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segunda-feira, 14 de fevereiro de 2022

Dr. Fantástico


 Em seu libelo anti-guerra, o audacioso Stanley Kubrick colocou, como era de se imaginar, os senhores da guerra como perfeitos idiotas potencialmente capazes das maiores imbecilidades. Nesse sentido, ele também refutou o eloquente formato de drama e seriedade para fazer deles os participantes de uma comédia e, com isso, escancarar o ridículo existente na paranóia e na hostilidade.

Mas, há algo de muito mais sutil na farsa de Kubrick do que sua premissa sugere: A tendência auto-destrutiva do ser humano é potencializada em grandes e pequenos atos que respondem, ora pelos arcos que determinam a narrativa do filme, ora por pequenos momentos, observados em detalhes que só um perfeccionista como Kubrick seria capaz de elaborar.

Por qual razão Peter Sellers está ali a desempenhar nada menos do que três personagens?

As respostas me escapam uma vez que foi a um tempo considerável que vi o filme; naquela postura analítica e austera que, é de praxe, costumamos encarar um trabalho do consagrado Kubrick. Todavia, a genialidade de “Dr. Fantástico” é, entre outras coisas, a quebra dessas expectativas. Espera-se dele um tratado inteligente, inquisitivo e contundente das animosidades bélicas fervilhantes do homem, e o que ele entrega é uma sátira política povoada de indivíduos apalermados, fingindo uns para os outros que sabem o que fazem, quando na verdade não sabem de coisa alguma. A ignorância conduz não só a erros crassos –passíveis, logo, logo, de acarretar a tragédia nuclear –mas também os enrola a ponto de não conseguirem resolver a complicação iminente: E você que achava “Não Olhe Para Cima” tão original...

O presidente dos EUA (Peter Sellers), na sala de guerra, mal sustenta a liderança que se espera dele –quando dois assessores seus saem no braço por motivações ridículas, ele pede, indulgente, que parem de brigar. Os pilotos despachados por engano para bombardear a Rússia o fazem sem que as autoridades sejam capazes de impedí-los com uma mera mensagem de contra-ordem. Os oficiais da base militar de onde partiram (entre eles, Peter Sellers!) se veem enrolados com besteiras surgidas de sua própria insensatez. Dentre todos, o suspeito conselheiro do presidente, o sibilante, cadeirante e megalomaníaco Dr. Strangelove (olha Peter Sellers aí de novo!), contempla a guerra nuclear cada vez mais inevitável com crescente entusiasmo; lá pelas tantas ele, que é alemão, sequer consegue conter os espasmos involuntários de sua mão que insiste em fazer a saudação nazista!

Lançado em 1964, “Dr. Fantástico”, embora não fizesse rodeios em cutucar a evidente ferida nazista da Segunda Guerra Mundial –ilustrada com ênfase corrosiva em seu bizarro personagem título –chegava às telas de cinema exatos dois anos após os acontecimentos da dramática Crise dos Mísseis de Cuba, quando o mundo esteve à beira, como nunca antes (e possivelmente nem depois), de uma catástrofe nuclear real.

Diferente dos outros autores cinematográficos de seu tempo, acometidos da cautela em saber se abordar tal assunto traumático não seria precoce demais, Kubrick pega o imediatismo de seu tema e não tarda a dele extrair um humor palpitante.

Como tantas obras de primor irrestrito a brotar de sua mente, “Dr. Fantástico” não se propõe a ganhar o público por meio de frivolidades mercadológicas; Kubrick quer, como sempre, provocar, e em seu intento, pouco há da intenção em ser aceito, ovacionado, ou paparicado. Se o filme que construiu com tão peculiar orientação é uma obra digna de ser lembrada tanto tempo depois de sua gênese, é porque seu resultado prima por uma qualidade cinematográfica inconteste, por um empenho na execução que o faz singular, e por uma habilidade inata e flagrante de compor momentos absolutamente antológicos, entre eles, seu desfecho, sem esperança, sem ressentimentos e sem lamentações.

Nele, estão imbuídos os princípios básicos de Kubrick enquanto realizador, sua incapacidade para ceder ao óbvio e ao redundante, e sua compreensão narrativa do choque que o ser humano (leia-se o público) carece para que a reflexão o leve a um mínimo de esforço e conscientização para almejar um mundo melhor.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

