrem.
Diretor de percepções extremamente incomuns, Emir Kusturica não engessa seu filme em construções dramáticas previsíveis, nem estabelece qualquer arco narrativo que o expectador consiga acompanhar com tranquilidade ou segurança do que pode ou não acontecer na cena seguinte; sua obra é uma surreal sucessão de acontecimentos inesperados cujos desenlaces são impossíveis de serem previstos justamente por sua natureza singular e insólita.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Bela Aldeia, Bela Chama

Um raríssimo exemplar do cinema sérvio, ao lado do belíssimo “Luna Papa”, a conseguir romper a resistência do circuito comercial a trabalhos de procedência incomum, esta notável e considerável realização chegou às telas de cinemas e às videolocadoras no final dos anos 1990 –algo bastante impressionante se parar para pensar na difícil acessibilidade daqueles tempos.
Talvez por isso sua linguagem e sua natureza cultural sejam tão distintas e contrastantes com as obras do período; quando muito, as produções oriundas daquele cinema que chegavam até aqui eram os elogiadíssimos filmes de Emir Kusturica. No entanto, o diretor Srdjan Dragojevic realizou um trabalho vigoroso e de invejável fôlego narrativo, demonstrando o quão inventivo e vívido é o cinema praticado em cantos do mundo que, por um bom tempo e mesmo ainda hoje, permanecem desconhecidos para a grande maioria dos expectadores.
A primeira cena de “Bela Aldeia, Bela Chama” mostra as precipitadas comemorações da inauguração das construções de um túnel (cenário que, mais a frente, ocupará o centro do drama), do corte no dedo pela tesoura quando é cortada a fita vermelha até o detalhe de que esta é uma construção –e não um monumento de fato –a narrativa do diretor Dragojevic enfatiza, nesse prólogo, o descaso e a distração com que as prioridades políticas e sociais são deixadas de lado em função da festividade.
No notável filme que se inicia a seguir, três linhas distintas de tempo se sucedem a preencher as lacunas da dramaturgia que o diretor constrói: Numa acompanhamos a amizade entre o sérvio Milan e o muçulmano Halil durante a juventude pontuada por farra, cerveja e galhofa; noutra, em 1992, os dois amigos já estão em lados opostos de um conflito que se concentra naquele mesmo túnel inacabado entre Belgrado e Zagreb, quando os muçulmanos conseguem acuar um grupo de sérvios dentro das precárias instalações e a passagem do tempo vai fazendo-os definhar física e psicologicamente; na terceira linha, os mesmos personagens (ao menos, os que sobreviveram) se encontram num hospital, em recuperação das severas seqüelas físicas desse episódio, inclusive Milan, enquanto tentam tolerar a presença de um enfermo prisioneiro de guerra muçulmano.

Dotado de admirável empuxo narrativo para com as conduções simultâneas de diferentes linhas de tempo –o quê demonstra uma subestimada competência da parte dos realizadores daquela região –este filme cheio de energia e senso de observação expõe os conflituosos flagelos íntimos que a guerra termina impondo ao homem comum.

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Underground - Mentiras de Guerra

Através de um apanhado de personagens insólitos, o diretor Emir Kusturica tece um painel sobre a guerra e as perdas por ela inferidas cuja única alternativa reservada ao expectador por sua inclemente e caótica narrativa é a reflexão.
Tais personagens iniciam sua trama com atitude gaiata no primeiro ato, depois seu comportamento adquire ares surreais no segundo, para em seguida sofrerem uma desconstrução no terceiro e derradeiro ato –por mais absurdos que sejam, eles e sua história, não é muito difícil para Kusturica infligir-lhes aflições humanas que invariavelmente os aproximam de todos nós.
No início, durante a Segunda Guerra Mundial, Blacky (Lazar Ristovski) é exuberante e convicto. Ao mesmo tempo em que corteja Natalija (Mirjana Jocovic), ele alimenta discursos e ações que visam confrontar os opositores de sua ideologia na Tchecoslováquia de então, ao lado de seu melhor amigo –e um tanto quanto mais prudente que ele –Marko (Miki Manojlovic). Ambos gerenciam, com atitudes antagônicas, uma fábrica clandestina de armas.
Subitamente, um acidente inesperado leva Blacky a uma situação ainda mais clandestina e inusitada: Após um acidente, ele, junto de seu grupo, ficam em confinamento dentro do porão da casa de Marko produzindo morteiros para a guerra que se desenrola, sem jamais poder sair, na condição de dissidentes.
Os anos passam, a guerra se acaba, mas eles continuam lá naquele porão, fabricando sem parar as armas que passam a dar estabilidade financeira à Marko, enquanto ele próprio passa então a cortejar Natalija, a moça que antes era o objeto dos desejos de Blacky.
Após vinte longos anos enclausurados naquele subterrâneo –naquele “underground” –Blacky e sua turma finalmente saem para o mundo exterior, e a maioria deles se perde em meio às transformações políticas e ideológicas sofridas pela Iugoslávia nos anos seguintes.
Blacky perde o próprio filho e, embora essa obsessão jamais deixe de atormentá-lo, ele busca extravasá-la embrenhando-se nos conflitos que se seguem então, as guerras separatistas, os conflitos contra os albaneses e as intervenções da Otan contra a Sérvia.
Todos eventos que, em meio à década de 1990, transformaram o panorama sócio-político daquela região. Na visão de Kusturica, contudo (um misto audaz entre Buñuel e Fellini), esse sofrimento incontornável perpetrado pelas mudanças não consegue apagar a vivacidade de seu povo, traduzida na capacidade fulgurante que têm de transpor os infortúnios mais pungentes.

sábado, 21 de maio de 2016

Vida Cigana

Talvez, a obra-prima de Emir Kusturica. Dentre seus trabalhos é certamente aquele que tem a narrativa mais acertada e bem resolvida.
O quê não é pouco em se tratando de um filme tão onírico quanto os que costumam sair da imaginação deste que é possivelmente o maior diretor da extinta Iugoslávia.
Curioso que, a exemplo de Buñuel e Fellini, os elementos fantásticos nunca servem para aliviar as desventuras de seus personagens, tornando-se soluções mágicas para quaisquer aflições. Pelo contrário: Embora carregado de magia (e não raro, de poesia), os personagens e o mundo no qual Kusturica os insere não são isentos da dor, do fracasso, da morte e da perda, aliás, de toda a sorte de atrocidades que fatalmente podem acontecer.
Na incomum gramática cinematográfica de Kusturica, todos esses revezes são parte do ciclo de transformações da vida.
O jovem Perhan nutre sonhos, como todos os jovens de sua idade, aliás, nos quais se vê casado com sua amada Azra, e gozando de riqueza (que ele não tem) e de respeito (que ele tem menos ainda!) em sua aldeia nos arredores de Sarajevo.
A fim de obter tudo o que lhe falta, ele é convencido por um conhecido, Ahmed, a embarcar numa viagem rumo à Itália, ao lado da irmã menor. Mas, absolutamente nada sairá como o previsto, e Perhan descobrirá que envolveu-se numa tremenda encrenca.

Em todos os trabalhos de Kusturica, a vida se expressa de maneiras enigmáticas, subvertendo os percalços para seus protagonistas e, muitas vezes, para o expectador. Nem sempre ele encontra harmonia entre esse delírio poético e esse realismo tangível, mas em “Vida Cigana” ele alcança uma grandeza cinematográfica que raros diretores almejam.