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sexta-feira, 21 de abril de 2023

O Urso do Pó Branco


 O cinema de entretenimento às vezes encontra caminhos tortuosos para chegar ao seu público, e com isso, ocorre de surgir na ribalta produções de origem um tanto incomum. “Cocaine Bear”, dirigido pela atriz Elizabeth Banks é um desses casos. Inspirado numa história real –e, por isso mesmo, encarado com alguma seriedade por alguns que lhe foram conferir –o filme em si abre mão de seu realismo para se fazer uma tremenda homenagem aos filmes slasher dos anos 1980 (época em que a trama se passa), à mescla desigual entre terror e comédia (o chamado ‘terrir’) e ao cinema B em geral, vez ou outra, fonte de obras inusitadas que desafiam a crença do expectador pelo simples absurdo de sua proposta. Em sua carreira como atriz, Banks trabalhou com Sam Raimi (na “Trilogia Homem-Aranha”) e com James Gunn (em “Seres Rastejantes”), entre vários outros diretores –entretanto, é essencialmente a influência desses dois que parece guiar as noções narrativas que ela demonstra aqui. A lembrar que Elizabeth Banks também já havia dirigido um reboot de “As Panteras”.

De Sam Raimi, ela empresta a percepção de gênero, o slasher, no qual a contagem de corpos vem a ser a estrutura que compõe a história (ainda que os personagens bolados para serem basicamente as vítimas do urso sejam elaborados num viés de comédia), e também o apreço por jump scares (tão abundantes em obras como “Evil Dead”); já de James Gunn, ela pega a concepção debochada com a qual molda núcleos inteiros de personagens norteados por uma certa galhofa, porém, inseridos num contexto que não deixar de ter tensão.

Na história real da qual o filme se baseia, um piloto de aeroplano que trafica droga para os EUA (uma característica non-sense do tráfico de drogas nos anos 1980, retratada no filme “Feito Na América”) pensa estar sendo seguido pela polícia e se livra de vários malotes de cocaína  enquanto sobrevoava o Parque Florestal de Chattahoochee-Oconee, na Geórgia, antes dele próprio pular do avião e perder a vida (!). Na realidade, os malotes encontrados e consumidos pelo urso (na verdade, uma ursa) levaram o animal a ter uma overdose sendo encontrado dias depois pela polícia –o animal, hoje, pode ser visto pelo público, empalhado no Kentucky Fun Mall. Para muito além dessa ocorrência curiosa que se espalhou de boca em boca pelos EUA na época, a diretora Elizabeth Banks imaginou todo um filme no qual o urso, enlouquecido pelos efeitos da droga, libera sua fúria contra diversos personagens humanos que inadvertidamente cruzam seu caminho.

E aí entra a sacada bastante inspirada do filme, em não levar-se a sério e construir personagens que são basicamente caricaturas divertidas as quais se acompanha com certo prazer sádico suas idas e vindas, a escapar (ou não) das garras do urso ensandecido. Temos assim os dois comparsas de traficantes Daveed (O’Shea Jackson Jr., de “Straight Outta Compton”) e Eddie (Alden Ehrenreich), instruídos pelo chefão Syd (o falecido Ray Liotta, a quem o filme é dedicado) a recuperar os malotes perdidos a fim de minimizar seu prejuízo; as duas crianças Dee Dee (Brooklyn Prince, de “Projeto Flórida”) e Henry (Christian Convery, da série “Sweeth Tooth”), numa tentativa travessa de cabular aula; a mãe de Dee Dee (Keri Russell) no encalço dos dois; os obtusos guardas-florestais Liz (Margo Martindale, de “Secretariat” e “Menina de Ouro”) e Peter (Jesse Tyler Fergunson, da série “Modern Family”), e os policias Bob (Isaiah Witlock, de “A Última Noite”) e Reba (Ayoola Smart), cada qual ao seu jeito, tentando procurar as drogas extraviadas. Juntam-se a eles também os destrambelhados paramédicos Beth (Kahyun Kim) e Tom (Scott Seiss) –protagonistas de uma sequência insana de perseguição à bordo de uma ambulância! –e um grupo de marginais. Todos esses personagens acabam servindo de fio condutor à trama, na simplicidade atroz de sua proposta: Não é segredo para ninguém que a maioria deles serve de carne para abate ao urso protagonista. E tão mais válidas são suas participações quanto mais tresloucadas e memoráveis forem suas mortes. E nesse sentido, elas realmente são –Elizabeth Banks fez bem seu dever de casa e incorpora maravilhosamente bem o espírito de produção trash (embora o filme, com um orçamento razoável de 35 milhões de dólares e um CGI satisfatório da fera alucinada não seja, deveras, uma produção trash) em sequências sucessivas que unem mortes de incontida sanguinolência macabra com um humor irreprimível inerente ao fato de ser um urso surtado de tanta droga a praticar essas atrocidades: Como quando ele salta alucinadamente de uma árvore para outra escolhendo entre capturar o menino Henry ou o idiota Peter –termina escolhendo este último, pois ele chafurdou, minutos antes, num monte espalhado de cocaína (!); ou quando invade o Q.G. dos Guardas-Florestais e a afobada Liz desfere tiros com sua arma que acertam os marginais que se refugiavam ali, ao invés do urso (!?); ou o encontro entre o policial Bob e os traficantes Daveed e Eddie num gazebo onde acham vários malotes perdidos e após uma troca de tiros hilária (que rende um par de dedos decepados à Daveed!) são encontrados pelo urso, que acaba desmaiando sobre Eddie, quase esmagando-o (!).

