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sexta-feira, 28 de agosto de 2026

The Rainbow


 “The Rainbow” é um prelúdio de “Mulheres Apaixonadas” – haja visto seu expositivo título aqui no Brasil, “O Despertar de Uma Mulher Apaixonada” – o que denota as intenções do diretor Ken Russell em regressar ao seu primeiro trabalho, o único pelo qual, em toda sua carreira, ele foi indicado ao Oscar de Melhor Diretor. A verdade é que, quando surgiu, “Mulheres Apaixonadas” foi um estrondo no âmbito cinematográfico. Adaptado de um clássico literário escrito por D.H. Lawrence, o filme ousava materializar cenas a envolver nudez e sexo para transpor para as telas uma obra literária de refinado valor acadêmico e artístico. Era uma ousadia em voga, que refletia um cinema que aparentemente vinha para ficar – naquele mesmo ano concorria na categoria de diretor, com Russell, Robert Altman e sua sátira demolidora da guerra em “M.A.S.H.”, e disputando o prêmio de Melhor Filme estava “Cada Um Vive Como Quer”; um ano antes havia levado o prêmio o transgressor e audacioso “Perdidos Na Noite”, e na disputa de várias categorias estava o inquisitivo “A Noite dos Desesperados”! – moldada por toda uma nova geração de técnicos, artistas e atores alimentados pelo inconformismo.

Ou seja, entre 1969 e 1970, Ken Russell era um entre diversos novos nomes habilidosos que surgiam no panorama cinematográfico mundial dispostos a trazer uma mudança irreversível ao status quo. A diferença entre muitos de seus pares é que, sobre muitos aspectos, a maioria deles sossegou em suas ousadias a medida que consolidavam a carreira como estetas de cinema, enquanto que Russell só fez se tornar ainda mais contundente!

Na esteira de “Mulheres Apaixonadas”, em 1971, ele entregou dois projetos de vibração quase oposta, arriscados em sua intenção, provocativos em seu objetivo: O ferino, ácido e irônico “The Boyfriend-O Namoradinho”, e o avassalador, profano, ultrajante e perturbador “Os Demônios”.

Ficou claro, a partir dali (e os projetos seguintes só trataram de cristalizar isso), que Russell era uma fera indomada e indomável.

No entanto, talvez, lá no fundo, sua vaidade quisesse buscar a possibilidade de fazer as pazes com os prêmios em geral, e com o Oscar em particular, que lá naquele início de carreira ele foi capaz de obter. Daí a realização do prequel “The Rainbow”, em 1989.

Curioso notar que tais filmes – o original e este prequel – encontram Russell em estágios absolutamente distintos da carreira; e isso terá influência direta no resultado final de ambos. “The Rainbow” trazia Russell recém-saído de “A Maldição da Serpente” e “A Última Dança de Salomé”, ambos realizados no ano anterior, 1988, sendo que seu projeto seguinte seria o corrosivo “A Prostituta”.

A trama, curiosamente, não foca em Gudrun a protagonista de “Mulheres Apaixonadas”, mas em sua irmã mais velha, Ursula Brangwen, interpretada, aqui, por Sammi Davis, e no filme de 1969, por Jennie Linden (Sammi, por sinal, conseguiu o papel graças ao seu ótimo desempenho em “A Maldição da Serpente”).

A primeira dos inúmeros filhos do casal Brangwen (Glenda Jackson, que no outro filme ganhou o Oscar de Melhor Atriz vivendo Gudrun, aqui, interpreta a mãe delas), Ursula cresce e, com o aflorar de sua sexualidade, encontra inesperados meios para dar vazão à sua libido durante os últimos anos da Inglaterra Vitoriana, por volta de 1899.

Ela faz amizade com sua professora de natação, Winifred Inger (Amanda Donohoe, também ela presente em “A Maldição da Serpente” e em “Inferno Ou Paraíso”) com quem experimenta seu primeiro interlúdio sexual; com o aspirante a cadete do exército, Anton Skrebensky (Paul McGann, de “Matadores de Vampiras Lésbicas”), ela tem também sua primeira experiência heterossexual!

Ainda confusa com os sentimentos de lubricidade e apego entre Winifred e Anton, Ursula acaba, de certa forma, abandonada pelos dois – Winifred se casa com o irmão do próprio pai por conveniência apesar do inconformismo de suas atitudes; e Anton tão logo se forma parte para lutar nas guerras colonialistas na África do Sul – e decide partir para Londres lecionar numa escola primária na área pobre de East End.

Lá, Ursula se equilibra entre as esquivas do assédio sexual do diretor escolar e os transtornos corriqueiros do desrespeito dos alunos mais abusados. Ursula termina pedindo a demissão quando ambas as circunstâncias começam a se tornarem insustentáveis.

Retornando para a fazenda da família, quando o filme sugere que alguns anos podem ter passado, Ursula reencontra Winifred, e mais tarde, Anton, em situações distintas, longe das pessoas sonhadoras, irreprimíveis e supinas que um dia haviam sido.

Embora essa trajetória de uma mulher buscando sua identidade e sua voz numa sociedade pontuada de armadilhas morais seja consideravelmente mais ameno do que muitos trabalhos que Ken Russell já chegou a entregar, ainda assim,  “The Rainbow” vem carregado de reflexos naturais de suas narrativas audaciosas – o filme não se furta de comentar abertamente sobre questões diretamente sexual a envolver seus personagens e momentos potencialmente violentos e certamente politicamente incorreto não são, de forma alguma evitados.

Contudo, o que persiste é um trabalho feito com paixão e fulgor, um tratado cinematográfico onde a dedicação de um realizador está totalmente empregada do exercício de sua arte a ignorar códigos de conduta e hipocrisias pontuais de sua época ou da época ali retratada – um efetivo que sempre definiu minha particular admiração por Ken Russell.

sábado, 4 de maio de 2024

A Última Dança de Salomé


 Datado de 1988, “A Última Dança de Salomé” é uma das experimentações perpetradas pelo diretor inglês Ken Russell ao longo de sua carreira. Um inconformista nato, Russell sempre almejou unir a arte, e até o intelectualismo em suas mais elitizadas expressões, à um cinema indomado e incontido feito para escandalizar. Não à toa, ele moldou biografias audaciosas, musicais de arroubos intratáveis e produções que dificilmente agradavam público e crítica num primeiro momento. “A Última Dança de Salomé” une referências literárias pouco usuais (a vida de Oscar Wilde e sua controversa versão de “Salomé”) a um formato desafiador, quase vulgar, dentro do qual se expressa um cinema visivelmente apaixonado pelas engrenagens criativas da música e da dança.

