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sábado, 27 de junho de 2026

Toy Story 5


 A franquia que por razões ora mercadológicas, ora afetivas, nem a Pixar nem a Disney conseguem deixar de lado, está de volta. Isso depois de um desfecho (em “Toy Story 4”) que parecia encerrar em definitivo a história dos brinquedos que ganham vida quando os humanos não estão olhando.

Agora, com o protagonismo transferido de Woody e Buzz Lightyear (que ainda são importantes ao plot, não tenha dúvidas) para a vaqueira Jessie (a exemplo do que já havia sido experimentado com sucesso no curta-metragem “Toy Story de Terror”), encontramos Bonnie, a dona dos brinquedos desde “Toy Story 3”, um pouco mais crescida, com cerca de seus oito anos de idade. Bonnie encontra obstáculos em fazer amigos entre as outras crianças das redondezas por uma razão peculiar: Bonnie é daquelas crianças à moda antiga, ou seja, gosta de brincar com brinquedos, diferente das outras que agora, descoladas, têm todas um tablet para lhes prender a atenção.

É a tecnologia e o chamado tempo de tela (uma pauta que tem preocupado muito os pais e os especialistas) finalmente entrando num assunto de discussão dentro da franquia.

A fim de ajudar Bonnie a socializar, os pais lhe compram um tablet do momento, Lillypad (voz de Greta Lee, de “Vidas Passadas”) que rapidamente captura por inteiro a atenção da criança – outrora sempre a brincar com Jessie e os outros, agora, Bonnie passa as horas do dia vidrada na tela do aplicativo.

É assim que Jessie, Buzz e os demais brinquedos recorrem à Woody, que agora atua como um salvador de brinquedos perdidos ao lado da destemida Betty – cada vez mais e mais brinquedos são deixados de lado por conta do acesso dos pequenos à tecnologia.

Entretanto, a verdadeira saída para resolver os problemas de Bonnie é encontrar para ela uma amiguinha que compartilhe de suas mesmas afinidades – ou seja, que também goste de brincar com brinquedos – e, ao compreender isso instintivamente, Jessie embarca numa jornada que irá leva-la a rever momentos de seu passado traumático (mostrados em “Toy Story 2”) quando foi abandonada por sua primeira criança  quando esta cresceu.

Há ainda uma divertida trama paralela, na qual acompanhamos um grupo numeroso de astronautas de brinquedo, todos da linha de Buzz Lightyear, que despertam quando suas caixas abrem após o naufrágio do contêiner onde todos eram transportados. Tal e qual o Buzz original no primeiro “Toy Story”, todos eles acreditam ser patrulheiros espaciais legítimos (!), e seguem os indícios que creem leva-los até o Comando Estelar – e que acabam fazendo-os cruzar com os protagonistas de modo um tanto engraçado.

Dirigido pelo veterano Andrew Stanton (realizador de “Procurando Nemo” e “Wall-E”), “Toy Story 5” foi um projeto no qual a Pixar não mediu esforços para que se revelasse pertinente e necessário para muito além das questões financeiras (os últimos lançamentos da Pixar e da Disney como um todo andaram deixando a desejar nas bilheterias). Assim, sem demonizar ou vilanizar a tecnologia (afinal, foi a tecnologia quem permitiu a concretização de todas as obras feitas em Computação Gráfica da Pixar Studios), os realizadores expõe as circunstâncias nas quais as telas e os aplicativos parecem, de alguma forma, acelerar o processo de infância dos pequenos, levando-os a se afastar precocemente do mundo imaginativo oferecido pelos brinquedos. Essa reflexão ganha contornos emocionais ainda mais profundos, graças aos seus personagens, conhecidos de longa data do expectador – a franquia “Toy Story”, iniciada em 1995, afinal, evoluiu junto com a Computação Gráfica no cinema, aliás, o seu público infantil cresceu junto com ela. O que nos permite, neste quinto filme, enxergar os personagens de Jessie, Woody e Buzz como alegorias dos próprios pais: Estão sempre próximos às crianças, querem o melhor para elas e sofrem, lá no fundo, ao perceber que crescendo um pouquinho, dia a dia, deixam de ser crianças.

sábado, 22 de junho de 2024

Divertida Mente 2


 Divertida Mente”, o longa de animação tão perfeito da Pixar e que, em geral, servia como exemplo para o argumento da empresa em não se dedicar à realizar continuações e sim criar produções originais; eis que “Divertida Mente” ganha, agora, uma continuação! As razões para isso são menos as decisões de orientação artística de seus normalmente bem-intencionados realizadores e mais a ganância dos tubarões executivos que controlam o dinheiro da empresa e que nela mandam de fato: A Disney (proprietária da Pixar, só pra lembrar) agora tem seu próprio serviço de streaming, o Disney Plus, e a intenção dos executivos é recheá-lo de conteúdo exclusivo para atrair assinantes. E certamente é mais interessante para as campanhas de marketing que esse conteúdo exclusivo traga, de novo e de novo, os personagens já estabelecidos, já conhecidos e oriundos de grandes sucessos de outrora, para novas produções que o público só haverá de encontrar lá.

Assim, eis que os artesões da Pixar tiveram, portanto, que voltar atrás em suas palavras e fazer a continuação que não estava em seus planos. Entretanto, saber de antemão que isso não era previsto torna, em alguns momentos, a apreciação de “Divertida Mente 2” até que admirável: A nova animação flui com uma trama de progressão quase natural para com sua premissa original; é espontânea, criativa e digna; e, tal e qual o anterior, traz uma mensagem valiosa, com lições pertinentes e momentos de genuína emoção, tudo isso, numa voltagem menos intensa que no primeiro filme, é verdade, mas ainda gratificante o suficiente para aplaudirmos a existência desta segunda parte.