São várias as situações concebidas pela diretora Banks onde um humor imprevisto se choca com a sensação de perigo proporcionada pelo urso alucinado, e é necessário compreender integralmente que isso faz parte da diversão, a forma descontraída, reverente e descompromissada com a qual ela rememora uma característica já não tão comum nas obras de entretenimento de hoje em dia. Por isso mesmo, muito de “Cocaine Bear” –não só a reconstituição de época enfatizada nos figurinos e na trilha sonora –remete à década de 1980, não apenas como referência, mas como evocação. É quase como se “Cocaine Bear” FOSSE uma realização daquele período de fato. O que não deixa de ser uma oportunidade para lembrar o quando o entretenimento já foi inacreditável e divertidamente inconsequente.

quarta-feira, 23 de junho de 2021

Uma Aventura Lego


 Existem projetos que escancaram a necessidade artística de ser realizado em animação pelo simples fato de que sua premissa –na fantasia irrestrita do processo criativo que a originou –se faz humanamente impossível. A Pixar tornou-se craque nisso; assim como o gênio Hayao Miyazaki. Seguindo essa herança, Christopher Miller e Phil Lord obedecem a mesma orientação em “Uma Aventura Lego”.

A primeira animação para cinema a abordar o universo de pequenas peças infantis que conseguem montar qualquer coisa conta a história de Emmet (voz de Chris Pratt), um feliz e genérico cidadão arremessado subitamente numa Jornada tão insana quanto inesperada.

Ao avistar (e de lambuja, ainda se apaixonar!) por uma garota nas obras da construção em que trabalha como operário civil, Emmet acaba descobrindo uma tal de “peça de resistência”.

Colado à essa peça (!), Emmet é conduzido por essa garota, Megaestilo (voz de Elizabeth Banks) até outros mundos composto de peças lego, para muito além da cidade em que sempre viveu, onde os moradores são controlados (e idiotizados) pelo todo poderoso Presidente Negócios (voz de Will Ferrell).

Tal vilão, de posse de uma arma conhecida apenas como “gluca” pretende escravizar todos os mundos lego que existem –mesmo aqueles para além de seu alcance –a “peça de resistência”, ao que parece, é a única coisa capaz de impedi-lo, e o indivíduo preso a ela (o pobre Emmett) está predestinado a ser o “especial”, o único herói capaz de salvar a todos. Para isso, Emmett deve encontrar outros mentores em sua jornada –entre eles participações (na versão lego) de Gandalf (de “O Senhor dos Anéis”), Dumbledore (de “Harry Potter”), Batman (personagem tão sensacional que originou o longa-metragem derivado “Lego-Batman”) e até mesmo Han Solo e Chewbacca (de “Star Wars”) –e com eles aprender a ser um “mestre construdor”, ou seja, ter a habilidade de montar, com as pecinhas lego à disposição nos vastos mundos que visita, qualquer coisa que quiser.

Essa sinopse não dá conta de toda a inventividade de “Uma Aventura Lego”, uma vez que seus realizadores valem-se do formato para experimentar as mais variadas peripécias narrativas chegando, em seu clímax, a trazer seu protagonista para o nosso mundo real (!), onde ele é, deveras, um bonequinho lego, um brinquedo a fazer parte das brincadeiras imaginadas por um garotinho.

Uma gratificante aventura em animação cujas alternativas não parecem ter limites para seus intrépidos criadores.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

Magic Mike XXL


 Apesar de não contar com os personagens Dallas (de Matthew McConaughey) e Kid (de Alex Petiffer), a grande ausência que determina o resultado da continuação de “Magic Mike” é a do diretor Steve Sodenbergh. Felizmente, quem ocupa o lugar dele é o produtor Gregory Jacobs que escapa astuciosamente da armadilha de tentar emular Sodenbergh e concebe a este filme um brilho e uma personalidade próprios.

Cerca de três anos depois de ter abandonado os palcos, o ex-stripper Mike (Channing Tatum, de volta num dos personagens mais marcantes de sua carreira) segue realizando suas aspirações profissionais afrente de uma empresa de móveis personalizados.

De repente, ele recebe um telefonema de seus antigos colegas: Os também strippers Ritchie (Joe Manganiello), Ken (Matthew Bomer), Tito (Adam Rodriguez) e Tarzan (Kevin Nash) o chamam para um reencontro.

Ao contrário de Mike, eles continuaram como strippers, e agora, largados ao léu por Dallas –que partiu para o estrangeiro levando Kid à tiracolo –querem fazer uma última apresentação numa convenção em Macau, antes de receberem dinheiro o suficiente para todos partirem em busca de seus próprios sonhos.

Assaltado de uma súbita nostalgia, Mike decide acompanhá-los, numa forma de celebrar a última oportunidade em que esses grandes amigos estarão todos juntos.

Como diretor, Jacobs troca a observação inquisitiva e analítica da vida moderna executada por Sodenbergh por uma visão mais desprendida, onde predomina o alto-astral, e as emoções mais universais a acompanhar o reencontro dos amigos –o primeiro reflexo bastante positivo é que o filme acaba dando espaço muito maior para os coadjuvantes e suas vulnerabilidades.

Se no primeiro “Magic Mike” todo o staff de strippers servia mais para uma caracterização esmerada do universo das casas noturnas, bem ao gosto a um só tempo niilista e meticuloso de Sodenbergh, aqui, os anseios e emoções desses personagens entram em foco, proporcionando a eles a humanidade que não tiveram a chance de expor: Ritchie é fanfarrão, carismático e, na leveza que compartilha com todos, um amigo crucial à união do grupo (e possivelmente o melhor personagem do filme); Ken tem seus próprios anseios e objetivos, mas antes de tudo precisa superar um ligeiro ressentimento pelo abandono de Mike; Tito é hábil cozinheiro e planeja obter dinheiro com essa derradeira apresentação para se lançar no ramo; e Tarzan –ou Ernest –encobre com imponência e seriedade sua vontade casar e constituir família.