Numa noite do ano de 1892, justamente durante das comemorações do Dia de Guy Fawkes (o conspirador da pólvora que serviu de inspiração ao personagem de “V de Vingança”), o escritor Oscar Wilde (Nickolas Grace, de “Tom & Viv” e “Z-A Cidade Perdida”) chega em um bordel de classe alta, levado até lá por seu amante, Lorde Alfred ‘Bosie’ Douglas (Douglas Hodge, de “Operação Red Sparrow”). Em meio à despudorada balbúrdia local, é claro que o anfitrião, o pernicioso cafetão Taylor (Stratford Johns, de “Dançando Com Um Estranho”), junto das demais prostitutas trabalhando nas dependências, com a devida cumplicidade de Bosie, planejam uma grande surpresa: Uma encenação da peça “Salomé”, do próprio Wilde, então banida dos palcos da Inglaterra pelas autoridades vigentes devido ao seu alto teor de controvérsia.

Na peça que se sucede –na qual Bosie interpreta João Batista; Taylor interpreta Heródes; e as prostitutas Lady Alice (Glenda Jackson, atriz assídua nas obras de Russell) e Rose (a estranhamente sensual Imogen Millais-Scott) interpretam respectivamente Herodias e Salomé –acompanhamos a história de origem bíblica na qual João Batista, em função do seu celibato não cede às provocações da insinuante Salomé. Acometida de profundo desdém para com a postura do homem religioso, Salomé impõe um dilema ao rei Heródes, seu padrasto (!), valendo-se do desejo que ele não esconde por ela: Uma dança final e avassaladora, ao fim da qual ela poderá exigir, sem direito à recusa, a cabeça de João Batista numa bandeja!

O desfecho terrível e inapelável de João Batista na peça de Wilde –como de certa forma o desfecho do próprio Wilde, reservado no final inesperado –remete à inevitabilidade trágica de outro grande e polêmico trabalho de Russell, o inquestionavelmente perturbador “Os Demônios”, no qual Russell também conduz seu protagonista às consequências mais extremas acarretadas por quem cede aos seus próprios caprichos.

A medida que a peça clandestina progride, adornada de uma contagiante cacofonia visual recheada de dança flamenca, luzes difusas e decoração meticulosa, a narrativa de Ken Russell flagra instantes aqui e ali dos bastidores, onde vemos um jogo de sedução volátil e ambivalente criando corpo entre o irreprimível Wilde, um dos jovens rapazes da plateia e o próprio (e enciumado) Bosie –e essa justaposição entre os arquétipos desempenhados em seus papéis e a natureza imprevisível de quem esses personagens realmente são na realidade, confere brilhante observação a esta tumultuada farsa de Ken Russell sobre os vícios, as fraqueza, e os desejos humanos, orquestrada com um primor insuspeito, francamente ameaçado de passar despercebido (como aliás aconteceu de fato com este e com muitos outros trabalhos de Russell) por se esconder atrás de uma muralha de despudor e vulgaridade irrestrita.

Destaca-se, nesta realização um tanto incategorizável, as atuações tão memoráveis quanto extravagantes de Stratford Johns e Imogen Millais-Scott, capturados em monólogos cheios de energia e duplo sentido –ainda que, vez ou outra, essa circunstância incontornavelmente teatral possa exacerbar a paciência do expectador –e sua contundente analogia entre o valor intrínseco da arte, a corrupção insidiosa, porém, sedutora da libertinagem e o limiar do repulsivo e do ultrajante nas sensibilidades de uma época assim registrada (certamente o cinema de Russell, não somente este filme aqui, foi grande influência para o “Babilônia”, de Damien Chazelle).

segunda-feira, 5 de abril de 2021

The Boyfriend - O Namoradinho


 Nas obras que realizou, Ken Russell sempre foi como uma fera indomada. Incapaz de se sujeitar a padrões. Inconformista para com as regras convencionais do sistema. Implacável na acidez que demonstrava em relação aos retratos usuais feitos pelo cinema.

Lançando no ano de 1971, “The Boyfriend” tem um intervalo de apenas cinco meses após o horripilante “Os Demônios”, a obra de maior controvérsia em toda a controversa filmografia de Russell. Numa primeira impressão pode-se deduzir que ele resolveu maneirar –não é bem assim...

Adaptado da peça musical, “The Boyfriend”, de Sandy Wilson, lançada em 1954, o filme era um regresso de Russell ao gênero pelo qual ele mais ganhou reconhecimento: As produções musicais de exuberância cênica.

A protagonista Polly –vivida pela modelo, cantora e atriz Twiggy, considerada uma das primeiras supermodelos do mundo –é uma jovem e tímida assistente de palco na Inglaterra dos anos 1920. Envergonhada, irrequieta e prestativa, Polly proporciona um auxílio quase invisível aos egocêntricos integrantes do grupo teatral, que mal dão atenção para ela, ocupados com o próprio umbigo.

Durante um apresentação diurna da peça corriqueira que apresentam –um musical de costumes intitulado “The Boyfriend” –o teatro, no entanto, recebe a visita do diretor de cinema Cecil B. De Thrill (Vladek Sheybal, de “Moscou Contra 007” e “A Dança dos Vampiros”, numa paródia ao lendário cineasta Cecil B. De Mille), que certamente verificará alguns talentos possíveis de serem levados por ele para Hollywood. Contudo, isso se dá no mesmo dia em que a estrela principal, Rita (Glenda Jackson, que fez com Russell “Mulheres Apaixonadas”, pelo qual levou o Oscar de Melhor Atriz), sofreu um acidente e torceu o pé!

No papel de assistente –e quebra-galho geral do teatro –cabe, portanto, à Polly substituir a atriz principal da peça. Ela, que é tímida e acanhada, deve superar as próprias limitações para encarar o papel principal do show –e isso já garante, de pronto, uma série de presepadas iniciais –além de tentar lidar com o amor não correspondido por um dos rapazes do elenco, Tony (Christopher Gable), que não se furta, no decurso da apresentação, em flertar com outras atrizes, ignorante do amor de Polly.