Agora um pouco mais crescida que no primeiro filme, a menina Riley está adentrando a adolescência. E tal etapa da vida, é sabido, vem com transformações radicais no modo de ser e de se comportar. Também no interior, essas mudanças se fazem notar: Em sua mente, regida pelas cinco emoções que a Pixar converte em personagens individuais, Alegria (voz de Amy Poehler), Tristeza (voz de Phyllis Smith), Nojinho (voz de Liza Lapira), Raiva (voz de Lewis Black) e Medo (voz de Tony Hale), novidades começam a chegar, na forma de emoções novas que Riley haverá de experimentar nos próximos dias decisivos de sua vida estudantil –são elas a Ansiedade (voz de Maya Hawke), Inveja (voz de Ayo Edebiri), Vergonha (voz de Paul Walter Hauser) e Tédio (voz de Adele Exarchopoulos) –há também uma senhorinha, Nostalgia (voz de June Squibb), sempre censurada pelas demais por chegar prematuramente!

Apaixonada jogadora de hóquei no gelo, Riley parte para uma colônia de treinamento com suas amigas e, nos dias que se seguem, precisa lidar com circunstâncias que desafiam sua maturidade: Suas duas melhores amigas contam que vão, juntas, mudar de escola. O que deixa Riley sentindo-se sozinha, necessitando de novas companhias. Isso a leva a tentar enturmar-se com as garotas mais velhas e mais experientes, o que vem com uma dose a mais de cobrança e de pressão –afinal, não é fácil para uma adolescente insegura e com seu caráter em formação mostrar-se legal e confiante às novas amigas da forma como ela gostaria.

Essa é a trama geral que acompanha “Divertida Mente 2”, porém, sua trama verdadeira, é a que se desenvolve dentro da mente de Riley, a envolver suas emoções, que agem e reagem a partir dos acontecimentos vivenciados por Riley. Para Alegria –a emoção que sempre norteou Riley desde o começo –manter-se fiel às suas convicções (aquelas formadas a partir de valores inocentes de criança) é uma prioridade, mas Alegria, ao refutar toda lembrança de fracasso impede Riley de aprender com seus erros. É essa brecha da qual Ansiedade se aproveita; emoção complexa, nascida a partir do temor de errar e, portanto, irrequieta a ponto de tentar prever incessantemente cada passo iminente, Ansiedade sabe que, com o crescimento, uma nova Riley, menos criança, está surgindo e, para tanto, ela crê que não há mais espaço para suas antigas emoções. E é assim que Alegria, Tristeza, Nojinho, Medo e Raiva são expulsos da cabine de controle da mente. Incapaz de sentir suas emoções originais, resta a Riley a Ansiedade, a Inveja, a Vergonha e o Tédio para tentar lidar com as novas situações com as quais se depara, como a disputa por uma vaga no time de hóquei aos olhos na exigente treinadora (que, pela primeira vez, não a trata feito criança!), o afastamento das antigas amigas (e toda a mágoa implícita que vem com isso), as tentativas perplexas de impressionar as amigas novas, e a árdua tarefa de lidar com suas profundas frustrações quando muitas dessas expectativas não acabam atendidas.

Nesse meio-tempo, Alegria e os outros empreendem toda uma nova jornada –em grande medida, até bem semelhante à do filme original –para tentar encontrar um meio de regressar à torre de comando antes que Ansiedade, na histriônica ilusão de resolver tudo sozinha e por conta própria, ponha tudo a perder.

Embora falte a este segundo filme o impacto, a originalidade e a intensidade de emoções do primeiro (faz falta, por exemplo, um personagem tão comovente e memorável como era Bing Bong), “Divertida Mente 2” ainda assim surpreende, emociona e faz pensar num nível que o torna até mais cativante aos olhos dos adultos que das crianças. E essas são qualidades notáveis que a Pixar, em seus últimos projetos, andou tendo dificuldade de encontrar.

sábado, 2 de dezembro de 2023

Lightyear


 É comum notarmos que alguns dos grandes autores do cinema versam suas vastas filmografias em torno de um mesmo tema –tomamos Woody Allen ou Ingmar Bergman, como exemplos, nos quais as obras vislumbram as neuroses dos relacionamentos modernos (no caso de Allen) ou o vazio existencial da condição humana (no caso de Bergman). A Pixar, claro, não é um autor de cinema, sequer é uma pessoa; ela é, sim, um estúdio de animação hoje um tanto quanto independente dos Estúdios Disney que inicialmente lhe proporcionou a criação de seus aclamados longa-metragens. Contudo, não deixa de haver uma espécie de impressão que une, senão todas, a grande maioria das obras da Pixar num único enredo; pelo menos, os seus mais consagrados exemplares: Um apego tocante ao passado.

Nessa ânsia de, volta e meia, voltar seus olhos ao passado, mesmo que avançando rumo ao futuro, a Pixar deu à luz esta produção lançada em 2022 e que, embora tenha seus méritos, pode ser visto como o início de uma fase descendente da Disney e da Pixar onde suas realizações já não conquistavam o impacto dos áureos tempos.

Os créditos iniciais especificam: Em 1995, a Pixar lançou seu primeiro longa animado, “Toy Story”, a girar em torno da rixa entre dois brinquedos (o astronauta Buzz Lightyear e o cowboy Woody) pela adoração de seu dono, o menino Andy. O boneco, Buzz Lightyear, era por sua vez, inspirado no personagem de um filme que supostamente foi lançado naquele universo, e é esse filme específico que, agora, os artesões da Pixar transformam em realidade. Por isso, nele, Buzz Lightyear surge como um astronauta de carne e osso (dublado, em inglês, por Chris Evans, em português, por Marcos Mion) arremessado nas ironias científicas e metafísicas de uma missão que, de certa forma, lhe cobra a vida inteira (algo que curiosamente remete ao arrebatador “Interestelar”, de Christopher Nolan); e aí, nessas entrelinhas de ordem dramática, notamos o diferencial que transforma a Pixar num estúdio de animação tão singular –pena que tal singularidade foi, com o tempo, desaparecendo em meio à pretensões mercadológicas que dispersaram seu público. E tais lapsos, não se engane, leitor, também começaram aqui...