Essa mudança de enfoque, do cinismo para a ternura, revela facetas novas de todos os personagens e, sobretudo, de suas dinâmicas: No trajeto de Miami até Macau, confissões afloram, lembranças animadas são colocadas em pauta e todos saboreiam a sensação agridoce de estarem juntos uma última vez, o que transforma “Magic Mike XXL” num autêntico road-movie.

E como tal, o trajeto de seus protagonistas até seu destino final é registrado nas minúcias de seu humor e de seu drama: O trailer que os leva sofre uma acidente, obrigando-os a apelar para os favores de uma conhecida (Jada Pinkett Smith num papel originalmente feito para ser masculino), e na sequência, encontrar breve refúgio na mansão de uma ricaça carente (ponta de Andie MacDowell); não sem antes Mike e seu pessoal pararem numa loja de conveniência e, num desafio oferecido ao divertido Ritchie –arrancar um sorriso de uma soturna atendente –produzirem a melhor cena do filme.

Quase um musical na evocação irrestrita que promove da descontração inerente aos seus personagens, “Magic Mike XXL” é uma continuação que troca sem pudores o drama circunspecto por uma atmosfera leve, irrequieta e contagiante. E faz disso seu grande mérito.

segunda-feira, 21 de setembro de 2020

Pagando Bem, Que Mal Tem?

Embora muitos considerem seu primeiro longa-metragem, “O Balconista”, como um cult-movie, o diretor e roteirista Kevin Smith na verdade passou toda sua carreira tentando, de alguma forma, repetir o êxito obtido em “Procura-Se Amy”, indiscutivelmente sua obra-prima.
Mais esforçado nesse sentido, “Zack And Miri Make A Porno” –ou “Pagando Bem, Que Mal Tem?” –busca mesclar a visão despojada que Smith possui dos romances modernos com as gracejos antenados e referenciais que ele tanto gosta; temperados aqui com o atrevimento inerente ao tema.
O resultado continua sendo uma comédia romântica onde os jovens apaixonados envolvidos se revelam até castos em seu amor, embora disfarce essa simplicidade com uma muralha de ousadia, vulgaridade e, por que não, metalinguagem.
Zack e Miri (Seth Rogen e Elizabeth Banks, reunidos em cena depois de fazerem juntos “O Virgem de 40 Anos”) são grandes amigos desde os tempos de colégio.
À beira dos 30 anos, eles moram juntos em Pittsburgh, e juntos vão de mal a pior: Dividem um apartamento cujas contas estão todas atrasadas, e eles, prestes a serem despejados.
É durante a reunião da classe estudantil de seu ano de formatura, onde conhecem o casal de homossexuais vivido por Brandon Routh e Justin Long (este último, um ator de filmes pornô-gay!), que Zack tem um lampejo da possível solução: Fazer um filme pornô que, na pior das hipóteses, terá como público todos aqueles que conheceram ele e Miri.
Afinal, conclui ele, se um video de celular mostrando Miri sendo espiada exibindo a calcinha tem milhares de visualizações na internet, um filme pornô protagonizado pelos dois haveria de tirá-los da penúria.
Com isso, Zack arranja um produtor –Delaney (Craig Robinson, de “Miss Março-A Garota da Capa”), seu amigo de trabalho numa cafeteria –e contrata um cameraman (Jeff Anderson) –na verdade, um colega do time de hóquei –e os atores, Lester (Jason Mewes, intérprete de Jay, parceiro de Kevin Smith na dupla Jay & Silent Bob) e Barry (Ricky Mabe), e as atrizes Bubbles e Stacey (as estrelas pornôs Tracy Lords e Katie Morgan).
A trupe arregaça as mangas para realizar a paródio-pornô “Star Whores” (!) (óbvio que, sendo o fã assumido de “Star Wars” que é, Kevin Smith não resistiria à tentação de parodiar seu monumento pop preferido), entretanto, na manhã do início das filmagens, eles perdem todo o equipamento, figurino e cenários nos quais investiram seu dinheiro: O depósito alugado pelas filmagens foi posto à baixo assim que seu locatário vigarista fugiu com a grana (!).
A saída é usar a cafeteria onde Zack e Delaney trabalham como cenário para as estripulias eróticas (!), o que inclui uma cena escrita especialmente para Zack e Miri –ou seus personagens, como quiserem... –antes da qual eles insistem, para os outros e para si mesmos, que será somente sexo e nada mais; algo que não pretendem deixar interferir na sua longeva amizade.
Contudo, é visível desde o começo que os planos no roteiro de Kevin Smith rumam na direção oposta: Zack e Miri, sim, se amam, e a circunstância um tanto insólita do pornô que resolvem produzir cria a deixa para darem um passo além na relação que, de outro modo, jamais dariam.
Como lidar com isso é pois a questão que vai tomando conta do filme quando ele já entra em seu último terço –e quando o divertido aspecto  de ‘bastidores da pornografia’ vai ficando de lado em prol do romance mais pueril e algo enfadonho dos protagonistas; em parte porque Kevin Smith já foi muito mais habilidoso e original ao escrever sobre relacionamentos em outras ocasiões, e porque Seth Rogen e Elizabeth Banks não têm a mais fervilhante das químicas.
Há certo mérito na forma graciosa e cheia de propriedade com que Smith consegue evitar que sua obra despenque para uma apologia ao erotismo –mesmo sendo, a rigor, um risco que corre do início ao fim –e na tentativa, não completamente bem-sucedida, de mesclar, já em seu desfecho, as considerações artísticas e narrativas do filme em produção, com o romance complicado entre Zack e Miri –e, portanto, com o próprio filme a que pertencem –mas, essas características admiráveis são eclipsadas pela inclinação de Smith às piadas grosseiras e imaturas que povoam todos os seus filmes, e pela comodidade de moldar sua obra em função de um redundante gênero cinematográfico, a comédia romântica.

