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quinta-feira, 21 de abril de 2016

Barba Negra

Antes de se tornar a estrela que é, a sensacional Jessica Chastain participou desta produção televisiva que, de tão risível, chega até a ser divertida.
Existe certa gratificação nesse ato de escavar filmes desconhecidos de atores ou atrizes que se tornam conhecidos e admirados.
Datada de 2006, esta minissérie tentou pegar carona no sucesso de "Piratas do Caribe-A Maldição do Pérola Negra" (de 2003) que, de tão estrondoso, quase fez ressurgir o gênero "filmes de pirata". Muitas foram as produções picaretas que valeram-se do mesmo mote, a mesma ambientação e o mesmo estilo para capitalizar em cima do sucesso de Jack Sparrow, e esta 'pérola' (com o perdão do trocadilho) foi um delas.
A personagem de Jessica, inclusive, lembra muito a de Keira Knightley no primeiro filme: A mocinha em perigo, filha de um importante figurão da região, que cai de amores pelo herói da trama, e se vê sempre em perigo para que ele possa providencialmente salvá-la.
Jessica é, aliás, o único elemento do filme que consegue superar "Piratas do Caribe": Desde aquela época já era visível a sua capacidade de hipnotizar a câmera com sua presença magnética, seu talento fora do comum e sua beleza desigual, colocando no chinelo a mocinha de Keira Knightley.
Mas, Jessica não faz milagres e, tirando ela, todo o resto do filme é digno de pena...
Tudo começa quando um jovem oficial da marinha (Mark Umbers, inexpressivo feito o Steve Segal!) no século XVIII escolta a jovem filha de um governador (Jessica, sempre linda e cativante) até sua ilha-natal, e no caminho, os dois se apaixonam. Acontece que o local esta na mira do notório pirata Edward Teach, vulgo Barba Negra (Angus MacFadyen, de "Coração Valente", numa das interpretações mais insanamente canastronas da história da Humanidade), que possui um certo conchavo com o corrupto senhor governador, pai da mocinha (Richard Chamberlain, mais perdido que cego em tiroteio), o que servirá como um obstáculo entre o romance dos dois.
Pelo menos há uma certa paixão em "Barba Negra": Todos os clichês e cenas batidas do gênero estão lá, representados de forma potente em um ou outro momento, para nos lembrar que aquilo é um "filme de pirata". E em meio à muita algazarra mal filmada e mal dirigida, dá para encontrar ali, no meio daquela lambança o ator Nigel Tery, que em outros tempos melhores que este, foi o Rei Arthur, na primorosa versão da lenda dirigida por John Boorman, "Excalibur". Mas tudo é tão precário, tão fuleiro que muitas são as cenas em que você não acredita no que está vendo.
Um exemplo? Logo, no início, há uma cena de dança, na qual Jessica e o ilustríssimo protagonista Umbers conversam enquanto dançam. E o negócio é assim: Em uma cena como essa, durante a filmagem, os atores encenam a dança sem música, para que o equipamento de áudio possa captar todo o diálogo sem nada atrapalhando; a música só é inserida na cena durante a pós-produção. Acontece que, neste caso, eles esqueceram de inserir qualquer música!!! Os atores dançam, os figurantes ao redor deles dançam, e até uma banda de músicos aparece fazendo de conta que tocam alguma coisa, mas não há o menor ruído de música na cena inteira!!! É um silêncio estranho que deixa tudo com um clima surreal e patético.
Há outro momento, mais próximo do fim, em que uns piratas são alvejados numa ilha por dardos venenosos dos indígenas (entendeu o quê eu quis dizer com "cenas batidas"?). Um dos piratas estica a mão para tirar o dardo encravado no pescoço de um dos cadáveres, e ao tentar removê-lo, toda a maquiagem do ferimento começa a desgrudar junto com o dardo (!), e aí o que o ator faz? Muito na malandragem, ele usa o dedo polegar e dá um empurradinha para a maquiagem dar uma colada de novo (!!).
A vantagem é que tudo é tão zoado que dá pra assistir o filme na galhofa mesmo, para rir do que acontece, ainda que a boa presença de Jessica Chastain inspire um certo lamento pelo filme não ser melhor.
Ao menos hoje, ela está em produções de qualidade e de prestígio, como ela merece!
Agora, onde será que estão Mark Umbers, Angus MacFadyen e sua turma?...

