Mostrando postagens com marcador Richard Jenkins. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Richard Jenkins. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

Blaze - O Escândalo


 Os norte-americanos têm uma curiosa mescla de predisposições ideológicas em suas políticas internas, cheias de manhas e de facetas politicamente incorretas; e tão mais elas são exaltadas quando o retrato parte de um filme feito nos anos 1980, quando havia menos pedantismo na caracterização de seres humanos inclinados ao céu e ao inferno, mesmo que saídos de histórias reais.

“Blaze-O Escândalo” parece não se importar muito com certas indiscrições circunstanciais que acometem seu raivoso protagonista, na verdade, ele se abastece disso.

O filme dirigido por Ron Shelton, antes de mais nada, é um encontro de almas. Da dançarina de striptease de origem humilde de nome artístico Blaze Starr (a sensacional Lolita Davidovich, de “Objeto do Desejo”), com o governador da Louisiana, candidato à reeleição, Earl Long (Paul Newman, uma força da natureza).

Em meados da década de 1950, Blaze até almejava o sucesso como cantora, enxergando sua arte com ingênuo deslumbre, entretanto, de radiante beleza ruiva e corpo escultural, Blaze emplacou de verdade como stripper em casas noturnas de Nova Orleans, foi numa delas que conheceu Earl, cuja paixão fulminante por ela logo atropelou qualquer protocolo que sua situação cobrava –embora o impetuoso Earl nunca tenha sido chegado à sutilezas mesmo.

A partir do romance entre os dois, o filme de Shelton acompanha os meandros da trajetória política de Earl em busca da reeleição: Suas ideias progressistas batem de frente com partidários e correligionários que não desejam vê-lo defendendo, por exemplo, a emenda que concede direito de voto aos negros. E sua personalidade explosiva, avessa à concessões alimenta sua fama (passa a ser apelidado de “governador maluco”!), mas prejudica sua imagem.

Nesse roteiro cheio de irônicas e inevitáveis farpas à desenvoltura política em tempos propagandistas, o menor dos empecilhos, ao contrário do inicialmente sugerido, é o romance entre Blaze e Earl, embora isso, lá pelas tantas, vá pesar na trama também.

Adepto de dramas desportistas –realizou “Sorte No Amor” (beisebol), “Homens Brancos Não Sabem Enterrar” (basquete) e “O Jogo da Paixão” (golfe) entre outros –o diretor Ron Shelton deposita energia muito parecida em seu esforço de caracterizar os arroubos peculiares do personagem que tem em mãos, um populista de predisposições sempre passionais, cuja exuberância psicológica (além da presença ofuscante de seu fantástico intérprete) coloca, por vezes, a protagonista de fato, Blaze Starr, para escanteio.

terça-feira, 10 de julho de 2018

O Visitante


O filme de Tom McCarthy (diretor de “O Agente da Estação” e do premiado com o Oscar “Spotlight-Segredos Revelados”), tal e qual outros de seus trabalhos, se sustenta nas grandes atuações de Richard Jenkins e de Hiam Abbass –ele, indicado ao Oscar de Melhor Ator em 2008 –e é de uma profunda sensatez para com a narrativa e a história que ela quer contar essa decisão.
O elemento humano se torna, assim, imprescindível, levando o expectador –ou, talvez, melhor dizendo, não lhe dando outra escolha! –a se focar nas relações que se constroem com zelo e perspicácia.
Walter (Jenkins, confiável e competente como sempre) é um professor universitário que vive só em Connecticutt. Sua rotina imersa nas monotonias trazidas pela meia-idade. Walter quer transpor essa névoa de enfado tentando aprender música, mas sua professora de piano tem um método com o qual ensina crianças de dez anos, e o processo se torna constrangedor para os dois.
Numa rara escapadela de seu dia-a-dia trivial, Walter vai a Nova York para uma conferência.
Ao chegar em seu apartamento, que raramente utiliza, descobre que ele está ocupado por um casal de jovens imigrantes, Tarek e Zainab (vivida por Danai Gurira, de “The Walking Dead” e “Pantera Negra”) que pensavam ter locado o imóvel de um amigo. Após resolver a constrangedora situação inicial, Walter decide convidá-los a passar a noite ali, percebendo que não têm para onde ir. Com o passar dos dias, constrói-se uma amizade entre o professor e o rapaz imigrante (que encontra no ator Haaz Sleiman uma personificação vívida, alegre e carismática), onde Walter descobre, enfim, o deslumbre da música no ritmo vibrante dos tambores que Tarek e demais indivíduos de sua cultura batucam com propriedade no metrô de Nova York.
Até que Tarek é preso por um incidente menor no metrô.
Como o rapaz é imigrante, acaba encarcerado e, a possibilidade de que seja deportado, faz com que o professor hospede sua mãe Mouna (a bela e madura Hiam Abbass que, ao lado de Jenkins, forma o segundo pólo essencial e emocional do filme, entre os quais o eixo de toda a trama vai girar e impulsionar).
Esses breves momentos compartilhados por Walter e Mouna, onde dividem o afeto por Tarek em comum, e experimentam relutantes e encantadoras tentativas de alguma aproximação transformam-se em relacionamentos que aos poucos removem Walter de sua solidão e o fazem descobrir em quais âmbitos culturais, familiares, afetivos e existenciais ele, de fato, sente-se à vontade para estar.
Uma obra hábil e humana sobre laços que as barreiras culturais não precisam necessariamente impossibilitar cuja força vem da sua própria simplicidade.

