Fruto das influências diversas e pertinentes do cinema dos anos 1970, “Espantalho” – ou “Scarecrow” no original – ganhou a Palma de Ouro em Cannes ostentando uma introspecção que mesmo naqueles tempos já era pouco usual no cinema norte-americano, e trazendo, em seu elenco, dois talentosos intérpretes cuja união em cena atiçaria a imaginação de qualquer cinéfilo: Al Pacino e Gene Hackman.
Pacino havia se convertido, de um desconhecido
ator ítalo-americano e um dos grandes astros do momento graças à “O Poderoso Chefão”; Hackman, vindo de sucesso como “Bonnie & Clyde-Uma Rajada
de Balas” e “Operação França” (no qual ganhou o Oscar 1972 de
Melhor Ator), era também ele um dos atores mais requisitados de então.
Juntos, eles dão vida a dois andarilhos
desamparados numa América inclemente, indiferente e cruel aos dramas alheios,
concebida pela dramaturgia árida do diretor Jerry Schatzberg como um lugar
amargurado onde as assim chamadas ‘oportunidades’ são reservadas a poucos
felizardos.
Os dois se encontram numa estrada deserto no
Norte da Califórnia. Na dinâmica que logo constroem ao consolidar sua amizade,
Max (Hackman), recém-saído da prisão, é o grandalhão apático, carrancudo,
potencialmente violento e de poucas palavras; já, o marinheiro Lion (Pacino),
de volta aos EUA após seis anos em alto-mar, é falastrão, feliz e ingênuo, e
com seu jeito contorna (ou tenta contornar) muitos dos entraves que a rispidez
do companheiro lhe proporciona.
Nas atuações brilhantes de ambos, os dois
protagonistas têm mais a revelar – em sua triste trajetória de desilusão – do
que dão a entender suas superfícies: Lion ostenta animação e felicidade, mas,
em grande medida, isso tudo é uma fachada para angústias profundas e
insondáveis – e que muito dizem respeito à distância que ele, sem querer,
manteve do filho que nunca conheceu. Max em sua truculência e falta de tato
pode ser incapaz de oferecer conforto para o amigo ou para qualquer um, mas
quando, já perto do fim, uma celeuma incontornável se abate sobre Lion, ele é o
único ali a permanecer firme para ampará-lo.
Antenado aos conceitos revolucionários da Nova
Hollywood, o diretor Schatzberg usa a premissa simples, objetiva e direta
presente no roteiro escrito por Gary Michael White para colocar em foco as
mazelas sociais de uma América que normalmente não surgia nas telas de cinema,
mas que ironicamente começava a ganhar cada vez mais o centro de produções
voltadas para o cidadão comum.

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