Como se todos esses revezes sentimentais e logísticos não bastassem –capturados com propriedade pela narrativa inquieta, ácida e travessa de Russell –a peça em si converte-se numa indigesta vitrine de egos: Todos os integrantes –exceto a romanticamente desolada Polly –se mostram menos interessados em desempenhar seus papéis e mais em destacar-se perante o ilustre expectador, promovendo números de afetação evidente.

É Ken Russell capturando as facetas destoantes de vaidade, presunção e competitividade no showbuziness de então, enquanto molda, no processo, uma sucessão deslumbrante de apresentações musicais onde compartilha, sem pudores, seu fascínio pelo formato. Diferente do conceito clássico de musical difundido pelo cinema –ainda que ele preserve o rigor técnico, a coreografia bem ensaiada e os requintes de fotografia e direção de arte –Russell permite que sua encenação seja intoxicada por lapsos inerentes ao desleixo do acaso, pequenos erros que agregam o humor já proposto de sua premissa (estamos, afinal, numa tumultuada apresentação matutina) e pelos exageros inevitáveis decorrentes da disputa do elenco por atenção. E nesse sentido, a direção de Russell é salutar na sua ênfase da soberba.

O desfecho é quase esperado: Polly, com sua naturalidade cativante, à medida que se impõe no papel protagonista, chama mais a atenção de Thrill do que todo o esganiçado e espalhafatoso elenco profissional, entretanto, mesmo isso Russell faz questão de subverter. No inesperado gancho de uma paternidade súbita de última hora, e na cena final, romântica ao seu jeito imprevisto, Russell jamais esquece de fugir do óbvio.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

Valentino, O Ídolo, O Homem

Mais polêmico do que nunca, o diretor inglês Ken Russell almejou em “Valentino” conceber uma homenagem ao período áureo do cinema mudo, ao mesmo tempo em que era também uma denúncia de comportamentos nocivos flagrados já nesse período, e um exercício de seu próprio e desafiador cinema, visualmente extravagante, narrativamente inquisitivo e artisticamente indomável.
O filme tem início em 1926, com a avassaladora notícia da morte precoce por apendicite do astro Rudolph Valentino (o bailarino Rudolf Nureyev, ótimo no papel) que leva milhares de fãs estarrecidos às ruas, transformando seu funeral em um caos. Durante a comoção –filmada por Ken Russell com ênfase diabólica na histeria coletiva que retrata –surgem mulheres aflitas que marcaram presença em importantes momentos da vida de Valentino; e que, a enunciarem os flashbacks sistemáticos que contam sua história, fornecem uma estrutura episódica ao roteiro escrito por Mardik Martin e pelo próprio Russell.
A começar por Bianca De Saulles (June Bolton, de “007 Contra O Foguete da Morte”), sofrida esposa de um gangster em Nova York que apaixonou-se por Valentino, ou Rudy, como era chamado, quando era ainda tão somente um italiano radicado nos EUA, funcionário de uma casa noturna cuja proprietária o usava praticamente como cafetão: Sua envolvente habilidade como dançarino e sua sensualidade enfeitiçavam as clientes mais velhas que a ele dedicavam gorjetas generosas.
Farto disso, e já nutrindo o sonho de ir para Los Angeles, Rudy dá um basta, mas seu romance com Bianca não encontra futuro...
Na Costa Leste, Rudy passa a trabalhar num nada promissor número musical ao lado de uma dançarina alcoolatra quando chama a atenção de June Mathis (Felicity Kendal) em sua última e tumultuada apresentação: Quando abandona esse emprego ao mesmo tempo em que se torna amante de uma atriz de cinema (Carol Kane, de “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa”).
Um ano depois, Rudy já está gravando filmes, inicialmente como mero coadjuvante ou, quando muito, no papel de vilão, estereótipo que os mesquinhos e obtusos produtores da época insistiam em lhe impor. Aos poucos, porém, graças à visão de June e da diretora artística Alla Nazimova (Leslie Caron), que lhe enxergam o carisma desigual, ele passa a ganhar cada vez mais protagonismo nas produções hollywoodianas, até sagrar-se como astro absoluto do cinema mudo.
Todavia, a vida de Rudy não encontra qualquer sossego: Casado com a atriz Natasha Rambova (Michelle Philips) por quem se apaixona durante as filmagens de “O Sheik”, ele arruma diversos problemas a começar por sua prisão –quando insistiu em casar-se com Natasha estando ainda em processo de divórcio de sua esposa anterior, o que, no Estado da Califórnia, implica detenção por bigamia.
A noite infernal em que Rudy foi obrigado a passar na cadeia é mostrada por Russell em todas as suas tintas de irreal pesadelo.
Solto apenas na manhã seguinte (por que o estúdio desejava obter publicidade gratuita com o fato), Rudy rompe seu contrato, o que lhe arruma inimigos na indústria –e o obriga a um afastamento de quase dois anos das telas de cinema.
Seu regresso é antecipado graças a uma jogada de marketing de seu amigo e novo empresário George Ullman (Seymour Cassel, de “Death Game”) que o leva, junto de Natasha, a uma série de festejadas apresentações em solo americano. Quando volta a fazer filmes, já usufruindo do status de astro absoluto, Rudy enfrenta certa discriminação no meio artístico, onde vê até mesmo sua masculinidade ser questionada –em parte, devido à forte influência de sua esposa em sua carreira artística; com efeito, Rudy e Natasha terminam se separando.
Mas, como o filme de Russell mostra de maneira jocosa e desconcertante, o preconceito nunca deixa de perseguir Rudy: Por conta disso, quando sua saúde já se achava em processo de debilitação, ele compra uma singular briga com jornalistas que o difamaram em matérias oportunistas. O resultado disso é uma bizarra luta de boxe –duelos seriam proibidos pelas leis americanas! –entre ele e um jornalista outrora campeão de boxe da marinha (!), uma sequência que, não por acaso, ganha ares de circo de horrores.
Realizado com o vigor e o despudor característicos de Ken Russell, esta cinebiografia lança um olhar exagerado sobre algumas passagens bastante tumultuadas da trajetória de Rudolph Valentino, embaralhando verdades e boatos, e evidenciando os elementos que sempre foram caros ao cinema de Russell.
À essa visão irrestrita do excesso (e, por que não, fascinada por ele também), o diretor acrescenta também uma conjectura dramática onde compreende que, se nenhuma tragédia é completa, nenhuma felicidade ou realização é completa também: Os sonhos mais puros e genuínos de Rudy (o de trazer sua mãe da Itália e de montar uma fazenda de laranjas) são aqueles que ele jamais chega a realizar.
Esta criação peculiar da dramaturgia nada usual de Ken Russell transforma Rudolph Valentino numa vítima das engrenagens desumanas e massacrantes do show business em meio a uma trajetória onde o diretor nos convida a observar com certo sadismo suas passagens mais absurdas e espalhafatosas, e termina nos fazendo lamentar o seu amargo fim.

