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sábado, 27 de junho de 2026

Toy Story 5


 A franquia que por razões ora mercadológicas, ora afetivas, nem a Pixar nem a Disney conseguem deixar de lado, está de volta. Isso depois de um desfecho (em “Toy Story 4”) que parecia encerrar em definitivo a história dos brinquedos que ganham vida quando os humanos não estão olhando.

Agora, com o protagonismo transferido de Woody e Buzz Lightyear (que ainda são importantes ao plot, não tenha dúvidas) para a vaqueira Jessie (a exemplo do que já havia sido experimentado com sucesso no curta-metragem “Toy Story de Terror”), encontramos Bonnie, a dona dos brinquedos desde “Toy Story 3”, um pouco mais crescida, com cerca de seus oito anos de idade. Bonnie encontra obstáculos em fazer amigos entre as outras crianças das redondezas por uma razão peculiar: Bonnie é daquelas crianças à moda antiga, ou seja, gosta de brincar com brinquedos, diferente das outras que agora, descoladas, têm todas um tablet para lhes prender a atenção.

É a tecnologia e o chamado tempo de tela (uma pauta que tem preocupado muito os pais e os especialistas) finalmente entrando num assunto de discussão dentro da franquia.

A fim de ajudar Bonnie a socializar, os pais lhe compram um tablet do momento, Lillypad (voz de Greta Lee, de “Vidas Passadas”) que rapidamente captura por inteiro a atenção da criança – outrora sempre a brincar com Jessie e os outros, agora, Bonnie passa as horas do dia vidrada na tela do aplicativo.

É assim que Jessie, Buzz e os demais brinquedos recorrem à Woody, que agora atua como um salvador de brinquedos perdidos ao lado da destemida Betty – cada vez mais e mais brinquedos são deixados de lado por conta do acesso dos pequenos à tecnologia.

Entretanto, a verdadeira saída para resolver os problemas de Bonnie é encontrar para ela uma amiguinha que compartilhe de suas mesmas afinidades – ou seja, que também goste de brincar com brinquedos – e, ao compreender isso instintivamente, Jessie embarca numa jornada que irá leva-la a rever momentos de seu passado traumático (mostrados em “Toy Story 2”) quando foi abandonada por sua primeira criança  quando esta cresceu.

Há ainda uma divertida trama paralela, na qual acompanhamos um grupo numeroso de astronautas de brinquedo, todos da linha de Buzz Lightyear, que despertam quando suas caixas abrem após o naufrágio do contêiner onde todos eram transportados. Tal e qual o Buzz original no primeiro “Toy Story”, todos eles acreditam ser patrulheiros espaciais legítimos (!), e seguem os indícios que creem leva-los até o Comando Estelar – e que acabam fazendo-os cruzar com os protagonistas de modo um tanto engraçado.

Dirigido pelo veterano Andrew Stanton (realizador de “Procurando Nemo” e “Wall-E”), “Toy Story 5” foi um projeto no qual a Pixar não mediu esforços para que se revelasse pertinente e necessário para muito além das questões financeiras (os últimos lançamentos da Pixar e da Disney como um todo andaram deixando a desejar nas bilheterias). Assim, sem demonizar ou vilanizar a tecnologia (afinal, foi a tecnologia quem permitiu a concretização de todas as obras feitas em Computação Gráfica da Pixar Studios), os realizadores expõe as circunstâncias nas quais as telas e os aplicativos parecem, de alguma forma, acelerar o processo de infância dos pequenos, levando-os a se afastar precocemente do mundo imaginativo oferecido pelos brinquedos. Essa reflexão ganha contornos emocionais ainda mais profundos, graças aos seus personagens, conhecidos de longa data do expectador – a franquia “Toy Story”, iniciada em 1995, afinal, evoluiu junto com a Computação Gráfica no cinema, aliás, o seu público infantil cresceu junto com ela. O que nos permite, neste quinto filme, enxergar os personagens de Jessie, Woody e Buzz como alegorias dos próprios pais: Estão sempre próximos às crianças, querem o melhor para elas e sofrem, lá no fundo, ao perceber que crescendo um pouquinho, dia a dia, deixam de ser crianças.