quinta-feira, 28 de junho de 2018

Histórias de Amor


Quando o ator principal assume também a função de diretor –e nelas embute, conjugadas, todo seu repertório profissional na ênfase da atuação –as comparações com Woody Allen já se fazem inevitáveis; quando a trama então dá margem à especulação dos conflitos de um relacionamento, fica indisfarçável.
É um pouco esta a situação de Josh Radnor (um dos atores da série “How I Meet Your Mother”) nesta obra: O fato dele querer brincar de Woody Allen e dá arriscada comparação a que ele e seu filme se submetem.
Entretanto, ele se sai até que bem ao realizar uma obra sensível e de luz própria.
Jesse, seu personagem, é um nova-iorquino de trinta anos imerso nas reflexões usuais trazidas pela vida: Olha para trás com nostalgia pela juventude que passou, e sente, à frente, uma insegurança algo infantil pelo seu futuro, ou sua velhice.
Sua crise existencial se aprofunda um pouco mais quando Peter (Richard Jenkins), um de seus mais estimados ex-professores, o convida para participar da cerimônia de aposentadoria na mesma universidade onde estudou nos anos 1990.
Os novos ares embriagam Jesse. E ele conhece novos personagens que proporcionam uma avaliação em relevo de sua vida: Há Zibby (Elizabeth Olsen, mais maravilhosa impossível), uma jovem aluna cuja compatibilidade afetiva e cultural chega a atemorizar o próprio Jesse (devido à diferença de idade entre os dois); Dean (John Magaro) um jovem sensível e inteligente, cujas aptidões intelectuais o estão conduzindo para regiões negras da própria personalidade; Nat (Zac Efron), um maluco beleza –e o personagem mais divertido do filme –que aparece nos momentos mais inusitados, sempre com um mantra filosófico na ponta da língua; e a Prof. Fairfield (Alisson Janney, charmosíssima) que, em suas aulas sobre Literatura Romântica alimentou tanto essa verve esperançosa de Jesse no passado, mas que agora não tem outra coisa a lhe oferecer senão cinismo.
Radnor faz com que todos esses personagens e suas considerações pairem ao redor do protagonista como observações pertinentes sobre as variações da vida: Todos eles são fragmentos emocionais e racionais do próprio Josh Radnor e, nesse sentido, sua narrativa assume um ritmo apropriadamente sereno para acompanhar essa trajetória, onde o protagonista caminha titubeante em direção a sua concepção de amadurecimento.