Um Convidado Bem Trapalhão

Realizado em 1968, no consideravelmente longo hiato de tempo entre o segundo filme da série “A Pantera Cor-de-Rosa” (“Um Tiro No Escuro”, de 1964) e o terceiro (“O Retorno da Pantera Cor-de-Rosa”, de 1975), “Um Convidado Bem Trapalhão” reuniu novamente o astro Peter Sellers e o diretor Blake Edwards.
Sellers interpreta (com todo seu arsenal infalível de trejeitos hilariantes) o ator indiano Hrundi Bakshi, que consegue, com poucas horas de trabalho, arruinar todo um filme em produção graças às suas trapalhadas –a cena sensacional que abre o filme é uma referência a um momento clássico de “Gunga Din”.
Apontado para ser reconhecido como persona non grata entre os estúdios, o nome do desastrado ator vai, sem querer, parar numa lista de convidados para uma festa a ser celebrada justamente na mansão do dono do estúdio.
E é inteiramente lá que o filme de Edwards irá se passar.
Engana-se, porém, aqueles que imaginam que isso o torne um filme chato ou cansativo. Pelo contrário, especialistas no assunto, a comédia física que Edwards e Sellers constroem é implacável e inescapável (não há como não rir das situações que, a partir de um determinado momento, se sucedem uma a uma!): A própria mansão, cheia de vidraças, piscinas e de uma geografia propícia à gafe se torna um prato cheio para as ingênuas patetices de seu desastrado protagonista.
Gentil e tranquilo, Hrundi ganha a simpatia dos convidados da festa ao aparentar um sossego que não entrega o caos que, sem querer, ele consegue produzir ao seu redor graças às suas trapalhadas –e ele conta com um ou outro coadjuvante característico de um humor cáustico que, vez ou outra, Blake Edwards introduz em sua obra, como o garçom displicente que toma todos os drinques que são por ventura recusados; e se embebeda no processo!
Edwards oculta muito de suas audácias artísticas por trás dessa comédia tão inofensiva em sua aparência e em sua evocação da graça transparente das realizações do cinema mudo: Esta foi a primeira realização cinematográfica a contar com uma câmera de televisão a registrar a rotina dos bastidores posicionada logo acima da câmera de cinema –o quê se habituou chamar ‘making-off’ –inicialmente pensada para que o diretor Edwards tivesse pleno acesso às filmagens, além disso, sendo uma produção realizada nos anos 1960, lá estão as sutis observações de comportamento, as intervenções da contracultura hippie na vida comum (como o filhote de elefante pintado que acaba bagunçando toda a festa) e as manifestações políticas acerca do estado das coisas de então na forma de breves e veladas menções.
Há no filme um palpável senso de improviso, fruto da predisposição declarada do ator e do diretor, em se ater menos ao roteiro (esboçado de forma básica) e mais aos incidentes e ideias que iam surgindo em cena –tal e qual a mais famosa sequência do filme, onde Hrundi tem uma hilária gafe dentro do banheiro envolvendo o rolo de papel higiênico (!).
À sua maneira, “Um Convidado Bem Trapalhão” já antecipava as impressões algo corrosivas que Blake Edwards possuía em relação ao sistema de produção dos estúdios de Hollywood –impressões essas que ele escancarou, com resultados discutíveis, em “S.O.B.”, de 1981 –e isso se nota em detalhes gerais como o tom desdenhoso por meio do qual seu humor acaba com a festa dos membros do show business; até mesmo a presença de Peter Sellers como o distraidamente catastrófico protagonista pode ser vista como um comentário: Afinal, Edwards passou poucas e boas nas mãos de Sellers e seu estrelismo ao longo da série “A Pantera Cor-de-Rosa”.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

A Pantera Cor-de-Rosa dos Anos 1960 aos 80

A Pantera Cor-de-Rosa (1963)
Na teoria, a idéia era completamente diferente: Fazer uma comédia que enaltecesse a fleuma britânica do astro David Niven, o protagonista de fato deste primeiro filme no papel de Charles Lytton, uma espécie de ladrão aventureiro cheio de charme –quase uma versão cômica do protagonista de “Ladrão de Casaca”, de Alfred Hitchcock, vivido por Cary Grant –que almeja roubar o precioso diamante conhecido como Pantera Cor-de-Rosa em poder da belíssima princesa Dahla (Claudia Cardinale, esplêndida) ao mesmo tempo em que tem um caso com a mulher do investigador da Scotland Yard indicado para encontrá-lo.
Foi justamente no personagem desse investigador, o Inspetor Jacques Clouseau, que a equação se inverteu; pois foi escalado para vivê-lo um promissor comediante inglês chamado Peter Sellers cujas improvisações inventivas, inesperadas e francamente engraçadas deram vida inesperada ao personagem.
Apesar do maior tempo em cena e da maior importância na trama do personagem de Niven, era o Inspetor Clouseau quem conseguiu convencer o público de que se tratava do grande herói do filme: O quê era para ser uma celebração do estrelado de David Niven tornou-se a descoberta de um novo talento.
O diretor Blake Edwards ainda segue aquilo que se esboçava no roteiro –uma comédia de erros transcorrida em grande parte num chalé das montanhas onde todos os personagens se reúnem, na qual Charles Lytton se vê privilegiado todo o tempo, fazendo de Clouseau, com freqüência, o coadjuvante tolo que sempre terminava enganado –no entanto, a soma de todas as improvisações de Sellers provoca um desequilíbrio na narrativa.
Diante das consciências desses detalhes inesperados que moldaram a produção é possível perceber esse estranho reflexo involuntário deste primeiro filme –o de tratar como personagem principal o assaltante verdadeiramente pouco interessante enquanto restringe o tempo de Clouseau.
O público, mesmo o de hoje, não comprou essa idéia, e muitos são os que consideram Clouseau o protagonista mesmo deste filme inicial.
Também vale mencionar o sucesso do personagem animado que tradicionalmente protagoniza os créditos iniciais junto da inconfundível trilha sonora assinada por Henry Mancini.

