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sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

Trocando As Bolas


 Os trabalhos assinados pelo diretor John Landis se beneficiaram muito do terreno propício à comédia que certos valores culturais dos anos 1980 fomentaram; prova disso é que a qualidade de suas realizações decaiu quando chegaram os anos 1990, bem mais cínicos. “Trocando As Bolas” foi um grande sucesso –embora não tenha entrado no subconsciente da cultura pop como o cultIrmãos Cara-de-Pau” –e é indicativo do estilo minucioso (ainda que ligeiramente convencional) de Landis para construir humor; e em contrapartida, é também um exemplo do quão frutífera era sua capacidade para moldar cenas memoráveis.

Em sua premissa, “Trocando As Bolas” pode soar improvável, até mesmo simplista (características que definem diversos sucessos dos anos 1980), mas a soma de suas partes garante uma qualidade que vai além de sua estranha ingenuidade: O filme basicamente gira em torno de uma aposta, perpetrada por dois velhotes milionários, na qual acreditam que serão capazes de mudar a índole de duas pessoas completamente distintas desde que se mude também o ambiente em que vivem. Essas duas pessoas veem a ser Louis Winthorpe III (Dan Akroyd, que trabalhou com Landis em “Irmãos Cara-de-Pau”) e Billy Ray Valentine (Eddie Murphy, que trabalhou com Landis em “Um Príncipe Em Nova York”).

Winthorpe é ricaço, nascido em berço de ouro e, como tal, é esnobe, vaidosamente articulado, elitista e arrogante. Valentine é pobre, criado nas ruas e vive na base da própria malandragem –começa o filme, por exemplo, se fazendo passar por mendigo aleijado (!).

São a dupla de milionários Duque Randolph e Duque Mortimer (os veteranos Ralph Bellamy e Don Ameche) quem engendram a aposta que mudará drasticamente a vida dos dois: Eles arremessam Winthorpe na pobreza (sabotam sua credibilidade junto ao círculo social, congelam suas finanças, o incriminam de roubo, tiram suas posses, incluindo sua moradia, e o levam até a perder o noivado arranjado); e pegam Valentine (tirado diretamente da cadeia!), e o colocam em seu lugar. Uma vez limpo, bem vestido, posto para morar numa mansão de luxo (assessorada pelo mordomo vivido por Denhol Elliot, de “Caçadores da Arca Perdida”) e incluído no quadro de funcionários de classe alta da empresa de compra e venda de ações dos Duque, Valentine passa pela metamorfose que eles tanto mencionaram: Abandona o linguajar chulo, abre mão do comportamento que antes o definia e chega até a expulsar vários conhecidos da ralé de uma festa (regada à muita nudez!) em sua mansão. De sua parte, Winthorpe –que só não sucumbe totalmente graças ao auxílio da garota de programa interpretada pela maravilhosa Jamie Lee Curtis –adquire hábitos mais desesperados e questionáveis (enche os bolsos de comida em uma festa de grã-finos onde ele entra trajado de Papai Noel!).

Vale destacar que os dois atores principais estão ótimos, cada um à sua maneira: Eddie Murphy compõe sem qualquer histrionismo (do qual muitos críticos achavam que ele não era capaz de se desvencilhar) e com muita solidez e dignidade a conversão de Valentinde, de um homem mundano, suburbano e cheio de lábia em alguém refinado, sofisticado e adequado à classe alta; enquanto que a transformação de Dan Akroid é outra: Seu personagem vai de um cara mimado e blassé para alguém mais razoável e sofrido, por quem o público já consegue torcer.

É assim que, ao constatarem a armação amoral na qual ambos caíram, Winthorpe e Valentine, já no divertido terceiro terço do filme irão à forra, e tentarão voltar os planos sem qualquer empatia dos Duque contra eles mesmos. Nesse processo, o filme de Landis consegue encaixar uma série de momentos absolutamente icônicos dentro das emblemáticas obras da década de 1980. Cito dois deles, dentre os muitos: A cena inebriante e fenomenal de nudez da deliciosa Jamie Lee Curtis (a única em toda sua carreira, fazendo a loucura dos fanáticos por filmes de terror que ansiaram, sem sucesso, que ela fizesse uma cena assim em algum dos filmes que deram a ela a fama de “rainha do grito”), e a participação rápida, essencial para a trama e, no mínimo, inusitada de Jim Belushi, fantasiado de gorila (!).

