Narrado por Jodie Foster, este documentário produzido pela Netflix e dirigido por Morgan Nevile observa os acontecimentos de ordem social, política e existencial que cercaram os EUA naquele ano específico colocando em pauta os reflexos dessas mudanças nos filmes lançados em cinema na época, e até algumas séries que passaram na TV.
A verdade é que 1975 foi um ano no qual
convergiram diversos tópicos que a América vinha enfrentando e que, naqueles
anos, mudaram radicalmente a sociedade; nunca transformações de valores e de
comportamentos se sucederam num período tão curto de tempo – e isso tudo
refletiu-se num período de turbulência, onde o povo norte-americano se viu tão
perdido quanto desiludido.
E, à sua maneira, tudo isso se refletiu no
cinema.
Se havia um ator que parecia encapsular a efervescência
desses novos tempos, esse ator era Jack Nicholson. Revelado anos antes em “Sem
Destino” – um dos tantos filmes que contribuiu para uma nova visão dos EUA – Nicholson,
logo alçado à condição de astro, se encontrava presente em três obras ressonantes
para o público e a crítica: O inconformista “A Última Missão” (cujas
características representavam bem a postura questionadora da Nova Hollywood de
então), o fenomenal “Chinatown” (que, embora fosse um neo-noir passado nos anos 1950, ostentava uma melancolia
emblemática na qual as plateias identificavam as tramas arrojadas de então,
onde a justiça não era capaz de prevalecer sobre certas facetas da vilania) e o
brilhante “Um Estranho No Ninho” (uma
audaz produção que mostrava um abusador confinado num manicômio e encontrando
todo o tipo de aborrecimento ao tentar colidir com as regras vigentes; por
sinal, o filme premiado com o Oscar no início do ano seguinte).
Os EUA estavam ainda a processar os traumas do
Escândalo de Watergate e da Guerra do Vietnam. Do primeiro, surgiu o magnífico
“Todos Os Homens do Presidente”, de Alan J. Pakula, no qual os repórteres Bob Woodward
e Carl Bernstein (Robert Redford e Dustin Hoffman) desmascaravam as tramoias do
presidente Richard Nixon – as paranoias e o medo de confiar em demasia nas
instituições haviam contaminado o cidadão norte-americano e isso era mostrado
em filmes como “Três Dias do Condor”, de Sydney Pollack (também com
participação de Redford) e no formidável “A Conversação”, de Francis Ford
Coppola.
Já o trauma do Vietman ainda demoraria para
começar a render produções de cinema: O primeiro filme sobre o Vietnam, “Os
Boinas-Verdes”, de 1968, com John Wayne, havia sido execrado pela opinião
pública por sua iludida e irreal postura pró-governo. No entanto, falava-se
sobre o Vietnam (ainda que alegoricamente) em obras como “M.A.S.H.”, a série de
TV baseada no filme de 1970 (cujo roteiro disfarçava com uma nada convincente
ambientação na Guerra da Coréia), e no pungente “Taxi Driver”, de Martin
Scorsese (nele, Travis Birckle, um ex-combatente do Vietnam, é um indivíduo
cujas neuroses se acumulam e culminam na violenta busca por redenção
simbolizada na personagem de uma ainda jovem Jodie Foster e na catarse
sangrenta que termina sendo sua cena final).
O presidente norte-americano que ocupou o lugar
deixado por Nixon, Gerard Ford, não revelou-se alguém capaz de corresponder aos
anseios norte-americanos, abrindo assim as portas para a ascensão da campanha
do republicano Ronald Reagan, que não surtiu efeito imediato nas eleições do
ano seguinte, mas resultou em sua candidatura nos anos 1980.
Muitos ideais atingiram um ápice de desilusão
crônica: A luta pelos direitos civis que, pelo menos na cultura pop levou aos
filmes da blaxploitation e ao
estrelado do indomável comediante Richard Pryor, encontrava seus extertores em
comentários carregados de certo cinismo na série de TV “Família Às Avessas” –logo
depois, a mesma TV começou a investir na nostalgia com a série “Dias Felizes”,
uma prática que dentro em breve, chegaria ao cinema. Este, ainda buscava a
relevância das novas configurações sociais e familiares, como é o caso de
“Alice Não Mora Mais Aqui”, um emblemático estudo da situação da mulher
naqueles novos tempos, dirigido também por Martin Scorsese, que do alto de seus
oitenta e poucos anos aparece prestando seus depoimentos.
Até mesmo a ficção científica trazia um
registro futurista visando comentar o presente: O estranho suspense “Mulheres
Perfeitas” que logo dá espaço para um pesadelo tecnológico onde as mulheres
eram substituídas por seres automatizados.
Houve em 1975, a audácia narrativa de
“Nashville” (um mergulho numa América fragmentada e perdida), a onda dos
filmes-catástrofes “Inferno Na Torre” e “O Destino do Poseidon” (reflexos de um
pavor recorrente onde o americano médio não sentia-se mais seguro), o magistral
e contundente “Rede de Intrigas” (uma observação demolidora e honesta de toda a
indignação do público) e o pulsante “Um Dia de Cão” (sobre um sequestro num
assalto à banco que expunha as inversões de valores acarretadas por
insatisfação política e causas sociais falidas).

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