segunda-feira, 4 de novembro de 2019

Homens & Mulheres - Histórias de Sedução

Estruturado num hoje incomum formato episódico, este filme produzido pela TV inglesa no início da década de 1990 adapta três contos de renomados autores norte-americanos por três diferentes diretores (Frederic Raphael, roteirista de “Um Caminho Para Dois” e “De Olhos Bem Fechados”, de Kubrick; o imprevisível e frequentemente controverso Ken Russell; e o renomado Tony Richardson), todas as histórias são ambientadas nos anos 1920, e todas tratam da natureza comiserativa presente nos desenlaces (e desfechos) amorosos, acompanhadas por uma bela trilha sonora que serve de conexão entre os episódios, assinada por Marvin Hamlisch, esbanjando sensibilidade.
O primeiro, “Homem Na Camisa Brooks Brothers”, de Mary McCarthy, trata de um homem (Beau Bridges, irmão de Jeff Bridges) e uma mulher (Elizabeth McGovern) que veem a se conhecer durante uma viagem de trem. Embora ele seja completamente diferente do tipo de homem que ela almejava, o envolvimento acontece. Assinado por Frederic Raphael, em seu único crédito como diretor,  onde ele assume também sua especialidade: O roteiro.
Talvez por isso este segmento tenha tanta solidez e seja tão envolvente quanto niilista em relação aos sentimentos na comparação com o teor passional dos demais.

O segundo, “Penumbra Antes dos Fogos de Artifícios”, de Dorothy Parker (autora retratada em “O Círculo do Vício”, de Alan Rudolph), dirigido por Ken Russell, envolve uma jovem rica (Molly Ringwald) que, apesar de estar apaixonada não consegue acreditar na sinceridade do amor que seu namorado lhe dedica em razão de seu notório passado como conquistador.
Embora ostente a habilidade inconteste de Russell, este episódio sofre ligeiro prejuízo devido ao ator principal, Peter Weller (de “Robocop”, de Paul Verhoeven), cuja interpretação algo fria e distanciada impede a narrativa de atingir seus objetivos.

E o terceiro, “As Colinas Como Elefantes Brancos”, de Ernest Hemingway, realizado por Tony Richardson, acompanha um diálogo entre um escritor (James Woods) e uma jovem rica (Melanie Griffith, absurdamente maravilhosa). Eles são amantes. Ela está grávida dele. Numa parada de trem em plena Espanha, os dois deliberam a possibilidade dela praticar ou não um aborto.
Dentre todos é o episódio que escancara com mais propriedade as dores do coração.
Como é normal em um compêndio de caráter, estilos e realizadores alternados –ainda que amparados no rigor de um mesmo tema –a sucessão de contos é irregular, evidenciando a superioridade de uns e os equívocos de outros, no entanto, são três obras que, cada qual ao seu jeito, valem a conferida.

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Lady Chatterley

Certamente interessou ao diretor inglés Ken Russell o teor escandaloso presente nas obras literárias de D.H. Lawrence, tendo ele adaptado “Mulheres Apaixonadas” e sua prequel “O Despertar de Uma Mulher Apaixonada” –era como se Russell se identifica-se com a insistente postura de Lawrence em chocar seus pares afrontando a moral vigente; com filmes frequentemente desafiadores e controversos (e que por vezes reservaram à sua carreira uma espiral de altos e baixos), a postura de Russell enquanto realizador cinematográfico foi exatamente essa.
Outro indício da relação estreita entre esta obra adaptada com os títulos representativos da carreira e da personalidade de Ken Russell é, aqui, a escalação da bela Joely Richardson como protagonista –ela, que é filha de Vanessa Redgrave, mesma atriz empregada por Russell no horripilante “Os Demônios” no complexo papel de Madre Joana dos Anjos, e irmã da falecida Natasha Richardson, presente por sua vez em “Gothic” como Mary Shelley.
Joely é a jovem Constance, cujo marido, Sir Clifford Chatterley (James Wilby), sofre um acidente que o deixa paralítico.
Embora o amor pelo marido se mantenha, torna-se um fardo para Constance ser jovem e ardente num matrimônio cujas injustiças do destino abreviaram num afeto platônico –numa cena paradoxalmente excitante e melancólica ela exibe seu corpo nu para ele numa ânsia por alguma expressão de desejo que Clifford não possui mais.
E dessa involuntária necessidade carnal surgem as pulsões que a levam até o rude Mellors (Sean Bean), o guarda-caça da mansão, com quem Lady Chatterley passa a ter encontros extraconjugais numa cabana em meio à floresta.
Lá, ela e seu amante experimentam o arrebatamento da paixão física que ela, com seu marido, já não pode almejar –e nessa dinâmica, Russell investiga os reais tópicos de culpa de uma mulher cujo pecado foi deixar-se guiar por instintos inerentes à ela, num aproveitamento em cores quentes de todo o erotismo a que se tem direito (e a nudez de Joely Richardson é um fetiche que ele utiliza e reutiliza sistematicamente), como também na ênfase de contravenção existente numa premissa que se atreve a unir em circunstâncias tão íntimas dois indivíduos de classes sociais tão opostas.
Entretanto, no rumo de tragédia clássica que sabemos ser o cerne da obra, os excessos de Lady Chatterley levam a uma consequência irrevogável –ela engravida! –e esse fato não é apenas a confirmação de seu adultério, como também o ponto de não retorno no qual uma escolha dolorosa e irreversível se fará necessária da parte de Lady Chatterley e de seu marido.
Uma dentre tantas versões que “O Amante de Lady Chatterley” ganhou no cinema, esta de Ken Russell teve sua origem como uma minissérie da BBC de Londres, exibida em quatro episódios no ano de 1993, no entanto, aqui no Brasil e em boa parte do resto do mundo, ela foi lançada nas salas de cinema em uma versão reduzida (cento e dez minutos de duração) que, embora resumisse a trama e seus desdobramentos de ordem melodramática preservava o elemento pelo qual Ken Russell era reconhecido: O escândalo de cunho sexual.