quarta-feira, 13 de junho de 2018

A Forma da Água


O diretor Guillermo Del Toro sempre afirmou que os monstros nunca o decepcionaram. Com efeito, ele dedicou toda sua curiosa filmografia em lançar sobre eles um olhar completamente distinto do que tantos outros fizeram –distinto, inclusive, de outros grandes diretores do gênero de terror.
Se “Espinha do Diabo” enxergava sofrimento e tristeza no sobrenatural, e “O Labirinto do Fauno” justapunha o mundo fantástico que cerca os monstros como uma alternativa aos desabonos da realidade –ambos, seus maiores trabalhos até então –em “A Forma da Água”, Del Toro utiliza uma apaixonada homenagem à “O Monstro da Lagoa Negra” para falar sobre as sensações da exclusão, sobre a maldade inerente à natureza humana e sobre o amor.
E na visão singular que ele dedica à tudo que é monstruoso, não poderia ser outro senão Del Toro a conceber tal história, tão incrivelmente insólita quanto universalmente tocante.
A protagonista Elisa (numa interpretação absolutamente brilhante de Sally Hawkins) é muda e trabalha como faxineira numa instalação militar em Baltimore. Seu vizinho e melhor amigo é Giles (Richard Jenkins, também ele brilhante), um artista homossexual, amargurado pela chegada da meia-idade sem que antes experimentasse a plenitude da vida.
A melhor amiga de Elisa é Zelda (Octavia Spencer, com sua excelência habitual), sua colega de trabalho que conhece sua própria parcela de discriminação e descaso.
A instalação que as duas cuidam de limpar diariamente é um local turbulento na década de 1960 de então: A Corrida Espacial e a Guerra Fria acirraram os nervos normalmente acirrados dos militares e eles exigem, sem o menor tato, progressos de seus cientistas em relação aos avanços dos soviéticos.
É quando surge um espécime inusitado num dos tanques de água: Uma criatura aquática capturada na América do Sul (incorporada com fascinante expressividade gestual por Doug Jones) que desperta maravilhamento nos cientistas em geral, e a necessidade de destruição no perverso chefe de segurança em particular, vivido com corajoso rigor por Michael Shannon.
Furtivamente e sem que mais ninguém perceba, Elisa e a criatura se encontram dia após dia, e passam a cultivar uma identificação que nasce a partir do fato de não haver (e não poder haver) palavras entre eles (Elisa é, afinal, muda, e a criatura não compreende a linguagem humana). O silêncio torna a relação recíproca e igualitária (e Del Toro derrama encantamento no modo preciosista com que registra o nascimento do amor) e logo os dois estabelecem uma espécie de vínculo que começa como assombro, prodrige para a ternura, e em seguida para a atração sexual!
Porém, a criatura sofre pois os militares que o têm sob seu julgo estão dispostos a matá-lo em breve, o quê obriga Elisa a elaborar um arriscado plano para tirá-lo de lá.
Há infindáveis definições para o grande vencedor do Oscar 2018 de Melhor Filme e Melhor Direção (que divide com “OSenhor dos Anéis-O Retorno do Rei” a honraria de serem os dois únicos filmes de fantasia do cinema premiados na categoria principal): ele é, antes de mais nada, uma história de amor; um amor sexual, com erotismo e tudo o mais (com direito a cenas de nudez e sexo lindamente filmadas). Mas, ele é também uma ode ao desajuste, ao valor humanista de se abraçar a diferença e despir-se de preconceitos –e, nesse sentido, não apenas a atenção de Del Toro recai sobre o inusitado e encantador casal protagonista, mas, também sobre o personagem de Giles, e o do Dr. Hoffstetler (Michael Stuhlbarg), um caso raro de um soviético retratado com carinho e gentileza num filme americano ambientado na Guerra Fria (deve ser porque o diretor é mexicano...).
“A Forma da Água” também é outra coisa: Uma homenagem ao cinema.
No clima fantasiosamente embriagante que empresta à narrativa, nas sucessivas referências que pontuam as cenas –que vão desde o evidente “A Bela e A Fera” até “Splash-Uma Sereia Em Minha Vida”, com direito à um desconcertante momento musical que converte a fotografia maravilhosamente colorida em um filme preto & branco –e no carinho singular que confere a cada um dos personagens (detalhe esse que eleva este filme um degrau acima de todas as outras obras de sua filmografia) Del Toro realizou assim um dos mais poderosos manifestos em favor da tolerância no cinema.
Um filme digno de aplausos que expulsa o ódio da alma encantando o coração.