terça-feira, 14 de julho de 2020

As Panteras

Em seu formato originário de série de TV, “As Panteras” seguia –até por imposições orçamentárias –uma linha mais detetivesca e investigativa. Quando foi vertido para o cinema no ano 2000, estrelado por Cameron Diaz, Drew Barrymore e Lucy Liu e dirigido por McG, “As Panteras” adquiriu escopo mais extravagante e assimilou uma miríade de referências cinematográficas de sua época (algumas pouco apropriadas ao seu próprio material) como lutas de kung-fu ao estilo “Matrix” (!) e todo o arsenal visual e estilístico de seu um tanto histriônico diretor. Ainda assim, seu sucesso rendeu uma continuação em 2003.
Já passados quase vinte anos daquele esforço inicial, “As Panteras” voltam a dar as caras no cinema, desta vez dirigidas pela também atriz Elizabeth Banks que aproveitou a oportunidade para agregar novas atitudes comportamentais à nova obra, relativas, como não poderia deixar de ser, ao contundente movimento de empoderamento feminino, a exemplo do recente “Aves de Rapina”.
As novas Panteras são ainda mais audaciosas, independentes e auto-suficientes em relação aos homens do que suas antecessoras, e caso não tenha ficado bem claro, isso já é explicitado no diálogo da cena inicial –ambientada no Rio de Janeiro, olhe só! –entre a personagem de Kristen Stewart e um alvo qualquer.
Kristen Stewart, por sinal, é uma das boas surpresas do filme: Enérgica, eufórica e incontrolável, sua personagem, Sabina, não lembra em nada a caracterização sorumbática que ela dá à protagonista Bella, de “Crepúsculo”.
Junto dela, está também a eficiente agente de campo Jane, vivida pela deslumbrante Ella Balinska.
Completando o trio principal, está Elena, interpretada pela maravilhosa Naomi Scott, conhecida da diretora Banks desde que trabalharam juntas no set de “Power Rangers”. Naomi, ou melhor, Elena é o que se pode chamar de protagonista do filme: A narrativa adota sua ótica subjetiva para, na maior parte do tempo, mostrá-la adentrando e descobrindo esse novo mundo. Elena é uma das brilhantes programadoras que trabalha na empresa milionária de seu patrão, o Sr. Brok (Sam Claffin, que trabalhou com a diretora Banks no set de “Jogos Vorazes-Em Chamas”). Inteligente, Elena descobre um pequeno problema colateral na nova e revolucionária tecnologia que Brok irá revelar ao mundo: Ao mesmo tempo em que é um programa capaz de operar em qualquer mainframe, é também capaz de gerar um poderoso pulso eletro-magnético tão forte que pode matar vidas humanas.
Inicialmente, ela tenta alertar seus superiores sobre isso –e é reprimida naquele tipo e encenação padrão que gosta de sublinhar a avareza e a insensatez masculina.
Depois, de posse de um cartão da Agência Towsend (que representa as Panteras), Elena contata os famosos investigadores (ou investigadoras) e, nesse processo, descobre que sua vida está em perigo.
Agora, na qualidade de ‘pantera em treinamento’, Elena terá de contar com Sabina e Jane, além da chefe Bosley (a própria diretora Banks, num papel pela primeira vez interpretado por uma mulher), para impedir misteriosos mal-feitores de vender o programa dotado do poder de matar no mercado negro de armas.
Tal e qual foi tentado nos filmes de 2000 e 2003, este novo “As Panteras” assume ares de filme grandioso de ação, e sua trama adquire reflexos condicionados dos thrillers de espionagem pós-modernos, como “Missão Impossível” (também ela uma série televisiva convertida em série cinematográfica) e “007”. Nessa reafirmação convicta de gênero, “As Panteras” apresenta os cacoetes de sempre –locações européias refinadas (começando em Hamburgo, na Alemanha, e daí para frente), cenas de perseguição e tiroteio, bugigangas tecnológicas e sequências de luta empenhadas num rigor físico coreografado –contudo, sai-se muito bem no resultado porque a direção de Elizabeth Banks é mais competente, equilibrada e sensível que a do histérico McG, e porque suas três protagonistas encontram facilidade em fazerem-se maravilhosas: A dinâmica de provocações verbais, camaradagem e rivalidade entre Kristen Stewart e Ella Balinska é um divertimento só, e Naomi Scott está encantadora e sensacional na pele da aprendiz de Pantera, para quem esse mundo novo de espionagem que se descortina à sua frente é quase como um clube restrito e exclusivo ao qual ela teve a sorte de ser convidada.
Um ponto interessante no filme de Elizabeth Banks é que ele reconhece todas as obras relativas às Panteras –desde o seriado dos anos 1970 e 80, até os filmes dos anos 2000 –como sendo parte do mesmo universo: E por isso, há em alguns momentos, referências aos filmes e à série, sobretudo, nas divertidas cenas pós-créditos, que contam entre outras com a participação de uma das panteras originais Jaclyn Smith.

