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sexta-feira, 18 de setembro de 2020

Intriga Internacional

Habilidoso para com os contos de suspense de ordem dramática e psicológica, o diretor Alfred Hitchcock fascinou de tal forma a audiência que muitos se esqueciam que ele também era um hábil artesão de filmes de ação e aventura, como atesta o primor inconteste de seu “Correspondente Estrangeiro”, ainda em sua fase britânica.
Era questão de tempo que, já em solo americano, Hitchcock viesse a entregar uma produção de característica parecidas, e a obra que ele terminou realizando foi alardeada (com certa justiça) como o ponto alto de sua carreira: O empolgante, eletrizante e precioso “Intriga Internacional”.
Nascido quase que a partir de uma brainstorm onde o diretor sugeria ao roteirista Ernest Lehman cenas que gostaria de ver num filme –uma perseguição no Monte Rushmore aqui, um assassinato na sede das Nações Unidas ali –enquanto tentavam costurar em torno dessas intenções um fio narrativo coeso e plausível, “Intriga Internacional” terminou se tornando mesmo a trajetória incauta do inicialmente perplexo protagonista Roger Thornhill (Cary Grant, irretocável em sua quarta colaboração com Hitchcock).
Tal e qual tantos outros protagonistas de Hitchcock fadados a embarcar num mundo de perigos quase por uma questão de mal-entendidos, Thornhill, um executivo publicitário de Nova York, acaba confundido com um agente secreto, um certo George Kaplan, quanto requisita o garçom em um restaurante, no exato instante em que este chama por aquele nome.
Capangas a mando de um certo Vandamm (James Mason) estavam à espreita e, seguindo a lógica, deduzem que Thornhill é Kaplan; e assim o sequestram, tentando matá-lo embebedando-o num acidente de carro forjado depois que as tentativas de Vandamm de tirar-lhe informações não dão em nada (afinal, ele de fato não sabe nada!).
“Intriga Internacional” já mostra ao público aí o porque de ser uma das mais empolgantes obras de ação do cinema: Tudo nele é impecável, desde a vibrante trilha sonora de Bernard Herrmann, até a dinâmica montagem de cenas como a da bêbada (e divertida) escapada de Thornhill de seus captores (entre os quais um ainda jovem Martin Landau).
Na sequência, Thornhill quer porque quer provar sua inocência e vê suas tentativas de provar a existência daqueles homens misteriosos sendo contrariadas –seus antagonistas são hábeis em desaparecer sem deixar vestígios.
Dessa forma, Thornhill segue a pista que lhe resta: A identidade de George Kaplan, com quem sua compleição elegante o leva a ser confundido frequentemente.
Neste trecho, descobrimos muito antes do próprio protagonista que Kaplan, na verdade, não existe: Trata-se de um personagem-fantasma criada pelo Departamento de Contra-Espionagem Norte-Americano, justamente para desviar as atenções do vilanesco Vandamm de seu verdadeiro agente –o azar de Thorhill foi justamente ter fornecido, sem querer, um corpo, um rosto e uma voz à Kaplan, tornando-o real.
Após ser incriminado pelo assassinato de um diplomata da ONU, Thornhill tem de fugir de trem da polícia e dos homens à mando de Vandamm, e pega um expresso para Chicago, tentando rastrear Kaplan. No percurso, ele cruza-se com a estonteante Eve Kendall (Eva Marie-Saint, uma das coisas mais sensacionais do filme) que lhe oferece o respiro de uma noite romântica.
Mas, Thornhill vem a descobrir –um tanto tardiamente –que Eve tem mais envolvimentos nessa trama do que sua mera intenção solícita em ajudá-lo. Ela mesma entra em contato com o que parece ser George Kaplan e marca um encontro de Thornhill com ele.
O encontro não ocorre, em vez disso, Thornhill escapa por um triz de ser morto por um avião em um campo rural aberto, naquela que é uma das cenas de perseguição mais fantásticas e antológicas da História do Cinema –com direito a infindáveis referências em tudo quanto é tipo de filme, como por exemplo “Arizona Dream” –ao tentar reencontrar Eve, depois disso, Thornhill descobre que ela é amante de Vandamm (!).
E não só isso: Eve é também o tal agente secreto, cujo personagem fictício de George Kaplan tinha por objetivo proteger das desconfianças de Vandamm.
Embora o roteiro e a condução do filme sejam eletrizantes o suficiente para que o público não identifique lapsos ao longo de seu agitado enredo, nunca é devidamente explicado o porque da própria Eve ter despachado Thornhill para a armadilha envolvendo o avião, nem tampouco quem exatamente arquitetou aquela armadilha.
O que importa é que, a partir daqui, Thornhill já não é mais o personagem que caiu de paraquedas numa trama de espionagem incerta: Ele agora tem um objetivo (salvar Eve e, se possível, ficar com ela).
E esse objetivo o leva, aos trancos e barrancos, para o estado de Dakota do Sul, onde se dá a aguardada perseguição sobre os rostos dos famosos presidentes norte-americanos no Monte Rushmore –que responde também pelo grande clímax do filme.
Hitchcock realmente depositou em seu filme tudo do bom e do melhor que Hollywood tinha a oferecer naquele período, desde uma mistura desigual de astros consagrados e cobiçados com talentos reais, até uma equipe técnica e artística no auge do domínio de seu ofício.
O resultado de tanto primor é uma produção de grandiosidade palpitante e excelência à toda prova em cada uma de suas cenas, brindada com a percepção mundana e minimalista de Hitchcock de que, não importa o elitismo de uma obra de cinema, ela tem por obrigação refletir em seus expectadores o ápice do prazer e da satisfação a que se pode almejar.
E tudo isso, para o espanto de gerações e gerações de apreciadores, “Intriga Internacional” consegue obter.