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Crimes de Paixão


Há um registro semelhante na personagem de Kathleen Turner deste filme e na de Teresa Russell em “A Prostituta”, que o mesmo Ken Russell realizou alguns anos depois.
No entanto, ao contrário de Teresa (cuja presença naquele projeto prejudicou sua carreira), Kathleen Turner consegue tirar de letra a sexualidade assumida e escancarada da personagem e ainda cativar o expectador com um carisma genuíno e uma atuação admirável, mesmo que em meio à momentos espinhosos, fruto da compulsiva vontade do diretor em ultrajar.
Três personagens se sobrepõem como os cernes do tortuoso fluxo de caminhos que a trama se presta a cruzar. São eles, o especialista em vigilância, Bob Grady (John Laughlin, de “Quadrilha de Sádicos 2”), cujos transtornos não assumidos no casamento o levam a se dedicar cada vez mais ao trabalho; a prostituta China Blue (Kathleen Turner, esfuziante) que extravasa sua libido e sua insegurança nos programas noturnos para, de dia, sentir-se confortável sendo a séria estilista de moda Joanna Crane (um brilhante comentário humano à parte vem as ser a sucessão de clientes bizarros e diversos que ela atende: Um homem excitado por uma encenação de um discurso de Miss; outro que renega o fato evidente de que requisita o programa para fingir que a estupra; um policial valentão em seus trajes, mas submisso ao masoquismo quando nu e na intimidade do quarto; um casal milionário desejoso de um terceiro parceiro oriundo das ruas, ainda que em repúdio justamente da promiscuidade que representa).
O Terceiro protagonista é o Reverendo Peter Shaive (Anthony Perkins, pleno em sua inquietação histriônica) cujas pregações insanas e instáveis noite afora começam a ter como foco cada vez mais China Blue.
Todos chafurdam numa insatisfação social da qual parecem só conseguir emergir por meio de atos ilícitos: China Blue leva uma vida dupla, e tão opostos são seus extremos quanto são também de uma convicção radical; Bob Grady convive com a infelicidade matrimonial e, ao mesmo tempo, com o deslumbre da vida de solteiro (devido à presença de seu melhor amigo, numa interpretação primorosa de Bruce Davison); e o Reverendo Shaive, apesar do inflamado discurso sobre os pecados morais imputados ao ser humano se acha sempre por perto (atraído até) pelo mundo cão de promiscuidade que almeja condenar –um anjo em teoria, um habitante do inferno na prática.
Insatisfeito com os rumos distantes de seu casamento com Amy (Annie Potts, de “Os Caça-fantasmas”), Grady aceita o trabalho de seguir Joanna Crane –seu patrão desconfia do comportamento excessivamente centrado dela e imagina que ela tem algo a esconder.
E tem. Ao descobrir as atividades noturnas de Joanna como China Blue, Grady não pestaneja em experimentar um programa com ela –numa de inúmeras cenas às quais o diretor Russell acrescenta seu estilo escandaloso e inquisitivo.
Depois de estabelecido um vínculo emocional, Joanna (ou China Blue) passa a representar para Grady um novo caminho a seguir na busca pelo amor e pela plenitude sexual que seu casamento não trouxe. A mesma China Blue significa, aos olhos lunáticos do Reverendo Shaive, uma autenticação para sua missão de purificar a sordidez que ele enxerga nos atos mundanos das ruas –em referências religiosas manifestadas sempre num viés questionador que predominam na ousada filmografia de Ken Russell –e esse curso certamente levará à tensa e perigosa situação construída no trecho final, revelando Shaive tanto como um antagonista potencialmente perigoso, como também o paradoxo de desilusão e contradição que espelha a própria Joanna Crane. E ter o próprio Anthony Perkins de “Psicose” no elenco é uma oportunidade de Russell empregar tal personagem numa sensacional e desconcertante referência, já ao fim, ao conhecido Norman Bates.
O último filme americano do audacioso e sempre incompreendido Ken Russell escancara sua necessidade de uma denúncia feroz da hipocrisia e das aflições domésticas e sociais que acabam levando pessoas normais a trocar a felicidade pela excentricidade.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