Ávido por desempenhar a contento seu papel de patrulheiro espacial, o astronauta Buzz Lightyear vê a nave na qual ele e centenas de outros passageiros repousavam em animação suspensa descer num planeta inóspito, povoado de insetos gigantes ameaçadores e plantas carnívoras. Ao tentar escapar de lá, Buzz comete um erro que encalha a nave no lugar e pelo qual ele haverá de culpar-se nos anos seguintes: Uma nova tentativa de partir logo é engendrada, mas, Buzz deve testar o cristal que alimenta o motor e assim ter certeza se ele consegue abastecer a nave para uma nova e profunda empreitada nas estrelas. Contudo, a cada teste, a nave de Buzz executa um percurso através do espaço gravitacional do planeta que, para ele, representa 4 minutos, mas para todos que ele deixou para trás, representam 4 anos (!). Como em sua persistência, Buzz executa dezenas e dezenas de testes, ele vê cada uma as pessoas que conhece –sobretudo, a colega e amiga Alicia Hawthorne –envelhecer e morrer.

Na sua última missão –justamente aquela na qual ele finalmente consegue encontrar a composição correta do cristal que alimenta o motor para empreender o vôo espacial –Buzz regressa ao planeta e descobre que ele foi invadido por robôs ameaçadores, controlados por um misterioso vilão conhecido apenas como Zurg (e as origens reais desse vilão, para além das motivações de natureza cômica e referencial mostradas em “Toy Story 2”, são surpreendentes e reflexivas). Aliado à recruta Izzy Hawthorne (neta de sua falecida amiga), Buzz deve garantir a segurança das pessoas na cidade que formou-se dentro do campo de força da nave durante todas as décadas em que esteve em missão, e assim dar continuidade ao que ele pensa ser seu objetivo de vida.

Ainda que traga aquela melancolia e aquele subtexto emocionante sobre a finitude da vida que sempre impregnou de originalidade as obras da Pixar, tal elemento vem, em “Lightyear”, comprometido por uma certa superficialidade, fruto possivelmente do fato de que seu diretor, Angus MacLane (de “Procurando Dory”) pertence à segunda geração de realizadores do estúdio, e não à primeira, da qual vieram os artistas verdadeiramente insubstituíveis e que assinaram as obras-primas vindas de lá, como Pete Docter, Andrew Stanton (produtores deste longa) e John Lasseter.

terça-feira, 19 de setembro de 2023

Elementos


 A primeira (e até então única) ocasião em que a Pixar resolveu contar uma história de amor, foi em “Wall-E”. É curioso notarmos que um gênero tão comum nas animações tradicionais dos Estúdios Disney –o romance –havia sido tão pouco explorado (evitado até) por sua outra produtora. Agora, a Pixar torna a versar sobre os caminhos tortuosos do amor neste “Elementos” que difere um pouco do que foi feito em “Wall-E”.

Em primeiro lugar, ao contrário de “Wall-E”, em “Elementos” quem assume o protagonismo é a parte feminina do casal central. E em segundo lugar, estão em pauta, na premissa que rege sua narrativa, as predisposições que impedem que os dois personagens principais componham um casal –lá estão os motivos que os separam, muito mais que aqueles que os unem. Imediatamente, podemos supor, com larga chance de acerto, que é “Romeu & Julieta”, de Shakespeare, a grande pedra fundamental na qual este filme se apóia.

Num mundo fantasioso habitado por elementos vivos –o qual os artesões da Pixar têm imenso critério e carinho para conceber –existem os seres constituídos de água, os de madeira, os de ar e os de fogo. São os feitos de fogo, justamente pelo perigo incandescente de seu contato, os mais perigosos e, logo, aqueles vítima de certa discriminação. Chegados como imigrantes à Elemental City (a metrópole que, à maneira desigual desse mundo curioso tenta abarcar todas essas espécies), Brasa e Fagulha são seres de fogo e, no preconceito que experimentam, Brasa encontra um combustível para sua obstinação: Empreendedor, ele haverá de, nos anos seguintes, montar um negócio (um loja de doces) voltado exclusivamente para seus semelhantes tão discriminados. Esse sonho, Brasa cultiva com a própria filha, Faísca, que ao crescer reúne qualidades que a fazem a óbvia sucessora do pai em seu negócio.

Entretanto, seu destino toma novos rumos exatamente na véspera da decisão definitiva de seu pai deixar-lhe a loja nas mãos: Um cano estourado traz até as dependências do estabelecimento, o errático Gota, um ser feito de água como os muitos que habitam a região central da cidade, longe do subúrbio onde Faísca e os seus vivem.

Medroso, burocrata e evasivo, Gota é o retrato de uma geração nascida e crescida em meio à privilégios. Ainda assim, a medida que seu convívio com Faísca se torna necessário –os dois são instruídos a descobrirem juntos a origem da pressão excessiva nos encanamentos, do contrário, a loja da família de Faísca será fechada –Gota vai revelando a ela (e ao público) qualidades inesperadas como cavalheirismo, cumplicidade e empatia.

Para além da ilustração mais óbvia possível de um romance proibido (uma menina feita de fogo e um jovem feito de água!), esta obra cheia de propriedade da Pixar não apenas equilibra maravilhosamente bem as facetas dramáticas (na seriedade das suas emoções; e na candura de seu romance) e as cômicas (o retrato rico em minúcias visuais de um mundo imaginado que funciona dentro de uma lógica interna), como também vale-se da concepção de seus personagens para uma interessante avaliação de índoles que, apesar dos pesares, nunca soa simplista: Faísca é, como se poderia imaginar, explosiva e temperamental, qual o fogo que representa; e Gota, emotivo, transparente e adaptável, tal e qual o elemento de onde se origina –esses subterfúgios deixam sua obviedade de lado quanto atendem aos propósitos bastante em voga nos meios de comunicação de uma releitura do romance moderno, onde a mulher responde pela metade mais proativa do casal.