No auto-centrado e rabugento cinema realizado atualmente, a premissa de “Trocando As Bolas” seria  insustentável até mesmo para uma animação, mas nos anos 1980, foi capaz de render um de seus mais hilariantes produtos comerciais.

quarta-feira, 24 de novembro de 2021

Um Príncipe Em Nova York


 Talvez seja redundante comentar, mas na década de 1980, havia uma premissa básica (na verdade, haviam várias!) na qual um príncipe disfarçado procurava na plebe um amor que não tivesse interesse por sua fortuna e realeza; essa premissa apareceu em vários desenhos animados e séries descompromissadas daquele período, mas foi realmente aproveitada pelo astro Eddie Murphy para construir um dos grandes sucessos de sua carreira.

Com efeito, é de se concluir que o amplo êxito de “Um Príncipe Em Nova York” se deve pela experiência em comédia do diretor John Landis (que fez com Murphy o hilariante “Trocando As Bolas”), e certamente pela versatilidade extraordinária (aliada a um inquestionável carisma) de Eddie Murphy que aproveita o filme para incorporar não só o protagonista, mas um sem-fim de personagens aleatórios que surgem em cena –recurso que muitos expectadores sequer devem ter notado tal é a perícia com que ele emprega seu brilhantismo de caracterização –algo que ele tornou constante em muitos de seus filmes. Mas, já chegamos lá...

Príncipe adorado, paparicado e, em grande medida, sufocado (!), do reino africano de Zamunda, Akeen (Eddie Murphy) dá um basta às circunstâncias autômatas de sua vida doméstica –ele nem mesmo escova os dentes ou amarra os próprios cadarços, tarefas designadas integralmente ao batalhão de serviçais que lhe cercam –às vésperas de seu casamento, cuja noiva, para variar, é uma jovem treinada e orientada, desde pequena, a lhe servir e... paparicar.

Akeen, indo na contramão dos anseios de seu pai, o rei (vivido pelo de fato majestoso James Earl Jones), quer usufruir do mundo e da vida sem o filtro de regalias que veem com a realeza, e quer, acima de tudo, encontrar em sua cara-metade, uma mulher que se imponha como sua igual, que o ame por aquilo que ele é –e à qual ele experimente algum esforço em conquistar.

Para tanto, Akeen segue para os EUA, Nova York, onde o nome de um bairro específico (Queens, no inglês, “Rainhas”!) lhe inspira possibilidades auspiciosas.

Lá, Akeen se disfarça de plebeu –para desespero de seu acompanhante Semmi (Arsenio Hall, hilário) que se ressente de não mais viver no luxo –e arruma emprego no restaurante do materialista Sr. McDowell (e não McDonalds!) interpretado pelo veterano John Amos, de “Sweet Sweetback Badasssss Song”. É pela filha dele, a idealista e verdadeiramente cativante Lisa (Shari Hadley, de “O Rei da Paquera”), quem Akeen irá cair de amores. O que, em outras palavras, significa: Não revelar, de forma alguma para ela, que trata-se de um príncipe, e sim, conquistá-la valendo-se de seu charme e suas boas intenções.

A década de 1980 em geral –e certas facetas de seu cinema em particular –municiava-se desse conceito plenamente identificável: O protagonista que é mais que aparenta, mas deve esconder essas vantagens de seu objeto do desejo enquanto vê mentirosos, dissimulados e aproveitadores fazerem exatamente o oposto –aqui, esse tipo de antagonista surge vivido por Eriq La Salle, da série “Plantão Médico”.

É daí, desse conceito, que o filme hábil de Landis extrai tanto seu atrativo quanto seu humor, centrado quase que exclusivamente em Eddie Murphy. Ou talvez não: Na persona sólida, bem-intencionada e lívida de Akeen, Murphy se permite ser um protagonista nos moldes de um Charles Chaplin: Um afigura icônica em torno da qual as confusões acontecem, não necessariamente deflagradas por ele.