A Prostituta

A maneira como Ken Russell assumiu a adaptação de uma peça teatral é tão desconcertante quanto as obras mais ácidas que ele realizou ao longo de sua nada usual carreira.
O foco aqui eram os monólogos carregados de desilusão subversiva e linguajar chocante da personagem principal, uma prostituta das ruas às voltas com as imposições tirânicas de seu cafetão, os vícios sórdidos de seus clientes, o patrulhamento moral e opressivo da polícia e toda sorte de perigos e ameaças da vida noturna.
Sua protagonista é o oposto exato da idealizada personagem principal de “Uma Linda Mulher” –filme que, aos olhos de Ken Russell deve ser dos mais absurdos e pedantes –e, para tanto, seu registro das condições miseráveis das ruas é de uma contundência que incomoda o expectador do início ao fim. Nunca o mau gosto deliberado de seu estilo apareceu tão presente e tão determinante do diferencial de seu autor.
Theresa Russel se entrega a uma personagem polêmica, niilista, controversa e –para prejuízo dela própria –essencialmente apática. Talvez, a peça de David Hines tivesse por objetivo lançar uma luz sobre os detalhes mais perniciosos de parias que vivem e sobrevivem seguindo as regras do mundo cão dos subúrbios, porém o texto não consegue estabelecer qualquer empatia entre o público e a protagonista –e isso nunca foi mesmo o forte de Ken Russell como contador de histórias.
Liz é uma garota de programa. Não é nada burra, ela sabe disso. Mas, ainda assim, as condições desfavoráveis de sua vida a levaram a essa situação. Ela passa as madrugadas nas esquinas e nas sarjetas de Los Angeles, mascando chicletes numa atitude quase de desdém em relação ao resto do mundo. Nada lhe inspira empatia. Aos poucos, enquanto revela um pouco de si mesma em meio aos programas que não dão certo e a outros contratempos, descobrimos através de flashbacks que ela teve um filho, um marido violento e uma série de infortúnios, e que a apatia indiferente (e até adolescente) que ela ostenta diante dos revezes que aparecem são meras máscaras para ocultar sua aflição real.
Não há muito sexo no filme de Russell apesar do tema que tem –embora de um linguajar cru e despojado, a intenção do diretor não é concretizar cenas gratuitas de sexualidade, e esta é só mais uma das facetas pelas quais ele demonstra, neste filme, não querer ir de encontro às expectativas do público.
Isso pode ser uma faca de dois gumes: Na mesma medida em que ele revela coragem na construção da estrutura do filme (e a filmografia de Russell é pontuada por obras corajosas), ele também flerta com a execução de um filme que a toda hora ameaça ser frustrante, ultrajante e degradante –características que não parecem lhe incomodar como realizador, mas que certamente afastaram os expectadores e desagradaram boa parte da crítica que repudiou o filme na época de seu lançamento.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Tommy

Vindo de um amplo esforço que Ken Russell moveu em sua carreira a fim de conciliar, num estilo vibrante, vigoroso e desafiador, o cinema e a música (e cujos exemplares ainda não dei a devida atenção), a adaptação da ópera-rock da banda inglesaThe Who é um dos filmes que define a reputação infame do extravagante diretor Russell, levando essa percepção a se sobrepor à excelência que ele demonstrou em outros trabalhos que ficaram menos conhecidos.
Na obra, conduzida de forma a arrebatar os sentidos do público –e, não raro, deixar nele uma sensação de desconforto e ar rarefeito –Russell leva suas câmeras a acompanhar a singular trajetória do desafortunado garoto Tommy (Roger Daltrey, membro do próprio grupo, cuja falta de experiência como ator serve aos propósitos de Russell) vítima de um trauma –ele flagra a própria mãe (Ann-Margaret) e seu amante (Oliver Reed) assassinando e ocultando o corpo de seu pai (!) e sofre severa recriminação por isso –que o deixa cego, surdo e mudo (!!). A partir daí, a vida quase vegetal de Tommy (que chega a sofrer abuso) contada ao som das irônicas, inquisitivas e constantemente impiedosas canções do The Who toma um rumo inesperado quando ele se torna um improvável campeão de pinball (!!!), derrotando o indignado campeão do mundo, o Mago do Pinball, vivido por Elton John –uma das inúmeras participações especiais de astros da músicas que o filme oferece.
Sua família se torna rica às custas dessa habilidade de Tommy, até que ele consegue, num momento de transcendência, se curar –enquanto que, paralelamente, os excessos da vida milionária proporcionada pelo próprio Tommy, levam sua mãe e seu padrasto à um colapso.
Adulto, Tommy vira então o líder de um culto messiânico e, por algum tempo, mobiliza uma legião de seguidores, até perder tudo e ser abandonado.
Ao som agressivo do rock dos anos 1970, este filme, não obstante ao fato de ser repudiado por algumas platéias que se ressentiram de sua natureza pungente, tornou-se cultuado por fãs que reconheceram a imensa propriedade com que o diretor Ken Russell adaptou o célebre álbum do The Who, preservando-lhe a verve fortemente crítica, a acidez, os violentos e dilacerantes arroubos existenciais, ainda que por vezes continue sendo uma obra desgastante, desconexa e de difícil acessibilidade por parte daqueles expectadores incapazes de abraçar as extravagâncias estéticas, gestuais e sensoriais de seu realizador.

quinta-feira, 14 de julho de 2016

A Maldição da Serpente

Longe de ser o melhor trabalho de Ken Russell, esta curiosa tentativa de criar uma diferenciada vertente do vampirismo é uma boa oportunidade de conferir o diretor inglês exercitando um bom humor que enche de charme a narrativa.
Por vezes me fez lembrar as presepadas de Jess Franco, que sempre valeu-se da maleabilidade do gênero para subverter o conceito dos vampiros, ainda que seja absolutamente injusto estabelecer qualquer comparação entre a metódica transgressão de Russell e os trabalhos do espanhol abilolado.
"A Maldição da Serpente" já começa curioso quando Russell trata de introduzir toda a mitologia criada para sua vampira através de uma música regional: Terror e musical combinados numa narrativa desigual.
A vampira de Russell, Lady Sylvia Marsh (interpretada por Amanda Donohue, cujo papel pedia por uma atriz um pouco mais exuberante) não tem menas relação com morcegos (aos quais vampiros são normalmente associados), e mais com cobras, incluindo as características presas, que soltam um veneno paralisante para suas vítimas.
Em comum com os vampiros convencionais, a vampira concebida por Russell tem uma aversão pelos símbolos religiosos, como visto na cena em que espirra veneno numa cruz, ou nas elipses delirantes onde uma enorme serpente se intromete na crucificação da Cristo: Essa postura diz muito sobre o próprio Russell, visto que cenas de tom semelhante apareceriam também no muito melhor resolvido "Viagens Alucinantes".
A cidadezinha rural inglesa que serve de morada para Lady Sylvia é visitada por um jovem arqueólogo (Peter Capaldi, irreconhecível se lembrarmos somente de sua encarnação envelhecida de "Dr. Who") que muito se interessa pelos fósseis reptilianos que encontra na propriedade pertencente à duas irmãs (uma delas, Sammi Davis, que contracena com Donohue em "O Despertar de Uma Mulher Apaixonada").
Tudo tem relação com uma adoração ancestral por serpentes, que terminou trazendo Lady Sylvia ao lugar. E os subsequentes ataques dela à alguns dos personagens logo despertarão a necessidade de que alguém dê um fim a esse perigo.
A intenção de Russell em explorar de maneira original o conceito do livro de Bram Stoker, ainda que não de todo desperdiçada, rende um trabalho menor, onde o cineasta pareceu aproveitar a chance mais para relaxar mesmo: Embora muito do seu estilo seja plenamente identificável, é curioso perceber que ele fez um filme de terror até leve para os seus padrões, uma vez que muitas são as cenas que oferecem oportunidade para Russell trabalhar os excessos que ele sempre soube manipular tão bem.
As cenas de nudez, por exemplo, são tão breves que quase inexistem, e os momentos sanguinolentos são ainda mais tímidos, o quê é redundante, visto que o gênero de "filme de vampiro" dá margem para a utilização intensa desses elementos, até como seus simbolismos indissociáveis fundamentais. Todavia, este é um raro momento em que Russell parece apenas querer divertir.
O diretor inglês, desta vez, pegou leve. Uma pena...