quarta-feira, 21 de março de 2018

Deixe-Me Entrar

O diretor Matt Reeves –que até então era conhecido pelo curioso filme de monstro em ‘founf footage’ “Cloverfield” –jamais foi um realizador medíocre (que o diga o magistral “Planeta dos Macacos-A Guerra” que ele lançou em 2017), todavia, ele correu um risco muito grande ao encarar esta refilmagem norte-americana da obra-prima sueca "Deixe Ela Entrar", pela simples razão de que não havia muitas maneiras de se aperfeiçoar (ou mesmo de recriar) o brilho ímpar com o qual Thomas Alfredson compôs sua obra.
Diante dessa constatação, era inevitável que algo se perdesse na comparação daquele trabalho único com esta versão mais anêmica e pasteurizada –o quê fez deste filme um forte argumento dos puristas que defendem a superioridade indiscutível dos originais sobre as refilmagens. Uma bobagem já que obras aclamadas como “Ben-Hur”, “Os Dez Mandamentos” ou “SeteHomens e Um Destino” são refilmagens.
A trama, como era de se esperar, trocou a ambientação sueca pela norte-americana e a narrativa de Reeves pulsa de boas intenções, ainda que elas sempre fiquem à sombra de seus equívocos. A época continua a mesma, meados dos anos 1980, e seu protagonista também: Um solitário e calado menino, aqui chamado Owen (interpretado com autenticidade por Kodi Smit-McPhee, o garotinho de “A Estrada”), vítima do bullying na escola, e da indiferença materna em casa –um dos recursos interessantes que salientam a solidão infantil é o fato de nunca mostrarem o rosto dos adultos, mesmo nas cenas em que estão presentes, fazendo-os surgir assim com uma severidade anônima ainda mais intensa.
Owen conhece certa noite a estranha menina Abby (Chloe Grace Moretz que nem por um decreto se iguala ao primor de Lina Leanderson no original), a nova moradora, ao lado de um senhor que aparenta ser seu pai (o ótimo Richard Jenkins), de um dos apartamentos do gelado condomínio em que moram.
Abby é sozinha, não tem amigos, surge no playground para brincar apenas à noite e, embora faça frio, não demonstra senti-lo, sempre usando vestes finas.
Aos poucos os dois jovens, cada qual mergulhado num tipo específico de exclusão profunda, vão construindo uma terna amizade, abala pela estarrecedora descoberta de que Abby é, na realidade, uma vampira!
A lembrança do filme original é algo que incomoda, e muito, a apreciação das cenas deste filme aqui. Um bom exemplo é a cena inicial, decalcada de “Janela Indiscreta”, de Hitchcock, onde o diretor se esforça para incrementar a abertura do filme sueco com o uso da trilha sonora de Michael Giacchino (normalmente tão hábil e certeiro) que acaba se mostrando intrusiva, contrastando com o primor silencioso das cenas do original.
Outro caso é uma das cenas de ataque da pequena vampira, justamente aquela que, no filme original, vislumbramos um comovente relance de humanidade na personagem, mas que aqui, na falta de compreensão da personagem, é reduzida a um banal ataque vampiresco, mais atenta aos efeitos especiais que inexistem no original.
Claro que Matt Reeves aproveita a produção cheia de recursos que tem, e até mesmo o fato de ser posterior ao filme sueco –e, portanto, copiá-lo quando lhe convém, e incrementá-lo quando lhe é oportuno. Entretanto, não há, simplesmente não há condições, mesmo que com todo o orçamento do mundo, de igualar a genialidade artística presente do grande e memorável momento de “Deixa Ela Entrar”: A clássica cena da piscina.
Reeves tenta mudá-la, enchê-la de cortes rápidos onde antes não havia, e uma iluminação soturna (que atrapalha seu entendimento) e termina resumindo nesta cena a conclusão que vale para todo o seu filme: O mérito de ser bem produzido ele tem, mas a comparação com o grande trabalho original lhe evidencia toda a redundância e a mediocridade.

sábado, 19 de agosto de 2017

Quem Vai Ficar Com Mary?

O ambiente colegial dos anos 1980 não poderia ter retrato melhor do jovem desengonçado e tímido do que Ted (Ben Stiller, cuja incrível adequação ao papel o marcou desde então a esse tipo de personagem). Passados dez anos –já, portanto, nos anos 1990 –ele não consegue esquecer moça bela e radiante pela qual se encantou na adolescência, a inacreditável Mary (Cameron Diaz, um achado), que protagonizou com ele também um dos momentos mais constrangedores de sua vida; e a razão para Ted estar rememorando tudo isso no divã de um analista (Richard Jenkins, espécie de ator-assinatura dos diretores) não é assim por acaso.
Num ímpeto entusiasmado, ainda que relutante, ele contrata Pat Healy, um relapso detetive particular (Matt Dillon, adequado ao humor chulo da trama) para encontrá-la e ter notícias dela. Mas o tal detetive também se apaixona pela moça (efeito que Mary parece despertar em todos os homens a sua volta), e mente que ela já casou, engordou, enfeiou e até ficou aleijada (!!!), para assim poder cortejá-la.
Mas, Ted não desiste e, verdadeiramente apaixonado por Mary, insiste em procurá-la entrando nas mais variadas encrencas.
Travestindo sua obra com a mais terna roupagem de comédia romântica –e, de fato, dotada de todas as características emotivas inerentes ao gênero –os Irmãos Peter e Bobby Farelli (saídos da surpreendente repercussão do ácido “Debi & Lóide-Dois Idiotas Em Apuros”) desafiam o público com este trabalho insanamente hilário, dos primeiros a explorar aspectos politicamente incorretos em seu humor, obtendo resultados vulgares, porém de comprovado apelo popular, o que se tornou um padrão mais tarde, para o bem e para o mal. Engraçadíssimo, sobretudo pela escolha certeira de seu elenco; estão perfeitos, não apenas o desajeitado e simpático Ben Stiller e o cafajeste Matt Dillon, mas acima de tudo, a belíssima Cameron Diaz, cuja revelação cômica se deu neste filme e que naquele ano, 1998, conseguiu romper o habitual preconceito para com filmes de comédia (persistente até hoje) e amealhou diversos prêmios de melhor atriz do ano.