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Procurando Dory

Se “Procurando Nemo” era toda uma odisséia física –um contraponto à deficiência do peixinho que tinha uma nadadeira defeituosa –“Procurando Dory” (que agora nomeia sua outrora coadjuvante como protagonista) é sobre as armadilhas da memória.
Na trama (cuja inteligente narrativa preenche lacunas a respeito da trajetória de Dory vislumbrada em partes durante “Procurando Nemo”) descobrimos que Dory teve uma família; um pai e uma mãe. Ela também os descobre quando tem um lampejo deles durante o sono –ela agora mora numa anêmona próxima a Nemo e Marlin.
Diante da descoberta, a peixinha azul decide partir para reencontrá-los, o quê ela não mais conseguiu fazer desde quando ainda era criança.
E pronto: Eis aí um gancho por meio do qual a Pixar aproveita para exercer sua imbatível técnica narrativa, seu dinamismo ao construir um roteiro –mais aprimorado a cada nova animação –e, sobretudo, a maneira inspirada e travessa com que expressa seu senso de humor. Em “Dory” a ação pode soar restrita quando uma sinopse afirma que a trama se passa dentro de um parque aquático –e não em mar aberto como “Nemo” –mas, os realizadores da Pixar transformam isso num mero detalhe: Tão rica é a variedade visual com a qual eles constroem suas cenas, tão plural é a forma com que trabalham as diversas personalidades das dezenas de criaturas (melhores exemplos: a divertida baleia Destiny e o cínico polvo Bruce) que vão surgindo nas trajetórias paralelas de Dory e de Marlin e Nemo, que se tem a certeza de que esta continuação, seja em escopo, seja em abordagem técnica e artística, é sim uma evolução comparado ao filme anterior.
E como não amar uma animação cujo desfecho nos brinda com a música “What A Wonderfull World”, de Louis B. Armstrong?
No fim das contas, “Procurando Dory” deixa a objetividade em segundo plano –embora nunca deixe de ser, em si, objetivo –para concentrar-se no sentimento: A memória é, de fato, uma zona de armadilhas potenciais quando as lembranças insistem em escapar. Mas, como bem nos ensina Dory, o ato de registrar quem amamos talvez não esteja na mente propicia ao esquecimento, mas dentro de nosso coração.
Vocês acertaram de novo, Pixar!

sábado, 6 de maio de 2017

Procurando Nemo

Volta e meia, as obras da Disney ilustram um fascínio perene pelo mar: A obra-prima “A Pequena Sereia”, a aventura de pretensões inovadoras “Atlantis-O Reino Perdido”, o recente “Moana-Um Mar de Aventuras”.
A Pixar, a mais próspera divisão de animação da Disney nas últimas duas décadas não haveria de fugir a essa regra –é o mar o cenário para aquele que é um de seus mais amados clássicos,”Procurando Nemo”.
Construído por escolhas muito particulares, ele possui uma trama que ecoa, nos mais diversos ângulos, as aspirações vistas nos grandes clássicos antigos do estúdio.
Tomemos, como exemplo, “Bambi”: É a mesma história marcada pelo auto-sacrifício da mãe que marca, depois, a trajetória do próprio filhote, e que também acaba determinando a relação dele com seu pai.
Entretanto, se em “Bambi” essa relação possui algo de uma indiferença e distante severidade, em “Nemo” ela é definida pela superproteção: Parece ter sido demais para o peixe palhaço Marlin, ter de testemunhar o ataque mortal de uma barracuda que lhe tirou a esposa e as centenas de filhotes que sequer tinham desovado.
Por isso, o protecionismo exacerbado que ele dedica â Nemo, o único sobrevivente da tragédia.
Mas, Nemo (que tem uma nadadeira defeituosa) se ressente pelo excesso de zelo. Ele quer ser livre. Quer provar o oposto daquilo que parece ser aos olhos do pai: Alguém indefeso.
Tanto quer que –de maneira torta e inesperada –consegue; Nemo é capturado por um mergulhador e levado para um aquário na cidade. Cabe a Marlin, agora, atravessar todo o mar na tentativa de encontrá-lo. Ele tem uma ajuda inesperada –Dory, uma adorável peixinha azul que sofre de perda de memória recente.
Enquanto isso, Nemo encontra um grupo de párias que planeja uma audaciosa fuga do aquário onde estão todos presos (!).
Em sua grandeza de espírito, a Pixar cria aqui uma mensagem tão brilhante, salutar e sutil que ameaça passar despercebida até mesmo dos adultos: Todos os personagens, aqui, sofrem de um grau, maior ou menor, de limitação, seja ela física, mental ou emocional. E todos encontram, até o fim, uma maneira de superá-la.
Dory não consegue reter as memórias do que lhe acontece, e embora o filme use esse recurso durante a maior parte em seu humor, não lhe faltam momentos que mostram o quanto ela sofre com isso. Ainda assim, ela encontra, na tentativa de auxiliar um amigo aflito (e no ato de tornar-se imprescindível nesse processo), uma forma de se fazer importante e necessária.
Marlin, em sua paranóica preocupação, não encara de maneira realista e sensata a educação do filho, e tenta até mesmo privá-lo de experiências essenciais como a interação social. Serão as peripécias vividas em alto-mar que mostrarão a ele a fascinante pluralidade da vida e, em última instância, o pecado que é privar o filho disso.
Mas é Nemo que, ao menos aqui, entrega a mais importante das mensagens: Seu pai passa, sim, o filme todo à procura dele, na esperança de salvá-lo, mas é o próprio Nemo quem o faz –com nadadeira deficiente e tudo, o pequeno e persistente peixinho é o herói de sua própria história.
Uma lição preciosa. Das mais relevantes já vistas numa animação.