Assim o pulo do gato de Murphy é demonstrar seu talento incorporando (junto do próprio Arsenio Hall, também ele um comediante genial) vários outros personagens: Repare nas cenas ocorridas na barbearia –o truque da alternância dos ângulos de câmera permite que Arsenio e Murphy se multipliquem em quatro ou cinco personagens completamente diferentes na mesma cena –ou na igreja –onde Arsenio é um pastor assolado por um entusiasmo incabível e Murphy faz um cantor gospel ligeiramente libidinoso. São momentos que denunciam a insuspeita versatilidade e o fulgurante talento interpretativo de Murphy –qualidades que, como tantos outros astros atrelados a um desempenho específico, a sua carreira de sucesso permitiu que poucas vezes ele pudesse demonstrar.

“Um Príncipe em Nova York” é um dos mais bem-sucedidos contos românticos e cômicos dos anos 1980 na sua perfeita mistura de encanto e humor com a qual narrou sua trama pontuada de improbabilidades farsescas típicas da época a que pertence.

quarta-feira, 19 de maio de 2021

Os Irmãos Cara-de-Pau


 Não é nada difícil de entender as razões que transformaram “The Blues Brothers”, de John Landis, em um cult-movie: Irrequieto e dançante do início ao fim, o filme consegue um raro equilíbrio entre o ritmo eletrizante, os sucessivos desdobramentos episódicos que acompanham os protagonistas (e que os emolduram com uma aura inspirada e inconsequente de desenho animado) e um humor fervilhante e irresistível, dos mais bem administrados dos anos 1980.

O filme narra a epopéia caótica, musical e hilária dos Irmãos Blues, o rechonchudo Jake (o irreverente John Belushi),recém-saído da cadeia onde esteve por cinco anos, e o magrelo Elwood (Dan Akroyd, ligeiramente abobado). Crescidos num orfanato, os dois, outrora músicos que viviam e respiravam jazz, têm o estiloso hábito de usar ternos pretos e óculos escuros em todas (e até nas mais inadequadas!) ocasiões; maneirismo emprestado de seu grande ídolo, o zelador Curtis (Cab Calloway, a primeira de inúmeras participações especialíssimas que virão). Jake e Elwood tomam para si o objetivo de quitar os impostos pendentes do orfanato em que cresceram impedindo sua demolição. A inspiração vem num culto regido pelo reverendo personificado por James Brown: Reunir sua antiga banda e juntar dinheiro honesto o suficiente –uma vez que a freira que os criou (vivida com singular aura messiânica por Kathleen Freeman) os proibiu de obter dinheiro ilicitamente. Dessa maneira, os Irmãos Blues procuram, um a um, os integrantes de seu famoso conjunto, o ‘Blues Brothers’ –incluindo seu trompetista (Tom Malone), agora um maitrê num restaurante chique onde eles aprontam poucas e boas; e seu guitarrista (Matt Murphy), agora cozinheiro numa lanchonete a serviço da esposa (Aretha Franklyn, num dos grandes momentos do filme). Ah, e eles também param numa loja de instrumentos musicais, gerenciada por ninguém mais, ninguém menos do que Ray Charles!

Nesse percurso, Jake e Elwood são perseguidos pela misteriosa ex-noiva de Jake (Carrie Fisher, num papel extremamente cartunesco e que demora a se esclarecer) que munida de bazucas (!), lança-chamas (!!), metralhadoras (!!!) e outros utensílios, tenta matá-los a toda hora –aquela aura de desenho animado de que falei...

Conforme os planos começam a dar errado (eles não conseguem agentes e, com isso, têm de se apresentar em inferninhos pouco rentáveis), os Irmãos Blues apelam para uma apresentação definitiva num grande anfiteatro, alugado com o ‘auxílio’ de um gangster (Steve Lawrence); todavia, até chegar nesse ponto, a trilha de destruição que os apalermados Blues Brothers vão deixando já colocou em seu encalço toda polícia de Illinois, bem como um grupo de ensandecidos e ridículos neo-nazistas!

Brilhantemente dirigido por John Landis, que jamais deixa que o filme se acomode num estilo simplório ou numa circunstância que reduza a marcha insana de seu roteiro, “Os Irmãos Cara-de-Pau” é quase um tour-de-force, um exemplo virtuosístico de narrativa conduzida num crescendo que leva à seqüência final, uma das perseguições de carro mais destrutivas da história do cinema, quando a afiadíssima dupla central tem poucas horas para chegar à Tesouraria do município de Chicago e saudar todas as dívidas do orfanato –numa missão que eles passam o filme todo dizendo ser de providência divina! –trazendo, ao fim, uma de suas mais sensacionais aparições especiais: Steven Spielberg!