quarta-feira, 31 de julho de 2019

A Minha Casa Caiu

A atriz Elizabeth Banks é o tipo de profissional que ocupou Hollywood pelas beiradas. Sem consolidar-se como estrela, ela foi galgando papéis menores de coadjuvante em boas produções até ganhar algum destaque; uma de suas primeiras aparições foi na “Trilogia Homem-Aranha”, de Sam Raimi, no papel de Betty Brant, ela apareceu também em “Seabiscuit-Alma de Herói”, e vários outros filmes depois, até descolando protagonismo em alguns, como “W”, de Oliver Stone.
Embora seja bastante lembrada pela Effie Trinket, de “Jogos Vorazes”, ou pela Rita Repulsa, de “Power Rangers”, muitos a associam ao gênero de comédia, talvez pelas participações (menor) em “O Virgem de 40 Anos” e (maior) em “Pagando Bem Que Mal Tem”.
É essa faceta comediante –nunca devidamente justificada, verdade seja dita –que a atriz tenta empurrar ao público nesta sua primeira tentativa em segurar um filme inteiro nas costas, como estrela de fato.
Para exercer a função que exerce (a de veículo para sua protagonista), o filme é definido por clichês: Elizabeth interpreta Meghan Milles, âncora de telejornal que disputa uma vaga num canal de maior expressão.
É perfeitamente previsível sua desilusão para com esse intento (ela perde a vaga) e, na sequência, a decisão de mandar às favas o obstinado papel de boa moça para extravasar numa noitada com as amigas –incentivada, ainda por cima, pelo súbito rompimento com o noivo.
Assim como é também previsível a reviravolta na manhã seguinte, quando deve voltar à emissora para ser reavaliada e tentar uma nova chance para obter o emprego de sua vida. Entretanto, Meghan acorda no apartamento de um estranho (vivido por James Marsden, o Ciclope da primeira geração dos “X-Men”), com uma irrisória minissaia amarela –na qual todos a tomam por garota de programa (!) –no meio de um bairro suburbano, sem carro (foi guinchado), sem celular (ela esqueceu dentro do apartamento do dito cujo) e sem dinheiro.
O objetivo de Meghan –que nem fica muito claro assim –neste arremedo feminista e bem menos coerente de “Depois de Horas”, de Martin Scorsese, é encontrar um meio de singrar esse subúrbio cheio de encrencas a espreitar a cada esquina, e chegar até a emissora de TV em tempo hábil e com a sua imagem de boa moça intacta; tarefas que, ao longo do filme, é igualmente previsível que Meghan encontrará sucessivas dificuldades em cumprir.
Embora Elizabeth Banks, e até mesmo o simpático James Marsden, levem jeito para comédia, nenhum deles rende satisfatoriamente aqui, em grande parte porque a narrativa força uma alternância cândida entre um humor aflitivo e uma simpatia agridoce no objetivo de chegar a um desfecho cheio de moralismo –e eis aí outro ponto previsível.
Indo de encontro a tantas boas intenções, o filme do diretor Steve Brill se esquece de provocar o expectador com aquele saudável ímpeto de atrevimento e certa rebeldia que configuram as entrelinhas nas premissas de algumas das melhores comédias desse estilo –aquele no qual os protagonistas precisam passar por toda uma odisséia frequentemente surreal para chegar bem-sucedidos e vitoriosos do outro lado, e no processo fazer rir ou pensar (ou ambos). Dessa categoria fazem parte, além de “Depois de Horas”, o ótimo “Não Tenho Troco”, de Bill Murray.
Percebe-se assim que, na comparação, o raso filme estrelado por Elizabeth Banks fica num saldo bem negativo.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

O Mistério das Duas Irmãs


Nesta refilmagem do sul-coerano “Medo”, imbuída de toda a redundância que o cinema americano volta e meia consegue evocar, é possível adivinhar, com alguma atenção, o grande plot-twist do filme já nos seus primeiros minutos: É praticamente a mesma reviravolta que ocorre, por exemplo, no clímax de “Boa Noite, Mamãe”.
Diante disso, o suspense e a tensão engendrados pela narrativa disputam uma batalha desde sempre perdida.
Anna (Emily Browning, de “Sucker Punch” e “Desventuras Em Série”) volta para casa após uma temporada num hospital psiquiátrico; o motivo logo é descortinado: A morte trágica de sua adoentada e combalida mãe em um incêndio.
Ao chegar e reunir-se com sua irmã Alex (a bonitinha Arielle Kebbel, de “Todas Contra John” e “American Pie-Tocando A Maior Zona”), Anna descobre que seu pai (David Strathairn) seguiu em frente e enamorou-se de Rachel (Elizabeth Banks), a própria enfermeira de sua mãe –o que deixa as duas irmãs com um gosto amargo na boca em relação a esse relacionamento.
Elas aproveitam seu tempo livre para reunir indícios, um tanto subjetivos (e não saber ocultar isso é um dos pecados da narrativa), de que Rachel pode não ser a pessoa confiável que aparenta.
Enquanto isso, Anna é frequentemente assediada por aparições que parecem ser espíritos mortos –o de sua mãe e outras vítimas que se incluem em sua investigação.
Uma vez que não assisti, eu não sei dizer até que ponto a trama deste filme corresponde à do filme original (que é considerado superior com unanimidade acachapante, e eu não duvido disso), mas o trabalho na direção dos estreantes The Guard Brothers, Charles (marido da atriz Felicity Jones) e Thomas, de certa forma negligencia a clareza de sua premissa sobrenatural –que eles próprios parecem desdenhar –para seguir um estilo que estranhamente se aproxima da abordagem de Stanley Kubrick em “O Iluminado” –a de que os fantasmas não passam de tormentos da mente –lembrando que essa postura ia contra o que o próprio autor Stephen King imaginava.