Situado num meio-termo entre a genialidade inconteste (caso dos brilhantes “Up-Altas Aventuras”, “Toy Story 3”, “Divertida Mente” e “Viva-A Vida É Uma Festa”) e a incapacidade para chegar lá (como o mediano “O Bom Dinossauro” ou a Trilogia “Carros”), “Elementos” é uma obra agradável, simpática e cheia de boas intenções ao refletir com descontração, inspiração e nenhum pedantismo alguns temas de intolerância e choque geracional do mundo de hoje, transfigurados numa contagiante animação para o entendimento das crianças pequenas.

segunda-feira, 15 de março de 2021

Os Indicados Ao Oscar 2021


 As indicações ao Oscar 2021 apontam, acima de tudo, as predisposições atuais da Academia de Artes Cinematográficas, e duas delas se destacam com ênfase: A inclusão e representatividade cada vez mais em voga (refletida nas indicações de “Judas e o Messias Negro” e “Minari” para Melhor Filmes; e de “A Voz Suprema do Blues” em outras categorias) e o advento implacável das obras vindas das plataformas de streaming (que, em função do ano de pandemia, alcançaram números sem precedentes tanto entre os indicados como no número de indicações; sendo o recordista deste ano, “Mank”, de David Fincher, com 10 indicações, oriundo da Netflix).

Eis os indicados:

MELHOR FILME

  • Meu Pai
  • Judas e o Messias Negro
  • Mank
  • Minari
  • Nomadland
  • Bela Vingança
  • O Som do Silêncio
  • Os 7 de Chicago

MELHOR ATOR

  • Riz Ahmed - O Som do Silêncio
  • Chadwick Boseman - A Voz Suprema do Blues
  • Anthony Hopkins - Meu Pai
  • Gary Oldman - Mank
  • Steven Yeun – Minari

Tal e qual Peter Finch (ganhador em 1977), Masimo Troisi (indicado em 1996) e Heath Ledger (ganhador, como coadjuvante, em 2009), foi a vez do falecido Chadwick Boseman ganhar uma indicação póstuma de Melhor Ator, e a comoção de sua partida já o faz favorito ao prêmio, embora seu trabalho seja de fato primordial.

Em outras circunstâncias haveriam chances reais para o surpreendente desempenho de Riz Ahmed (possivelmente o mais impactante dos cinco). No caso de “Mank”, seja o filme como um todo, seja o formidável trabalho de Gary Oldman, a opinião dos críticos tem se dividido, reduzindo suas chances ao mero reconhecimento respeitoso da indicação. Há quem diga que Anthony Hopkins ocupa a vaga que poderia ter sido de Delroy Lindo (por “Destacamento Blood”), agora, espantoso mesmo é ver Steven Yeun (mais conhecido pela série “The Walking Dead”) concorrendo ao prêmio.

MELHOR ATRIZ

  • Viola Davis - A Voz Suprema do Blues
  • Andra Day - The United States vs. Billie Holiday
  • Vanessa Kirby - Pieces of a Woman
  • Frances McDormand - Nomadland
  • Carey Mulligan - Bela Vingança

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE

  • Maria Bakalova - Borat 2
  • Glenn Close - Era uma Vez um Sonho
  • Olivia Colman - Meu Pai
  • Amanda Seyfried - Mank
  • Yuh-Jung Youn – Minari

As duas categorias de atrizes devem movimentar as casas de apostas: Por hora, na categoria principal, tudo está bastante concorrido; Viola Davis se tornou, oficialmente, a atriz negra com mais indicações ao Oscar na história do cinema, mas são as outras quatro que disputam a tapa a estatueta; Frances McDormand é forte e tem o respaldo dos críticos (e do Festival de Veneza), no entanto, vem de uma premiação relativamente recente (em 2018, por “Três Anúncios Para Um Crime”), aumentando as chances das promissoras e fantásticas Vanessa Kirby e Carey Mulligan (a primeira é protagonista de uma obra contundente, dramática e desafiadora, e é dona de minha torcida; a segunda estrela um brilhante conto moral sobre retaliação e emancipação), no caminho das duas, a pouco conhecida Audra Day que traz consigo nada menos que o Globo de Ouro de Melhor Atriz.

Entre as coadjuvantes, chama a atenção a ausência de Jodie Foster, ganhadora do Globo de Ouro da categoria, fortalecendo as chances de Amanda Seyfried ver seu magnífico trabalho em “Mank” ser reconhecido, a despeito das surpresas de Glenn Close (num filme que os críticos não aprovaram com unanimidade) e de Maria Bakalova (com justiça, a grande surpresa da continuação de “Borat”).

MELHOR ATOR COADJUVANTE

  • Sacha Baron Cohen - Os 7 de Chicago
  • Daniel Kaluuya - Judas e o Messias Negro
  • Leslie Odom Jr. - Uma Noite em Miami
  • Paul Raci - O Som do Silêncio
  • Lakeith Stanfield - Judas e o Messias Negro

Curiosa a inclusão de Sacha Baron Cohen e Leslie Odom Jr. entre os coadjuvantes, eles que são praticamente os protagonistas de seus próprios filmes (Baron Cohen chegou a ganhar o Globo de Ouro de Melhor Ator).

Apesar de tudo, parece um caminho tranquilo para Daniel Kaluuya chegar à vitória, ele que compete com o próprio colega de elenco, Lakeith Stanfield.

MELHOR FOTOGRAFIA

  • Judas e o Messias Negro
  • Mank
  • Relatos do Mundo
  • Nomadland
  • Os 7 de Chicago

MELHOR FIGURINO

  • Emma
  • A Voz Suprema do Blues
  • Mank
  • Mulan
  • Pinóquio

MELHOR DIREÇÃO

  • Thomas Vinterberg - Another Round
  • David Fincher - Mank
  • Lee Isaac Chung - Minari
  • Chloé Zhao- Nomadland
  • Emerald Fennell - Bela Vingança

A Academia sinaliza novos paradigmas ao indicar, pela primeira vez, duas mulheres ao prêmio de Melhor Direção, sem falar que uma delas, Chloe Zhao, desponta como favorita.