Um Tiro No Escuro (1964)
Dessa forma, já no ano seguinte, foi providenciada uma continuação, desta vez com Clouseau como seu protagonista oficial.
O resultado, felizmente, era inevitável: Melhor, mais engraçado e bastante superior ao primeiro filme que empalidece consideravelmente na comparação, esta foi a produção estabeleceu, inclusive, uma série de elementos que compuseram a, digamos, ‘mitologia’ da série “Pantera Cor-de-Rosa”. Eles surgem com alguma sutileza aqui, mas foram se intensificando à medida que passaram a fazer parte dos filmes que se seguiram, como o perplexo e desafortunado Chefe Dreyfuss (vivido brilhantemente por Herbert Lom) que desejava ver Clouseau o mais longe possível, e o mordomo Kato (Burt Kwouk) instruído a sempre atacar seu patrão (!), para que assim se mantivesse hábil nas artes marciais.
A trama pode até soar como uma mera desculpa para as gags hilárias e geniais de Sellers, mas, na verdade partiu de uma peça teatral originalmente estrelada por Walter Mathau. Foi sob apelo de Peter Sellers que Blake Edwards envolveu-se no projeto (junto do roteirista William Peter Blatty que, anos depois, escreveria “O Exorcista”), tendo em algum momento a idéia de converter o enredo num filme protagonizado por Clouseau.
Tudo gira em torno da investigação de um homicídio cometido na mansão de um milionário. Seguido de outros mais (numa paródia das obras de suspense ao estilo de Agatha Christie), esse crime tem o Inspetor Clouseau designado para sua solução, cujos métodos incomuns (para não dizer completamente atrapalhados e insanos!) de investigação rejeitam a principal suspeita, uma bela camareira (Elke Sommer), para se concentrar em técnicas nada convencionais para encontrar os verdadeiros culpados.
Este “Um Tiro No Escuro” é, também, o único dos filmes estrelados por Sellers que não trás o personagem animado da Pantera Cor-de-Rosa em seus créditos iniciais.

Inspetor Clouseau (1968)
Quatro anos depois de “Um Tiro No Escuro” houve uma produção –hoje bastante desconhecida, rara e difícil de achar –na qual o estúdio da MGM tentou dar uma espécie de continuação independente para a série: Eles substituíram o diretor Blake Edwards por Bud Yorkin (ainda que Edwards tivesse escrito o argumento), e o protagonista Peter Sellers por Alan Arkin, no papel de Jacques Clouseau. Isso e mais o fato do filme não contar com a memorável trilha sonora de Henry Mancini contribuíram muito para “Inspetor Clouseau” ser visto como um episódio não-oficial da série.
Aqui, Clouseau é requisitado como um representante da Scotland Yard para auxiliar as investigações de alguns policiais norte-americanos nos EUA.
A capacidade imensurável de Clouseau arrumar confusões, contudo, suplanta com margem a boa recomendação que o levou a ser chamado e ele termina seqüestrado pelos criminosos que deveria capturar.
Mais que isso: Ele tem se rosto replicado em várias máscaras que esses mesmos criminosos usarão para praticar uma onda de crimes e jogar a culpa sobre ele.
Num registro cômico mais sutil e gracioso –diferente da genial e explosiva comédia física de Peter Sellers –o grande ator Alan Arkin dá uma versão mais polida e amena para o personagem, o quê parece ter sido a inspiração para Steve Martin quando ele também viveu Clouseau numa refilmagem de “A Pantera Cor-de-Rosa” em 2006.

A Volta da Pantera Cor-de-Rosa (1975)
Dez anos depois da realização de “Um Tiro No Escuro”, o ator Peter Sellers e o diretor Blake Edwards finalmente harmonizaram suas então alardeadas ‘diferenças criativas’ para engatar uma sucessão de filmes consecutivos estrelados pelo Inspetor Clouseau durante a década de 1970.
O primeiro foi este “A Volta...” que começa com uma trama que remete ao primeiro filme: Uma vez mais o diamante conhecido como a Pantera Cor-de-Rosa é roubado. Desta vez, entretanto, restam poucas dúvidas de quem foi: Certamente, Charles Lytton, o ladrão elegante que supostamente seria o protagonista do primeiro filme (e que aqui é interpretado não por David Niven, mas sim por Christopher Plummer, que acrescenta novas sutilezas ao personagem).
A grande ironia é que Lytton, agora, é inocente.
E com o implacável, ainda que incontrolavelmente atrapalhado Clouseau em seu encalço, tudo o que ele pode fazer é mover uma investigação para descobrir, ele próprio, o responsável.

A Nova Transa da Pantera Cor-de-Rosa (1976)
O filme seguinte, um dos mais adorados da série na opinião de muitos fãs, trazia uma premissa que, se avaliarmos as circunstâncias deixadas desde “Um Tiro No Escuro”, acabava sendo um caminho natural: O Chefe de Polícia Dreyfuss, farto das estripulias inacreditáveis de seu subordinado Clouseau (que, a despeito delas sempre se dava bem), entra em colapso e se torna um vilão megalomaníaco que, por sua vez, somente o próprio Clouseau é capaz de deter.
Dentre todos os episódios da série, este é o que assume com mais intensidade sua característica de ‘desenho animado’, refletida no comportamento dos personagens, no estilo do humor e da comicidade e na construção cartunesca de muitas cenas.
O resultado é tremendamente divertido.