sexta-feira, 22 de junho de 2018

O Idiota do Meu Irmão


Ned acabou de cumprir uma pena de oito meses –por vender maconha à um policial!! –e, na sua reintegração à sociedade conta com a solidariedade oscilante de suas três irmãs: A obstinada e calculista Miranda (Elizabeth Banks), para quem a carreira de escritora parece importar mais do que o relacionamento sempre protelado com o melhor amigo e vizinho Jeremy (Adam Scott); a dona de casa Liz (Emily Mortimer) que se esforça para ignorar o casamento quase em frangalhos com o insensível Dylan (Steve Coogan); e a indecisa Natalie (Zooey Deschannel) cujo envolvimento lésbico com Cindy (Rashida Jones) é seriamente abalado por uma escapadela com Christian (Hugh Dancy).
Ao seu jeito descontraído, boa praça e sem noção, Ned consegue, sem querer e na melhor das intenções, virar de pernas pro ar a situação de cada uma das irmãs –e, na composição cheia de inspiração que recebe, Ned é um personagem ao qual o ótimo (mas, nem sempre bem aproveitado) ator Paul Rudd dedica toda sua primorosa verve cômica.
Seguindo uma linha que em muito se parece com o estilo solto e rico em improvisação de Judd Apatow (com a câmera sempre centrada no ator para que ele use e abuse de sua autonomia para com os diálogos), o diretor Jesse Peretz faz não apenas seu ator principal, mas todo o seu elenco se sentir no ápice do conforto em cena. O resultado disso é que as cenas encadeadas num roteiro tão harmonioso quando instintivamente certeiro se tornam perólas que unem a sensibilidade ao timing cômico.
É quase uma crônica de costumes na maneira com que justapõe muitas situações entre vários personagens interligados pelos laços familiares –e invariavelmente capitaneadas por Ned, um dos mais carismáticas personagens da comédia norte-americana dos últimos tempos –e na junção de um time de excelentes atores, plenos de espontaneidade.

terça-feira, 4 de julho de 2017

Power Rangers

A gênese da série “Power Rangers” foi das mais picaretas: Basicamente, a produtora Saban adquiriu os direitos de exibição daqueles seriados japoneses, como “Changeman” –que chegou a ser exibido no Brasil em meados dos anos 1980 –e, naquela mania norte-americana de tentar evitar material estrangeiro, fizeram uma espécie de “adaptação”; as cenas de diálogos, nas quais a trama era inserida e o elenco principal era mostrado, foram substituídas por um elenco americano no melhor estilo “Malhação”, enquanto que as cenas que envolviam ação, lutas, e efeitos especiais foram mantidas –recurso possível porque os heróis japoneses sempre usavam máscaras que lhes escondiam todo o rosto. O resultado era uma colagem quase sempre mambembe e desvairada –“Power Rangers” desenvolvia assim histórias próprias e um bocado descerebradas.
Essa tática extremamente barata garantiu longevidade à série e, nesse processo, dezenas de seriados com super-heróis japoneses foram reciclados.
O tempo passou e “Power Rangers”, apesar de toda sua aura fuleira, virou objeto de nostalgia.
Isso serve mais ou menos para chegarmos ao longa-metragem para cinema, lançado em 2017 –ele não é o primeiro: Quando a série ainda era exibida, nos anos 1990, foi realizado um longa-metragem para cinema com o elenco original, ligeiramente superior à série, o quê, convenhamos, não quer dizer muita coisa...
Mas, com este novo filme as coisas são diferentes.
Os personagens, a trama e a mitologia que criou-se em torno da série ganham aqui um respeito que o produto original nunca fez por merecer.
Dirigido com disposição por Dean Israelite o filme compensa a condução de atores frouxa e afetada com uma técnica narrativa sempre admirável: O filme já se inicia com dois momentos muito interessantes; o prólogo que rapidamente estabelece a história de Zordon e os ‘rangers’ e a cena seguinte onde a câmera registra um acidente de dentro do carro e realiza diversos giros de 360 graus.
A trama que segue a partir daí depõem a favor do bom-senso de seus realizadores que usaram da mais palatável dentre todas as referências cinematográficas para esse tipo de filme –“O Clube dos Cinco”, de John Hugues.
As semelhanças são até gritantes: Começa em uma sala de detenção (até o cenário lembra bastante o filme de Hugues!), e trata então de apresentar seus personagens –o esportista descolado, Jason (Dacre Montgomery); a patricinha rejeitada pelas outras, Kimberly (Naomi Scott); o nerd inteligente, divertido e vítima eventual de bulliyng, Billy (RJ Cyler). Aos três, mais tarde, somam-se o rebelde descendente de orientais Zack (Ludi Lin) e a desajustada Trini (Becky G).
Juntos, eles encontram a nave na qual as informações acerca dos ‘rangers’ –assim como o espírito de Zordon (Bryan Cranston), nela confinado –irão lhes revelar o destino heróico que lhes aguarda.
Era de se supor que a presença dos mais veteranos Bryan Cranston e Elizabeth Banks (como a carnavalesca vilã Rita Repulsa) compensasse a inexperiência dos atores mais jovens, contudo, ao invés de solidez, eles ostentam o mesmo desleixo.
Mas, o filme, verdade seja dita, beneficia-se de uma expectativa bastante amena em relação ao projeto –quem em sã consciência, mesmo que aficcionado em “Power Rangers” na infância –encararia o filme esperando uma obra-prima?
Do jeito como está, o trabalho de Israelite, embora não escape de algumas falhas pontuais (ritmo apressado em muitos momentos, caracterização afetada, edição irregular), é muito bom: É o tal caso em que os acertos compensam amplamente os erros.