Seus mais fortes competidores ao longo da tempora de prêmios estão lá –David Fincher e Emerald Fennell –mas a grande (e feliz) surpresa dessa categoria é a inclusão do dinamarquês Thomas Vinterberg.

MELHOR DOCUMENTÁRIO

  • Collective
  • Crip Camp
  • The Mole Agent
  • Professor Polvo
  • Time

MELHOR DOCUMENTÁRIO DE CURTA-METRAGEM

  • Collete
  • A Concerto is a Conversation
  • Do Not Split
  • Hunger Ward
  • A Love Song for Latasha

MELHOR MONTAGEM

  • Meu Pai
  • Nomadland
  • Bela Vingança
  • O Som do Silêncio
  • Os 7 de Chicago

MELHOR FILME INTERNACIONAL

  • Another Round (Dinamarca)
  • Better Days (Hong Kong)
  • Collective (Romênia)
  • The Man Who Sold His Skin (Tunísia)
  • Quo Vadis, Aida? (Bósnia)

MELHOR ANIMAÇÃO

  • Dois Irmãos
  • A Caminho da Lua
  • Shaun, o Carneiro, o Filme-A Fazenda Contra-Ataca
  • Soul
  • Wolfwalkers

Não era muito difícil prever quais seriam as melhores animações do ano, e não é tão difícil prever que deve ser a vencedora: Até aqui, há poucas chances do Oscar negar a vitória ao belo e emocionante “Soul”, da Pixar, apesar dos honoráveis esforços de “Dois Irmãos” (também ele, da Pixar), de “A Caminho da Lua”, da Netflix (que apesar do capricho talvez seja o mais burocrático dos cinco) e dos inteligentes e criativos “Shaun, o Carneiro, o Filme-A Fazenda Contra-Ataca” e “Wolfwalkers” (surpresa mesmo seria a vitória –merecida –de um desses dois!).

MELHOR CABELO E MAQUIAGEM

  • Emma
  • Era uma Vez um Sonho
  • A Voz Suprema do Blues
  • Mank
  • Pinóquio

MELHOR TRILHA SONORA ORIGINAL

  • Terence Blanchard - Destacamento Blood
  • Trent Reznor e Atticus Ross - Mank
  • Emile Mosseri - Minari
  • James Newton Howard - Relatos do Mundo
  • Trent Reznor, Atticus Ross e Jon Batiste - Soul

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL

  • “Fight for You” - Judas e o Messias Negro
  • “Hear my Voice” - Os 7 de Chicago
  • “Husavik” - Festival Eurovision da Canção: A Saga de Sigrit e Lars
  • “Io Sí” - Rosa e Momo
  • “Speak Now” - Uma Noite em Miami

MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO

  • Meu Pai
  • A Voz Suprema do Blues
  • Mank
  • Relatos do Mundo
  • Tenet

MELHOR CURTA DE ANIMAÇÃO

  • Burrow
  • Genius Loci
  • If Anything Happens I Love You
  • Opera
  • Yes-People

MELHOR CURTA-METRAGEM

  • Feeling Through
  • The Letter Room
  • The Present
  • Two Distant Strangers
  • White Eye

MELHOR SOM

  • Greyound
  • Mank
  • Relatos do Mundo
  • Soul
  • O Som do Silêncio

MELHORES EFEITOS VISUAIS

  • Amor e Monstros
  • O Céu da Meia-Noite
  • Mulan
  • O Grande Ivan
  • Tenet

"Tenet", a polêmica obra de Christopher Nolan que ousou desafiar em vão a pandemia, surge na categoria de Efeitos Visuais com uma de suas duas únicas indicações –prova de que o estilo de Nolan já não seduz, nem público, nem crítica como antigamente.

Foram lembradas produções inesperadas como o ótimo “Amor e Monstros”, com Dylan O’Brien (minha aposta!), o pouco acessível “O Céu da Meia-Noite”, de George Clooney, e duas produções da Disney, o claudicante “Mulan” e  o ecológico “O Grande Ivan”.

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO

  • Borat 2
    Meu Pai
    Nomadland
    Uma Noite em Miami
    O Tigre Branco

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL

  • Judas e o Messias Negro
  • Minari
  • Bela Vingança
  • Som do Silêncio
  • Os 7 de Chicago

Os vencedores serão anunciados na noite de 25 de abril, numa cerimônia a ser realizada em circunstâncias bastante similares às do último Globo de Ouro: Onde vários procedimentos diferenciados visam contornar os complicações das normas de pandemia e afastamento social.

Será, no mínimo, curioso de acompanhar.