A Vingança da Pantera Cor-de-Rosa (1978)
Curiosamente, o filme seguinte, realizado dois anos depois, encontrava uma forma de ignorar por completo a trama de “A Nova Transa...” mostrando mais uma vez o Chefe Dreyfuss como o superior aflito de Clouseau –e, como era tradição na série, alvo involuntário e constante de suas trapalhadas –e não como o grande vilão derrotado no filme anterior: Afinal, o talentoso Herbert Lom era uma escada sem igual para o gênio cômico de Sellers.
Para alguns, a única explicação plausível é que “A Nova Transa...” se inseria no que talvez fosse uma realidade paralela, mas os realizadores contornaram isso com uma boa dose de non-sense: O gangster Phillipe Douvier (Robert Webber) organiza um atentado contra a vida do Inspetor Jacques Clouseau que é então dado como morto.
Diante da notícia da morte de Clouseau, Dreyfuss sara quase que instantaneamente e, como num passe de mágica, está restabelecido em seu cargo na Scotland Yard (!), encarregado de encontrar os responsáveis pelo crime.
Mas, Clouseau não morreu, porém irá manter isso em segredo para poder descobrir a identidade de seus inimigos, valendo-se inclusive do talento para disfarces que ele julga ter (!).

A Trilha da Pantera Cor-de-Rosa (1982)
Era notória a insatisfação de Peter Sellers para com os rumos de sua carreira: Não lhe agradava adquirir fama mundial graças a um filme do qual ele declaradamente não gostava como a série da Pantera Cor-de-Rosa. O público, por outro lado, amava. O quê levava o estúdio e o diretor Blake Edwards à apelos que, a cada filme, iam ficando cada vez mais dramáticos na tentativa de convencer Sellers a viver novamente o Inspetor Clouseau.
Após “A Vingança...” o roteiro preparado para virar um filme, que jamais chegou a se concretizar, se chamava “O Romance da Pantera Cor-de-Rosa”. Isso porque infelizmente Peter Sellers faleceu, vitimado por um fulminante ataque cardíaco.
Edwards, contudo, tinha uma última carta na manga: Algumas cenas adicionais, filmadas por Sellers e deixadas de fora da edição de “A Vingança...”. Bastava construir um roteiro minimamente plausível que acomodasse tais cenas –a participação de Clouseau, no filme, soma cerca de uns quinze minutos –e depois preencher o restante do filme com uma trama não muito convincente que envolve uma jornalista (a comediante Joanna Lumley) que passa então a investigar o abrupto desaparecimento do próprio Clouseau no curso de uma investigação.

A Maldição da Pantera Cor-de-Rosa (1983)
Embora tivesse afirmado –ainda durante a fase de produção e lançamento de “A Trilha da Pantera Cor-de-Rosa” –que nenhum outro ator poderia interpretar Clouseau, Blake Edwards se mostrou, já na década de 1980, mais do que disposto a tentar dar uma continuidade à trama da Pantera Cor-de-Rosa, correspondendo as expectativas do público ao gancho narrativo deixado pelo filme anterior que, sabemos, tratava-se de uma colagem de cenas com um fiapo de roteiro como pretexto para costurá-las.
A ironia e curiosidade da coisa é o ator escolhido por Edwards para tentar dar continuidade de onde Sellers, devido ao seu falecimento, parou: O ainda então James Bond, Roger Moore! O estranho é que não há sequer um esforço para caracterizar Moore, na esperança de que, ao menos em figurino ou maquiagem, ele se assemelhe ao Clouseau de Sellers –algo que, pelo menos, Alan Arkin se dispôs a fazer...
Para facilitar o trabalho de Moore, a participação de Clouseau (que é sempre bom lembrar, estava desaparecido desde o filme anterior) é reduzida ao mínimo neste filme, protagonizado, por sua vez, por outro detetive atrapalhado, Clifton Sleigh (Ted Wass, incapaz de igualar o talento cômico de Peter Sellers), um nova-iorquino escolhido para descobrir o misterioso paradeiro de Clouseau.
Houve nítidas intenções de prosseguir com a série mesmo depois da partida de Sellers, e elas são particularmente notáveis neste filme –em especial, nos fortes ganchos narrativos e nas cenas inconclusivas ao final que enunciam continuações (que jamais vieram), em especial, ao trazer de volta, numa breve ponta, David Niven, mais uma vez como Charles Lytton.

A crítica e, sobretudo, o público decretaram: A série “A Pantera Cor-de-Rosa”, infelizmente, havia mesmo morrido com o genial comediante que lhe tinha dado vida; os planos para dar continuidade à esta trama, quaisquer que fossem, jamais foram materializados, e Blake Edwards passou mais uma década inteira antes de se aventurar a tentar fazer algo dentro daquela série. Infelizmente, isso terminou acontecendo em 1993, com um dos filmes mais catastróficos de sua carreira, “O Filho da Pantera Cor-de-Rosa”, com o italiano Roberto Benigni, mas isso... é uma outra história.