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Mulheres Apaixonadas

O segundo filme da carreira de Ken Russell foi lançado em 1969, dando à ele sua única indicação ao Oscar de Melhor Diretor. Acabou ganhando o Oscar de Melhor Atriz para Glenda Jackson.
Curioso é que o mesmo Ken Russell realizou, décadas depois, um prequel (ou seja, uma continuação que narra eventos ocorridos anteriormente ao filme original) adaptando, mais uma vez D.H. Lawrence: Trata-se de “O Despertar de Uma Mulher Apaixonada” ou “The Rainbow” (este filme, por sinal, já foi resenhado aqui!). Notem o intuito picareta do título nacional em relacionar os dois filmes...
“The Rainbow”, no caso, centrava-se na personagem de Ursula (interpretada pela jovem Sammi Davis) que aqui, curiosamente, ganha menos protagonismo do que Gudrun, sua outra irmã (curiosamente, Glenda Jackson, a intérprete oscarizada de Gudrun neste filme interpreta a mãe das duas irmãs em “The Rainbow”).
Enfim, a câmera de Russell, menos virtuosa e atrevida do que em trabalhos que vieram depois, acompanha os percalços afetivos das duas irmãs, Gudrun (Jackson, realmente ótima) e Ursula (Jennie Linden, luminosa) que se relacionam, aos trancos e barrancos, com dois rapazes, Gerald (Oliver Reed) e Ruppert (Alan Bates) na Inglaterra em meados da década de 1920.
Acontece que Russell (e certamente a verve do autor Lawrence já proveniente da obra literária que o diretor trata de potencializar) tem interesse em focar nos aspectos díspares que surgem dessas relações a despeito das convenções sociais que pesavam (não raro, com opressão esmagadora) sobre todos, em especial, a tensão homoerótica que pulsa entre os dois amigos, Geral e Ruppert: Muito famosa é a cena em que os dois atores encenam uma espécie de luta romana, ambos completamente nus, diante das chamas de uma lareira.
Como sempre foi inerente à sua postura, Russell desfralda de maneira incisiva o véu de pudor de seus personagens à medida que conduz a trama com notável noção de subtexto.

Muitos afirmam ser este daqui o seu melhor filme. Não concordo com isso, nem sob um decreto, mas mesmo assim, ainda representa o fascinante lampejo inicial de um gênio que daria outras grandes e pulsantes contribuições ao cinema, na forma das mais variadas e desconcertantes experiências sensoriais.

sexta-feira, 17 de junho de 2016

O Despertar de Uma Mulher Apaixonada

Alguns diretores não se prendem a gêneros. Veja Ken Russell, por exemplo. O inquieto realizador inglês nunca conseguiu se deter num único gênero, ao contrário de mestres como Alfred Hitchcook ou John Ford que se tornaram, eles próprios, a referência dos gêneros que adotaram.
Russell fazia mais o gênero de Stanley Kubrick: Cada filme seu era de um contraste tão brutal em tema, atmosfera e ambientação ao seu filme anterior, que soava quase como uma contradição. Ou um gesto de rebeldia.
É provável que o gênio criativo de Russell fosse indomável demais para se prender à uma categoria específica; e em sua filmografia, tudo depõe a favor dessa conclusão.
“O Despertar de Uma Mulher Apaixonada” (título nacional pouco explicativo e pouco inspirado para “The Rainbow”) é uma adaptação raivosa de D.H. Lawrence –o tipo de autor clássico que sempre interessou muito à Ken Russel –onde o diretor aplica suas ousadias de forma requintada e subliminar na história enganosamente simples de uma adolescente às voltas com o conceito restrito da imagem da mulher na Inglaterra do fim do século XIX.
O tempo todo, sem que seja possível notar com mais ênfase, Russell está instigando, sugerindo, observando algo que não estaria necessariamente enfocado pela câmera, ou no centro do enquadramento.
Está bem! Algumas coisas têm mais ênfase, sim: Não tarda muito para a jovem protagonista Ursula (a inglesinha Sammi Davis que fez a divertida irmã mais velha do garotinho de “Esperança e Glória”) ceder à sedução de sua professora de natação (Amanda Donohoe, ambas, aliás, tornaram a trabalhar com Russell em “A Maldição da Serpente”), fazendo com que a câmera do diretor aproveite para deleitar-se com as belas cenas de nudez das duas atrizes.
Logo fica claro o fascínio de Russel pelo comportamento audacioso e pouco usual da personagem principal: Após essa relação com outra mulher, ela se entregará a um soldado, antes de casar-se, numa atitude bastante alarmante para a sociedade da época.