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

Um Conto do Destino

A carreira de Akiva Goldsman tem vários altos e baixos: Se por um lado foi responsável pelo roteiro de “Batman & Robin”, de Joel Schumacher, um dos piores filmes já lançados na década de 1990, por outro, ele conquistou o Oscar de Melhor Roteiro Adaptado por seu bom trabalho no elogiado “Uma Mente Brilhante”, de Ron Howard.
Os acertos de sua trajetória, certamente mais do que os erros, o encorajaram a estrear também como diretor neste filme cuja trama, baseada no livro de Mark Helprin, ele cultivou por muito tempo. Sua longeva experiência na indústria arregimentou cintilantes participações de famosos para a produção –presenças que saltam aos olhos ao longo do filme.
Num prólogo que já deixa claro o tráfego da história por distintas épocas, descobrimos que o jovem orfão Peter Lake (Colin Farrell) é um ladrão na Nova York de 1916.
Perseguido pelo gangster que fora seu antigo contratador, Pearly Soames (Russell Crowe, demoníaco), ele tem a vida salva de modo bastante surreal por um cavalo branco (!) –é necessário que o expectador aceite de antemão a atmosfera mágica que envolve os desdobramentos de todo o filme a partir daí, caso contrário, corre o risco de ficar muito irritado.
Em sua fuga de Nova York, o reduto de Pearly, Peter encontra a jovem Beverly Penn (Jessica Brown Findlay, tão embriagada pela natureza lúdica da personagem que parece interpretar sob efeito de alucinógenos) e por ela se apaixona.
Mas, Beverly está morrendo de tuberculose. Em sua esperança, Peter anseia por um milagre, no entanto, os recursos satânicos de Pearly –que negocia com o próprio Lúcifer interpretado por Will Smith –sabotam as chances de seu amor por Beverly acontecer.
Ela morre, o que mergulha Peter numa amnésia que o transforma num mendigo sem identidade em Nova York ao longo de quase 100 anos (!).
Até que suas memórias são reavivadas por uma garotinha que padece de câncer. A mãe dela, Virginia (Jennifer Connelly), uma jornalista, passa a ajudar Peter na tentativa de compreender as razões, um tanto incompreensíveis, do porque sua existência desafia o tempo –e do porque ele ainda tem uma tarefa a cumprir.
Munido de um produção requintada –na qual a passagem do tempo é registrada, sobretudo, numa direção de arte prodigiosa –Akiva Goldsman moldou um drama romântico de elementos fantásticos que nunca se harmonizam ou fazem sentido em algum momento. As referências para com a religião embutidas nas caracterizações de santos e demônios (nunca, porém, denominados assim) supostamente seriam o incremento da faceta sobrenatural da narrativa, mas nada disso, nem o capricho técnico, nem o ostensivo elenco, ajudam a tornar envolvente seu ritmo lento e monótono, culpa da completa limitação de seu diretor.