Há pouco nexo no desenvolvimento de seu enredo, ele é povoado de piadas e gags que, no contexto errado, seriam infames e até sem graça (e parece um milagre que todas funcionem brilhantemente até os dias de hoje), e certamente sua realização prescinde de qualquer mensagem subliminar, entretanto, “Os Irmãos Cara-de-Pau” é o raro tipo de obra que resulta muito mais que apenas a soma de suas partes: É um trabalho incomparável, funcional e envolvente (a pífia e tardia continuação, lançada no ano 2000, é um exemplo do quão impossível é repetir sua mágica), encantador em sua primazia cinematográfica, tão assombroso quanto insuperável nas cenas antológicas, divertidas e vertiginosas que enfileira, e um convite eterno e constante ao riso frouxo.

segunda-feira, 19 de outubro de 2020

Oscar - Minha Filha Quer Casar


 A adentrar os anos 1990, a carreira de Sylvester Stallone –assim como a de outros astros de ação dos anos 1980, como Arnold Schwarzenegger ou Bruce Willis –viu-se numa necessidade de reinvenção (afinal, músculos e disposição física não são atributos eternos). E uma das suas primeiras incursões num gênero diferenciado, como a comédia, ocorreu neste divertido e curioso “Oscar-Minha Filha Quer Casar” –lembrado por uns como um hilário passatempo da década de 1990, e por outros como um destoante, e até lamentável, título na filmografia do astro, “Oscar” estranhamente divide opiniões.

Stallone vive o gangster Angelo ‘Snaps’ Provolone que, já na primeira cena, assiste consternado a morte do pai (Kirk Douglas, numa ponta luxuosa); antes de morrer, contudo, ele leva Snaps a fazer uma promessa: Deixar os negócios escusos de lado e virar um homem honesto, dando assim o ponto de partida para as confusões.

Passa-se um mês, e o filme então inicia-se de fato, a transcorrer sua trama de idas e vindas e graciosos mal-entendidos em um único dia: O dia em que Snaps –ou melhor, o Sr. Provolone –haverá de tornar-se um empresário honesto, ao selar, ao meio-dia, um acordo com um grupo de banqueiros em plenos anos 1930.

Entretanto, é nesse dia que todos os problemas acarretados por sua família virão bater a porta de Provolone: A começar por Anthony Rossano (Vincent Spano, ator de alguns filmes dos Irmãos Tavianni), seu desaforado contador que aparece para exigir um aumento considerável de salário (!) e a mão de sua filha em casamento (!).

Entretanto, o que Provolone ainda não sabe –e que descobrirá aos trancos a barrancos ao longo do dia –é que Rossano não se refere à sua filha de fato, Lisa (Marisa Tomei), que realmente está grávida, só que do ex-chofer, Oscar (!), mas à meiga Theresa (Elizabeth Barondes), garota pobre que mentiu ser sua filha.

Como Rossano apropriou-se de uma considerável soma em dinheiro a fim de devolvê-la à Provolone só quando este lhe cedesse a mão da filha em matrimônio, ele não pode dizer-lhe ainda a verdade, e talvez, nem queira: Afinal, a despeito de Theresa e Rossano se amarem, ele precisa providenciar um marido para Lisa, já que Oscar (um personagem que só aparece no final, interpretado pelo roteirista Jim Mulholland, mas sobre quem todos falam e cujas ações movimentam toda a trama) alistou-se no exército.

Durante as confusões que se sucedem na mansão de Provolone, do lado de fora, policiais de tocaia (liderados por Kurtwood Smith) e gangsters rivais (comandados por Richard Romanus) organizam suas próprias investidas contra Snaps, certos de que ele está armando das suas.

Ainda que rocambolesca, a sinopse não dá conta das trapalhadas e do fluxo ininterrupto de gags que se passam ao longo do filme, tornando-o, para aqueles capazes de apreciar a comédia que ele é, um tanto saboroso e engraçado –e o diretor John Landis, além de aproveitar esses desenlaces típicos para ambientar seu filme numa direção de arte primorosa em acabamento cenográfico, pontua sua narrativa com belíssimas e arrojadas participações, como a linda e macarrônica esposa de Provolone (a italiana Ornella Muti), o solícito e perplexo padre local (o veterano Don Ameche), o avoado e prestativo fonoaudiólogo (o ótimo Tim Curry), os hilariantes capangas de Snaps, Aldo (Peter Riegert, de “O Máskara”), indignado com sua ‘promoção’ à mero mordomo, e o engraçadíssimo brutamontes Connie (o sensacional Chazz Palminteri).