Ainda que colhendo os frutos indesejados de seu comportamento, ela busca encontrar uma condição mais satisfatória do que aquela a qual aparentemente ela estava destinada.

quinta-feira, 9 de junho de 2016

Viagens Alucinantes

Uma ficção científica de Ken Russell. Isso já é o bastante para atiçar a curiosidade que qualquer cinéfilo para com esta obra, mas (como é de praxe no fervilhante cinema de Russell) ela guarda muito mais.
William Hurt é Eddie Jessup, jovem cientista que acredita ser capaz de vislumbrar, por meio de uma brutal experiência de regressão, as origens primitivas do ser humano, ou talvez até da própria vida terrestre.
Os anos passam com ele alimentando essa obsessão à medida que sua relação com a namorada Emily (a bela e ruiva Blair Brown) se converte em casamento.
Usando de uma série de técnicas misturadas (hipnose, ingestão de alucinógenos e imersão num tanque de água), Jessup obtém um resultado inesperado, que ameaça transformá-lo definitivamente numa versão primitiva de ser humano, e daí em algo ainda mais retrógado, pondo em risco tudo o que conquistou na vida.
Só mesmo Ken Russell e sua visão peculiar sobre o mundo e o cinema seriam capazes de materializar em película uma trama aparentemente infilmável como esta. Em suas mãos, o roteiro exótico e esotérico de Paddy Chayefsky, resulta num espetáculo intrigante e único que discute as regiões fronteiriças e nebulosas entre a religião e a ciência, e lança um olhar sobre a imponderável busca pela origem de nossa humanidade.
William Hurt, em sua estréia no cinema, se sai magnificamente bem ao personificar as facetas complexas da obsessão, assim como são também magníficas a trilha sonora de John Corigliano e a direção de fotografia de Jordan Cronenweth (de “Blade Runner”, queria o quê?!), mas todos esses fatores apenas emolduram a técnica singular com a qual Ken Russell expõe as inquietações pessoais, filosóficas, científicas e metafísicas do ser humano.

Um dos grandes filmes de ficção científica do cinema. E um dos mais desconhecidos também...

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Os Demônios

Ken Russell desafia o expectador a esboçar um gesto de compreensão para com seu filme (talvez, o mais impactante e perturbador dentre todas as obras tão infames que ele concebeu), para com a história obscura e aflitivamente real que ele conta, e as implicações à que ela se presta.
Sim, pois “Os Demônios” não é um trabalho que busca o choque por sua simples razão de ser, não é sensacionalista, nem gratuito (embora, por vezes, pareça!).
O diretor inglês nos transporta para a França de 1604, mais precisamente a cidade de Loudun, onde a ideologia do padre Urbain Grandier (Oliver Reed, excelente) bate de frente com as intenções da coroa: Loudun foi praticamente a última grande cidade francesa a preservar suas fortificações –muros imensos e sólidos que os protegiam das hostilidades exteriores –o quê a tornava uma fortaleza que a protegia, inclusive, de uma eventual intervenção feita pelo regime católico adotado pela própria monarquia. A situação de Loudun era incomum; seu governador havia falecido, e o padre Grandier, respeitado e proeminente na região, tomou provisoriamente seu lugar até que um novo governador fosse indicado pelo povo. Até lá, Grandier não pretendia ceder às exigências da coroa que, sob pressão dos inquisidores, ordenava a destruição das fortificações de Loudun.
Um impasse político se formava. A saída para essa questão foi encontrada da maneira mais sórdida e covarde: A partir do pouquíssimo confiável depoimento da madre-superiora do convento local (Vanessa Redgrave, num papel tão perturbador quanto magistral), suspeita de sofrer possessões demoníacas incitadas pelo próprio padre Grandier, os inquisidores encontram pretexto para mover um julgamento. Na verdade, tais possessões eram surtos ligeiramente psicóticos provocados por seu desejo sexual por ele, e amplificados por uma profunda mescla de superstição e ignorância, o quê, inclusive, acaba influenciando também as outras freiras do convento, dando progressão a um surto generalizado de loucura –e o diretor Ken Russell joga por terra a idéia, difundida em outros filmes, de que membros do clérigo (madre, sacerdotes e freiras em geral) sejam pessoas altruítas, imaculadas e angelicais. Na verdade, como bem explora esta brilhante e exasperante observação acerca da Inquisição, os indivíduos enviados para os conventos eram normalmente os párias das famílias, aqueles e aquelas dos quais os pais muitas vezes queriam se livrar. O quê tornava sua crença, assim, um terreno fértil para a histeria coletiva.
Esse mote serve para Russell elaborar algumas das mais atrozes cenas que o cinema já permitiu, surgindo materializadas em tom quase inacreditável na segunda metade da obra, dando vazão a imagens francamente profanas que dificilmente abandonarão a memória do expectador. “Os Demônios” para se ter uma idéia, é uma das inspirações de Willian Friedkin para realizar “O Exorcista”.
Dentro da convicção de seu estilo e de sua muito bem embasada crítica aos dogmas religiosos que engessam a reflexão, Russell leva a mordacidade a níveis inexplorados.

quarta-feira, 23 de março de 2016

Gothic

O quê o diretor inglês Ken Russel faz é puro cinema, na sua mais engajada necessidade de transgredir, e em sua exuberante convicção, sua arte não pode e não deve se prender às amarras de bom comportamento.
É dessa maneira, consciente de quem esse diretor controverso é (já vi “A Prostituta” e preparo o espírito para encarar o famigerado “Os Demônios”), que chego à este “Gothic”, certamente um dos trabalhos dele que mais gostei. Mas ele não é, de maneira nenhuma, para todos os públicos. É difícil, denso e provocativo, em níveis que um expectador de cinema normal definitivamente não está habituado.
Numa noite, em 1816, o poeta Lord Byron recepcionou o também poeta Percy Shelley, sua noiva Mary e sua cunhada Claire, além do amigo Dr. John Polidori.
Incitados pela verve niilista e desafiadora de Byron, os convidados mergulham numa jornada pavorosa e alucinógena noite adentro.
Como é habitual ao seu estilo e personalidade, o diretor Ken Russel cria um delirante espetáculo de terror ao reconstituir um episódio real, do qual teria surgido a inspiração para os clássicos literários “O Vampiro” de Polidori e, especialmente, “Frankenstein” de Mary Shelley. Os atores, seguindo uma orientação comum nos filmes de Russel, oscilam entre uma compenetração comedida e louvável e uma entrega visceral e desconcertante (e o mais particularmente empenhado nesse objetivo é Gabriel Byrne). Os momentos de pesadelo, sublinhados pela intrusiva trilha sonora, vão se intensificando numa progressão incontornavelmente perturbadora, culminando na seqüência final, de pleno delírio, intercalada pelas mais intensas rimas visuais que Russel já orquestrou.
Contra ele, pode-se dizer que as extravagâncias de Ken Russel são de gosto duvidoso (embora “Gothic”, apesar de tudo isso, continue um filme fascinante), a favor dele, pode-se dizer que é impossível ficar indiferente aos projetos que escolhe.