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Quase Irmãos

Não deixa de ser uma travessura do time de comediantes liderados por Judd Apatow (produtor do filme) este escracho protagonizado por Will Ferrel –ator cujos filmes fazem mais sucesso nos EUA, do que aqui no Brasil, certamente em função do seu humor muito característico e norte-americano.
Curioso notar que este é um trabalho de Adam McKay (que com Ferrel fez também o cultuado “O Âncora-A Lenda de Ron Burgundy”), antes de suas indicações ao Oscar por um filme, também de comédia, mas que revelava uma relevância impar assim como uma conscientização da atualidade que um trabalho como este jamais levaria a supor, o extraordinário “A Grande Aposta”.
Aqui, a idéia aparentemente é levar o conceito de caricatura à níveis extremos. Pois é, afinal de contas, uma caricatura o personagem Brennan, vivido por Will Ferrel que, do alto de seus quarenta anos de idade, ainda vive com a mãe, Nancy (a ainda muito bonita Mary Steenburgen). O mesmo calha de acontecer com Dale (John C. Reilly, perfeito contraponto de Ferrel), filho quarentão e infantil que ainda mora com Robert (Richard Jenkins), seu pai.
Do romance que brota do encontro entre pai de um e mãe do outro, surge a situação que coloca ambos como meio-irmãos e morando debaixo do mesmo teto.
À previsível indisposição inicial, logo se segue uma forte identificação (ocasionada pela birra em comum com o irmão mais novo de Brennan, interpretado de maneira bizarra por Adam Scott) o quê só deflagra ainda mais confusões: Dois homens inconseqüentes e imaturos, afinal, fazem o dobro de bagunça do que um só.
O diretor e roteirista McKay, no entanto, friza esses acontecimentos com ênfase num humor esculachado e adolescente, reflexo do comportamento dos protagonistas, que em nada busca atender a realidade. Deveras, não há qualquer intenção de um registro real, por exemplo, nos lampejos ninfomaníacos da cunhada de Brennan (Kathryn Hahn) para cima do desajeitado e indiferente Dale –e isso é proposital, tornando necessário que se entre no espírito para apreciar o filme.
Talvez, o grande problema seja que nem todos os atores se saiam bem com tal tipo de humor. Se Ferrel e Reilly abraçam por completo o ridículo (até mesmo grotesco) de sua situação, o mesmo não parece ocorrer com naturalidade em Kathryn Hahn ou em Adam Scott. No caso dos pais, o habitualmente ótimo Richard Jenkins nem sempre encontra em algumas cenas a serenidade ideal para reagir às presepadas dos personagens principais; por sua vez, Mary Steenburgen, mesmo que longe de qualquer rompante cômico, parece interpretar a única personagem capaz de preservar alguma coerência ao longo de todo o filme.