segunda-feira, 14 de setembro de 2020

Dois Irmãos - Uma Jornada Fantástica

O grande problema de “Dois Irmãos” é a excelência notória de seu estúdio, a Pixar.
Explica-se: Tão habituado seu público cativo ficou, a esperar deles sempre uma obra-prima –de preferência, capaz de arrancar lágrimas insuspeitas do expectador como o fazem sem esforços os maravilhosos “Wall-E”, “Up-Altas Aventuras”, “Divertida Mente” e “Viva-A Vida É Uma Festa” –que quando essa qualidade estratosférica não chega a ser atingida, a impressão que fica é a de decepção, mesmo que até lá seja entregue um trabalho criativo, atrativo e interessante.
Embora traga o primor visual que a cada realização se mostra mais aperfeiçoado e detalhista, e seja em si um entretenimento pleno de diversão, emoção, criatividade e graça, “Dois Irmãos” fica num inédito meio-termo entre os exemplares da Pixar: Está, nos mais diversos quesitos, bem acima de seus títulos mais esquecíveis (como “O Bom Dinossauro”, “Vida de Inseto”, “Carros 1, 2 e 3”, “Universidade de Monstros” e “Procurando Dory”), mas não ombreia a magia de suas diversas obras mais aclamadas (caso de “Procurando Nemo”, “Os Incríveis 1 e 2”, “Monstros S.A.”, “Ratatoille”, “Valente”, todos os “Toy Story” e os mencionados mais acima).
O que não significa, sobremaneira, que não haja muito nele a se apreciar.
Ambientado num mundo de fantasia –como também o era “Monstros S.A.” –“Dois Irmãos” se passa no que seria a era moderna correspondente das histórias do gênero ‘espada & feitiçaria’: Nele existem unicórnios, feiticeiros, dragões, centauros, elfos e toda sorte de criaturas místicas.
Entretanto, a magia ao que parece anda meio fora de moda, substituída pelo recurso mais conveniente da eletricidade (!); elfos e outras criaturas vivem assim numa sociedade onde usufruem de internet, aparelhos celulares e as mais diversas opções tecnológicas, tal e qual os seres humanos da atual vida real.
O protagonista Ian Lighfoot (voz de Tom Holland) é um elfo nascido nessas circunstâncias e, a exemplo de muitos jovens que cresceram rodeados das comodidades da modernidade, ele é inseguro, fato ressaltado por uma certa ausência do pai, que faleceu quando ainda era pequeno.
Dessa forma, sua família se resume ao irmão mais velho Barley (voz de Chris Pratt), um garotão imaturo cuja cabeça avoada está sempre nos jogos de magia e RPG, à sua carinhosa mãe (voz de Julia Louis-Dreyfuss) e, vá lá, seu padrasto, o centauro (!) Colt Bronco (voz de Mel Rodriguez).
No dia de seu aniversário de dezesseis anos, Ian recebe um presente de sua mãe: Uma instrução de seu pai para que pudessem, mesmo após sua morte, passar ao menos um dia inteiro com ele (!); trata-se de um cajado antigo, usado para magia.
Se na mão do irmão Barley, o cajado não surte efeito, na de Ian –que revela uma inesperada aptidão para magia herdada do pai –ele termina por produzir o feitiço que traz de volta o pai. Ao menos, em parte: Somente da cintura para baixo (!).
A ‘pedra-fênix’ usada para tal feitiço não havia sido o suficiente; para ter seu pai por inteiro, matar a saudade e (no caso de Ian) finalmente ter a carência de sua presença preenchida, os irmãos precisam obter uma outra ‘pedra-fênix’ em menos de 24 horas –pois o feitiço prevê apenas esse período para que possam ficar com ele.
Assim, Ian e Barley empreendem uma jornada –cujos avanços correspondem, em parte, aos jogos de tabuleiro e de aventura que parecem querer, muito ao seu jeito, homenagear –que é também uma aventura de descoberta (na qual os irmãos, tão diferentes entre si, perceberão o quanto são essenciais um para o outro) e de auto-afirmação (Ian adquire a coragem, a auto-confiança e a iniciativa que antes lhe faltavam).
É uma obra de apelo profundamente emocional, transcorrida no contexto de um ambiente mágico e fantástico, propício à imagens acachapantes, como só a Pixar sabe fazer; se o sabor que fica na boca ao final é de um prato que já foi melhor servido em outras ocasiões, isso muito se deve ao fato de grande parte de sua equipe técnica ter sido confiada a artesãos mais jovens das fileiras da Pixar, e não aos seus experientes gênios de praxe: O diretor é Dan Scanlon (que estreara na Pixar com “Universidade de Monstros”); a trilha sonora (incapaz de atingir os acordes comoventes de Michael Giachinno) é dos irmãos Mychael e Jeff Danna; o único nome mais gabaritado a surgir na linha de frente em meio aos realizadores desta animação é mesmo Pete Docter (diretor de “Up”), como produtor executivo.
No entanto, mesmo capitaneado por profissionais não tão habilidosos, mais vale um longa da Pixar na mão (ou na tela do cinema ou da TV), do que duas animações convencionais à disposição.

terça-feira, 2 de julho de 2019

Toy Story 4

Quem diria que a “Trilogia Toy Story”, tão perfeita e com começo, meio e fim tão primorosamente definidos não se acabou de fato no terceiro filme?
Pois, os gênio da Pixar retornam ao fascinante mundo em miniatura dos brinquedos que criam vida quando os humanos não estão por perto para mostrar que “Toy Story”, ao contrário da impressão deixada pelo arremate maravilhoso ao fim do último filme, não é a história do menino Andy e seus brinquedos; é, sim, a história do cowboy de brinquedo Woody e, inclusive, da evolução íntima que ele experimenta nessa trajetória.
Se observarmos os três primeiros filmes do ponto de vista dele como protagonista, o primeiro fala sobre rejeição; o segundo sobre resiliência (a capacidade de abrir mão com serenidade e graciosidade); e o terceiro sobre a finitude de um ciclo.
Ao seu jeito, “Toy Story 4” traz Woody (na voz de Tom Hanks) ao centro da questão para recuperar cada um desses tópicos.
Aqui, ele torna a experimentar a rejeição (afinal, ao contrário de Andy, a nova dona deles, a pequena Bonnie, está longe de considerá-lo seu brinquedo favorito), a resiliência (na forma da escolha que ele tem de fazer ao reencontrar a pastora de brinquedo Betty, dos dois primeiros filmes, que ganha um background espetacular aqui) e, de novo, o fim de um ciclo, desta vez, ainda mais pessoal, para ele próprio.
Por alguma razão, Bonnie ignora Woody tanto quanto seus brinquedos pré-escolares –aqueles para crianças abaixo de quatro anos.
Diferente do primeiro filme, porém, Woody aceita as inocentes escolhas de sua nova dona; o que não o impede de acompanhar Bonnie de perto, indo clandestinamente dentro de sua mochila no primeiro dia de aula no jardim de infância.
De lá, Woody vê Bonnie criar, na aulinha de artesanato, um novo brinquedinho, feito de um pequeno garfo descartável e –na lógica muito particular que rege a série –como ele é um brinquedo, ele adquire, portanto, vida!
Entretanto, Forkie (como é chamado) não se interessa pelo fato de ser agora o brinquedo favorito de Bonnie; ele quer é seguir o curso natural que um garfo descartável seguiria: Ir direto para o lixo!
Woody não pode permitir –ele deseja zelar por Bonnie como forma de ainda ser um brinquedo eficaz, mesmo que não mais seja incluído nas brincadeiras. Assim, durante uma viagem de trailer, quando Forkie se joga na estrada, Woody decide procurá-lo, e levá-lo de volta.
Mas, o caminho de Woody cruzará com alguém de seu passado, que ele julgou jamais ter a chance de encontrar de novo: A pastora Betty, doada a nove anos atrás (e, portanto, ausente em “Toy Story 3”) que não mais tem um dono, mas sim uma vida e uma autonomia próprias zelando pelos brinquedos desamparados em um parque de diversões de beira de estrada –e o que a Pixar faz com essa personagem aqui é um exemplo do brilhantismo do estúdio e de sua capacidade em criar figuras simplesmente antológicas e apaixonantes.
Como havia feito brevemente no prólogo (que retrocede no tempo para revelar o que houve a ela), Betty aqui oferece a Woody uma bifurcação em seu caminho, onde ele passará por uma escolha que pode ser dolorosa e irreversível.
Em meio a tudo isso, administradas como se fosse algo até fácil de se fazer, os realizadores introduzem espertas inserções de comédia embaladas num ritmo incessante e emolduradas pelas mais perfeitas recriações visuais que a Pixar até então já entregou –nunca o mundo humano adulto (tão gigante para as pequenas proporções dos brinquedos) pareceu tão autêntico e vívido.
Se não atinge notas mais hiperlativas em sua emoção e sua diversão, é pelo simples e razoável motivo de que “Toy Story”, já em seu quarto exemplar, é uma série que ostenta um patamar de qualidade difícil de ser equiparado –e nesse sentido, a obra-prima que é o terceiro filme continua imbatível –nada disso, no entanto, o impede de ser uma experiência brilhante, emocionante e arrebatadora mesmo assim.
E, possivelmente, a melhor animação do ano.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Pixar Short Film Collection 3