domingo, 22 de novembro de 2015

Jogos Vorazes - A Esperança Parte Final

E então chegou a hora. Chegou da hora de descobrir qual será o desenlace da guerra que irá transformar Panem para sempre.
Chegou a hora de sabermos para qual lado penderá o coração de Katniss: se para o lado de Peeta, o garoto com quem ela sobreviveu aos Jogos Vorazes no primeiro filme, e ao Massacre Quaternário, no segundo, e que no terceiro viu ser transformado numa arma para matá-la; ou se para o lado de Gale, o seu melhor amigo, com quem ela aprendeu a caçar para alimentar a mãe e a irmã, e que era a única pessoa em quem ela confiava, pelo menos, até ser levada para os Jogos, e tudo então se transformar.
Chegou, afinal, a hora de acompanharmos esses personagens, e cada um de seus percalços nos últimos passos de sua trajetória.
Tantas são as tramas, tantas são as emoções herdadas de todos os filmes anteriores, que é quase impossível este aqui não ter uma atmosfera toda especial, e o diretor Francis Lawrence parece ter completa consciência disso: Cada enquadramento, cada cena é um esforço de pura minúcia em fazer desta uma obra condizente com sua fonte literária: Os livros escritos por Suzanne Collins, relatando a saga da menina Katniss Everdeen, com emoções vivazes, uma conscientização inédita de seu público em relação às mazelas do mundo ao seu redor, e uma dedicação rigorosa ao critério da necessidade: Tudo, absolutamente tudo está ali a serviço da história, e Suzanne Collins não tem dó de sacrificar seus personagens (mesmo os mais queridos), nem as emoções do público, em nome desse princípio.
Nos vinte minutos finais, o filme parece nos lembrar (em pequenos e preciosos detalhes) que “Jogos Vorazes” está chegando ao seu fim: Não mais veremos Katniss outra vez (e na interpretação cheia de força e de vida de Jennifer Lawrence, essa constatação ganha ainda mais tristeza); não mais veremos Josh Hutcherson interpretar Peeta Melark (e, talvez, por perceber isso, aqui, o ator finalmente dá ao personagem toda a energia que ele merecia). Este filme, é portanto, a despedida de todos eles. Gale Hawthorne, Effie Trinket, Haymitch, Prim, Finnick. Todos aqueles cujos destinos acompanhamos no coração dessa revolução.
A câmera de Francis Lawrence enlaça seus personagens, num ritmo todo particular, como se o diretor fosse incapaz de deixá-los partir para sempre.
Ao fim, após tantas cenas poderosamente tensas, de perigos desconcertantes, e sensações atrozes, ele escolhe encerrar seu filme em família, lembrando-nos aquilo que é mais precioso.

Não poderia ser melhor.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Jogos Vorazes - A Esperança Parte 1

Os Jogos Vorazes ficaram para trás. Katniss Everdeen sobreviveu à brutal arena do filme anterior às custas de sua quase morte. Retomando de onde a história foi interrompida, o filme mostra as repercussões do ataque da Capital sofridas sobretudo no Distrito 12. 
Panem agora está em guerra. De um lado, estão os rebeldes, liderados pela presidente Coin do até então extinto Distrito 13, que têm em Katniss, o seu grande símbolo. Do outro, a Capital, controlada pela mão de ferro do presidente Snow, que irá valer-se do precioso prisioneiro Peeta, para tentar desacreditar a rebelião e desestabilizar Katniss. Mas ela precisa assumir seu papel no confronto, caso contrário o futuro de todos aqueles que ama pode acabar condenado. 
Terceira parte da famosa saga juvenil, já preparando o terreno para seu grande desfecho. 
O roteiro de Danny Strong apresenta maturidade e austeridade notáveis para um filme de apelo jovem, e o artifício de repartir o último livro em dois filmes (a exemplo de “Harry Potter” e “Crepúsculo”) deu autonomia para trabalhar de forma detalhista cada meandro da trama, sem pressa nem omissões. O resultado é dos mais interessantes. 
Nesse sentido, o bom trabalho do diretor Francis Lawrence (que mostrou-se excelente no filme anterior) consegue finalmente ir além do livro, dando realce narrativo, puramente cinematográfico, à cenas que poderiam ser banais ou sub-aproveitadas: E o exemplo mais perfeito talvez seja a arrepiante cena em que a música “A Árvore-Forca” é cantada. 
Neste terceiro e vigoroso episódio, a série enfim engloba elementos que vinha ensaiando desde seu início, com certa timidez. Mas agora, as sequências podem emular cenas que vão de influências tão distintas e viscerais quanto “Falcão Negro Em Perigo” (as cenas de batalha são de um requinte criterioso) à “1984 de Orwell” (a opressão do estado, e  poder da mídia da manutenção dessa mesma ordem), o quê é um feito e tanto quando lembramos que esta é, em princípio e em essência, uma saga para jovens. 
E a atriz Jennifer Lawrence continua surpreendendo com seu imenso talento.

