quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Espantalho


 
Fruto das influências diversas e pertinentes do cinema dos anos 1970, “Espantalho” – ou “Scarecrow” no original – ganhou a Palma de Ouro em Cannes ostentando uma introspecção que mesmo naqueles tempos já era pouco usual no cinema norte-americano, e trazendo, em seu elenco, dois talentosos intérpretes cuja união em cena atiçaria a imaginação de qualquer cinéfilo: Al Pacino e Gene Hackman.

Pacino havia se convertido, de um desconhecido ator ítalo-americano e um dos grandes astros do momento graças à “O Poderoso Chefão”; Hackman, vindo de sucesso como “Bonnie & Clyde-Uma Rajada de Balas” e “Operação França” (no qual ganhou o Oscar 1972 de Melhor Ator), era também ele um dos atores mais requisitados de então.

Juntos, eles dão vida a dois andarilhos desamparados numa América inclemente, indiferente e cruel aos dramas alheios, concebida pela dramaturgia árida do diretor Jerry Schatzberg como um lugar amargurado onde as assim chamadas ‘oportunidades’ são reservadas a poucos felizardos.

Os dois se encontram numa estrada deserto no Norte da Califórnia. Na dinâmica que logo constroem ao consolidar sua amizade, Max (Hackman), recém-saído da prisão, é o grandalhão apático, carrancudo, potencialmente violento e de poucas palavras; já, o marinheiro Lion (Pacino), de volta aos EUA após seis anos em alto-mar, é falastrão, feliz e ingênuo, e com seu jeito contorna (ou tenta contornar) muitos dos entraves que a rispidez do companheiro lhe proporciona.

Nas atuações brilhantes de ambos, os dois protagonistas têm mais a revelar – em sua triste trajetória de desilusão – do que dão a entender suas superfícies: Lion ostenta animação e felicidade, mas, em grande medida, isso tudo é uma fachada para angústias profundas e insondáveis – e que muito dizem respeito à distância que ele, sem querer, manteve do filho que nunca conheceu. Max em sua truculência e falta de tato pode ser incapaz de oferecer conforto para o amigo ou para qualquer um, mas quando, já perto do fim, uma celeuma incontornável se abate sobre Lion, ele é o único ali a permanecer firme para ampará-lo.

Antenado aos conceitos revolucionários da Nova Hollywood, o diretor Schatzberg usa a premissa simples, objetiva e direta presente no roteiro escrito por Gary Michael White para colocar em foco as mazelas sociais de uma América que normalmente não surgia nas telas de cinema, mas que ironicamente começava a ganhar cada vez mais o centro de produções voltadas para o cidadão comum.

Uma pena que o resultado notável de “Scarecrow” não tenha sido, dentro da filmografia de Schatzberg, uma constante (ele realizou poucos filmes mais expressivos além deste, restringindo-se a obras como “Honeysuckle Rose”, com Willie Nelson, e “A Vida Íntima de Um Político”, com Meryl Streep), e nem tampouco no panorama exuberante do cinema norte-americano dos anos 1970  em geral – tão povoado de títulos relevantes, ambiciosos e ressonantes foi aquela década que, mesmo a Palma de Ouro em Cannes, não bastou para que “Scarecrow” entrasse para a crônica como uma grande produção do período, sofrendo com o passar dos anos uma súbita e inesperada obscuridade.

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