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terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

Micmacs - Um Plano Complicado

Em todos os projetos que realizou antes e depois –a despeito dos resultados francamente notáveis em muitos deles –parecia que o diretor Jean-Pierre Jeneaut sempre perseguiu um tom e um equilíbrio entre seu visual sempre arrojado e uma narrativa lúdica, criativa e peculiar aos quais ele só chegou de fato em “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain”.
Nota-se com perfeição essa aspiração em “Micmacs”.
O comediante francês Dany Boon interpreta Bazil cuja infância melancólica na qual perdeu o pai, soldado, para uma mina terrestre (!), foi sucedida por uma vida adulta marcada pela ocasião em que levou um tiro na própria testa (!!).
Bazil, contudo, não morreu: Entre remover-lhe o projétil da cabeça (condenando-o a uma vida vegetativa) e mantê-lo lá (sob o risco de morrer a qualquer momento), os médicos optaram pela segunda alternativa –e, desde então, o stress e a tensão em níveis exorbitantes disparam cacoetes imprevisíveis que o pobre Bazil lança mão de técnicas um tanto bizarras para controlar.
Após um período como morador de rua, Bazil conhece o velho Cadeia (Jean-Pierre Marielle) que lhe apresenta um grupo muito curioso (como é curioso tudo que cerca esse estranho universo onde Jeneaut ambienta seus filmes): Os moradores de um esconderijo num ferro velho, especialistas em reciclar todos os tipos de material. Há o homem-bala aposentado cujo mérito ele teve o infortúnio de jamais ver reconhecido (Dominique Pinon, quase um ator-assinatura de Jeneaut); a mulher contorcionista cuja personalidade é, também ela, toda tortuosa (Julie Ferrier, de “O Que As Mulheres Querem”); o rapaz com aptidão para escrita (Omar Sy, de “Intocáveis”); a jovem hábil com números (Marie-Julie Baup); e a maternal dona de casa que une toda essa trupe como uma família (Yolande Moreau).
Ao lado de todos eles, Bazil irá empreender uma cruzada improvável: Executará um plano mirabolante para voltar uma contra a outra, duas grandes empresas especializadas na fabricação de armamentos (uma delas, responsável pela mina terrestre que fulminou seu pai; a outra, fabricante da arma que alvejou sua mente).
É dessa forma que Jeneaut parece fazer assim uma espécie de crítica à indústria armamentista e aos seus inevitáveis tentáculos insidiosos. Contudo, como sua crítica vem atrelada ao fantasioso de sua marca registrada, a contundência de sua mensagem de dilui na atmosfera onírica, na graça farsesca e na aparência de desenho animado que subtrai do filme qualquer seriedade.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Intocáveis

Não há qualquer presunção em “Intocáveis” –não confundir com o clássico moderno de Brian De Palma, cujo título vem com artigo –a não ser a de contar uma história emocionante.
Nesse gesto, ele nos relembra a necessidade primordial do cinema.
Todavia, tão bem realizado é o trabalho de seus diretores, Eric Toledano e Olivier Nakache, e tão genuína e salutar é a química dos dois atores, Omar Sy e François Cluzet, que a crítica diante da excelência do filme e de seu avassalador sucesso de público foi lá procurar caroço em angu: Até mesmo afirmaram que “Intocáveis” era uma análise das atuais divisões de classe da França.
O filme até se presta a essa observação –fruto de um trabalho admirável onde os diretores enraizaram seu projeto nos desdobramentos da realidade em que se passa (afinal, esta é também uma obra baseada em fatos reais) –entretanto, uma de suas características mais divertidas é mesmo sua transparência ideológica: Não existem metáforas, analogias ou sínteses na história de Driss (o fantástico Omar Sy), um imigrante vindo do Senegal, em Paris, cujas esperanças se resumem a permanecer no gueto e viver, enquanto puder, de seu seguro desemprego –que ele garante com as assinaturas dos empregadores que o recusam paulatinamente.
Daí alguma surpresa (além de certa relutância em ter de arregaçar as mangas) quando ele é aceito como enfermeiro particular de um milionário tetraplégico, o pouco usual Phillipe (François Cluzet), que enxerga nele uma forma de afastar-se das pedantes companhias de enfermeiros treinados.
E, de fato, é isso que Driss é: Alguém que, em seu despreparo, não consegue tratar Phillipe com comiseração, tato excessivo e indulgência, mas que a ironia e a rudeza com a qual ele lida com todo mundo –um hábito adquirido da vivência impiedosa das ruas. Com o tempo e alguma adaptação –Driss desconhece por completo os procedimentos médicos que a condição de Phillipe exige, assim como sua personalidade autoritária (que ele logo ironiza) e sua rotina organizada e metódica (que ele trata de contestar) –ao longo de diversas situações inesperadas e engraçadas (ou, talvez, em razão delas!) uma bela e inusitada amizade aflora. O enorme sucesso de bilheteria na França (êxito, aliás, repetido no resto do mundo) é prova inconteste da habilidade intrínseca dos realizadores (detalhe que, espero, seja assimilado e compreendido por aqueles que se atreverão a fazer a inevitável versão hollywoodiana) para moldar este descontraído e agradável misto de comédia e drama.
Volta a meia o cinema precisa de filmes irresistíveis, feitos com um toque proporcional de simpatia e maestria como este para lembrar mesmo ao mais sisudo dos cinéfilos que são estas as obras mais essenciais.
A mais genuína arte.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Inferno