O que talvez explique uma certa indisposição com este filme por parte do público, seja justamente a presença nele de seu protagonista, Sylvester Stallone: Embora acha graça genuína em sua participação –o que talvez se deva mais pelo biotipo improvável de Stallone do que por sua interpretação de fato –alguns expectadores certamente esperavam dele o mesmo que ele entregou em todos os seus filmes; e “Oscar”, apesar disso, não traz uma única cena de ação, mostrando, em vez disso, um humor de bases quase teatrais –foi inspirado em uma produção francesa homônima de 1967 escrita por Claude Magnier –com suas entradas e saídas de cena potencializadas em seu humor e em seu ritmo pelo dinamismo da música “O Barbeiro de Sevilha” servindo de elemento instigante da narrativa.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

Os 7 Suspeitos

Caso não tivesse ficado bem claro no comentário sardônico da trilha sonora de John Morris, logo no início, a sucessão de cenas de pura galhofa já deixaria bem claro que o filme dirigido por Jonathan Lynn (o mesmo de “Meu Primo Vinny”) é uma comédia disfarçada de suspense –ou seria um suspense disfarçado de comédia?
Nada nele se leva a sério, e isso se confirma quando compreendemos que esta é uma tentativa descontraída de Lynn e seu co-roteirista, o também diretor John Landis, em adaptar para cima o jogo “Detetive”, amparado na atmosfera dos contos de Agatha Christie.
O ótimo Tim Curry é, ou aparenta ser, o mordomo de uma mansão onde um jantar há de ser realizado numa noite chuvosa.
Quando os convidados começam a chegar, descobrimos que a presença de todos ali obedece um procedimento muito particular: Para simplificar, todos ali estão presentes usando pseudônimos a fim de proteger suas identidades; e todos foram levados àquele lugar porque o mesmo chantagista lhes extorquia dinheiro.
É assim que, além de Wadsworth, o mordomo, conhecemos também Coronel Mustard (Martin Mull), Mrs. Peacock (Eileen Brennan, de “A Última Sessão de Cinema”), Miss Scarlet (Lesley Ann Warren, de “O Estranho”), Prof. Plum (Christopher Loyd), Mrs. White (Madeline Kahn, de “Lua de Papel”) e Mr. Green (Michael McKean, de “1941-Uma Guerra Muito Louca”).
À eles, soma-se também um certo Mr. Boddy –Sr. Corpo (morto) prova de que os roteiristas não tiveram um pingo de sutileza na hora de nomear os personagens –interpretado por Lee Ving que revela-se o próprio chantagista em pessoa. Na sequência da revelação, dentro de uma sala fechada, as luzes se apagam e... um assassinato acontece!
Mr. Boddy é morto, e apenas Wadsworth e os outros seis se encontravam no recinto.
Além deles estão na mansão também a sexy empregada Yvette (Colleen Camp, de “Death Game”) e a cozinheira (Kellye Nakahara). E a certeza de que o assassino é um deles –e deve ser descoberto antes da chegada iminente da polícia.
Assim se desenha a premissa um tanto abilolada desta paródia de suspenses investigativos que, em sua ânsia de fazer graça, não presta muita atenção às motivações bem sedimentadas dos personagens, nem à coerência que poderia nortear suas ações e muito menos à plausibilidade dos acontecimentos que vão ocorrendo: Ao longo da noite, novas mortes se sucedem –Yvette e a cozinheira; um desavisado que bateu à porta à procura de um telefone (Jeffrey Kramer, de “Tubarão”); um policial que também bateu à porta (Bill Henderson, de “Murphy’s Law”); e, por fim, uma improvável moça levando um ‘telegrama falante’ (Jane Wiedlin) (!) –fazendo com que restem, de fato, apenas os sete suspeitos entre as únicas alternativas possíveis para se chegar ao culpado.
Todavia, tão rocambolesco é o corre-corre no roteiro de Lynn e Landis (que nele privilegiam sua especialidade, o humor), tão intensa é sua vontade de surpreender o expectador à qualquer custo e tão absurdas são as guinadas de sua trama de um ponto em diante que o encadeamento das pistas, os objetivos e pretextos sugeridos neste ou naquele personagem já não fazem o menor sentido, e qualquer explicação acabaria esbarrando no inverossímil.
Essa confusão, ao que parece, já estava prevista na gênese da produção, e os realizadores a justificam como a razão de ser do próprio projeto –no qual os atores realmente se comportam com frenético histrionismo.
Em sua versão em DVD, este “Os 7 Suspeitos” tem pelo menos três diferentes finais alternativos; uma prova de que, até o fim, ninguém sabia muito bem aonde toda aquela confusão iria chegar.