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Jogos Vorazes - Em Chamas

Seis meses após ter vencido os Jogos Vorazes, Katniss Everdeen tem um novo desafio pela frente: encarar o "tour da vitória" que a levará pelos distritos de Panem, e durante o qual ela terá de encenar o romance fictício que tinha iniciado em plena arena com o jovem Peeta para que saissem vivos. Para o maquiavélico Presidente Snow tal encenação é fundamental: a própria Katniss é um símbolo vivo da iminente revolução que se desenha em Panem, e provar, em frente às câmeras que ela é subserviente à Capital, tornou-se uma necessidade urgente. Caso contrário, ele precisará livrar-se dela, valendo-se do vindouro Massacre Quaternário. 
A continuação primorosa de “Jogos Vorazes” beneficiou-se, e muito, da troca de diretores: Saiu o realizador do primeiro filme, o razoável Gary Ross, e entrou Francis Lawrence, de filmes como “Eu Sou A Lenda”, “Constantine” e “Água Para Elefantes”. Apesar de seu currículo ainda modesto, bastante inclinado para filmes comerciais pouco memoráveis, ele trouxe uma noção de ritmo mais apurada para a saga, tendo a sensatez de reproduzir a identidade visual que Ross imprimiu ao primeiro filme, deixando claro que são, a rigor, um só filme dividido em capítulos, e acrescentou um acabamento visual mais elaborado, ressaltando tudo o quê funcionou no primeiro (muita coisa) e deixando de lado aquilo que não deu certo (pouquíssimas coisas). 
A reunião de talentos para trabalhar no roteiro também foi particularmente feliz neste episódio: Os produtores chamaram dos roteiristas prestigiados e oscarizados: Simon Beaufoy (de “Quem Quer Ser Um Milionário?”), e Michael Abndt (de “Pequena Miss Sunshine”, usando aqui o pseudônimo de Michael DeBruyn). E eles souberam capturar magnificamente as importâncias de determinados momentos da narrativa, enfatizá-las e dispô-las ao longo do filme, dando um andamento primoroso (o mais bem acertado da saga até agora), o que pode ser visto como um milagre em se tratando do fato de que este é o capítulo do meio, ou seja, sem um prólogo e sem um desfecho. 
Todo esse esforço serviu para moldar um dos melhores filmes adolescentes dos últimos anos, uma saga juvenil com pinceladas de inteligência política abrilhantada pela magnífica presença da estrela Jennifer Lawrence.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Jogos Vorazes

Quero fazer uma recapitulação dessa saga, agora que a quarta e última parte se aproxima de sua estréia nos cinemas. 
Gosto muito da saga, não apenas porque sou fascinado pela trama dos livros, ou porque ela é bem-feita de fato, mas também porque a série onde conhecemos a personagem de Katniss Everdeen é onde o mundo descobriu também sua intérprete, a pra lá de fantástica Jennifer Lawrence (por mais que ela tivesse uma indicação ao Oscar pelo anterior “Inverno da Alma”). 
No futuro, Panem é a nação que outrora foi a América do Norte. Agora controlada pela Capital e dividida em doze distritos pobres, Panem é palco de um reality show mortal: os Jogos Vorazes. Cada ano, os doze distritos devem sortear um casal de adolescentes a serem enviados numa arena artificial a céu aberto onde devem lutar até que sobre só um, assistidos por todo o país. Em meio a essa opressão, a jovem Katniss Everdeen, de 16 anos, se oferece para tomar o lugar de sua irmã menor quando esta é sorteada. Katniss tem a seu favor o fato de saber manusear arco e flecha –forma com a qual provia sua família após a morte de seu pai –e a titubeante aliança do garoto Peeta. Contra ela, porém, estão todos os outros jovens competidores, que não irão hesitar em matar uns aos outros. 
Lembro até hoje do quanto fiquei fascinado com essa premissa muito antes de sair o filme: Quando ela ainda era somente o livro escrito por Suzanne Collins. Enérgico, brutal e sentimental, “Jogos Vorazes” era um sopro de ar fresco em meio às histórias tão batidas saídas de sagas infanto-juvenis: A melhor delas, “Harry Potter” já tinha se encerrado após sete livros (e oito filmes), e todos os que possuíam bom gosto ainda eram assombrados por um certo “Crepúsculo”. 
A promessa de “Jogos Vorazes” portanto era algo até meio inédito: Uma saga juvenil, mas com elementos políticos e distópicos, interessante e pertinente o suficiente para interessar a adultos também. 
Pena que o filme, quando por fim foi lançado, revelou-se mais fraco do que se supunha; algo normal em se tratando de adaptações literárias. 
A verdade era que o diretor, Gary Ross, embora não tenha feito um trabalho ruim, foi negligente com muitos dos elementos fundamentais do livro: Ele reduziu (para não dizer, removeu completamente!) a história de Peeta e do pão, o que deixou sem embasamento muito das motivações do personagem e até mesmo da própria Katniss. Alterou (ou amenizou) o comportamento de muitos personagens, como Haymitch e Effie, e no lugar disso, acrescentou coisas desnecessárias, como várias cenas mostrando a atuação de Seneca Crane, como idealizador dos Jogos. Essa idéia podia até ter rendido mais, mostrando desdobramentos da trama que a narrativa em primeira pessoa do livro não podia mostrar, mas do modo como foi feito, todas essas cenas ficaram simplesmente redundantes. 
Por sorte, haviam muitas coisas boas: O elenco, de modo geral, é fantástico (o quê dizer da interpretação de Jennifer Lawrence, na medida certa para viver Katniss!), o desenho de produção é deslumbrante nos mais diferentes aspectos e o filme conservou força suficiente da história do livro. 
E as coisas estavam prestes a melhorar (e muito) no segundo filme.