O escritor Dan Brown criou uma fórmula, e dela se valeu para construir seus sucessos. Uma trama de suspense, tão rocambolesca que flerta com o inverossímil. Um repertório bastante interessante e francamente admirável de elementos históricos pesquisados a fundo e tão entranhados na trama mirabolante que fica difícil discernir o que é invenção fictícia do autor e o que é fato espantoso.
E seu protagonista: O cuidadosamente descuidado especialista em simbologia (e especialista em atrair para si os mais inacreditáveis apuros!) professor Robert Langdom –interpretado, em todos os três filmes até aqui, com tranqüilidade até excessiva por Tom Hanks.
A história de “Inferno” (na ordem de livros estrelados por Lagdom, diferente dos filmes, este já é o quarto), a fim de oferecer um ligeiro diferencial na trama –nas quais basicamente, Langdom é sempre recrutado para usar seus dons privilegiados de decifrador de símbolos para achar pistas ocultas nas mais diversas obras da antiguidade –começa quando Langdom concorda em um hospital, com um ferimento na cabeça e a memória toda embaralhada.
Suas roupas estão ensangüentadas e, embora se recorde de estar nos EUA, ele se encontra em Florença, na Itália.
A única pessoa que parece oferecer-lhe auxílio é a jovem médica que o atendeu, Dra. Sienna Brooks (a linda Felicity Jones, de “Rogue One”, tão no piloto automático quanto Tom Hanks) e, tal e qual todas as jovens bonitas dos outros filmes, ela passará quase toda a duração deste correndo alucinadamente ao lado do personagem de Hanks.
Como de praxe, há personagens ainda nebulosos e de intenções misteriosas no encalço de Langdom (são eles, o talentoso francês Omar Sy, de “Intocáveis”, a dinamarquesa  Sidse Babett Knudsen, e o indiano Irrfan Khan, talvez a melhor presença do elenco).
Como é mais de praxe ainda, ele logo estará decifrando uma série de enigmas cuja solução faz repousar sobre seus ombros –e dele fazer, afinal, o herói da história –a responsabilidade de salvar assim, milhares de vidas.
Regendo todos esses elementos que, somados e intensificados gradativamente ao longo dos cento e vinte e dois minutos de filme viram quase um samba do crioulo doido (!), está o oscilante diretor Ron Howard, um veterano que ora faz trabalhos de insuspeita maestria (caso de “Apollo 13”, com o próprio Hanks, “Uma Mente Brilhante”, “Frost/Nixon” ou “Rush-No Limite da Emoção”), ora realiza produções nas quais perde a mão, exagerando em vários quesitos (caso de “No Coração do Mar”, “O Código Da Vinci” e todas as suas seqüências até este daqui).
Howard adapta com relativa fidelidade a obra de Dan Brown, mas esquece de preservar o elemento que a faz antológica: Não é soma de todas as melindrosas peças de seu intrincado quebra-cabeça (cujo excesso de detalhes, já no terço final do filme começa a cansar e a irritar o expectador), mas na verdade o clima de deliciosa furtividade que ele obtém desta e daquela cena, sucessivamente, por meio das quais a trama vai avançando. Em prol de encapsular o máximo possível do livro, Howard sacrifica esses pequenos momentos inspirados e termina com um todo formulaico, apressado e esquizofrênico.
Alfred Hitchcock, em suas brilhantes obras de antigamente, soube fazer muito, muito melhor.