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

Inocente Mordida

Existe uma certa contradição na fusão entre o ritmo ágil e divertido e o conceito incontornavelmente macabro de filme de terror presente na premissa do oitentista “Um Lobisomem Americano Em Londres” –ainda assim, tal contradição não se reverteu, no resultado final, em prejuízo para o filme: Tão memorável “Lobisomem Americano” é, e tão bem executadas foram suas facetas técnicas e artísticas que o filme logo tornou-se uma referência inconteste do gênero; além de conquistar um merecido Oscar de Melhor Maquiagem.
Exatos onze anos depois, em 1992, o mesmo diretor John Landis logrou uma realização parecida, desta vez, adentrando o terreno dos filmes de vampiros.
E o resultado de “Inocente Mordida”, embora não guarde a mesma ressonância para com a cultura pop, é igualmente inspirado. Landis prova não ser um diretor restringido aos aspectos banais da comédia ao iniciar seu filme com um travelling de câmera magnífico sobre a cidade de Nova York, e contrapô-lo, no instante seguinte, ao intimismo de um quarto de hotel ocupado pela nudez de sua deliciosa protagonista, Marie, vivida pela pra lá de charmosa Anne Parillaud (a estrela francesa de “Nikita”).
Narrando o filme em off, e por conta disso, expressando com freqüência seus pensamentos, descobrimos logo ali que Marie é uma vampira que tem lá os seus escrúpulos: Em sua rotina noturna de sair à procura de sangue, ela prioriza as pessoas más, aquelas que relativamente merecem morrer.
Certamente, em sua mira está, portanto, o sanguinário gangster Sal Macelli (Robert Loggia, esbaldando-se no papel) que tem ocupado as manchetes de jornais com seu comportamento criminoso e prepotente.
Infiltrado na quadrilha de Macelli está o policial Joe Gennaro (Anthony LaPlagia, de “Annabelle 2”) cuja identidade está por um triz de ser descoberta pelos mafiosos –ou seja, ele tem pouco tempo para incriminar e prender Macelli. Todavia, seus planos são frustrados indiretamente pela própria Marie: Ao atacar, primeiramente, um dos comparsas de Macelli (Chazz Palminteri), Marie acaba revelando Gennaro que é exposto como tira na cena do crime e vira inimigo nº 1 da quadrilha de Macelli.
Marie é uma vampira orientada por regras muito específicas: Procura nunca descuidar-se em seus ataques, por exemplo, nem deixar vestígios, garantindo que suas vítimas aparentem ter morrido de alguma outra razão que não uma mordida de vampiro.
É irônico, portanto, que quando enfim consegue atacar Macelli, ela não consiga finalizar o ato, tendo que fugir às pressas: Porque Macelli, com um arma escondida, conseguiu lhe acertar um tiro, e porque um dos homens dele se achava lá para protegê-lo.
O que se segue então é que Macelli, mais tarde, dentro do próprio necrotério para onde é levado, revive como vampiro, com todas as habilidades, poderes e sede de sangue inerentes às criaturas da noite. Une-se, como se diz, a fome com a vontade de comer: Se Macelli antes já era instável e ameaçador para todos à sua volta, a transformação em vampiro só o potencializa como um vilão de perigo impronunciável; e na consciência dessa nova e poderosa condição, Macelli já quer converter todos os seus subordinados em vampiros também!
Ciente do tremendo deslize que cometeu, Marie corre para consertá-lo; tenta, de todas as maneiras matar Macelli, antes que ele crie mais e mais vampiros. Auxiliando-a (ou, pelo menos, a tentando entender o papel dela nesse tumulto) está Gennaro que, ao longo dos dias e noites nos quais precisam rastrear o mafioso-vampiro, não deixa de ser seduzido pela atraente Marie.
Diferente de “Lobisomem Americano”, aqui, o diretor Landis trabalhava uma categoria de filmes de terror (os vampiros) com uma infinidade muito maior de clássicos a serem abordados, revistos ou reinventados –e para tanto, são inúmeras as cenas em que flagramos personagens assistindo pela TV algumas obras marcantes sobre o tema, como produções da Hammer, com Christopher Lee e Peter Cushing, “Drácula”, de Todd Browning, e muitos outros –o que explica o fato de “Inocente Mordida” não ser hoje assim tão conhecido, ainda que possa tranquilamente constar numa lista dos melhores filmes de vampiro dos anos 1990, ao lado do originalíssimo “O Vício”, de Abel Ferrara.
Seja por seu ritmo vertiginoso e envolvente, seja por seu admirável aparato técnico, por sua protagonista maravilhosa (pouco sabemos de Marie, mas graças ao carisma de Anne Parillaud, torcemos por ela sem pestanejar!) ou pelas pontas vibrantes e divertidas de grandes diretores do gênero como Sam Raimi, Tom Savini, Dario Argento e Frank Oz, o filme de John Landis é uma verdadeira pérola.