sábado, 25 de março de 2017

Lolita

Há algum tempo atrás, nos primórdios da criação deste espaço, eu fiz uma resenha do “Lolita” de Adrian Lyne lançado no fim dos anos 1990, adaptado da obra de Vladimir Nabokov. Agora, seguindo o caminho inverso, eu volto ao passado, para falar da primeira adaptação, feita pelo mestre Stanley Kubrick, em 1962.
A trama é basicamente a mesma em ambos. O tratamento dado por seus realizadores, não.
Adrian Lyne fez um filme mais fiel ao livro, preservando inclusive toda a roupagem escandalosa inerente à premissa de uma jovem menor de idade envolvida com um homem pelo menos vinte anos mais velho –cuja repercussão negativa chegou a afetar o desempenho de público e crítica de seu filme.
Mas, como pode o filme de Lyne ser mais fiel ao livro, se Kubrick dispunha do próprio Vladimir Nabokov como roteirista?
A resposta é que o filme de Kubrick se mantém firme e fiel não à trama ou seus infinitos detalhes, mas ao senso de observação moral que, em seu cerne, Nabokov almejava.
Resumindo: Kubrick entendeu o livro; Lyne enamorou-se por ele.
Kubrick fez de seu filme um tratado ético e antropológico sobre as tendências obscuras do homem; Lyne fez quase uma história de amor.
É sob esse prisma que o trabalho de Kubrick se sobressai em relação ao de Lyne –que, não há dúvidas, fez um filme belo, visualmente embriagante e de conotações comoventes.
Não era e nem nunca foi essa a intenção de Nabokov.
Na primeira metade do Século XX, o inglês Humbert Humbert (James Mason, num registro bastante diferente do elegante Jeremy Irons, no outro filme), professor universitário de meia-idade vai trabalhar nos EUA, e apaixona-se perdidamente por Dolores, ou Lolita (a bela e magnética Sue Lyon), a filha de Charlotte (Shelley Winters), a viúva que administra a pensão onde passa a morar.
Ele casa-se com Charlotte a fim de manter-se próximo à garota, mas, ela descobre esse segredo morrendo atropelada logo em seguida, o quê faz de Humbert Humbert o guardião legal de Lolita.
Ele inicia com ela uma enorme viagem pelas rodovias norte-americanas na intenção de consumar seu romance proibido, mas um estranho misterioso passa a seguí-los: Clare Quilty (aqui interpretado por um ardiloso Peter Sellers que depois faria com Kubrick o filme “Dr. Fantástico”).
Há um deliberado desleixo no tratamento dado por Kubrick ao seu protagonista: A atuação de James Mason é displicente, sôfrega e às vezes até desagradável. Isso corresponde ao juízo do próprio diretor em relação ao personagem: Para Kubrick toda e qualquer ação de Humbert Humbert é reprovável, e ele o faz ser o mais apático personagem em cena.
Já, Lolita é de um primor absoluto: Há todo um cuidado especial de Kubrick na atuação de Sue Lyon, na maneira com que ela é mostrada (absurdamente linda!) e em nenhum momento ela soa histriônica, como acontece de maneira provavelmente involuntária no filme de Lyne.
Por conseqüência, no filme de Kubrick, é por Lolita que o expectador se compadece, torcendo para a ruína de seu molestador, por mais que este seja o narrador da história, e permaneça por mais tempo em cena.
Eis a diferença fundamental: Lyne fez um filme onde Humbert Humbert era interpretado por um ator agradável e talentoso, e Lolita (ainda que bela) era vivida por uma jovem Dominique Swain, quase sem bases dramáticas, o quê fez com que Lolita soasse para o público menos carismática e interessante do que seu algoz.
Kubrick jamais descuida disso: Assim como Nabokov em seu livro, ele exerce domínio inigualável sob sua narrativa, e deixa claro que Humbert Humbert é guiado por pulsões hediondas de um ser inescrupuloso e molestador.

Lolita é, afinal, a heroína de sua própria história.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Alice No País das Maravilhas No Cinema

Existe algo de perene e universal no conto “Alice No País das Maravilhas” que o faz não somente continuar atual e pertinente na memória de sucessivas gerações de crianças, como também servir de forte referência para inúmeros outros trabalhos que a ele devem muito de sua premissa básica, como a animação japonesa “A Viagem de Chihiro”, de Haya Myazaki (um grande entusiasta da obra de Lewis Carroll) e o clássico “Labirinto-A Magia do Tempo”.
As influências e adaptações propriamente ditas remetem à obras de todas as gerações, realizadas desde os primórdios do cinema e que totalizam mais de cem títulos (!), aqui, uma modesta lista que inclui as mais emblemáticas delas:

Alice No País das Maravilhas (1932)
A terceira adaptação cinematográfica do conto (sendo a segunda em versão falada) foi executada pela Paramount Pictures, uma produção de grande orçamento à época tirou proveito da comemoração do centenário de Lewis Carroll, celebrado naquele mesmo ano.
Dirigido por Norman McLeod, é um trabalho que envelheceu muito mal (embora hajam relatos de que mesmo naquela época tenha sido mal recebido), e suas escolhas estéticas (os figurinos portentosos e a maquiagem cartunesca escondem os célebres rostos do elenco que contam com grandes astros do período como Gary Cooper e Cary Grant) aliadas ao ritmo lento prejudicam muito a apreciação do material que, de fato, dispõe de grandes valores de produção. A direção parece contentar-se com um registro numa linguagem de teatro filmado que engessa a encenação e remove qualquer elemento na história que pudesse cativar o público –haveriam ainda muitos anos de experiência para o cinema comercial dos estúdios assimilar uma capacidade técnica e artística aprazível para conquistar as platéias.

Alice No País das Maravilhas (1949)
Houve também, pouco antes da versão da Disney –para muitos a versão definitiva –um filme francês que aproveitou o conto clássico e dele concebeu uma obra musical (característica compartilhada por muitas adaptações que vieram depois), talvez, como forma de ilustrar cenicamente os lapsos de insanidade propostos no livro e atribuídos a seus personagens.
A direção de Dallas Bower confere uma relativa solenidade teatral à encenação das peripécias de Alice (a bela Carol Marsh), numa engessada postura estética que seria virada de pernas para o ar dois anos depois, quando fosse lançada a animação da Disney.