sábado, 1 de dezembro de 2018

Os Vencedores do Oscar 1955


Ainda que tecnicamente perfeito em todos os seus aspectos, “Sindicato de Ladrões” teve sua controversa vitória na cerimônia de 1955 por razões que iam muito além do filme que ele era –e diziam mais à tudo aquilo que ele representava: Em primeiro lugar, era uma bem-sucedida tentativa de implantação, no cinema, do método interpretativo de Strasberg (que sempre teve em Marlon Brandon um de seus intérpretes mais simbólicos) e em segundo, servia como uma contundente e mal disfarçada metáfora do próprio diretor Elia Kazan acerca das circunstâncias em que se deu a sua delação de vários colegas artistas envolvidos com o comunismo no Comitê de Assuntos Anti-Americanos.
Tivesse ou não a Academia intenção de apoiar a posição ideológica de Kazan, “Sindicato de Ladrões” sagrou-se com sete prêmios (incluindo Melhor Diretor, Melhor Ator para Brandon e Melhor Atriz Coadjuvante para Eva Marie Saint), superando competidores como “Amar É Sofrer” (que deu o Oscar de Melhor Atriz à maravilhosa Grace Kelly), “A Fonte dos Desejos”, o sensacional “A Nave da Revolta” e o musical de Stanley Donen “Sete Noivas Para Sete Irmãos”.

MELHOR FILME
"Sindicato de Ladrões"

MELHOR DIREÇÃO
"Sindicato de Ladrões", Elia Kazan

MELHOR ATOR
Marlon Brando, "Sindicato de Ladrões"

MELHOR ATRIZ
Grace Kelly, "Amar É Sofrer"

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Edmond O’ Brien, "A Condessa Descalça"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Eva Marie Saint, "Sindicato de Ladrões"

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
"As Portas do Inferno" (Japão)

MELHOR ROTEIRO
"Amar É Sofrer"

MELHOR HISTÓRIA ORIGINAL
"A Lança Partida"

MELHOR HISTÓRIA & ROTEIRO
"Sindicato de Ladrões"

MELHOR FOTOGRAFIA P&B
"Sindicato de Ladrões"

MELHOR FOTOGRAFIA CORES
"A Fonte dos Desejos"

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE P&B
"Sindicato de Ladrões"

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE CORES
"20.000 Léguas Submarinas"

MELHOR MONTAGEM
"Sindicato de Ladrões"

MELHOR SOM
"Música e Lágrimas"

MELHOR TRILHA SONORA MUSICAL
“Sete Noivas Para Sete Irmãos"

MELHOR TRILHA SONORA DRAMA
"Um Fio de Esperança"

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"Three Coins In The Fountain", de "A Fonte dos Desejos"

MELHOR FIGURINO P&B
"Sabrina"

MELHOR FIGURINO CORES
"As Portas do Inferno"

MELHORES EFEITOS ESPECIAIS
"20.000 Léguas Submarinas"

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

Sindicato de Ladrões


É perfeitamente nítida a intenção do diretor Elia Kazan em “Sindicato de Ladrões”, uma vez que temos o conhecimento de que ele delatou diversos colegas associados ao comunismo durante a Caça Às Bruxas capitaneada pelo Senador Joseph McCarthy: Na trama que narra (e na forma como a narra) o ato da delação ganha um viés de heroísmo e de nobreza.
A despeito desse detalhe algo controverso não há como negar a excelência técnica e artística da obra realizada aqui.
No ápice de um primor interpretativo que sempre foi relacionado a ele, Marlon Brando interpreta Terry Malloy, jovem trabalhador do cais portuário de Nova York.
Há um status quo ali ao qual o melindroso Terry não tem tantos escrupulosos em se adaptar: Já na primeira cena, ele está de conluio com os sindicalistas do cais do porto. Um delator em potencial precisa ser silenciado e, embora acreditasse que iriam apenas intimidá-lo, Terry contribui para que seja atraído até o telhado do prédio de onde termina sendo jogado.
No cais do porto, as coisas são assim: É preciso calar-se ante os mandos e desmandos do líder do sindicato, o tentacular Johnny Camarada (Lee J. Cobb, de “12 Homens e Uma Sentença”), que enriquece a base de propinas, enquanto controla os estivadores determinando aqueles que trabalham ou não (seus privilegiados).
Em suma, praticamente uma máfia.
Na parábola que constitui a premissa, Elia Kazan estabelece esse cais do porto diretamente como a Hollywood daqueles anos 1950, onde os envolvidos com o comunismo se viam às margens da Lei –com efeito, Kazan também acaba relacionando os estóicos agentes da Comissão de Crimes Portuários aos funcionários do Comitê de Assuntos Anti-Americanos. E a si mesmo, com o protagonista Terry Malloy.
Afinal, Malloy (que muito deve de sua inclinação dúbia ao irmão mais velho envolvido com o sindicato, vivido por Rod Steiger) acaba se apaixonando pela belíssima Edie (Eva Marie Saint, maravilhosa), irmã do rapaz assassinado e impregnada de indignação com a situação no cais, da qual também seu pai é vítima. Aliada ao discurso libertador e moralista do padre Barry (Karl Malden), a iniciativa de Edie aos poucos vence a relutância de Terry que se convence de denunciar os crimes de seus comparsas sindicalistas.
Definindo com exatidão a linha que separa o legal do ilegal, Kazan parece reiterar até para si mesmo o ônus que acarreta as decisões que abraçam a Lei: Após a delação, durante o último terço do filme, Terry sofre vendo seus companheiros estivadores lhe virando as costas. Ele termina por confrontar o próprio Johnny Camarada e, após um dilacerante embate físico, tem de provar a todos que pode liderar um cais livre de corrupção, se mantendo em pé, mesmo que esteja tão debilitado a ponto de desmaiar –a magnífica cena final, da árdua caminhada até o depósito representa para Kazan a suprema e definitiva metáfora do artista que se mantem exercendo sua arte diante do descrédito acarretado pela delação dos colegas de trabalho.
E apesar dessa sua auto-justificada ideologia, o diretor foi competente o bastante para realizar um filme que se sustenta maravilhosamente bem sem quaisquer desses fatores subliminares: Impressiona o fato, por exemplo, de Kazan ser um diretor oriundo do teatro quando aqui ele constrói uma narrativa tão primorosamente cinematográfica –não falta à “Sindicato de Ladrões” a dose exata de ação, suspense e dramaturgia que o fazem, do início ao fim, uma obra tão memorável.