segunda-feira, 9 de maio de 2016

Wall - E

Pairam muitas questões sobre a trama de “Wall-E”, o quê só atesta a perspicácia de seu estúdio, a Pixar.
Através da história do robozinho que desenvolve a capacidade de colecionar (e de se apaixonar), a Pixar cria um inventário das emoções que nos definem, como o amor, a compaixão e a esperança.
Num cenário futurista, poeirento e de monocromática desolação, o planeta Terra foi emporcalhado (e depois abandonado) pela raça humana. Para trás, foram deixadas legiões de robôs que atuavam como compactadores de lixo. Passados setecentos anos, somente um deles restou, e seu nome é Wall-E.
Porém, em sua interminável solidão, Wall-E começou a perceber características desiguais em muitos achados que encontrava nos escombros. Achados que lhe interessavam. E assim, começou a colecioná-los. E para montar uma coleção, pensam os realizadores da Pixar, é necessário paixão e amor, com os quais se observa o valor contido no fascínio que uma bugiganga qualquer desperta.
Wall-E acha uma fita VHS do musical “Hello, Dolly!” e não lhe falta sensibilidade para perceber a beleza emotiva de suas cenas. O mesmo vale para a plantinha verde (e tão contrastante com o mundo arenoso à sua volta) que logo ele irá guardar, e que será o mote que o levará até ele a robozinha Eva.
E, como toca a todo ser provido de sentimento, Wall-E se apaixonará por ela, assim que vê-la.
É, portanto, o amor que norteará esses dois improváveis protagonistas, numa jornada que os levará ao espaço, onde encontrarão a humanidade refugiada em naves que só fazem conservar sua obesidade e seu sedentarismo.
Lá, quando o filme do diretor Andrew Stanton já tiver chegado à sua segunda metade, a Pixar revelará uma outra emoção à qual ela investe dedicação (inclusive em seus outros filmes): A esperança e a fé na raça humana.
A grande lição de “Wall-E”, provavelmente, está em seu final, quando Eva se vê obrigada a trocar quase todas as peças destruídas de Wall-E, incluindo sua placa-mãe, o quê em teoria, é como substituir toda a sua ‘cabeça’.
Para a Pixar, afinal, o que define aquilo que somos não está no cérebro... está no coração!

domingo, 15 de novembro de 2015

John Carter - Entre Dois Mundos

Um dos mais subestimados filmes dos últimos tempos, esta bem elaborada adaptação do clássico centenário de Edgar Rice Burroughs (o mesmo autor de "Tarzan), não teve –e até este momento ainda não tem –o devido reconhecimento por suas qualidades. O tempo deve encarregar-se de torná-lo um desses cults que as futuras gerações de cinéfilos haverão de descobrir. 
Capitão do exército confederado na Guerra Civil Norte Americana, John Carter um dia entra por acaso numa guerra intergaláctica quando acaba teleportado para o planeta Marte, e suas novas habilidades (ele é muito mais rápido e forte naquela gravidade reduzida) servirão, entre outras coisas, para livrar de um casamento arranjado com um tirano, a bela princesa do lugar. 
Marcando a estréia em filmes de live-action (com atores reais) do diretor Andrew Stanton, de vários ótimos longas de animação da Pixar como "Procurando Nemo" e "Wall-E", não é por acaso que o expectador achará enormes similaridades entre este filme e “Star Wars” ou “Avatar” e outras obras clássicas da ficção científica e da cultura pop: Todos eles foram, em alguma medida, influenciados pelo livro de Burroughs. 
E o trabalho do diretor Stanton honra, em todos os aspectos, esse legado: Sua direção é sofisticada, elegante, repleta de preciosismos inspirados que acrescentam uma gama de detalhes encantadores às cenas monumentosas que ele concebe. 
Há alguns erros neste filme, sim (a narrativa se estende demasiado, fruto talvez do fascínio do diretor pelo material; ele deixa-se levar por um exceto de inserções de flashback, que engessam o ritmo de uma de suas melhores cenas de batalha –uma edição que enxugasse tudo isso faria muito bem ao filme), mas são erros tão pequenos e insignificantes diante de seus inúmeros acertos que parece improvável relacionar a eles o seu fracasso comercial. 
Fica aqui então a minha dica de “John Carter” como um filme a ser descoberto.