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Kong - A Ilha da Caveira

Habitante do imaginário popular desde 1933, quando o filme clássico de Merian C. Cooper foi lançado, King Kong apareceu em várias versões na cultura pop além dos três conhecidos longa-metragens para cinema; até mesmo um encontro com o monstro nipônico Godzilla foi arranjado!
Nessa nova personificação, “Kong-A Ilha da Caveira”, o macaco gigante surge embalado por uma veia comercial extremamente atrelada aos tempos de hoje –onde uma franquia só vale a pena comercialmente quanto tem um “universo compartilhado”.
Por isso, a trama apresenta ligeiras modificações em relação àquelas dos filmes anteriores. Ainda há –é claro! –uma assim chamada Ilha da Caveira, onde as mais inacreditáveis monstruosidades se criaram longe do testemunho humano. Como também ainda há aqueles impelidos por um desejo quase inconseqüente de ir até lá, e descobrir seus segredos, mesmo que isso custe toda a vida de uma incauta equipe que irá acompanhá-los. E aqui, tal personagem ganha vida nas mãos de John Goodman, um estudioso obcecado em descobrir a Ilha da Caveira (identificada por meio de fotos de satélite), e que convence, ao lado de outro companheiro (Corey Hawkins) um senador de Washington (ponta de Richard Jenkins) a financiar uma expedição à ilha antes dos russos (eram anos 1970, e vivia-se a realidade da Guerra Fria). Ele é só o primeiro de muitos que virão.
Finda a Guerra do Vietnam, a esquadrilha de soldados e helicópteros chefiados pelo Coronel Packard (Samuel L. Jackson, o Nick Fury de “Os Vingadores”, da Marvel Studios) recebe assim a missão de escoltar os cientistas até o longínquo lugar –a conversão gradual e nada sutil do personagem de Jackson num estereótipo de militar intempestivo, irredutível e explosivo é infelizmente dos pontos baixos do filme.
Além deles, está também o mercenário e aventureiro de aluguel Conrad (Tom Hiddleston, o Loki de “Thor”, da Marvel Studios) e a fotógrafa de guerra Mason Weaver (Brie Larson, protagonista do ainda vindouro filme da “Capitã Marvel”, da Marvel Studios).
Na ilha, além dos perigos eventuais e da portentosa presença de King Kong (vivido, na captura de performance, pelo ator Toby Kebbel), eles encontram também um piloto perdido da época da Segunda Guerra Mundial, Marlow (John C. Reilly que foi coadjuvante em “Guardiões da Galáxia”, da Marvel Studios).
E, como se pode notar pelos créditos do elenco, se há um molde pelo qual esta produção se baseia, ele está menos no clássico “King Kong” de Merian C. Cooper e Ernest Schoedsack e mais nos bem-sucedidos filmes da Marvel que compartilham o mesmo universo entre si. Este filme também trás uma vibração assim: E isso se percebe na presença da subdivisão Monarch –também ela presente em “Godzilla”, de Gareth Edwards –mostrado aqui como um departamento ainda embrionário, capitaneado por Randa (o personagem de Goodman) e que é uma boa dica do que ainda virá. Se mesmo assim o público não se convencer, certamente a cena pós-créditos (tal como faz a Marvel Studios) o fará: Pois eis que agora é Hollywood, com seus efeitos especiais grandiloquentes e megalomaníacos, quem quer, afinal, reeditar o encontro de Kong com Godzilla e outros gigantescos monstros ilustres do passado!
Até lá, no entanto, é possível se entreter, e muito bem, com o regozijo cinematográfico que o diretor Jordan Vogt-Roberts consegue extrair de todas as cenas, desde que se releve um ocasional exagero na sinergia de algumas seqüências e na pressa do andamento –fruto, entre outras coisas, de um roteiro que ao mesmo tempo em que apresenta dezenas de personagens, exige ritmo em sua condução.

sábado, 24 de junho de 2017

Amizade Colorida

O terreno das comédias e dos romances –e sua miscelânea, as comédias românticas –têm particular interesse no registro dos relacionamentos modernos.
O cinema mais descontraído e comercial esbaldou-se, ao longo dos anos, com registros bem-humorados dessas transformações de comportamento –que o digam clássicos do gênero, como “Adivinhe Quem Vem Para Jantar”.
Atualmente, embora nossa sociedade apresente uma certa inércia em termos de mudanças comportamentais, ocorre uma ou outra característica que reflete o nosso tempo.
E, no que diz respeito, a tentar adaptar-se da melhor forma possível às complicações do sexo, o ser humano está sempre tentando.
A idéia do relacionamento aberto, sem vínculos de obrigação entre duas pessoas, mas sob o acordo de proporcionar prazer ao seu par sempre que requisitado, não é assim tão nova (na verdade, ela não é nem um pouco nova!), mas ela certamente adquiriu novos recursos e novos propósitos com o advento das mídias digitais, dos celulares e da velocidade da informação em si –que, acima de tudo, transformou essencialmente os relacionamentos.
É o ponto de partida deste filme que –sinal dos tempos –não foi o único, naquele ano, a tratar desse assunto; também a comédia “Sexo Sem Compromisso”, com Ashton Kutcher e Natalie Portman, abordou o mesmo assunto, porém, de maneira risível e sem talento.
Este revela-se um filme muito melhor.
Ambos desiludidos com suas histórias de amor recentes, uma caça-talentos nova-iorquina (MIla Kunis, linda e cativante) e um diretor de arte vindo de L.A. (o engraçado Justin Timberlake) fazem uma combinação: Usufruir juntos dos benefícios do sexo permanecendo os bons amigos que são. Aos trancos e barrancos, e com as ocasionais complicações, eles vão levando seu acordo da forma mais descompromissada possível, mas ainda sim, aos poucos, um relacionamento real começa a surgir.
Com essa premissa e um ímpeto de observação espirituoso e perspicaz acerca das relações modernas e dos hábitos singulares dos moradores de uma metrópole, o diretor de "A Mentira", Will Gluck, elabora uma obra com intenções mais amplas que o seu bom trabalho anterior, mas, entrega no final, um entretenimento afável e romântico muito beneficiado pelo esperto entrosamento de seu casal central.