quinta-feira, 3 de maio de 2018

Um Lobisomem Americano Em Londres

Certamente haviam territórios ainda inexplorados do gênero de terror nos anos 1980, daí este filme dirigido por John Landis, feito com uma apurada mescla de terror e comédia (a especialidade dele), ser assim tão marcante até os dias de hoje.
Girando em torno do mito do licantropo que tantos interessantes filmes rendeu –e que, de alguma forma, sempre habitou, ao lado do vampirismo, o subconsciente coletivo do público referente ao medo –o filme de Landis começa com dois jovens mochileiros americanos perambulando por algumas aldeias da Inglaterra, David (David Naughton), o protagonista e seu amigo Jack (Griffin Dune, de “Depois de Horas”, de Scorsese). Simpáticos, eles chegam a uma taverna cheia de aldeões mal-humorados, mas, conquistam a afeição dos moradores o suficiente para serem alertados de um perigo que ronda as noites de lua cheia. Julgando aquilo uma mera superstição, os dois seguem viagem noite adentro e são atacados por uma espécie de fera que trucida Jack e deixa David muito machucado.
Enviado para o Hospital Geral em Londres, ele recupera-se e, nesse meio tempo, até mesmo inicia um envolvimento com sua bela enfermeira Alex (Jenny Agutter, maravilhosa).
O calvário de David, no entanto, está apenas por começar: A partir de agora, nas noites de lua cheia, ele sofrerá uma metamorfose acarretada pelo ataque –se tornará um lobisomem; e a seqüência de transformação, capturada em detalhes minuciosos e primorosamente técnicos, é um trabalho virtuosístico que nenhum filme de terror antes dele foi capaz de engendrar. Antes, que fique bem claro: Numa dessas coincidências irônicas que afligem as produções comerciais, foi lançado, naquele mesmo ano, “Grito de Horror”, de Joe Dante, que igualmente trazia lobisomens em seu tema e uma cena de transformação também com pretensões de ser uma referência técnica no gênero.
“Um Lobisomem Americano Em Londres” se sobressai pela qualidade técnica bastante impecável que ostenta ao longo de todo o filme –também as aparições do amigo Jack para o protagonista, depois de morto com o rosto dilacerado, são exemplos notáveis de seu alto critério estético. O único porém, mais facilmente verificável nos dias de hoje do que na época em que foi lançado, é justamente a insistência do diretor Landis em inserir passagens cômicas (algo possivelmente inerente à sua personalidade) que se alternam com a sinistra e dramaticamente contundente circunstância do personagem principal. Por mais que cenas como aquela em que David, na manhã seguinte após sua primeira transformação em lobisomem, usa balões para encobrir sua nudez quando acorda em pleno parque, sejam lembradas como memoráveis pelo público, o resultado final do filme teria sido muito mais antológico se ele apresentasse uma inclinação mais firme e convicta na direção do terror de fato, do que sendo um filme oscilante que de uma cena macabra salta prontamente para um momento engraçadinho.
O mestre Alfred Hitchcock sempre provou –com ocasionais momentos de humor em seus trabalhos –que as intervenções cômicas devem ser econômicas e homeopáticas para que a platéia possa extravasar seu nervosismo, em meio a obras sempre poderosas em sua capacidade de afligir e amedrontar.