Esse esplêndido cinema exercido pelo diretor romeno Radu Mihaileanu volta seu olhar para as comunidades; em “O Concerto”, todo um grupo de músicos tornados dissidentes pelos contratempos políticos se une e se reúne a fim de provar que a música sobrepuja o perdão e o tempo; em “A Fonte das Mulheres”, ele mostra um vilarejo se fragmentar entre os apoiadores das mulheres exploradas e os insistentes argumentadores em prol de um patriarcado nem sempre justificável. Nesse trajeto, Mihaileanu não cede à tendência fácil de criar vilões – mesmo os perpetradores dos atos mais pungentes (aqueles que, por vezes, deflagram o enredo) são apresentados como parte do todo, indivíduos com os quais, em última instância, os protagonistas entendem que precisarão aprender a conviver. O brigar é comum entre seus personagens, mas o fazer as pazes é mais comum ainda.
É, pois, de um humanismo muito similar que ele
se vale para elaborar este seu brilhante “Train de Vie” – cuja premissa, não
por acaso, faz lembrar bastante o reconhecido e premiado “A Vida É Bela”, de
Roberto Benigni. Reza a lenda, que Benigni inspirou-se em “Train de Vie” para a
composição de sua história. Ambos falam sobre uma resistência algo filosófica
ao fantasma sombrio do nazismo (uma espécie de oposição partida do simples fato
de querer conservar certa felicidade) e de estratagemas mirabolantes, quase inacreditáveis,
para burlar a engrenagem massacrante do mal e tentar viver. Se “A Vida É Bela”
se tornou mundialmente conhecido e foi surpreendentemente premiado na cerimônia
do Oscar 1999 – segundo muitos, mais por influência do produtor e distribuidor
Harvey Weinstein do que por mérito artístico de fato – “Train de Vie” até hoje
segue conhecido apenas nos meios cinéfilos, sendo considerado um cult-movie por seus apreciadores.
1941. Uma pequena aldeia da Europa Ocidental
amanhece com os apelos apavorados de Schlomo (Lionel Abelanski, de “Magia Ao Luar”), o maluco local. Segundo ele, os Nazistas avançam inexoravelmente pelas
imediações e será questão de tempo até dizimarem o vilarejo judeu no qual
todos, até então viviam em harmonia. Os chefes locais, liderados por seu sábio
rabino (Clément Harari) se reúne em busca de uma solução que salve a todos, no
entanto, é do próprio Schlomo que surge a ideia que pode livrar todos eles do
perigo: Providenciar um trem, disfarça-lo como uma locomotiva nazista e,
debaixo do nariz de seus algozes, encenar uma falsa deportação levando toda a
população da aldeia para a Palestina, em Israel, onde todos estarão seguros.
“A Terra Prometida” como dito na Bíblia.
A concretização do plano, contudo, esbarra numa
série de complicações de ordem logística – encontrar o trem e obtê-lo a partir
dos modestos recursos que os moradores em mutirão são capazes de despender (e
entra aí o tino de negociação financeira tão inerente ao povo judeu!);
encontrar, entre os membros do povoado, alguém que consiga ser convincente como
oficial alemão a fim de ludibriar os eventuais empecilhos pelo caminho;
conseguir disfarças os vagões de forma convincente, e providenciar um
maquinista ou, pelo menos, alguém que seja capaz de conduzir e manusear a
parafernália da locomotiva.
Os escolhidos para se trajarem de oficiais
nazistas são um grupo liderado pelo relutante Mordechai (Rufus, de “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain”) que aprende, à duras penas, as minúcias do sotaque
alemão para que entregue, perante os oficiais nazistas genuínos que vão
encontrando pelo caminho, uma atuação inquestionável!
Quando todas as etapas do plano já estão em
andamento, as forças nazistas começam a dar as caras na região, e todos os
moradores partem, enfurnados dentro do trem no qual haverão de tentar passar
despercebidos pelos constantes bloqueios nazistas, fingindo que estão à caminho
de algum campo de concentração, mas, na verdade, com destino traçado para bem
longe, sua sonhada terra prometida.
O avanço gradual dessa jornada permeada de
humor e drama proporciona à Radu Mihaileanu a concepção de
um microcosmos das oposições humanas: Dedicados a interpretar fielmente os
nazistas (pois, sua sobrevivência depende, em grande medida, disso), os grupo
chefiado por Mordechai abraça de tal maneira seus papéis que começam a sofrer
escrutínio dos passageiros do trem, sendo tratados quase como nazistas reais
(!), enquanto, lá pelas tantas, um grupo dentre os passageiros, embriagados da
doutrina marxista (!), se declara comunista (!!), se rebelando contra os
demais, que eles enxergam como fascistas, burgueses e imperialistas (!!!) – não
passam, entretanto, de filhos ressentidos da severidade ocasional dos pais, ou
apaixonados indignados pela indiferença de seus objetos de desejo (!).
O surgimento dessas e de outras sub-tramas mais
ao abordar uma circunstância que trata o coletivo permite à Mihaileanu criar
uma narrativa que foge ao realista, tomando o atalho do humor e do lirismo para
chegar a um certo senso do fantástico, uma espécie muito peculiar de sub-gênero
nascido na Europa ao final da década de 1990 do qual, segundo consta, “Train de
Vie” foi um dos pioneiros.

Nenhum comentário:
Postar um comentário