domingo, 15 de novembro de 2015

Excalibur

Grande mestre, esse John Boorman. Diretor de magistrais trabalhos nos anos 1970 e 1980, como “Amargo Pesadelo” e “Esperança e Glória”, ele é também realizador da melhor (e provavelmente jamais igualada) versão da lenda do Rei Arthur e os cavaleiros da Távola Redonda: “Excalibur”. 
A primeira parte da história, narrada num tom épico que depois serviria aos propósitos narrativos de filmes como “Gladiador” ou “Senhor dos Anéis”, mostra a obsessão de Uther Pendragon (Gabriel Byrne) em tornar-se rei, após obter a fabulosa espada Excalibur, das mãos da Dama do Lago. Ao alcançar seu objetivo, ele apenas troca uma obsessão por outra: Uther deseja Igraine, a esposa do homem que antes foi seu aliado em batalha. Fazendo um pacto com o mago Merlin (Nicol Williamson), e com o demoníaco dragão que lhe fornece poder, Uther tem uma noite fugaz de amor com Igraine enquanto seu marido cai morto no campo de batalha. Mas, Merlin volta, nove meses depois, para cobrar a dívida pelo favor prestado, e seu preço é Arthur, o recém-nascido, fruto daquela mesma noite. Uther arrepende-se do pacto, mas é interceptado por inimigos de seu reino antes de alcançar Merlin. Eles matam Uhter, que antes de cair crava a espada Excalibur em uma pedra, impedindo qualquer de empunhá-la (numa cena fantástica, bem feita, bem filmada, bem dirigida e bem interpretada). 
A trama avança, assim, algumas décadas e, na segunda parte, encontraremos Arthur (Nigel Terry) já rapaz, trabalhando como escudeiro para o filho de seu pai adotivo (Merlin entregou-o para que um camponês o criasse). Acidentalmente, Arthur remove a espada da pedra, tornando-se rei. 
Nos anos por vir ele se apaixonará pela bela Guinevere (Cherie Lunghi), a filha de um de seus maiores aliados, consolidará seu castelo, unificará seu reino, em Camelot, e criará a Távola Redonda, em homenagem à honra que une seus cavaleiros. Mais tarde, Arthur conhecerá Lancelot (Nicholas Clay), nobre cavaleiro cuja honradez em combate irá surpreender o próprio Arthur. Após uma breve contenda, eles tornar-se-ão amigos, porém, numa reviravolta do destino, Lancelot e Guinevere se apaixonarão, traindo Arthur e deixando o reino de Camelot à mercê dos feitiços malignos da vingativa meia-irmã de Arthur, a bruxa Morgana (Helen Mirren). Uma época negra que somente a descoberta do Santo Graal irá dissipar. 
Mesmo a mais elaborada sinopse talvez não dê conta da complexidade à que “Excalibur” consegue chegar. Seus personagens são multifacetados, e isso é maravilhosamente refletido no trabalho minucioso do elenco. Também é digna de aplausos a direção de John Boorman que emprega uma sucessão de decisões brilhantes nesta sua versão tão pessoal da lenda. A primeira delas é certamente a de jamais render-se a uma tendência comercial (na qual, sem dúvida, as cenas de sangue ou de nudez seriam sensivelmente reduzidas, além do conteúdo bastante dramático e trágico da história); a segunda, é adotar o tom ímpar que adotou, o de em princípio, desmistificar a lenda (infligindo reações muito humanas e ambíguas em seus personagens) o quê termina apenas por valorizá-la; e a terceira é finalmente colocar alguns dos mais brilhantes atores britânicos para vivenciá-los, como Hellen Mirren (bonitona pra caramba!) como Morgana, ou Gabriel Byrne com Uther Pendragon, há até mesmo um jovem Liam Neeson e um ainda desconhecido Patrick Stewart (porém a grande presença vem a ser mesmo Nicol Williamson, esplêndido num registro desigual de Merlin). 
Uma das grandes obras de fantasia do cinema.