Já tendo resenhado os volumes 1 e 2 desta maravilhosa coleção de curtas-metragens animados (muitos deles indicados ou merecidamente premiados com o Oscar da categoria), vamos ao volume 3:
Bao
Ostentando uma maturidade que aos poucos foi se infiltrando em trabalhos da Pixar –sem, no entanto, nunca deixar de soar lúdico –este curta (o primeiro dirigido por uma mulher, a chino-canadense Domee Shi) leva o nome do bolinho chinês recheado de carne que a protagonista, uma dedicada dona de casa, prepara já no início para o marido.
Um desses bolinhos, contudo, cria vida (!), e ela decide então cuidar dele.
A narrativa carregada de lirismo acompanha o crescimento vagaroso do bolinho (que nunca deixa de ser pequeno) e os esforços da mãe em proteger sua fragilidade.
Indiferente a isso, o bolinho passa a querer independência, sair com os amigos, arrumar uma namorada; e se ressente da proteção da mãe.
Até que, ao tentar sair de casa para ir morar com a namorada, a mãe dele toma uma atitude radical –e espantosa!
Um belíssimo conto sobre as angústias existenciais da maternidade, “Bao” certamente é mais dirigido ao público adulto do que às crianças.
Lou
Há uma espécie de criatura, neste curta, que é constituída dos apetrechos extraviados pelas crianças numa escolinha. Tais apetrechos se acham na caixa de achados e perdidos.
É essa criatura desengonçada que leva o nome de Lou.
Ele assiste, de dentro de sua caixa, o bullying provocado por um menino metido à valentão. Contudo, ao tentar deter suas grosserias com as outras crianças, Lou descobre uma vantagem: Ele tem um bichinho de pelúcia perdido pelo menino –cujo extravio supostamente foi razão para a mágoa que ele agora descarregada nos outros.
Há assim, um acordo: Lou quer que os apetrechos voltem para seus donos que os perderam e o menino, se nisso o ajudar, terá seu bichinho de volta.
Mas, a cada item devolvido, um pedaço de Lou se vai, fazendo-o se desmanchar.
Brilhante exemplo do domínio narrativo dos profissionais da Pixar, bem como seu entendimento intrínseco do universo infantil e seus meandros sentimentais, ainda que aqui eles pareçam deliberadamente mais contidos onde são imbatíveis: A emoção.
Piper-Descobrindo O Mundo
Incluído nas cópias de “Procurando Dory”, este curta acompanha, com uma riqueza de detalhes absolutamente deslumbrante, a iniciação de uma pequenina ave litorânea.
Piper está habituada às comodidades do ninho em que nasceu, mas sua mãe sabe que já está na hora de ensiná-la a ir atrás de seu próprio alimento.
Como todas as aves, Piper tem de encontrar os apetitosos mariscos que se escondem na areia da praia, enquanto desvia-se dos arrebatadores vagalhões do mar.
Numa ocasião, Piper ganha motivos de sobra para temer as ondas para sempre. Mas, eis que um pequeno sirizinho irá mostrar para ela um pequeno truque que irá transformar Piper na mais habilidosa das catadoras de marisco.
Os Heróis de Sanjay
Conto muito pessoal da autoria do jovem animador Sanjay Patel, sob o prisma de sua própria infância e da relação com o pai desejoso de incutir no filho o respeito pela sua cultura e religião indiana –o pequeno Sanjay no entanto, como toda criança norte-americano dos anos 1980 e 90 –era vidrado mesmo nas séries animadas de super-heróis que via na TV.
Durante uma sessão forçada de oração, porém, Sanjay tem um vislumbre do espetacular potencial heroico que têm as divindades que englobam a fé indiana.
O Primeiro Encontro da Riley?
Aguardadíssimo curta por trazer novamente os adorados personagens do longa “Divertida Mente”: Entretanto, a menina Riley e as cinco emoções que habitam sua mente (Alegria, Triteza, Raiva, Nojinho e Medo) não têm uma participação assim tão grande; o curta se ocupa mais de mostrar a hilária reação do pai de Riley (assim como das cinco emoções correspondentes em seu cérebro) quando tem a terrível notícia de que Riley aparentemente vai sair com um garoto pela primeira vez!
Tal garoto –o rapazinho acanhado que aparece na cena final do longa-metragem –aparece na casa e o pai, desconfiado e ciumento, faz marcação cerrada; e a narrativa explora as reações completamente distintas dentro da cabeça de cada um, até que subitamente os dois descobrem uma inesperada compatibilidade.
Lava
Antecipando nos cinemas o longa-metragem “Divertida Mente”, este lindo curta é todo musicado, composto de toda uma balada em ritmo havaiano.
Do alto de sua glória geológica, um vulcão testemunha fascinado cada criatura encontrar seu próprio par, gaivotas, baleias, tartarugas, golfinhos, e almeja também ter sua própria cara-metade, o que acaba gerando a inebriante canção que conduz o curta.
Como a letra vai explicando, de fato, a natureza providencia uma espécie de ‘vulcão fêmea’ que surge gradativamente no fundo do mar, encantada pela música que o escuta cantar.
