quarta-feira, 5 de agosto de 2026

O Diabo Veste Prada 2


 Como (ou por que) fazer uma continuação de um filme que, em si, já era uma obra enxuta, fechada e redondinha? É essa pergunta que “O Diabo Veste Prada 2” tenta responder cerca de 20 anos depois do filme original observando um viés bastante pertinente nas circunstâncias atuais – e que representa uma espécie de desafio temático para muitos realizadores – o fato irreversível de que o mundo está mudando.

Sem um livro-fonte para adaptar desta vez (o primeiro filme adaptava o best-seller de Lauren Weisberger, que jamais ganhou continuações), o roteiro de Aline Brosh McKinna trabalha em duas frentes principais: Na primeira, evidentemente, contemplando os vinte anos que se passaram, os efeitos disso no mundo da moda registrado em 2006 e agora em 2026, e certamente, nos personagens principais e em suas vidas; na segunda, no elemento intrínseco que funcionou às mil maravilhas no original (e que representou um certo diferencial entre o livro e o filme que dele resultou), os próprios personagens, seus intérpretes e a rica variedade cômica de suas interações.

Agora uma jornalista premiada, Andy Sachs (Anne Hathaway) testemunha a contradição dolorosa dos tempos modernos e desfavoráveis: Na mesma noite em que é vencedora de um prestigiado prêmio de jornalismo, ela (junto de todos os seus colegas) acaba demitida; o jornal impresso para o qual trabalhava não bancará mais matérias jornalísticas ao estilo de antigamente – somente as pautas rápidas produzidas na internet, por influenciadores e youtubers parecem importar no meio.

Paralelamente, um problema parecido está sendo enfrentado na RunWay, a revista de moda para a qual ela trabalhou no passado: A editora-chefe, a toda-poderosa Miranda Priestly (Meryl Streep) pode estar com seu emprego ameaçado. A revista – que há tempos restringiu-se a ser digital – está passando por uma reformulação, fruto da influência cada vez maior do jovem Jay Ravitz (B.J. Novak, de “Bastardos Inglórios”) sobre o pai Irv Ravitz (Tibor Feldman), o presidente da RunWay, e também consequência do interesse cada vez maior do novo público por informação ágil.

Como se não bastasse, uma matéria desfavorável e equivocada publicada recentemente na revista afastou anunciantes, comprometendo a imagem de Miranda. A saída termina sendo contratar Andy como editora principal das reportagens da revista, buscando um tom mais sério, respeitável e que, ao mesmo tempo, alcance novos leitores.

O que vemos é, assim, um retorno às circunstâncias do primeiro filme – Andy trabalhando sob o crivo impiedoso de Miranda – desta vez, ligeiramente transfiguradas por características inerentes aos novos tempos: Ainda difícil de lidar (como atestam sucessivas situações envolvendo, sobretudo, a perplexa Andy), Miranda já não deflagra impunemente sua tirania; reclamações constantes feitas do setor de RH a obrigaram a ser mais moderada!

No entanto, é daí que o filme dirigido por David Frankel tira seu humor assim renovado – do fato de que as coisas são, agora, diferentes. O mesmo vale para alguns personagens, como Emily Charlton, vivida por Emily Blunt. Se no primeiro filme ela era uma das assistentes de Miranda, neste aqui, ela surge como uma executiva da Dior – uma das empresas que a RunWay almeja anunciar – e ganha inesperados rumos para sua personagem no terço final.

Os mais atentos notarão uma cadência quase similar e até simétrica com alguns dos acontecimentos do “Diabo Veste Prada” original – temos, mais uma vez, Nigel (Stanley Tucci) surgindo como mentor indireto de Andy; as sequências de golpe e contra-golpe se repetem na segunda metade; sem falar de todo o arco narrativo de Andy, de novo, dando a volta por cima profissionalmente; e uma repetição da clássica cena de diálogo dentro da limusine – contudo, este segundo filme acerta ao apostar num elemento que, no primeiro, já tinha sido evidentemente eficaz: A reafirmação de seus ótimos personagens, conduzidos por um elenco sensacional – desde o lançamento, há 20 anos, de “O Diabo Veste Prada” tornou-se lugar comum enaltecer a espetacular atuação de Meryl Streep (que, pra variar, está estupenda), no entanto, há que se falar dos maravilhosos trabalhos de Anne Hathaway (ela que em 2026 também esteve emA Odisseia”, de Christopher Nolan), de Emily Blunt (ela que em 2026 também esteve em “Dia D”, de Steven Spielberg) e de Stanley Tucci, aqui tão bons quanto no original, e das ótimas adições de Kenneth Branagh, Justin Theroux e Lucy Liu.

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