quinta-feira, 9 de março de 2017

Queime Depois de Ler

Joel e Ethan Coen realizaram este filme logo na seqüência de sua obra-prima, “Onde Os Fracos Não Têm Vez”, talvez para tirar, o quanto antes, qualquer expectativa em torno de sua produção subseqüente e continuar fazendo os filmes pouco usuais que sempre fizeram.
Sob esse prisma, este trabalho surge assim como um esforço dos Coen em busca de si mesmos, e em busca do tipo de cinema sarcástico, enganosamente caricato, pontuado por um humor peculiar e um drama intrínseco que sempre os definiu.
Passa longe (e isso provavelmente é deliberado) de ter o vigor narrativo de seu trabalho anterior. No lugar disso, os Coen esmiúçam a comédia humana, na forma da existência de almas perplexas, mesquinhas e desesperadas que são muitos de seus personagens, e da propensão irreprimível que essa comédia tem em converter-se em tragédia.
Despedido do FBI por alcoolismo, ex-agente (John Malkovich) resolve escrever um livro de memórias que, supõe ele, será bombástico. Enquanto sua mulher adultera planeja o divórcio para viver com seu amante, um disquete com essas memórias extravia-se e vai parar numa academia de ginástica onde dois funcionários (uma mulher frustrada que quer dinheiro para uma série de cirurgias plásticas –Frances McDormand –e um personal trainer dos mais estabanados –Brad Pitt) fazem planos de devolvê-lo em troca de uma recompensa em dinheiro, mas o problema de comunicação entre as partes é tamanho que o ex-agente toma tudo como chantagem. Uma grande confusão inicia-se envolvendo esses personagens e mais alguns outros.
Nesta fusão de comédia de humor negro, suspense e drama perpetrada pelos Coen, eles mostram-se sempre afeitos a filmes de natureza muitas vezes incategorizável como este, o que resgata ligeiramente a memória de muitos dos seus trabalhos pregressos, como o áspero e ácido “Gosto de Sangue”, o cômico e irônico “Arizona Nunca Mais”, o desconcertante “Fargo” e o caricato e ridiculamente genial “O Grande Lebowski”.
Mais do que um grande filme, portanto, os Coen desejam aqui fazer um tratado minucioso e específico destinado ao seu público (se é que eles têm um) a respeito do tipo de filme que eles planejam fazer.
O tratamento por eles reservado aos personagens oscila com desenvoltura e imprevisibilidade entre o carinhoso e o perverso, e no objetivo de tornar tudo ainda mais peculiar eles dão à essas figuras rostos famosos de um elenco estelar (além dos já citados, aparecem também George Clooney, Richard Jenkins, J.K. Simmons e Tilda Swinton).

domingo, 11 de setembro de 2016

Rastro de Maldade

“Bone Tomahawk” –título original –não é um filme para todos. É um faroeste, e tem Kurt Russell, e param por aí as semelhanças com “Os Oito Odiados”, de Quentin Tarantino.
Seu diretor e roteirista, S. Craig Zahler, não se mostra interessados em duelos ao pôr-do-sol, os demonstrações romantizadas de honra que fizeram a fama do gênero –seu olhar está o tempo todo voltado para as condições atrozes à que foram submetidos os homens e as mulheres que ousaram tentar sobreviver no Velho Oeste.
É assim que encontramos os personagens principais, moradores da cidadezinha de Bright Hope. O xerife Hunt (Russell, ótimo como sempre) prende um suspeito forasteiro que apareceu no bar local (David Arquette), sem saber que ele profanou um cemitério indígena, dias antes. Na calada da noite, índios aparecem e levam junto com ele uma moça, assistente do médico do lugar e o jovem assistente do xerife.
Dessa maneira, Hunt junta um grupo de resgate, formado por seu idoso assistente, Chicory (Richard Jenkins, fantástico), pelo perplexo –e aleijado –marido da moça, Arthur (Patrick Wilson), e pelo irascível almofadinha Brooder (Mathew Fox), e partem ao encalço dos selvagens, sob o apavorante alerta de que os índios que procuram são primitivos e capazes das mais terríveis atrocidades.
A partir daí, o diretor Zahler não tem pressa em esmiuçar todos os obstáculos naturais e existenciais que surgem frente ao grupo, devastando pouco a pouco sua determinação.
Embora as cenas externas predominem, com a câmera enfatizando a poderosa opressão do desolado horizonte aberto, este é um filme essencialmente intimista; a angústia que brota dos personagens encontra trânsito livre para chegar ao expectador.
Afirmar que este é um faroeste revisionista seria redundante: Ele é um esforço natural –e legítimo, sendo Zahler também um escritor –em transpor um retrato no Oeste muito mais autêntico e realista, despojado e condizente com a realidade, muito mais frequentemente empregado na literatura do que no cinema –onde prevalece o romantismo dos grandes clássicos.