Entretanto, com a passagem ininterrupta do tempo, a medida em que ela vai nascendo, ele vai morrendo.
As 500 ½ de Radiator Springs
Oriundo dos longa-metragens de “Carros” –ao lado de “Toy Story”, aqueles que mais renderam curtas –esta trama acompanha as comemorações de um feriado importante na cidadezinha de Radiator Springs.
Nessa ocasião, surge um corredor procurando Relâmpago McQueen para desafiá-lo. Dividindo-se entre a disputa de McQueen e as galhofas de Tom Mate, o curta apresenta a mesma comédia graciosa e convencional já relacionada aos curtas estrelados por estes personagens.
Central da Festa
Situado em algum ponto de “Universidade dos Monstros” –e, portanto, anos antes dos eventos de “Monstros S.A.”, do qual é um prequel –a trama acompanha uma festa de arromba que a turma de Mike e Sully pretende dar.
Só pretende, pois, ao mesmo tempo, uma república rival na universidade está monopolizando a atenção de todos com uma festança!
Mas, Mike e Sully têm um plano: Eles vão usar os famosos portais de portas de armário que conduzem ao nosso mundo para trazer inadvertidamente todos os convidados de uma festa para a outra (!).
O Guarda-Chuva Azul
Ostentando o repertório visual mais realista dentre todos os trabalhos da Pixar –incluindo aí seus longa-metragens –e comentado por uma trilha sonora que é toda delicadeza, este “O Guarda-Chuva Azul” segue a tradição (que praticamente nasceu com o conceito de desenhos animados) de conceder vida a objetos inanimados; prática que hoje encontra na Pixar seus mais brilhantes artesãos.
O guarda-chuva azul do título  executa seu usual trabalho de sempre –o de servir ao seu usuário nos dias chuvosos –enquanto é levado por uma metrópole (que tem toda pinta de Nova York) através de marquises, fachadas de prédios, placas, postes e toda sorte de objetos inanimados que demonstram ter vida e sentimentos: Os humanos aparecem, numa notável inversão de valores, como elementos ornamentais às cenas, ainda que concedidos em texturas e movimentos ultrarrealistas para uma animação computadorizada.
Em determinado momento, eis que nosso guarda-chuva azul enxerga na multidão o seu par: Um guarda-chuva vermelho –uma fêmea, portanto, de sua ‘espécie’.
Os caminhos distintos que seus usuários vão tomar, em meio ao fluxo de todas as coisas, podem afastá-los, mas eles têm uma infinidade de amigos na metrópole para leva-los a se encontrar.
Apesar desse lirismo e do inquestionável capricho visual existe algo em “O Guarda-Chuva Azul” que o impede de atingir a primeira grandeza que outras obras da Pixar alcançaram com tanta facilidade: A incapacidade de salientar, com espirituosidade e inteligência, os aspectos geniais inerentes a sua premissa.
A Lenda de Mor’du
Curta que estende, até de maneira bastante redundante, a trama criada para “Valente”. Trata-se de um ancestral da princesa Merida que, assim como ocorre com sua mãe, acaba se transformando num urso.
Entretanto, ao clamar a uma bruxa por poder e converter-se no grande animal, Mor’du não enxerga sua transformação como uma maldição –ele se satisfaz de tal forma com a força descomunal que adquire que abraça por completo sua transmutação, abandonando por completo sua humanidade.
Festa-Sauro Rex
Ligeiramente ressentido com seus amigos brinquedos (leia-se, toda a turma de “Toy Story”!), o boneco de Tiranossauro chamado Rex acaba indo parar na banheira quando a pequena Bonny (dona de todos eles desde “Toy Story 3”) resolve lá leva-lo para tomar banho.
Ali estão, com algumas exceções como o próprio Rex, todos os brinquedinhos destinados exclusivamente ao banho –ou seja, dependem da água para se movimentar. Seus únicos instantes de alegria são, portanto, os quinze minutos diários de banho.
Rex, contudo, quer reverter sua recente fama de estraga-prazeres e, aproveitando que tem braços e pernas (ao contrário de seus novos amigos) resolve abrir o esguicho de água e tampar o ralo da banheira. Resultado: Todos os brinquedos da banheira agora têm uma chance de festar indefinidamente, e Rex –proclamado ‘Festa-Sauro Rex’! –tem agora admiradores que o consideram o cara mais legal do mundo!
A festa, porém, perde um pouco do controle quando a água da banheira transborda!

Há também os curtas de bônus como este Entrevistas da Vida Marinha que mostra vários personagens de “Procurando Dory” prestando divertidos depoimentos.
Já em Escola de Corrida da Maria Busão vemos numa linguagem promocial –trata-se de um comercial assistido na TV –alguns personagens vistos em “Carros 3”, às voltas com as incertezas de seu ofício.
Magnífica oportunidade para (além de se divertir) apreciar o avanço exponencial obtido pela Pixar no campo de sua arte.