Alice No País das Maravilhas (1951)
Embora mal-sucedido, é inegável que muitos elementos visuais e referenciais do filme de Norman McLeod foram utilizados por Walt Disney neste seu longa-metragem animado, a mais famosa provavelmente dentre todas as adaptações já feitas da obra de Carroll.
Criança educada nos modorrentos ambientes de uma Inglaterra vitoriana, a pequena Alice, durante um bucólico passeio no parque, resolve seguir um coelho branco, de comportamento intrigante. A criatura, sempre atrasada para alguma coisa, a conduz por um mundo esquisito e diferente, onde ela cruza-se com um chapeleiro maluco, a tomar chá de forma anárquica junto de uma lebre igualmente aloprada; uma lagarta bonachona e fumante que parece se mover e se expressar em slow motion; uma psicótica rainha de copas, obcecada em tirar a cabeça daqueles que lhe desagradam; e muitos outros.
E é aqui, onde surge uma das cenas mais terrivelmente inesquecíveis da minha memória afetiva cinéfila particular: É impossível não ficar chocado com os desdobramentos traumáticos da seqüência conhecida por “A Morsa e O Carpinteiro”, inclusive por que, em se tratando de uma obra de Walt Disney, não é esperado que a animação faça jus ao fatalismo inesperado desse segmento. E ele o faz –esse é, para mim, um dos momentos mais verdadeiramente horripilantes desse desenho!
Muitos vêem nesse filme uma analogia aos delírios lisérgicos de alucinógenos dos anos 1960 de então, não obstante a essa proposital ou não referência à contracultura (e ela faz um enorme sentido!), os Estúdios Disney realmente entregam aqui seu mais psicodélico trabalho.

Alice In Wonderland (1966)
Uma obra britânica (como também o era a primeira adaptação, uma curta-metragem em live-action, ainda na época do cinema mudo, em 1933), este “Alice...” foi dirigido por Jonathan Miller, contava com um elenco bastante conhecido (John Gielgud como Mock Turtle, Peter Sellers como Rei de Copas e por aí vai) e fazia parte de uma série inglesa que explorava contos clássicos –se for levar em conta todas as produções também televisivas sobre Alice, esta lista ficaria grande demais, por isso colocarei apenas esta como uma espécie de “representante” das obras feitas para TV, e porque esta versão tem uma característica bastante interessante.
Aqui, a Alice, interpretada pela jovem Anne-Marie Mallik, difere das outras em face do ressaltado tom sombrio com o qual reage aos acontecimentos; tanto que chega quase a oprimir alguns dos coadjuvantes! É uma Alice mais selvagem, mais difícil, o quê contribui para a visão pouco ortodoxa do diretor: Em vários momentos, Miller quer transformar sua obra num filme de terror (auxiliado pela extremamente lúgubre fotografia em preto e branco), inclusive mantendo a humanidade de muitos personagens –não há maquiagem ou figurino que transforma o elenco em criaturas surreais, por exemplo, o quê lhe confere amedrontadora discrição –porém, as ocasionais inserções de absurdo –inerentes ao conto de Carroll –transformam este trabalho quase num precursor dos filmes estranhos, enigmáticos e assustadoramente oníricos de David Lynch.

Alice’s Adventures In Wonderland (1972)
Outra obra inglesa, desta vez um musical cuja narrativa parece estabelecer um vínculo artístico entre este filme e o clássico de 1939, “O Mágico de Oz”, são muitas as similaridades, sobretudo na tentativa de atribuir pequenas narrativas e motivações aos personagens coadjuvantes que orbitam Alice, no prólogo que estabelece uma situação mais distinta (e que vale-se de um ator vivendo o próprio Lewis Carroll), num aproveitamento algo irregular do segundo livro (“Alice Através do Espelho”) e ,sobretudo, na inserção de seqüências cantaroladas pelos intérpretes –embora esse recurso apareça, aqui, com certa timidez.
Este filme ganhou o prêmio BAFTA de Melhor Figurino e Melhor Direção de Fotografia.
Curiosidade: Peter Sellers, que no filme de 1966 fez o Rei de Copas, neste daqui interpreta a Lebre de Março!

Alice No País das Maravilhas Eróticas (1976)
Uma hora teria de acontecer: Eis que uma versão pornográfica (e musical!) foi realizada do conto de Lewis Carroll –é claro que, sendo assim, não há como avaliar este filme da mesma forma que é feito com obras convencionais de cinema.
Há nele uma atmosfera de libertinagem e psicodelismo muito típica da década de 1970 –fazendo-o remeter em muitos momentos o clássico “Garganta Profunda” –no papel de Alice, a atriz Kristine DeBell se mostra desinibida em cenas que reinterpretam as segundas intenções presentes na obra –são inúmeras, por exemplo, as cenas de lesbianismo deste filme. Vale lembrar que Lewis Carroll, e seu conto clássico, sempre foram vistos por um prisma reprovador: Ele alimentou por muito tempo um desejo ardente pela menina chamada Alice (menor de idade, diga-se) que veio a desposar e teria o inspirado a criar a personagem e suas histórias, fato que atribui uma natureza de pedofilia na forma com que muitos vêem o livro.
Todavia, as atrizes deste filme (e protagonistas de muitas cenas de nudez e sexo explícito), são todas perfeitamente maiores de idade.
É claro que houveram muitas outras versões eróticas de “Alice...” –incluindo uma estrelada por Sasha Grey –mas, vamos nos ater somente à esta...

