segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Herege


 Na cartilha moderna dos filmes de terror (e na cartilha clássica, também, por que não) nunca é boa ideia bater na porta de estranhos, seja para quem recebe a visita (“Bate A Porta”, de M. Night Shyamalan); seja para quem se apresenta como uma. Vem a ser exatamente esse o caso das duas incautas protagonistas deste frequentemente surpreendente “Herege”, lançado pela A24 – produtora esta que lançou inúmeros dos singulares sucessos de público e crítica do gênero de terror dos últimos anos.

“Herege”, dirigido pela dupla Scott Beck e Brian Woods (roteiristas de “Um Lugar Silencioso”), já expõe uma insuspeita predisposição para surpreender o público na escalação de seu antagonista – um bastante sumido Hugh Grant que, aqui, surge com os mesmos maneirismos de bonachão que o fizeram um comediante (e galã romântico) de sucesso no cinema décadas atrás. Agora, com a idade a lhe pesar nitidamente nas expressões faciais e diante de um novo contexto, todos esses maneirismos adquirem um novo viés; eles escondem uma periculosidade, uma psicose latente que deixa, de pronto, o expectador e demais personagens em estado de alerta.

Mas, eu estou me antecipando. Antes de tudo, as protagonistas de “Herege” – ou “Heretic” – são as jovens Irmãs Barnes (Sophie Thatcher, de “Acompanhante Perfeita”) e Paxton (Chloe East, de “Os Fabelmans”), missionárias da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias que – num procedimento usado, inclusive, por congregações aqui no Brasil – percorrem residências dos subúrbios, disseminando a palavra divina conforme os dogmas de sua religião e tentando arregimentar seguidores para sua igreja.

Na iminência de uma tempestade, e com o anoitecer já sinalizando sua proximidade, elas chegam numa área suburbana com suas bicicletas até a moradia de um certo Sr. Reed.

Após baterem à sua porta, é  um Hugh Grant todo hospitaleiro e sorridente que as recebe – numa sucessão de gestos corriqueiros que já denota a escolha interessante e muito indicativa dele para o papel: Como muitos laudos periciais já deram conta, o perigo de um  serial killer é justamente sua capacidade de se camuflar da mais completa aparência de gentileza e cordialidade.

As moças atendem seu convite de entrar na sua residência – está chovendo e ele garantiu lhes trazer uma torta que a esposa estava preparando – entretanto, uma vez dentro da casa, as garotas começam a pressentir um perigo iminente. As conversas do Sr. Reed seguem num tom ameno e polido, mas tomam rumos inesperados. Ele se mostra um ferrenho e inquisitivo estudioso das religiões e, conforme o tempo passa, parece dotado de um inconformismo quase violento para com a forma com que os preceitos da fé são usados como massa de manobra ao longo da História.

Barnes e Paxton, despreparadas para lidar com tanta erudição desenvolta e também com essa súbita hostilidade crescente, logo, demonstram vontade de sair dali. Mas, sem aparentar, é quase em uma teia de aranha que o Sr. Reed as enredou – os casacos delas, que ele gentilmente guardou, estão com a chave que destranca o cadeado onde deixaram as bicicletas lá fora (e elas estão a quilômetros de seu destino); as janelas visíveis são estreitas, sem abertura, e intransponíveis, a porta está trancada e ser um indício de como pode ser aberta, e a dita Sra. Reed, sob a qual elas, apreensivas, já perguntaram várias vezes, nunca aparece – e provavelmente, talvez nem exista!

É um jogo de gato e rato que começa verbal e comedido, mas vai gradualmente se tornando mais abertamente perigoso e sádico, e só faz piorar.

Claro que, de um ponto em diante, o roteiro e a direção de Beck e Woods escancaram o terror de sua premissa numa sucessão de momentos gráficos e inacreditáveis que abandonam completamente a sugestão da primeira metade, adquirindo todos os exageros divertidos da ficção, mas, isso é feito com profissionalismo (a construção das cenas é milimetricamente prodigiosa e o trio principal brilha do início ao fim) e dá origem a várias cenas antológicas: Minha predileta é a que mostra um ângulo de cima e mescla o designer da casa com uma maquete deixada na sala, um efeito que lembra outra cena também marcante do já clássico “Hereditário”.

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