sexta-feira, 20 de maio de 2016

X-Men Dias de Um Futuro Esquecido

Num obscuro futuro para a raça mutante, os robôs sentinelas já dizimaram quase toda a população da Terra, restando a Charles Xavier e Magneto (os veteranos Patrick Stewart e Ian McKellen), reunir os remanescentes x-men para um último e desesperado recurso: valer-se do poder da jovem Kitty Pride (Ellen Page) para enviar Wolverine (Hugh Jackman, sempre impecável) ao passado, onde ele deve entrar em contato com o então jovem Prof. Xavier (James McAvoy), e juntos impedir o atentado que deflagrou aquele futuro terrível, o assassinato do inventor Bolivar Trask (Peter Dinklage, de "Game of Thrones") pelas mãos da transmorfa Mística.
Após dez anos, Bryan Singer volta a sentar na cadeira de diretor, e honrando um legado que ele mesmo ajudou a criar, elabora uma trama que une passado e presente na qual os mutantes têm uma chance de fazer algo que todos nós, de um modo ou de outro, ansiamos como seres humanos: reescrever a história a nosso próprio favor.
Quem nunca pensou em voltar para salvar Martin Luther King de ser assassinado? Ou John Lennon? Ou deter Hitler, e o nazismo?
Neste filme soberbo Wolverine é obrigado a lidar com isso na prática quando é enviado pelos velhos Xavier e Magneto a encontrar, nos anos 1970, suas contrapartes jovens, promovendo assim o encontro da série original com os novos integrantes de “X-Men Primeira Classe”.
O resultado é de encher os olhos, graças ao impecável minimalismo cinematográfico do diretor Bryan Singer, ainda que o roteiro contenha furos homéricos que comprometem muito a suposta continuidade entre este novo filme e a primeira trilogia. Nesse sentido ele pode ser um pouco falho como continuação, mas como cinema, porém, é um senhor entretenimento.

Embora pareça ser Wolverine, é Jennifer Lawrence, como Mística, o verdadeiro catalisador do filme, impressão, aliás, que parece se reforçar nos trailers do vindouro "X-Men Apocalypse".
Aguardaremos para ver...

domingo, 26 de julho de 2015

Jurassic World - O Mundo dos Dinossauros

Assistir um filme é uma questão de circunstância. Melhor, GOSTAR (ou conforme o caso até ODIAR) é uma questão de circunstância. Já me vi em situações em que detestei um filme que todos amavam e diziam ser excelente (como "Além da Linha Vermelha" ou "Dogville") ou acabei adorando um filme que todos diziam ser ruim (como o sueco "Guerreiro Silencioso").
Talvez, esse não seja o caso de "Jurassic World", já que o filme parece estar agradando a muita gente -esta semana entrou para terceira posição entre as maiores bilheterias de todos os tempos (!!!).
Mas, muitos amigos meus disseram que era um filme ruim, que não gostaram, e que provavelmente, eu não iria gostar. Assim, foi com a expectativa baixíssima -mais um sentimento de adoração em relação ao original de Steven Spielberg -que eu fui ver o filme numa de suas últimas sensações antes de sair de cartaz.
E, olha... ouso dizer que até me diverti bastante!
Não é um filme perfeito. Não é, nem por um decreto, o melhor blockbuster do ano (honra que por enquanto parece estar sendo disputada apenas por "Mad Max-Estrada da Fúria" e "Homem-Formiga"). E, certamente, não é melhor que o "Jurassic Park", de Spielberg, que inacreditavelmente foi feito lá atrás, em 1993, e permanece insuperável! E o próprio filme parece saber disso...
As suas referências ao trabalho de Spielberg (aqui como produtor executivo) são inúmeras e até emocionantes, como a aplicação sensata e nostálgica da bela trilha sonora de John Willians, incrivelmente desperdiçada nas duas inferiores continuações; ou a "participação especial" de pequenos objetos de cena, tais como a camisa vintage de um dos funcionários, o capacete de visão noturna e o jipe antigo que surge numa cena.
São detalhes interessantes, mas que no fim não determinam se o filme é bom ou ruim. O que o faz é o trabalho do diretor, e aqui Colin Trevorrow, se não é genial, ao menos, faz tudo com bom senso: acrescenta ritmo à narrativa, enxuga, na medida do possível, todas gorduras do roteiro, e utiliza muito bem a câmera para que a generosa produção apareça esplendidamente na tela.
É um filme para ser visto no cinema. Daqueles que, muito possivelmente, quando eu rever em DVD, perceberei que não era tão empolgante assim.
Enfim, como eu falei: Assistir filmes é uma questão de circunstância.