Alice Ou A Última Fuga (1977)
Vem da França uma das mais interessantes e diversificadas versões do clássico.
O diretor Claude Chabrol deposita aqui muitas de suas inquietações existenciais de nível íntimo (muito parecido com o que certamente Lewis Carroll um dia fez com seu livro), ao transpor a trama para um contexto de tal forma radical que muitos não enxergam nele uma adaptação –nem tampouco uma relação com o material.
Mas, atentemos aos pequenos detalhes: A curvilínea e excitante Sylvia Kristel (em alta com o sucesso de “Emmanuelle”, mas justamente por isso tentando projetos insólitos como este a fim de escapar da enorme sombra daquele personagem) interpreta uma personagem chamada Alice Carroll (!).
Quando o filme se inicia ela abandona o marido (seria ele o próprio Lewis Carroll, e essa protagonista, na visão idiossincrática de Chabrol, a Alice original que inspirou o conto, a atuar numa versão alternativa?), e abandona também a vida matrimonial burguesa que tinha fugindo de carro por uma estrada afora. Isso a leva até um estranho hotel a beira de estrada onde ela se vê obriga a pernoitar quando seu carro enguiça –na verdade, apenas estraga o limpador de pára-brisa.
Os personagens e situações surreais, com os quais ela irá se cruzar, agregam uma relação ocasionalmente sutil com o livro de Lewis Carroll, embora o estranhamento da premissa e, em especial, do clima suscitado (que lembra uma síntese irregular entre Buñuel e Hitchcock) tenha diretamente a ver com “Alice No País das Maravilhas”.
Ah, sim: Os fãs não precisam ficar decepcionados, o filme tem, de fato, uma belíssima cena de nudez de Sylvia Kristel!

O Estranho Mundo de Alice (1982)
A década de 1980 foi prolífica em trabalhos que buscaram capturar a característica ímpar de dramaticidade macabra da obra de Lewis Carroll. Lá surgiram obras como este inusitado musical, quase um média-metragem (apenas oitenta e dois minutos de duração), que já era raro na época das fitas de VHS.
Nele, Alice é uma jovem que desmaia num parque ao ver um homem prestes a ser baleado. Ao despertar, ela é acudida pelo mesmo homem. À medida que o filme avança, ele revela-se uma figura estranha que, ao longo dos dias cruza-se com ela de forma aparentemente casual, não deixando, contudo, de assediá-la.
Falho em relação à sua coreografia (e a outros quesitos no que tange ao gênero musical) esta modernização do conto, transposta para um ambiente urbano, possui elementos ora curiosos e originais (Susannah York como a Rainha de Copas e Jean-Pierre Cassel como o Coelho Branco), ora tolos e equivocados (um tom entre o sombrio e o fatalista, e a descontração do musical que nunca se harmoniza de fato).

Alice (1988)
Uma realização tcheca, dirigida por Jan Svankmajer, esta é uma das obras mais desiguais à abordar o conto de Carroll –especializado em animação, Svankmajer cerca sua protagonista, a pequena Kristyna Kohoutová, por efeitos práticos animados em stop-motion, que dão uma atmosfera de surreal estranhamento e opressão, extremamente apropriada à natureza distorcida que o trabalho de Carroll sempre demonstrou em relação aos outros contos de fadas clássicos. Para tornar a experiência ainda mais intrigante e desconcertante, o diretor Svankmajer quebra a linguagem narrativa (difícil dizer se é deliberado ou se é fruto de uma certa inexperiência) com inserções inusitadas e inesperadas que desestabilizam o sossego do expectador. Inevitavelmente, um cult-movie com todas as letras!

Alice No País das Maravilhas (1999)
A década de 1990 se encerrou dando sua própria contribuição ao roll de adaptações de Lewis Carroll com esta obra de Nick Willing que tem lá seus méritos: Ele quebra algumas das convenções que surgiram referentes à adaptações a partir da animação da Disney, como por exemplo, a Alice predominantemente loira –a intérprete aqui é a menina de cabelos escuros, Tina Majorino, uma das estrelas-mirins do período, mas que marcou presença em produções problemáticas como “Waterworld-O Segredo das Águas”.
O elenco, por sinal, é um espetáculo à parte: Whoopi Goldberg como o Gato Sorrdente, Ben Kingsley como a Lagarta, Gene Wilder como Mock Turtle, Christopher Loyd como o Cavaleiro Branco, Martin Short como o Chapeleiro Maluco, Miranda Richardson como a Rainha de Copas, Peter Ustinov como a Morsa e Peter Postlethwaite como o carpinteiro (!).
A seu favor, este filme tem um ritmo dinâmico imposto pela direção e uma considerável fidelidade ao livro que o distingue entre as adaptações, contra ele o fato de ser disperso e exceder as duas horas de duração.

