terça-feira, 4 de agosto de 2026

Backrooms - Um Não Lugar


 Baseado numa creepypasta originalmente surgida no 4chan em 2019, e convertida numa lenda urbana com milhares de aficionados, este filme é dirigido por Kane Parsons, youtuber cujo canal dedicou-se a inúmeros vídeos explorando justamente a curiosidade em torno das tais backrooms – salas (a lembrar o ambiente claustrofóbico de um escritório) banhadas em uma luz amarela monocromática interligadas umas às outras formando aparentemente um labirinto infinito e provavelmente fora da realidade conhecida.

Se “Backrooms”, o filme (agora concebido pela produtora A24), não chega a ser uma obra exatamente brilhante e imperdível, ele consegue se fazer interessante e digno de certa atenção graças à sua precisa inventiva e intrigante, ao seu elenco formidável e estelar (com Chiwetel Ejiofor, indicado ao Oscar 2014 de Melhor Ator por “12 Anos de Escravidão” e a norueguesa Renate Reinsve, indicada ao Oscar 2026 de Melhor Atriz por “Valor Sentimental”), e à brilhante forma com que a construção dos cenários consegue materializar os backrooms (algo de deve colocar este filme entre os indicados a Melhor Design de Produção na próxima cerimônia do Oscar).

Nos anos 1990, Clark (Chiwetel Ejiofor) é um homem em crise. Ele conduz uma loja de móveis para a qual também grava uma série de propagandas vexatórias fantasiado de pirata. A loja passa os dias às moscas e as únicas pessoas dentro dela são Clark e seus dois funcionários, o casal de namorados Bobby (Finn Bennett) e Kat (Lukita Maxwell). A vida pessoal de Clark está igualmente lastimável: Ele ainda não se recuperou do divórcio – acarretado por seu alcoolismo – e derrama muito de sua frustração nas sessões de terapia com a Dra. Mary Kline (Renate Reinsve), cuja infância guarda alguns traumas envolvendo a mãe agorafóbica.

Numa noite, Clark – que, desde o divórcio, passou a dormir na loja – descobre algo estranho localizado no porão de lá: Uma passagem desconhecida e invisível na parede que permite o acessar um local estranho, uma série de salas que não acabam mais. Curioso com a descoberta, Clark passa a explorar a sucessão de salas e percebe que elas são muito mais numerosas (e intermináveis!) do que tinha imaginado.

Ele tenta contar tudo à Dra. Kline e, diante da descrença dela, promete retornar com provas. Na sequência, chama Bobby e Kat para, munidos de uma câmera, enfim explorarem as tais backrooms – a passagem de tempo nunca fica clara na narrativa extremamente elíptica e intrigante do diretor Parsons, mas supõem-se que algum tempo passou, pois, Clark demonstra um conhecimento já considerável do lugar.

Nada os impede, contudo, de encontrar seres estranhos por lá, e terminarem atacados. Com o desaparecimento de Clark pelo que talvez sejam algumas semanas – de novo, a passagem de tempo não fica clara neste filme – a Dra. Kline resolve espiar em sua loja e encontra a passagem para as backrooms, e nelas tenta encontrar Clark bem como também uma saída.

A proposta de “Backrooms” mistura algo de “Cubo” e de “O Iluminado” – do primeiro, extrai o senso de suspense aliado à ficção científica a partir da ambientação que não oferece explicações fáceis, do segundo, o diretor Parsons parece aproveitar uma direção criteriosa, vasta em ângulos formidáveis de câmera e um preciosismo narrativo para com a dramaturgia e o mistério da premissa que surpreendem pelo fato deste ser tão somente seu primeiro trabalho na direção de longa-metragens.

Uma pena que nem tudo são flores: As tentativas do roteiro em aprofundar os personagens, da forma como são feitas, não acrescentam absolutamente nada ao enredo como um todo, além disso, a despeito de seu ponto de partida eficaz e envolvente, o trabalho de Parsons se mostra tão fascinado pela concretização visual das backrooms (num resultado realmente fenomenal da direção de arte) que ele toma um tempo considerável da narrativa ocupando-se de takes intermináveis e longos a mostrar os atores percorrendo o cenário, tornando – com a repetição constante dessas cenas – a duração excessiva, o ritmo lento e a condução arrastada.

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