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Superman - O Retorno

Embora tenha sido um de seus maiores êxitos, o clássico “Superman-O Filme”, de Richard Donner, representou para a Warner Bros. um de seus maiores desafios. Como realizar um novo “Superman” e submeter-se à comparação com obra tão memorável? Como encontrar um ator que tivesse a mesma e espetacular identificação com o icônico personagem que o inglês Christopher Reeve?
Impossível, foi a resposta que essas perguntas tiveram durante algumas décadas (e, na verdade, continua sendo a resposta para a segunda pergunta...).
Mas, em meados de 2006, quando a febre de adaptações de histórias em quadrinhos para o cinema começava a se consolidar com sucessos freqüentes (já haviam sido lançados os dois primeiros e ótimos filmes dos “X-Men”, dirigidos por Bryan Singer, os dois primeiros filmes do “Homem-Aranha”, por Sam Raimi, e o incompreendido “Hulk”, de Ang Lee), o estúdio se dispôs a tentar. Para a missão foi chamado Bryan Singer, que em “X-Men” demonstrou um surpreendente talento para remodelar conceitos dos quadrinhos em elegantes embalagens cinematográficas (para substituí-lo na direção do terceiro “X-Men” foi chamado Brett Ratner, mas essa é outra história...).
Singer nutria uma devoção pelo filme original de Donner e enxergava o projeto com um sentimento algo romântico: Para ele, só funcionaria, se a trama levasse em consideração as histórias contadas nos dois primeiros (e genuinamente bons) filmes, onde conhecíamos a origem do herói, seu relacionamento com a repórter Lois Lane e seu antagonismo com Lex Luthor (no primeiro), além do embate espetacular contra três kriptonianos em plena Metrópolis (no segundo).
É a partir daí que Singer insere seu novo filme (que contava, inclusive, com a partitura e a mesma trilha sonora clássica empregada por John Williams, refeita desta vez por seu colaborador John Ottman), mostrando um mundo do qual o maior herói da humanidade (Brandon Routh, escolhido devido à uma indisfarçável semelhança física com Christopher Reeve) ausentou-se por alguns anos –motivado pela esperança, reacendida provavelmente nos acontecimentos do segundo filme, de que poderia voltar para os destroços de seu planeta natal Kripton, e encontrar sobreviventes.
Entretanto, Superman –ou Kal El, ou Clark Kent, como queira... –retorna só para descobrir que o mundo que o acolheu aprendeu a viver sem ele: Lois Lane (a estressada Kate Bosworth vivendo uma personagem mais bela, porém, menos graciosa que Margot Kidder), seu grande amor agora é mãe de um garotinho e possui um noivo, Richard (James Marsden), e Lex Luthor (Kevin Spacey substituindo Gene Hackman com empenho) saiu da prisão, além de herdar uma fortuna de milhões, e nutre planos megalomaníacos para enriquecer às custas das possíveis mortes de milhões.
Agora, o homem de aço precisa reencontrar seu lugar nessa nova humanidade e provar para os outros e para si próprio que é o maior herói de todos os tempos.
Talvez, fosse o tom excessivamente reverente do filme, ou a condução de Singer que valorizava cenas de suspense e expectativa em demasia –o quê quase lhe fez atingir as três horas de duração! –mas, “Superman-O Retorno” não encontrou seu público, amargando a indiferença do público e a incompreensão da crítica.