Alice No País das Maravilhas (2010)
Se o “Alice...” de Walt Disney é considerada a versão mais famosa do conto, para os expectadores jovens, isso não chega a ser verdade: A maioria deles reconhece com muito mais facilidade esta nova versão, dirigida por Tim Burton, com seu astro-fetiche, Johnny Depp (no papel de um esquizofrênico Chapeleiro Maluco), que pegou carona na onda de filmes em 3D, inaugurada por “Avatar” no ano anterior, e cuja boa bilheteria praticamente deu o estopim às versões live-action dos clássicos animados da Disney, o quê levou à realização de “Malévola”, “Cinderella”, “Mogli-O Menino Lobo” e outros.
Ao contrário dessas produções que o sucederam este filme é, de uma certa forma, uma espécie de continuação do clássico animado Disney, onde Burton abandona a animação para conceber uma encenação real povoada por efeitos visuais de última geração –e francamente capazes de encher os olhos! Seu pecado, contudo, é (para o espanto de quem esperava um filme de Tim Burton nos moldes de seus trabalhos sombrios da primeira fase de sua carreira) a suavização dos elementos sombrios que conferiam personalidade ao conto, e a conseqüente distorção de muitos conceitos embutidos nos personagens (que foram muito mais respeitados por obras anteriores que não tinham o mesmo requinte desta daqui), o quê aproxima este novo “Alice...” do convencionalismo de outros contos de fadas já adaptados para o cinema.
Dessa forma, encontramos Alice crescida (interpretada com alguma ênfase por Mia Wasikowska), quase uma mulher, quando está prestes a responder a um pedido de casamento de um pretendente desajeitado que mal conhece. Durante a constrangedora cerimônia em que seria anunciado o seu noivado, a moça persegue, intrigada, um coelho branco pelo jardim, e acaba por atravessar um portal que a leva ao inusitado País das Maravilhas, povoado por criaturas nunca menos que estranhas como o Chapeleiro Maluco, o Gato Sorridente, e outros. Todos seres que ela julgava ter visto em sonhos que a assombravam desde pequena, quando na verdade, ela já havia estado lá a muito tempo atrás. A chegada de Alice é recebida como um sinal de que a insurreição desses personagens contra a tirânica Rainha Vermelha (obcecada em arrancar a cabeça de todos os seus desafetos) pode estar próxima do fim.
Na frustrante reinterpretação de Burton (muito mais desanimadora do que de fato parece), a loucura atribuída aos personagens desmiolados de Carroll nada mais é do que um ímpeto revolucionário contra o sistema vigente –e o diretor coroa sua descaracterização dos conceitos de Lewis Carroll encerrando seu filme com uma batalha campal no pior estilo “Crônicas de Nárnia”.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Muito Além do Jardim

Sempre um artista talentoso, empenhado e versátil, Peter Sellers ressentiu-se durante muito tempo pelo fato de ser visto, por público e crítica, sob a restritiva pecha de grande comediante; a despeito do avassalador sucesso da série “A Pantera Cor-de-Rosa”.
Para ele, poucas foram as chances reais de mostrar suas variadas capacidades interpretativas, como em “Doutor Fantástico”, de Kubrick, onde ele interpretou cerca de cinco diferentes personagens, e pelo qual conquistou sua primeira das duas únicas indicações ao Oscar de sua carreira.
A segunda indicação veio pelo protagonista dramático de “Muito Além do Jardim”, cuja produção foi um esforço esmerado de Seller –e sua viabilização só se tornou possível graças ao seu status de astro.
Numa atuação composta de silêncios e olhares de desamparo, Sellers é Chance, um humilde jardineiro que sofre de ligeiro retardo mental, o quê não o impediu de servir muito bem seu patrão a vida toda. Sua rotina consistia em cuidar do jardim de dia e assistir TV à noite, até que seu patrão veio a falecer, obrigando Chance a encarar o mundo que existia do lado de fora da casa onde sempre morou (em uma referência tipicamente anos 1970, com o personagem dando os primeiros passos para fora da casa ao som de “Assim Falou Zaratustra”, de “2001”, numa inapropriada versão discoteque).
É aí que Chance acaba sendo confundido com seu finado patrão por um grupo de burgueses –a confusão é bastante plausível, uma vez que o patrão chamava-se Chauncey Gardiner, e ele apresenta-se sempre como “Chance, the gardner –jardineiro em inglês”, contudo o trocadilho se mostra intraduzível em português.
Tomado como ricaço proeminente e culto, o jardineiro Chance diz aos outros apenas aquilo que ele sabe (essencialmente, jardinagem) e que ouviu na TV, mas as pessoas, aparentemente incapazes de prestar um pouco mais de atenção (exceto por um humilde mordomo que próximo do desfecho percebe tudo), interpretam suas afirmações aleatórias como se fossem pensamentos absolutamente refinados e inteligentes sobre os assuntos discutidos (embora essa jogada constante do roteiro soe, sobretudo hoje, como uma atroz inocência da parte dos realizadores), o quê acabam elevando a reputação de Chance a ponto dele ser cogitado, no final do filme, como candidato à presidência dos EUA.
A cena final –não creio que isso acarrete spoiler já que este é um filme sem maiores reviravoltas –mostra Chance caminhado gaiatamente sobre um rio, numa quase paródia bíblica do enaltecimento desmedido que os pouco perspicazes fizeram dele. Pode sugerir também –como alguns estipularam –o desaparecimento de Chance em meio às águas, deixando para trás uma legião de pobres e deslumbrados enganados.
As interpretações e deduções para tal metáfora (inclusive a espinhosa crítica à devoção religiosa) ficam –para fins de evitar controvérsia –à cargo exclusivo do expectador, mas à época, ninguém do público polemizou o filme por isso, encantados que estavam com o belo e diferenciado trabalho de um Peter Sellers, sereno e austero, longe dos trejeitos cômicos de seu mais famoso personagem, o inspetor Clousot.