Este grande filme de Zahler não tem espaço para qualquer romantismo, ou mesmo as homenagens referenciais dos faroestes de Tarantino, a não ser que se tome por referência as cenas terrivelmente sangrentas e impiedosas, infligidas aos personagens na parte final, quando enfim encontram os tais índios, e que por vezes parecem saídas do perturbador e brutal “Holocausto Canibal”.

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Passe Livre

Sempre há um filme para se relaxar. Um entretenimento que nos permite desligar um pouco aquela sisudez crítica para simplesmente aproveitarmos, e às vezes, dar boas risadas.
Muitas foram as vezes em que esse papel coube aos Irmãos Farelly.
Realizadores de obras bastante significativas da comédia nas últimas décadas como o discriminado “Debi & Lóide”, “Quem Vai Ficar Com Mary?” e “Eu, Eu Mesmo e Irene”, eles vinham amargando filmes mais fracos, menores e desprovidos de personalidade, até se saírem com este “Passe Livre”, que ainda assim, dividiu boa parte da crítica.
O problema é que críticos em geral tendem a ser bastante rabugentos com comédias, e os Irmãos Farelly penaram por muito tempo com isso, reduzidos à pecha de realizadores medíocres e de mau gosto.
Seja esse comentário válido ou não, a verdade é que seus filmes conseguem fazer exatamente aquilo que, em última instância, se espera de uma comédia: Fazer rir.
Rick e Fred são casados, e acomodados há algum tempo. Mas não passou despercebido de suas esposas o fato de que andam nostálgicos demais em relação à época de solteiro, idealizando esse período de uma maneira exagerada. Após uma série de situações tão constrangedoras quanto hilárias, elas decidem tornar uma atitude radical: Conceder a eles uma semana de ‘passe livre’, durante a qual podem farrear à vontade, sem sofrer as conseqüências de uma eventual infidelidade.
Animados de início, eles aos poucos percebem que não só os tempos (e eles próprios) mudaram, como também a vida de solteiro não era nenhuma moleza.
Dos poucos a reconhecer o valor de “Passe Livre” naquele ano de 2011, Quentin Tarantino chegou a incluir o filme na sua lista de melhores do ano, um gesto bastante interessante e que eu aplaudo: Os Irmãos Farelly entregam, aqui, uma das mais genuínas comédias dos últimos anos tratando de algo que eles conhecem muito bem: Os dilemas e fragilidades masculinos, acometidos em uma certa idade da vida.
Seu tino para a escolha de atores, continua preciso e desigual: Owen Wilson tem provavelmente seu melhor trabalho, num ano que foi ótimo para sua carreira (ele também esteve em “Meia-Noite Em Paris” de Woody Allen); Jason Sudeikis, vindo da TV onde brilhava no “Saturday Night Live” é um parceiro de cena perfeito e hilariante, mas os diretores acertam mesmo com as mulheres: Jenna Fischer está num de seus mais apaixonantes trabalhos (o quê a faz destoar muito e outros e irritantes personagens que fez), Cristina Applegate tem um timing cômico magnífico, e é preciso segurar o queixo para não cair em todas as cenas em que aparece a maravilhosa Alexandra Daddario, e sobretudo, a estonteante australiana Nicky Whelan.
É um filme quase a moda dos besteiróis dos anos 1980, com piadas chulas e francamente divertidas, lindas mulheres, uma trama que gira essencialmente em torno do sexo e das distinções entre homens e mulheres, mas que nunca deixa de ressaltar, com agridoce sentimento, que os anos 1980 são, sim, uma época que já passou.